sexta-feira, novembro 24, 2017

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night)

Hoje a notícia do casamento da mãe de uma amiga minha me fez lembrar deste filme que eu vi há algumas semanas. Também me fez lembrar de meu avô, que depois que minha avó morreu tratou de seguir em frente e não quis ficar sozinho: casou-se de novo. A solidão deve doer mais na terceira idade. Ainda não cheguei lá para saber, mas do jeito que o tempo passa rápido não deve demorar tanto assim. Pois bem. O filme em questão é NOSSAS NOITES (2017), de Ritesh Batra, lançado direto no Netflix.

O diretor indiano tem em seu currículo outra história de amor belíssima, LUNCHBOX (2013), envolvendo amor por correspondência. Em NOSSAS NOITES temos um homem e uma mulher, ambos idosos, ambos viúvos, que começam a dormir juntos. É até estranho falar a palavra "idoso" quando estamos falando de Robert Redford e Jane Fonda, mas acho que eles não se importariam. Até porque já assumiram o efeito do tempo. Redford, inclusive, parece curtir bastante suas rugas.

Na trama, Jane Fonda é Addie Moore, uma mulher que resolve ser direta. Vai até a casa de seu vizinho Louis Walters (Robert Redford) e faz a proposta: ele topa ou não topa passar a dormir na casa dela, pelo menos para efeito de experiência? A ideia nem é fazer sexo, mas apenas ter alguém junto na cama, para conversar antes de dormir, alguém que seja interessante. E ela acha Louis interessante. O sexo, o amor, e tudo o mais poderiam aparecer depois, se tudo funcionasse.

Louis fica um pouco chocado com a proposta, mas depois de muito pensar resolve entrar na casa de Addie, ainda que inicialmente pela porta dos fundos. É muito bom ver como o filme lida com a relação dos dois, esse tatear em busca de uma intimidade que nem existia antes, mas que deve passar a existir à medida que eles forem se conhecendo. Esse tipo de relação é mais comum do que se imagina e é feita por pessoas que sabem que não têm tempo a perder. Os mais jovens têm a mania de deixar escapar o tempo, gastando a energia bestamente.

NOSSAS NOITES não inventa a roda e não é uma história de amor fora do comum, do ponto de vista formal. Mas é tão bem conduzida em sua narrativa, com o cuidado já conhecido por Batra com as palavras e os silêncios, que vale ver. Além do mais, estamos falando de um filme estrelado por dois dos maiores astros da Nova Hollywood. Os dois já haviam trabalhado juntos em outros três trabalhos: CAÇADA HUMANA (1966), de Arthur Penn; DESCALÇOS NO PARQUE (1967), de Gene Saks; e O CAVALEIRO ELÉTRICO (1979), de Sydney Pollack. Não vi nenhum dos três. :/

quarta-feira, novembro 22, 2017

A TRAMA (L'Atelier)

Embora tenha uma filmografia relativamente curta, tem se percebido desde já o interesse de Laurent Cantet em questões sociais. Seu filme de maior fama é o que lhe deu a Palma de Ouro, ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (2008), um retrato incômodo e barulhento da rotina de um professor de uma escola pública em uma França que convive com múltiplas etnias e que parece estar em constante atrito. O filme aconteceu antes dos vários ataques terroristas que se tornaram rotina no país.

Falar sobre etnias e ao mesmo tempo citar os ataques terroristas é por si só algo perigoso. Seria como se estivéssemos atribuindo a culpa dos vários atos criminosos aos mulçumanos em geral, ou aos árabes como um todo, e isso é discutido com certa intensidade em A TRAMA (2017), novo filme de Cantet.

Na trama, acompanhamos o trabalho de uma novelista, Olivia (Marina Foïs) em um workshop para a realização em conjunto de um possível romance com vários jovens de diferentes etnias e posicionamentos políticos e sociais. Um dos meninos, Antoine (Matthieu Lucci), se destaca nas discussões, devido principalmente à sua tendência ligada à extrema direita e que o torna um tanto agressivo com alguns colegas.

Quando ele traz uma das tarefas da professora, que é escrever algo que possa servir de base e de nova discussão para a elaboração do romance, sua escrita incomoda as pessoas mais sensíveis. Para muitos, seu pequeno trecho de ficção sobre um banho de sangue em um iate chega a ser quase criminoso. Alguém diz que é como se o rapaz tivesse prazer quase sexual ao estar escrevendo sobre algo tão violento.

Como não vemos o filme apenas pelos olhos de Olivia, mas também um pouco da rotina de Antoine, somos convidados a também relativizar a figura do rapaz, que gosta de crianças e que é um tanto enigmático em sua solidão, em sua preferência por estar só naquela cidadezinha costeira. Ou seria a sua solidão não uma opção, mas algo imposto pelo seu destino?

O filme brinca com as várias possibilidades de se contar uma história nas discussões entre professora e alunos. Aos poucos A TRAMA opta por uma virada no enredo, que o aproxima de um suspense. Uma decisão inteligente, já que a discussão que o filme estava trazendo até então não estava parecendo levar a lugar nenhum com tantos jovens de opiniões diferentes que freavam as tentativas de evoluir algum aprofundamento. O caso da casa de espetáculos Bataclan, em Paris, é citado apenas superficialmente.

Em seu filme, Cantet aproxima-se de um rapaz que, confuso e com ideias não muito saudáveis de ódio e de tentativa de resgatar a "Europa para os europeus", pareceria um psicopata ou um terrorista em potencial. Mas, ao mesmo tempo que o vemos como alguém que preferimos manter distância, as palavras finais do rapaz chamam a atenção para a necessidade de cuidar, no sentido mais afetivo do termo.

segunda-feira, novembro 20, 2017

COLO

Se o cinema é visto pela maior parte dos espectadores como uma distração, algo para fugir da realidade dura da vida, o que dizer desses filmes que não se importam em não apenas mostrar mas nos colocar também dentro de realidades extremamente duras e cheias de desesperança? Mas o mais belo de tudo é perceber o quanto, mesmo assim, somos gratos à realizadora portuguesa Teresa Villaverde pela experiência sentimental e sensorial tão singular que ela nos presenteia com seu novo filme, COLO (2017), ainda inédito em circuito comercial em Portugal.

O próprio título traz uma palavra que é própria da língua portuguesa. Algo que remete a uma necessidade de conforto em momentos de carência. Quando a vida bate muito forte e estamos perto de não mais aguentar, queremos colo, queremos um pouco de alento para continuar seguindo.

A primeira cena importante do filme é um pouco a síntese ou a semente do que veríamos ao longo da narrativa: a adolescente Marta (Alice Albergaria Borges) volta desamparada para casa à noite e procura pelos pais e por jantar. Em vez disso, encontra um desesperançado pai (João Pedro Vaz) dizendo que sua esposa provavelmente não voltará mais para casa, não voltará mais para ele. A cena é carregada de um misto de tensão, angústia e um ar intrigante, acentuado pelas cores dos interiores fotografados lindamente pelo veterano Acácio de Almeida.

A mãe (Beatriz Batarda) reaparece, contando ao marido o motivo do atraso: ela havia conseguido um novo emprego, à noite, que aquilo era uma notícia boa, pois traria um pouco mais de dinheiro para aquela casa, necessitada. O pobre homem desempregado e já perdido em um mundo de desesperança volta para casa sem conseguir ainda processar muito alívio pela volta da esposa.

Embora a mãe apareça como alguém forte, esforçada e que se torna, contra a própria vontade, a única provedora da família, trabalhando três turnos, é Marta e seu pai, em seus caminhos mais à deriva, que COLO acompanhará com mais ênfase. A menina está passando por uma fase difícil, pelo abandono do namorado, mas é pelo desarranjo familiar e o esfacelamento daquela instituição que ela se tornará mais triste. Ela pergunta à mãe o que está acontecendo com aquela família.

Enquanto isso, também vemos a jornada de declínio de um homem que é despido de sua honra masculina de provedor, não conseguindo emprego algum por muito tempo, e passando por situações de humilhação, que ele parece aceitar, como forma de atenuar algum sentimento de culpa que talvez atormente o espírito, já que o papel do homem da casa lhe está sendo negado. Sem dinheiro, sem amigos, sem contatos, com a ausência da esposa, ele consegue encontrar algum alívio na figura de outra adolescente, a colega de escola da filha que aparece grávida.

Ler tudo isso faz parecer que estamos diante de um filme carregado de exageros na sentimentalidade. De certa forma, até é possível lembrar de alguns trabalhos de realizadores que trabalham ricamente com o melodrama, como Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar, mas o que Teresa Villaverde faz é diferente. Ela prefere os silêncios aos diálogos. Os silêncios casam melhor com o sentimento que fica entalado na garganta, como se até o chorar fosse negado aos personagens e ao próprio espectador.

É admirável o modo como o filme constrói pinturas emmolduradas: as imagens dos quartos mostrados do lado de fora do apartamento; o que vemos através de janelas, como os animais vistos na casa da avó; ou a visão da paisagem vista de dentro da casinha onde vai parar a protagonista. As molduras parecem prisões, e prisões servem também para matar aos poucos. Como mata o pequeno passarinho de Marta, que fica doente na gaiola, talvez contaminado pelo clima pesado daquela casa.

O contraste entre a beleza da fotografia e da direção de arte e a dor e a desesperança dos personagens não é algo que incomode. Ao contrário: o mundo não deixa de ser belo quando as pessoas passam por situações de desencanto.O sentimento, aliás, fica ainda mais acentuado, como se alguém dissesse: o mundo é belo, mas tu não terás o direito de desfrutá-lo.

sexta-feira, novembro 17, 2017

21 CURTAS VISTOS NO 16º NOIA

Tive a honra pela segunda vez de fazer parte este ano do júri do Noia, o Festival Universitário de cinema que movimenta realizadores de universidades de vários estados do Brasil. Como demorei muito a escrever sobre os filmes, vou ter que me limitar a pequenos comentários. Peço desculpas mais uma vez, mas o tempo e a saúde não contribuíram muito com o bom andamento do blog. Mas não percamos tempo.

ADMIN/ADMIN

Um estudo interessante sobre as imagens de câmeras de segurança e como elas causam tensão dentro de um registro de cinema, ADMIN/ADMIN (2017) foi dirigido pelo coletivo composto por Augusto Daltro, Bebeto Junior, Camila Gregório, Iago Cordeiro Ribeiro, Erick Lawrence e Maria Clara Arbex. É inventivo no uso de imagens pré-existentes e no trabalho de montagem, embora não incomode tanto quanto talvez fosse a intenção.

SIMBIÓTICA

Os estudantes da UFC Gabriel Marques e Letícia Medina fizeram em SIMBIÓTICA (2017) uma espécie de ficção científica kitsch retrô muito bonita, com destaque para a direção de arte. Ainda brinca com o aspecto ridículo do mundo dos youtubers. Uma cena em particular remete a A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowsky. Eu entrei na viagem e curti a brincadeira.

