Primeira vez que um filme da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL repete o diretor, o sexto filme da série traz mais uma parceria do produtor e ator Tom Cruise com o diretor Christopher McQuarrie, com quem havia trabalhado em JACK REACHER - O ÚLTIMO TIRO (2012) e em MISSÃO: IMPOSSÍVEL - NAÇÃO SECRETA (2015). A amizade, porém, deve ter surgido quando da produção de OPERAÇÃO VALQUÍRIA (2008), em que McQuarrie aparece como roteirista.
O caso de McQuarrie é interessante, pois nota-se um crescimento dele como cineasta, provavelmente a partir das exigências do Cruise produtor e homem cada vez mais centrado na adrenalina e nos filmes de ação. Pode-se dizer que o diretor e roteirista chegou ao status de excelência neste MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (2018), com cenas de ação de cair o queixo de tão boas. É possível que seja o melhor filme da franquia desde o primeiro, dirigido por Brian De Palma em 1996.
A brincadeira com as máscaras continuam e aumentaram ainda mais os perigos, presentes, inclusive, no set de filmagens, quando Cruise, ao rejeitar o uso de dublês nas cenas de ação, quebrou o próprio pé em uma sequência em que pula de um prédio para o outro. Toda essa sensação de verdade e de materialidade é sentida no filme, que se distingue bastante das atuais aventuras de ação que usam e abusam do CGI. Mesmo em uma sequência como a dos helicópteros, tudo parece muito palpável, pesado, real.
Por real, não há por que pensar que o filme é do tipo verossímil. Não há necessidade disso uma vez que se aceite o jogo, as brincadeiras que a franquia proporciona, como a velha tensão em cortar o fio de uma bomba nos últimos instantes. Aqui a diferença é que os realizadores intensificam esse momento, colocando não apenas uma, mas três bombas ao mesmo tempo, em um projeto de equipe.
E por falar em equipe, EFEITO FALLOUT talvez seja o filme que melhor soube trabalhar com a questão do grupo. Apesar de nunca deixar de ser o grande protagonista, Tom Cruise divide a tela com o "Superman" Henry Cavill desta vez, em participação muito importante - a cena do banheiro, com uma luta corpo a corpo entre eles dois e um asiático, é sensacional. E é quando surge também Rebecca Ferguson, que havia brilhado no filme anterior e que retorna como uma espécie de membro não filiada da equipe, já que ela é uma espiã de outra organização. Ving Rhames e Simon Pegg também retornam como fiéis parceiros de Ethan Hunt (Cruise) e Michelle Monaghan aparece pouco, como a ex-esposa que teve que sair da vida do agente por causa do perigo.
A sensação de familiaridade se dá não apenas pelo retorno de toda essa turma - até o vilão do filme anterior retorna - mas por uma parceria que foi azeitada para resultar em uma obra que merece figurar entre as melhores produções de ação do novo século. Assim, se a princípio alguém pode ficar triste com o fato de não haver um novo diretor para deixar a sua marca na franquia, esse sacrifício foi feito por um motivo justo. Além do mais, Cruise não anda querendo mais muitas intervenções de cineastas-autores em suas produções. Felizmente ele é um ótimo produtor e aqui pelo menos parece saber o que está fazendo.
A trama é talvez a mais intrincada dos seis filmes da série, mas isso não constitui um problema: até dá um charme a mais. Até porque é uma trama que não é difícil de acompanhar. E mesmo se fosse difícil, ficar perdido em filmes de espionagem faz parte do jogo. E no caso de EFEITO FALLOUT, então, temos tantas cenas de ação ótimas que mesmo que nada fizesse sentido o filme seria ótimo ainda assim. A cena do paraquedas, a já citada cena de luta no banheiro de uma boate, a cena de perseguição na moto, a corrida no prédio, a perseguição de helicópteros são os melhores exemplos. É quase um aviso para os produtores dos filmes do James Bond: pronto, agora façam melhor do que isso, se são capazes!
+ TRÊS FILMES
LUA DE JÚPITER (Jupiter Holdja)
Quando vi que este filme estava cotado para a Palma de Ouro em Cannes fiquei imaginando o porquê. Agora vi que foi por causa do sucesso de WHITE GOD (2014), que eu considero um filmão. Mas este aqui, meu Deus do céu, o que é isso? Essa fascinação por efeitos especiais e pela história do rapaz que é capaz de voar é de cansar a paciência. E há uma trama toda confusa que chega um momento que desisti de tentar entender. É um pouco longo, mas parece ainda mais longo. Direção: Kornél Mundruczó. Ano: 2017.
BASEADO EM FATOS REAIS (D'Après une Histoire Vraie)
O quanto desceu Roman Polanski, hein? Não dá nem pra imaginar que é baseado em um romance. O romance deve ser bem vagabundo, é o que dá para pensar. As atrizes nem estão de todo ruins, se a ideia é mesmo fazer um suspense tipo Supercine. Nesse sentido, dá pra se divertir com a Eva Green mais uma vez vilanesca. Ano: 2017.
GEMINI
Estou virando um stalker da Lola Kirke. Foi por ela que vi este GEMINI, que pintou nos torrents da vida e nem sei se vai aparecer nos streamings. O filme é mais charmoso do que realmente bom, com uma trama intrincada e que se perde e desaponta quando chega ao seu desfecho. Mas até lá é intrigante, explorando bastante a noite escura e as mansões luxuosas de Los Angeles/Hollywood. Direção: Aaron Katz. Ano: 2017.
domingo, julho 29, 2018
segunda-feira, julho 23, 2018
A PATRULHA DA MADRUGADA (The Dawn Patrol)
Tempos atrás eu fiz uma peregrinação muito gostosa pela obra de Howard Hawks. Ia em busca de todos os filmes disponíveis em DVD ou para download com legendas pelo menos em inglês ou até em espanhol e fazia a festa. Alguns filmes acabaram ficando de fora pela indisponibilidade nesses meios. Agora alguns deles estão começando a surgir. A PATRULHA DA MADRUGADA (1930) é um deles. Embora não seja um dos melhores do cineasta, é um de seus trabalhos mais importantes. É o primeiro filme a definir alguns aspectos que se repetiriam como marca do autor em diversos outros trabalhos.
Antes de HERÓIS DO AR (1936), O PARAÍSO INFERNAL (1938) e ÁGUIAS AMERICANAS (1943), Hawks já havia prestado o seu tributo e demonstrado o seu amor à aviação neste que é tido como o primeiro filme sonoro realizado sem excessos de dramatização. Isso nas próprias palavras do diretor, em entrevista a Peter Bogdanovich, mas que pode muito bem ser quase uma unanimidade naqueles tempos em que os cineastas ainda tateavam na transição de uma era para a outra.
O filme também tem muito a ver com uma época em que o próprio Hawks era entusiasta da aviação e tinha uma relação de amizade com o milionário excêntrico Howard Hughes, que no mesmo ano fez um filme de aviação mais ambicioso do ponto de vista da produção, ANJOS DO INFERNO. Mas Hawks sabia lidar melhor com as emoções e por isso se tornou o gigante cultuado que é até hoje.
A PATRULHA DA MADRUGADA começa logo com a morte de dois pilotos durante uma missão durante a Primeira Guerra Mundial. Não conhecemos os pilotos, mas o filme sabe como deixar a situação trágica o suficiente, ao mesmo tempo em que os personagens principais tentam ser durões o o bastante para encarar aquela situação quase como uma rotina. Ainda que uma rotina muito cruel.
Um dos detalhes interessantes é que o próprio Hawks pilotou um dos aviões, filmou algumas cenas no ar. Cenas que depois seriam aproveitadas descaradamente em outra produção, da Warner, com praticamente o mesmo título. Por isso que hoje em dia, mesmo com tantos recursos, não conseguem fazer algo tão realista quanto o que se fazia nos anos 1930 e 1940.
Do ponto de vista das emoções, o ápice do filme é certamente a cena em que os pilotos cantam juntos no bar uma canção sobre aqueles que morreram e aqueles que ainda morrerão. É bem triste, mas é suficiente também para trazer uma relação de amizade masculina que se tornaria uma das marcas dos filme de Hawks. Quem é fã do cineasta certamente não pode ficar sem ver este A PATRULHA DA MADRUGADA. Até por que uma cena maravilhosa como a dos dois pilotos atacando a base dos alemães não se vê todo dia.
+ TRÊS FILMES
HORIZONTE PROFUNDO - DESASTRE NO GOLFO (Deepwater Horizon)
Belo filme que nos oferece um pouco do que foi o maior desastre ecológico envolvendo petróleo da história dos Estados Unidos. Eficiente e no final a gente fica até bem emocionado. (Esse foi meu comentário na época que vi o filme, 11 de novembro de 2016. Com distanciamento, já vejo com excessos na parte do heroísmo.) Direção: Peter Berg. Ano: 2016.
UM ESTADO DE LIBERDADE (Free State of Jones)
A história em si eu não conhecia e achei fascinante! Mas o filme era pra ter virado uma minissérie. Acabou não dando conta de caber em 2 horas e 20 minutos e a segunda metade é bem corrida e apressada, recorrendo a vários textos explicativos. Mas há muitos momentos sensacionais. Direção: Gary Ross. Ano: 2016.
A LEI DA NOITE (Live by Night)
O amigo de Matt Damon, Ben Affleck, também se saiu mal dessa vez. A LEI DA NOITE podia ter rendido um puta filme, se feito sob a direção de um Scorsese, um De Palma, um Michael Mann... Há um material tão rico e é tão mal construído... Ano: 2016.
Antes de HERÓIS DO AR (1936), O PARAÍSO INFERNAL (1938) e ÁGUIAS AMERICANAS (1943), Hawks já havia prestado o seu tributo e demonstrado o seu amor à aviação neste que é tido como o primeiro filme sonoro realizado sem excessos de dramatização. Isso nas próprias palavras do diretor, em entrevista a Peter Bogdanovich, mas que pode muito bem ser quase uma unanimidade naqueles tempos em que os cineastas ainda tateavam na transição de uma era para a outra.
O filme também tem muito a ver com uma época em que o próprio Hawks era entusiasta da aviação e tinha uma relação de amizade com o milionário excêntrico Howard Hughes, que no mesmo ano fez um filme de aviação mais ambicioso do ponto de vista da produção, ANJOS DO INFERNO. Mas Hawks sabia lidar melhor com as emoções e por isso se tornou o gigante cultuado que é até hoje.
A PATRULHA DA MADRUGADA começa logo com a morte de dois pilotos durante uma missão durante a Primeira Guerra Mundial. Não conhecemos os pilotos, mas o filme sabe como deixar a situação trágica o suficiente, ao mesmo tempo em que os personagens principais tentam ser durões o o bastante para encarar aquela situação quase como uma rotina. Ainda que uma rotina muito cruel.
Um dos detalhes interessantes é que o próprio Hawks pilotou um dos aviões, filmou algumas cenas no ar. Cenas que depois seriam aproveitadas descaradamente em outra produção, da Warner, com praticamente o mesmo título. Por isso que hoje em dia, mesmo com tantos recursos, não conseguem fazer algo tão realista quanto o que se fazia nos anos 1930 e 1940.
Do ponto de vista das emoções, o ápice do filme é certamente a cena em que os pilotos cantam juntos no bar uma canção sobre aqueles que morreram e aqueles que ainda morrerão. É bem triste, mas é suficiente também para trazer uma relação de amizade masculina que se tornaria uma das marcas dos filme de Hawks. Quem é fã do cineasta certamente não pode ficar sem ver este A PATRULHA DA MADRUGADA. Até por que uma cena maravilhosa como a dos dois pilotos atacando a base dos alemães não se vê todo dia.
+ TRÊS FILMES
HORIZONTE PROFUNDO - DESASTRE NO GOLFO (Deepwater Horizon)
Belo filme que nos oferece um pouco do que foi o maior desastre ecológico envolvendo petróleo da história dos Estados Unidos. Eficiente e no final a gente fica até bem emocionado. (Esse foi meu comentário na época que vi o filme, 11 de novembro de 2016. Com distanciamento, já vejo com excessos na parte do heroísmo.) Direção: Peter Berg. Ano: 2016.
UM ESTADO DE LIBERDADE (Free State of Jones)
A história em si eu não conhecia e achei fascinante! Mas o filme era pra ter virado uma minissérie. Acabou não dando conta de caber em 2 horas e 20 minutos e a segunda metade é bem corrida e apressada, recorrendo a vários textos explicativos. Mas há muitos momentos sensacionais. Direção: Gary Ross. Ano: 2016.
A LEI DA NOITE (Live by Night)
O amigo de Matt Damon, Ben Affleck, também se saiu mal dessa vez. A LEI DA NOITE podia ter rendido um puta filme, se feito sob a direção de um Scorsese, um De Palma, um Michael Mann... Há um material tão rico e é tão mal construído... Ano: 2016.
quarta-feira, julho 18, 2018
ARRANHA-CÉU - CORAGEM SEM LIMITE (Skyscraper)
Eis um filme que nos faz ter saudades das aventuras de ação tanto dos anos 1980 quanto da década seguinte. Isso porque ARRANHA-CÉU - CORAGEM SEM LIMITE (2018) acaba remetendo, inevitavelmente, ao hoje clássico DURO DE MATAR, que para muitos é considerado um divisor de águas entre o tipo de filme de ação que se fazia nos anos da Era Reagan e o que surgiria com mais sofisticação e mais diretores renomados na década seguinte. A lembrança tem a ver principalmente com a figura de um herói passando por situações perigosas em um prédio alto.
Acontece que tudo é anabolizado e o efeito para o espectador que até tenta embarcar com boa vontade no filme é de certa indiferença. Talvez por Dwayne Johnson ser uma figura tão forte e tão cheia de músculos que parece um super-herói já pronto e capaz até mesmo de passar de um lado a outro de um prédio com auxílio de fitas adesivas nas mãos, como um Homem-Aranha. Em DURO DE MATAR, Bruce Willis, por sua vez, encarna a figura de uma pessoa normal, que até sangra bastante.
Deixando as comparações de lado, o que temos é um filme em que não se espera nenhuma sutileza. O que o diretor Rawson Marshall Thurber, que já havia trabalhado com Johnson em UM ESPIÃO E MEIO (2016), poderia fazer era usar os exageros a seu favor. Uma pena que nem a equipe de efeitos especiais tenha se preocupado em deixar as cenas críveis a ponto de as aproximarem do espectador. Não se trata, portanto, de uma produção feita no capricho como um MISSÃO: IMPOSSÍVEL. E nem tem a pretensão de ser, na verdade. De todo modo, há pontos positivos a destacar.
Um deles é ter novamente Neve Campbell em ação depois de passarmos quase uma década vendo-a como protagonista da antológica cinessérie PÂNICO, de Wes Craven, nos anos 1990. Em ARRANHA-CÉU ela interpreta a esposa do protagonista. Curiosamente, veremos que ela é mais do que apenas uma esposa em perigo cuidando de seus dois filhos. Ter um protagonista com uma deficiência física (o herói perde a perna em ação no início do filme) acaba por tornar Johnson não um sujeito com pontos fracos. Ao contrário, ele se torna ainda mais invencível com aquela perna que lhe será útil em determinadas situações de perigo.
Outro ponto positivo é a locação. Hong Kong é um charme e foi um grande polo dos filmes de ação por décadas. Parte do elenco é composta por atores de lá. Além do homem que idealizou o prédio mais alto do mundo, vivido por Chin Han, há uma personagem coadjuvante, do grupo dos vilões, que poderia ter sido melhor aproveitada, a jovem e bela Hannah Quinlivan. Ela e Neve Campbell tem um momento juntas, mas é muito pouco.
O que sobra mesmo é espaço para a inteligência e as habilidades do protagonista, que passa a ter suas ações acompanhadas por uma multidão através de uma imensa tela de televisão, enquanto o prédio está em chamas e sua família corre perigo. A trama é o de menos: envolve os inimigos do empresário que planejam por em chamas o prédios mais alto do mundo. As cenas não deixam de passar uma lembrança do 11 de setembro. Talvez a ideia de Thurber tenha sido esta: fazer um grande épico de ação que remetesse a um grande drama americano.
