quarta-feira, dezembro 27, 2017

O MUNDO ODEIA-ME (The Hitch-Hiker)



Em um ano em que pudemos conferir, por olhos masculinos, a ascensão do mal na sociedade no evento audiovisual TWIN PEAKS - O RETORNO, de David Lynch e Mark Frost, que expõe atos terríveis praticados por homens principalmente às mulheres, numa visão triste e pessimista da crescente violência que bateu à nossa porta, é no mínimo curioso, no calor deste 2017 (ano em que tantas questões de cunho social surgiram), poder (re)ver e pensar um filme de Ida Lupino, a mais importante diretora de cinema da velha Hollywood, num trabalho que trata justamente da violência masculina.

Lupino, atriz que esteve em alta no auge do film noir em trabalhos como SEU ÚLTIMO REFÚGIO (1941), de Raoul Walsh, e CINZAS QUE QUEIMAM (1951), de Nicholas Ray, construiu uma sólida carreira como diretora em mais de 40 títulos, entre longas-metragens e episódios para séries de televisão. O filme aqui em discussão é THE HITCH-HIKER, que no Brasil recebeu o desagradável título O MUNDO ODEIA-ME (1953).

Depois de quatro filmes protagonizados por mulheres, Lupino corroteiriza e dirige seu primeiro trabalho com protagonistas homens. Quase não há mulheres em cena em O MUNDO ODEIA-ME. O que vemos é principalmente um estudo tenso em torno de três homens, com direito a muitos close-ups e aproximações de câmera dos rostos masculinos. A primeira aproximação do rosto do criminoso pela câmera é inesquecível: depois de revelada a arma na mão em rápidas sequências de campo e contracampo dentro do carro, a câmera se move até o personagem, que sai da escuridão para a luz, no belo trabalho de direção de fotografia de Nicholas Musuruca (o mesmo de FUGA AO PASSADO e SANGUE DE PANTERA).

O MUNDO ODEIA-ME é baseado no caso real de um serial killer, William Cook, que matou seis pessoas que lhe deram carona nos Estados Unidos e no México em 1950. Depois de capturado, Cook foi condenado à morte pela justiça americana e enviado à câmara de gás, três meses antes do lançamento do filme de Lupino.

O nome do psicopata é mudado no filme, assim como seu destino final. Na versão cinematográfica, o criminoso se chama Emmett Myers (William Talman) e possui uma característica física curiosa: devido a uma pálpebra que não fecha, ele permanece com um dos olhos sempre aberto, elemento muito bem utilizado em uma tensa cena de tentativa de fuga.

Na trama, dois amigos, Roy Collins (Edmond O’Brien) e Gilbert Bowen (Frank Lovejoy), viajam para pescar em uma cidade litorânea distante de seus lares, dando a entender que aquela viagem seria uma espécie de fuga do ambiente doméstico. No caminho, perto da fronteira do México, resolvem dar carona a um sujeito que parecia estar com o carro sem gasolina. Logo descobrem, porém, que o homem não é nada amistoso e apresenta uma arma apontada para eles no banco de trás do carro. Os dois homens ajudarão o psicopata a chegar a seu destino, mas ambos não sabem se sairão vivos dessa jornada.

Um dos aspectos mais admiráveis de O MUNDO ODEIA-ME é a narrativa dinâmica, que em apenas 70 minutos de filme é capaz de mexer com os nervos do espectador, trazendo um clima de tensão que não envelheceu nada com o passar dos anos. Bastam sete minutos iniciais para que a situação (o assassino se revelando de imediato no banco de trás do carro e o aprisionamento dos dois homens àquele sujeito) já se estabeleça.

O modo como Myers, o psicopata, é apresentado, do ponto de vista físico, o aproxima de um monstro, em certo sentido, ainda que um pouco disso se dê através de uma deformidade genética: o fato de Myers não conseguir fechar um dos olhos. Myers é resquício da visão dos psicopatas apresentados no cinema nas décadas de 1940, mais masculinos, diferente de um Norman Bates e seu apego com a mãe (ainda que morta), vagamente efeminado e com certa fragilidade física, passando a impressão de ser inofensivo, em PSICOSE (1960), de Alfred Hitchcock.

Myers é um homem que faz questão de mostrar sua masculinidade, sua crueldade e sua total falta de respeito às leis e às instituições, embora encare a busca dos homens por outras mulheres como fraqueza. Possui fascinação pela própria arma, sempre apontada para os dois reféns, noite e dia, e quase sempre olhando para ela, como fascinado pelo próprio pênis (ou por outro pênis que carrega). Aprecia jogos de sadismo, como o do tiro ao alvo com o rifle e uma latinha, e diverte-se com a crescente perda de controle psicológico das duas vítimas.

Lupino também faz um estudo da amizade dos dois homens, embora não tão terno quanto os bromances dos filmes de Howard Hawks, cineasta contemporâneo da diretora. A amizade masculina de Collins e Bowen contrasta com a preferência de viver longe da sociedade de Myers, de sua maneira de ver a vida como algo a ser roubado, pois presente nenhum jamais lhe foi dado. Eis, aliás, um dos motivos da criação do título brasileiro, que parece querer mostrar um pouco de solidariedade ao vilão, uma tarefa até difícil de alimentar, levando em consideração personagem tão execrável. Que o digam Collins e Bowen, que passaram dias ao lado de uma pessoa que pode ser vista como uma das mais terríveis manifestações do mal.

Texto publicado originalmente no site da Mostra Ida Lupino - Subversão e Resiliência. 

terça-feira, dezembro 26, 2017

O REI DO SHOW (The Greatest Showman)

A cota de filmes musicais bem que poderia ser maior, levando em consideração o sucesso de LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES. E eis que aparece um filme que está se autopromovendo com os nomes de dois músicos que compuseram as letras do filme de Damien Chazelle. Mas acontece que Benj Pasek and Justin Paul não fizeram as belas canções do filme de Chazelle, apenas as letras. E isso faz alguma diferença, pois as canções de O REI DO SHOW (2017), por mais que sejam grudentas, não são nada especiais. Ainda assim, não dá para negar a bela produção do filme do estreante Michael Gracey.

Também não incomoda tanto a história simples. Em geral, as histórias de musicais são simples mesmo. O que importa é o modo como essa história é contada a partir de um bom conjunto de canções que deveriam emocionar. Mas, por mais que as mentes por trás de O REI DO SHOW tenham preferido um tipo de sonoridade que se aproxima da música pop contemporânea, eles acabaram se inspirando no que de pior há nessa música pop. Ou seja, o que vemos é aquele tipo de música que se costuma ser vista em programas de calouros, desses que valorizam mais a extensão vocal do que qualquer outra coisa.

Além do mais, a cafonice dá o tom em O REI DO SHOW, que conta uma história até bastante curiosa, que é a da trajetória de P.T. Barnum, vivido por Hugh Jackman. Ele foi um sujeito que veio de família muito pobre, mas que era apaixonado por uma menina rica de sua cidade. Ele cresce, consegue se estabelecer financeiramente e leva a garota (Michelle Williams) consigo, para desgosto do pai da moça.

A ideia de construir um circo com pessoas singulares, que eram vistas como aberrações por boa parte da população da cidade, veio quando ele viu um anão atravessando a rua. O curioso é que hoje em dia tratar desse tema é até um pouco tabu, já que vender essas pessoas pelos seus "defeitos" ou singularidades não é tido com bons olhos, como pudemos ver em filmes que mostram a exploração perversa de tipos físicos, como VÊNUS NEGRA e HOMEM-ELEFANTE.

Até os animais, que hoje não são mais utilizados em circos, são praticamente escondidos do filme. São assuntos delicados, mas que são abordados até de maneira esperta, como mostrar essas pessoas como sendo especiais, no melhor sentido da palavra, além de dignas de aplausos, mesmo não sendo muito bem-vistas pelo crítico de teatro que teima em alfinetar o espetáculo de Barnum. Há algumas subtramas até que boas, como a da paixão do ator de teatro vivido por Zac Efron (que deveria se concentrar apenas em comédias mesmo) pela trapezista (Zendaya), mas a mais importante das subtramas mesmo é a que envolve a mulher que é considerada a melhor cantora da Europa, Jenny Lynd, vivida por uma deslubrante Rebecca Ferguson.

A atriz, aliás, está tão atraente e cheia de brilho que nem precisa se esforçar muito para parecer mais interessante do que a esposa de Barnum - o que aconteceu com Michelle Williams, que vive estampando agora um sorriso sem graça? Ela sempre foi assim ou foi piorando? Acontece que o filme também estraga o perigo do adultério, de Barnum ter um caso com essa mulher bela. Há um pouco (muito pouco) de tensão no ar, mas o filme prefere brincar com clichês manjados. As canções, em vez de ajudar, entrecortando as cenas dramáticas, acabam por estragar ainda mais.

De todo modo, O REI DO SHOW deve conseguir chamar a atenção de boa parte do público, além de ter conseguido uma vaga fácil no Globo de Ouro, devido ao aspecto musical. O filme ganhou indicações nas categorias de melhor filme (comédia ou musical), melhor ator (comédia ou musical) para Hugh Jackman e melhor canção para "This is me".

sexta-feira, dezembro 22, 2017

LUCKY

Pode até não parecer, mas a trajetória de Harry Dean Stanton perpassou da metade da história do cinema americano. Atuando desde os anos 1950, no cinema e na televisão, o ator hoje é lembrado principalmente por aquele que é o papel de sua vida, o do solitário e atormentado Travis Henderson, de PARIS, TEXAS, de Wim Wenders, um dos filmes mais belos já feitos. Muitos (eu, inclusive) tiveram a oportunidade de rever por ocasião da morte do ator, em setembro deste ano, como uma homenagem.

LUCKY (2017), de John Carroll Lynch, é uma espécie de filme-testamento do ator. O personagem, um senhor de 90 anos que é veterano da Segunda Guerra Mundial, foi totalmente inspirado em Dean Stanton. Afinal, assim como o personagem, o ator nunca casou, nunca teve filhos (não que ele saiba), começou a fumar desde muito cedo, e também serviu, como cozinheiro, durante a Segunda Guerra Mundial.

Logo, Stanton acaba por interpretar a si mesmo em LUCKY, este filme que parece tão pequeno em suas pretensões, mas que alcança uma dimensão poética impressionante. Na trama, Lucky é um homem velho que vive em uma cidade do interior que mais parece uma cidade fantasma e que descobre, depois de um desmaio, que seu corpo está começando a dar sinais de que pode chegar ao fim. Vemos muitos espaços vazios, desertos, além de bares e restaurantes. Alguns desses lugares se repetem ao longo da narrativa, como que para acentuar a rotina de vida pouco excitante de Lucky.

Essa carência de poucas emoções, ou mesmo de pouca energia para desperdiçar, talvez seja um dos segredos da longevidade de Lucky, junto com o apego à sua vida simples e aos pequenos prazeres que sua vida lhe proporciona. E haja simplicidade em sua vida: as únicas coisas que Lucky abastece no mercadinho são cigarros e caixas de leite. O café é tomado na lanchonete, espaço em que ele é tratado como uma espécie de alguém da família naquela cidade onde todo mundo se conhece.