MERCADORIA

A fotografia de MERCADORIA (2017, foto), de Carla Villa-Lobos, parece ser propositalmente suja, assim como todo o ambiente. Talvez para enfatizar o espírito um tanto incômodo de um ambiente de prostituição underground. Há uma intenção de pautar a discussão sobre a vida das profissionais do sexo. É um dos melhores curtas da seleção. Foi o escolhido pelo júri da crítica.

FERVENDO

O começo de FERVENDO (2017), de Camila Gregório, mostra imagens de celular da protagonista, uma jovem negra que passa o tempo todo dentro do banheiro tentando resolver um problema. Interessante o local escolhido e os embates com a geração do avô e as especificidades da nova geração e as tecnologias. Mesmo quando o drama é universal e quase atemporal.

POR QUE NÃO? 

O curta POR QUE NÃO? (2016), de Lucas Memória, trata da dificuldade de mercado de trabalho para os travestis. O filme tem a vantagem de ter conseguido duas personagens muito boas para entrevistar. Mas é estranho focar apenas em duas. Tem cara de render um longa melhor e mais bem acabado. A personagem Aila é fascinante. Em certo momento ela diz: "Como se adequar fisicamente ao que ela quer ser ganhando um salário mínimo?"

LUIZA

Um filme que cresce à medida que vamos entendendo a situação da menina com deficiência mental (não fica claro qual é o problema dela) e que está namorando um rapaz, LUIZA (2017), de Caio Baú, nos faz perguntar: a partir de que idade o namoro dessa menina pode evoluir para algo mais íntimo e quando será o momento para os dois casarem?

SAM

Filme de olhares e gestos e que também sabe ser sintético em suas intenções, em SAM (2017), de Miguel Moura e Julia Souza, a câmera se interessa mais pela menina calada e pelo amor/desejo que ela sente pela colega de escola. Há alguns momentos bem inspirados. E a cena de sexo, discreta, das duas meninas é bonita de ver.

ALGUM ROMANCE TRANSITÓRIO

Concentrando-se basicamente no drama de um jovem que encontra um homem mais velho e mantém uma relação de sexo, ALGUM ROMANCE TRANSITÓRIO (2017), de Caio Casagrande, aos poucos vai mostrando seu protagonista procurando seu lugar, sua liberdade e enfrentando as complexidades da vida. Interessante o diálogo/monólogo com a amiga. Quando ela fala e permanece sempre calado.

VELHA CASA

Acho que VELHA CASA (2016), de Pedro Clezar, foi um dos mais prejudicados pela projeção ruim. Tem tudo para ter uma dessas fotografia bem bonitas, com destaque para as paisagens. Gosto do quadro parado da casa, mas acho um pouco problemática a narrativa. Ainda assim, é bom de ver.

ENQUANTO CALAM-ME OS AGUDOS

Interessante como exercício de falar sobre várias coisas ao mesmo tempo este ENQUANTO CALAM-ME OS AGUDOS (2017), de Laís Perini, Laysa Elias e Letícia Bina. Das estrelas no céu ao feminismo, passando por uma reflexão sobre a cidade de São Paulo. Podia ser mais focado, mas vai ver a intenção era ser assim plural mesmo. Sabe lá.

LUTO

Interessante a construção da atmosfera e o poder de síntese de LUTO (2017), de Edu Camargo, um curta bem curto dividido em três atos explicitamente intitulados. Gosto da cena da escuridão tomando de conta. Na parte técnica, porém, há problemas de som. Às vezes não dá pra entender o que as personagens estão dizendo. Umas legendas ajudariam.

PERAMBULAÇÃO

Brincadeira divertida sobre um sujeito que quer se livrar dos pesadelos recorrentes e estranhos. Pena que a gente só percebe que é uma comédia lá pelo meio. Mas tá valendo. PERAMBULAÇÃO (2017), de Samuel Peregrino, é um dos mais divertidos do festival, se a intenção for fazer rir.

HABILITADO PARA MORRER

Por falar em fazer rir, o que é este HABILITADO PARA MORRER (2017), hein? Um sarro. O filme de Rafael Stadniki Morato Pedreira começa bem estiloso e com uns efeitos especiais bem interessantes, tentando emular filmes policiais. Depois sacamos que é uma comédia bem escancarada e que rendeu uma das melhores cenas de sua noite. Podia ser menos atrapalhado na narração, tendo tantos personagens pra dar conta. Mas acho que isso não era preocupação do realizador.

DUMMIES

Apesar de um tanto incômodo, DUMMIES (2017), de Bruno Barrenha, é um filme bem divertido e engraçado. A busca por humanização dos bonecos usados para testes de acidentes de automóveis é bem inventiva. Há umas passagens geniais, eu diria. Pena que é irregular.

OS ANOS 3000 ERAM FEITOS DE LIXO (QUANDO A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA SE AFOGOU NO CHORUME ESTÁTICO DA ARTE DA HIPOCRISIA)

Esse tinha torcida organizada e a porralouquice toma de conta. Para o bem e para o mal. OS ANOS 3000 ERAM FEITOS DE LIXO (QUANDO A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA SE AFOGOU NO CHORUME ESTÁTICO DA ARTE DA HIPOCRISIA), de Cleyton Xavier, Clara Chroma e Ana All, é o tipo de filme que faz com que a gente pare de fazer anotações. Entenda isso como quiser. :)

TERREIROS

Embora seja bonito em algumas falas e cantos, falta foco em TERREIROS (2017), de Felipe Lovo e Maurício Santos . Não sabemos se é sobre a mãe de santo que foi para o Paraguai, sobre o orixá Exu ou sobre a cultura do candomblé em geral.

LAMBARI

O meu favorito do festival, embora não tenha sido o escolhido pelo júri. Acho que até a fotografia meio feia (ou era a projeção ruim, não sei) de LAMBARI (2016), de Rodrigo Freitas, contribui para o efeito de horror da lama tóxica que acabou com a rotina e a alegria de um senhor de uma cidadezinha. O filme tem as suas fragilidades, mas o diretor ainda compensa com o personagem principal cantando uma música do Lupicínio Rodrigues. Emocionante.

SINTERA

É triste ver essa movimentação bonita das ocupações nas escolas do ano passado não ter surtido efeito. Pelo menos não agora, já que o governo está fazendo o que quer nessas reformas do ensino. SINTERA (2017), o filme de Fellipe Farias, em si é um pouco sem força. Mas vale para lembrar de momentos mais esperançosos de nosso país.

MUROS

Criativa a ideia de pegar imagens do Google Earth para contar essa história do muro do Campus do Pici (UFC) que serve para afastar a universidade dos habitantes das imediações. MUROS (2016), de Pedro Palácio e Sunny Maia, procura meter o dedo na ferida do abismo de classes em Fortaleza e muitas vezes consegue.

FORA DE QUADRO

Um exemplo de filme com uma ótima ideia mas que renderia muito melhor se tivesse feito mais entrevistas e selecionado melhor seus personagens, esse FORA DE QUADRO (2016), de Txai Ferraz. A ideia de buscar memórias a partir de fotos e de dar espaço para a fala dos habitantes de um determinado lugar humilde do Recife é bem bacana. Lembra os pontos de partida de alguns filmes do Eduardo Coutinho. E gosto especialmente de uma das entrevistas.

VAZIO DO LADO DE FORA

É o mais sofisticado dos filmes exibidos (tanto que foi parar em Cannes), mas VAZIO DO LADO DE FORA (2017), de Eduardo BP, não me ganhou, embora valorize sua mise-en-scene e seu trabalho de direção de arte. Foi um filme bastante prejudicado pela projeção ruim da Caixa Cultural.

quinta-feira, novembro 16, 2017

LIGA DA JUSTIÇA (Justice League)

Não dá para disfarçar que a DC anda correndo desesperadamente em busca do tempo perdido, para tentar acompanhar o ritmo de sua arquirrival Marvel, que já está bem adiantada em seu universo compartilhado no cinema e já está podendo se dar ao luxo de produzir filmes sobre heróis pouco conhecidos do grande público, como o Doutor Estranho e o vindouro Pantera Negra, por exemplo. Enquanto isso, o máximo que a DC fez foi um filme (equivocado) do Esquadrão Suicida, meio que sem muita ligação direta com os outros três títulos do universo compartilhado, O HOMEM DE AÇO (2013), BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA (2016) e MULHER-MARAVILHA (2017).

A primeira aparição do trio que daria a origem à Liga da Justiça não foi muito bem aceita por muitos críticos e também por vários fãs. O que não quer dizer que não exista um seleto time de admiradores do filme de Zack Snyder, o principal diretor das produções da DC para o cinema. Inclusive, o diretor quase não assinou LIGA DA JUSTIÇA (2017) devido à morte de sua filha, no começo de 2017. Mas, devido a problemas nos bastidores com o substituto Joss Whedon, que aparece como um dos roteiristas creditados, acaba voltando para tomar conta deste passo tão importante para os heróis mais icônicos dos quadrinhos.

Há, porém, algo que diferencia LIGA DA JUSTIÇA dos outros filmes do Universo Compartilhado da DC: o humor. Ele surge como uma estratégia de convidar mais espectadores para o filme, inclusive crianças. A ideia de um mundo mais sombrio, que também é uma característica do próprio estúdio, a Warner, e que foi abraçada até mesmo no filme do Superman, e que é uma das marcas de Snyder (quase um inimigo das cores vivas), essa ideia passa a entrar em atrito com a necessidade de usar a mesma arma do inimigo, a Marvel, que tem conquistado muito espectadores com filmes bem-humorados.

Logo, se por um lado, Snyder parece se vender em prol dessa busca dessa necessidade de fazer um trabalho mais popular, por outro o humor em LIGA DA JUSTIÇA até funciona mais do que em muitos filmes da Marvel, que parece quererem forçar os risos do espectador (isso é muito presente nos dois GUARDIÕES DA GALÁXIA, por exemplo). Assim, se o humor já funcionou naturalmente bem em MULHER-MARAVILHA, também funciona nesta reunião do grupo.

Sim, LIGA DA JUSTIÇA acaba funcionando melhor quando brinca com a reunião do grupo. O filme é divertido nesses momentos. Infelizmente há um desses vilões chatos, genéricos e megalomaníacos que parecem só servir para cumprir a obrigação de haver um super-vilão em um filme de super-heróis na trama. Por mais que tenham resgatado o Lobo da Estepe da grande obra de Jack Kirby para o universo da DC dos anos 1970, essa informação infelizmente não o torna mais interessante. É tão ruim ou pior do que Ares no filme da Mulher-Maravilha.