+ TRÊS FILMES
SICÁRIO - DIA DO SOLDADO (Sicario - Day of the Soldado)
Pra ser sincero, tenho pouca lembrança do primeiro filme, apesar de lembrar de ter gostado. Deste, gostei bastante da força do personagem do Del Toro, e de sua grande presença em cena, assim como de sua relação com a garota sequestrada. Interessante terem colocado um diretor italiano para dirigir esta sequência, que tem várias cenas memoráveis. A maioria delas, claro, roubadas por Del Toro. Destaque também para o ótimo roteiro bem costurado do Taylor Sheridan, que é praticamente um roteirista-autor. Caso raro atualmente em Hollywood. Talvez por isso Villeneuve não tenha querido dirigir mais este. Direção: Stefano Sollima. Ano: 2018.
OITO MULHERES E UM SEGREDO (Ocean's Eight)
Muito divertido este filme de roubo com a presença de um time de estrelas que a gente ama. Bullock, Blanchett, Hathaway e Paulson, em primeiro lugar. Mas Rihanna está sensacional também. Nem gosto muito do primeiro filme do Soderbergh, por isso fui achando que não ia gostar deste. Diversão despretensiosa e que honra a subcategoria. Direção: Gary Ross. Ano: 2018.
NO OLHO DO FURACÃO (The Hurricane Heist)
Filme bem ordinário, mas que não chega a ser exatamente ruim, sobre assalto a banco que acontece em um cenário de furacão intenso. Maggie Grace está muito à vontade como agente federal. Aliás, nunca a vi tão à vontade e tão bela. Direção: Rob Cohen. Ano: 2018.
Acontece que tudo é anabolizado e o efeito para o espectador que até tenta embarcar com boa vontade no filme é de certa indiferença. Talvez por Dwayne Johnson ser uma figura tão forte e tão cheia de músculos que parece um super-herói já pronto e capaz até mesmo de passar de um lado a outro de um prédio com auxílio de fitas adesivas nas mãos, como um Homem-Aranha. Em DURO DE MATAR, Bruce Willis, por sua vez, encarna a figura de uma pessoa normal, que até sangra bastante.
Deixando as comparações de lado, o que temos é um filme em que não se espera nenhuma sutileza. O que o diretor Rawson Marshall Thurber, que já havia trabalhado com Johnson em UM ESPIÃO E MEIO (2016), poderia fazer era usar os exageros a seu favor. Uma pena que nem a equipe de efeitos especiais tenha se preocupado em deixar as cenas críveis a ponto de as aproximarem do espectador. Não se trata, portanto, de uma produção feita no capricho como um MISSÃO: IMPOSSÍVEL. E nem tem a pretensão de ser, na verdade. De todo modo, há pontos positivos a destacar.
Um deles é ter novamente Neve Campbell em ação depois de passarmos quase uma década vendo-a como protagonista da antológica cinessérie PÂNICO, de Wes Craven, nos anos 1990. Em ARRANHA-CÉU ela interpreta a esposa do protagonista. Curiosamente, veremos que ela é mais do que apenas uma esposa em perigo cuidando de seus dois filhos. Ter um protagonista com uma deficiência física (o herói perde a perna em ação no início do filme) acaba por tornar Johnson não um sujeito com pontos fracos. Ao contrário, ele se torna ainda mais invencível com aquela perna que lhe será útil em determinadas situações de perigo.
Outro ponto positivo é a locação. Hong Kong é um charme e foi um grande polo dos filmes de ação por décadas. Parte do elenco é composta por atores de lá. Além do homem que idealizou o prédio mais alto do mundo, vivido por Chin Han, há uma personagem coadjuvante, do grupo dos vilões, que poderia ter sido melhor aproveitada, a jovem e bela Hannah Quinlivan. Ela e Neve Campbell tem um momento juntas, mas é muito pouco.
O que sobra mesmo é espaço para a inteligência e as habilidades do protagonista, que passa a ter suas ações acompanhadas por uma multidão através de uma imensa tela de televisão, enquanto o prédio está em chamas e sua família corre perigo. A trama é o de menos: envolve os inimigos do empresário que planejam por em chamas o prédios mais alto do mundo. As cenas não deixam de passar uma lembrança do 11 de setembro. Talvez a ideia de Thurber tenha sido esta: fazer um grande épico de ação que remetesse a um grande drama americano.
+ TRÊS FILMES
SICÁRIO - DIA DO SOLDADO (Sicario - Day of the Soldado)
Pra ser sincero, tenho pouca lembrança do primeiro filme, apesar de lembrar de ter gostado. Deste, gostei bastante da força do personagem do Del Toro, e de sua grande presença em cena, assim como de sua relação com a garota sequestrada. Interessante terem colocado um diretor italiano para dirigir esta sequência, que tem várias cenas memoráveis. A maioria delas, claro, roubadas por Del Toro. Destaque também para o ótimo roteiro bem costurado do Taylor Sheridan, que é praticamente um roteirista-autor. Caso raro atualmente em Hollywood. Talvez por isso Villeneuve não tenha querido dirigir mais este. Direção: Stefano Sollima. Ano: 2018.
OITO MULHERES E UM SEGREDO (Ocean's Eight)
Muito divertido este filme de roubo com a presença de um time de estrelas que a gente ama. Bullock, Blanchett, Hathaway e Paulson, em primeiro lugar. Mas Rihanna está sensacional também. Nem gosto muito do primeiro filme do Soderbergh, por isso fui achando que não ia gostar deste. Diversão despretensiosa e que honra a subcategoria. Direção: Gary Ross. Ano: 2018.
NO OLHO DO FURACÃO (The Hurricane Heist)
Filme bem ordinário, mas que não chega a ser exatamente ruim, sobre assalto a banco que acontece em um cenário de furacão intenso. Maggie Grace está muito à vontade como agente federal. Aliás, nunca a vi tão à vontade e tão bela. Direção: Rob Cohen. Ano: 2018.
quarta-feira, julho 11, 2018
CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO
Chega a ser impossível ver este documentário e não sentir saudade da época das videolocadoras, mesmo sabendo que hoje, em termos de qualidade de som e imagem e de oferta, as coisas estão muito melhores. E nós mesmos, tão entusiastas de uma era, fomos de certa forma responsáveis pelo fim das lojas. Eu mesmo há tempos não fazia uma visita a uma locadora. A oferta e a qualidade dos arquivos para download eram tentadores demais.
Mas o que sentimos vendo CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO (2017), de Alan Oliveira, é difícil até de por em palavras, já que vêm à mente um entusiasmo muito grande. Eu, por exemplo, ficava tão alegre ao entrar em uma grande locadora, como a King Vídeo ou a Distrivídeo, ou mesmo em uma que tinha aqui no bairro vizinho, que tinha uma oferta até generosa, que batia até uma dor de barriga, tal era o entusiasmo. É como deixar uma criança em uma loja de doces e dizer que ela pode ficar à vontade e escolher muitos para levar.
Eu já lia revistas sobre cinema e vídeo e cheguei a ler a revista do Rubens Ewald Filho também, a Video News, antes mesmo de ter um aparelho de videocassete. O primeiro que eu tive só foi em 1992, com o dinheiro das minhas primeiras férias. Então, não cheguei a ver essa coisa de fita pirata em locadoras, embora todas as fitas que eu alugasse já falassem bastante da questão da obrigatoriedade das fitas seladas.
O documentário acaba sendo gostoso pois nos faz viajar no tempo, desde os primórdios das primeiras videolocadoras, que começaram de uma maneira bem ousadas, muito fruto da vontade e do amor dessas pessoas. A história da Omni Vídeo, por exemplo, a primeira de São Paulo e possivelmente do Brasil, é para dar boas risadas. Assim, conhecemos as primeiras locadoras e também acompanhamos as primeiras emocionadas histórias e, depois, as primeiras distribuidoras oficializadas.
Também não deixa de ser emocionante ver os depoimentos do crítico Christian Petermann, falecido prematuramente no ano passado. Ele passa uma paixão em suas memórias de consumidor de vídeo que deve contagiar até mesmo o pessoal da geração do novo milênio, que não chegou a acompanhar esse processo, ou que chegou já em um momento em que essas lojas estão em extinção.
Por essas e por outras razões, como a bela montagem e a ótima escolha de pessoas a entrevistar, além do forte toque de emoção, já que as pessoas entrevistadas dedicaram muitos anos (décadas) de suas vidas unindo negócio e prazer, que CINEMAGIA é uma das produções brasileiras mais bem-vindas da atualidade, especialmente nesses tempos de streaming e novos hábitos de consumo de filmes. É sempre bom lembrar que as coisas já foram bem diferentes. E quem viveu aqueles momentos viveu momentos mágicos.
+ TRÊS FILMES
LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA (Lumière)
É bom que o espectador vá ao cinema preparado para ver 108 curtas de 50 segundos dos irmãos Lumière. Mas mesmo com a possibilidade de cansar, a edição é muito boa, e a análise do diretor é excelente. Se fossem apenas os filmes para serem vistos e sem comentário algum certamente deixaríamos de prestar atenção em muitas coisas. Legal que a sala tinha bastante gente e muita gente se divertiu e riu de vários curtas. Ah, e eu achei incrível aquele com uso de três cinemascopes numa só imagem. Direção: Thierry Frémaux. Ano: 2016.
GATOS (Kedi)
Pra quem gosta de gatos é uma beleza. Mas o filme tem algo de muito interessante em mostrar Istambul, uma cidade cheia de gatos por todos os lados. Tem até o seu lado triste, pois muitos deles vivem nas ruas, sem donos. Muito bonitos os depoimentos de pessoas que conseguiram superar problemas sérios graças aos gatos. Sem falar que eles são de uma beleza incrível. É como um dos entrevistados diz: é como se eles fossem super-heróis. Admiráveis no que conseguem fazer e ainda serem tão elegantes. Gosto também de uma moça, que fala sobre a questão de os gatos permitirem ser belos e elegantes mas não permitirem que qualquer pessoa os toque. Direção: Ceyda Torun. Ano: 2016.
SPIELBERG
Levei meses para terminar de ver este documentário, pois ele não é tão fluido, é meio truncado, não sei. Mas há muita coisa a se aprender sobre o homem e o artista vendo este filme. Alguns filmes passaram batido, mas acho que a maior parte das escolhas foi acertada. Talvez o problema seja de montagem. Direção: Susan Lacy. Ano: 2017.
Mas o que sentimos vendo CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO (2017), de Alan Oliveira, é difícil até de por em palavras, já que vêm à mente um entusiasmo muito grande. Eu, por exemplo, ficava tão alegre ao entrar em uma grande locadora, como a King Vídeo ou a Distrivídeo, ou mesmo em uma que tinha aqui no bairro vizinho, que tinha uma oferta até generosa, que batia até uma dor de barriga, tal era o entusiasmo. É como deixar uma criança em uma loja de doces e dizer que ela pode ficar à vontade e escolher muitos para levar.
Eu já lia revistas sobre cinema e vídeo e cheguei a ler a revista do Rubens Ewald Filho também, a Video News, antes mesmo de ter um aparelho de videocassete. O primeiro que eu tive só foi em 1992, com o dinheiro das minhas primeiras férias. Então, não cheguei a ver essa coisa de fita pirata em locadoras, embora todas as fitas que eu alugasse já falassem bastante da questão da obrigatoriedade das fitas seladas.
O documentário acaba sendo gostoso pois nos faz viajar no tempo, desde os primórdios das primeiras videolocadoras, que começaram de uma maneira bem ousadas, muito fruto da vontade e do amor dessas pessoas. A história da Omni Vídeo, por exemplo, a primeira de São Paulo e possivelmente do Brasil, é para dar boas risadas. Assim, conhecemos as primeiras locadoras e também acompanhamos as primeiras emocionadas histórias e, depois, as primeiras distribuidoras oficializadas.
Também não deixa de ser emocionante ver os depoimentos do crítico Christian Petermann, falecido prematuramente no ano passado. Ele passa uma paixão em suas memórias de consumidor de vídeo que deve contagiar até mesmo o pessoal da geração do novo milênio, que não chegou a acompanhar esse processo, ou que chegou já em um momento em que essas lojas estão em extinção.
Por essas e por outras razões, como a bela montagem e a ótima escolha de pessoas a entrevistar, além do forte toque de emoção, já que as pessoas entrevistadas dedicaram muitos anos (décadas) de suas vidas unindo negócio e prazer, que CINEMAGIA é uma das produções brasileiras mais bem-vindas da atualidade, especialmente nesses tempos de streaming e novos hábitos de consumo de filmes. É sempre bom lembrar que as coisas já foram bem diferentes. E quem viveu aqueles momentos viveu momentos mágicos.
+ TRÊS FILMES
LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA (Lumière)
É bom que o espectador vá ao cinema preparado para ver 108 curtas de 50 segundos dos irmãos Lumière. Mas mesmo com a possibilidade de cansar, a edição é muito boa, e a análise do diretor é excelente. Se fossem apenas os filmes para serem vistos e sem comentário algum certamente deixaríamos de prestar atenção em muitas coisas. Legal que a sala tinha bastante gente e muita gente se divertiu e riu de vários curtas. Ah, e eu achei incrível aquele com uso de três cinemascopes numa só imagem. Direção: Thierry Frémaux. Ano: 2016.
GATOS (Kedi)
Pra quem gosta de gatos é uma beleza. Mas o filme tem algo de muito interessante em mostrar Istambul, uma cidade cheia de gatos por todos os lados. Tem até o seu lado triste, pois muitos deles vivem nas ruas, sem donos. Muito bonitos os depoimentos de pessoas que conseguiram superar problemas sérios graças aos gatos. Sem falar que eles são de uma beleza incrível. É como um dos entrevistados diz: é como se eles fossem super-heróis. Admiráveis no que conseguem fazer e ainda serem tão elegantes. Gosto também de uma moça, que fala sobre a questão de os gatos permitirem ser belos e elegantes mas não permitirem que qualquer pessoa os toque. Direção: Ceyda Torun. Ano: 2016.
SPIELBERG
Levei meses para terminar de ver este documentário, pois ele não é tão fluido, é meio truncado, não sei. Mas há muita coisa a se aprender sobre o homem e o artista vendo este filme. Alguns filmes passaram batido, mas acho que a maior parte das escolhas foi acertada. Talvez o problema seja de montagem. Direção: Susan Lacy. Ano: 2017.
segunda-feira, julho 09, 2018
VINGANÇA (Revenge)
O fato de VINGANÇA (2017) ser um filme de estupro e vingança dirigido por uma mulher nos dias de hoje faz bastante diferença na hora de perceber detalhes importantes, principalmente se já temos como referência outros filmes desse subgênero em mente, como A VINGANÇA DE JENNIFER, de Meir Sarchi, e seu remake DOCE VINGANÇA, de Steven M. Monroe, THRILLER - A CRUEL PICTURE, de Bo Arne Vibenius, SEDUÇÃO E VINGANÇA, de Abel Ferrara, SEDUZIDA AO EXTREMO, de Robert M. Young, entre outros.
Em comum em todos esses filmes está o aspecto exploitation. São menos feitos para fazer uma reflexão sobre o ato terrível perpetrado pelos estupradores e mais feitos para mostrar as cenas violentas, às vezes até com um pouco de sadismo. O exemplar que leva essa característica às últimas consequências talvez seja IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, ainda que seja uma obra que, ao nos fazer olhar por vários minutos todo o estupro, também traz um sentimento de mal estar enorme.
De todo modo, ao vermos VINGANÇA, primeiro longa da diretora e roteirista Coralie Fargeat, entendemos o fato de ela não mostrar a cena do estupro em si. Acaba não sendo necessário, já que o mal estar provocado pela tensão provocada pelo estuprador nos momentos imediatamente anteriores à ação já é motivo mais do que suficiente para que torçamos por sua vingança. Até porque o que acontece em seguida só torna os seus motivos ainda mais aceitáveis.
Ao contrário do que se poderia imaginar em uma obra dirigida por uma mulher e feita em tempos em que se procura não mais objetificar o corpo feminino, VINGANÇA destaca sim o belo corpo de sua protagonista, vivida pela italiana Matilda Anna Ingrid Lutz. Assim como traz motivo para algum espectador chegar e dizer: "mas ela não deu motivo para o estuprador fazer o que fez?". Aí é que está: a protagonista, ao brincar e se sentir desejada por aqueles três homens, tinha o direito de esbanjar sensualidade e beleza. Então, o que temos aqui é também uma espécie de filme-manifesto sobre esse direito.