Importante, gostoso e enriquecedor ter no filme a participação especial do amigo David Lynch, interpretando alguém muito parecido com o Gordon de TWIN PEAKS. Lynch e Stanton trabalharam juntos em diversos filmes. Na nova temporada da série, inclusive, ele aparece em cinco episódios, também em um papel semibiográfico, falando sobre o hábito de fumar desde cedo. Lynch, como um diretor que valoriza muito a figura do homem velho, trata com muito carinho aquele homem que carrega quase um século nas costas.

Algumas cenas são de uma beleza ímpar: a cena do aniversário do garotinho mexicano, em que Lucky canta uma canção em espanhol; a cena da conversa com um colega aposentado das forças armadas que contará uma história fascinante sobre uma garotinha japonesa; a cena em que David Lynch fala sobre o amor incondicional por seu bicho de estimação desaparecido; e há também espaço para o mistério em algumas cenas, ainda que bastante ligadas ao realismo que o filme parece promover.

Não falta espaço para filosofar sobre a finitude, sobre aceitar a realidade como ela é, tanto em discussões dos próprios personagens quanto nas entrelinhas e no quanto o filme fica com o espectador após a sessão. Trabalhos como este justificam a ida ao cinema. Até porque o resultado está mais para uma paz de espírito do que para uma lamentação relativa ao fim de uma jornada.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI (Star Wars: Episode VIII - The Last Jedi)

Por mais que haja uma tendência de a criação mais célebre de George Lucas se repetir em muitos aspectos e em diversas sequências - que o diga STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA (2015), dirigido por J.J. Abrams, que é quase um remake de GUERRA NAS ESTRELAS (1977) -, é muito bom poder ver o novo caminho proposto por Rian Johnson no novo STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI (2017), que finalmente se desprende do velho e abraça o novo.

O filme anterior desta fase Disney da Lucas Film. já acenava para um desapegar do passado. E em OS ÚLTIMOS JEDI há uma cena em especial que ilustra bastante isso: o espírito de Yoda aparece para Luke Skywalker (Mark Hamill) e faz uma fogueira com os velhos pergaminhos sagrados Jedi. Mas claro que nem toda nostalgia pôde ficar de fora. Até porque é ela que alimenta boa parte desse universo idolatrado por uma legião de fãs ao redor do mundo.

Mas é preciso alimentar também os novos personagens. Felizmente é isso que é feito em OS ÚLTIMOS JEDI, principalmente. Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver), Finn (John Boyega), Poe (Oscar Isaac), entre outros, são personagens que ganham contornos maiores e mais interessantes que os membros da velha guarda neste novo filme. Aliás, uma das coisas que se destaca aqui é o modo como Johnson resolve também promover uma espécie de renúncia à velha dramaturgia que funcionava como uma desculpa para interpretações canastronas.

Em OS ÚLTIMOS JEDI podemos finalmente nos encantar com ao menos uma a interpretação fantástica: a de Adam Driver, como o vilão complexo Kylo Ren, filho da Princesa Leia (Carrie Fisher) com Han Solo (Harrison Ford). Ele é um rapaz que teve contato com a força, mas, assim como aconteceu com Darth Vader, por algum motivo ele preferiu abraçar o lado sombrio. Detalhes de como isso aconteceu podem ser vistos no filme.

Mas o grande barato desse novo personagem é que ele não é tão preto no branco assim. As cenas de Rey dialogando numa conexão espiritual com Kylo, enquanto está recebendo treinamento com Luke, chegam a ser impressionantes no modo como lidam com a questão do desejo. Em certo momento, Rey se incomoda com Kylo estar sem camisa. Aquilo a estava atrapalhando, mexendo com seus instintos mais primitivos. E o desejo mais uma vez aparece como um ingrediente perigoso. É uma história que havia sido contada antes na tragédia de Anakin Skywalker, nos episódios I-III.

Por mais que OS ÚLTIMOS JEDI comece com uma longa sequência de batalha no céu (às vezes um pouco confusa) entre os rebeldes e a República, são certos detalhes que tornam o filme algo que vai se tornar lembrado com carinho por boa parte do público, já que não há aqui uma narrativa tão prazerosa como a de O DESPERTAR DA FORÇA. Rian Johnson parece ter maior dificuldade em juntar as peças e o filme cansa em determinados momentos de sua duração.

Assim, além do perigosíssimo caso de amor (não explicitado) entre Rey e Kylo, há algo que chama muito a atenção no novo filme: a direção de arte fantástica, que flerta com David Lynch, ao criar um lugar todo em vermelho como lar do líder da República, o monstruoso Snoke (Andy Serkis). Até Laura Dern dá o ar de sua graça no elenco, falando em Lynch. O fato é que esse vermelho, que funcionará como pano de fundo para uma batalha linda de ver, passa sensações de perigo e de excitação bastante envolventes.

Até mesmo as cenas da batalha no deserto são pinceladas com vermelho, como nas cenas em que veículos pequenos pilotados pelos rebeldes tocam no chão com frequência, enquanto se aproximam das grandes armas da República. Há várias sequências que trazem bastante empolgação e surpresa ao longo da narrativa, principalmente no terceiro ato. Mas é melhor não citá-las e deixar que o próprio espectador as desfrute. Só o fato de Rian Johnson entregar algo bem diferente do que se esperaria já é um mérito para sua contribuição.

No mais, não esqueçamos do grande trunfo de STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI: Adam Driver, que está vivendo um momento muito especial em sua carreira. Só neste ano ele pôde ser visto em quatro filmes importantes na tela grande: SILÊNCIO, de Martin Scorsese; PATERSON, de Jim Jarmursch; LOGAN LUCKY - ROUBO EM FAMÍLIA, de Steven Soderbergh; e este novo STAR WARS. Além disso, Driver encerrou muito bem sua participação na ótima série GIRLS, de Lena Dunham. Não é pouco.

quinta-feira, dezembro 14, 2017

OITO DOCUMENTÁRIOS

Acho que já deu pra perceber que eu perdi o controle dos filmes vistos x filmes comentados no blog. Já me disseram para relaxar, falar apenas sobre os títulos que me inspiram e tal, mas eu não me conformo quando vejo aquela listona gigante, que ainda está menor do que realmente é, por causa da perda de arquivos em uma virose cibernética. Enfim, falemos de alguns documentários vistos este ano e que poderiam ter tido mais espaço se o corpo aguentasse e o tempo permitisse.

DANADO DE BOM

Delícia de documentário que fala da história de um homem importante na história da música brasileira, mas que é praticamente esquecido. João Silva é um compositor de várias canções conhecidas. Eu mesmo nem sabia dele. João ficou famoso como um grande parceiro de Luiz Gonzaga na fase tardia do Rei do Baião e posteriormente fez músicas para muitos cantores e cantoras do Brasil. "Danado de bom" e "Pagode russo" devem ser as suas mais famosas. Alguns momentos são uma viagem, outros despertam um bocado na gente a tal nordestinidade. Mas o que mais encanta mesmo em DANADO DE BOM (2016), de Deby Brennand, é a graça de João Silva, sua esperteza e suas histórias pessoais, o modo como ele não se importa em falar sobre suas falhas, por exemplo.

GERMAN CONCENTRATION CAMPS FACTUAL SURVEY

Provavelmente o documentário GERMAN CONCENTRATION CAMPS FACTUAL SURVEY (2014) não seria tão comentado se não fosse a assinatura de Alfred Hitchcock como um dos diretores - o outro se chama Sidney Bernstein. Diziam que Hitchcock havia dirigido apenas dois filmes de horror, PSICOSE (1960) e OS PÁSSAROS (1963). Podemos dizer agora que são três, com este documentário lançado em versão estendida com imagens terríveis dos campos de concentração, de cadáveres espalhados, um horror inacreditável, de gente sendo resgatada à beira da morte por inanição e outras doenças. A maldade humana não tem limites. E é bom que as pessoas vejam isso, ainda mais nesses tempos de volta de neonazismo por parte de alguns idiotas por aí. O filme pode não ter a poesia de NOITE E NEBLINA, de Alain Resnais, mas creio que é porque é para ser duro e cru mesmo.

UM FILME DE CINEMA

É um filme meio torto, meio sem saber direito que caminho seguir. Aquela história de colocar o elenco de CINEMA PARADISO parece um enxerto. Vale mais pelas palavras dos vários cineastas sobre teorias e visões particulares do cinema, mesmo que nem sempre excitantes. Mas é muito bom ouvir o Julio Bressane, por exemplo. Bem interessante, principalmente para quem estuda cinema, ter a oportunidade de ver UM FILME DE CINEMA (2017), o mais novo trabalho de Walter Carvalho. Claro que com tanta gente boa envolvida a gente esperava algo melhor. Acaba sendo mais uma obra com pretensões que não se cumprem.

JERRY BEFORE SEINFELD

Certamente só vai interessar aos fãs de Jerry Selfeld. O que é o meu caso. Algumas piadas funcionam melhor, algumas são velhas conhecidas. A melhor parte é mesmo as cenas do Jerry fazendo stand-up comedy mesmo. A parte de contar a história da vida dele acabou ficando bem superficial. E talvez ele não quisesse contar mesmo muitos detalhes. JERRY BEFORE SEINFELD (2017), de Michael Bonfiglio, é uma produção original da Netflix. Mesmo não sendo tão bom, os fãs de Seinfeld, o homem e a série, agradecem.

EXODUS - DE ONDE EU VIM NÃO EXISTE MAIS (Exodus Where I Come from Is Disappearing)

Difícil se envolver com qualquer um dos sete personagens escolhidos, o que pra mim já é um grande problema deste filme que pretende ser poético e grandioso (na produção, sem dúvida é), mas que acaba incomodando, inclusive com a narração do Wagner Moura (mesmo sendo econômica e espaçada). Acho que o personagem mais interessante é o palestino. Daria um bom filme se fosse só a história dele. EXODUS - DE ONDE EU VIM NÃO EXISTE MAIS (2017), de Hank Levine, é uma obra que se perde em sua vontade de ser grandioso. Melhor mesmo é ver o novo trabalho de Aki Kaurismäki, O OUTRO LADO DA ESPERANÇA, que conta uma história parecida com a de um dos personagens deste documentário.

A GENTE

Muito boa essa busca de transformar o conteúdo documental em um drama tenso. É assim que vemos A GENTE (2013), trabalho de Aly Muritiba que demorou a entrar em nosso circuito depois de ter sido exibido em Brasília. Quem reclama da própria profissão é bom dar uma olhada neste filme. Ser agente penitenciário é um inferno na Terra, hein.. E olha que essa penitenciária aí de Curitiba deve ser melhor do que muitas outras espalhadas pelo Brasil. As cenas exteriores da prisão também ajudam a pensar nisso, já que o protagonista é um obreiro de uma igreja evangélica e, do jeito que é mostrada sua rotina, suas horas de lazer parecem tão incômodas e opressoras quanto as horas de trabalho.