Há coisas positivas em LIGA DA JUSTIÇA, porém. A primeira delas é Gal Gadot brilhando pela terceira vez como a princesa amazona. Quanta beleza, graça e nobreza essa atriz passa para a heroína. Outra coisa positiva está também na escalação do elenco: Ezra Miller, como Barry Allen, o Flash, funciona que é uma beleza como o palhaço involuntário da equipe. E há o memorável primeiro encontro do renascido Superman com a equipe, principalmente com o Batman. A piada interna relativa ao primeiro filme é de fazer o público rir e aplaudir. Bela sacada, provavelmente pensada por Whedon.

No mais, há também coadjuvantes bem luxuosos no elenco de apoio: Amy Adams, Jeremy Irons, J.K. Simmons, Connie Nielsen, Diane Lane, Billy Crudup. São mal aproveitados, claro, em um filme de apenas duas horas de duração, mas suas participações são bem-vindas nos papéis que lhes foram incumbidos. Ben Affleck como Bruce Wayne/Batman continua mandando muito bem. Já Henry Cavill está estranho: mais magro e às vezes o CGI que fizeram para retirar digitalmente a barba de seu rosto não funciona muito bem.

Entre prós e contras, LIGA DA JUSTIÇA é aquele filme que poderia ter sido glorioso se fosse melhor pensado e desenvolvido, mas que também não faz tão feio assim se as expectativas forem baixas, coisa que o próprio trailer meio que antecipa.

segunda-feira, novembro 13, 2017

A NOIVA (Nevesta)

Ver um filme de horror de gosto duvidoso (não necessariamente ruim) é uma arte que deve ser cultivada. O gênero é pródigo em trazer variedades de opiniões e intensas paixões. Lembro o quanto os hoje cultuados filmes de horror italianos eram tão mal recebidos: ou com pedradas ou com ignorância pela maior parte da crítica. Não era todo mundo que via um filme de Lucio Fulci, por exemplo, como uma obra-prima. Esse tipo de revisão veio acontecer com mais força na virada do milênio, principalmente, com o culto de vários especialistas do gênero e a cada vez maior aproximação da crítica.

Daí chegar em uma sala de cinema e ver um filme de terror russo dublado em inglês é algo quase inusitado. A dublagem em inglês, vale destacar, é tão vagabunda que percebemos as diferentes fontes de áudio em diálogos entre personagens pelos ruídos de fundo. Claro, queríamos que fosse diferente: por pior que possa ser A NOIVA (2017), terceiro longa-metragem de Svyatoslav Podgaevskiy, o filme poderia se beneficiar de seu áudio original em russo.

Entre seus acertos, só o ponto de partida já é carregado de uma morbidez perturbadora: o fato de certas famílias pintarem olhos nas pálpebras fechadas de seus mortos a fim de que, na fotografia, suas almas não os abandonem é de chamar a atenção. Não é o primeiro filme que fala de fotografias de mortos. Todos devem lembrar do ótimo OS OUTROS, de Alejandro Amenábar, que destacou esse costume que foi de fato celebrado no passado.

Mas A NOIVA é mais inventivo, ao colocar essa questão dos olhos pintados e da transferência dos espíritos para uma virgem. Assim, no prólogo do filme, que acontece no final do século XIX, há essa tentativa de transferência do espírito de uma noiva para uma outra jovem que é tomada à força de seu lar e enterrada viva, vestida de noiva. Essa história em si poderia ser melhor explorada e contada, como uma boa história gótica de horror. Em vez disso, o filme prefere dar um salto para o mundo contemporâneo.

Na trama principal, uma moça é convidada a finalmente conhecer a família de seu noivo, que até então evitara o contato com seus pais. O encontro com a família dele acontece em um vilarejo afastado e longe de tudo e logo percebemos que essa família guarda segredos bem peculiares, como um quarto onde mora uma pessoa que nunca sai de lá. Mas a coisa fica incômoda mesmo para a personagem quando o noivo desaparece e ela não sabe o seu paradeiro.

Um dos destaques positivos do filme é a forma como é explorada a casa, cheia de paredes falsas que supostamente seriam dutos de ventilação, mas que nos apresentam a um lugar maior e mais curioso. Outro momento que podemos listar como sendo bom é uma cena que ocorre à noite, quando a moça segue uma das familiares do noivo e acaba descobrindo o que não devia. O movimento de câmera e o sentimento de medo no ar poderiam muito bem caber em um filme de horror de melhor qualidade, até pela boa fotografia e direção de arte. 

Infelizmente, o ritmo pouco animador e os sustos fáceis inspirados em clichês do horror ocidental, acabam por tornar A NOIVA em algo tão vulgar quanto algumas das piores produções recentes. O que o torna diferente é justamente esse quê exótico que faz com que seja possível, com um pouco de boa vontade, enumerar uma série de momentos em que um bom filme poderia muito bem estar ali presente, caído entre as tantas falhas.

quinta-feira, novembro 09, 2017

O ESTADO DAS COISAS (Brad's Status)

Tem sido interessante essa virada na carreira de ator de Ben Stiller da comédia para o drama (ou para a dramédia, ao menos). Ele tem feito, em geral, tipos inseguros que funcionam como uma evolução no que ele já fazia nas comédias. Pode-se dizer que esta nova fase começou em A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY, dirigido pelo próprio Stiller, passou por ENQUANTOS SOMOS JOVENS, de Noah Baumbach, e chega agora com este novo O ESTADO DAS COISAS (2017), de Mike White, realizador que tem uma carreira mais extensa como roteirista e aqui se aventura em sua segunda experiência na direção.

É mais um filme em que Stiller interpreta alguém em crise de meia-idade. Na verdade, não há nada de errado com a vida de Brad Sloan (Stiller). Ele trabalha em uma empresa sem fins lucrativos, é casado com uma mulher encantadora (Jenna Fisher) e agora está ajudando o filho inteligente e educado (Austin Abrams) a entrar em um novo e excitante momento de sua vida: entrar na universidade. O problema de Brad é que ele tem a mania de ficar comparando suas realizações com as de seus colegas de escola, que se tornaram milionários e famosos.

O ESTADO DAS COISAS é um filme que deve ser visto sem muita expectativa, até por ser mesmo uma obra pequena e sutil em suas emoções. É também um filme bem engraçado, por mais que os pensamentos do protagonista sejam tão perturbadores para ele que cheguem a ser quase doentios. No entanto, é muito fácil encontrar espectadores que se identificarão de alguma forma com Brad Sloan.

Um dos destaques do filme – e que pode incomodar a alguns – é o uso intensivo do voice-over do protagonista, em um trabalho muito bom do fluxo de consciência, apresentando monólogos ora divertidos, ora amargos, sobre a vida. Um dos méritos do filme é saber ser honesto consigo mesmo, não deixando de explicitar as falhas de seu herói. Essas falhas estão ali à sua frente, como se houvesse um véu cobrindo seu olhar. Daí ele receber uma resposta tão boa da jovem garota universitária, que o considera um egocêntrico que não sabe a sorte que tem, ao ouvir suas lamúrias.

Entre os pensamentos de destaque do personagem, estão os momentos de sonho, ao visualizar, por exemplo, o filho sendo aceito na Universidade de Harvard em um momento de celebração em família; porém, o próprio personagem começa a ter pensamentos sombrios que o põem para baixo novamente, como a possibilidade de ele ter inveja do próprio filho, que poderá ser tão melhor do que ele jamais foi capaz de ser na vida.

As cenas de Brad desejando as jovens meninas também são hilárias, bem como o modo como ele imagina o amigo de escola que hoje vive aposentado e morando com duas garotas em uma praia havaiana. Curioso, aliás, como a praia sempre aparece como um lugar de sucesso na vida. Muito bom também o encontro com o agora famoso e arrogante apresentador de televisão vivido por Michael Sheen, um ator que funciona muito bem para fazer tipos assim, vide o recente DE VOLTA PARA CASA, com Reese Witherspoon.

Se há algum problema com o filme talvez seja a timidez com que o diretor utiliza as cenas dramáticas, talvez com medo de transformar o seu filme inteligente em um dramalhão, especialmente nos momentos de emoção intensa do personagem de Stiller. Ainda assim, do jeito que ficou, é um prazer do início ao fim poder ver uma obra como O ESTADO DAS COISAS.

quarta-feira, novembro 08, 2017

SETE COMÉDIAS BRASILEIRAS

Algo que está chamando a atenção atualmente é a quantidade de filmes brasileiros sendo lançados semanalmente no circuitão, ou seja, nos cinemas de shopping. Embora a preferência pelo público ainda seja a comédia, tem sido cada vez mais comum o ingresso de filmes dos mais diferentes gêneros. Mas falemos de sete comédias que estiveram em cartaz em 2017. Infelizmente, a maioria delas é ruim ou medíocre.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 - O FILME

A sequência de MINHA MÃE É UMA PEÇA - O FILME (2013) resultou melhor do que o esperado. O diretor César Rodrigues se saiu melhor do que seu antecessor na sequência MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 (2016), tornando a personagem de Dona Hermínia (Paulo Gustavo) não apenas mais simpática, mas muito mais divertida. Há algumas partes em que percebemos, inclusive, um cuidado bem especial com a direção de arte e um quê de Almodóvar na construção da comédia junto ao melodrama. Algumas tiradas são geniais, como a cena em que o filho diz que acredita que é heterossexual e a mãe fica logo revoltada. Embora Paulo Gustavo esteja inspirado como Dona Hermínia, Rodrigo Pandolfo e Mariana Xavier, como o casal de filhos, também brilham em diversos momentos. Por enquanto é o grande campeão de bilheteria de 2016/2017 e um dos maiores de todos os tempos no Brasil.

NINGUÉM ENTRA, NINGUÉM SAI

Há quem tenha gostado deste NINGUÉM ENTRA, NINGUÉM SAI (2017), de Hsu CHien Hsin, principalmente a crítica carioca, mas na verdade trata-se de uma grande bobagem que até surge de uma ideia simpática: um grupo de pessoas distintas estão presas em um motel, impedidas de sair. O problema do filme é o mesmo de tantas comédias que tentam fazer graça e não conseguem. Aí fica aquela sensação incômoda. Ao menos, há a participação especial de Sidney Magal, sempre muito simpático e trazendo alegria. No elenco, há dois atores do Porta dos Fundos que poderiam ter sido melhor aproveitados, Rafael Infante e Letícia Lima.

UM TIO QUASE PERFEITO

Para um filme que parece bem bobo, até que UM TIO QUASE PERFEITO (2017), de Pedro Antonio, é uma simpatia. O diretor é o mesmo de outra obra que merece a espiada, TÔ RYCA! (2016), que brinca também com a falta de dinheiro. Na trama do novo filme, Marcus Majella é o tal tio do título, um sujeito que vive a vida enganando os outros ou tentando maneiras criativas de ganhar alguns trocados, e que, para não ficar sem teto, acaba parando na casa da irmã, e começa a se relacionar (muito bem) com seus sobrinhos. As situações são divertidas e há até um bom momento mais dramático perto do final. Diria que o saldo é positivo.