Trazer esses questionamentos em uma embalagem de um filme de suspense sangrento (e haja sangue!) e cheio de filtros e com fotografia estilizada é um mérito que VINGANÇA tem. É possível ver o filme empolgado com o jogo de gato e rato e também se divertir com certas cenas que vão parecer bem inverossímeis, como as duas que envolvem um isqueiro. Ainda assim, não deixam de ser inteligentes no modo como encontram uma solução para que a vingança da jovem mulher fosse efetuada no calor do momento, e não um prato que se come frio, como se costuma dizer em provérbio popular.
Outro elemento muito importante que o filme destaca é a ênfase dada à covardia do estuprador (Vincent Colombe). Ele é covarde não só em ser um estuprador, mas é covarde também quando tem que enfrentar aquele anjo de vingança que escapa da morte para persegui-lo. Esses e outros detalhes contam nesta produção que sabe brincar com um tipo de história tantas vezes narrada por um homem e que traz consigo tanto a vulgaridade quanto a leitura rica e as questões tão em voga nos dias de hoje.
+ TRÊS FILMES
7 DIAS EM ENTEBBE (Entebbe)
Acho que este filme do José Padilha vale mais por apresentar uma história real impressionante de maneira até decente do que pelo modo como a narrativa se dá efetivamente. Gosto de como o casal principal trabalha com os conflitos internos. Do ponto de vista político, será que Padilha quis ser imparcial? Ano: 2018.
AOS TEUS OLHOS
Uma das boas surpresas dentre os filmes brasileiros a estrear neste ano. AOS TEUS OLHOS também se beneficia em saber lidar com um assunto muito presente nos dias de hoje, que é o julgamento que se faz de alguém a partir da internet. Aliás, não só esse tema. Carolina Jabor consegue manter um clima de tensão do início ao fim. Ano: 2017.
COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR
Como dá para ver o filme como sendo uma produção B de ação, acaba parecendo aquelas produções feitas diretas para vídeo nos tempos do VHS, embora a curiosidade esteja no fato de ser um filme basicamente moçambicano. É possível perceber tanto as falhas quanto as qualidades, mas não consegui me envolver e fiquei ligado mais nas falhas mesmo. E na falta de mais força dramática. Diretor: Licínio Azevedo. Ano: 2016.
Em comum em todos esses filmes está o aspecto exploitation. São menos feitos para fazer uma reflexão sobre o ato terrível perpetrado pelos estupradores e mais feitos para mostrar as cenas violentas, às vezes até com um pouco de sadismo. O exemplar que leva essa característica às últimas consequências talvez seja IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, ainda que seja uma obra que, ao nos fazer olhar por vários minutos todo o estupro, também traz um sentimento de mal estar enorme.
De todo modo, ao vermos VINGANÇA, primeiro longa da diretora e roteirista Coralie Fargeat, entendemos o fato de ela não mostrar a cena do estupro em si. Acaba não sendo necessário, já que o mal estar provocado pela tensão provocada pelo estuprador nos momentos imediatamente anteriores à ação já é motivo mais do que suficiente para que torçamos por sua vingança. Até porque o que acontece em seguida só torna os seus motivos ainda mais aceitáveis.
Ao contrário do que se poderia imaginar em uma obra dirigida por uma mulher e feita em tempos em que se procura não mais objetificar o corpo feminino, VINGANÇA destaca sim o belo corpo de sua protagonista, vivida pela italiana Matilda Anna Ingrid Lutz. Assim como traz motivo para algum espectador chegar e dizer: "mas ela não deu motivo para o estuprador fazer o que fez?". Aí é que está: a protagonista, ao brincar e se sentir desejada por aqueles três homens, tinha o direito de esbanjar sensualidade e beleza. Então, o que temos aqui é também uma espécie de filme-manifesto sobre esse direito.
Trazer esses questionamentos em uma embalagem de um filme de suspense sangrento (e haja sangue!) e cheio de filtros e com fotografia estilizada é um mérito que VINGANÇA tem. É possível ver o filme empolgado com o jogo de gato e rato e também se divertir com certas cenas que vão parecer bem inverossímeis, como as duas que envolvem um isqueiro. Ainda assim, não deixam de ser inteligentes no modo como encontram uma solução para que a vingança da jovem mulher fosse efetuada no calor do momento, e não um prato que se come frio, como se costuma dizer em provérbio popular.
Outro elemento muito importante que o filme destaca é a ênfase dada à covardia do estuprador (Vincent Colombe). Ele é covarde não só em ser um estuprador, mas é covarde também quando tem que enfrentar aquele anjo de vingança que escapa da morte para persegui-lo. Esses e outros detalhes contam nesta produção que sabe brincar com um tipo de história tantas vezes narrada por um homem e que traz consigo tanto a vulgaridade quanto a leitura rica e as questões tão em voga nos dias de hoje.
+ TRÊS FILMES
7 DIAS EM ENTEBBE (Entebbe)
Acho que este filme do José Padilha vale mais por apresentar uma história real impressionante de maneira até decente do que pelo modo como a narrativa se dá efetivamente. Gosto de como o casal principal trabalha com os conflitos internos. Do ponto de vista político, será que Padilha quis ser imparcial? Ano: 2018.
AOS TEUS OLHOS
Uma das boas surpresas dentre os filmes brasileiros a estrear neste ano. AOS TEUS OLHOS também se beneficia em saber lidar com um assunto muito presente nos dias de hoje, que é o julgamento que se faz de alguém a partir da internet. Aliás, não só esse tema. Carolina Jabor consegue manter um clima de tensão do início ao fim. Ano: 2017.
COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR
Como dá para ver o filme como sendo uma produção B de ação, acaba parecendo aquelas produções feitas diretas para vídeo nos tempos do VHS, embora a curiosidade esteja no fato de ser um filme basicamente moçambicano. É possível perceber tanto as falhas quanto as qualidades, mas não consegui me envolver e fiquei ligado mais nas falhas mesmo. E na falta de mais força dramática. Diretor: Licínio Azevedo. Ano: 2016.
sábado, junho 30, 2018
CANASTRA SUJA
Cinema para quem? O que leva o circuito exibidor a tratar alguns filmes com tanto desrespeito, especialmente os brasileiros? Tudo bem que é fácil entender que a fila precisa andar, levando em consideração a quantidade gigante de lançamentos. Mas a verdade é que os filmes brasileiros não estão sendo lançados; estão sendo arremessados. Muitos desses filmes só encontram um único horário e se são lançados em cinema de shopping só duram mesmo uma semana e pronto. Não há tempo para o boca a boca. Trata-se, infelizmente, do caso de CANASTRA SUJA (2016), de Caio Sóh, cineasta que até então desconhecia, justamente por não ter seus filmes exibidos em circuito local.
O caso de CANASTRA SUJA tem gerado um clamor muito especial, pois se trata de um filme que tem despertado muitas paixões. Há, claro, o caso de algumas críticas negativas, em especial uma famosa publicada no O Globo, e que alguns dizem ser responsável por um dos fracassos comerciais do lançamento, mas há, sem dúvida, uma falha no marketing, que poderia ter sido antecipado, melhor trabalhado, já que as imagens de divulgação são de arrepiar, muito atraentes para quem não viu e muito significativas e emocionantes para quem já viu o filme.
Mas falemos do filme em si, que já começa com uma câmera subjetiva de alguém adentrando uma casa humilde. Mais tarde a história retoma a este ponto. Assim, logo em seguida, somos convidados a conhecer os dramas dos habitantes daquela casa, o pai Batista (Marco Ricca), a mãe Maria (Adriana Esteves) e os filhos jovens Emília (Bianca Bin) e Pedro (Pedro Nercessian) e a adolescente especial Ritinha (Cacá Ottoni). Entre os demais personagens importantes, há que se destacar o amigo da família Tatu (David Junior), namorado de Emília.
Batista é alcoólatra e está tentando deixar o vício, e intenciona levar o filho a seguir seus passos no trabalho de manobrista, já que o rapaz não quer saber de estudar e nem tem nenhuma formação profissional. Em clima de desgraça pouca é bobagem, mas também trazendo muito humor diante dos percalços de seus personagens, o filme vai aos poucos levando-os a uma espiral de descida aos infernos, com seus dramas cada vez mais se acentuando.
O diretor e seu elenco têm a habilidade de manter a trama cada vez mais envolvente, por vezes divertida (como não se divertir com as cenas de Pedro e Tatu em um clube muito especial?), mas por vezes devastadora. Daí as várias semelhanças que alguns críticos têm feito com a obra de Nelson Rodrigues, embora do ponto de vista do cinema possamos lembrar tanto do neorrealismo italiano quanto do cinema brasileiro dos anos 70 e 80, quando os nossos filmes tinham de fato a intenção de destoar das telenovelas no que se refere à exploração e explicitação dos problemas sociais. Aliás, falando em telenovelas, que bom que é poder ver Bianca Bin, uma atriz linda e talentosa, saindo um pouco da tevê e enriquecendo o nosso cinema.
CANASTRA SUJA foi feito de forma bastante independente. Até a distribuidora é desconhecida, provavelmente própria. O elenco ajuda com a produção e o simbolismo da cena do karaokê é representativo deste espírito de união da equipe para a realização da obra. Chegar até o final da narrativa é chegar a um ponto de extravasamento das emoções, acumuladas diante de tantas situações ruins vividas por aqueles personagens de quem aprendemos a gostar em pouco tempo de metragem. Por isso é tão fácil entender a aposta que todo o elenco fez no filme, abrindo mão de seus cachês por acreditar na proposta de Sóh. Agora é torcer por um retorno do filme aos cinemas (até no Rio de Janeiro durou só uma semana em cartaz) ou ao menos uma maior visibilidade nos serviços de streaming. O importante é que este filme seja visto.
+ TRÊS FILMES
TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR
O ponto de partida é até interessante, sobre rapaz que descobre que uma mulher de quem ele não se lembra e deixou um recado na secretária eletrônica pode ser o amor de sua vida, mas infelizmente o filme não se sustenta quando parte para os finalmentes. Mas enquanto fica o mistério em torno da tal mulher da vida do protagonista (Mateus Solano) até que é divertido. Direção: Rodrigo Bernardo. Ano: 2018.
TUNGSTÊNIO
Não li a HQ e não sei o quanto de fidelidade há nesta adaptação, mas acho que há muitos acertos na narrativa e na condução dos diálogos e da trama, mesmo com alguns personagens sendo mal resolvidos, como a mulher do policial vivido pelo Fabrício Boliveira. Destaque também para a rica composição visual. Direção: Heitor Dhalia. Ano: 2018.
PARA TER ONDE IR
É um filme que tem os seus melhores momentos quando tateia o seu rumo, quando parece à deriva. Quando começa a mostrar de maneira mais clara os problemas de suas protagonistas começa a ficar mais falho. Mas gosto muito de passagens poéticas, da atmosfera, de algo que às vezes aproxima o filme de um Kiarostami, e das cenas noturnas. E não é todo dia que a gente é apresentado ao Pará. Direção: Jorane Castro. Ano: 2016.
sábado, junho 23, 2018
HEREDITÁRIO (Hereditary)
Há quem reclame do chamado pós-horror, dos filmes que tentam fugir dos clichês do gênero e apresentar novas experiências aos espectadores. Sabemos que um filme de horror tradicional, quando bem-feito, passa uma agradável sensação de familiaridade. Uma cena com chuvas, trovões, uma casa escura e algum fantasma ou monstro prestes a atacar e dar um baita susto no espectador passou a ser elemento de diversão. Mas também passou a se tornar algo batido.
Por isso, e se o cineasta não tiver a intenção de fazer algo divertido? Se ele quiser realmente tocar o terror, fazer algo que deixe o espectador incomodado, como William Friedkin fez em O EXORCISTA ou Roman Polanksi fez em O BEBÊ DE ROSEMARY? Ou ainda, trazendo para um momento recente: como Robert Eggers fez em A BRUXA? E aqui temos a mesma produtora do filme de Eggers, A24, apostando as fichas em outro cineasta estreante e talentoso.
Quando HEREDITÁRIO (2018) começa, já nas primeiras cenas, percebemos que a direção de Ari Aster é brilhante. No início, somos mostrados a uma casa de bonecas, que logo perceberemos será o cenário da casa onde se passará a maior parte da ação. A sensação de que aquela casa e aquelas pessoas são fantoches do destino ou de um deus maior já começa a cutucar a nossa imaginação.
Temos uma família se preparando para o funeral de uma matriarca. A família é formada pelos pais Annie (Toni Collette) e Steve (Gabriel Byrne) e pelos filhos adolescentes Peter (Alex Wolff) e Charlie (Millie Shapiro, que tem uma aparência acentuada por uma maquiagem, de modo a torná-la fisicamente estranha). Logo no funeral, sabemos que a falecida matriarca não era uma pessoa fácil, mas só aos poucos saberemos mais detalhes de sua relação com os demais.
Boa parte da metragem de HEREDITÁRIO tem o objetivo de construir uma dramaticidade forte o suficiente para que nos importemos ou até mesmo nos identifiquemos com os personagens. É provável que algum espectador já tenha se sentido "ok" depois da morte de um familiar. E também é provável que o mesmo espectador tenha sentido uma vontade enorme de morrer depois da morte de um ente querido. As duas situações são apresentadas.
Quando HEREDITÁRIO muda de tom e traz elementos sobrenaturais para sua trama, o drama dos personagens já está suficientemente solidificado. Ainda assim, há uma sensação de grande estranhamento com essa mudança. De repente, mudamos de um drama familiar narrado de maneira sutil para algo semelhante a um filme de horror dos anos 1970, inclusive na fotografia. Mas esse aspecto híbrido faz parte do charme do trabalho de Aster.
Vale dizer que o melhor para o espectador é ver o filme sem ter lido nada a respeito, principalmente se o texto já sugerir alguma cena chocante - como eu acabei de sugerir aqui. Há em HEREDITÁRIO um tipo de cena que fica guardada como um trauma gigante em nossa mente. É quando vemos que Ari Aster não está ali para brincadeira.
Não há como não mencionar a extraordinária interpretação de Toni Collette. A atriz é uma espécie de invólucro para a entrada de uma personagem que vai de alguém triste para alguém transtornada, totalmente desesperada e sofrida e depois para alguém possuída. E já que chegamos a este adjetivo ("possuída"), sim, o filme possui cenas de horror de arrepiar usando alguns dos clichês do gênero, mas sem nunca abusar do som para assustar. A força das imagens é suficiente, junto com a força da interpretação de Collette e dos demais atores e da direção segura e elegante de Aster.
O final pode ser um pouco confuso, mas só nos faz querer ver o filme mais uma vez. Há algo que temos que até pode ser considerado masoquismo, mas não é todo dia que vemos algo que une o sublime com o perturbador.
+ TRÊS FILMES
VERDADE OU DESAFIO (Truth or Dare)
Mais um exemplo de um filme de terror contemporâneo que quer construir seu enredo a partir de uma premissa curiosa, que poderia render algo de bom. Pena que não é o caso deste filme, que até tem os seus momentos, mas é beem fraco, principalmente quando se aproxima de sua conclusão. Acho que até daria pra ter usado mais a criatividade usando a premissa do "truth or dare". Direção: Jeff Wadlow. Ano: 2018.
A NOITE DEVOROU O MUNDO (La Nuit a Dévoré le Monde)
Um filme de zumbis "sobre nada". Legal que a subcategoria ganhou um exemplar diferente. Não amei o filme, mas ele fica com a gente após a sessão. Senti que as metáforas estão mais para a filosofia do que para a política. Participação especial de Denis Lavant. Direção: Dominique Rocher. Ano: 2018.
O NÓ DO DIABO
Bem irregular, como é natural dizer desses filmes em segmentos. Gosto muito do segundo e do terceiro segmentos. Os outros, gosto com restrições. O segundo, do Gabriel Martins, é bem poderoso. Muito bom todos serem todos relativos ao tema da escravidão e do racismo no Brasil. Direção: Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi. Ano: 2017.