A CIDADE É UMA SÓ?

Não sei se um dia eu vou entrar em sintonia com o cinema do Adirley Queirós. De todo modo, achei mais interessante este do que BRANCO SAI, PRETO FICA (2014). A cena do candidato pobre passando pelo comício da Dilma compensa um monte de passagens pouco envolventes. De todo modo, vale demais a pena poder ver A CIDADE É UMA SÓ? (2011), principalmente no cinema, que foi o meu caso. Visto com mais distanciamento, o filme cresce na memória e até dá vontade de rever com mais carinho.

CÂMARA DE ESPELHOS

Na primeira vez que CÂMARA DE ESPELHOS (2016), de Dea Ferraz, passou em Fortaleza eu não dei muita bola. Que besteira que eu fiz. A exibição com debate deve ter sido bem interessante. Mas o filme sozinho já se basta sem precisar fazer muita coisa além de colocar vários homens em um sofá numa sala para falar sobre diversos assuntos relacionados à mulher. É machismo a dar com pau, coisas absurdas que até alguns homens vão se sentir incomodados. Pode não ter sido tão feliz na montagem, mas de algum jeito a diretora tinha que coletar o seu material.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

THE MARVELOUS MRS. MAISEL - PRIMEIRA TEMPORADA (The Marvelous Mrs. Maisel - Season One)

E uma das melhores séries do ano surgiu, como quem não quer nada, em dezembro. Trata-se de THE MARVELOUS MRS. MAISEL (2017), de Amy Sherman-Palladino, conhecida por GIRLMORE GIRLS (2000-2007). Depois de dez anos de seu maior sucesso, a criadora, roteirista e diretora está de volta com uma comédia de época, que nos leva a um colorido e belo 1958, em um registro que lembra as screwball comedies, que fizeram a alegria na Hollywood dos anos 1930-50.

O registro de época pode ser comparado ao de outra série celebrada, MAD MEN, mas a intenção aqui parece ser um pouco menos pretensiosa. Mas só um pouco mesmo, já que as pessoas tendem a diminuir as comédias em detrimento dos dramas. E THE MARVELOUS MRS. MAISEL é um misto dos dois, pois opta pela duração de cerca de quase uma hora por episódio, normalmente uma duração de séries dramáticas.

Mas, deixando de lado essa bobagem de tentar separar a comédia do drama, quando eles parecem às vezes inseparáveis da obra de Sherman-Palladino, o que temos aqui é uma dessas séries tão boas que a gente lamenta quando está perto de acabar. Não queremos nos desgrudar da protagonista, Miriam 'Midge' Maisel, vivida brilhantemente por Rachel Brosnahan. É, certamente, o papel da vida da jovem atriz.

A série conta a história fictícia de uma dona de casa de família rica e judia que tem o prazer de ajudar o marido em sua vontade de ser um astro da comédia. O problema é que o sujeito, Joel (Michael Zegen), não tem a menor graça como comediante. Quando uma vez ele se vê diante do horror de não ser bem-recepcionado pela audiência, de não conseguir arrancar nenhum riso da plateia, ele volta para casa tão desanimado que faz algo impensável: largar a esposa devotada e carinhosa.

Midge, atribulada com a situação, já que ainda por cima o marido estava tendo um caso com a secretária, resolve sair de casa e se embriagar. É quando ela vai parar em um dos bares onde os comediantes costumam se apresentar. E dá um show de cair o queixo de muita gente, além de fazer e dizer coisas que a polícia local considerou indecentes. Resultado: ela vai parar no xadrez.

Esse é mais ou menos o resumão do piloto de THE MARVELOUS MRS. MAISEL. Um piloto que já nos conquista de imediato. Naquele momento em diante sabemos que aquela é uma série especial. E sabe o que mais? A série de Sherman-Palladino nem precisava melhorar. Mas melhora. Inclusive com uma season finale que traz um misto de sentimentos conflitantes, envolvendo ainda a questão marital de Midge e sua relação cada vez mais envolvente com o mundo da comédia, que mais parece alguma coisa muito proibida, e por isso mesmo muito excitante. Aliá, esse talvez seja o grande segredo de a série encantar tanto.

Midge, a personagem de Rachel Brosnahan, não chegou a existir, mas contracena com alguns personagens reais da época, como Lenny Bruce, controverso comediante que chegou a ser retratado por Dustin Hoffman no filme LENNY, de Bob Fosse. Mesmo assim, é como se estivéssemos acompanhando uma biografia, por mais que o colorido e as falas deliciosamente rápidas e um tanto teatrais fujam do que se espera de algo realista.

No mais, chamam atenção também a direção de arte, o figurino e a fotografia admiráveis, além também da personagem de Alex Berstein, que faz a agente de Midge, a mulher que a vê como um sucesso em potencial e que faz de tudo para que aquela dona de casa rica se torne uma comediante de grande sucesso. Alguns dos momentos mais engraçados da série vêm dela, e do modo como as pessoas enxergam o seu jeito meio másculo de se vestir e se comportar. Também vale destacar a beleza da performance de Tony Shahoub, como o pai de Midge.

Podemos dizer, portanto, que THE MARVELOUS MRS. MAISEL pode ser encarado como um belo presente de Natal para os fãs de séries bem pensadas e bem escritas. E a série já chegou chegando, com indicações aos Golden Globes nas categorias de melhor série de comédia e de melhor atriz de comédia para Rachel Brosnahan. Que maravilha!

sábado, dezembro 09, 2017

EXTRAORDINÁRIO (Wonder)

Quando Stephen Chbosky ficou famoso com seu emocionante retrato de jovens com sentimento de inadequação, AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (2012), causou surpresa com o fato de ele ser ao mesmo tempo o autor do romance e o roteirista e diretor. Revelou-se, então, um novo e sensível talento. EXTRAORDINÁRIO (2017) chega para confirmar que Chbosky sabe também pegar a obra de outra pessoa, no caso o romance homônimo de R.J. Palacio, e transformar em um filme que transborda amor.

EXTRAORDINÁRIO é capaz de deixar o espectador com vontade de abraçar os amigos, os familiares. É um tipo de cinema que pode ser visto como ultrapassado, mas que na verdade é um tipo de cinema arriscado, já que para perder a mão em um melodrama é muito fácil. Como o diretor já havia se mostrado um artista extremamente sensível no trato com as pessoas que se sentem excluídas ou diferentes, não foi tão difícil assim a tarefa de contar a história de um garotinho que nasceu com o rosto deformado e que encara pela primeira vez uma escola.

A estrutura do romance está bastante presente no modo como o filme apresenta carinhosamente os personagens e os aprofunda. Isso é tanto encantador quanto revelador. No começo, quando pensamos que é o filme é só sobre Auggie (Jacob Trembley), o garotinho, até podemos pensar que o filme é muito quadrado, mas a apresentação do ponto de vista da irmã do Auggie já mostra que há mais camadas, há mais a oferecer.

Claro que o sofrer de Auggie é diferente, ninguém quer estar na pele dele, mas ao mesmo tempo é muito bom a gente chegar até o final e ver o seu sentimento de gratidão, depois de ter passado por uma trajetória muito difícil numa escola que o recebeu principalmente com bullyings, mas depois com as amizades e as conquistas.

Podemos dizer, então, que EXTRAORDINÁRIO é um filme sobre conquistas. A cena final de Auggie, seu agradecimento, por mais que aquilo ali fuja de algo realista - na verdade, a melhor descrição é mesmo a de Mark Cousins, autor de História do Cinema, chamando o cinema hollywoodiano tradicional de "realismo romântico fechado", e não cinema clássico, como alguns preferem. Nesse realismo romântico fechado, há enfeites de maneira que tudo pareça mais bonito, para poder chegar a um fim, no caso, mostrar uma espécie de lição.

E isso não é nenhum demérito. Há quem esteja, inclusive, lembrando de clássicos como A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, de Frank Capra, e O SOL É PARA TODOS, de Robert Mulligan, em resenhas. De todo modo, sempre bom lembrar que uma das referências plasticamente mais associadas a EXTRAORDINÁRIO é MARCAS DO DESTINO, de Peter Bogdanovich, que trata de um adolescente que tem um rosto deformado, inclusive muito parecido com o rosto de Auggie.

Uma coisa que EXTRAORDINÁRIO nos faz lembrar é o quanto as amizades nos deixam mais fortes, o quanto estar sozinho ainda é muito difícil, principalmente para quem é jovem, para quem é criança ou adolescente. Você se sente mais forte quando você sabe que tem um amigo (ou amigos). E o filme trabalha de maneira muito pungente essa questão da amizade. Ou o quanto é doloroso se sentir traído por um amigo ou uma amiga.

O cinema, assim como a arte como um todo, é um instrumento que nos ajuda a nos tornamos pessoas melhores. Então, um filme como EXTRAORDINÁRIO talvez seja um dos exemplos mais explícitos desse tipo de obra que nos coloca no lugar do outro, traz o necessário sentimento de empatia, de compreensão do outro. E vale lembrar também que, antes de mais nada que estamos diante de um filme sobre vitórias. Não só a vitória do Auggie, mas também a vitória da mãe dele (Julia Roberts), da irmã (Izabela Vidovic), da amiga da irmã, e do quanto tudo isso é comovente e enriquecedor para a alma. Há uma cena em especial quando Auggie descobre que tem amigos. Não apenas um amigo ou dois, mas um grupo de amigos. Tratar essa história com tal sensibilidade é uma tarefa louvável.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

HISTÓRIAS DE AMOR QUE NÃO PERTENCEM A ESTE MUNDO (Amori Che Non Sanno Stare al Mondo)

Falar com saudade do glorioso cinema italiano de outrora já virou lugar comum sempre que se fala sobre novos exemplares vindos do país da bota. Então, pulemos este clichê e passemos direto ao filme de Francesca Comencini, o sentimental, divertido e comovente HISTÓRIAS DE AMOR QUE NÃO PERTENCEM A ESTE MUNDO (2017), que tem ganhado pouca repercussão, mesmo no circuito alternativo.

Isso é algo que não deveria acontecer, levando em consideração tanta coisa boa que a filha de Luigi Comencini nos presenteia neste seu novo filme. Francesca até já tem uma filmografia relativamente extensa, iniciada nos anos 1980, mas esta comédia romântica estrelada por Lucia Mascino é sua primeira produção a estrear em nosso circuito. Antes tarde do que nunca. Mesmo utilizando do velho expediente de colocar a palavra “amor” como um atrativo para o público.

De todo modo, há amor no título original também e o amor é o grande tema do filme. Acompanhamos a trajetória da professora Claudia (Lucia Mascino), uma mulher que não se conforma com a perda e o distanciamento do grande amor de sua vida, o também professor Flavio (Thomas Trabacchi). Ambos foram apaixonados por um bom período de tempo, mas a insistência de Claudia para ter um filho com Flavio e sua insegurança acabaram por complicar o relacionamento.