MALASARTES E O DUELO COM A MORTE

Eis um dos filmes mais maçantes do ano. MALASARTES E O DUELO COM A MORTE (2017), de Paulo Morelli, ficou conhecido por ser a produção brasileira com o maior número de efeitos especiais. Mas de nada adianta se Morelli não consegue criar algo minimamente interessante. Quanto mais o filme adentra o território do fantástico, com Júlio Andrade como a morte, mais vai ficando enfadonho. Ao menos Isis Valverde combina bem com um tipo mais brejeira, mesmo não sendo a mais talentosa do elenco de estrelas. E Morelli nem tem a fama de ser um diretor ruim. Talvez não tenha é conseguido lidar com tanta produção e CGI neste projeto malfadado.

DIVÓRCIO

Um filme que agradou boa parte da crítica, DIVÓRCIO (2017, foto), de Pedro Amorim, não me convenceu, embora eu consiga ver algumas qualidades, principalmente com a presença cada vez mais à vontade de Camila Morgado em comédias. Na trama, ela e o marido vivido por Murilo Benício, enfrentam uma situação de rivalidade intensa no casamento. Pena que o melhor do filme esteja no trailer e não exista nada de realmente novo quando vamos vê-lo completo - talvez o prólogo criativo. Não deixa de ter uma boa condução narrativa, mas é muito pouco.

COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA

Quando pensamos que Danilo Gentilli, com sua crítica ao politicamente correto, vai trazer um filme que traga mais elementos das comédias clássicas de escola dos anos 1980, eis que o que vemos é algo imensamente tolo, e que ainda tem medo de mostrar nudez e coisas do tipo. Tudo bem que há uma cena perigosa envolvendo o personagem de Fábio Porchat, mas não chega a ser nada de mais, como ousadia. Engraçado é que os meninos protagonistas, até a chegada do personagem do Gentilli, estavam indo bem no filme. O personagem de Gentilli leva o filme para o precipício e a conclusão é tão besta que nem dá para acreditar. Mesmo assim, COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA (2017), de Fabrício Bittar, tem os seus momentos divertidos. É só não pedir muito.

A COMÉDIA DIVINA

Quem saiu indignado de uma sessão de COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA pode ficar impresssionado com A COMÉDIA DIVINA (2017), de Toni Venturi. Mas impressionado no pior sentido, já que o que vemos aqui chega a ser constrangedor, inclusive na forma. Uma pena, pois Monica Iozzi, com seu carisma e simpatia, merecia uma estreia nos cinemas melhor. Na trama, inspirada livremente no conto "A Igreja do Diabo", de Machado de Assis, o "coisa-ruim" em pessoa resolve vir à Terra para fundar a sua própria igreja, vendo agora que ele está totalmente desacreditado pela humanidade. O que parece ser uma premissa ok se revela uma bobagem sem tamanho em questão de poucos minutos. E Murilo Rosa com o diabo é um horror. Tentando pensar em uma sequência boa do filme... não consigo destacar uma que seja. Quanto mais se pensa, pior fica.

segunda-feira, novembro 06, 2017

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

É difícil, diante desta nova adaptação do clássico romance de Jorge Amado, não se lembrar da primeira versão, a de Bruno Barreto, lançada nos cinemas em 1976. Ambos são reflexos e produtos de seu tempo. O filme de Bruno Barreto foi produzido em um momento em que o erotismo no cinema brasileiro já estava se encaminhando para o seu auge da ousadia, que ocorreria na primeira metade dos anos 1980. É também um filme que tenta ser um pouco mais livre do texto do escritor baiano e talvez por isso flua melhor. Ter Sônia Braga como Flor e José Wilker como Vadinho também ajudou bastante.

O novo DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (2017), dirigido por Pedro Vasconcelos, que tem no currículo vários trabalhos para a televisão, inclusive a última telenovela das nove da Rede Globo, é também produto de nosso tempo, por parecer um bocado mais comportado no quesito sexo e nudez, graças talvez à maior consciência da chamada objetificação do corpo da mulher. Além disso, diminuiu bastante a cultura de ir ao cinema para ver a estrela da novela nua nas telas, embora Juliana Paes apareça sim sem roupa, embora de maneira tímida.

Outra questão quente e que pode ser colocada em pauta é a violência contra a mulher, vista em uma sequência rápida mas bastante incômoda de Vadinho (Marcelo Faria) agredindo a esposa para conseguir dinheiro para o jogo. É apenas um aspecto mais sombrio da personalidade do personagem, mas que depõe muito contra a figura aparentemente simpática do malandro brasileiro. O personagem recupera sua simpatia em outras passagens posteriores, mas não deixa de parecer uma espécie de encosto depois de morto: ao mesmo tempo em que traz prazer físico e sexual para Flor, também a escraviza, de certo modo. É uma abordagem um pouco mais pesada do que a dos anos 1970, nesse aspecto.

É nos aspectos formais, porém, que o filme procura disfarçar suas deficiências e não consegue convencer: o jogo de luz e sombras que Pedro Vasconcelos e seu diretor de fotografia utilizam para compor os interiores, assim como um ou outro ângulo que distancie a obra de uma telenovela, parecem um tanto forçados, embora façam alguma diferença. Mas de que adianta se o diretor não consegue evitar a repetição de temas musicais, algo próprio desse tipo de mídia? Nem mesmo escolhem canções menos manjadas.

Curioso o quanto o filme opta por dar a Flor um protagonismo tão forte que deixa seus dois maridos bem secundários. Não que isso seja um problema em si, mas talvez o personagem do segundo marido, Teodoro (Leandro Hassum), merecesse ser mais do que um paspalhão, longe da nobreza que perpassa o personagem quando vivido por Mauro Mendonça. Leandro Hassum, com seu humor físico típico, parece ter perdido muito da graça depois da cirurgia bariátrica, mas continua apostando no que costumava fazer.

O foco do filme passa a ser, então, o esforço de Flor de se distanciar do espírito de Vadinho, ao mesmo tempo que não consegue se livrar da tentação do desejo que a consome e que não é nem de longe satisfeito com Teodoro. Porém, o modo como o filme torna tão comprido o diálogo entre os dois faz com que esta nova adaptação pareça uma peça filmada. O próprio Marcelo Faria fez o Vadinho na montagem teatral por alguns anos e está acostumado com o personagem. Isso pode ser bom, mas no filme não parece ter um resultado tão positivo, mesmo com o esforço do ator e de Juliana Paes.

sábado, novembro 04, 2017

MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS / CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Dr.)

Como a revisão de MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS (2001) se deu depois de alguns anos, e muitos já viram o filme, eu vou tomar a liberdade de escrever um texto mais com anotações bem livres sobre o impacto desta revisão no cinema em mim, que foi um tanto diferente da primeira vez. Logo, não é um texto para ser lido por quem nunca viu o filme.

Fazendo um breve resumo da história, só para o texto não ficar tão solto, CIDADE DOS SONHOS conta a história de Betty (Naomi Watts), uma jovem que almeja se tornar uma estrela de Hollywood, e que está muito feliz de sair de sua cidadezinha do interior no Canadá para a ensolarada Los Angeles. Lá ela encontra uma mulher desmemoriada (Laura Elena Harring) no apartamento que a tia lhe reservou. Paralelamente, também conhecemos um diretor de cinema (Justin Theroux) que está sendo obrigado por um mafioso a aceitar uma atriz para o papel principal, sob pena de perder tudo o que tem na vida.

Na primeira vez que vi CIDADE DOS SONHOS, título originalmente escolhido pela distribuidora anterior e que deverá ficar como título mais aceito, creio eu, o filme foi recebido por mim como principalmente uma história de horror. Um horror que não dava muito bem para entender o porquê, algo bem parecido com o que aconteceu com ESTRADA PERDIDA (1997). Mas isso acontece principalmente porque o drama da protagonista não está claro na primeira leitura.

Desta vez, a segunda no cinema, passados 15 anos, o que fica mais forte é a questão da perda do grande amor, mais do que o medo, embora o medo seja algo também muito forte e que já comparece de maneira bem perturbadora na sequência da lanchonete, com aqueles dois homens conversando: um deles contando ao outro sobre sonhos que ele teve sobre aquele mesmo lugar, sobre algo muito aterrador e maligno que estava trazendo o mal para aquele ambiente. Revendo, podemos fazer uma ligação desta cena com a queda espiritual da personagem de Naomi Watts, com as decisões que a levaram ao inferno de sua alma.

E esse medo é também o medo de descobrir a verdade, já que há toda aquela construção de um sonho. Sonho de chegar a uma cidade em que uma pessoa pode se tornar uma estrela. Afinal, para que lugar mais representativo da fama e do sucesso do que Hollywood? No começo, a protagonista chega ao aeroporto, junto com aquele casal de velhinhos sinistros, e encontra, dentro da casa da tia, uma mulher linda, perdida, nua, desorientada, desmemoriada, e que se torna o grande amor de sua vida, naquela história que a mente ou o espírito que não está querendo aceitar a condição de fim elabora.

Por isso, uma das cenas mais bonitas é quando as duas fazem amor e Betty diz que está apaixonada por ela, e é uma sequência muito sensual também. Há dois sentimentos muito fortes naquele momento: o amor e o desejo, os dois juntos e potentes. Mais adiante, quando formos levados a um flashback da intimidade das duas na realidade, quando Diane já estava sendo rejeitada por Camilla, percebemos o quanto havia de sexualidade intensa naquela relação.

E, nesse sentido, voltando à questão do medo. Para que medo maior do que aquele medo misturado com uma tristeza muito, muito profunda, que é o que é mostrado na cena mais poderosa do filme, a do Clube Silenzio, quando Rita acorda de madruga e fala para ambas irem àquele lugar, lugar onde no hay banda. Há algo muito bonito dentro dos simbolismos de não haver uma banda tocando e no entanto há som, mas o que há de mais devastadoramente lindo é quando Rebekah Del Rio canta a versão de "Crying", de Roy Orbinson, "Llorando", que se torna ainda mais triste nesta versão em espanhol, mais carregada de sentimentalidade, mais fundo do poço da tristeza e da amargura.

E por mais que já tenhamos visto tantas vezes David Lynch nos carregar para caminhos tão sombrios e tristes da alma, nada se compara a esta sequência arrepiante, embora a primeira vez que vemos CIDADE DOS SONHOS não entendamos direito o que é aquilo ali, no momento em que está acontecendo.

Porém, uma vez que temos o filme na memória, tendo visto uma, duas ou três vezes, e vemos novamente, sabemos que aquele momento é o momento da revelação dolorosa que a protagonista tanto temia e não sabia, o momento em que caem por terra todas as ilusões. Sobra apenas o horror, o horror do que ela foi capaz de fazer. E aí passamos a entender o motivo de aquela restaurante representar algo tão maligno, já que é lá que foi feita uma transação que, segundo disse o próprio assassino contratado, uma vez feita, não haveria mais volta.