Por isso, e se o cineasta não tiver a intenção de fazer algo divertido? Se ele quiser realmente tocar o terror, fazer algo que deixe o espectador incomodado, como William Friedkin fez em O EXORCISTA ou Roman Polanksi fez em O BEBÊ DE ROSEMARY? Ou ainda, trazendo para um momento recente: como Robert Eggers fez em A BRUXA? E aqui temos a mesma produtora do filme de Eggers, A24, apostando as fichas em outro cineasta estreante e talentoso.
Quando HEREDITÁRIO (2018) começa, já nas primeiras cenas, percebemos que a direção de Ari Aster é brilhante. No início, somos mostrados a uma casa de bonecas, que logo perceberemos será o cenário da casa onde se passará a maior parte da ação. A sensação de que aquela casa e aquelas pessoas são fantoches do destino ou de um deus maior já começa a cutucar a nossa imaginação.
Temos uma família se preparando para o funeral de uma matriarca. A família é formada pelos pais Annie (Toni Collette) e Steve (Gabriel Byrne) e pelos filhos adolescentes Peter (Alex Wolff) e Charlie (Millie Shapiro, que tem uma aparência acentuada por uma maquiagem, de modo a torná-la fisicamente estranha). Logo no funeral, sabemos que a falecida matriarca não era uma pessoa fácil, mas só aos poucos saberemos mais detalhes de sua relação com os demais.
Boa parte da metragem de HEREDITÁRIO tem o objetivo de construir uma dramaticidade forte o suficiente para que nos importemos ou até mesmo nos identifiquemos com os personagens. É provável que algum espectador já tenha se sentido "ok" depois da morte de um familiar. E também é provável que o mesmo espectador tenha sentido uma vontade enorme de morrer depois da morte de um ente querido. As duas situações são apresentadas.
Quando HEREDITÁRIO muda de tom e traz elementos sobrenaturais para sua trama, o drama dos personagens já está suficientemente solidificado. Ainda assim, há uma sensação de grande estranhamento com essa mudança. De repente, mudamos de um drama familiar narrado de maneira sutil para algo semelhante a um filme de horror dos anos 1970, inclusive na fotografia. Mas esse aspecto híbrido faz parte do charme do trabalho de Aster.
Vale dizer que o melhor para o espectador é ver o filme sem ter lido nada a respeito, principalmente se o texto já sugerir alguma cena chocante - como eu acabei de sugerir aqui. Há em HEREDITÁRIO um tipo de cena que fica guardada como um trauma gigante em nossa mente. É quando vemos que Ari Aster não está ali para brincadeira.
Não há como não mencionar a extraordinária interpretação de Toni Collette. A atriz é uma espécie de invólucro para a entrada de uma personagem que vai de alguém triste para alguém transtornada, totalmente desesperada e sofrida e depois para alguém possuída. E já que chegamos a este adjetivo ("possuída"), sim, o filme possui cenas de horror de arrepiar usando alguns dos clichês do gênero, mas sem nunca abusar do som para assustar. A força das imagens é suficiente, junto com a força da interpretação de Collette e dos demais atores e da direção segura e elegante de Aster.
O final pode ser um pouco confuso, mas só nos faz querer ver o filme mais uma vez. Há algo que temos que até pode ser considerado masoquismo, mas não é todo dia que vemos algo que une o sublime com o perturbador.
+ TRÊS FILMES
VERDADE OU DESAFIO (Truth or Dare)
Mais um exemplo de um filme de terror contemporâneo que quer construir seu enredo a partir de uma premissa curiosa, que poderia render algo de bom. Pena que não é o caso deste filme, que até tem os seus momentos, mas é beem fraco, principalmente quando se aproxima de sua conclusão. Acho que até daria pra ter usado mais a criatividade usando a premissa do "truth or dare". Direção: Jeff Wadlow. Ano: 2018.
A NOITE DEVOROU O MUNDO (La Nuit a Dévoré le Monde)
Um filme de zumbis "sobre nada". Legal que a subcategoria ganhou um exemplar diferente. Não amei o filme, mas ele fica com a gente após a sessão. Senti que as metáforas estão mais para a filosofia do que para a política. Participação especial de Denis Lavant. Direção: Dominique Rocher. Ano: 2018.
O NÓ DO DIABO
Bem irregular, como é natural dizer desses filmes em segmentos. Gosto muito do segundo e do terceiro segmentos. Os outros, gosto com restrições. O segundo, do Gabriel Martins, é bem poderoso. Muito bom todos serem todos relativos ao tema da escravidão e do racismo no Brasil. Direção: Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi. Ano: 2017.
segunda-feira, junho 11, 2018
AS BOAS MANEIRAS
A pouca popularidade de uma literatura fantástica feita no Brasil, pelo menos dentre os grandes escritores, e em comparação com o que se fez nos Estados Unidos e na Inglaterra, acabou por ricochetear em nosso cinema, que até tem bem mais títulos de horror e afins do que muitos imaginam, mas que ainda tem um apelo mais para o realismo e para a comédia.
Talvez por isso ainda haja essa resistência ao cinema fantástico por parte do público médio, que vê com olhos ressabiados as nossas investidas no gênero. Principalmente quando elas se mostram cada vez mais explícitas. E o salto que a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra dá do suspense psicológico de TRABALHAR CANSA (2011) para a fábula de terror AS BOAS MANEIRAS (2017) é bem grande. Se bem que pelo meio do caminho Marco Dutra nos presenteou com um belíssimo filme de possessão e casa assombrada, QUANDO EU ERA VIVO (2014).
AS BOAS MANEIRAS ainda assim é uma obra híbrida, que não se furta em colocar elementos que podem parecer corpos estranhos dentro do que se espera de uma história de lobisomem, como cenas em que alguns personagens começam a cantar, lembrando outra produção do coletivo Filmes do Caixote, o drama musical O QUE SE MOVE (2012), de Caetano Gotardo. Aliás, aqui também temos Cida Moreira cantando e atuando.
O fato de ser um filme que é visivelmente dividido em lado A e lado B até poderia passar a ideia de que poderia ser lançado em duas partes. Inclusive pela duração um tanto longa e pelo ritmo que começa a se tornar um leve problema durante o lado B.
No começo da trama, Clara (Isabél Zuaa, que conquistou muitos fãs com sua performance de mulher intensa e forte em JOAQUIM) vai pedir emprego de babá na casa de Ana (Marjorie Estiano, excelente). Ana procura uma pessoa que também cuide dela nos primeiros estágios da gravidez; que cuide da casa, inclusive. Clara, que precisa de dinheiro com urgência, aceita, e começa a haver uma relação de cada vez maior proximidade entre as duas. Uma proximidade que une tanto a carência afetiva quanto o gosto de Clara por mulheres.
Aos poucos, e de maneira deliciosa, vamos compreendendo a situação de Ana, seu misterioso gosto por carne, as dores grandes que sente na gestação e também somos apresentados à história de quando ela engravidou. A relação entre Ana e Clara é tão bela e singular que quando o filme parte para novos rumos se torna difícil não sentir falta dessa primeira parte.
Mas a segunda parte tem o grande mérito de ser ainda mais corajosa em assumir explicitamente o cinema de horror, homenageando o clássico UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis. Antes disso, o filme faria possíveis homenagens a FILHOS DO MEDO, de David Cronenberg, e NASCE UM MONSTRO, de Larry Cohen, entre outras.
Mas o curioso de tudo isso é que, apesar dessas homenagens, AS BOAS MANEIRAS tem uma brasilidade muito própria, com cenas acontecendo nas festas juninas e em um cenário de uma São Paulo próxima do gótico, com a força da lua sempre sendo um elemento presente. A fotografia linda é de autoria do português Rui Poças, conhecido por obras tão belas e distintas quanto TABU, O ORNITÓLOGO e SEVERINA.
Do ponto de vista humano, o filme também conquista desde o começo. Tanto nas relações de afeto entre Clara e Ana, quanto nas relações de mãe e filho entre Clara e o menino Joel (Miguel Lobo). O pequeno Joel, dada sua condição de lobo, precisa se submeter a certos sacrifícios.
E é até possível que o espectador saia um pouco contrariado da sessão de AS BOAS MANEIRAS. E é possível que esse mesmo espectador não perceba que ver uma obra como esta no cinema é um privilégio e tanto. E que tal filme ficará em suas lembranças por muitos anos.
+ TRÊS FILMES
TODOS OS PAULOS DO MUNDO
Acaba seguindo meio que uma fórmula adotada recentemente no documentário brasileiro de mostrar cenas dos filmes mais representativos do homenageado. No caso de Paulo José, nada mais justo, e os filmes são bem legais. Tem Khouri, tem Joaquim, tem Domingos, e mais um bocado de coisas. Ainda achei que faltou mais do homem Paulo em Todos os Paulos. Direção: Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro. Ano: 2017.
CONSTRUINDO PONTES
A diretora parece que se perdeu pelo caminho e se não sabia onde queria chegar. Acabou terminando o filme do jeito que o destino deu. Não deixa de ser irritante também seu debate com o pai defensor dos militares. O problema é que ela não tinha poder de argumentação e o velho saía ganhando sempre com tranquilidade. Direção: Heloísa Passos. Ano: 2017.
ROGÉRIO DUARTE, O TROPIKAOSLISTA
Um dos melhores dessa safra de filmes que tratam de resgatar figuras históricas do Tropicalismo. Achei este ROGÉRIO DUARTE ainda melhor resolvido do que o sobre Torquato Neto. Mais redondo. E o personagem do Rogério é fascinante. Tenho certeza que muita coisa boa ficou de fora do corte final. Direção: José Walter Lima. Ano: 2016.
Talvez por isso ainda haja essa resistência ao cinema fantástico por parte do público médio, que vê com olhos ressabiados as nossas investidas no gênero. Principalmente quando elas se mostram cada vez mais explícitas. E o salto que a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra dá do suspense psicológico de TRABALHAR CANSA (2011) para a fábula de terror AS BOAS MANEIRAS (2017) é bem grande. Se bem que pelo meio do caminho Marco Dutra nos presenteou com um belíssimo filme de possessão e casa assombrada, QUANDO EU ERA VIVO (2014).
AS BOAS MANEIRAS ainda assim é uma obra híbrida, que não se furta em colocar elementos que podem parecer corpos estranhos dentro do que se espera de uma história de lobisomem, como cenas em que alguns personagens começam a cantar, lembrando outra produção do coletivo Filmes do Caixote, o drama musical O QUE SE MOVE (2012), de Caetano Gotardo. Aliás, aqui também temos Cida Moreira cantando e atuando.
O fato de ser um filme que é visivelmente dividido em lado A e lado B até poderia passar a ideia de que poderia ser lançado em duas partes. Inclusive pela duração um tanto longa e pelo ritmo que começa a se tornar um leve problema durante o lado B.
No começo da trama, Clara (Isabél Zuaa, que conquistou muitos fãs com sua performance de mulher intensa e forte em JOAQUIM) vai pedir emprego de babá na casa de Ana (Marjorie Estiano, excelente). Ana procura uma pessoa que também cuide dela nos primeiros estágios da gravidez; que cuide da casa, inclusive. Clara, que precisa de dinheiro com urgência, aceita, e começa a haver uma relação de cada vez maior proximidade entre as duas. Uma proximidade que une tanto a carência afetiva quanto o gosto de Clara por mulheres.
Aos poucos, e de maneira deliciosa, vamos compreendendo a situação de Ana, seu misterioso gosto por carne, as dores grandes que sente na gestação e também somos apresentados à história de quando ela engravidou. A relação entre Ana e Clara é tão bela e singular que quando o filme parte para novos rumos se torna difícil não sentir falta dessa primeira parte.
Mas a segunda parte tem o grande mérito de ser ainda mais corajosa em assumir explicitamente o cinema de horror, homenageando o clássico UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis. Antes disso, o filme faria possíveis homenagens a FILHOS DO MEDO, de David Cronenberg, e NASCE UM MONSTRO, de Larry Cohen, entre outras.
Mas o curioso de tudo isso é que, apesar dessas homenagens, AS BOAS MANEIRAS tem uma brasilidade muito própria, com cenas acontecendo nas festas juninas e em um cenário de uma São Paulo próxima do gótico, com a força da lua sempre sendo um elemento presente. A fotografia linda é de autoria do português Rui Poças, conhecido por obras tão belas e distintas quanto TABU, O ORNITÓLOGO e SEVERINA.
Do ponto de vista humano, o filme também conquista desde o começo. Tanto nas relações de afeto entre Clara e Ana, quanto nas relações de mãe e filho entre Clara e o menino Joel (Miguel Lobo). O pequeno Joel, dada sua condição de lobo, precisa se submeter a certos sacrifícios.
E é até possível que o espectador saia um pouco contrariado da sessão de AS BOAS MANEIRAS. E é possível que esse mesmo espectador não perceba que ver uma obra como esta no cinema é um privilégio e tanto. E que tal filme ficará em suas lembranças por muitos anos.
+ TRÊS FILMES
TODOS OS PAULOS DO MUNDO
Acaba seguindo meio que uma fórmula adotada recentemente no documentário brasileiro de mostrar cenas dos filmes mais representativos do homenageado. No caso de Paulo José, nada mais justo, e os filmes são bem legais. Tem Khouri, tem Joaquim, tem Domingos, e mais um bocado de coisas. Ainda achei que faltou mais do homem Paulo em Todos os Paulos. Direção: Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro. Ano: 2017.
CONSTRUINDO PONTES
A diretora parece que se perdeu pelo caminho e se não sabia onde queria chegar. Acabou terminando o filme do jeito que o destino deu. Não deixa de ser irritante também seu debate com o pai defensor dos militares. O problema é que ela não tinha poder de argumentação e o velho saía ganhando sempre com tranquilidade. Direção: Heloísa Passos. Ano: 2017.
ROGÉRIO DUARTE, O TROPIKAOSLISTA
Um dos melhores dessa safra de filmes que tratam de resgatar figuras históricas do Tropicalismo. Achei este ROGÉRIO DUARTE ainda melhor resolvido do que o sobre Torquato Neto. Mais redondo. E o personagem do Rogério é fascinante. Tenho certeza que muita coisa boa ficou de fora do corte final. Direção: José Walter Lima. Ano: 2016.
sábado, junho 02, 2018
TULLY
Há quem já tenha passado pela transição dos vinte para os trinta anos e ainda não tenha percebido nenhuma mudança. Mas a pessoa há de perceber, mais cedo ou mais tarde. E TULLY (2018), terceira parceria do cineasta Jason Reitman com a roteirista Diablo Cody, vem trazer o interessante assunto à discussão. Aliás, isso já havia sido discutido em JOVENS ADULTOS (2011), uma visão um tanto pessimista sobre a vida e suas decepções.
Porém, se Charlize Theron procura manter as aparências em JOVENS ADULTOS, em TULLY isso deixa de ser uma preocupação, até por que o nível de depressão é muito mais acentuado. Ela é Marlo, uma mulher grávida do terceiro filho, com um marido que não se esforça tanto para ajudá-la e com muito pouco ânimo para dar conta de tudo. Seu cansaço parece aumentar ainda mais depois do parto. O filme não deixa claro se a personagem está com depressão pós-parto - assim como não define a doença do filho que parece autista - mas o que vemos na tela é o suficiente para entendermos que se trata de uma mulher que precisa de ajuda.
O irmão bem-sucedido financeiramente dá a ideia de que ela pode descansar mais se aceitar a contratação de uma espécie de baby sitter noturna, uma garota que ficaria cuidando da filha, enquanto ela descansaria. E a entrada em cena de Tully (Mackenzie Davis), que dá título ao filme, já passa essa impressão de que Marlo e seu recém-nascido bebê estão em boas mãos. Tanto é que dá até um pouco de inveja da personagem: "quero uma Tully pra mim também", pensei, enquanto assistia ao filme.
E tudo vai fazendo mais sentido com as conversas que elas têm nos poucos momentos que são registrados na narrativa. A presença mágica de Tully, inclusive para arrumar a casa, faz toda a diferença no humor da protagonista, trazendo uma renovação de forças para Marlo. A diferença de idade das duas e o fato de Tully ter 26 anos e não ter casado ainda e de parecer ter respostar boas e positivas para sua vida faz com que pensemos no quanto perdemos à medida que deixamos a casa dos twenties.
