quinta-feira, março 08, 2018

BIG LITTLE LIES

Em determinado momento de BIG LITTLE LIES (2017), Madeline (Reese Witherspoon) conversa com a amiga Celeste (Nicole Kidman), ao telefone, dando a entender que Celeste tem uma vida perfeita, é casada com um homem bom, rico e bonito e tem filhos gêmeos perfeitos. Celeste, que convive com a violência doméstica diariamente, diz, frustrada, que sua vida não é perfeita, que tem passado por coisas ruins também. O marido, vivido por um aterrorizante Alexander Skarsgård, está ali perto, e pergunta à esposa, em tom ameaçador, o que seriam as tais coisas ruins que ela comenta com a amiga.

A princípio, BIG LITTLE LIES pode incomodar um pouco por mostrar a rotina de dondocas ricas vivendo na bela cidade litorânea de Monterey, na Califórnia. Mas é fácil se solidarizar com seus dramas, se importar cada vez mais com ela, mesmo os de Madeline, a dondoca-mor da comunidade, que vive ainda enciumada do ex, fazendo com que o novo marido se sinta rejeitado, por mais companheiro que ele seja.

Jane, a personagem de Shailene Woodley, é nova na cidade, e logo sabemos que seu drama é o mais perturbador: ela tem um filho nascido de um estupro. E já no primeiro dia de escola seu garotinho é acusado de ter agredido uma menina, filha de uma das mulheres mais influentes da cidade, Renata Klein (Laura Dern). O menino não sabe quem é o pai e tem muita curiosidade em saber suas origens.

Deu para perceber que BIG LITTLE LIES tem como principal tema a questão da violência doméstica. Mas a abordagem que o criador e roteirista David E. Kelley usa faz toda a diferença. Os créditos de abertura são lindos, apresentando apenas as personagens femininas dirigindo seus carros com seus filhos pequenos no banco traseiro. Mulheres e crianças são os grandes protagonistas dessa história. Mesmo Laura Dern desempenhando uma espécie de megera na trama, a série trata de mostrar a sororidade entre as personagens de modo tocante.

A série começa com um crime que é deixado em aberto até o final. E talvez a questão do crime seja um pouco o calcanhar de Aquiles desta temporada de BIG LITTLE LIES (inicialmente pensada como minissérie, mas que foi renovada por mais um ano). Isso acontece porque vários personagens que não desempenham papéis importantes, moradores de Monterey e supostas testemunhas dos atos das protagonistas, falam sobre o que viram e que poderia ter sido um dos motivos de a tal morte ter acontecido. Mas até isso funciona bem no final.

BIG LITTLE LIES ganhou quatro prêmios no Globo de Ouro: melhor minissérie, melhor atriz (Nicole Kidman), melhor ator coadjuvante (Alexander Skarsgård) e melhor atriz coadjuvante (Laura Dern).

segunda-feira, março 05, 2018

OSCAR 2018

Foi uma das premiações mais caretas em muitos anos. Não foi chata como a do ano passado, mas também não houve nenhum plot twist tão memorável. E nem poderia ter. Na verdade, o que mais se gostaria de ver era uma continuação ainda mais forte daquilo que foi bastante colocado na pauta do Globo de Ouro. Mas o tom de protesto já havia sido diminuído no tapete vermelho, com várias das estrelas vestidas de branco.

O discurso sobre as minorias não deixou de estar presente aqui e ali, porém. Desde a apresentação do host Jimmy Kimmel, que fez piada até com o fato de existir um filme chamado DO QUE AS MULHERES GOSTAM, estrelado por Mel Gibson, ou sobre o Oscar ser um sujeito de confiança por não ter um pênis. A ausência e quase apagamento de Casey Affleck por causa das acusações de assédio também deram o tom. Ele foi substituído por Jodie Foster e Jennifer Lawrence. Acabou rendendo uma das melhores piadas da noite, fazendo referência a EU, TONYA.

Quanto às premiações, houve poucas surpresas. Talvez só a de melhor documentário, que não foi para VISAGES, VILLAGES, mas para ÍCARO. Quanto ao prêmio principal, este era o mais esperado e o que mais estava rendendo várias possibilidades. O que foi algo bom. Existiu, por alguns momentos, a chance de CORRA! levar o prêmio principal, depois de ter ganhado melhor roteiro. Mas talvez isso fosse demais para Hollywood.

Ganhou Guillermo del Toro com um filme que atira para todos os lados e conseguiu agradar a muitos, inclusive trazendo em seu discurso a luta pelo fim dos muros separando as fronteiras. O fato de UMA MULHER FANTÁSTICA ter ganhado melhor filme e a atriz trans Daniela Vega ter subido ao palco para apresentar melhor a canção de ME CHAME PELO SEU NOME pareceu também muito feliz por parte dos organizadores.

Pode-se dizer que foi tudo muito bem pensado. Mas, justamente por isso, faltou tensão, faltou enfrentamento. Mas isso se deveu muito ao fato de o Oscar so white da edição de 2016 ter resultado em boa diversidade neste ano. Inclusive com a presença de Greta Gerwig concorrendo na direção e de uma primeira mulher na disputa de melhor diretora de fotografia na história da premiação. Ela perdeu para Roger Deakins, de BLADE RUNNER 2049, mas perder para um cara como esses chega a ser glorioso.

No mais, as piadas foram legais, ainda que bem tranquilas e comportadas, como a do jet ski, a da maconha e a brincadeira dos atores e o apresentador chegando de surpresa em uma sala de cinema ali pertinho. Deu vontade de estar lá.



Os Premiados

Melhor Filme – A FORMA DA ÁGUA
Direção – Guillermo del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Ator – Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Atriz – Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Ator Coadjuvante – Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Atriz Coadjuvante – Allison Janney (EU, TONYA)
Roteiro Original – CORRA!
Roteiro Adaptado – ME CHAME PELO SEU NOME
Fotografia – BLADE RUNNER 2049
Montagem – DUNKIRK
Trilha Sonora Original – A FORMA DA ÁGUA
Canção Original - "Remember me", de VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Mixagem de Som – DUNKIRK
Edição de Som – DUNKIRK
Efeitos Visuais – BLADE RUNNER 2049
Design de produção – A FORMA DA ÁGUA
Figurino – TRAMA FANTASMA
Maquiagem e cabelos – O DESTINO DE UMA NAÇÃO
Filme Estrangeiro – UMA MULHER FANTÁSTICA (Chile)
Longa de Animação – VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Curta de Animação – DEAR BASKETBALL
Curta-metragem – THE SILENT CHILD
Documentário – ÍCARO
Curta Documentário – HEAVEN IS A TRAFFIC ON THE 405


domingo, março 04, 2018

THE POST - A GUERRA SECRETA (The Post)

Steven Spielberg tem um especial interesse pela História dos Estados Unidos desde criança. De acordo com o que ele mesmo diz no documentário SPIELBERG, de Susan Lacy, seus primeiros curtas experimentais foram sobre a Segunda Guerra Mundial, especialmente sobre situações envolvendo os aviões. Não por acaso, sua primeira experimentação profissional com a guerra foi em uma comédia, 1941 - UMA GUERRA MUITO LOUCA (1979). Só anos depois ele se atreveu a fazer um filme "sério" sobre a guerra, O IMPÉRIO DO SOL (1987), o primeiro de vários.

THE POST - A GUERRA SECRETA (2017) não é sobre a guerra, não a guerra que ele tanto prefere citar em suas obras, talvez por ser a guerra mais honrada dos americanos, mas, como o próprio título brasileiro diz, sobre uma guerra secreta, uma guerra acontecendo nos bastidores, em um momento em que os Estados Unidos estavam sob a mão de um presidente vilão. Não à toa, este filme chega em um momento em que o país está sendo governado por Donald Trump, um motivo e tanto para que Hollywood volte a ser tão politizada quanto foi nos anos 1970.

E chegamos em 1971, ano em que se passa a história de THE POST, quando repórteres do jornal The Washington Post, em especial Ben Bradlee (Tom Hanks), tentam a todo custo conseguir um furo e acabam descobrindo algo muito podre no governo de Richard Nixon. Na verdade, o tal furo foi conseguido de mãos beijadas por uma anônima, que distribuiu documentos secretos que incriminavam o Governo, que mentiu muito sobre a Guerra do Vietnã.

A semelhança de THE POST com o oscarizado SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy, é talvez só o caráter investigativo e uma visão mais gloriosa do jornalismo, embora, surpreendentemente, Spielberg consiga criar uma figura cínica do personagem de Hanks, e uma posição relativamente heroica da publisher Kay Graham, vivida por Meryl Streep. Não deixa de ser um alívio, levando em consideração que ele poderia ir pelo caminho fácil do bem contra o mal, pintando seus heróis com imagens essencialmente puras.

Outra vantagem de THE POST em relação ao filme que levou o Oscar é que Spielberg é muito mais cineasta, e isso transparece lindamente nas cenas em que sua câmera passeia pelos ambientes físicos do jornal, como nas reuniões, e nos vários planos-sequência. Há muito verbalismo sim, mas a palavra aqui é importante. E é interessante perceber que o cineasta não nos introduz tão facilmente ao enredo. É preciso prestar atenção para ir se acostumando e entendendo o ambiente e a situação, para depois se ver engolfado no suspense crescente da trama.

Além de contar com Streep e Hanks, há um elenco de apoio excepcional em THE POST: Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts (que, aliás, está em LADY BIRD também), Bruce Greenwood, Alison Brie, Bradley Whitford, Jesse Plemons. Um elenco grandioso que, compreensivelmente, é mal utilizado, em prol da trama. Um cineasta do porte de Spielberg pode se dar a esse luxo e aqui entrega seu melhor trabalho desde MUNIQUE (2005). Vale destacar também a 17ª parceria com o excelente diretor de fotografia Janusz Kaminski, que tem trabalhado com Spielberg desde A LISTA DE SCHINDLER (1993).

THE POST - A GUERRA SECRETA recebeu apenas duas indicações ao Oscar: filme e atriz (Meryl Streep).

quinta-feira, março 01, 2018

QUATRO TÍTULOS INDICADOS AO OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO

É uma sorte quando o circuito exibidor dá espaço a todos os títulos indicados à categoria de filme em língua estrangeira no Oscar, como aconteceu neste ano. Mas essa sorte está associada, principalmente, ao fato de esses filmes terem sido vencedores nos principais festivais internacionais (Cannes, Berlim, Veneza). Seria este um fenômeno novo esse? Que eu me lembre, antes os indicados a esta categoria não estavam tão associados assim aos prêmios dos festivais. Pode ser positivo isso, embora os festivais não tenham acertado muito bem em suas escolhas.

THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (The Square)

O diretor Ruben Östlund ficou lembrado por um vídeo que ele, com muito bom humor, disponibilizou de sua revolta ao não ter sido indicado ao Oscar por FORÇA MAIOR (2014), um filme com ambições menores, mas bem melhor resolvido que este THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (2017), vencedor da Palma de Ouro em Cannes e representante da Suécia no Oscar. O novo trabalho de Östlund é gostoso de ver, tem uma beleza plástica agradável aos olhos, mas parece superficial por atirar para todos os lados. É ao mesmo tempo uma crítica à arte considerada nobre e também quer ser humanista, ao colocar seus personagens em posição de vergonha por seus atos. Apesar de relativamente longo em sua duração, a narrativa é bem conduzida, especialmente nas cenas envolvendo o assalto. Já a presença de Elisabeth Moss, embora sempre bem-vinda, pareceu desperdiçada em um papel pequeno. Mas gosto da cena da camisinha.

CORPO E ALMA (Teströl és lélekröl)

O filme da diretora Ildikó Enyedi conquistou o Urso de Ouro em Berlim e indicação ao Oscar pela Hungria. CORPO E ALMA (2017) chama a atenção por ser uma variação muito boa de uma história de amor entre pessoas com algum grau de deficiência. A história se passa em um matadouro, e confesso que foi um alívio ver que só há apenas uma cena de matança de animais (simulada). Não aguentaria se houvesse mais. O filme se concentra nessa relação entre um homem com um braço paralisado e uma mulher, sua chefe, autista. A relação dos dois se dá quando eles descobrem que compartilham o mesmo sonho. No sonho, eles são dois cervos que fazem sexo. Saber disso passa a ser essencial para uma aproximação mais íntima dos dois, por mais difícil que seja. Uma das cenas finais é perturbadoramente bela.

O INSULTO (L'Insulte / Qadiat Raqm 23)

Uma pena que O INSULTO comece tão bem, até lembrando um pouco o trabalho do iraniano Asghar Farhadi, mas que tenha uma conclusão pouco satisfatória, denunciando o quão quadrado é seu roteiro e suas intenções. A primeira hora é bem boa, centrando na trama da discussão boba entre dois homens de diferentes etnias no Líbano: um deles é palestino; o outro é libanês. A briga chega a situações bem pesadas e vai parar no tribunal, quando O INSULTO ganha ares de filme de tribunal tradicional. O diretor Ziad Doueiri, de LILA DIZ (2004), não tinha até então nenhum filme exibido na cidade. O INSULTO foi vencedor do Leão de Ouro em Veneza e é representante do Líbano no Oscar.

SEM AMOR (Nelyubov)

O novo filme de Andrei Zvyagintsev é uma bela surpresa. Surpreende principalmente por ser muito mais acessível do que o anterior, LEVIATÃ (2014), uma obra muito mais complexa e lenta. SEM AMOR (2017, foto) poderia muito bem passar em uma sala de circuito mais comercial sem nenhum medo de espantar um público maior. Na trama, marido e esposa vivem um divorcio litigioso e no meio do fogo cruzado o filho dos dois, um garotinho, se sente rejeitado e desaparece. A vida dos dois passa a girar em torno da busca pelo menino. Enquanto isso, o filme vai fazendo um estudo sobre os graus de frieza e egoísmo dos personagens. A fotografia é de uma lindeza impressionante. SEM AMOR ganhou o Prêmio do Júri em Cannes 2017 e é representante da Rússia no Oscar 2017. Em minha opinião, é melhor do que THE SQUARE.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

TRAMA FANTASMA (Phantom Thread)

Não é sempre que uma experiência tão densa e tão intensa quanto ver TRAMA FANTASMA (2017) no cinema é uma opção dentro do circuito de filmes. Uma sorte Paul Thomas Anderson ter conseguido um espaço considerável dentro do cinema mainstream e seus filmes poderem ser vistos até mesmo fora dos espaços dedicados apenas a cinema alternativo. Um privilégio e tanto. Até porque o filme chega também como sendo a despedida de Daniel Day-Lewis. O ator anunciou sua aposentadoria, mas se for mesmo o fim, é um fim digno de um gigante da atuação.

Além do mais, o papel de Day-Lewis aqui é bem diferente do de SANGUE NEGRO (2007), a parceria anterior do ator com PTA. Em vez de um personagem intenso, temos na figura do costureiro Reynolds Woodcock um homem muito delicado e sensível, embora bastante dominador. Temos aqui a figura de um artista meticuloso, que não pode e naturalmente não gosta de ser incomodado em seus momentos de criação, em especial pela manhã.

O interessante de TRAMA FANTASMA é que, ao terminar a sessão, ainda ficamos sem saber direito sobre o que é o filme. Pode ser tanto uma história de amor quanto uma história de horror. As duas coisas cabem muito bem e não são excludentes. Por isso dizer que é um filme romântico não seria errôneo, já que o termo "romântico" é muito mais amplo do que muitas pessoas imaginam. O romantismo pode e é associado à morbidez, ao sofrimento, à morte e a um amor que surge das maneiras mais estranhas.

Do outro lado da balança dessa história de amor temos Alma (Vicky Krieps), uma jovem mulher que trabalha como garçonete em uma cidadezinha e é cortejada e convidada a morar com o charmoso costureiro que tem idade para ser seu pai, em Londres. Simples e humilde, Alma parece que não durará muito no esquema cruel de rejeição que o costureiro está acostumado a tratar suas musas. Em geral, ele escolhe a moça e, depois de um tempo, com a ajuda da irmã Cyrill (Lesley Manville, brilhante), trata de despedi-la.

Acontece que com Alma a coisa é um pouco diferente. Principalmente quando ela começa a tomar uma atitude mais ativa para não ser deixada de lado. Ainda que a história não seja tão importante quanto a direção é, graças ao modo muito especial com que Paul Thomas Anderson pinta com tintas muito criativas e inspiradas seu conto perverso, o mais interessante é entrar na sessão sabendo o menos possível. Surpresas são bem-vindas, assim como o estranhamento que dá a TRAMA FANTASMA o seu aspecto único.

Um dos destaques do filme é a forma como o cineasta nos coloca dentro de ambientes fechados e claustrofóbicos de modo a nos deixar inquietos, mas também maravilhados. Até mesmo a posição da câmera do lado de fora de um carro dirigido por Reynolds é inusitada. Mas o que mais vemos são ações acontecendo dentro da casa, com uma escada apertada, por onde passam as várias mulheres que trabalham para o costureiro em uma espécie de ritual para a elaboração de suas obras de arte em forma de vestidos.

TRAMA FANTASMA guarda muitas semelhanças com o cinema de Douglas Sirk, e talvez também com o de algum outro cineasta da velha Hollywood adepto do melodrama, mas o que Paul Thomas Anderson retira do cinema clássico ele transforma em algo moderno e único. Ainda que possamos entender o esqueleto da trama como sendo, de certa forma, usual, isso é um dos motivos pelos quais o filme é tão envolvente e encantador, prendendo a atenção por cada detalhes do início ao fim de sua metragem. E o que é melhor: é o tipo de obra que fica com a gente por dias e dias, tornando-se objeto de afeto e admiração crescentes.

TRAMA FANTASMA recebeu seis indicações ao Oscar: filme, direção, ator (Day-Lewis), atriz coadjuvante (Leslie Manville), figurino e trilha sonora original (Jonny Greenwood).

sábado, fevereiro 24, 2018

A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water)

Guillermo del Toro é desses cineastas do qual se pode esperar as mais diversas reações. Além de não ser uma unanimidade entre os gostos dos cinéfilos em geral, seus filmes oscilam mesmo entre aqueles que valorizam seu trabalho.

Porém, uma coisa que se percebe ao ver A FORMA DA ÁGUA (2017) é que o cineasta não tem uma sensibilidade muito apurada quando quer tratar de histórias de amor. Falta a esta história de amor entre uma zeladora muda de uma instituição militar dos anos 1960 e uma criatura capturada no Rio Amazonas uma sutileza que torne tanto o enredo quanto a caracterização dos personagens críveis e efetivamente comoventes.

Posso estar sendo um pouco cínico ao dizer isso, mas, para conquistar as mais diferentes plateias, del Toro atira para todos os lados: quer agradar as minorias (gays, mulheres negras, pessoas com deficiência), tratar de assédio sexual e mostrar uma mulher como empoderada e protagonista da ação. Além disso, quer mostrar seu amor pelo cinema com cenas que não parecem caber muito bem em seu estilo, por mais que o amor que ele sinta pela arte seja genuíno e verdadeiro. Para completar, del Toro ainda mostra que não faz concessões à indústria, trazendo cenas de nudez (frontal, inclusive) e um pouco de gore. Nada disto é pecado. De jeito nenhum. Mas a impressão que dá é que parece forçado e não espontâneo.

O filme conta a história de uma zeladora muda (Sally Hawkins) que trabalha em uma instituição secreta militar do governo americano da década de 1960. Como ela é responsável, junto com sua melhor amiga (Octavia Spencer), de limpar o local, ela descobre que uma criatura foi capturada e está presa, que essa criatura é capaz de se comunicar, e que essa mesma criatura está sofrendo violência física de um dos homens do governo, o personagem de Michael Shannon.

Aliás, por mais que o personagem de Shannon tenha as suas peculiaridades como vilão do filme, del Toro exagera um bocado na caracterização vilanesca dele, prejudicando um pouco o envolvimento do espectador na torcida pela busca da protagonista em retirar aquela criatura (por quem ela já estava apaixonada) daquele lugar. Ela lida com a missão com a ajuda do companheiro de quarto e grande amigo (Richard Jenkins).

Entre os pontos positivos do filme estão as cenas de amor entre o casal: Elisa, a mulher muda, e a criatura, vivida pelo mesmo Doug Jones que havia feito o Abe Sapien de HELLBOY (2004) e HELLBOY II - O EXÉRCITO DOURADO (2008), além de ter sido também o Fauno de O LABIRINTO DO FAUNO (2006). Podem até falar de del Toro, mas não dá para dizer que não existe uma coerência e uma marca autoral em sua obra. E não apenas por denominadores comuns e repetições como essa. Seu amor pelos monstros e pessoas marginalizadas e oprimidas já era visível. Em A FORMA DA ÁGUA isso apenas se tornou mais explícito.