Com relação aos simbolismos, algumas coisas são um pouco difíceis de serem decifradas, mas nem tanto. Há muitas pistas fáceis. E quem já está acostumado com os trabalhos de Lynch, principalmente quem viu o novo TWIN PEAKS - O RETORNO (2017), e também TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992), sabe que tem algo de especial com relação à cor azul. Sempre que o azul aparece, ele tem um indicativo de algo misterioso.

E em CIDADE DOS SONHOS há a antológica caixa azul, que pode representar tanto a realidade nua e crua tomando de assalto todos os sonhos e ilusões, quanto algo de maligno também. A figura daquele mendigo lembra os homens sujos de carvão de TWIN PEAKS - O RETORNO, que na série são agentes do mal ou algo do tipo.

Enfim, ainda há tanto a se falar sobre CIDADE DOS SONHOS, como a cena em que Betty desaparece, como se as duas (Betty e Rita) tivessem se fundido. Aliás, a loira e a morena, o mistério e a verdade, a vida e a morte são elementos muito próximos de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. Eis um filme que não se esgota, e querer dar conta de decifrar os enigmas (como eu meio que tentei fazer, quase sem querer, pensando em voz alta) é querer diminuir uma obra cuja dor é o motor de partida.

terça-feira, outubro 31, 2017

JOGO PERIGOSO (Gerald's Game)

Foi a partir de O ESPELHO (2013) que Mike Flanagan passou a ser visto como um dos possíveis mestres do cinema de horror contemporâneo. Embora seus filmes não se enquadrem no que atualmente se chama de pós-horror, sendo até um pouco tradicionais na forma, há uma sofisticação visual admirável. Assim, mesmo quando pega um projeto já em andamento, como foi o caso de OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016), o cineasta transforma o que é apenas um filme esquecível em uma história de certa forma independente e além de tudo aterrorizante, sabendo muito bem aproveitar os clichês dos filmes de fantasmas e casas assombradas.

Aliás, que especial que foi o ano de 2016 para Flanagan, que compareceu com três filmes. Além do prequel de OUIJA, houve também o eletrizante HUSH – A MORTE OUVE (2016) e o sentimental e sobrenatural O SONO DA MORTE (2016). Se em 2017 sua produção diminuiu, ao menos a Netflix, agindo aqui como produtora também, promoveu uma bela adaptação de uma obra de Stephen King a cargo de Flanagan.

JOGO PERIGOSO (2017) já chama atenção desde o primeiro trailer veiculado. Na trama, Carla Gugino e Bruce Greenwood são um casal que está passando por uma crise no casamento e o marido resolve apimentar um pouco a relação, brincando de práticas de sadomasoquismo em uma casa afastada. A ideia dele seria algemar a esposa na cama para fazer sexo com ela. Quando a coisa começa a parecer com um estupro ela fica um bocado incomodada. Fica mais perturbada ainda quando o marido tem um ataque cardíaco e morre, sem poder tirá-la das algemas a tempo.

A personagem de Gugino não fica sozinha, porém. Tem o fantasma do marido para conversar com ela e ajudá-la a pensar friamente diante da situação que se tornaria muito pior caso ela não pensasse friamente. Afinal, a casa estava distante de qualquer outra, sendo impossível alguém ouvir os gritos da mulher aflita.

O filme sofre uma quebra de ritmo quando somos levados para um flashback da infância da personagem, quando ela lembra um momento nada agradável com o pai. Ao falar de um assunto tão espinhoso, mas ao mesmo tempo tão urgente quanto o abuso infantil, Mike Flanagan mais uma vez trata de contar histórias dolorosas de famílias, como vem sendo sua marca desde pelo menos ABSENTIA (2011).

Ao mesmo tempo em que esse flashback quebra o ritmo, ele ajuda a enriquecer um filme que parecia não se encaminhar para lugar nenhum, ou que seria apenas um thriller tenso e pouco memorável. Além do mais, há a presença de um ator que talvez só seja lembrado por causa de TWIN PEAKS, o gigante Carel Struycken, que reapareceu no "retorno" como uma das entidades do White Lodge. A presença dele em JOGO PERIGOSO é mais de natureza sobrenatural (ou uma alucinação da personagem). Outra presença marcante no elenco de apoio é Henry Thomas, perfeito no papel do pai da protagonista, em especial na cena do eclipse.

Assim, JOGO PERIGOSO, mesmo que fique um pouco atrás das obras para cinema de Flanagan, é um filme que merece atenção, mesmo por quem não acompanha o trabalho do diretor. A tensão e a temática adicional já são motivos mais do que suficientes para dar aquela espiada.

segunda-feira, outubro 30, 2017

MINDHUNTER - PRIMEIRA TEMPORADA (Mindhunter - Season One)

Não esperava que este ano ainda reservasse uma surpresa tão boa quanto MINDHUNTER (2017), a série que inicialmente chama a atenção por ter produção executiva de David Fincher, que ainda dirige quatro dos dez episódios desta primeira temporada. Eis uma série que conquista o espectador mais exigente logo em seus primeiros minutos e que consegue ficar cada vez mais envolvente à medida que vai se aproximando de seu final. Que não é bem um final (ainda bem), mas vale dizer que a season finale é de dar taquicardia.

MINDHUNTER é baseado no livro Mindhunter - O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, de John E. Douglas e Mark Olshaker. Pelo que andei escutando por aí, a primeira temporada dá conta da primeira metade do livro, que funcionaria como um ótimo complemento para a série criada por Joe Penhall, que tinha como produção mais expressiva até então o roteiro do drama pós-apocalíptico A ESTRADA (2009), de John Hillcoat.

Ao contrário do que muitos podem pensar de início, MINDHUNTER não tem cenas de violência ou de perseguição ou coisa parecida. É investigação e psicologia, basicamente. E um texto tão bem trabalhado que é de dar gosto. Os personagens são tão ou mais envolventes do que a história, que trata do início dos trabalhos do FBI com o estudo dos casos de assassinos em série.

A série é baseada na vida de John E. Douglas e em seus encontros e entrevistas com assassinos famosos, como Ed Kemper, o sujeito que matou a própria mãe e fez sexo com sua cabeça decepada, e Jerry Brudos, o assassino do fetiche de sapatos. Vale destacar também que a interpretação dos atores para esses dois criminosos é admirável. A atmosfera de medo e tensão nas conversas com esses dois, em especial, é de deixar o espectador prendendo a respiração. Mas há outros casos resolvidos pelo próprio protagonista e seu parceiro que empolgam e instigam. Há também uma psicóloga estudiosa do caso que integra o trio.

O grupo é formado aos poucos no seu tempo dentro da narrativa. Antes da união de Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), acompanhamos o certinho Ford conhecendo a ousada Debbie (Hannah Gross), a mulher que o iniciará no caminho do sexo oral e de outras maneiras de melhor se viver. Além de tudo, ela ainda ouve as preocupações que ele faz questão de compartilhar de sua profissão. Mais à frente, Bill se une a Holden para darem aula sobre assassinos seriais em diversas cidades dos Estados Unidos. A presença de Wendy Carr (Anna Torv, de FRINGE) chega para enriquecer ainda mais o grupo.

O fato de a série também nos apresentar à vida privada de seus personagens principais ajuda bastante a nos aproximamos deles. Faz com que nos importemos com esses personagens, faz com que o que eles sentem e temem seja verdadeiro. Um dos melhores exemplos aparece no episódio de número oito, que é o que trata de um diretor de escola infantil que tem o costume de dar cócegas nos alunos.

O que parecia um episódio pouco brilhante diante dos demais acaba sendo um dos mais marcantes pelo mal estar com que passamos a carregar, junto com Holden, das responsabilidades e das decisões que ele resolve tomar, seguindo seus instintos, mas também com muitas dúvidas. Este oitavo episódio é tão marcante que é o único que termina sem música nos créditos finais.

Outro destaque da série é a direção de arte linda, que nos leva aos anos 1970 e a elegância das roupas, dos carros, dos prédios e casas. Há também detalhes importantes no modo como a fotografia é tratada em diferentes momentos, seja para passar uma sensação de bem estar em cenas diurnas com um belo dia de sol, seja para acentuar cenas tensas nos interiores. Na verdade, há tantas qualidades em MINDHUNTER que fica difícil destacar seus problemas. De longe, a melhor produção da Netflix até o momento.

domingo, outubro 29, 2017

O FORMIDÁVEL (Le Redoutable)

Michel Hazanavicius procurou saber de Jean-Luc Godard se ele havia visto o seu O FORMIDÁVEL (2017), se havia gostado ou desgostado do modo como ele foi caracterizado nesta comédia autobiográfica baseada no livro de uma das ex-esposas do cineasta da Nouvelle Vague, a alemã Anne Wiazemsky. Até onde eu sei, o jovem diretor não recebeu nenhuma resposta de seu "homenageado". Apesar das aspas, podemos dizer que o filme de Hazanavicius consegue ser ao mesmo tempo uma homenagem a Godard, emulando e trazendo à tona momentos importantes daquele recorte da vida e da obra do homem, como também um filme que tira sarro de Godard, aqui vivido por Louis Garrel.

O diretor do oscarizado O ARTISTA (2011) novamente fala sobre cinema e seus bastidores, mas o foco agora é o cinema francês da segunda metade dos anos 1960, quando muita coisa estava mudando no mundo. Em um ano em que tivemos uma comédia que também brinca com os bastidores do cinema francês, como é o caso do divertido ROCK’N ROLL - POR TRÁS DA FAMA, de Guillaume Canet, é bom também receber outro trabalho inteligente e espirituoso. O FORMIDÁVEL talvez exija menos do espectador pouco habituado a ver filmes franceses ou que não esteja a par do trabalho de Godard. É possível se divertir e até aprender um bocado sobre aquele momento tão particular da França.

Foi um momento de revolução para o país, e também de tentativa de revolução para um cinema que já era considerado revolucionário. Mas assim como aconteceu nos cinemas novos de outros países, inclusive o nosso, a década de 1960 foi de inquietação, e Godard estava em um momento tão radical de sua vida que rejeitava até mesmo os seus próprios filmes, colocava-os também na categoria de lixo burguês ou arte ultrapassada. Sua intenção era criar algo totalmente novo na forma e no conteúdo e ainda trazer muito da política que ele abraçava naquele momento, o maoísmo.

Uma das partes mais engraçadas do filme, aliás, é quando Godard fica sabendo que seu filme A CHINESA não foi nada apreciado pelos chineses. Segundo algumas fontes, os revolucionários chineses acharam que o diretor francês não entendeu nada da ideologia de Mao. Outras passagens bem engraçadas são as várias vezes que Godard está presente nas manifestações acirradas de 1968, quando havia briga entre a polícia e os estudantes. Godard, além de perder muitos óculos, sempre se saía mal quando ia para as discussões entre os estudantes comunistas.