Sei que isso pode ser uma visão pessimista da vida, mas a própria decadência do corpo concorda com isso e com a tese do filme, embora as coisas possam ser vistas por um prisma diferente, e é provavelmente o motivo de Tully ter surgido na vida de Marlo. Há quem vá achar que a revelação final diminua o filme, mas sou desses que acredita que quanto mais clara a obra for, principalmente neste caso, a discussão sobre os assuntos mais importantes serão muito mais enfatizadas, em vez de uma busca por entender uma obra cheia de enigmas ou coisas do tipo.
Assim, o que dói no espectador que tem mais de trinta ou quarenta ou cinquenta anos ao ver o filme é o quanto ele também quer ter de volta aquele contato com o seu eu dos vinte e tantos anos. Não apenas um contato como uma aparição, mas como uma espécie de simbiose de corpos e mentes, para que possamos seguir em frente com mais força, mais vigor e mais esperança no que há de vir. Além de repensar, com gratidão (por que não?), o nosso presente, por mais complicado que ele esteja.
+ TRÊS FILMES
ELLA E JOHN (The Leisure Seeker)
Road movie sentimental da terceira idade que traz junto o tema do Mal de Alzheimer. O casal de protagonistas (Helen Mirren e Donald Sutherland) segura o filme que é uma beleza. E há uma simpatia do filme em si que ajuda a conquistar o espectador com facilidade. Direção: Paolo Virzì. Ano: 2017.
TUDO QUE QUERO (Please Stand By)
Belo e tocante filme sobre jovem autista enfrentando um desafio e tanto pra ela. O diretor de AS SESSÕES (2012), filme que adoro, tem a sensibilidade de nos deixar próximos do sentimento de fragilidade e coragem da protagonista (Dakota Fanning). Direção: Ben Lewin. Ano: 2017.
TEU MUNDO NÃO CABE NOS MEUS OLHOS
É melhor do que eu esperava. Há um interessante apego/carinho pelo registro do melodrama. Pena que muitas escolhas da direção não funcionam e como eu vi em uma sala com problema de projeção (estava bem escura), fiquei com a impressão de ser uma produção ainda mais pobre do que é. Edson Celulari até que está bem como o cego. Direção: Paulo Nascimento. Ano: 2018.
Porém, se Charlize Theron procura manter as aparências em JOVENS ADULTOS, em TULLY isso deixa de ser uma preocupação, até por que o nível de depressão é muito mais acentuado. Ela é Marlo, uma mulher grávida do terceiro filho, com um marido que não se esforça tanto para ajudá-la e com muito pouco ânimo para dar conta de tudo. Seu cansaço parece aumentar ainda mais depois do parto. O filme não deixa claro se a personagem está com depressão pós-parto - assim como não define a doença do filho que parece autista - mas o que vemos na tela é o suficiente para entendermos que se trata de uma mulher que precisa de ajuda.
O irmão bem-sucedido financeiramente dá a ideia de que ela pode descansar mais se aceitar a contratação de uma espécie de baby sitter noturna, uma garota que ficaria cuidando da filha, enquanto ela descansaria. E a entrada em cena de Tully (Mackenzie Davis), que dá título ao filme, já passa essa impressão de que Marlo e seu recém-nascido bebê estão em boas mãos. Tanto é que dá até um pouco de inveja da personagem: "quero uma Tully pra mim também", pensei, enquanto assistia ao filme.
E tudo vai fazendo mais sentido com as conversas que elas têm nos poucos momentos que são registrados na narrativa. A presença mágica de Tully, inclusive para arrumar a casa, faz toda a diferença no humor da protagonista, trazendo uma renovação de forças para Marlo. A diferença de idade das duas e o fato de Tully ter 26 anos e não ter casado ainda e de parecer ter respostar boas e positivas para sua vida faz com que pensemos no quanto perdemos à medida que deixamos a casa dos twenties.
Sei que isso pode ser uma visão pessimista da vida, mas a própria decadência do corpo concorda com isso e com a tese do filme, embora as coisas possam ser vistas por um prisma diferente, e é provavelmente o motivo de Tully ter surgido na vida de Marlo. Há quem vá achar que a revelação final diminua o filme, mas sou desses que acredita que quanto mais clara a obra for, principalmente neste caso, a discussão sobre os assuntos mais importantes serão muito mais enfatizadas, em vez de uma busca por entender uma obra cheia de enigmas ou coisas do tipo.
Assim, o que dói no espectador que tem mais de trinta ou quarenta ou cinquenta anos ao ver o filme é o quanto ele também quer ter de volta aquele contato com o seu eu dos vinte e tantos anos. Não apenas um contato como uma aparição, mas como uma espécie de simbiose de corpos e mentes, para que possamos seguir em frente com mais força, mais vigor e mais esperança no que há de vir. Além de repensar, com gratidão (por que não?), o nosso presente, por mais complicado que ele esteja.
+ TRÊS FILMES
ELLA E JOHN (The Leisure Seeker)
Road movie sentimental da terceira idade que traz junto o tema do Mal de Alzheimer. O casal de protagonistas (Helen Mirren e Donald Sutherland) segura o filme que é uma beleza. E há uma simpatia do filme em si que ajuda a conquistar o espectador com facilidade. Direção: Paolo Virzì. Ano: 2017.
TUDO QUE QUERO (Please Stand By)
Belo e tocante filme sobre jovem autista enfrentando um desafio e tanto pra ela. O diretor de AS SESSÕES (2012), filme que adoro, tem a sensibilidade de nos deixar próximos do sentimento de fragilidade e coragem da protagonista (Dakota Fanning). Direção: Ben Lewin. Ano: 2017.
TEU MUNDO NÃO CABE NOS MEUS OLHOS
É melhor do que eu esperava. Há um interessante apego/carinho pelo registro do melodrama. Pena que muitas escolhas da direção não funcionam e como eu vi em uma sala com problema de projeção (estava bem escura), fiquei com a impressão de ser uma produção ainda mais pobre do que é. Edson Celulari até que está bem como o cego. Direção: Paulo Nascimento. Ano: 2018.
sexta-feira, junho 01, 2018
PARAÍSO PERDIDO
Os musicais começaram a bombar nos Estados Unidos durante o período da chamada Grande Depressão, na virada dos anos 1920 para 1930, aproveitando o advento do cinema sonoro. Ir ver um musical tinha, portanto, um simbolismo imenso: a necessidade de encontrar em uma espécie de oásis em meio a turbulência do mundo lá fora.
É assim que José, o personagem de Erasmo Carlos, proprietário da boate Paraíso Perdido, oferece àqueles que lá estão: esqueçam todos os seus problemas, esqueçam sua vida lá fora, bem-vindos ao Paraíso Perdido. Mais ou menos isso. E, de fato, o que experimentamos ao longo da duração do novo trabalho de Monique Gardenberg é mesmo o de quase duas horas de trégua da dura vida.
Não só isso: PARAÍSO PERDIDO (2018), sendo também um musical, não tem a preocupação de ser fiel no campo do naturalismo das atuações e nem de fazer sentido em sua complicada trama familiar. As cores da fotografia, o gosto pelo brega e o respeito imenso ao amor (homo ou hetero) facilitam uma identificação com o cinema de Pedro Almodóvar, mas as canções, a maioria delas classificadas por muitos como bregas, são muito brasileiras, o que torna este trabalho muito nosso.
Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções.
Assim, há espaço para canções de Reginaldo Rossi, Odair José, Waldick Soriano, Belchior, Zé Ramalho fazendo cover de Bob Dylan, Gilliard, Roberto e Erasmo e até o jovem Johnny Hooker. As melhores interpretações são as de Julio Andrade. Talvez o melhor ator de sua geração, Andrade dá um show também na hora de subir no palco. O que dizer quando ele sobe para tocar "Não creio em mais nada", de Paulo Sérgio? É mais para sentir, talvez chorar, e se deliciar com tudo aquilo. E o respeito com todo esse material que é explorado é lindo.
Além de Andrade, há também interpretações belas de Seu Jorge (quem diria que um cantor seria passado para trás por um ator), por Jaloo, por Marjorie Estiano e pelo próprio Erasmo Carlos. Sua presença ali é mais do que simbólica. Parceiro do Rei e influência direta na formação da maioria dos cantores românticos da década de 1970, o Tremendão não precisa se esforçar para cantar bem. Basta estar lá e cantar uma das faixas.
Ele é o patriarca de uma família um pouco problemática e que comanda aquele espaço paradisíaco noturno. À família somos apresentados através do personagem do policial Odair (Lee Taylor), que é convidado para ser o guarda-costas do neto homossexual, que se apresenta travestido nos shows. Odair aceita, encantado com aquele lugar. Não demora para descobrirmos que há uma estreita ligação entre ele e aquela família.
Transbordando amor por todos os lados, PARAÍSO PERDIDO tem suas quase duas horas de música, intrigas amorosas e traumas do passado plenamente abraçados pela audiência, em uma experiência catártica poucas vezes vista no cinema brasileiro, no que se refere ao uso da música. Além de resgatar a música sentimental do passado, o trabalho mais belo de Monique Gardenberg tem uma elegância no uso dos movimentos de câmera, dos campos e contracampos tão bem usados nas cenas de apresentações na boate (destaque para a cena em que uma personagem informa estar grávida usando libras) e uma direção de arte e uma fotografia em tons quentes. Um dos melhores acontecimentos deste estranho e sombrio ano. Celebremos, portanto.
+ TRÊS FILMES
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA
Esperava mais deste filme. Mas gosto da honestidade, do fato de não ter medo de abraçar o melodrama, mas me incomoda um pouco o humor que poucas vezes funciona. Ainda assim, para um filme sobre Alzheimer, até que é bem feel good e trabalha bem a questão da reaproximação entre pai e filho. Direção: Tiago Arakilian. Ano: 2018.
ALGUÉM COMO EU
É desses filmes que faz a gente sentir uma saudade enorme das comédias brasileiras dos anos 70/80. Até as produções para a televisão da Globo sabem explorar melhor a beleza de Paolla Oliveira. Além do mais, a própria ideia, além de parecer ruim, é pessimamente explorada. Mas gosto dos 15 minutos iniciais do filme, ao menos. Direção: Leonel Vieira. Ano: 2017.
TROPYKAOS
Acho que é um filme mais interessante do que exatamente bom. Mas não deixa de ser uma obra que fica na memória, que incomoda devido ao pesadelo do protagonista, vivendo um calor intenso. Gosto dos personagens do amigo viciado em crack e da namorada. A cena com a mãe também é muito boa. Direção: Daniel Lisboa. Ano: 2016.
É assim que José, o personagem de Erasmo Carlos, proprietário da boate Paraíso Perdido, oferece àqueles que lá estão: esqueçam todos os seus problemas, esqueçam sua vida lá fora, bem-vindos ao Paraíso Perdido. Mais ou menos isso. E, de fato, o que experimentamos ao longo da duração do novo trabalho de Monique Gardenberg é mesmo o de quase duas horas de trégua da dura vida.
Não só isso: PARAÍSO PERDIDO (2018), sendo também um musical, não tem a preocupação de ser fiel no campo do naturalismo das atuações e nem de fazer sentido em sua complicada trama familiar. As cores da fotografia, o gosto pelo brega e o respeito imenso ao amor (homo ou hetero) facilitam uma identificação com o cinema de Pedro Almodóvar, mas as canções, a maioria delas classificadas por muitos como bregas, são muito brasileiras, o que torna este trabalho muito nosso.
Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções.
Assim, há espaço para canções de Reginaldo Rossi, Odair José, Waldick Soriano, Belchior, Zé Ramalho fazendo cover de Bob Dylan, Gilliard, Roberto e Erasmo e até o jovem Johnny Hooker. As melhores interpretações são as de Julio Andrade. Talvez o melhor ator de sua geração, Andrade dá um show também na hora de subir no palco. O que dizer quando ele sobe para tocar "Não creio em mais nada", de Paulo Sérgio? É mais para sentir, talvez chorar, e se deliciar com tudo aquilo. E o respeito com todo esse material que é explorado é lindo.
Além de Andrade, há também interpretações belas de Seu Jorge (quem diria que um cantor seria passado para trás por um ator), por Jaloo, por Marjorie Estiano e pelo próprio Erasmo Carlos. Sua presença ali é mais do que simbólica. Parceiro do Rei e influência direta na formação da maioria dos cantores românticos da década de 1970, o Tremendão não precisa se esforçar para cantar bem. Basta estar lá e cantar uma das faixas.
Ele é o patriarca de uma família um pouco problemática e que comanda aquele espaço paradisíaco noturno. À família somos apresentados através do personagem do policial Odair (Lee Taylor), que é convidado para ser o guarda-costas do neto homossexual, que se apresenta travestido nos shows. Odair aceita, encantado com aquele lugar. Não demora para descobrirmos que há uma estreita ligação entre ele e aquela família.
Transbordando amor por todos os lados, PARAÍSO PERDIDO tem suas quase duas horas de música, intrigas amorosas e traumas do passado plenamente abraçados pela audiência, em uma experiência catártica poucas vezes vista no cinema brasileiro, no que se refere ao uso da música. Além de resgatar a música sentimental do passado, o trabalho mais belo de Monique Gardenberg tem uma elegância no uso dos movimentos de câmera, dos campos e contracampos tão bem usados nas cenas de apresentações na boate (destaque para a cena em que uma personagem informa estar grávida usando libras) e uma direção de arte e uma fotografia em tons quentes. Um dos melhores acontecimentos deste estranho e sombrio ano. Celebremos, portanto.
+ TRÊS FILMES
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA
Esperava mais deste filme. Mas gosto da honestidade, do fato de não ter medo de abraçar o melodrama, mas me incomoda um pouco o humor que poucas vezes funciona. Ainda assim, para um filme sobre Alzheimer, até que é bem feel good e trabalha bem a questão da reaproximação entre pai e filho. Direção: Tiago Arakilian. Ano: 2018.
ALGUÉM COMO EU
É desses filmes que faz a gente sentir uma saudade enorme das comédias brasileiras dos anos 70/80. Até as produções para a televisão da Globo sabem explorar melhor a beleza de Paolla Oliveira. Além do mais, a própria ideia, além de parecer ruim, é pessimamente explorada. Mas gosto dos 15 minutos iniciais do filme, ao menos. Direção: Leonel Vieira. Ano: 2017.
TROPYKAOS
Acho que é um filme mais interessante do que exatamente bom. Mas não deixa de ser uma obra que fica na memória, que incomoda devido ao pesadelo do protagonista, vivendo um calor intenso. Gosto dos personagens do amigo viciado em crack e da namorada. A cena com a mãe também é muito boa. Direção: Daniel Lisboa. Ano: 2016.
sábado, maio 19, 2018
DEADPOOL 2
Não há como negar o quanto DEADPOOL (2016), o primeiro filme do mercenário tagarela, foi importante para trazer um pouco mais de ousadia para os filmes de super-heróis recentes. Claro que, no fim das contas, mesmo com conteúdo sexual e violento, tudo passa por um filtro dentro de uma época mais politicamente correta e respeitadora. Aliás, a respeito disso, há até uma piada no novo DEADPOOL 2 (2018) sobre a fixação um tanto estranha do taxista amigo do protagonista pela personagem de Kirsten Dunst em ENTREVISTA COM O VAMPIRO, uma vampira de dez anos de idade.
Dirigido por David Leitch, de ATÔMICA (2017), a sequência de DEADPOOL agora não tem mais a obrigação de contar a origem de seu anti-herói. No novo contexto, até quem nunca teve contato com o personagem nos quadrinhos se sente à vontade com seu senso de humor, sua intenção de ficar à margem, até por não ter nenhum problema em matar bandidos, e pelas piadas internas envolvendo filmes de super-heróis, quadrinhos, a consciência da música diegética e até mesmo a própria carreira de Ryan Reynolds.
Podemos dizer que o humor é um dos elementos mais problemáticos e que é o que mais costuma causar diferenças do público entre o gostar e o não gostar não apenas desta franquia, mas com os filmes dos estúdios Marvel também. Nem se trata aqui de entender ou não a piada; trata-se mais de não achá-la suficientemente boa para rir dela. Mas aí é que está o trunfo deste novo filme: há, dentro da trama, um pouco de tragédia que invade a vida do herói e que muda um bocado a dinâmica e o clima do que se esperava. E isso é muito bom. Ainda mais para um personagem que é praticamente imortal.