O filme é narrado pelo ponto de vista de Claudia e vemos algumas cenas em flashback que flagram alguns dos melhores e dos mais difíceis momentos da relação do casal. O filme não se frustra em mostrar a paixão desesperada da mulher, em detrimento da calma e tranquilidade de Flavio. Para ele, a separação não foi nenhum fim do mundo. Pareceu algo indiferente.

Porém, é interessante notar o quanto o mesmo homem se sente inseguro perto de outra mulher, uma moça bem mais jovem que ele, sua aluna. A bela e jovem garota, por sua vez, se sente segura, enquanto ele procura ser um ás na cama, o que normalmente acontece com homens depois dos 40, que se tornam menos egoístas e mais interessados em dar mais prazer à parceira, ainda que isso possa trazer também uma sensação de poder e contentamento. É até uma pena que o filme se detenha pouco nessa relação de Flavio com a jovem Nina (Valentina Bellè).

O que não quer dizer que não achemos também adorável e engraçada a desesperada protagonista Claudia, em sua insistência em ter esperança de que o homem que ama ainda voltará para ela. Sentimos um pouco de sua dor nessa dificuldade de virar a página. Só em conseguir isso já podemos louvar o trabalho de Francesca Comencini, que ainda conta com aspectos técnicos belíssimos. A fotografia e a direção de arte valorizam tanto os interiores quanto as lindas paisagens, e a trilha sonora e as canções são belas o suficiente para enternecer o espectador.

O diálogo final de Claudia com Flavio está entre os mais belos e agridoces do cinema recente. Mas é preciso passar pela confusão inicial da narrativa e, posteriormente, pelo apego com os personagens para entender aquele momento pelo caminho do coração. Até porque muitas pessoas poderão se identificar com um ou outro personagem ou com determinado momento de sua vida.

domingo, dezembro 03, 2017

BOM COMPORTAMENTO (Good Time)

Uma das mais gratas surpresas deste ano a entrar em cartaz em nosso circuito foi BOM COMPORTAMENTO (2017), dos irmãos Benny e Josh Safidie. Trata-se do trabalho da dupla que melhor chamou a atenção do público e também da crítica, até por ter saído um pouco mais do gueto dos filmes exibidos em circuito muito limitado. Ajudou também ter como protagonista o ótimo Robert Pattinson, que cada vez mais vem trilhando um caminho de bom gosto criativo e de valorização de sua imagem.

BOM COMPORTAMENTO possui algo que é difícil de encontrar em produções contemporâneas, uma vitalidade e uma energia envolventes. Certamente não é um filme que agradará a todo mundo, inclusive todo o público que circula o circuito de arte, por ser muito quente (nas cores e na temática) e muito barulhento. Assim, é uma produção que trafega em um perigoso caminho, o que é muito bom. Correr riscos é algo que todo grande cinema deveria buscar.

A primeira imagem do filme já chama a atenção, um close-up do rosto de um dos diretores, Benny Safdie, que interpreta Nick, o irmão com problemas mentais que está sofrendo em uma espécie de terapia. Para resgatá-lo daquele suplício chega o irmão que se considera a única pessoa no mundo que realmente se importa com Nick. Pattinson é Connie, um sujeito que está querendo conseguir um dinheiro e vai buscar de uma maneira não muito inteligente, assaltando um banco ao lado do irmão, que pensa lento e acaba funcionando como um peso na hora da perseguição.

Depois da cena do banco e da perseguição, que aliás acontecem logo no comecinho do filme, BOM COMPORTAMENTO é como uma montanha russa de emoções em que qualquer coisa pode acontecer. Esse sentimento de distanciamento de uma expectativa que possa ser criada pelo espectador só mostra o quanto os irmãos Safidie parecem estar brincando o tempo todo com a trama, como se fossem jazzistas improvisando.

"Improviso" é uma das palavras-chave do filme, já que tudo que Connie faz naquela noite maluca de tentativa de fuga da polícia e de resgate do irmão que é preso na perseguição pós-assalto, tudo que ele faz é improvisado, pensado de última hora. Como se o próprio roteiro não tivesse sido pensado com um final em mente, como se os personagens tivessem ganhado vida e encontrassem outros personagens vivos pelo caminho. Tal é a vivacidade do filme, que conta com uma fotografia nervosa e em tons bem quentes de Sean Price Williams e uma trilha sonora de sintetizadores bastante presente. Um baita filme de ação e suspense, mas com um elemento humano admirável e por vezes tocante, que dá voz a um grupo e a uma geografia marginalizados de Nova York.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

OS PARÇAS

Ultimamente vivemos um momento em que os sucessos de bilheteria em geral são bem recebidos tanto pelo público quanto pela crítica. Até pouco tempo atrás havia um abismo entre a preferência da audiência e a dos críticos. Esse tipo de abismo talvez retorne com OS PARÇAS (2017), que tem cara de ser um sucesso popular, herdeiro da tradição das antigas chanchadas, mas levando para São Paulo o humor cearense que conquistou a muitos com CINE HOLLIÚDY (2013), mas que perdeu um bocado da graça em O SHAOLIN DO SERTÃO (2016).

Coincidência ou não, Halder Gomes não destacou sua obra pregressa nas propagandas de sua nova comédia - temendo associações? - preferindo apostar na popularidade das imagens de Tom Cavalcante, Tirullipa e Whindersson Nunes, ou seja, um comediante já considerado veterano e dois da nova geração. Em se tratando dos dois novos, é bom dizer, nem se trata de um novo humor. É o mesmo humor um tanto rasteiro utilizado em shows de comédia para turista ver, mas que continua sendo eficaz e relaxante - embora talvez incômodo para certas audiências.

Aliás, em alguns momentos, é possível se sentir em um desses shows da comédia cearense, como na cena da piada sobre o menino cearense (de cabeça chata) e o menino paulista (de cabeça comprida). Nem é uma piada nova, inclusive, mas funciona bem naquele momento em que o filme já havia conquistado o espectador com seu humor próximo do ingênuo, mesmo falando de um grupo de picaretas.

Na trama, devido a uma confusão com o gerente de uma loja de eletrodomésticos, o vendedor Toinho (Tom Cavalcante) acaba correndo junto com um monte de gente, numa confusão que junta polícia, vendedores de rua, um rumor de que o rapa estaria chegando para tomar o material dos ambulantes, e, no meio disso tudo, os parceiros vigaristas Ray Van (Whindersson Nunes) e Pilôra (Tirullipa) se juntam a Romeu (Bruno de Luca) para trabalharem em uma firma de casamento fajuta, que teria como primeiro cliente a filha de um poderoso e perigoso mafioso local (Taumaturgo Ferreira). A filha é vivida pela bela Paloma Bernardi.

Um dos méritos de OS PARÇAS é saber conquistar o espectador que não tem preconceito com um tipo de humor mais vulgar a entrar na brincadeira. Ou seja, até mesmo as referências que o filme traz são extremamente populares, qualquer pessoa nascida no Brasil conhece, como é o caso de Fábio Jr. e É o Tchan, os artistas que supostamente estarão presentes no casamento do ano, como é assim considerado nos tabloides. Como se trata de uma comédia de confusões, há espaço para tudo, levando em consideração que os rapazes não têm grana para bancar um casamento chique e vão ter que improvisar.

E improvisar talvez seja um dos verbos que mais combinam com OS PARÇAS, já que o filme em si não parece ter sido bem pensado. Está mais para um encontro de amigos que topou fazer parte de um projeto descontraído e descompromissado, ainda que em alguns momentos seja possível lembrar de comédias americanas como A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO, como é o caso da cena do talco.

Também não é nenhuma novidade juntar quatro caras atrapalhados, sendo que um deles é o que se aproxima de um galã. Já se fazia isso em Os Trapalhões. Mas o bom é que a química do grupo funciona. Nenhum deles separado talvez rendesse um bom filme (o próprio Tom Cavalcante não teve um grande sucesso solo na televisão, como tiveram seus conterrâneos Renato Aragão e Chico Anysio), mas juntos conseguem fazer do novo trabalho de Halder uma diversão que pode até trazer de volta um público que esteve afastado do cinema brasileiro pelo mesmo motivo que deve afastar outro tipo de audiência: o preconceito.

segunda-feira, novembro 27, 2017

NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO

O novo filme de Felipe Bragança parece ser cheio de boas intenções. Gosto de como ele divide por capítulos a sua narrativa, com letras grandes e de destaque e títulos chamativos. A trilha sonora meio anos 80, com uso de sintetizadores, também contribui para algo elegante e retrô (está na moda, não é?). Mas tudo isso parece algo que funcionaria melhor com uma melhor condução na direção. A carreira de Bragança como cineasta até agora não emplacou, pelo menos não dentro de um circuito mais amplo. Mas é compreensível que ele queira um tom diferente, e nisso está a sua principal qualidade.

Seu NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO (2017) é uma obra irregular, que aproveita o talento e experiência de dramaturgia de Cauã Raymond, que manda muito bem nas cenas com a família (com o irmão menor e com a mãe), mas seu estilo de atuar acaba ficando um pouco contrastado com o trabalho menos naturalista de interpretação dos atores jovens e pouco experientes. O resultado é uma obra torta do ponto de vista da atuação, e que não chega a passar o sentimento que parece querer passar, seja o amor imenso do pequeno Joca (Eduardo Macedo) pela indiazinha paraguaia da fronteira (Adeli Gonzales), seja a relação de Fernando, o personagem de Cauã, com o ambiente hostil que o cerca.

Este ambiente hostil traz como cenário principal uma guerra entre gangues de motoqueiros: de um lado um grupo de brasileiros do Mato Grosso do Sul com pinta de fascistas; do outro, um grupo de paraguaios-guaranis que têm visto todos os dias corpos dos seus serem desovados no rio Apa, o rio que separa o estado brasileiro do país. Bragança parece querer dar à trama um ar de fábula, a exemplo do que havia feito com A ALEGRIA (2010), ainda mais estranho e menos palatável.

Essa história de amor e ódio tem os seus momentos. Há algo de ACOSSADO no momento em que o garotinho, inebriado pelo amor que sente pela jovem índia, conta algo sobre o irmão. Essa é uma das melhores cenas do filme. Mas é uma pena que ela pareça deslocada em uma obra que parece optar pelo distanciamento das emoções. Ou trazê-las através da estranheza, quem sabe.

sexta-feira, novembro 24, 2017

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night)

Hoje a notícia do casamento da mãe de uma amiga minha me fez lembrar deste filme que eu vi há algumas semanas. Também me fez lembrar de meu avô, que depois que minha avó morreu tratou de seguir em frente e não quis ficar sozinho: casou-se de novo. A solidão deve doer mais na terceira idade. Ainda não cheguei lá para saber, mas do jeito que o tempo passa rápido não deve demorar tanto assim. Pois bem. O filme em questão é NOSSAS NOITES (2017), de Ritesh Batra, lançado direto no Netflix.