Queria ter gostado mais do filme. Uma pena que não houve maior envolvimento emocional da minha parte e confesso que algumas vezes o filme me deu um pouco de sono. Em geral, as fantasias fazem isso comigo. Assim, fortalece em mim a impressão de que del Toro é um excelente diretor de arte. Isso já se notava em todos os seus trabalhos anteriores. E por causa desse aspecto um tanto mais calculista, falta maior capacidade de lidar e de passar as emoções que deseja trasmitir. Por isso prefiro seus filmes de horror sangrentos e com imagens lindas, como A COLINA ESCARLATE (2015), seu trabalho anterior.

A FORMA DA ÁGUA é o recordista de indicações ao Oscar do ano (13), concorrendo nas categorias de filme, direção, atriz (Sally Hawkins), ator coadjuvante (Richard Jenkins), atriz coadjuvante (Octavia Spencer), trilha sonora original, roteiro original, fotografia, figurino, edição de som, mixagem de som, montagem e direção de arte.

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

MOZART IN THE JUNGLE - A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Mozart in the Jungle - The Complete Fourth Season)

Estava lendo o que escrevi sobre a segunda temporada de MOZART IN THE JUNGLE e notei que eu já me incomodava um pouco com o andamento às vezes apressado demais da narrativa, para o bem e para o mal. Funciona para o bem quando alguns personagens que não nos interessam muito têm sua trama passada mais rapidamente. E o que mais importa nesta quarta temporada é mesmo a relação entre Rodrigo e Hailey.

A quarta temporada (2018) é uma continuação quase direta dos episódios finais da terceira. Ou seja, vemos tanto uma maior aproximação da jovem com o maestro Rodrigo DeSousa - que passam a assumir um namoro e a morarem juntos - quanto sua busca pela difícil carreira de maestrina. Como Rodrigo e como a própria temporada em si, tudo parece estar passando por um grande sentimento de desorientação. Rodrigo se mete em vários projetos ao mesmo tempo: além de continuar na orquestra de Nova York, assume uma orquestra infantil, aceita um projeto de reger o Réquiem de Mozart no Japão e ainda é convidado para um ousado projeto de dança - o personagem do coreógrafo é interpretado pelo cineasta John Cameron Mitchell.

E se a segunda temporada teve uma viagem maravilhosa para o México e a terceira para a Itália, estava nova temporada conta com episódios lindos passados no Japão. Aliás, arriscaria dizer que o episódio 8, intitulado "Ichi Go Ichi E", em que o casal experiencia uma espécie de ritual de um chá mágico, é de uma beleza que chega a doer na alma. Fiquei pensando sobre a questão da "falta que a falta faz" - lembrei de um livro infantil que a Companhia de Letras lançou e que achei fantástico, sobre o assunto.

Quer dizer, enquanto estamos acompanhando a rotina de namorados de Rodrigo e Hailey, sentimos falta daquele muro que os separa e que torna a relação dos dois mais atraente e apaixonante. Coisas do romantismo perverso. E por isso às vezes pensar em uma separação dos dois seria saudável para o reajustamento da série. Só nunca pensei que quer isso fosse ser tão cruel para nosso espírito.

A dor que sentimos ao final do citado episódio do chá é imensa, é a dor do coração partido, que é estendida para os demais episódios finais com uma intensidade menor, mas que ainda persiste. Aumenta a cada vez que lembramos das imagens finais do tal oitavo episódio. Amar não é fácil. Mas é muito bom poder ver uma série que nos faz lembrar que as dificuldades da vida (afetiva, profissional etc.) são um assunto de todos os mortais e que a arte e o trabalho podem muito bem servir como um consolo para nossa alma.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three Billboards Outside Ellbing, Missouri)

O irlandês Martin McDonagh já ganhou um Oscar de melhor filme: pelo curta-metragem SIX SHOOTER (2004), uma deliciosa comédia de humor negro, uma pequena obra-prima. TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (2017), seu mais novo filme, é o mais próximo que ele se aproxima de repetir o feito, desta vez numa categoria bem mais visada, a de longa-metragem. O que pode prejudicar um pouco o seu intento é que se trata do filme que mais divide opiniões dentre os nove indicados.

É fácil de entender. Afinal, em tempos como o nosso, é complicado você oferecer a um policial racista uma oportunidade de se tornar um pouco simpático ou de ganhar alguma redenção. Dizer isso, aliás, é um pouco estragar o filme para quem ainda não o viu e por isso a minha recomendação é não ler nada sobre a história de TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME. Trata-se de um filme cujas surpresas na trama são várias e excitantes, justamente por fugirem do que estávamos esperando.

O que o filme vende é a história de uma mulher que alimenta um ódio terrível devido a um fato bem justificável: a morte e estupro de sua filha adolescente. Ela tem a ideia de alugar três outdoors situados em uma rota onde passam poucos carros para reclamar do xerife da cidade (Woody Harrelson) sobre a total falta de eficiência da polícia em prender ou mesmo identificar o estuprador assassino. Pelo que ela diz, a polícia arranja tempo para bater ou torturar negros, embora isso não seja exatamente mostrado no filme, mas não tem tempo de pegar o criminosos. A personificação da polícia racista aparece na figura do personagem de Sam Rockwell.

Um dos fatos curiosos de TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME é que não há personagens que nós amemos ou criemos alguma afeição. Mesmo a heroína é muito antipática, além de preconceituosa, como podemos ver nas cenas com Peter Dinklage. Mas aí acontece algo que muda tudo: a morte do xerife e as cartas que ele deixa para algumas pessoas. As cartas, mais do que os anúncios, serão as responsáveis pelas grandes viradas na história e no modo como os personagens passam a ver a própria existência. Principalmente o policial idiota racista, que, simbolicamente, precisa passar pelas chamas do inferno para tentar buscar um caminho melhor. Ajudam também as palavras do xerife, que afirmam que ele, no fundo, é um homem bom. A cena no hospital, junto com o homem que ele havia quase matado, é uma das mais poderosas do filme.

O que confunde em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME é que McDonagh parece cínico demais para vender uma história aberta sobre redenção e perdão, próximo de um sermão cristão. Mas ao mesmo tempo parece correto de se fazer nos dias de hoje. Se fosse diferente, certamente o filme seria acusado de ser excessivamente melodramático e até anacrônico. Nos dias de hoje não temos mais um Frank Capra.

Mas temos ainda, viva e forte, a herança do cinema dos irmãos Coen, que é com quem McDonagh vem sendo comparado. A principal diferença aqui é que temos um diretor irlandês falando de algo que talvez não conheça muito, os Estados Unidos. Mas isso nunca foi exatamente um problema em Hollywood, terra de tantos estrangeiros, foi? Nem é preciso citar nomes.

Em tempos de muita raiva espalhada em todo o mundo por causa do atual cenário político e social, um filme raivoso, mas que também prega o perdão, mesmo que de uma maneira doentiamente torta e violenta, não deixa de ser bem-vindo.

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME recebeu sete indicações ao Oscar: filme, atriz (Frances McDormand), ator coadjuvante (Sam Rockwell), ator coadjuvante (Woody Harrelson), trilha sonora original, roteiro (McDonagh) e montagem.

domingo, fevereiro 18, 2018

PANTERA NEGRA (Black Panther)

Um crítico de um jornal estrangeiro disse sobre PANTERA NEGRA (2018): é um filme mais interessante para falar sobre do que para assistir. E, nesse sentido, tendo a concordar com ele. Mas não deveria ser assim. É claro que é o filme mais politizado da Marvel até então. E é talvez o mais feliz em fazer isso, ao questionar o papel de uma superpotência como Wakanda, o país (fictício) mais poderoso tecnologicamente e escondido no continente africano, que vive sob o lema: devemos ficar isolados e escondidos ou ajudar aqueles países que precisam de auxílio?

É uma cutucada e tanto nos Estados Unidos, que são um país que não ajuda: ao contrário: suga dos demais, assassina e ainda sai bem na fita, como heróis. E quem diz isso é um grupo de americanos. A ideia de Wakanda e do Pantera Negra surgiu de Stan Lee e Jack Kirby, lá nos anos 1960, quando os negros ainda eram um grupo que levava porrada da polícia a toda hora nas ruas e não podia se manifestar. Agora as coisas mudaram bastante para melhor, mas ainda há muito a melhorar, ainda há muitos casos de racismo, de neonazismo, de violência contra os negros.

Mas, por mais que filmes de super-heróis tenham adquirido um caráter político recentemente - no ano passado foi MULHER-MARAVILHA, de Patty Jenkins -, é preciso pensá-los como obras que empolguem, que nos coloquem nos sapatos de seus personagens, que façam com que nos importemos com eles, que temamos por suas vidas, com a suspensão da descrença funcionando também. É possível dizer isto de PANTERA NEGRA? Não creio. Talvez os filmes da Marvel tenham chegado em um momento em que causam muita preguiça por deixarem de ser novidade. Mas se a quantidade de espectadores estivesse diminuindo, talvez se pensasse em uma crise nesses filmes, mas isto não está acontecendo. Então, ainda veremos muitas produções de super-heróis pela frente.

Ao menos o novo filme é mais comedido, faz uma oposição a THOR - RAGNAROK, que pede risadas e gargalhadas do espectador o tempo todo. Este filme, dirigido pelo mesmo Ryan Coogler do ótimo CREED - NASCIDO PARA LUTAR (2015), entra mais em sintonia com os três filmes do Capitão América, mais sérios. Mas a impressão que fica é que há dinheiro demais envolvido. Será que dinheiro demais estraga? Afinal, foi com o orçamento milionário que conseguiram fazer de maneira tão bela Wakanda. Mas quem hoje em dia ainda se empolga com efeitos especiais? Eles apenas precisam estar lá e fazer o papel para justificar o investimento.

Comparando CREED com PANTERA NEGRA, é fácil imaginar um cineasta engessado pela estrutura e pelo estilo Marvel/Disney? Em que momento o interesse amoroso do Rei T'Challa (Chadwick Boseman) parece de fato envolvente? Em que momento ficamos de fato duvidando que o Pantera Negra voltaria para tomar o trono de volta após o confronto com o vilão Erik Killmonger (Michael B. Jordan)? Mais: as cenas de ação empolgam? Talvez as que se passam na Coreia, um pouco.