As brincadeiras com o fato de DEADPOOL ser uma franquia que utiliza heróis do segundo escalão, mesmo tendo o direito de trazer os personagens dos filmes dos X-Men, continuam valendo neste aqui, embora conte agora, além de Colossus, também com Cable, herói muito querido de quem começou a ler os heróis mutantes na década de 1990. Josh Brolin interpreta o homem que veio do futuro para matar um mutante adolescente que matará sua família. A semelhança com o enredo de O EXTERMINADOR DO FUTURO é claro que será motivo de piada por parte de Deadpool.
Ainda que inicialmente inimigos, Cable e Deadpool têm algo muito doloroso em comum e já se prevê que no final ambos serão aliados. O divertido é acompanhar o processo desta aventura despretensiosa até a sua conclusão. A própria criação do grupo X-Force é divertidíssima. Não só a criação como o destino de seus membros logo na primeira missão. A boa surpresa do grupo é Domino, a mulher cujo super-poder é ter sorte, vivida por Zazie Beetz, conhecida de quem acompanha a série ATLANTA.
No final, não deixem de ver as duas cenas extras pós-créditos. Elas são boas e importantes para a verdadeira conclusão da história. Assim como são muito bons os poucos momentos de cena com a bela Morena Baccarin e a nova versão de "Take on me", do A-Ha.
+ TRÊS FILMES
COLOSSAL
Curioso como este filme passou quase batido nos cinemas, com uma distribuição bem ruim. Aqui em Fortaleza, pelo menos, não chegou. Mas não é de todo ruim vê-lo na telinha. Parece filme menor mesmo. Mas é criativo, como todo trabalho do Nacho Vigalondo parece ser. E a Anne Hathaway está ótima, como sempre, como a moça que descobre que tem uma íntima ligação com um monstro que aparece do outro lado do mundo. Ano: 2016.
GRINGO - VIVO OU MORTO (Gringo)
Um barato este filme dirigido pelo irmão do Joel Edgerton. David Oyelowo (de SELMA - UMA LUTA PELA IGUALDADE, 2014) está ótimo como o empregado de uma corporação que só se fode. A fluidez da narrativa, as reviravoltas, as várias cenas que nos pegam de surpresa, os personagens carismáticos, tudo contribui para o sucesso do filme. Pena que pouca gente vai ver. Direção: Nash Edgerton. Ano: 2018.
YOU WERE NEVER REALLY HERE
Esses estudos da Lynne Ramsay sobre psicopatas humanizados só me deixam com sono e bastante impaciente. No caso deste novo filme foi pior do que com PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011). Acho que se a cena do resgate da garota fosse feito de maneira mais convencional, quem sabe eu gostasse mais. Mas ao menos dá para considerar as escolhas menos óbvias da diretora como algo corajoso. Ano: 2017.
Dirigido por David Leitch, de ATÔMICA (2017), a sequência de DEADPOOL agora não tem mais a obrigação de contar a origem de seu anti-herói. No novo contexto, até quem nunca teve contato com o personagem nos quadrinhos se sente à vontade com seu senso de humor, sua intenção de ficar à margem, até por não ter nenhum problema em matar bandidos, e pelas piadas internas envolvendo filmes de super-heróis, quadrinhos, a consciência da música diegética e até mesmo a própria carreira de Ryan Reynolds.
Podemos dizer que o humor é um dos elementos mais problemáticos e que é o que mais costuma causar diferenças do público entre o gostar e o não gostar não apenas desta franquia, mas com os filmes dos estúdios Marvel também. Nem se trata aqui de entender ou não a piada; trata-se mais de não achá-la suficientemente boa para rir dela. Mas aí é que está o trunfo deste novo filme: há, dentro da trama, um pouco de tragédia que invade a vida do herói e que muda um bocado a dinâmica e o clima do que se esperava. E isso é muito bom. Ainda mais para um personagem que é praticamente imortal.
As brincadeiras com o fato de DEADPOOL ser uma franquia que utiliza heróis do segundo escalão, mesmo tendo o direito de trazer os personagens dos filmes dos X-Men, continuam valendo neste aqui, embora conte agora, além de Colossus, também com Cable, herói muito querido de quem começou a ler os heróis mutantes na década de 1990. Josh Brolin interpreta o homem que veio do futuro para matar um mutante adolescente que matará sua família. A semelhança com o enredo de O EXTERMINADOR DO FUTURO é claro que será motivo de piada por parte de Deadpool.
Ainda que inicialmente inimigos, Cable e Deadpool têm algo muito doloroso em comum e já se prevê que no final ambos serão aliados. O divertido é acompanhar o processo desta aventura despretensiosa até a sua conclusão. A própria criação do grupo X-Force é divertidíssima. Não só a criação como o destino de seus membros logo na primeira missão. A boa surpresa do grupo é Domino, a mulher cujo super-poder é ter sorte, vivida por Zazie Beetz, conhecida de quem acompanha a série ATLANTA.
No final, não deixem de ver as duas cenas extras pós-créditos. Elas são boas e importantes para a verdadeira conclusão da história. Assim como são muito bons os poucos momentos de cena com a bela Morena Baccarin e a nova versão de "Take on me", do A-Ha.
+ TRÊS FILMES
COLOSSAL
Curioso como este filme passou quase batido nos cinemas, com uma distribuição bem ruim. Aqui em Fortaleza, pelo menos, não chegou. Mas não é de todo ruim vê-lo na telinha. Parece filme menor mesmo. Mas é criativo, como todo trabalho do Nacho Vigalondo parece ser. E a Anne Hathaway está ótima, como sempre, como a moça que descobre que tem uma íntima ligação com um monstro que aparece do outro lado do mundo. Ano: 2016.
GRINGO - VIVO OU MORTO (Gringo)
Um barato este filme dirigido pelo irmão do Joel Edgerton. David Oyelowo (de SELMA - UMA LUTA PELA IGUALDADE, 2014) está ótimo como o empregado de uma corporação que só se fode. A fluidez da narrativa, as reviravoltas, as várias cenas que nos pegam de surpresa, os personagens carismáticos, tudo contribui para o sucesso do filme. Pena que pouca gente vai ver. Direção: Nash Edgerton. Ano: 2018.
YOU WERE NEVER REALLY HERE
Esses estudos da Lynne Ramsay sobre psicopatas humanizados só me deixam com sono e bastante impaciente. No caso deste novo filme foi pior do que com PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011). Acho que se a cena do resgate da garota fosse feito de maneira mais convencional, quem sabe eu gostasse mais. Mas ao menos dá para considerar as escolhas menos óbvias da diretora como algo corajoso. Ano: 2017.
segunda-feira, maio 07, 2018
EX-PAJÉ
Luiz Bolognesi é um de nossos melhores roteiristas de ficção. Só no ano passado ele assinou o roteiro de dois dos filmes mais importantes, BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende, e COMO NOSSOS PAIS, de Laís Bodanzky. Isso para citar apenas dois mais recentes. Mas já havia dentro de sua filmografia um interesse muito especial pela Amazônia e pelos índios.Podemos citar seus documentários sobre a Amazônia, mas seu título anterior como diretor foi a animação UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA (2013), que também contava em parte a história do índio brasileiro.
EX-PAJÉ (2018) é um documentário que mais parece com ficção. E ainda bem que Bolognesi conseguiu fazer isso tão bem. A história de Perpera, o personagem-título, é fascinante em sua dimensão trágica: um homem que se sente proibido de exercer a sua função tão importante na tribo (dos Paiter Suruí) porque agora é evangélico e os líderes religiosos dizem que o que ele fazia antes era coisa do diabo. E agora o pobre ex-Pajé tem medo de dormir de luz apagada por causa dos espíritos da floresta, que estariam furiosos com sua atitude de renúncia.
Esse mal estar é sentido em cada cena, em cada enquadramento, no modo como a tecnologia e o hábito dos brancos parece invadir aquele espaço. Por outro lado, não há também uma vilanização dessa tecnologia. Como julgar um povo que, como nós, está aberto a certos confortos, como um ventilador, uma máquina de lavar roupas ou o acesso à internet? Inclusive, a internet é usada para fins muito nobres por parte dos índios mais jovens, dispostos a denunciar qualquer invasão de madeireiros ilegais no Facebook, com apoio internacional.
Mas aí voltamos novamente ao aspecto trágico de Perpera, que veste um terno enorme para ficar de porteiro na igreja, sem entender sequer a língua portuguesa. Passa boa parte do tempo olhando para a natureza que parece lhe chamar a todo instante. O modo como o filme parece se transformar cada vez mais em uma obra de ficção se multiplica no momento em que o ex-Pajé é chamado a voltar à forma.
Por manter a atenção do espectador com uma narrativa sem voice-over ou algo que o caracterize mais facilmente como um documentário, EX-PAJÉ é dessas obras que tanto funciona como uma arma em defesa dos direitos dos habitantes do Brasil pré-Cabral, quanto como um exemplo de como saber utilizar cenas do dia a dia tão bem, de modo a construir um roteiro tão perfeito que parece ter sido tudo combinado. Muita coisa deve ter sido, mas a mágica do filme e a sua verdade estão lá o tempo inteiro, juntinhas.
+ TRÊS FILMES
VAZANTE
Acho a fotografia (em preto e branco) linda e certas tomadas são bem bonitas, mas como narrativa não conseguiu me envolver. O que eu mais gostei foi da menina, a estreante Luana Nastas, que casa com o sinhozinho. Mas mesmo o drama dela é prejudicado. Direção: Daniela Thomas. Ano: 2017.
COMEBACK - UM MATADOR NUNCA SE APOSENTA
Uma bela despedida do Nelson Xavier, em um papel um tanto depressivo, mas ao mesmo tempo em busca de resistir, de não se dar por vencido pelo efeito do tempo. A gente está falando de um assassino e tal, mas o filme pode servir como alegoria pra vida. Direção: Erico Rassi. Ano: 2017.
FALA COMIGO
Filme simples, eficiente, com ideias boas e um trabalho de atuação muito bom. E usando poucos recursos, poucas locações. Pra fazer cinema bom não precisa de muito dinheiro. Começou bem na direção de longas o Felipe Sholl. O filme conta a história do relacionamento de um rapaz de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Ano: 2017.
EX-PAJÉ (2018) é um documentário que mais parece com ficção. E ainda bem que Bolognesi conseguiu fazer isso tão bem. A história de Perpera, o personagem-título, é fascinante em sua dimensão trágica: um homem que se sente proibido de exercer a sua função tão importante na tribo (dos Paiter Suruí) porque agora é evangélico e os líderes religiosos dizem que o que ele fazia antes era coisa do diabo. E agora o pobre ex-Pajé tem medo de dormir de luz apagada por causa dos espíritos da floresta, que estariam furiosos com sua atitude de renúncia.
Esse mal estar é sentido em cada cena, em cada enquadramento, no modo como a tecnologia e o hábito dos brancos parece invadir aquele espaço. Por outro lado, não há também uma vilanização dessa tecnologia. Como julgar um povo que, como nós, está aberto a certos confortos, como um ventilador, uma máquina de lavar roupas ou o acesso à internet? Inclusive, a internet é usada para fins muito nobres por parte dos índios mais jovens, dispostos a denunciar qualquer invasão de madeireiros ilegais no Facebook, com apoio internacional.
Mas aí voltamos novamente ao aspecto trágico de Perpera, que veste um terno enorme para ficar de porteiro na igreja, sem entender sequer a língua portuguesa. Passa boa parte do tempo olhando para a natureza que parece lhe chamar a todo instante. O modo como o filme parece se transformar cada vez mais em uma obra de ficção se multiplica no momento em que o ex-Pajé é chamado a voltar à forma.
Por manter a atenção do espectador com uma narrativa sem voice-over ou algo que o caracterize mais facilmente como um documentário, EX-PAJÉ é dessas obras que tanto funciona como uma arma em defesa dos direitos dos habitantes do Brasil pré-Cabral, quanto como um exemplo de como saber utilizar cenas do dia a dia tão bem, de modo a construir um roteiro tão perfeito que parece ter sido tudo combinado. Muita coisa deve ter sido, mas a mágica do filme e a sua verdade estão lá o tempo inteiro, juntinhas.
+ TRÊS FILMES
VAZANTE
Acho a fotografia (em preto e branco) linda e certas tomadas são bem bonitas, mas como narrativa não conseguiu me envolver. O que eu mais gostei foi da menina, a estreante Luana Nastas, que casa com o sinhozinho. Mas mesmo o drama dela é prejudicado. Direção: Daniela Thomas. Ano: 2017.
COMEBACK - UM MATADOR NUNCA SE APOSENTA
Uma bela despedida do Nelson Xavier, em um papel um tanto depressivo, mas ao mesmo tempo em busca de resistir, de não se dar por vencido pelo efeito do tempo. A gente está falando de um assassino e tal, mas o filme pode servir como alegoria pra vida. Direção: Erico Rassi. Ano: 2017.
FALA COMIGO
Filme simples, eficiente, com ideias boas e um trabalho de atuação muito bom. E usando poucos recursos, poucas locações. Pra fazer cinema bom não precisa de muito dinheiro. Começou bem na direção de longas o Felipe Sholl. O filme conta a história do relacionamento de um rapaz de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Ano: 2017.
terça-feira, maio 01, 2018
HOMELAND - A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Homeland - The Complete Seventh Season)
HOMELAND está para os anos 2010 como 24 HORAS esteve para os anos 2000. São duas séries que lidam com um herói (agora uma heroína) que enfrentam algo relacionado a terrorismo. No caso desta terceira temporada de HOMELAND (2018), Carrie Mathison (Claire Danes) se aproximou mais ainda de Jack Bauer, pelo seu sacrifício em prol daquilo em que acredita. Se bem que não é tão simples assim. A personagem é um tanto viciada em adrenalina e não tem muita paciência de ficar em casa cuidando da filha. Por mais que queira pensar o contrário.
O grande trunfo desta sétima temporada é que ela é uma continuação direta da sexta, mas consegue ser muito mais eficiente nas subtramas, na criação de momentos memoráveis e também na maior valorização da protagonista. Há um segundo episódio fantástico, "Rebel Rebel", em que Carrie enfrenta um hacker que invade seu computador e faz chantagem. A temporada não consegue superar o grau de impacto, de suspense e de empolgação que este episódio traz.
No geral, a trama principal gira em torno das dificuldades da presidenta Keane (Elizabeth Marvel) de se mostrar forte diante de tantos inimigos. Ela chega ao ponto de prender centenas de pessoas que ela acredita serem inimigos potenciais. Entre eles Saul Berenson (Mandy Patinkin), o segundo personagem mais importante da série, amigo pessoal de Carrie e com uma experiência invejável no campo da espionagem dentro da CIA. Sua mudança para o time da Presidente Keane é um tanto rápida demais, mas serve também para trazer dúvida com relação à sanidade mental de Carrie, que está enfrentando uma dificuldade grande em lidar com sua família - a filha pequena, a irmã e o cunhado.
Sim, a questão da doença de Carrie é mais uma vez explorada com força nesta temporada. Trata-se de algo importante demais para a constituição da personagem para que seja ignorado. Desta vez, ela começa a acreditar que o lítio, que ela toma há vários anos, pode não mais estar surtindo o efeito desejado, que ela poderia estar perdendo a noção da realidade. E isso a incomoda bastante. Mas não faz com que ela pare com as aventuras, principalmente quando é encorajada pelo agente do FBI Dante Allen (Morgan Spector). A função de Dante será de vital importância para uma outra subtrama envolvendo traição envolvendo espiões russos.
A entrada dos russos na história até parece um pouco manjada, levando em consideração tantas tramas feitas durante o longo período da Guerra Fria, mas o fato é que os russos voltaram a ter atrito com os Estados Unidos recentemente, devido à situação na Síria, e HOMELAND sempre está em sintonia com o que está acontecendo no plano político mundial. Bom para a série, que dará adeus aos fãs na oitava e última temporada no próximo ano. Espero muito que eles encerrem tão bem quanto começaram.