O diretor indiano tem em seu currículo outra história de amor belíssima, LUNCHBOX (2013), envolvendo amor por correspondência. Em NOSSAS NOITES temos um homem e uma mulher, ambos idosos, ambos viúvos, que começam a dormir juntos. É até estranho falar a palavra "idoso" quando estamos falando de Robert Redford e Jane Fonda, mas acho que eles não se importariam. Até porque já assumiram o efeito do tempo. Redford, inclusive, parece curtir bastante suas rugas.

Na trama, Jane Fonda é Addie Moore, uma mulher que resolve ser direta. Vai até a casa de seu vizinho Louis Walters (Robert Redford) e faz a proposta: ele topa ou não topa passar a dormir na casa dela, pelo menos para efeito de experiência? A ideia nem é fazer sexo, mas apenas ter alguém junto na cama, para conversar antes de dormir, alguém que seja interessante. E ela acha Louis interessante. O sexo, o amor, e tudo o mais poderiam aparecer depois, se tudo funcionasse.

Louis fica um pouco chocado com a proposta, mas depois de muito pensar resolve entrar na casa de Addie, ainda que inicialmente pela porta dos fundos. É muito bom ver como o filme lida com a relação dos dois, esse tatear em busca de uma intimidade que nem existia antes, mas que deve passar a existir à medida que eles forem se conhecendo. Esse tipo de relação é mais comum do que se imagina e é feita por pessoas que sabem que não têm tempo a perder. Os mais jovens têm a mania de deixar escapar o tempo, gastando a energia bestamente.

NOSSAS NOITES não inventa a roda e não é uma história de amor fora do comum, do ponto de vista formal. Mas é tão bem conduzida em sua narrativa, com o cuidado já conhecido por Batra com as palavras e os silêncios, que vale ver. Além do mais, estamos falando de um filme estrelado por dois dos maiores astros da Nova Hollywood. Os dois já haviam trabalhado juntos em outros três trabalhos: CAÇADA HUMANA (1966), de Arthur Penn; DESCALÇOS NO PARQUE (1967), de Gene Saks; e O CAVALEIRO ELÉTRICO (1979), de Sydney Pollack. Não vi nenhum dos três. :/

quarta-feira, novembro 22, 2017

A TRAMA (L'Atelier)

Embora tenha uma filmografia relativamente curta, tem se percebido desde já o interesse de Laurent Cantet em questões sociais. Seu filme de maior fama é o que lhe deu a Palma de Ouro, ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (2008), um retrato incômodo e barulhento da rotina de um professor de uma escola pública em uma França que convive com múltiplas etnias e que parece estar em constante atrito. O filme aconteceu antes dos vários ataques terroristas que se tornaram rotina no país.

Falar sobre etnias e ao mesmo tempo citar os ataques terroristas é por si só algo perigoso. Seria como se estivéssemos atribuindo a culpa dos vários atos criminosos aos mulçumanos em geral, ou aos árabes como um todo, e isso é discutido com certa intensidade em A TRAMA (2017), novo filme de Cantet.

Na trama, acompanhamos o trabalho de uma novelista, Olivia (Marina Foïs) em um workshop para a realização em conjunto de um possível romance com vários jovens de diferentes etnias e posicionamentos políticos e sociais. Um dos meninos, Antoine (Matthieu Lucci), se destaca nas discussões, devido principalmente à sua tendência ligada à extrema direita e que o torna um tanto agressivo com alguns colegas.

Quando ele traz uma das tarefas da professora, que é escrever algo que possa servir de base e de nova discussão para a elaboração do romance, sua escrita incomoda as pessoas mais sensíveis. Para muitos, seu pequeno trecho de ficção sobre um banho de sangue em um iate chega a ser quase criminoso. Alguém diz que é como se o rapaz tivesse prazer quase sexual ao estar escrevendo sobre algo tão violento.

Como não vemos o filme apenas pelos olhos de Olivia, mas também um pouco da rotina de Antoine, somos convidados a também relativizar a figura do rapaz, que gosta de crianças e que é um tanto enigmático em sua solidão, em sua preferência por estar só naquela cidadezinha costeira. Ou seria a sua solidão não uma opção, mas algo imposto pelo seu destino?

O filme brinca com as várias possibilidades de se contar uma história nas discussões entre professora e alunos. Aos poucos A TRAMA opta por uma virada no enredo, que o aproxima de um suspense. Uma decisão inteligente, já que a discussão que o filme estava trazendo até então não estava parecendo levar a lugar nenhum com tantos jovens de opiniões diferentes que freavam as tentativas de evoluir algum aprofundamento. O caso da casa de espetáculos Bataclan, em Paris, é citado apenas superficialmente.

Em seu filme, Cantet aproxima-se de um rapaz que, confuso e com ideias não muito saudáveis de ódio e de tentativa de resgatar a "Europa para os europeus", pareceria um psicopata ou um terrorista em potencial. Mas, ao mesmo tempo que o vemos como alguém que preferimos manter distância, as palavras finais do rapaz chamam a atenção para a necessidade de cuidar, no sentido mais afetivo do termo.

segunda-feira, novembro 20, 2017

COLO

Se o cinema é visto pela maior parte dos espectadores como uma distração, algo para fugir da realidade dura da vida, o que dizer desses filmes que não se importam em não apenas mostrar mas nos colocar também dentro de realidades extremamente duras e cheias de desesperança? Mas o mais belo de tudo é perceber o quanto, mesmo assim, somos gratos à realizadora portuguesa Teresa Villaverde pela experiência sentimental e sensorial tão singular que ela nos presenteia com seu novo filme, COLO (2017), ainda inédito em circuito comercial em Portugal.

O próprio título traz uma palavra que é própria da língua portuguesa. Algo que remete a uma necessidade de conforto em momentos de carência. Quando a vida bate muito forte e estamos perto de não mais aguentar, queremos colo, queremos um pouco de alento para continuar seguindo.

A primeira cena importante do filme é um pouco a síntese ou a semente do que veríamos ao longo da narrativa: a adolescente Marta (Alice Albergaria Borges) volta desamparada para casa à noite e procura pelos pais e por jantar. Em vez disso, encontra um desesperançado pai (João Pedro Vaz) dizendo que sua esposa provavelmente não voltará mais para casa, não voltará mais para ele. A cena é carregada de um misto de tensão, angústia e um ar intrigante, acentuado pelas cores dos interiores fotografados lindamente pelo veterano Acácio de Almeida.

A mãe (Beatriz Batarda) reaparece, contando ao marido o motivo do atraso: ela havia conseguido um novo emprego, à noite, que aquilo era uma notícia boa, pois traria um pouco mais de dinheiro para aquela casa, necessitada. O pobre homem desempregado e já perdido em um mundo de desesperança volta para casa sem conseguir ainda processar muito alívio pela volta da esposa.

Embora a mãe apareça como alguém forte, esforçada e que se torna, contra a própria vontade, a única provedora da família, trabalhando três turnos, é Marta e seu pai, em seus caminhos mais à deriva, que COLO acompanhará com mais ênfase. A menina está passando por uma fase difícil, pelo abandono do namorado, mas é pelo desarranjo familiar e o esfacelamento daquela instituição que ela se tornará mais triste. Ela pergunta à mãe o que está acontecendo com aquela família.

Enquanto isso, também vemos a jornada de declínio de um homem que é despido de sua honra masculina de provedor, não conseguindo emprego algum por muito tempo, e passando por situações de humilhação, que ele parece aceitar, como forma de atenuar algum sentimento de culpa que talvez atormente o espírito, já que o papel do homem da casa lhe está sendo negado. Sem dinheiro, sem amigos, sem contatos, com a ausência da esposa, ele consegue encontrar algum alívio na figura de outra adolescente, a colega de escola da filha que aparece grávida.

Ler tudo isso faz parecer que estamos diante de um filme carregado de exageros na sentimentalidade. De certa forma, até é possível lembrar de alguns trabalhos de realizadores que trabalham ricamente com o melodrama, como Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar, mas o que Teresa Villaverde faz é diferente. Ela prefere os silêncios aos diálogos. Os silêncios casam melhor com o sentimento que fica entalado na garganta, como se até o chorar fosse negado aos personagens e ao próprio espectador.

É admirável o modo como o filme constrói pinturas emmolduradas: as imagens dos quartos mostrados do lado de fora do apartamento; o que vemos através de janelas, como os animais vistos na casa da avó; ou a visão da paisagem vista de dentro da casinha onde vai parar a protagonista. As molduras parecem prisões, e prisões servem também para matar aos poucos. Como mata o pequeno passarinho de Marta, que fica doente na gaiola, talvez contaminado pelo clima pesado daquela casa.

O contraste entre a beleza da fotografia e da direção de arte e a dor e a desesperança dos personagens não é algo que incomode. Ao contrário: o mundo não deixa de ser belo quando as pessoas passam por situações de desencanto.O sentimento, aliás, fica ainda mais acentuado, como se alguém dissesse: o mundo é belo, mas tu não terás o direito de desfrutá-lo.

sexta-feira, novembro 17, 2017

21 CURTAS VISTOS NO 16º NOIA

Tive a honra pela segunda vez de fazer parte este ano do júri do Noia, o Festival Universitário de cinema que movimenta realizadores de universidades de vários estados do Brasil. Como demorei muito a escrever sobre os filmes, vou ter que me limitar a pequenos comentários. Peço desculpas mais uma vez, mas o tempo e a saúde não contribuíram muito com o bom andamento do blog. Mas não percamos tempo.

ADMIN/ADMIN

Um estudo interessante sobre as imagens de câmeras de segurança e como elas causam tensão dentro de um registro de cinema, ADMIN/ADMIN (2017) foi dirigido pelo coletivo composto por Augusto Daltro, Bebeto Junior, Camila Gregório, Iago Cordeiro Ribeiro, Erick Lawrence e Maria Clara Arbex. É inventivo no uso de imagens pré-existentes e no trabalho de montagem, embora não incomode tanto quanto talvez fosse a intenção.

SIMBIÓTICA

Os estudantes da UFC Gabriel Marques e Letícia Medina fizeram em SIMBIÓTICA (2017) uma espécie de ficção científica kitsch retrô muito bonita, com destaque para a direção de arte. Ainda brinca com o aspecto ridículo do mundo dos youtubers. Uma cena em particular remete a A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowsky. Eu entrei na viagem e curti a brincadeira.

MERCADORIA

A fotografia de MERCADORIA (2017, foto), de Carla Villa-Lobos, parece ser propositalmente suja, assim como todo o ambiente. Talvez para enfatizar o espírito um tanto incômodo de um ambiente de prostituição underground. Há uma intenção de pautar a discussão sobre a vida das profissionais do sexo. É um dos melhores curtas da seleção. Foi o escolhido pelo júri da crítica.

FERVENDO

O começo de FERVENDO (2017), de Camila Gregório, mostra imagens de celular da protagonista, uma jovem negra que passa o tempo todo dentro do banheiro tentando resolver um problema. Interessante o local escolhido e os embates com a geração do avô e as especificidades da nova geração e as tecnologias. Mesmo quando o drama é universal e quase atemporal.