Quem pensa que filmes de super-heróis não devem se preocupar com esse tipo de coisa está errado. As melhores aventuras nos quadrinhos deixam os leitores às vezes sem fôlego. Os filmes também deveriam deixar. Nesse sentido, as produções imperfeitas da DC/Warner até tem parecido mais interessantes. Em agosto vem aí o mais ambicioso dos filmes da Marvel: VINGADORES: GUERRA INFINITA. É bom que os realizadores consigam dar conta de tantos personagens.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

TRÊS FILMES BASEADOS EM HISTÓRIAS REAIS

Recentemente vi três filmes baseados em histórias reais e acho que de certa forma eles conversam entre si. Talvez por estarem todos de alguma maneira ligados ao esporte e ao american way of life. São filmes com graus diferentes de drama e comédia como escolhas de seus realizadores.

EU, TONYA (I, Tonya)

Craig Gillespie não é exatamente um autor. Na época de A GAROTA IDEAL (2007) até chamou a atenção dentro do espaço indie, mas seus trabalhos seguintes só mostraram o quanto ele se tornou apenas um operário padrão pouco eficiente. EU, TONYA (2017) tem a vantagem de disfarçar seus problemas narrativos através do humor negro. É uma história de violência e de abusos que não leva a sério o sofrimento de suas personagens, o que pode ser encarado como algo problemático. Mas há coisas boas, como as performances de Margot Robbie e Allison Janney, filha e mãe. Um dos problemas que eu vejo é que nem sempre conseguem enfeiar Margot. Em alguns momentos, a maquiagem procura exagerar esse aspecto; em outros, parecem esquecer e lá está a atriz bela como sempre de novo. Indicado ao Oscar nas categorias de atriz, atriz coadjuvante e montagem.

GUERRA DOS SEXOS (The Battle of the Sexes)

Este filme tem um papel mais importante do que a gente imagina, até por ter uma pegada mais descontraída e uma performance mais do mesmo de Steve Carell. A direção é dos videoclipeiros Valerie Farris e Jonathan Dayton, que fizeram alguns memoráveis vídeos dos Smashing Pumpkins na década de 1990. GUERRA DOS SEXOS (2017) conta a história da primeira disputa entre tenistas de sexo diferente, graças a uma mania de apostador Bobby Riggs (Carell). Ele convida a tenista número 1 Billie Jean King (Emma Stone) para uma disputa, de modo a comprovar a superioridade dos homens. As tenistas vinham de uma situação complicada e de uma separação com a liga dos tenistas, extremamente machista. Mas o que há de melhor no filme é o relacionamento de Billie Jean com uma cabeleireira que ela conhece (Andrea Riseborough). As cenas de amor das duas são lindas e superam as batalhas nas quadras.

O QUE TE FAZ MAIS FORTE (Stronger)

Aqui não temos nenhum esportista em ação, mas um homem comum, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), que teve o azar de estar na linha de chegada de uma maratona em Boston em 2013 quando houve um atentado terrorista. Tudo para receber bem sua ex-namorada, vivida por Tatiana Maslany (da série ORPHAN BLACK). Dirigido por David Gordon Green, um ex-autor, por assim dizer, O QUE TE FAZ MAIS FORTE (2017) tem seus momentos de emoções fortes e até de bom humor (caso da cena em que Jeff dirige um carro sem as pernas). Podem até achar que a obra exagera no drama, mas não vi nenhum problema em mostrar detalhes da dificuldade da transição da nova vida de Jeff, que não foi apenas perder as pernas, mas ser considerado uma espécie de herói pela sua cidade e nos Estados Unidos também. Cena mais tocante: o encontro de Jeff com o caubói Carlos, o homem que salvou sua vida.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (The Killing of a Sacred Deer)

O trabalho do cineasta grego Yorgos Lanthimos não é apreciado por tantos - basta ver a quantidade de pessoas indignadas no IMDB e dispostas a jogar pedra no seu mais recente filme. Embora já tenha seis longas-metragens prontos em seu currículo e um outro já pronto para ser lançado ainda este ano, foi com O LAGOSTA (2015) que o diretor grego chamou atenção mundialmente com aquela que talvez seja a comédia romântica mais estranha já feita.

Os filmes do diretor na verdade são inclassificáveis, mas se a história de um homem que vai se transformar em um animal (uma lagosta) simplesmente por não ter conseguido uma namorada ou uma esposa pode ser vista como um romance, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), se aproxima mais do horror.

E nesse sentido, é um dos mais assustadores filmes de horror já feitos neste milênio. Pode ser uma afirmativa exagerada, mas não creio que seja. Talvez o segredo para ver o filme seja estar totalmente livre de expectativas, ver a obra sem saber nada a respeito. Claro que, por não ser exatamente um filme agradável, alguns espectadores podem, literalmente, fugir correndo da sala de cinema, como eu cheguei a presenciar na sessão em que participei.

É uma pena que seja uma obra que, ao ser lançada no meio da temporada do Oscar, acabe passando batido por muitos. E certamente não ficará muito tempo em cartaz. Ainda assim, é melhor do que não ter passado no cinema, como foi o caso de O LAGOSTA. Trata-se de um filme especial, desses que ficam com o espectador ao final da sessão e por alguns dias ainda, com suas imagens poderosas, estranhas e muitas vezes aterrorizantes.

A primeira imagem de O SACRIFÍCIO DE UM CERVO SAGRADO é a de um grande close na cirurgia de um coração. Trata-se de uma imagem real de uma cirurgia que foi aproveitada para o filme. O protagonista, Dr. Steven Murphy (Colin Farrell), é um cirurgião cardiologista. Ao término de uma cirurgia de rotina, ele anda com um colega pelos corredores do hospital e conversa sobre um relógio bonito. "Onde o comprou?", pergunta ele. Mais tarde saberemos de seus encontros estranhos com um garoto de 16 anos (Barry Keoghan, que já tem um rosto um tanto incomum e por isso se encaixa perfeitamente com o personagem).

A princípio não sabemos do que se tratam esses encontros do médico e esse rapaz. Haveria ali uma espécie de relacionamento impróprio, por assim dizer? Chama a atenção também o tipo de dramaturgia em que as falas dos personagens são despidas de emoção, algo já visto em O LAGOSTA. Trata-se de um tipo de trabalho que lembra bastante o uso de modelos no trabalho de Robert Bresson, que nas entrevistas é tido como uma das grandes influências do cineasta grego.

As estranhezas chegam também em casa, com a esposa (Nicole Kidman) alimentando uma das taras do marido: fingir que está imobilizada em anestesia geral para que ele possa desfrutar dessa fantasia aparentemente recorrente. Yorgos Lanthimos segue, assim, mantendo a atenção do espectador cada vez mais em alta. Inclusive pela utilização de uma trilha sonora que aos poucos vai se tornando perturbadora, principalmente a partir do momento em que um dos dois filhos de Steven afirma não conseguir se levantar da cama, teria perdido a mobilidade dos membros.

É quando as respostas para isso surgem em uma conversa com o incômodo Martin, o garoto de 16 anos, que àquela altura já havia visitado a família de Steven e feito o médico visitar sua mãe (Alicia Silverstone, em uma única mas marcante sequência). As respostas para esse pesadelo que se transformou a vida do cirurgião seriam dadas em poucos segundos, a ponto de o espectador ficar não apenas aterrorizado, mas também desnorteado. Mais uma vez, Lanthimos trabalha com o tema da punição, e o que acontece a seguir é impressionante.

Imagens das cenas seguintes, de tão bizarras - algumas delas chocantes - certamente ficarão presentes na memória de muitos espectadores, mesmo aqueles que sairão da sessão com um pouco de raiva do filme. O ar de tragédia, segundo consta em vários textos sobre o filme, é inspirado no mito de Ifigênia, filha de Agamemnon. Segundo o mito, Agamemnon teria que sacrificar a própria filha por ter matado um cervo em uma floresta. Tragédia grega, horror arrepiante, Bresson e o que muitos dizem ser uma imaginação saída de uma mente doentia são alguns dos ingredientes para a construção deste espetáculo singular e perturbador que é O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO.

domingo, fevereiro 11, 2018

A LEI DA FRONTEIRA (Frontier Marshal)

Uma das mais fascinantes entrevistas do livro Afinal, Quem Faz os Filmes, de Peter Bogdanovich, é justamente de um cineasta pouco lembrado, o pioneiro Allan Dwan. Isso se dá porque, pelo fato de ele ter participado da aurora do cinema em Hollywood, ele tinha muitas histórias incríveis para contar. E que histórias. Não vou citar exemplos aqui, pois o ideal é entrar em contato direto com essa entrevista e viajar no tempo.

Recentemente surgiu em um dos fóruns de compartilhamento que acompanho uma cópia muito boa de A LEI DA FRONTEIRA (1939), uma das primeiras histórias a tratar de duas lendas do Velho Oeste: o xerife Wyatt Earp, homem da lei respeitado e que impôs respeito, e seu amigo trágico Doc Halliday, um pistoleiro bastante temido. A amizade entre os dois é inusitada, e o filme de Dwan traz uma romantização bela à mitologia. Aliás, como é admirável o modo como os americanos foram construindo seus mitos dentro de relativamente pouco tempo de História.

Em A LEI DA FRONTEIRA, Earp é vivido por Randolph Scott, ator que construiu sua carreira como heróis de westerns. Já Doc Halliday é vivido por Cesar Romero, que ficaria famoso como o Coringa da série do Batman dos anos 1960.

Na trama, passada na mítica Tombstone, um proprietário de um bar tenta se livrar de seu concorrente contratando um pistoleiro para destruir o local. O que ninguém esperava era que um forasteiro chamado Wyatt Earp apareceria para botar ordem na casa e se tornar o xerife da cidade. A presença de Earp não é nada agradável para esses homens e logo seus inimigos tratam de se livrar dele. Em vão.

Página virada por ora, pois é o momento em que o filme salta um pouco no tempo até o retorno do famoso Doc Halliday à cidade. Alcoólatra e com tuberculose, o ex-médico recebe a visita da ex-noiva. Isso o maltrata e mostra-o frágil aos olhos de Earp, que trata de ajudá-lo. Assim o filme vai se enchendo de amor, e por isso é até mais fácil gostar da persona trágica de Halliday.