Uma das melhores coisas do filme merece ser mencionada como destaque: Stacy Martin, a jovem francesa que encantou o mundo em NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier, faz o papel da jovem esposa de Godard, Anne, que atura, com amor e paciência, as bobagens e os arroubos de arrogância daquele homem que se acha melhor do que todos. Com uma mulher tão doce quanto Anne, difícil não pensar no quanto Godard foi vacilão em ter deixado passar alguém tão especial na vida dele. E para acentuar ainda mais essa impressão, o filme a apresenta sem roupa diversas vezes, uma vez lembrando uma cena de O DESPREZO, em que a câmera de Godard passeia pelo corpo nu de Brigitte Bardot.

Quanto a Bérénice Bejo, a esposa de Hazanavicius, a bela e talentosa atriz aparece pouco, em papel de coadjuvante, como uma das amigas de Godard. É um papel pequeno, mas é sempre bom tê-la presente, como um amuleto de sorte, já que Bejo tem feito uma série de trabalhos muito bons.

quinta-feira, outubro 26, 2017

THOR - RAGNAROK

Quando o primeiro filme do Homem de Ferro aportou nos cinemas, um dos maiores destaques e um dos pontos mais apreciados pela audiência foi o bom humor. Nascia, então, uma fórmula que, guardada uma ou outra exceção (talvez apenas os dois primeiros filmes do Capitão América), seria a marca das aventuras de super-heróis do tão desejado Universo Compartilhado Marvel.

Porém, dois filmes do estúdio surgiram para brincar de maneira ainda mais escrachada com os heróis: HOMEM DE FERRO 3, de Shane Black, e GUARDIÕES DA GALÁXIA, de James Gunn. Em seguida, veio o ótimo HOMEM-FORMIGA, de Peyton Reed, provavelmente o produto mais bem-acabado da junção humor e aventura até o momento.

E eis que resolveram dar uma sacudida no deus do trovão, que ganhou dois filmes bem abaixo do que o personagem divino mereceria. O primeiro, THOR (2011), de Kenneth Branagh, é até um bom filme de introdução do personagem, mas é esquecível. Ter chamado Branagh só por ele ter dirigido filmes de Shakespeare não pareceu uma escolha lá muito sábia. O mesmo se pode dizer da escalação de Alan Taylor (diretor de episódios de GAME OF THRONES) para a sequência, THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013), ainda mais anódino.

Se a intenção é juntar os Guardiões da Galáxia com os Vingadores, o Homem-Aranha e um Doutor Estranho metido a engraçado em um mega-lançamento futuro, então, nada mais justo do que apimentar também com muito humor este terceiro e estranho THOR - RAGNAROK (2017), que pelo título poderia ser uma aventura bem dramática. Afinal, Ragnarok é o apocalipse de Asgard, a destruição do lar (e talvez da vida) dos deuses nórdicos.

Mas acontece que preferiram uma comédia. Muito bem. Aceita-se o filme como uma comédia. O que poderia ser mais bem resolvido seria o timing. Fazer comédia não é fácil. Comédia das boas, digo. Não que THOR - RAGNAROK não consiga entreter e divertir em alguns momentos. Consegue sim. Mas a cara de matinê também rima com um pouco de desinteresse com o destino dos personagens ou mesmo com a história.

Há algumas coisas que funcionam bem: Chris Hemsworth, o Thor, já havia provado ser um ótimo ator de comédia em CAÇA-FANTASMAS, de Paul Feig. Assim, seu herói bobão no novo filme funciona muito bem desde o começo, quando ele aparece preso em um lugar que depois saberemos se tratar do lar do infernal Surtur, entidade que vinha aparecendo de maneira recorrente nos sonhos do deus do trovão. Dar cabo de Surtur seria uma forma de evitar o Ragnarok.

Mas o que o deus abobalhado não sabia era que seu lar estaria prestes a ser invadido e tomado por Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte, e primogênita de Odin (Anthony Hopkins). Assim, a irmã que ele não sabia que existia será a grande ameaça para Asgard. Logo no primeiro embate com ela, Thor perde o martelo e é enviado para um planeta estranho chamado Sakaar, conhecido dos leitores da saga Planeta Hulk. E, sim, é lá que o verdão vai travar uma batalha com o protagonista.

Interessante essa avalanche de referências das histórias em quadrinhos da Marvel para tentar construir uma narrativa original. Por mais que seja uma narrativa com todo um jeitão de preguiçosa. Mas talvez seja essa a melhor maneira de ver THOR - RAGNAROK: totalmente relaxado, sem esperar nada além de uma boa comédia com alguns dos super-heróis da Marvel, e que ainda tem como bônus a bela fotografia bem colorida e visual e clima oitentistas. Para muitos, a estreia do neozelandês Taika Waititi, de trajetória pouco conhecida nos cinemas ocidentais, acabou sendo uma boa surpresa.

terça-feira, outubro 24, 2017

AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA

Difícil não se impressionar com as qualidades de AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA (1980), de José Miziara, principalmente sua meia-hora inicial, quando vemos uma edição em que se alternam cenas da protagonista vivida por Helena Ramos, a Analu do título, dirigindo um carro numa estrada escura com expressão aflita, enquanto vemos cenas do passado recente, de sua relação complicada com o marido vivido por Ênio Gonçalves. Para completar, a edição não mostra apenas o ponto de vista de Analu, mas também as escapulidas de seu marido, entre elas, a sequência em que Ênio transa com Matilde Mastrangi. Ela que, com seu corpo exuberante, tanto foi objeto de desejo dos marmanjos nos anos 1980. E dá até para sentir uma pontinha de inveja de Ênio, só de vê-lo realizar essa curta sequência.

AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA começa a se “acalmar” e a entrar numa aparente normalidade, com uma narrativa mais linear, quando Analu conhece Fernanda (Márcia Maria), que funciona como uma espécie de porto seguro para aquela mulher em busca de um pouco de tranquilidade depois de sofrer a pressão, as traições e a violência do marido. Ela aceita o convite de ficar na casa de praia de Fernanda em Ubatuba. E a partir desse instante começa a surgir um relacionamento mais íntimo entre elas. Mas as coisas não são tão simples assim e a felicidade das duas, que se revelam doentiamente apaixonadas uma pela outra, encontrará um terrível obstáculo.

Muitos veem a solução do segundo ato do filme como carregada de moralismo, semelhante ao americano ATRAÇÃO FATAL: mas em vez de uma amante psicopata que chega para acabar com um casamento tranquilo, estamos diante de uma lésbica psicopata, o que naturalmente pode atingir a um segmento de minorias que sofre mais preconceitos da sociedade. Porém, o filme vai além das questões moralistas e funciona incrivelmente bem como um suspense que bebe muito da fonte do film noir americano dos anos 1940, adicionado de toques apimentados de sexo e nudez. Vale destacar a atuação de Helena Ramos no papel de Analu: uma atriz de mão cheia que não tinha frescuras em desempenhar cenas mais ousadas nesse “cinema do corpo” que foi o cinema brasileiro dos anos 80. 

Quanto a Ênio Gonçalves, ele aparece pouco no filme, mas sua participação é fundamental para estabelecer a figura do homem canalha. E isso é mostrado em algumas curtas tomadas: o traumático bate-boca no apartamento; a transa no barco com Matilde Mastrangi; a cena no escritório com sua secretária; outra, num motel. E no final, o ressurgimento de seu personagem, para acentuar a visão de um mundo onde não há escapatória e a felicidade é só uma ilusão.

Texto publicado originalmente na Revista Zingu! em 21 de agosto de 2011

sexta-feira, outubro 20, 2017

DETROIT EM REBELIÃO (Detroit)

Kathryn Bigelow nos convida para um passeio pela Detroit de 1967, no olho do furacão de uma situação extremamente tensa acontecendo já no calor de um momento incontrolável de rebelião da população negra da cidade, diante da violência policial sofrida. Como resultado, parte da população negra passa a depredar e saquear algumas lojas. Afinal, quando o próprio Estado é o verdadeiro vândalo, abre-se precedente para o vandalismo em menor escala.

Na verdade, DETROIT EM REBELIÃO (2017) não se preocupa em contar ao espectador a grande história que está acontecendo. No começo do filme a câmera nervosa raramente para quieta e é difícil não sair da sessão com pelo menos um pouco de dor de cabeça. O sofrimento por que passa o espectador durante a metragem se faz necessário para que experimentemos um pouco do terror sentido pelo grupo de pessoas atacadas por policiais racistas em um motel, durante os últimos dois terços do filme.

A primeira parte serve para deixar o espectador confuso diante de tantas coisas acontecendo, já que somos levados para o meio da ação, com cortes rápidos, de diversas ações se sucedendo ao mesmo tempo. Aos poucos a câmera se acalma um pouco e vamos conhecendo os personagens, entre eles um policial de Detroit extremamente racista, que já na primeira oportunidade de atirar em um rapaz negro que acabou de roubar uma loja, atira por trás enquanto ele corre. Curiosamente, o tal policial é interpretado pelo garoto da comédia FAMÍLIA DO BAGULHO, de Rawson Marshall Thurber. É admirável que, de adolescente virgem, Will Poulter tenha resultado no que talvez seja o vilão mais odioso do cinema em 2017.

Ele é Krauss, o líder da caçada ao suposto sniper do prédio onde estão uma dupla de amigos que faz parte de um grupo vocal típico da Motown na década de 1960, duas jovens moças com pouco dinheiro, mas dispostas a se divertirem naquele lugar, e outros rapazes, sendo que um deles brinca com uma arma de brinquedo que assusta a polícia e o exército. Quando o lugar é invadido, os policiais brancos não entendem o que aquelas mulheres brancas estariam fazendo naquele lugar. Um dos rapazes é logo considerado o cafetão por estar no mesmo quarto que elas.

Esse jogo perturbador de abuso de poder continua num crescendo contínuo que nos leva a nos sentir tão impotentes quanto aqueles homens e mulheres ameaçados pelo ódio racial. O terror é exponencializado com os assassinatos de homens negros naquele prédio. Ou seja, quem quer ir ao cinema para se divertir apenas, DETROIT EM REBELIÃO não é uma boa pedida.