POR QUE NÃO? 

O curta POR QUE NÃO? (2016), de Lucas Memória, trata da dificuldade de mercado de trabalho para os travestis. O filme tem a vantagem de ter conseguido duas personagens muito boas para entrevistar. Mas é estranho focar apenas em duas. Tem cara de render um longa melhor e mais bem acabado. A personagem Aila é fascinante. Em certo momento ela diz: "Como se adequar fisicamente ao que ela quer ser ganhando um salário mínimo?"

LUIZA

Um filme que cresce à medida que vamos entendendo a situação da menina com deficiência mental (não fica claro qual é o problema dela) e que está namorando um rapaz, LUIZA (2017), de Caio Baú, nos faz perguntar: a partir de que idade o namoro dessa menina pode evoluir para algo mais íntimo e quando será o momento para os dois casarem?

SAM

Filme de olhares e gestos e que também sabe ser sintético em suas intenções, em SAM (2017), de Miguel Moura e Julia Souza, a câmera se interessa mais pela menina calada e pelo amor/desejo que ela sente pela colega de escola. Há alguns momentos bem inspirados. E a cena de sexo, discreta, das duas meninas é bonita de ver.

ALGUM ROMANCE TRANSITÓRIO

Concentrando-se basicamente no drama de um jovem que encontra um homem mais velho e mantém uma relação de sexo, ALGUM ROMANCE TRANSITÓRIO (2017), de Caio Casagrande, aos poucos vai mostrando seu protagonista procurando seu lugar, sua liberdade e enfrentando as complexidades da vida. Interessante o diálogo/monólogo com a amiga. Quando ela fala e permanece sempre calado.

VELHA CASA

Acho que VELHA CASA (2016), de Pedro Clezar, foi um dos mais prejudicados pela projeção ruim. Tem tudo para ter uma dessas fotografia bem bonitas, com destaque para as paisagens. Gosto do quadro parado da casa, mas acho um pouco problemática a narrativa. Ainda assim, é bom de ver.

ENQUANTO CALAM-ME OS AGUDOS

Interessante como exercício de falar sobre várias coisas ao mesmo tempo este ENQUANTO CALAM-ME OS AGUDOS (2017), de Laís Perini, Laysa Elias e Letícia Bina. Das estrelas no céu ao feminismo, passando por uma reflexão sobre a cidade de São Paulo. Podia ser mais focado, mas vai ver a intenção era ser assim plural mesmo. Sabe lá.

LUTO

Interessante a construção da atmosfera e o poder de síntese de LUTO (2017), de Edu Camargo, um curta bem curto dividido em três atos explicitamente intitulados. Gosto da cena da escuridão tomando de conta. Na parte técnica, porém, há problemas de som. Às vezes não dá pra entender o que as personagens estão dizendo. Umas legendas ajudariam.

PERAMBULAÇÃO

Brincadeira divertida sobre um sujeito que quer se livrar dos pesadelos recorrentes e estranhos. Pena que a gente só percebe que é uma comédia lá pelo meio. Mas tá valendo. PERAMBULAÇÃO (2017), de Samuel Peregrino, é um dos mais divertidos do festival, se a intenção for fazer rir.

HABILITADO PARA MORRER

Por falar em fazer rir, o que é este HABILITADO PARA MORRER (2017), hein? Um sarro. O filme de Rafael Stadniki Morato Pedreira começa bem estiloso e com uns efeitos especiais bem interessantes, tentando emular filmes policiais. Depois sacamos que é uma comédia bem escancarada e que rendeu uma das melhores cenas de sua noite. Podia ser menos atrapalhado na narração, tendo tantos personagens pra dar conta. Mas acho que isso não era preocupação do realizador.

DUMMIES

Apesar de um tanto incômodo, DUMMIES (2017), de Bruno Barrenha, é um filme bem divertido e engraçado. A busca por humanização dos bonecos usados para testes de acidentes de automóveis é bem inventiva. Há umas passagens geniais, eu diria. Pena que é irregular.

OS ANOS 3000 ERAM FEITOS DE LIXO (QUANDO A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA SE AFOGOU NO CHORUME ESTÁTICO DA ARTE DA HIPOCRISIA)

Esse tinha torcida organizada e a porralouquice toma de conta. Para o bem e para o mal. OS ANOS 3000 ERAM FEITOS DE LIXO (QUANDO A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA SE AFOGOU NO CHORUME ESTÁTICO DA ARTE DA HIPOCRISIA), de Cleyton Xavier, Clara Chroma e Ana All, é o tipo de filme que faz com que a gente pare de fazer anotações. Entenda isso como quiser. :)

TERREIROS

Embora seja bonito em algumas falas e cantos, falta foco em TERREIROS (2017), de Felipe Lovo e Maurício Santos . Não sabemos se é sobre a mãe de santo que foi para o Paraguai, sobre o orixá Exu ou sobre a cultura do candomblé em geral.

LAMBARI

O meu favorito do festival, embora não tenha sido o escolhido pelo júri. Acho que até a fotografia meio feia (ou era a projeção ruim, não sei) de LAMBARI (2016), de Rodrigo Freitas, contribui para o efeito de horror da lama tóxica que acabou com a rotina e a alegria de um senhor de uma cidadezinha. O filme tem as suas fragilidades, mas o diretor ainda compensa com o personagem principal cantando uma música do Lupicínio Rodrigues. Emocionante.

SINTERA

É triste ver essa movimentação bonita das ocupações nas escolas do ano passado não ter surtido efeito. Pelo menos não agora, já que o governo está fazendo o que quer nessas reformas do ensino. SINTERA (2017), o filme de Fellipe Farias, em si é um pouco sem força. Mas vale para lembrar de momentos mais esperançosos de nosso país.

MUROS

Criativa a ideia de pegar imagens do Google Earth para contar essa história do muro do Campus do Pici (UFC) que serve para afastar a universidade dos habitantes das imediações. MUROS (2016), de Pedro Palácio e Sunny Maia, procura meter o dedo na ferida do abismo de classes em Fortaleza e muitas vezes consegue.

FORA DE QUADRO

Um exemplo de filme com uma ótima ideia mas que renderia muito melhor se tivesse feito mais entrevistas e selecionado melhor seus personagens, esse FORA DE QUADRO (2016), de Txai Ferraz. A ideia de buscar memórias a partir de fotos e de dar espaço para a fala dos habitantes de um determinado lugar humilde do Recife é bem bacana. Lembra os pontos de partida de alguns filmes do Eduardo Coutinho. E gosto especialmente de uma das entrevistas.

VAZIO DO LADO DE FORA

É o mais sofisticado dos filmes exibidos (tanto que foi parar em Cannes), mas VAZIO DO LADO DE FORA (2017), de Eduardo BP, não me ganhou, embora valorize sua mise-en-scene e seu trabalho de direção de arte. Foi um filme bastante prejudicado pela projeção ruim da Caixa Cultural.

quinta-feira, novembro 16, 2017

LIGA DA JUSTIÇA (Justice League)

Não dá para disfarçar que a DC anda correndo desesperadamente em busca do tempo perdido, para tentar acompanhar o ritmo de sua arquirrival Marvel, que já está bem adiantada em seu universo compartilhado no cinema e já está podendo se dar ao luxo de produzir filmes sobre heróis pouco conhecidos do grande público, como o Doutor Estranho e o vindouro Pantera Negra, por exemplo. Enquanto isso, o máximo que a DC fez foi um filme (equivocado) do Esquadrão Suicida, meio que sem muita ligação direta com os outros três títulos do universo compartilhado, O HOMEM DE AÇO (2013), BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA (2016) e MULHER-MARAVILHA (2017).

A primeira aparição do trio que daria a origem à Liga da Justiça não foi muito bem aceita por muitos críticos e também por vários fãs. O que não quer dizer que não exista um seleto time de admiradores do filme de Zack Snyder, o principal diretor das produções da DC para o cinema. Inclusive, o diretor quase não assinou LIGA DA JUSTIÇA (2017) devido à morte de sua filha, no começo de 2017. Mas, devido a problemas nos bastidores com o substituto Joss Whedon, que aparece como um dos roteiristas creditados, acaba voltando para tomar conta deste passo tão importante para os heróis mais icônicos dos quadrinhos.

Há, porém, algo que diferencia LIGA DA JUSTIÇA dos outros filmes do Universo Compartilhado da DC: o humor. Ele surge como uma estratégia de convidar mais espectadores para o filme, inclusive crianças. A ideia de um mundo mais sombrio, que também é uma característica do próprio estúdio, a Warner, e que foi abraçada até mesmo no filme do Superman, e que é uma das marcas de Snyder (quase um inimigo das cores vivas), essa ideia passa a entrar em atrito com a necessidade de usar a mesma arma do inimigo, a Marvel, que tem conquistado muito espectadores com filmes bem-humorados.

Logo, se por um lado, Snyder parece se vender em prol dessa busca dessa necessidade de fazer um trabalho mais popular, por outro o humor em LIGA DA JUSTIÇA até funciona mais do que em muitos filmes da Marvel, que parece quererem forçar os risos do espectador (isso é muito presente nos dois GUARDIÕES DA GALÁXIA, por exemplo). Assim, se o humor já funcionou naturalmente bem em MULHER-MARAVILHA, também funciona nesta reunião do grupo.

Sim, LIGA DA JUSTIÇA acaba funcionando melhor quando brinca com a reunião do grupo. O filme é divertido nesses momentos. Infelizmente há um desses vilões chatos, genéricos e megalomaníacos que parecem só servir para cumprir a obrigação de haver um super-vilão em um filme de super-heróis na trama. Por mais que tenham resgatado o Lobo da Estepe da grande obra de Jack Kirby para o universo da DC dos anos 1970, essa informação infelizmente não o torna mais interessante. É tão ruim ou pior do que Ares no filme da Mulher-Maravilha.

Há coisas positivas em LIGA DA JUSTIÇA, porém. A primeira delas é Gal Gadot brilhando pela terceira vez como a princesa amazona. Quanta beleza, graça e nobreza essa atriz passa para a heroína. Outra coisa positiva está também na escalação do elenco: Ezra Miller, como Barry Allen, o Flash, funciona que é uma beleza como o palhaço involuntário da equipe. E há o memorável primeiro encontro do renascido Superman com a equipe, principalmente com o Batman. A piada interna relativa ao primeiro filme é de fazer o público rir e aplaudir. Bela sacada, provavelmente pensada por Whedon.

No mais, há também coadjuvantes bem luxuosos no elenco de apoio: Amy Adams, Jeremy Irons, J.K. Simmons, Connie Nielsen, Diane Lane, Billy Crudup. São mal aproveitados, claro, em um filme de apenas duas horas de duração, mas suas participações são bem-vindas nos papéis que lhes foram incumbidos. Ben Affleck como Bruce Wayne/Batman continua mandando muito bem. Já Henry Cavill está estranho: mais magro e às vezes o CGI que fizeram para retirar digitalmente a barba de seu rosto não funciona muito bem.