Talvez o que incomode um pouco em A LEI DA FRONTEIRA seja o modo muito rápido com que tudo acontece, inclusive mostrando a briga de Earp com os bandidos no OK Corral. Trata-se de um filme curto, dinâmico. Para o bem e para o mal. Como o espectador terá outros filmes sobre esses personagens analisando de diferentes perspectivas e poéticas, não há do que reclamar. Até porque o cinema que Dwan faz é admirável desde os primeiros fotogramas, que sintetizam os primeiros anos da construção de Tombstone com várias imagens sobrepostas. Um domínio admirável da gramática cinematográfica em um dos anos mais mágicos para o cinema americano. A vontade de ver mais filmes sobre esses personagens só aumenta.

sábado, fevereiro 10, 2018

LADY BIRD - A HORA DE VOAR (Lady Bird)

A personagem Christine 'Lady Bird' McPherson, vivida pela brilhante Saoirse Ronan, em LADY BIRD - A HORA DE VOAR (2017) possui algo em comum com outra jovem em um filme indie recente: Casey (Haley Lu Richardson), em COLUMBUS, de Kogonada. São como dois lados de uma mesma moeda: enquanto Lady Bird tem uma vontade imensa de sair de sua cidade natal Sacramento e fazer algum curso superior em Nova York, apesar de suas notas baixas, sua contraparte tem dificuldades de sair de sua cidade para não deixar a mãe.

Claro que as circunstâncias são totalmente distintas, mas não resisti em fazer essa comparação, até por serem personagens que dialogam com a juventude de hoje, mesmo levando em consideração que LADY BIRD, a estreia na direção de Greta Gerwig, se passa no ano de 2002, sendo, portanto, a história de alguém que está um tanto perdida naquele momento pós-11 de setembro, mas com ainda um pé na década anterior - um dos momentos mais bonitos e simples do filme é quando a protagonista está no carro com o pai ouvindo a agridoce "Hand in my pocket", de Alanis Morrissette, e fazendo a observação de que a cantora compões esta faixa em apenas 10 minutos.

Isso diz muito da personagem, de sua vontade de dar um salto, mesmo sabendo de suas dificuldades em ser tão boa quanto suas colegas de classe, que conseguem tirar notas boas em Matemática. A ida para a universidade está bem aí e ela se sente frustrada com a difícil possibilidade de ingressar em uma universidade do lado leste do país, de preferência longe de sua família, como forma de se cortar o mais rápido possível o cordão umbilical com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), que é excessivamente preocupada com a filha única.

Lady Bird acha que a mãe, apesar de amá-la muito, não gosta dela, não a aceita como ela é, com suas imperfeições. São coisas como essas que tornam a jovem protagonista tão encantadora, tão apaixonante. E um dos grandes méritos da direção de Greta Gerwig é conseguir nos deixar com aquele friozinho na barriga em situações de novidade da protagonista: a primeira transa, a espera pela correspondência das universidades, a autoafirmação através de novas amizades na escola, a busca de namorados que façam de sua primeira transa algo especial.

E nesse sentido nem sempre ela é bem-sucedida. O que não quer dizer que não nos solidarizemos e nos alegremos com suas pequenas conquistas. Estar com o nome na lista de espera de uma universidade não deixa de ser uma vitória. Ou quase. Falando em vitória, LADY BIRD é desses filmes que também lidam com o fracasso com muita ternura: há a melhor amiga gordinha que sofre com a solidão e há o pai desempregado (Tracy Letts, sempre ótimo) que sofre com depressão. Há também um outro jovem com um problema complicado que encontrará a compreensão da jovem.

O que temos em nossa frente não é simplesmente um filme que conseguiu quase 100% de aprovação no site Rotten Tomatoes; é uma obra simples e pequena, mas com sutilezas e sensibilidades que o tornam especial para uma boa parcela da audiência. O curioso é que, assim como COLUMBUS, o filme tenta o possível para não carregar nas sentimentalidades e provocar choro fácil. O que não impede que o amor transborde e sintamos tanto a relação de amor e ódio de Lady Bird com sua cidade, quanto nos importemos com as brigas que ela tem com a mãe.

Greta Gerwig está cercada por atores ótimos, tanto os veteranos já citados, como dois jovens presentes em filmes marcantes do cinema americano contemporâneo: Lucas Hedges, que brilhou em MANCHESTER À BEIRA-MAR; e o genial Timothée Chalamet, que nem precisa provar mais nada para ninguém depois do que mostrou em ME CHAME PELO SEU NOME. Sem falar em jovens garotas que ainda podem se destacar futuramente, como Odeia Rush e Beanie Feldstein.

LADY BIRD - A HORA DE VOAR foi indicado ao Oscar em cinco categorias: melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Saoirse Ronan), melhor atriz coadjuvante (Laurie Metcalf) e melhor roteiro original (Greta Gerwig).

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the Money in the World)

A carreira de Ridley Scott é uma das mais interessantes dentre os cineastas veteranos em atividade. São quase 30 filmes para cinema, equilibrando-se entre ficções científicas, dramas contemporâneos, fantasias e filmes de época. Muita coisa parece interessar a Scott, seja a lenda de Robin Hood, a história de Moisés atravessando o Mar Vermelho, Cristóvão Colombo, além de histórias de monstros espaciais. Em TODO O DINHEIRO DO MUNDO (2017), Scott olha para nosso mundo, para pessoas diferentes. Pessoas gananciosas, pessoas desesperadas, pessoas desesperançadas.

Como o cinema é uma excelente janela de aprendizagem, somos apresentados aqui ao então homem mais rico do mundo, o magnata John Paul Getty (Christopher Plummer), uma espécie de Tio Patinhas mais sombrio. Para ele, nada era mais importante do que o seu dinheiro. Tirar de seus trilhões de dólares 17 milhões para o resgate do seu neto sequestrado estava fora de cogitação, então.

E é essa basicamente a história. Enquanto a mãe do garoto, vivida por Michelle Williams, tenta desesperadamente conseguir até mesmo conversar com o velho avarento, ele chama um de seus empregados (Mark Wahlberg) para tentar descobrir o paradeiro do menino sem que, com isso, precise gastar muito dinheiro. O filme apresenta algumas situações bem absurdas sobre até que ponto vai a doença daquele velho de quase 90 anos.

Se o filme de Scott falha em não conseguir criar uma atmosfera de suspense dentro desse situação de estresse do sequestro do rapaz, do jeito que o filme se encaminha dá até impressão de que o cineasta queria aquele tom. De certa maneira, isso tem o seu lado positivo, já que não se transforma em um thriller banal sobre sequestro e busca, coisa que já se viu tantas vezes no cinema. Scott prefere enfatizar o conto moral sobre aquela situação absurda.

Por mais que possamos pensar que sua moral da história é simples até demais, não há problema nenhum em lembrar disso de vez em quando. Lembrar que não se leva dinheiro para a sepultura. O que parece incomodar um pouco na construção é sua estranheza no modo como costura sua trama sem personagens principais, e com uma Michelle Williams muito bem no papel da mãe desesperada, sem se descabelar ou transformar o filme em uma grande tragédia ou um grande melodrama. Até porque raramente Scott é apegado a sentimentalidades.

No mais, o tom da fotografia chama a atenção. Dá até dúvida se não é problema do projetor, de tão escura que é a imagem, em tom sépia, muito provavelmente para emular aquele ano, 1973. A escolha de Scott por esse tipo de imagem é bem curiosa, já que obras anteriores dele, como PERDIDO EM MARTE (2015) e ALIEN - COVENANT (2017), se destacavam por fotografias cristalinas, mesmo em cenas noturnas.

Uma pena que o filme seja mais lembrado pelo caso envolvendo o escândalo sexual de Kevin Spacey, que forçou Scott a substituí-lo por Plummer em um intervalo de tempo admiravelmente veloz. A tempo inclusive de participar da temporada de premiações. No caso do Oscar, apenas Christopher Plummer recebeu a única indicação, de ator coadjuvante. Não deixa de ser uma ironia.

terça-feira, janeiro 30, 2018

ME CHAME PELO SEU NOME (Call Me by Your Name)

Um dos filmes mais sedutores da temporada, ME CHAME PELO SEU NOME (2017), de Luca Guadagnino, já começa mostrando que o caminho que traçará não será o da culpa católica. Os créditos iniciais, trazendo uma sucessão de imagens de estátuas gregas enfatizando a beleza dos corpos, dá indícios de que o que estaremos perto de ver seria algo de natureza pagã, melhor dizendo, pré-cristão, ou seja, longe da culpa.

E bastam as primeiras imagens para que sejamos arremessados para aquele maravilhoso oásis situado no norte da Itália, no início dos anos 1980. O tempo e o lugar são importantes para tirar um pouco o espectador contemporâneo de seus vícios eletrônicos e nos encantar com uma viagem sensorial tão intensa que é como se estivéssemos lá. Talvez esta seja, aliás, a melhor qualidade do filme de Guadagnino, embora mais motivos haveriam de surgir.

O filme é todo narrado do ponto de vista do jovem Elio (Timothée Chalamet, excelente), que está passando o verão com a família naquele lugar. O pai, um professor universitário, aguarda a chegada de um novo assistente, o americano Oliver (Armie Hammer). Desde a primeira vez que Elio vê Oliver já se instala ali um sentimento de atração, embora nem sempre as imagens sejam óbvias para captar. Nem mesmo o sentimento estava claro para o rapaz de 17 anos ainda.

O curioso da estadia de Oliver naquele lugar paradisíaco é que há bem poucos momentos em que o vemos trabalhando com o pai de Elio. Ele mais parece estar ali para passar férias e desfrutar dos prazeres de um café da manhã ao ar livre, de passeios de bicicleta e banhos de piscina ou de rio. Pequenos detalhes, como ele comendo um ovo cozido no café da manhã ou jogando vôlei, são importantes para que se instale o sentimento de prazer constante.

Em certo momento, Oliver pergunta a Elio o que ele faz naquela cidade. O garoto comenta das festas.O clima da festa também é outro exemplar de felicidade, ainda que não seja uma felicidade plena, já que os dois rapazes ainda estarão se divertindo com as moças locais. Ainda assim, como não sentir prazer na cena de sexo de Elio com a jovem Marzia (Esther Garrell)?