Kathryn Bigelow vem se especializando em buscar em seus filmes climas de tensão no mínimo desconfortáveis. Depois de ganhar o Oscar com GUERRA AO TERROR (2008) e de entrar de cabeça na caçada a Osama Bin-Laden em A HORA MAIS ESCURA (2012), ela retorna disposta a tratar de outra guerra, uma guerra que os americanos vêm travando desde a época da escravidão, uma guerra covarde em que o mais forte se alimenta de humilhar o mais fraco. A tiracolo, vem a questão da misoginia, andando de mãos dadas com o racismo.

quinta-feira, outubro 19, 2017

ENTRE IRMÃS

Um dos méritos do cinema de Breno Silveira é a sua vontade desavergonhada de emocionar a audiência, não importando o quanto isso resulte em um produto um tanto cafona. No entanto, nem sempre o cineasta consegue um bom equilíbrio, e às vezes pode acontecer de a história ter pouca substância ou de o roteiro não ser tão bem cuidado a ponto de prejudicar, e é o que temos, então, em ENTRE IRMÃS (2017), seu mais recente trabalho, algo que beira o novelão.

O que acaba por contar pontos positivos no filme é justamente o fato de termos um bom diretor e um par de protagonistas ótimas, que garantem momentos de boa dramaturgia. Nanda Costa e Marjorie Estiano, que interpretam as duas moças do sertão que são separadas de forma traumática e trilham caminhos bem distintos, são o que há de mais valioso em ENTRE IRMÃS. Principalmente Marjorie, que tem se revelado cada vez mais uma atriz impressionante. Seu papel recente em uma série da Rede Globo, SOB PRESSÃO, foi admirável, e dizem que ela está extraordinária em AS BOAS MANEIRAS, o novo trabalho da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas.

ENTRE IRMÃS, ainda que seja mais irregular do que os trabalhos mais incensados de Silveira, é um bocado produto de sua passagem pelas locações em que trabalhou. Seu filme anterior, GONZAGA – DE PAI PRA FILHO (2012), o apresentou ao sertão nordestino, e sua vontade de contar uma história da época do cangaço em uma produção épica foi o que o levou a adaptar o livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles.

Apesar de o título do livro enfatizar a história de amor entre uma das irmãs e o cangaceiro que a captura de sua família, Silveira preferiu contar as duas histórias em paralelo. No fim das contas, a história da outra irmã, Emília (Marjorie), tem mais força e desperta mais interesse do que a história de Luzia (Nanda), que por optar por uma versão "genérica" da história de Lampião e Maria Bonita, perde um bocado da força, por mais que seja compreensíveis as licenças poéticas, inclusive para ter menos preocupação com datas e eventos políticos.

Outro ponto positivo é o paralelismo entre as duas histórias, bem costuradas em uma edição que ainda tem o mérito de transformar um filme de quase três horas de duração em uma narrativa que parece ter uma hora e meia. Assim, quando vemos o insucesso de Emilia no campo sentimental, ao descobrir que o marido casou com ela por conveniência, vemos também o início de uma maior aproximação de Luzia com o líder dos cangaceiros, o Carcará (Júlio Machado). Há outro momento particularmente bonito, que é quando as duas jovens leem no mesmo jornal notícias sobre a irmã distante: uma na caatinga, vivendo como nômade e fora-da-lei, e a outra na alta sociedade do Recife. A história na capital, inclusive, ainda conta com a presença muito bem-vinda de Letícia Colin, vivendo uma amiga de Emilia.

Assim, por mais que Silveira não tenha conseguido atingir o grau de arrebatamento emocional de 2 FILHOS DE FRANCISCO (2005) e de À BEIRA DO CAMINHO (2012), duas obras que o elevam à categoria de mestre do melodrama, ENTRE IRMÃS tem sim as suas qualidades e merece ser visto com carinho, principalmente para quem não se importa em ver uma narrativa bem clássica e antiquada.

domingo, outubro 15, 2017

NA PRAIA À NOITE SOZINHA (Bamui Haebyun-eoseo Honja)

Para quem acompanha, ainda que seja por um breve período de tempo, os filmes de Hong Sang-soo, não deixa de ser desconcertante ver NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017), vencedor do prêmio de melhor atriz para Kim Min-hee no Festival de Berlim. O filme ganhou holofotes ainda mais fortes quando o cineasta confessou que a história é um pouco baseada no caso que Hong teve com a atriz provavelmente durante as gravações do ótimo CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015). O escândalo dessa vez chamou a atenção também dos tabloides e tornou o filme curioso até para as plateias que desconheciam o trabalho do cineasta.

Na trama, Kim Min-hee (do suspense A CRIADA, de Park Chan-wook) interpreta uma jovem atriz que está esperando pelo homem que ama, um diretor de cinema casado. Na primeira parte da narrativa, que se passa em Hamburgo, na Alemanha, ela o espera enquanto conversa com uma mulher mais velha que ela, e que inveja o seu jeito de ser, de viver a vida de maneira mais livre.

Diferente de outros trabalhos do diretor, que investem mais forte na comédia romântica, NA PRAIA À NOITE SOZINHA é um filme mais dramático. Por isso, o que era desconcertante de ver nos outros filmes, como o uso de repetições no enredo (casos, por exemplo, de CERTO AGORA, ERRADO ANTES e de A VISITANTE FRANCESA) e do recurso inesperado do zoom, torna-se um pouco mais sutil no novo filme. Se é que dá para chamar de "novo" filme, pois já existe outro mais novo e o cineasta tem filmado em ritmo quase industrial.

Os homens ridículos e engraçados continuam aparecendo, mas de maneira menos enfática. O que continua em destaque são os diálogos que beiram o superficial, mas que escondem com isso as angústias dos personagens, em especial da protagonista, que fica feliz a cada elogio que recebe (outro elemento recorrente no cinema de Hong), como se precisasse muito desses elogios para não só afagar o ego, mas também trazer um pouco mais de conforto para si, talvez suprir o vazio, principalmente o vazio da ausência do amado.

NA PRAIA À NOITE SOZINHA é um filme sobre solidão. Na primeira parte, vendo a beleza da paisagem da cidade alemã, ela afirma que é ainda mais fácil sentir-se solitária em um ambiente belo como aquele. Ao mesmo tempo, ela diz em outra ocasião que está tudo bem: se ele (o cineasta) vier, ótimo; se não, tudo bem. Uma postura mais serena em relação à vida. É natural os pensamentos oscilarem entre a razão e o sentimento.

As sequências seguintes do filme mostram a atriz de volta ao seu país natal e bebendo e conversando com seus amigos sobre coisas da vida, inclusive as fofocas. A terceira parte é a mais tensa, bela e confessional do filme, quando o jogo de conversas superficiais abrem espaço para que entrem as afirmações intensas e emoções à flor da pele. Do ponto de vista do sentimento que evoca e contagia, porém, parece pouco, em comparação com CERTO AGORA, ERRADO ANTES, que exala muito mais paixão, entusiasmo e aquele frio na barriga familiar.

sábado, outubro 14, 2017

A MORTE TE DÁ PARABÉNS! (Happy Death Day)

Uma das grandes vantagens dos filmes de horror é que a maioria deles tem um bom apelo para a juventude e ainda costumam custar barato, sem precisar de atores famosos no elenco para ganhar a credibilidade do público. E também nem precisam ter uma história tão original assim, como podemos ver neste A MORTE TE DÁ PARABÉNS! (2017), de Christopher Landon, que é eficiente e com vários pontos positivos.

O filme é uma espécie de versão slasher da comédia romântica FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis, em que Bill Murray acorda indefinidamente no mesmo dia. Recentemente houve um filme que também se apropriou desta brincadeira, ANTES QUE EU VÁ, de Ry Russo-Young. Também costuma ser bastante lembrada a ficção científica NO LIMITE DO AMANHÃ, de Doug Liman. Todos são filmes que mostram protagonistas lutando para vencer uma situação a partir do conhecimento que adquirem do fatídico dia.

São também filmes sobre jornadas de aperfeiçoamento pessoal, de aprender com os próprios erros. Por mais que pareça uma maldição ficar preso no mesmo dia, é também uma chance que o universo está dando para que a pessoa possa, enfim, aparar as arestas no modo como ela trata as pessoas e também, como é o caso de A MORTE TE DÁ PARABÉNS, descobrir a identidade do próprio assassino para, talvez, conseguir acordar viva e no amanhã.

Na trama do filme de Landon, diretor que já havia juntado terror com comédia em COMO SOBREVIVER A UM ATAQUE ZUMBI (2015), Jessica Rothe é Tree, uma garota universitária que acorda no quarto de um dos rapazes. Pelo visto, um rapaz que ela mal conhecia. Até aí nada de mais, até a hora em que ela vai para uma festa e é surpreendida por alguém escondido atrás de uma máscara e ela é então assassinada. No dia seguinte e também nos posteriores, ela sofrerá novas mortes e tentando descobrir o que está acontecendo e o que pode fazer.

No quesito suspense, A MORTE TE DÁ PARABÉNS consegue envolver a audiência jovem, provavelmente uma audiência que talvez nem conheça FEITIÇO DO TEMPO, mas isso nem importa tanto assim. O que importa é que a ressurreição do gênero slasher funciona novamente (se é que dá para chamar de uma ressurreição - talvez não). Ter um assassino misterioso com uma máscara era algo que estava sendo deixado de lado nos filmes de horror recentes e aqui vemos que ainda consegue ser um elemento atraente. Ajuda também o fato de estarmos diante de uma obra que não tenta ser tão pretensiosa. É até inocente, em muitos aspectos.

Do ponto de vista do aperfeiçoamento do caráter da heroína, o filme é muito feliz. Logo de início estamos diante de alguém bem pouco afável e bastante arrogante, além de pouco interessada no quanto pode maltratar os sentimentos dos outros. Sem falar em questões familiares pendentes. Isso também é muito bem resolvido no filme, principalmente em uma das últimas sequências da narrativa, o que só prova que se trata de uma obra que tem fôlego para manter o interesse da plateia - na verdade, a história melhora cada vez mais à medida que se aproxima de seu desfecho.

E isso é muito mais do que se poderia esperar de uma produção que, mesmo com a marca da Blumhouse Productions (franquia ATIVIDADE PARANORMAL, franquia SOBRENATURAL, A VISITA etc.), surpreendeu a muitos, inclusive com uma excelente bilheteria conquistada nos Estados Unidos neste fim de semana. No mais, vale prestar atenção em Jessica Rothe, a protagonista. Ela esteve em um papel pequeno em LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, mas em breve poderá ser mais vista encabeçando elencos. Carisma a moça tem.

segunda-feira, outubro 09, 2017

BLADE RUNNER 2049

Denis Villeneuve disse, em entrevista à Indiewire, que há duas versões de BLADE RUNNER (apesar das várias existentes). A primeira, a de 1982, é sobre um ser humano que se apaixona por uma androide; a segunda, a final cut de 2007, é sobre um replicante que descobre sua verdadeira identidade. O interessante de BLADE RUNNER 2049 (2017) é que é algo entre esses dois temas, juntos e misturados. E tudo narrado na tentativa de tangenciar o original de Ridley Scott, mas, obviamente, sem fugir das obsessões próprias do cineasta canadense.