+ DUAS SÉRIES
THE SINNER
Bela minissérie que conta com ganchos bem bons, que convidam a gente a querer ver com avidez cada próximo episódio. E a entrar cada vez mais nos mistérios do passado da protagonista (Jessica Biel), que comete um crime bárbaro e não se sabe o motivo. Muito bom o aspecto amoroso e obstinado do policial vivido por Bill Pullman. Pena que as questões dele na minissérie não ganhem muita força. Até porque o interesse maior mesmo é pela Biel. No final, que eu achei que ia me decepcionar, acabei me emocionando e achando bem catártico, apesar de ter algo de anti-clímax mesmo. Mas não vejo isso como um problema. Até porque a própria minissérie tem um ritmo meio irregular. Criador: Derek Simon.
O MECANISMO
A primeira impressão, do piloto, é de que é uma série muito ruim, no sentido de texto, de dramaturgia etc. mesmo. Depois do segundo episódio, a impressão melhora, até porque a Caroline Abras assume o protagonismo e essa menina é fantástica. É muito mais fácil comprar o papel dela de delegada do que o papel do Selton Mello, que além de tudo parece que fala com um ovo na boca. O personagem dele lembra o de Carrie Mathison, de HOMELAND, tanto pela doença quanto pela obsessão e inteligência. Mas está longe de ser tão bom e quando ele sai de cena a série só melhora. A brincadeira em torno dos nomes muitas vezes óbvios das pessoas públicas envolvidas na Lava Jato até que é divertida, mesmo a série às vezes agindo meio que de forma irresponsável, mas é bem melhor que o filme POLÍCIA FEDERAL. Criadores: José Padilha e Elena Soárez.
O grande trunfo desta sétima temporada é que ela é uma continuação direta da sexta, mas consegue ser muito mais eficiente nas subtramas, na criação de momentos memoráveis e também na maior valorização da protagonista. Há um segundo episódio fantástico, "Rebel Rebel", em que Carrie enfrenta um hacker que invade seu computador e faz chantagem. A temporada não consegue superar o grau de impacto, de suspense e de empolgação que este episódio traz.
No geral, a trama principal gira em torno das dificuldades da presidenta Keane (Elizabeth Marvel) de se mostrar forte diante de tantos inimigos. Ela chega ao ponto de prender centenas de pessoas que ela acredita serem inimigos potenciais. Entre eles Saul Berenson (Mandy Patinkin), o segundo personagem mais importante da série, amigo pessoal de Carrie e com uma experiência invejável no campo da espionagem dentro da CIA. Sua mudança para o time da Presidente Keane é um tanto rápida demais, mas serve também para trazer dúvida com relação à sanidade mental de Carrie, que está enfrentando uma dificuldade grande em lidar com sua família - a filha pequena, a irmã e o cunhado.
Sim, a questão da doença de Carrie é mais uma vez explorada com força nesta temporada. Trata-se de algo importante demais para a constituição da personagem para que seja ignorado. Desta vez, ela começa a acreditar que o lítio, que ela toma há vários anos, pode não mais estar surtindo o efeito desejado, que ela poderia estar perdendo a noção da realidade. E isso a incomoda bastante. Mas não faz com que ela pare com as aventuras, principalmente quando é encorajada pelo agente do FBI Dante Allen (Morgan Spector). A função de Dante será de vital importância para uma outra subtrama envolvendo traição envolvendo espiões russos.
A entrada dos russos na história até parece um pouco manjada, levando em consideração tantas tramas feitas durante o longo período da Guerra Fria, mas o fato é que os russos voltaram a ter atrito com os Estados Unidos recentemente, devido à situação na Síria, e HOMELAND sempre está em sintonia com o que está acontecendo no plano político mundial. Bom para a série, que dará adeus aos fãs na oitava e última temporada no próximo ano. Espero muito que eles encerrem tão bem quanto começaram.
+ DUAS SÉRIES
THE SINNER
Bela minissérie que conta com ganchos bem bons, que convidam a gente a querer ver com avidez cada próximo episódio. E a entrar cada vez mais nos mistérios do passado da protagonista (Jessica Biel), que comete um crime bárbaro e não se sabe o motivo. Muito bom o aspecto amoroso e obstinado do policial vivido por Bill Pullman. Pena que as questões dele na minissérie não ganhem muita força. Até porque o interesse maior mesmo é pela Biel. No final, que eu achei que ia me decepcionar, acabei me emocionando e achando bem catártico, apesar de ter algo de anti-clímax mesmo. Mas não vejo isso como um problema. Até porque a própria minissérie tem um ritmo meio irregular. Criador: Derek Simon.
O MECANISMO
A primeira impressão, do piloto, é de que é uma série muito ruim, no sentido de texto, de dramaturgia etc. mesmo. Depois do segundo episódio, a impressão melhora, até porque a Caroline Abras assume o protagonismo e essa menina é fantástica. É muito mais fácil comprar o papel dela de delegada do que o papel do Selton Mello, que além de tudo parece que fala com um ovo na boca. O personagem dele lembra o de Carrie Mathison, de HOMELAND, tanto pela doença quanto pela obsessão e inteligência. Mas está longe de ser tão bom e quando ele sai de cena a série só melhora. A brincadeira em torno dos nomes muitas vezes óbvios das pessoas públicas envolvidas na Lava Jato até que é divertida, mesmo a série às vezes agindo meio que de forma irresponsável, mas é bem melhor que o filme POLÍCIA FEDERAL. Criadores: José Padilha e Elena Soárez.
sexta-feira, abril 27, 2018
VINGADORES - GUERRA INFINITA (Avengers - Infinity War)
Dez anos depois da estreia dos Estúdios Marvel com HOMEM DE FERRO (2008) e passados quase duas dezenas de produções, muitas delas arriscadas, como filmes sobre heróis pouco conhecidos do grande público, como Doutor Estranho, Pantera Negra, Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, eis que a Marvel chega a um dos pontos mais aguardados desde sua criação: um grande épico envolvendo quase todos os personagens apresentados ao longo desses anos.
VINGADORES - GUERRA INFINITA (2018), de Joe e Anthony Russo, representa muito mais do que o primeiro filme dos Vingadores. Aqui está em jogo não apenas dar conta de uma aventura de ação com alguns super-heróis de Stan Lee e Jack Kirby, como foi o caso do trabalho de Joss Whedon, mas costurar um universo cinematográfico já gigantesco e com o pano de fundo dos quadrinhos de Jim Starlin. Foi ele quem criou Thanos, o mais fascinante vilão do estúdio até então. Thanos aparece aqui interpretado por um Josh Brolin quase irreconhecível, mas sem perder as nuances da interpretação.
E o filme não demora para apresentá-lo. A primeira cena de VINGADORES - GUERRA INFINITA já traz uma angustiante disputa do vilão em Asgard, contra Thor, Loki e outros deuses nórdicos. Sua intenção lá é capturar uma das joias do infinito. Uma vez que ele consiga todas as joias, espalhadas por vários pontos do universo, ele conseguirá o seu intento, de proporções apocalípticas. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é saber dar uma motivação inteligente para o vilão.
É curioso perceber que alguns dos trabalhos mais recentes da Marvel/Disney, como GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 , HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR e THOR - RAGNAROK, tinham um pé bem fixo na comédia. E nem todo mundo se envolve com o humor típico da Marvel, muitas vezes afetado, outras vezes excessivamente inofensivo, o que também pode ser um problema.
Mas o grande barato desta reunião é que ela sabe aliar o humor, principalmente quando Thor tem o encontro com os Guardiões da Galáxia, mas principalmente quando a narrativa assume seu aspecto mais sombrio. Afinal, estamos falando de um vilão que é para ser levado muito a sério, e que logo na primeira cena já mostra a que veio, embora cenas posteriores possam aprofundar ainda mais sua dimensão complexa, inclusive em um flashback de Gamora (Zoe Saldana).
VINGADORES - GUERRA INFINITA é bem articulado em blocos, com sequências que se passam em diferentes lugares do universo, sendo que um ou outro bloco tem uma ligação direta entre si, caso do bloco que traz Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) de Asgard para a Mansão do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) na Terra. O bom domínio narrativo dos irmãos Russo é essencial para que o público não se incomode com a duração um tanto longa do filme.
Já o elenco é um luxo que só uma superprodução dessas é capaz de bancar (ter um ator como William Hurt em praticamente uma ponta é um exemplo disso). Embora nem todos os personagens sejam bem aproveitados (o Homem-Aranha é um deles), é fácil pensar que seria impossível dar conta de todos eles de maneira mais aprofundada. Apenas certos heróis que guardam maior relação com a trama principal têm seu potencial dramático melhor explorado, como é o caso de Thor (Chris Hemsworth), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Visão (Paul Bettany), Senhor das Estrelas (Chris Pratt), Gamorra e, claro, o grande vilão. Mesmo o Pantera Negra (Chadwick Boseman) funciona mais para ter Wakanda como um excelente campo de batalha. É lá que algumas das mais envolventes e emocionantes cenas acontecem.
Está havendo uma preocupação muito válida nas redes sociais para que as pessoas não contem o final da história. A essa altura ainda é possível escapar dos tais spoilers. Por isso é interessante que o filme seja visto o quanto antes, pois as surpresas são realmente inesperadas. Acontecimentos guardados para o final são fundamentais para que VINGADORES - GUERRA INFINITA faça a diferença dentre as demais produções da Marvel.
+ TRÊS FILMES
RAMPAGE - DESTRUIÇÃO TOTAL (Rampage)
É possível se divertir com este filme de monstros gigantes destruindo geral. Até por não se levar a sério. Mas acredito que RAMPAGE se beneficiaria muito de uns 10 a 15 minutos a menos. Chega uma hora que o show de efeitos especiais (às vezes ruins) cansa. Podia ter se assumido como um filme menor ainda. Melhor cena: uma que envolve Malin Akerman. Quanto ao Dwayne Johnson, não dá pra esperar muita coisa dele, mas acho pior ver o Jeffrey Dean Morgan com os mesmos cacoetes do personagem que ele faz em THE WALKING DEAD. Direção: Brad Peyton. Ano: 2018.
A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER (Winchester)
Todo mundo tem boletos a pagar. Inclusive Helen Mirren. E até que o argumento e a ideia deste filme não são ruins. Mas tanto o roteiro quanto a realização são ruins demais. Um dos filmes de terror mais chatos que eu já vi na vida. Lembram de A NOIVA, aquele filme russo que todo mundo desceu a lenha? Pois é. Aquele filme é muito mais interessante, sabe explorar muito mais a geografia de uma casa assombrada e tem momentos mais interessantes do ponto de vista do horror do que esse aqui, todo chique e com figurino e direção de arte bonitos. Direção: Peter e Michael Spiering. Ano: 2018.
PEQUENA GRANDE VIDA (Downsizing)
Tenho meus problemas com o filme na maneira como ele tinha infinitas possibilidades de trabalhar com o assunto e acaba não fazendo muita coisa em uma narrativa um tanto aborrecida de mais de duas horas de duração. Mas ficam boas lembranças, a boa ideia e o clima agridoce da narrativa. Direção: Alexander Payne. Ano: 2017.
VINGADORES - GUERRA INFINITA (2018), de Joe e Anthony Russo, representa muito mais do que o primeiro filme dos Vingadores. Aqui está em jogo não apenas dar conta de uma aventura de ação com alguns super-heróis de Stan Lee e Jack Kirby, como foi o caso do trabalho de Joss Whedon, mas costurar um universo cinematográfico já gigantesco e com o pano de fundo dos quadrinhos de Jim Starlin. Foi ele quem criou Thanos, o mais fascinante vilão do estúdio até então. Thanos aparece aqui interpretado por um Josh Brolin quase irreconhecível, mas sem perder as nuances da interpretação.
E o filme não demora para apresentá-lo. A primeira cena de VINGADORES - GUERRA INFINITA já traz uma angustiante disputa do vilão em Asgard, contra Thor, Loki e outros deuses nórdicos. Sua intenção lá é capturar uma das joias do infinito. Uma vez que ele consiga todas as joias, espalhadas por vários pontos do universo, ele conseguirá o seu intento, de proporções apocalípticas. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é saber dar uma motivação inteligente para o vilão.
É curioso perceber que alguns dos trabalhos mais recentes da Marvel/Disney, como GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 , HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR e THOR - RAGNAROK, tinham um pé bem fixo na comédia. E nem todo mundo se envolve com o humor típico da Marvel, muitas vezes afetado, outras vezes excessivamente inofensivo, o que também pode ser um problema.
Mas o grande barato desta reunião é que ela sabe aliar o humor, principalmente quando Thor tem o encontro com os Guardiões da Galáxia, mas principalmente quando a narrativa assume seu aspecto mais sombrio. Afinal, estamos falando de um vilão que é para ser levado muito a sério, e que logo na primeira cena já mostra a que veio, embora cenas posteriores possam aprofundar ainda mais sua dimensão complexa, inclusive em um flashback de Gamora (Zoe Saldana).
VINGADORES - GUERRA INFINITA é bem articulado em blocos, com sequências que se passam em diferentes lugares do universo, sendo que um ou outro bloco tem uma ligação direta entre si, caso do bloco que traz Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) de Asgard para a Mansão do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) na Terra. O bom domínio narrativo dos irmãos Russo é essencial para que o público não se incomode com a duração um tanto longa do filme.
Já o elenco é um luxo que só uma superprodução dessas é capaz de bancar (ter um ator como William Hurt em praticamente uma ponta é um exemplo disso). Embora nem todos os personagens sejam bem aproveitados (o Homem-Aranha é um deles), é fácil pensar que seria impossível dar conta de todos eles de maneira mais aprofundada. Apenas certos heróis que guardam maior relação com a trama principal têm seu potencial dramático melhor explorado, como é o caso de Thor (Chris Hemsworth), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Visão (Paul Bettany), Senhor das Estrelas (Chris Pratt), Gamorra e, claro, o grande vilão. Mesmo o Pantera Negra (Chadwick Boseman) funciona mais para ter Wakanda como um excelente campo de batalha. É lá que algumas das mais envolventes e emocionantes cenas acontecem.
Está havendo uma preocupação muito válida nas redes sociais para que as pessoas não contem o final da história. A essa altura ainda é possível escapar dos tais spoilers. Por isso é interessante que o filme seja visto o quanto antes, pois as surpresas são realmente inesperadas. Acontecimentos guardados para o final são fundamentais para que VINGADORES - GUERRA INFINITA faça a diferença dentre as demais produções da Marvel.
+ TRÊS FILMES
RAMPAGE - DESTRUIÇÃO TOTAL (Rampage)
É possível se divertir com este filme de monstros gigantes destruindo geral. Até por não se levar a sério. Mas acredito que RAMPAGE se beneficiaria muito de uns 10 a 15 minutos a menos. Chega uma hora que o show de efeitos especiais (às vezes ruins) cansa. Podia ter se assumido como um filme menor ainda. Melhor cena: uma que envolve Malin Akerman. Quanto ao Dwayne Johnson, não dá pra esperar muita coisa dele, mas acho pior ver o Jeffrey Dean Morgan com os mesmos cacoetes do personagem que ele faz em THE WALKING DEAD. Direção: Brad Peyton. Ano: 2018.
A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER (Winchester)
Todo mundo tem boletos a pagar. Inclusive Helen Mirren. E até que o argumento e a ideia deste filme não são ruins. Mas tanto o roteiro quanto a realização são ruins demais. Um dos filmes de terror mais chatos que eu já vi na vida. Lembram de A NOIVA, aquele filme russo que todo mundo desceu a lenha? Pois é. Aquele filme é muito mais interessante, sabe explorar muito mais a geografia de uma casa assombrada e tem momentos mais interessantes do ponto de vista do horror do que esse aqui, todo chique e com figurino e direção de arte bonitos. Direção: Peter e Michael Spiering. Ano: 2018.
PEQUENA GRANDE VIDA (Downsizing)
Tenho meus problemas com o filme na maneira como ele tinha infinitas possibilidades de trabalhar com o assunto e acaba não fazendo muita coisa em uma narrativa um tanto aborrecida de mais de duas horas de duração. Mas ficam boas lembranças, a boa ideia e o clima agridoce da narrativa. Direção: Alexander Payne. Ano: 2017.
quarta-feira, abril 25, 2018
CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE
A obra de Nelson Pereira dos Santos, morto em 21 de abril último, é admirável não apenas por sua construção e descontrução dos códigos e convenções do que se fazia no cinema brasileiro - como quando ele mostrou pela primeira vez o favelado do jeito que era de verdade em RIO, 40 GRAUS (1955), com sua tradução exemplar de um clássico da literatura, VIDAS SECAS (1963), ou outros tipos de experimentações, como QUEM É BETA? (1972).