Mas a história de amor dos dois rapazes só estava começando. Não apenas uma história de amor, mas uma história de descoberta, não apenas do ainda adolescente Elio, mas também de Oliver, homem feito, que esconde suas inseguranças muito bem. E o filme trata de mostrar a abordagem lenta dos dois, ou melhor, do jovem Elio, de maneira sabiamente lenta, saboreando os primeiros beijos comedidamente, para, só então, chegar a um momento de intimidade completa - até uma memorável cena de masturbação do adolescente deixa de ser uma atividade secreta.

Talvez um dos momentos em que o filme perde um pouco a força seja na sequência de cenas da viagem, quando dá impressão de que a narrativa vai acabar mas ganha um bônus. Para os personagens, porém, aquela viagem representaria uma festa que não parece ter fim, como se eles estivessem o tempo todo negando que o retorno de Oliver para sua casa seria iminente. Tudo isso seria um preparatório para um final dos mais belos dos filmes românticos recentes.

ME CHAME PELO SEU NOME foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Timothée Chalamet), roteiro adaptado (do grande James Ivory) e melhor canção original ("The Mystery of Love", de Surfjan Stevens).

sábado, janeiro 27, 2018

LIGADOS PELO AMOR (Stuck in Love)

Em certo momento de LIGADOS PELO AMOR (2012), o personagem de Greg Kinnear, um escritor famoso, confidencia para sua ex-esposa, vivida por Jennifer Connelly, que ele não é um bom escritor, ele é mesmo um bom revisor, ele está sempre pensando no que poderia reescrever em sua vida para que ela pudesse dar certo. É uma das falas mais dolorosas do filme, que trata de uma situação bastante sensível nos relacionamentos: a do sujeito que espera pela mulher voltar depois da traição.

Mas o filme não é apenas sobre a história de Bill Borgens, o personagem de Kinnear, e de sua esposa que agora mora com outro cara. Há também a história de seus filhos, que não poderiam ser mais diferentes: enquanto Sam (Lilly Collins), a mais velha, tem um pensamento mais cínico sobre o amor e a vida a dois, pela experiência de decepção que teve com a mãe, ela vive tendo relações com rapazes que ela faz questão de nunca mais ver. Ela passa a sua ideologia de vida amarga para o seu primeiro livro publicado.

Já o garoto mais novo, Rusty (Nat Wolff), tem uma visão mais romântica da vida e é apaixonado pela garota problemática e viciada em drogas da escola (Liana Liberato). Embora haja alguns momentos bons entre os dois, a maior força do filme está mesmo nos casos envolvendo os personagens de Kinnear e Collins, pelo aspecto mais singular de suas condições. Além do mais, Liana Liberato é o elo fraco do elenco.

O diretor Josh Boone, pouco tempo antes de realizar o popular A CULPA É DAS ESTRELAS (2014), teve a sensibilidade de fazer um filme em que o espectador fica a maior parte do tempo com um nó na garganta, sem que as emoções se desaguem em choro por um bom tempo. Trata-se de uma habilidade admirável. Ainda mais quando vemos uma cena tão bela quanto a que se passa no carro, quando Sam está com o futuro namorado Louis (Logan Lerman), e ambos escutam uma canção bem especial, que põe em cheque a visão cínica do amor de Sam. Trata-se da canção "Between the bars", de Eliott Smith, artista um tanto maldito, por seu envolvimento com drogas, depressão e suposto suicídio ainda muito jovem.

Mas o que mais deixa a gente com o coração na mão são as vezes em que Borgens encontra a mulher por quem ainda nutre uma intenção paixão. As tentativas de ela se esquivar só tornam a tensão ainda mais interessante e também dolorosa. Nem sempre é fácil seguir em frente, mas o filme não fica de chorar pitangas: há algo que é revelado só no final que faz o modo de ver a vida do personagem de Kinnear fazer sentido. Há também a relação de completo rancor da filha com a mãe, o que também rende alguns momentos bastante emotivos.

Enfim, LIGADOS PELO AMOR, por mais que não tenha como se aprofundar em tantos personagens em apenas uma hora e meia de duração, consegue dar contar de narrar essa história com muito amor pelos seus personagens. Só por isso, ele já merece uma conferida, até por não ser uma obra muito conhecida. Além do mais, quem ama livros e música pode sentir um especial carinho pelos personagens e pelos diálogos. A ideia de que um livro ou um álbum pode conter um bocado da personalidade de certa pessoa é muito bonita e possivelmente verdadeira.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

MAZE RUNNER - A CURA MORTAL (Maze Runner - The Death Cure)

Um dos problemas das franquias de cinema que se estendem por capítulos é que elas exigem certa fidelidade do espectador. Não exatamente no fato de ter a obrigação de ver os referidos filmes, mas de ter que lembrar do que aconteceu nos anteriores, o que seria um convite para uma revisão. Que não seria uma má ideia, mas os dias andam muito corridos. Logo, entrar de novo no universo de MAZE RUNNER é trazer aos poucos as lembranças dos episódios passados. O roteiro ajuda e a ação deste novo filme, como nos demais, é bem eficiente.

MAZE RUNNER - A CURA MORTAL (2018) é o desfecho de uma série que começou de maneira bem modesta neste mundo de ficções científicas juvenis de universos distópicos. O primeiro filme, MAZE RUNNER - CORRER OU MORRER (2014), aliás, nem dava pistas de que se tratava de mais uma dessas distopias. É mais um interessante jogo em que jovens acordam desmemoriados em um perigoso labirinto cercado por monstros. É uma obra que se firma muito bem sozinha, por isso.

A partir do momento em que descobrimos que aqueles garotos e garotas são cobaias de um experimento científico de uma grande corporação e que o restante do mundo está aparentemente em ruínas é que a série se torna um produto um tanto genérico. A sorte é que não deixam a peteca cair e os dois capítulos finais, mesmo tendo mais de duas horas de duração, conseguem ser muito bons no quesito ação.

Sem falar que o herói Thomas, vivido por Dylan O'Brien, é exemplar. Corajoso, apaixonado, bom de briga e disposto a enfrentar desafios gigantes para salvar aqueles a quem ama. Há também um complicador que ajuda a tornar o filme mais interessante: uma das mocinhas, Teresa (Kaya Scodelario), é uma espécie de traidora do grupo, embora ela tenha suas razões em ter ficado junto com o pessoal da WICKED. Ela ainda acredita que uma cura para o vírus mortal possa ser criada em laboratório.

MAZE RUNNER - A CURA MORTAL é um filme com poucas complicações. Os heróis têm como missão libertar um dos amigos que ficou sendo usado como rato de laboratório pela corporação. E, claro, Thomas vai querer ver de novo seu amor, Teresa. Então, há obstáculos pelo caminho, mas as soluções que aparecem são mais ou menos preguiçosas. O que há de interessante nesse percurso é a volta de um antagonista do primeiro filme.

O diretor Wes Ball perde a chance de transformar sua franquia em algo mais do que uma boa e simples aventura juvenil, arriscando-se mais um pouco. De todo modo, as sequências finais, bem dramáticas, são suficientemente boas e não passam do ponto ao querer mais de seus atores e atrizes do que eles são capazes de render. Os efeitos especiais da destruição da cidade não são dos melhores, mas tudo bem. Além do mais, há um pouco de exagero na caracterização do vilão vivido por Aidan Gillen, o Mindinho de GAME OF THRONES, mas isso também é algo que pode ser relevado entre prós e contras. No fim das contas, o saldo é positivo.

segunda-feira, janeiro 22, 2018

O DIA DEPOIS (Geu-hu)

A marca de um grande autor muitas vezes é claramente vista em suas repetições. E por repetições, no caso de Hong Sang-soo, não quer dizer exatamente repetições de temas, mas o uso de repetições dentro da própria estrutura de seus filmes. Por causa disso, quem for ver O DIA DEPOIS (2017) já um tanto acostumado com seus jogos em filmes como A VISITANTE FRANCESA (2012) e a obra-prima CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015) pode ter uma surpresa com este novo trabalho, exibido em Cannes-2017.

O DIA DEPOIS é uma espécie de lado B de NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017), e representa um momento muito particular em que a vida privada e a vida pública do cineasta se misturam, após a exposição do caso que ele teve com a atriz Kim Min-hee, sendo ele então casado. O DIA DEPOIS segue uma posição de lavagem de roupa suja interior ainda mais explícita, já que o protagonista aqui é um homem, o crítico Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon, ator bastante conhecido de outros trabalhos de Hong Sang-soo).

Em certo sentido, lembra o que Woody Allen fez quando dirigiu MARIDOS E ESPOSAS em 1992, como que para expurgar a crise no relacionamento com Mia Farrow, crise que se reflete de maneira grave até os dias de hoje. No caso de O DIA DEPOIS, a situação complicada do homem casado cuja esposa descobre que ele tem uma amante, é explorada com o uso da personagem de Kim Min-hee sendo uma espécie de consciência do personagem, inclusive levando em consideração o fato de ela ser uma pessoa religiosa e tendo crenças bastante firmes.

Diferente de outros filmes anteriores, que exploravam de maneira mais enfática a necessidade de ser amado e elogiado e certa superficialidade das pessoas, aqui temos a aposta em diálogos mais profundos, como aquele em que Kim Min-hee diz se sentir como uma coadjuvante em sua própria vida e de uma maior consciência da própria finitude no mundo, sem no entanto se sentir mal por isso.

Não faltam, porém, vários momentos em que os personagens se embriagam para fugir de seus problemas ou para conversar de maneira mais franca com seu parceiro de copo. Além de tudo, há também o jogo de flertes que também é característico do cinema de Sang-soo, mas que aqui se manifesta de maneira mais sutil nas cenas do patrão e da nova empregada. O homem, mais uma vez, é visto como um ser patético, covarde e um tanto arrogante.

No aspecto formal, é um dos filmes mais prazerosos do diretor, com um uso lindo do preto e branco e de um scope que funciona perfeitamente para colocar os personagens em uma mesa de bar. Se for para enfatizar algo dos diálogos, há uma maior aproximação e um movimento pendular da câmera para cada personagem. Sempre uma satisfação gigante ver cada filme novo deste que já é um dos melhores cineastas em atividade no mundo.

domingo, janeiro 21, 2018

SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE (Insidious - The Last Key)

A contrário da franquia INVOCAÇÃO DO MAL, que está se expandindo com novos personagens e criações (A boneca Annabelle, a freira assustadora), SOBRENATURAL já demonstrava sinais de cansaço no terceiro capítulo, não dirigido por James Wan. A falta de boas ideias segue predominando neste quarto filme, SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE (2018). Ainda assim, o novo filme ganha um pouco de força lá pela metade da narrativa, principalmente no que é mais forte na série, a exploração dos mundos do além. Aqui é quase como entrar em um labirinto.

SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE se passa em 2010, o ano de lançamento do primeiro filme da série, que mostrava o drama de um casal cujo filho não acordava de um sono e, em seguida, os mesmos pais perceberam a casa sendo assombrada por estranhos fenômenos. Na linha do tempo, a personagem da médium que ajudará esta família estava passando por uma terrível provação também. E essa é a história que é contada neste novo filme.

A parapsicologista Dra. Elise Rainier (Lin Shaye) luta agora com fantasmas do passado que voltam para assombrar o presente. Ela e sua dupla de caça-fantasmas vão parar na casa onde ela morou quando criança, uma casa assombrada por momentos de terror com o próprio pai, que batia nela pelo fato de ela persistir dizendo que via fantasmas. Já na adolescência, ela foge de casa para nunca mais voltar, deixando o irmão mais novo sozinho com o pai, e a mãe já tendo morrido misteriosamente.

A cena da morte da mãe é uma das mais fracas do filme. O que era para ser algo intenso e perturbador se torna banal, um terrível erro do roteirista Leigh Whannell e do novo diretor, Adam Robitel, que traz no currículo o pouco conhecido A POSSESSÃO DE DEBORAH LOGAN (2014). A banalização da morte de uma mãe é um pecado mortal. De todo modo, pode-se entender como sendo algo de menor importância para a trama, e seguir em frente, dando chances ao filme.

Logo no começo de SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE, Elise é chamada para resolver mais um mistério. O que a deixa incomodada é que o mistério está acontecendo na tal casa onde ela morava quando criança. Ainda assim, ela resolve encarar o desafio e lá encontra um homem que está assombrado com vozes de espíritos perturbadores. Mostra a ela, então, o quarto onde há maior predomínio dessas vozes. Um dos espíritos, no entanto, acaba por revelar uma situação ainda mais aterradora acontecendo naquela casa.

E nisso é que o filme ganha pontos: nas pequenas surpresas. Há também boas sacadas e muita tensão em uma cena em que Elise entra em um duto de ventilação para investigar malas. Além do mais, não poderia faltar mais uma das viagens para o outro lado, onde vivem espíritos e demônios, a fim de solucionar o caso. No entanto, é quase certeza que este filme será brevemente esquecido, além de ter sujado um pouco a imagem dos dois primeiros títulos.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

ARÁBIA

O que dizer de um filme que consegue ao mesmo tempo narrar com sensibilidade a história de um homem comum em sua trajetória de dor pelo mundo e ao mesmo tempo conclamar o público a usar o seu direito à desobediência civil para fazer valer os seus direitos? Ser transgressor faz muito bem à arte e por isso ouvir em certo momento "Cowboy Fora da Lei", de Raul Seixas, cantada por um grupo de rapazes, é tão bom. Pois esse é ARÁBIA (2017), obra-prima assinada por Affonso Uchôa e João Dumans e vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Brasília.

Quem viu A VIZINHANÇA DO TIGRE (2016) nem imagina o quanto Uchôa cresceu neste seu segundo trabalho em parceria com o roteirista do primeiro filme. Certamente a parceria na direção lhe fez muito bem, mas o fato é que bastam as imagens, nos créditos iniciais, do garoto André (Murilo Caliari) andando de bicicleta ao som de "I'll be here in the morning", de Steven Van Zandt, para percebermos que estamos diante de algo muito especial.

O cuidado com as imagens, que no filme anterior de Uchôa parecia mais solto, é percebido com maior rigor formal já nas primeiras cenas, que nos apresentam ao menino André, à sua tia e ao seu irmão pequeno, que está acamado. A pequena cidade onde moram parece agradável, mas também é triste, a julgar pela imagem que vemos logo de cara de uma fábrica que parece espalhar veneno por toda a redondeza.

Mas teremos ainda uma boa e agradável surpresa depois de sermos apresentados ao estranho e solitário Cristiano (Aristides de Sousa), rapaz que trabalha na fábrica da cidade. Ele será o narrador de sua própria história, a partir do diário encontrado por André. Assim, como em um trabalho literário em que uma história engole a outra, somos levados pelo braço, e com muito prazer e interesse, para conhecer a história de vida de Cristiano, que já antecipa que falará da mulher mais importante de sua vida, Ana (Renata Cabral).

Um dos aspectos mais interessantes de ARÁBIA é como a narrativa em tom rude de Cristiano consegue ser também tão delicada. O filme é praticamente todo narrado com a voz do rapaz, em sua passagem por diversas cidades de Minas Gerais, inclusive tendo feito uma passagem pela prisão por roubo de carro. Em suas paradas em tantos lugares, ele conhece pessoas que influenciam o seu modo de pensar, como o homem que trouxe os sindicatos e a greve a um povoado que estava trabalhando sem ser devidamente pago pelo patrão, dono de uma plantação de tangerinas.

Como se fosse a personificação do povo brasileiro, Cristiano segue procurando um lugar melhor para si. Acredita encontrar a felicidade quando conhece Ana, em uma fábrica. Justamente uma moça que tem leitura e instrução, coisa que ele não tem. Contrariando as previsões mais pessimistas, Ana o ama de volta. Pelo menos até determinado momento de suas vidas, quando algo ocorre e eles não sabem bem o que é. Como se a sorte tivesse prazo de validade.

ARÁBIA ainda conta com uma trilha sonora admiravelmente linda, com canções de Maria Bethânia ("Três apitos", de Noel Rosa), Renato Teixeira ("Raízes"), um senhor cantando de maneira imperfeitamente bela "Marina", de Dorival Caymmi, em uma festa, além das acima citadas. E boa parte das vezes o convite para ouvir as canções segue junto com o convite para se deleitar com a melancolia da narrativa de Cristiano e das imagens deslumbrantes da fotografia de Leonardo Feliciano. O mundo pode ser um lugar triste, mas ainda há espaço para a beleza da arte, que não apenas nos faz pessoas melhores e mais sensíveis, mas também, neste caso, nos incita a agirmos como seres políticos mais ativos.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

STROMBOLI

Ter visto EU SOU INGRID BERGMAN, documentário de Stig Björkman, ajuda bastante a nos levar aos sentimentos da personagem Karin, de STROMBOLI (1950), primeira parceria de Ingrid Bergman com o diretor italiano Roberto Rossellini. Foi nas produções deste filme que Ingrid teve um caso extraconjungal com Rossellini e ficou grávida. Isso significou para ela uma espécie de suicídio comercial de sua carreira em Hollywood, tendo ela se tornado persona non grata nos Estados Unidos.

Sua vida, certamente, passou por uma reviravolta tremenda. Imagina só: abandonar a família que tinha até então e passar a viver em um outro país e formar uma nova família com esse cara de filmes baratos mas cultuados. De certa forma, Karin, a mulher que cai na cilada de casar com um sujeito que mora em uma ilha que não tem nada, a não ser um vulcão ativo, lembra um bocado a própria atriz sueca. Embora a atriz estivesse ali porque queria e não numa situação de prisão. No entanto, tanto a atriz quanto a personagem têm que enfrentar o preconceito de uma sociedade.

Visto hoje, é possível que STROMBOLI seja visto com certa estranheza pelo público, pela mistura de um tipo de dramaturgia que lembra o que se fazia em Hollywood na época, misturado com o que havia de mais melodramático no cinema italiano e incluindo a utilização de não-atores também, característica do neorrealismo italiano. Mas tudo isso pode ser abraçado com muito carinho.

Até porque o filme é narrado de uma maneira tão intensa que é muito fácil nos colocarmos no lugar de Karin. Há, porém, uma cena que é vista com horror pela personagem, mas que pode ser encarada com maravilhamento pelo espectador: uma cena filmada em tom documental, até por ser de fato o registro de pescadores em um ritual de pesca de peixes enormes. Eles cantam enquanto levantam as redes, que trazem o que mais parecem tubarões para seus barcos. É tão admirável quanto a cena do estouro da boiada em RIO VERMELHO, de Howard Hawks.

E há, no final, aquilo que se tornaria muito comum de se ver na filmografia de Rossellini: sua busca pelo religioso, por Deus. Seu filme seguinte já seria FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS (1950). Quanto ao personagem do marido, Antonio, vivido por Mario Vitale, trata-se de um homem simples, comum, que fica um bocado eclipsado pela complexidade e brilho de Karin, uma mulher que, já no próprio filme talvez tenha sido vista pelas alas mais tradicionais da sociedade como um exemplo de mulher imprudente. Hoje é muito mais fácil vê-la como alguém que precisava usar o que dispunha, ou seja, sua beleza e sua sedução, para tentar conseguir o que desejava. Mas o filme, o diretor ou o destino parecem querer pregar-lhe uma lição.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

GLOBO DE OURO 2018


E toda a polêmica em torno do abuso sexual que chamou a atenção em 2017 deu o tom nesta edição do Globo de Ouro, que contou com a participação da imensa maioria das mulheres vestidas de preto, em protesto. Ficou até complicado para o host Seth Meyers fazer piada no monólogo de abertura, diante de tal situação, mas até que ele conseguiu fazer graça e foi bastante elegante, embora as farpas tenham ido mais para Kevin Spacey do que para Harvey Weinstein, já que o próprio nome do produtor resultou em vaia.

De todo modo, esta edição dos Golden Globes ficará lembrada durante um bom tempo. Principalmente pelo discurso poderoso de Oprah Winfrey (a grande homenageada da noite, com o prêmio Cecil B. De Mille). Ela deixou muita gente de queixo caído pela sensibilidade e por lembrar também da questão racial, que continua sendo um problema nos Estados Unidos. O fato de a atriz e apresentadora ser uma das pessoas mais queridas do país não diminui o preconceito racial.

Outro detalhe curioso também nesta edição é que as atrizes puxaram os prêmios principais. O prêmio de melhor filme dramático para TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME veio logo depois do prêmio de melhor atriz para Frances McDormand. O mesmo aconteceu com a jovem Saoirse Ronan e o filme LADY BIRD - É HORA DE VOAR, injustamente não recebendo uma indicação de melhor direção para Greta Gerwig.