Entre prós e contras, LIGA DA JUSTIÇA é aquele filme que poderia ter sido glorioso se fosse melhor pensado e desenvolvido, mas que também não faz tão feio assim se as expectativas forem baixas, coisa que o próprio trailer meio que antecipa.

segunda-feira, novembro 13, 2017

A NOIVA (Nevesta)

Ver um filme de horror de gosto duvidoso (não necessariamente ruim) é uma arte que deve ser cultivada. O gênero é pródigo em trazer variedades de opiniões e intensas paixões. Lembro o quanto os hoje cultuados filmes de horror italianos eram tão mal recebidos: ou com pedradas ou com ignorância pela maior parte da crítica. Não era todo mundo que via um filme de Lucio Fulci, por exemplo, como uma obra-prima. Esse tipo de revisão veio acontecer com mais força na virada do milênio, principalmente, com o culto de vários especialistas do gênero e a cada vez maior aproximação da crítica.

Daí chegar em uma sala de cinema e ver um filme de terror russo dublado em inglês é algo quase inusitado. A dublagem em inglês, vale destacar, é tão vagabunda que percebemos as diferentes fontes de áudio em diálogos entre personagens pelos ruídos de fundo. Claro, queríamos que fosse diferente: por pior que possa ser A NOIVA (2017), terceiro longa-metragem de Svyatoslav Podgaevskiy, o filme poderia se beneficiar de seu áudio original em russo.

Entre seus acertos, só o ponto de partida já é carregado de uma morbidez perturbadora: o fato de certas famílias pintarem olhos nas pálpebras fechadas de seus mortos a fim de que, na fotografia, suas almas não os abandonem é de chamar a atenção. Não é o primeiro filme que fala de fotografias de mortos. Todos devem lembrar do ótimo OS OUTROS, de Alejandro Amenábar, que destacou esse costume que foi de fato celebrado no passado.

Mas A NOIVA é mais inventivo, ao colocar essa questão dos olhos pintados e da transferência dos espíritos para uma virgem. Assim, no prólogo do filme, que acontece no final do século XIX, há essa tentativa de transferência do espírito de uma noiva para uma outra jovem que é tomada à força de seu lar e enterrada viva, vestida de noiva. Essa história em si poderia ser melhor explorada e contada, como uma boa história gótica de horror. Em vez disso, o filme prefere dar um salto para o mundo contemporâneo.

Na trama principal, uma moça é convidada a finalmente conhecer a família de seu noivo, que até então evitara o contato com seus pais. O encontro com a família dele acontece em um vilarejo afastado e longe de tudo e logo percebemos que essa família guarda segredos bem peculiares, como um quarto onde mora uma pessoa que nunca sai de lá. Mas a coisa fica incômoda mesmo para a personagem quando o noivo desaparece e ela não sabe o seu paradeiro.

Um dos destaques positivos do filme é a forma como é explorada a casa, cheia de paredes falsas que supostamente seriam dutos de ventilação, mas que nos apresentam a um lugar maior e mais curioso. Outro momento que podemos listar como sendo bom é uma cena que ocorre à noite, quando a moça segue uma das familiares do noivo e acaba descobrindo o que não devia. O movimento de câmera e o sentimento de medo no ar poderiam muito bem caber em um filme de horror de melhor qualidade, até pela boa fotografia e direção de arte. 

Infelizmente, o ritmo pouco animador e os sustos fáceis inspirados em clichês do horror ocidental, acabam por tornar A NOIVA em algo tão vulgar quanto algumas das piores produções recentes. O que o torna diferente é justamente esse quê exótico que faz com que seja possível, com um pouco de boa vontade, enumerar uma série de momentos em que um bom filme poderia muito bem estar ali presente, caído entre as tantas falhas.

quinta-feira, novembro 09, 2017

O ESTADO DAS COISAS (Brad's Status)

Tem sido interessante essa virada na carreira de ator de Ben Stiller da comédia para o drama (ou para a dramédia, ao menos). Ele tem feito, em geral, tipos inseguros que funcionam como uma evolução no que ele já fazia nas comédias. Pode-se dizer que esta nova fase começou em A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY, dirigido pelo próprio Stiller, passou por ENQUANTOS SOMOS JOVENS, de Noah Baumbach, e chega agora com este novo O ESTADO DAS COISAS (2017), de Mike White, realizador que tem uma carreira mais extensa como roteirista e aqui se aventura em sua segunda experiência na direção.

É mais um filme em que Stiller interpreta alguém em crise de meia-idade. Na verdade, não há nada de errado com a vida de Brad Sloan (Stiller). Ele trabalha em uma empresa sem fins lucrativos, é casado com uma mulher encantadora (Jenna Fisher) e agora está ajudando o filho inteligente e educado (Austin Abrams) a entrar em um novo e excitante momento de sua vida: entrar na universidade. O problema de Brad é que ele tem a mania de ficar comparando suas realizações com as de seus colegas de escola, que se tornaram milionários e famosos.

O ESTADO DAS COISAS é um filme que deve ser visto sem muita expectativa, até por ser mesmo uma obra pequena e sutil em suas emoções. É também um filme bem engraçado, por mais que os pensamentos do protagonista sejam tão perturbadores para ele que cheguem a ser quase doentios. No entanto, é muito fácil encontrar espectadores que se identificarão de alguma forma com Brad Sloan.

Um dos destaques do filme – e que pode incomodar a alguns – é o uso intensivo do voice-over do protagonista, em um trabalho muito bom do fluxo de consciência, apresentando monólogos ora divertidos, ora amargos, sobre a vida. Um dos méritos do filme é saber ser honesto consigo mesmo, não deixando de explicitar as falhas de seu herói. Essas falhas estão ali à sua frente, como se houvesse um véu cobrindo seu olhar. Daí ele receber uma resposta tão boa da jovem garota universitária, que o considera um egocêntrico que não sabe a sorte que tem, ao ouvir suas lamúrias.

Entre os pensamentos de destaque do personagem, estão os momentos de sonho, ao visualizar, por exemplo, o filho sendo aceito na Universidade de Harvard em um momento de celebração em família; porém, o próprio personagem começa a ter pensamentos sombrios que o põem para baixo novamente, como a possibilidade de ele ter inveja do próprio filho, que poderá ser tão melhor do que ele jamais foi capaz de ser na vida.

As cenas de Brad desejando as jovens meninas também são hilárias, bem como o modo como ele imagina o amigo de escola que hoje vive aposentado e morando com duas garotas em uma praia havaiana. Curioso, aliás, como a praia sempre aparece como um lugar de sucesso na vida. Muito bom também o encontro com o agora famoso e arrogante apresentador de televisão vivido por Michael Sheen, um ator que funciona muito bem para fazer tipos assim, vide o recente DE VOLTA PARA CASA, com Reese Witherspoon.

Se há algum problema com o filme talvez seja a timidez com que o diretor utiliza as cenas dramáticas, talvez com medo de transformar o seu filme inteligente em um dramalhão, especialmente nos momentos de emoção intensa do personagem de Stiller. Ainda assim, do jeito que ficou, é um prazer do início ao fim poder ver uma obra como O ESTADO DAS COISAS.

quarta-feira, novembro 08, 2017

SETE COMÉDIAS BRASILEIRAS

Algo que está chamando a atenção atualmente é a quantidade de filmes brasileiros sendo lançados semanalmente no circuitão, ou seja, nos cinemas de shopping. Embora a preferência pelo público ainda seja a comédia, tem sido cada vez mais comum o ingresso de filmes dos mais diferentes gêneros. Mas falemos de sete comédias que estiveram em cartaz em 2017. Infelizmente, a maioria delas é ruim ou medíocre.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 - O FILME

A sequência de MINHA MÃE É UMA PEÇA - O FILME (2013) resultou melhor do que o esperado. O diretor César Rodrigues se saiu melhor do que seu antecessor na sequência MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 (2016), tornando a personagem de Dona Hermínia (Paulo Gustavo) não apenas mais simpática, mas muito mais divertida. Há algumas partes em que percebemos, inclusive, um cuidado bem especial com a direção de arte e um quê de Almodóvar na construção da comédia junto ao melodrama. Algumas tiradas são geniais, como a cena em que o filho diz que acredita que é heterossexual e a mãe fica logo revoltada. Embora Paulo Gustavo esteja inspirado como Dona Hermínia, Rodrigo Pandolfo e Mariana Xavier, como o casal de filhos, também brilham em diversos momentos. Por enquanto é o grande campeão de bilheteria de 2016/2017 e um dos maiores de todos os tempos no Brasil.

NINGUÉM ENTRA, NINGUÉM SAI

Há quem tenha gostado deste NINGUÉM ENTRA, NINGUÉM SAI (2017), de Hsu CHien Hsin, principalmente a crítica carioca, mas na verdade trata-se de uma grande bobagem que até surge de uma ideia simpática: um grupo de pessoas distintas estão presas em um motel, impedidas de sair. O problema do filme é o mesmo de tantas comédias que tentam fazer graça e não conseguem. Aí fica aquela sensação incômoda. Ao menos, há a participação especial de Sidney Magal, sempre muito simpático e trazendo alegria. No elenco, há dois atores do Porta dos Fundos que poderiam ter sido melhor aproveitados, Rafael Infante e Letícia Lima.

UM TIO QUASE PERFEITO

Para um filme que parece bem bobo, até que UM TIO QUASE PERFEITO (2017), de Pedro Antonio, é uma simpatia. O diretor é o mesmo de outra obra que merece a espiada, TÔ RYCA! (2016), que brinca também com a falta de dinheiro. Na trama do novo filme, Marcus Majella é o tal tio do título, um sujeito que vive a vida enganando os outros ou tentando maneiras criativas de ganhar alguns trocados, e que, para não ficar sem teto, acaba parando na casa da irmã, e começa a se relacionar (muito bem) com seus sobrinhos. As situações são divertidas e há até um bom momento mais dramático perto do final. Diria que o saldo é positivo.

MALASARTES E O DUELO COM A MORTE

Eis um dos filmes mais maçantes do ano. MALASARTES E O DUELO COM A MORTE (2017), de Paulo Morelli, ficou conhecido por ser a produção brasileira com o maior número de efeitos especiais. Mas de nada adianta se Morelli não consegue criar algo minimamente interessante. Quanto mais o filme adentra o território do fantástico, com Júlio Andrade como a morte, mais vai ficando enfadonho. Ao menos Isis Valverde combina bem com um tipo mais brejeira, mesmo não sendo a mais talentosa do elenco de estrelas. E Morelli nem tem a fama de ser um diretor ruim. Talvez não tenha é conseguido lidar com tanta produção e CGI neste projeto malfadado.

DIVÓRCIO

Um filme que agradou boa parte da crítica, DIVÓRCIO (2017, foto), de Pedro Amorim, não me convenceu, embora eu consiga ver algumas qualidades, principalmente com a presença cada vez mais à vontade de Camila Morgado em comédias. Na trama, ela e o marido vivido por Murilo Benício, enfrentam uma situação de rivalidade intensa no casamento. Pena que o melhor do filme esteja no trailer e não exista nada de realmente novo quando vamos vê-lo completo - talvez o prólogo criativo. Não deixa de ter uma boa condução narrativa, mas é muito pouco.

COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA

Quando pensamos que Danilo Gentilli, com sua crítica ao politicamente correto, vai trazer um filme que traga mais elementos das comédias clássicas de escola dos anos 1980, eis que o que vemos é algo imensamente tolo, e que ainda tem medo de mostrar nudez e coisas do tipo. Tudo bem que há uma cena perigosa envolvendo o personagem de Fábio Porchat, mas não chega a ser nada de mais, como ousadia. Engraçado é que os meninos protagonistas, até a chegada do personagem do Gentilli, estavam indo bem no filme. O personagem de Gentilli leva o filme para o precipício e a conclusão é tão besta que nem dá para acreditar. Mesmo assim, COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA (2017), de Fabrício Bittar, tem os seus momentos divertidos. É só não pedir muito.

A COMÉDIA DIVINA

Quem saiu indignado de uma sessão de COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA pode ficar impresssionado com A COMÉDIA DIVINA (2017), de Toni Venturi. Mas impressionado no pior sentido, já que o que vemos aqui chega a ser constrangedor, inclusive na forma. Uma pena, pois Monica Iozzi, com seu carisma e simpatia, merecia uma estreia nos cinemas melhor. Na trama, inspirada livremente no conto "A Igreja do Diabo", de Machado de Assis, o "coisa-ruim" em pessoa resolve vir à Terra para fundar a sua própria igreja, vendo agora que ele está totalmente desacreditado pela humanidade. O que parece ser uma premissa ok se revela uma bobagem sem tamanho em questão de poucos minutos. E Murilo Rosa com o diabo é um horror. Tentando pensar em uma sequência boa do filme... não consigo destacar uma que seja. Quanto mais se pensa, pior fica.

segunda-feira, novembro 06, 2017

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

É difícil, diante desta nova adaptação do clássico romance de Jorge Amado, não se lembrar da primeira versão, a de Bruno Barreto, lançada nos cinemas em 1976. Ambos são reflexos e produtos de seu tempo. O filme de Bruno Barreto foi produzido em um momento em que o erotismo no cinema brasileiro já estava se encaminhando para o seu auge da ousadia, que ocorreria na primeira metade dos anos 1980. É também um filme que tenta ser um pouco mais livre do texto do escritor baiano e talvez por isso flua melhor. Ter Sônia Braga como Flor e José Wilker como Vadinho também ajudou bastante.

O novo DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (2017), dirigido por Pedro Vasconcelos, que tem no currículo vários trabalhos para a televisão, inclusive a última telenovela das nove da Rede Globo, é também produto de nosso tempo, por parecer um bocado mais comportado no quesito sexo e nudez, graças talvez à maior consciência da chamada objetificação do corpo da mulher. Além disso, diminuiu bastante a cultura de ir ao cinema para ver a estrela da novela nua nas telas, embora Juliana Paes apareça sim sem roupa, embora de maneira tímida.

Outra questão quente e que pode ser colocada em pauta é a violência contra a mulher, vista em uma sequência rápida mas bastante incômoda de Vadinho (Marcelo Faria) agredindo a esposa para conseguir dinheiro para o jogo. É apenas um aspecto mais sombrio da personalidade do personagem, mas que depõe muito contra a figura aparentemente simpática do malandro brasileiro. O personagem recupera sua simpatia em outras passagens posteriores, mas não deixa de parecer uma espécie de encosto depois de morto: ao mesmo tempo em que traz prazer físico e sexual para Flor, também a escraviza, de certo modo. É uma abordagem um pouco mais pesada do que a dos anos 1970, nesse aspecto.

É nos aspectos formais, porém, que o filme procura disfarçar suas deficiências e não consegue convencer: o jogo de luz e sombras que Pedro Vasconcelos e seu diretor de fotografia utilizam para compor os interiores, assim como um ou outro ângulo que distancie a obra de uma telenovela, parecem um tanto forçados, embora façam alguma diferença. Mas de que adianta se o diretor não consegue evitar a repetição de temas musicais, algo próprio desse tipo de mídia? Nem mesmo escolhem canções menos manjadas.

Curioso o quanto o filme opta por dar a Flor um protagonismo tão forte que deixa seus dois maridos bem secundários. Não que isso seja um problema em si, mas talvez o personagem do segundo marido, Teodoro (Leandro Hassum), merecesse ser mais do que um paspalhão, longe da nobreza que perpassa o personagem quando vivido por Mauro Mendonça. Leandro Hassum, com seu humor físico típico, parece ter perdido muito da graça depois da cirurgia bariátrica, mas continua apostando no que costumava fazer.

O foco do filme passa a ser, então, o esforço de Flor de se distanciar do espírito de Vadinho, ao mesmo tempo que não consegue se livrar da tentação do desejo que a consome e que não é nem de longe satisfeito com Teodoro. Porém, o modo como o filme torna tão comprido o diálogo entre os dois faz com que esta nova adaptação pareça uma peça filmada. O próprio Marcelo Faria fez o Vadinho na montagem teatral por alguns anos e está acostumado com o personagem. Isso pode ser bom, mas no filme não parece ter um resultado tão positivo, mesmo com o esforço do ator e de Juliana Paes.

sábado, novembro 04, 2017

MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS / CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Dr.)

Como a revisão de MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS (2001) se deu depois de alguns anos, e muitos já viram o filme, eu vou tomar a liberdade de escrever um texto mais com anotações bem livres sobre o impacto desta revisão no cinema em mim, que foi um tanto diferente da primeira vez. Logo, não é um texto para ser lido por quem nunca viu o filme.

Fazendo um breve resumo da história, só para o texto não ficar tão solto, CIDADE DOS SONHOS conta a história de Betty (Naomi Watts), uma jovem que almeja se tornar uma estrela de Hollywood, e que está muito feliz de sair de sua cidadezinha do interior no Canadá para a ensolarada Los Angeles. Lá ela encontra uma mulher desmemoriada (Laura Elena Harring) no apartamento que a tia lhe reservou. Paralelamente, também conhecemos um diretor de cinema (Justin Theroux) que está sendo obrigado por um mafioso a aceitar uma atriz para o papel principal, sob pena de perder tudo o que tem na vida.

Na primeira vez que vi CIDADE DOS SONHOS, título originalmente escolhido pela distribuidora anterior e que deverá ficar como título mais aceito, creio eu, o filme foi recebido por mim como principalmente uma história de horror. Um horror que não dava muito bem para entender o porquê, algo bem parecido com o que aconteceu com ESTRADA PERDIDA (1997). Mas isso acontece principalmente porque o drama da protagonista não está claro na primeira leitura.

Desta vez, a segunda no cinema, passados 15 anos, o que fica mais forte é a questão da perda do grande amor, mais do que o medo, embora o medo seja algo também muito forte e que já comparece de maneira bem perturbadora na sequência da lanchonete, com aqueles dois homens conversando: um deles contando ao outro sobre sonhos que ele teve sobre aquele mesmo lugar, sobre algo muito aterrador e maligno que estava trazendo o mal para aquele ambiente. Revendo, podemos fazer uma ligação desta cena com a queda espiritual da personagem de Naomi Watts, com as decisões que a levaram ao inferno de sua alma.

E esse medo é também o medo de descobrir a verdade, já que há toda aquela construção de um sonho. Sonho de chegar a uma cidade em que uma pessoa pode se tornar uma estrela. Afinal, para que lugar mais representativo da fama e do sucesso do que Hollywood? No começo, a protagonista chega ao aeroporto, junto com aquele casal de velhinhos sinistros, e encontra, dentro da casa da tia, uma mulher linda, perdida, nua, desorientada, desmemoriada, e que se torna o grande amor de sua vida, naquela história que a mente ou o espírito que não está querendo aceitar a condição de fim elabora.

Por isso, uma das cenas mais bonitas é quando as duas fazem amor e Betty diz que está apaixonada por ela, e é uma sequência muito sensual também. Há dois sentimentos muito fortes naquele momento: o amor e o desejo, os dois juntos e potentes. Mais adiante, quando formos levados a um flashback da intimidade das duas na realidade, quando Diane já estava sendo rejeitada por Camilla, percebemos o quanto havia de sexualidade intensa naquela relação.

E, nesse sentido, voltando à questão do medo. Para que medo maior do que aquele medo misturado com uma tristeza muito, muito profunda, que é o que é mostrado na cena mais poderosa do filme, a do Clube Silenzio, quando Rita acorda de madruga e fala para ambas irem àquele lugar, lugar onde no hay banda. Há algo muito bonito dentro dos simbolismos de não haver uma banda tocando e no entanto há som, mas o que há de mais devastadoramente lindo é quando Rebekah Del Rio canta a versão de "Crying", de Roy Orbinson, "Llorando", que se torna ainda mais triste nesta versão em espanhol, mais carregada de sentimentalidade, mais fundo do poço da tristeza e da amargura.

E por mais que já tenhamos visto tantas vezes David Lynch nos carregar para caminhos tão sombrios e tristes da alma, nada se compara a esta sequência arrepiante, embora a primeira vez que vemos CIDADE DOS SONHOS não entendamos direito o que é aquilo ali, no momento em que está acontecendo.

Porém, uma vez que temos o filme na memória, tendo visto uma, duas ou três vezes, e vemos novamente, sabemos que aquele momento é o momento da revelação dolorosa que a protagonista tanto temia e não sabia, o momento em que caem por terra todas as ilusões. Sobra apenas o horror, o horror do que ela foi capaz de fazer. E aí passamos a entender o motivo de aquela restaurante representar algo tão maligno, já que é lá que foi feita uma transação que, segundo disse o próprio assassino contratado, uma vez feita, não haveria mais volta.

Com relação aos simbolismos, algumas coisas são um pouco difíceis de serem decifradas, mas nem tanto. Há muitas pistas fáceis. E quem já está acostumado com os trabalhos de Lynch, principalmente quem viu o novo TWIN PEAKS - O RETORNO (2017), e também TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992), sabe que tem algo de especial com relação à cor azul. Sempre que o azul aparece, ele tem um indicativo de algo misterioso.

E em CIDADE DOS SONHOS há a antológica caixa azul, que pode representar tanto a realidade nua e crua tomando de assalto todos os sonhos e ilusões, quanto algo de maligno também. A figura daquele mendigo lembra os homens sujos de carvão de TWIN PEAKS - O RETORNO, que na série são agentes do mal ou algo do tipo.

Enfim, ainda há tanto a se falar sobre CIDADE DOS SONHOS, como a cena em que Betty desaparece, como se as duas (Betty e Rita) tivessem se fundido. Aliás, a loira e a morena, o mistério e a verdade, a vida e a morte são elementos muito próximos de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. Eis um filme que não se esgota, e querer dar conta de decifrar os enigmas (como eu meio que tentei fazer, quase sem querer, pensando em voz alta) é querer diminuir uma obra cuja dor é o motor de partida.