A decisão de deixar para Villeneuve a direção da sequência de BLADE RUNNER foi um acerto de Ridley Scott, aqui atuando como produtor. O cineasta mais jovem traz frescor e novidade para o universo de Philip K. Dick e Scott, mas também o respeita como se fosse algo digno de adoração. Segundo o próprio Villeneuve, o filme original era como uma Bíblia para ele, algo a ser seguido para que ele conseguisse atingir o seu objetivo final nesta tão aguardada sequência.

No novo filme, que se passa 30 anos após os eventos do primeiro, somos apresentados a uma nova situação. Ainda há replicantes sendo caçados, mas os novos exemplares compartilham suas vidas com os seres humanos que habitam a Califórnia. E assim conhecemos o replicante K (Ryan Gosling), um detetive de polícia que tem a tarefa de caçar replicantes considerados velhos e perigosos pela segurança (encabeçada pela personagem de Robin Wright).

Acontece que já no primeiro modelo que ele trata de "aposentar", o replicante vivido por Dave Bautista, ele ouve algo que o deixa intrigado, algo relacionado a não ter visto um milagre. K é um homem que tem suas próprias angústias, mas leva a vida conformado com o fato de ser um simples androide sem alma. O que mexe com sua cabeça é a história absurda de que uma replicante ter dado à luz uma criança. Nem é preciso dizer que se trata de Rachael, a marcante e apaixonante personagem de Sean Young no filme original.

Rachael teria morrido no fantástico parto e Deckart (Harrison Ford), que havia partido com ela, está desaparecido há 30 anos. Assim, K passa a querer também ir fundo e por conta própria na investigação desse fascinante caso. Até porque ele guarda uma memória que lhe parece muito real para ser um implante. Uma memória envolvendo um cavalinho de madeira. O vazio da vida de K começa a ganhar um ar de novidade e ele passa também a querer transgredir um pouco as leis. Inclusive do ponto de vista dos relacionamentos, já que sua esposa (ou o mais próximo disso) é Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial em forma holográfica que diz amá-lo. O fato de ambos não poderem se tocar é no mínimo perturbador.

Aliás, umas das coisas mais bonitas de BLADE RUNNER 2049 é o quanto choram os androides. Todos eles choram. Muito. Seja por amor, aflição, seja por ódio ou indignação, eles se mostram mais humanos do que os humanos. Assim, Joi sente (ou acredita sentir) de fato um amor muito grande por K, e acredita que o seu amado é alguém mais especial do que imagina ser.

Inclusive, uma das cenas mais belas e empolgantes é uma espécie de ménage à trois envolvendo os dois amantes e uma terceira pessoa. É o tipo de cena que provoca uma sensação de arrebatamento, um momento em que o público quase para de respirar para poder ver e sentir junto com aquele casal. É um dos momentos mais bonitos do cinema recente.

Mas há também, como falado no primeiro parágrafo, a história da busca da identidade do protagonista. E, nisso, o encontro com Deckard é de fundamental importância. A primeira aparição do personagem clássico é bem memorável, assim como o embate inicial entre os dois. Mas, assim como acontece com o filme de Scott, Villeneuve prefere continuar dando um ar de mistério a Deckard, mesmo quando algumas perguntas são respondidas.

Denis Villeneuve entra na mitologia de Blade Runner com sua obsessão por histórias familiares. Desde seu longa de estreia, 32 de AGOSTO NA TERRA (1998), que a questão da paternidade é tratada com profundidade e seriedade. Isso seria levado adiante em filmes tão distintos como INCÊNDIOS (2010), O HOMEM DUPLICADO (2013) e A CHEGADA (2016). A intersecção entre esses filmes inclui pessoas que se sentem deslocadas e se veem diante de um elemento-surpresa ou um desafio que as fazem questionar os seus papéis na existência.

Em BLADE RUNNER 2049, a dor e o vazio que K sente pode muito bem ser vista com distanciamento, mas não é muito diferente da dor que um ser humano também sente ao perceber o seu grau de diferença em relação aos seus semelhantes. Pela segunda vez consecutiva, Denis Villeneuve consegue fazer uma ficção científica existencialista com um coração sangrando e muita personalidade.

quarta-feira, outubro 04, 2017

BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES - VERSÃO FINAL DO DIRETOR (Blade Runner - The Final Cut)

Às vésperas da estreia de BLADE RUNNER 2049 é natural que muita gente esteja revendo (ou mesmo vendo pela primeira vez) BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (1982), de Ridley Scott. Acho que foi a terceira vez que vi o filme, mas as outras vezes foram de diferentes maneiras e em diferentes versões. A primeira vez foi na televisão, talvez na estreia na Rede Globo, com a famosa narração em voice-over que dá ao filme um tom próximo ao dos filmes noirs dos anos 1940; a segunda, "a versão do diretor" (1992), em VHS também. Logo, já fazia um bom tempo que eu precisava rever o filme e escolhi a "versão final do diretor" (2007), um dos cincos cortes disponíveis, e comandado efetivamente por Scott.

Não vou negar que esse número grande de cortes me incomoda. É como se o filme, apesar de já ter se tornado um clássico, nunca conseguisse chegar a uma versão perfeita e totalmente satisfatória. Por outro lado, para quem é fã e costuma rever com frequência, deve ser interessante ficar comparando as várias versões e ver o que foi retirado e o que foi acrescentado. O que eu senti falta, pela minha memória afetiva, neste final cut foi a cena de Rick Deckard (Harrison Ford) indo embora em um avião com Rachael (Sean Young).

Mesmo assim, não deixa de ser bonito o corte mais abrupto e moderno desta versão de 2007, sem a necessidade de procurar um epílogo para a história e deixando na cabeça do espectador mais possibilidades. Outra coisa que é muito boa, dessa vez em comparação com a primeira versão, é que, sem a narração de Deckard, o filme respira melhor, e fica até mais melancólico o drama dos personagens, principalmente o do protagonista, obrigado a executar a ação de matar os replicantes, robôs tão perfeitos que parecem seres humanos e criados para trabalhar na colonização e exploração em outros planetas. A mais lamentável das mortes é a da Zhora (Joanna Cassidy), a que trabalha em uma casa noturna com uma serpente.

São poucos os replicantes que sobraram e uma delas acaba por se tornar o interesse amoroso de Deckard, Rachael. Trata-se da personagem mais fascinante do filme e, por mais que haja uma tentativa de torná-la um tanto fria como uma máquina, não é asssim que a vemos. E há também a cena de intimidade entre ela e Deckhard, que passa até uma estranha sensação de transgressão. Imagina só transar com um robô. É como se eles estivessem fazendo algo muito proibido e por isso mesmo a cena é tão cheia de calor, ainda mais com aquela trilha sonora maravilhosa do Vangelis.

Não dá para falar de BLADE RUNNER e não destacar também a beleza que é a composição visual do filme: a fotografia com cores tão lindas; a direção de arte que constrói um mundo futurista mas também decadente e desagradável; os designs dos espaços arquitetônicos e dos carros; tudo é muito bem cuidado.

Ridley Scott já havia feito um milagre em trabalhar dentro de uma nave apertada em ALIEN - O 8º PASSAGEIRO (1979) e BLADE RUNNER só era o seu terceiro longa-metragem, o que confirmava o talento emergente. Infelizmente ele deu umas derrapadas pela carreira, mas há mais pontos altos do que baixos, não? Até porque ele se mostrou muito sensível quando trabalhou em dramas, em produções financeiramente menos ambiciosas. A decisão de passar a direção da continuação, BLADE RUNNER 2049, para Denis Villeneuve pode ter sido acertada. Mas isso confirmaremos muito em breve. Até lá, a memória da revisão do filme original segue sendo muito positiva.

domingo, outubro 01, 2017

A GHOST STORY

Durante as discussões acaloradas e polêmicas sobre o tal pós-horror, A GHOST STORY (2017), de David Lowery, foi citado frequentemente como um dos principais exemplares do suposto subgênero. Mas isso na verdade não importa muito, a não ser para, mais uma vez, discutir se o filme em questão é feito ou não para assustar ou assombrar o espectador. Assustar, no caso, definitivamente, não. Já assombrar, ele pode sim. Mas no sentido de que pode deixar o espectador pensando no tempo, na morte e na solidão.

A GHOST STORY subverte não só os clichês do drama e do horror, mas também muitas expectativas. Contar a história de um casal que vive feliz em uma casa e que é separado pela morte de um deles poderia ser contado de maneira bem dramática. Em vez disso, sequer vemos o acidente que vitimou C (Casey Affleck), apenas a imagem de seu corpo morto, no carro. Isso depois de mal termos tempo de acompanhar a intimidade do casal.

M (Rooney Mara), sua namorada (ou esposa), vai até o necrotério para reconhecer o corpo. A câmera se mostra distante da personagem como se fosse alguém vendo às escondidas aquele momento tão íntimo, que, ao contrário do que se poderia imaginar, não é carregada de lágrimas e choro. Ela sai triste, talvez ainda sem acreditar no que acabou de acontecer. Logo após a saída dela, C se levanta e vai até a sua casa, com um lençol branco cobrindo o corpo e com dois buracos nos olhos, acentuando a tristeza e parecendo um desses fantasmas de desenho animado.Seu destino não poderia ser outro que não a casa onde morava.

Porém, ao contrário do fantasma de Patrick Swayze em GHOST - DO OUTRO LADO DA VIDA, C não tem ou não consegue se comunicar com a amada ou dar conta da rapidez da passagem do tempo. O modo como o filme lida com os hiatos temporais é admirável. Tão admirável quanto deixar o espectador impaciente, mas também disciplinado, ao ter que acompanhar uma cena de cinco minutos de Mara comendo uma torta, enquanto o fantasma a observa.

São coisas assim que fazem de A GHOST STORY uma experiência não só inusitada, como também um dos filmes mais tristes do ano. Afinal, presenciar o luto pelos olhos do morto é ainda mais doloroso do que pelos olhos dos vivos. Sem falar que o morto em questão é entregue totalmente à solidão da eternidade, preso àquela casa e ao amor de uma mulher que ele vê partir. Para não dizer que ele não consegue se comunicar com ninguém, há um outro fantasma, na casa ao lado em situação ainda mais triste, já que ele nem mesmo se lembra mais quem esperava chegar.

A passagem rápida do tempo ajuda o filme a se tornar mais palatável para os espectadores mais apressados. E há um momento muito especial que servirá como elemento de suspense (ou algo parecido), que surge a partir da cena da misteriosa nota que a personagem de Mara esconde dentro de uma das frestas da casa de madeira. O filme ainda guarda algumas surpresas muito bem-vindas até o final.

E assim David Lowery inscreve seu nome na lista dos nomes quentes de Hollywood. Não havia conseguido ainda no bom drama AMOR FORA DA LEI (2013), que também contava com Affleck e Mara, mas com o original e incomum A GHOST STORY muita gente vai ficar de olho nos seus próximos trabalhos.