O mesmo aconteceu com os prêmios para a televisão. As maravilhosas Rachel Brosnahan e Elisabeth Moss venceram os prêmios em suas categorias e alavancaram premiações para THE MARVELOUS MRS. MAISEL e THE HANDMAID'S TALE. O mesmo aconteceu com Nicole Kidman e BIG LITTLE LIES. Ou seja, as premiações giraram em torno delas.

E os filmes e séries em si trataram de temas muito apropriados para a situação. O filme dramático premiado fala de morte e estupro de uma jovem, seguido de uma tentativa de vingança de uma mãe. Outros títulos também lidam com a opressão sofrida pelas mulheres em um mundo ainda dominado pelo patriarcado. Mesmo em uma série tão leve quanto THE MARVELOUS MRS. MAISEL.

Assim, os prêmios masculinos acabaram sendo eclipsados nesta premiação, mesmo tendo um time de gigantes na categoria de atores para filme (drama) e a premiação de James Franco ter sido engraçada. O próprio Guillermo Del Toro, que recebeu prêmio de direção, teve a complicada tarefa de subir ao palco depois do discurso fantástico de Oprah. Mas foi muito bom. Mesmo sem mulheres na categoria de direção e sem uma apresentadora mulher no comando, a impressão que fica é que algo mudou ou está mudando em Hollywood. E que pode se expandir para os Estados Unidos e o mundo. Tomara.



Prêmios da noite

Cinema

Melhor Filme (Drama): TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
Melhor Filme (Comédia/Musical): LADY BIRD - É HORA DE VOAR
Melhor Direção: Guillermo Del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Melhor Ator (Drama): Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Melhor Ator (Comédia/Musical): James Franco (O ARTISTA DO DESASTRE)
Melhor Atriz (Drama): Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Saoirse Ronan (LADY BIRD - É HORA DE VOAR)
Melhor Ator Coadjuvante: Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Atriz Coadjuvante: Allison Janney (EU, TONYA)
Melhor Roteiro: Martin McDonaugh (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Trilha Sonora: A FORMA DA ÁGUA
Melhor Canção Original: "This is me" (O REI DO SHOW)
Melhor Animação: VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Melhor Filme Estrangeiro: EM PEDAÇOS (Alemanha)

Televisão

Melhor Série (Drama): THE HANDMAID'S TALE
Melhor Série (Comédia/Musical): THE MARVELOUS MRS. MAISEL
Melhor Minissérie ou Telefilme: BIG LITTLE LIES
Melhor Ator de Série (Drama): Sterling K. Brown (THIS IS US)
Melhor Ator de Série (Comédia): Aziz Anzari (MASTER OF NONE)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Ewan McGregor (FARGO)
Melhor Atriz de Série (Drama): Elisabeth Moss (THE HANDMAID'S TALE)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Rachel Brosnahan (THE MARVELOUS MRS. MAISEL)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Nicole Kidman (BIG LITTLE LIES)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Alexander Skarsgard (BIG LITTLE LIES)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Laura Dern (BIG LITTLE LIES)


quarta-feira, janeiro 03, 2018

MULHER MOLHADA AO VENTO (Kaze ni Nureta Onna)

Que bom seria se alguma produtora brasileira bancasse algo semelhante ao que a produtora japonesa Nikkatsu fez com este projeto, de trazer de volta o espírito das comédias eróticas japonesas que faziam muito sucesso nos anos 1970 e 80, a exemplo do que acontecia também no Brasil e na Itália.

Foram produzidos cinco filmes, sendo que os diretores, alguns deles famosos mundialmente, teriam que cumprir três regras. São elas: o filme deve ter menos de 80 minutos de duração; deve conter uma cena de nudez ou de sexo a cada dez minutos pelo menos; e deve ser filmado em menos de uma semana. MULHER MOLHADA AO VENTO (2016), de Akihiko Shiota, foi o primeiro dessa linha a sair do forno.

E que delícia que é este filme, hein. Não só porque as cenas de sexo são boas, a atriz é linda e carismática e o filme é muito divertido, sendo possível rir muitas vezes, mas por causa também de seus aspectos formais. A fotografia em cores é linda, a direção de arte é caprichada, mesmo com uma agenda de produção tão apertada, e, principalmente, é possível se sentir no lugar do protagonista.

Na trama, Kosuke (Tasuku Nagaoka), um dramaturgo que vive isolado no meio da selva, é constantemente perseguido por uma bela e sensual jovem chamada Shiori (Yuki Mamiya). A primeira aparição da moça é impagável. Ela entra com bicicleta e tudo dentro de uma lagoa e sai de lá tirando a camiseta e mostrando os seios ao assustado dramaturgo. Enquanto ela espreme a camiseta molhada para vestir novamente, ela diz que vai ficar com o rapaz.

Kosuke não diz nada e vai embora, Shiori tenta agarrá-lo, literalmente, pelo pescoço, mas ele a joga no chão, violentamente. Aos poucos, porém, ele vai se tornando cada vez mais excitado e interessado por aquela mulher meio louca, que ele acaba vendo que está trabalhando de garçonete em um café que ele costuma frequentar. Chega um ponto em que o jogo muda, e ele, sem aguentar mais de desejo, tenta agarrar a moça. Ela, porém, joga com ele e aparece fazendo sexo com outros homens, fazendo com que ele fique ainda mais louco de vontade.

Até certo momento, parece uma variação de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel, mas as coisas mudam bastante de rumo a cada virada inesperada do roteiro e do modo como os personagens solucionam seus problemas, necessidades e desejos. Assim, é possível também rir do quanto a cada momento esses personagens vão tomando atitudes bem loucas. A cena de sexo dos dois personagens, enquanto uma mulher está ao telefone é genial, assim como a tentativa de um ménage à trois dentro do barraco de Kosuke. Começar o ano com este filme foi uma escolha bem acertada.

terça-feira, janeiro 02, 2018

BLACK MIRROR - QUARTA TEMPORADA (Black Mirror - Series 4)

É até meio covardia fazer uma única postagem para o que podemos encarar como sendo seis longas-metragens de curta duração. Ainda assim, tentemos falar alguma coisa sobre cada um dos assim chamados episódios da quarta temporada de BLACK MIRROR (2017), sem que pareça uma mera descrição da trama. Antes de mais nada, vale destacar que estamos diante da mais bem-sucedida das temporadas da série/antologia criada por Charlie Brooker, que também participou como roteirista de todos os episódios.

"USS Callister", dirigido por Toby Haynes, a princípio parece apenas uma sátira de Star Trek, exagerando no que pode ter ficado datado na série que nasceu nos anos 1960. Mas depois vemos que a história é outra: conhecemos um diretor de uma empresa de informática (Jesse Plemons) que não é muito popular em seu ambiente de trabalho. Em compensação, ele é o líder da nave no universo virtual que criou. É uma história sobre carência afetiva e maldade.

"Arkangel", dirigido por Jodie Foster, foca na vida preocupada de uma mãe, que uma vez perde sua filha em um passeio e resolve aceitar uma experiência de uma empresa que implanta um chip na filha e a mãe pode não apenas monitorá-la, mas também ver o que ela está vendo, entre outras coisas. É um conto moral sobre invasão de privacidade, mais um tema muito contemporâneo. Gosto muito de como o filme lida com o crescimento da garota e do momento de ruptura/discussão com a mãe.

"Crocodile", dirigido por John Hillcoat, junta duas histórias que se cruzam lá no final. A da mulher que comete um crime ao aceitar esconder o corpo de uma vítima de acidente na estrada; e a de uma moça que trabalha em seguros de vida e que tem à sua disposição aparelhos que conseguem capturar as memórias das pessoas. A história é fascinante e o modo como Hillcoat lida com o medo da mulher de ser descoberta e de cada vez mais aumentar os seus problemas e pecados é angustiante. É mais um thriller que conta com uma tecnologia fascinante a favor da trama.

"Hang the DJ" (foto), dirigido por Timothy Van Patten, é o episódio que mais agradará os espíritos românticos. É o episódio de BLACK MIRROR que conta uma história de amor, assim como na temporada passada foi "San Junipero". Podemos dizer que são histórias irmãs, sendo que "Hang the DJ" expressa de maneira mais enfática a ideia de se ter uma alma gêmea. Quem determina é um programa de relacionamentos que obriga as pessoas a ficarem com as pessoas na duração que o sistema achar mais conveniente, seja apenas 12 horas, seja um ano ou mais. E é assim que vamos nos apaixonando pelo casal vivido por Georgina Campbell e Joe Cole. Os dois se gostam desde o primeiro encontro, mas logo têm que se afastar e ficar com outras pessoas por períodos longos. Histórias de amor que encontram obstáculos não são novidade nenhuma. Ao contrário. Mas a inclusão de um evoluído sistema de matches dentro de uma espécie de universo distópico torna tudo bem atual.

"Metalhead", dirigido por David Slade, é o episódio que mais junta terror com ação e suspense da temporada. É o equivalente ao "Shut up and Dance", da temporada passada. Só que com muito mais estilo. A fotografia em preto, branco e prata é de uma beleza impressionante. Na trama, um pequeno grupo de pessoas em um carro futurista passeiam por um deserto a fim de obter uma caixa. Mas eles são atacados pelo que chamam de cachorro - na verdade, uma espécie de robô de quatro patas quase invencível que sai à cata de seres humanos. Esse monstrinho é fascinante em sua criação. Muito bom ver que o dinheiro que colocaram a mais na série está rendendo bons frutos. Slade consegue, aqui, superar todos os seus trabalhos no cinema.

"Black Museum", dirigido por Colm McCarthy, é o que pode pegar um público pouco acostumado com um horror com violência desprevenido. É talvez o mais pesado dos episódios de BLACK MIRROR. Charlie Brooker junta várias ideias muito inteligentes e não tem pena de gastá-las em um único episódio, que conta a história de uma jovem que visita um museu especializado em crimes. E, como não há ninguém no tal museu, ela é recepcionada pelo dono do lugar, que conta três histórias tão envolventes quanto horripilantes. A ideia dos cookies, que foi usada também nos episódios "USS Callister", em "Hang the DJ", e em "White Christmas" (2014), em maior ou menor grau de terror e angústia, é usada aqui novamente. Talvez o problema do episódio seja a duração e a sensação de que ele não é tão unitário e orgânico quanto os demais. Mas é difícil passar indiferente por ele.

No mais, podemos dizer que esta quarta temporada foi um grande sucesso criativo, por mais que não esteja agradando a todos.