Mas a questão que me traz aqui em relação a CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE (2001) é lembrar o quanto somos devedores de um cineasta que também foi bastante preocupado em contar a História do Brasil através dos filmes. Nesta minissérie feita para a televisão, por exemplo, somos transportados para uma espécie de aula até que bastante didática sobre a nossa História, o nosso povo, uma obra literária e antropológica essencial.
Demora um pouco para nos acostumarmos com o tom de aula de "Telecurso 2º Grau", mas uma vez acostumados com essa opção de dramaturgia, a viagem é de um prazer difícil até de explicar. Temos a chance de assistir a uma aula de um excelente professor, no caso, o Prof. Edson Nery da Fonseca, que nos quatro capítulos em que é dividido o documentário, faz uma mediação entre o espectador e a obra fundamental de Freyre.
Os quatro capítulos recebem os seguintes nomes: Gilberto Freyre - O Cabral Moderno; A Cunhã, Mãe da Família Brasileira; Português, o Colonizador dos Trópicos; e O Escravo na Vida Sexual da Família Brasileira. São, como dá para perceber pelos títulos, dedicados ao próprio Freyre, ao papel mais especificamente da índia, ao português e ao negro. Mais ou menos similar à estrutura que Freyre utiliza para o seu livro.
O primeiro capítulo é bastante revelador de quem foi Gilberto Freyre, sua infância, sua educação em escolas e universidades americanas, seu interesse e paixão pela formação do povo brasileiro etc. O segundo é mais uma porrada em forma de capítulo, ao mostrar como foi a abordagem dos portugueses e sua diferenciação em relação aos norte-americanos, que não se misturaram aos nativos. Ao contrário deles, os portugueses se misturaram e adoraram fazer sexo com as índias. Povoar aquele espaço, inclusive, fazia parte do plano de dominação. As índias também gostavam muito dos portugueses. Mas o que é triste mesmo é ver os maus tratos, o abandono, a chacina e a cena final.
O terceiro capítulo nos leva até Portugal e vai buscar as origens dos portugueses de antes do descobrimento, quando já eram um povo mestiço, com fortes influências dos mouros. É o episódio menos impactante, mas nem por isso menos gostoso de assistir. O quarto episódio, por sua vez, é o mais revelador do título do livro, pois professor e aluna dialogam sobre a rotina de como funcionava a relação entre os senhores e seus escravos. Uma relação baseada em sadismo, masoquismo, transmissão de doenças (sífilis, principalmente), um pouco de dose de generosidade (em comparação com os senhores de escravos americanos, que não deixavam os negros professarem suas danças, costumes e crenças) e também se fala sobre o misticismo.
Enfim, falar sobre este documentário de Nelson Pereira dos Santos pra quem ainda não viu é só dar um gostinho do que o espectador pode experimentar. E lembrar mais uma vez o quanto somos devedores desse cineasta tão cheio de amor por nossa História, nossa cultura e nossa gente, e que, durante sua longa trajetória, contou essa nossa História das mais variadas maneiras. Sorte nossa. Nunca haverá um cineasta como Nelson Pereira dos Santos.
+ TRÊS FILMES
MEU CORPO É POLÍTICO
É um filme simples e que nos conquista aos poucos, cujos personagens vão ganhando força à medida que eles vão se incorporando a um todo coeso. No começo, não parece ser. E no começo me incomodou um pouco o discurso muito direto, quase didático, em especial de um personagem transexual. Direção: Alice Riff. Ano: 2017.
A LUTA DO SÉCULO
Incrível como não sabia nada nem do filme nem dos lutadores. E é até melhor assim, pois as surpresas são maiores. Dá pra rir e dá pra ficar comovido com a história desses homens que passaram a vida se odiando e tendo a chance de ir ao ringue diversas vezes. Direção: Sergio Machado. Ano: 2016.
PAULISTAS
Dentro da categorias desses documentários que tencionam borrar a linha com a ficção, este é um dos que menos me agradou e o que mais parece não ter dito a que veio. Se é para ser um retrato de um espaço de abandono dos jovens e de desolação, o que trouxe pra mim foi só tédio. Melhor rever RIFLE, que tem alguma semelhança e é muito mais bem-sucedido nesse quesito. Direção: Daniel Nolasco. Ano: 2018.
Mas a questão que me traz aqui em relação a CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE (2001) é lembrar o quanto somos devedores de um cineasta que também foi bastante preocupado em contar a História do Brasil através dos filmes. Nesta minissérie feita para a televisão, por exemplo, somos transportados para uma espécie de aula até que bastante didática sobre a nossa História, o nosso povo, uma obra literária e antropológica essencial.
Demora um pouco para nos acostumarmos com o tom de aula de "Telecurso 2º Grau", mas uma vez acostumados com essa opção de dramaturgia, a viagem é de um prazer difícil até de explicar. Temos a chance de assistir a uma aula de um excelente professor, no caso, o Prof. Edson Nery da Fonseca, que nos quatro capítulos em que é dividido o documentário, faz uma mediação entre o espectador e a obra fundamental de Freyre.
Os quatro capítulos recebem os seguintes nomes: Gilberto Freyre - O Cabral Moderno; A Cunhã, Mãe da Família Brasileira; Português, o Colonizador dos Trópicos; e O Escravo na Vida Sexual da Família Brasileira. São, como dá para perceber pelos títulos, dedicados ao próprio Freyre, ao papel mais especificamente da índia, ao português e ao negro. Mais ou menos similar à estrutura que Freyre utiliza para o seu livro.
O primeiro capítulo é bastante revelador de quem foi Gilberto Freyre, sua infância, sua educação em escolas e universidades americanas, seu interesse e paixão pela formação do povo brasileiro etc. O segundo é mais uma porrada em forma de capítulo, ao mostrar como foi a abordagem dos portugueses e sua diferenciação em relação aos norte-americanos, que não se misturaram aos nativos. Ao contrário deles, os portugueses se misturaram e adoraram fazer sexo com as índias. Povoar aquele espaço, inclusive, fazia parte do plano de dominação. As índias também gostavam muito dos portugueses. Mas o que é triste mesmo é ver os maus tratos, o abandono, a chacina e a cena final.
O terceiro capítulo nos leva até Portugal e vai buscar as origens dos portugueses de antes do descobrimento, quando já eram um povo mestiço, com fortes influências dos mouros. É o episódio menos impactante, mas nem por isso menos gostoso de assistir. O quarto episódio, por sua vez, é o mais revelador do título do livro, pois professor e aluna dialogam sobre a rotina de como funcionava a relação entre os senhores e seus escravos. Uma relação baseada em sadismo, masoquismo, transmissão de doenças (sífilis, principalmente), um pouco de dose de generosidade (em comparação com os senhores de escravos americanos, que não deixavam os negros professarem suas danças, costumes e crenças) e também se fala sobre o misticismo.
Enfim, falar sobre este documentário de Nelson Pereira dos Santos pra quem ainda não viu é só dar um gostinho do que o espectador pode experimentar. E lembrar mais uma vez o quanto somos devedores desse cineasta tão cheio de amor por nossa História, nossa cultura e nossa gente, e que, durante sua longa trajetória, contou essa nossa História das mais variadas maneiras. Sorte nossa. Nunca haverá um cineasta como Nelson Pereira dos Santos.
+ TRÊS FILMES
MEU CORPO É POLÍTICO
É um filme simples e que nos conquista aos poucos, cujos personagens vão ganhando força à medida que eles vão se incorporando a um todo coeso. No começo, não parece ser. E no começo me incomodou um pouco o discurso muito direto, quase didático, em especial de um personagem transexual. Direção: Alice Riff. Ano: 2017.
A LUTA DO SÉCULO
Incrível como não sabia nada nem do filme nem dos lutadores. E é até melhor assim, pois as surpresas são maiores. Dá pra rir e dá pra ficar comovido com a história desses homens que passaram a vida se odiando e tendo a chance de ir ao ringue diversas vezes. Direção: Sergio Machado. Ano: 2016.
PAULISTAS
Dentro da categorias desses documentários que tencionam borrar a linha com a ficção, este é um dos que menos me agradou e o que mais parece não ter dito a que veio. Se é para ser um retrato de um espaço de abandono dos jovens e de desolação, o que trouxe pra mim foi só tédio. Melhor rever RIFLE, que tem alguma semelhança e é muito mais bem-sucedido nesse quesito. Direção: Daniel Nolasco. Ano: 2018.
domingo, abril 22, 2018
SUBMERSÃO (Submergence)
Provavelmente o último bom filme de ficção de Wim Wenders tenha sido O CÉU DE LISBOA (1994). E ainda assim não é uma unanimidade. Já nessa época sua carreira estava sendo vista como em declínio. E de fato estava. O que tem salvado sua carreira atualmente são seus documentários. O último, O SAL DA TERRA (2014), sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, é uma beleza. É triste testemunhar a decadência de um dos mais importantes cineastas de sua geração, a geração dos novos nomes do cinema alemão surgida no final dos anos 1960.
Mesmo assim, aceitando que o que temos é apenas a sombra do que foi o diretor de PARIS, TEXAS (1984), é possível enxergar neste novo trabalho, SUBMERSÃO (2017), pontas de paixões e obsessões que são muito bem trabalhadas num todo irregular. Mas é muito melhor se apegar ao que há de positivo no filme do que no que há de negativo. Até porque o que há de positivo é muito bom de ver.
Refiro-me ao modo como o filme trabalha a construção do relacionamento da bióloga marinha Danielle Flinders (Alicia Vikander) e o espião britânico James More (James McAvoy). Ele não informa a ela sua verdadeira ocupação. Diz que é um engenheiro. Eles se conhecem e se apaixonam em uma espécie de hotel de luxo à beira-mar. E o que há de mais sólido no filme é justamente esses momentos em que os dois estão juntos e se conhecendo.
Wim Wenders é feliz em tornar crível cada momento de aproximação dos dois, cada detalhe dos diálogos, do quanto cada momento é importante (em certa cena, ela fala de uma marca de expressão que ele tem, enquanto se tocam; ele diz que vai se lembrar disso). E, de fato, a separação dos dois, para ambos irem a missões perigosas, à sua maneira, é um tanto dolorosa, mas é também enternecedora.
Os obstáculos que funcionam como um elemento de motivação e torcida por parte do espectador só se estabelecem por causa desse ponto de partida. O primeiro beijo dos dois é muito gostoso de ver. Por isso os instantes de separação, quando ele é sequestrado por um grupo jihadista e fica sem comunicação com ela, são dolorosos. Há quem vá achar o filme tedioso ou até insuportável.
E isto não é nem novidade para uma obra contemporânea de Wenders. Mas é possível sim entrar no clima de SUBMERSÃO, naquele misto de tristeza pela separação e de alegria pelo apego à recordação. Se a parte mais existencialista, científica e metafísica do filme não conseguem atingir o que almejam, a gente pode dar sim um desconto.
Quanto às belas imagens, trata-se da terceira parceria de Wenders com o diretor de fotografia Benoît Debie. Os anteriores foram em TUDO VAI FICAR BEM (2015) e OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ (2016).
+ TRÊS FILMES
COM AMOR, SIMON (Love, Simon)
A própria frase que vende o filme já diz tudo: todo mundo merece uma grande história de amor. Então, o que temos aqui é uma tradicional comédia romântica estudantil, com apenas uma diferença: é a história de um rapaz gay com dificuldade de sair do armário. A gente sofre um pouco com ele esse processo e nisso talvez esteja o grande mérito do filme. Além do mais, todos os personagens são simpáticos. Talvez só tenha me incomodado com uma visão muito otimista do mundo, não sei. Direção: Greg Berlanti. Ano: 2018.
OPERAÇÃO RED SPARROW (Red Sparrow)
Muito melhor do que andaram dizendo por aí. Gostei mais do que de ATÔMICA, mesmo sabendo que as propostas são diferentes. Mas ao menos este dá pra se envolver no drama da protagonista. E o filme deve muito à Jennifer Lawrence. A força dela é que impulsiona a produção, não a direção qualquer coisa do xará de sobrenome. Duas cenas eu acho massa: uma de sexo e uma de violência.. São cenas que se destacam dentro de uma obra mais para mediana. Direção: Francis Lawrence. Ano: 2018.
CINQUENTA TONS DE LIBERDADE (Fifty Shades Freed)
Incrível como uma franquia consegue descer uma ladeira mais abaixo do que já estava. Imaginem se fizessem mais filmes. O que sairia. Sabemos que o principal problema é a fonte e que diretor nenhum conseguiria dar jeito estando tão amarrado ao texto original tosco. Enfim, dureza. A única vantagem de eu ter visto o filme sozinho numa sala em uma sessão que terminou depois da meia noite é que não precisei encarar os olhares constrangidos de ninguém. O shopping, aliás, parecia cenário de O DESPERTAR DOS MORTOS. O que é até uma coisa legal, sei lá. Direção: James Foley. Ano: 2018.
Mesmo assim, aceitando que o que temos é apenas a sombra do que foi o diretor de PARIS, TEXAS (1984), é possível enxergar neste novo trabalho, SUBMERSÃO (2017), pontas de paixões e obsessões que são muito bem trabalhadas num todo irregular. Mas é muito melhor se apegar ao que há de positivo no filme do que no que há de negativo. Até porque o que há de positivo é muito bom de ver.
Refiro-me ao modo como o filme trabalha a construção do relacionamento da bióloga marinha Danielle Flinders (Alicia Vikander) e o espião britânico James More (James McAvoy). Ele não informa a ela sua verdadeira ocupação. Diz que é um engenheiro. Eles se conhecem e se apaixonam em uma espécie de hotel de luxo à beira-mar. E o que há de mais sólido no filme é justamente esses momentos em que os dois estão juntos e se conhecendo.
Wim Wenders é feliz em tornar crível cada momento de aproximação dos dois, cada detalhe dos diálogos, do quanto cada momento é importante (em certa cena, ela fala de uma marca de expressão que ele tem, enquanto se tocam; ele diz que vai se lembrar disso). E, de fato, a separação dos dois, para ambos irem a missões perigosas, à sua maneira, é um tanto dolorosa, mas é também enternecedora.
Os obstáculos que funcionam como um elemento de motivação e torcida por parte do espectador só se estabelecem por causa desse ponto de partida. O primeiro beijo dos dois é muito gostoso de ver. Por isso os instantes de separação, quando ele é sequestrado por um grupo jihadista e fica sem comunicação com ela, são dolorosos. Há quem vá achar o filme tedioso ou até insuportável.
E isto não é nem novidade para uma obra contemporânea de Wenders. Mas é possível sim entrar no clima de SUBMERSÃO, naquele misto de tristeza pela separação e de alegria pelo apego à recordação. Se a parte mais existencialista, científica e metafísica do filme não conseguem atingir o que almejam, a gente pode dar sim um desconto.
Quanto às belas imagens, trata-se da terceira parceria de Wenders com o diretor de fotografia Benoît Debie. Os anteriores foram em TUDO VAI FICAR BEM (2015) e OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ (2016).
+ TRÊS FILMES
COM AMOR, SIMON (Love, Simon)
A própria frase que vende o filme já diz tudo: todo mundo merece uma grande história de amor. Então, o que temos aqui é uma tradicional comédia romântica estudantil, com apenas uma diferença: é a história de um rapaz gay com dificuldade de sair do armário. A gente sofre um pouco com ele esse processo e nisso talvez esteja o grande mérito do filme. Além do mais, todos os personagens são simpáticos. Talvez só tenha me incomodado com uma visão muito otimista do mundo, não sei. Direção: Greg Berlanti. Ano: 2018.
OPERAÇÃO RED SPARROW (Red Sparrow)
Muito melhor do que andaram dizendo por aí. Gostei mais do que de ATÔMICA, mesmo sabendo que as propostas são diferentes. Mas ao menos este dá pra se envolver no drama da protagonista. E o filme deve muito à Jennifer Lawrence. A força dela é que impulsiona a produção, não a direção qualquer coisa do xará de sobrenome. Duas cenas eu acho massa: uma de sexo e uma de violência.. São cenas que se destacam dentro de uma obra mais para mediana. Direção: Francis Lawrence. Ano: 2018.
CINQUENTA TONS DE LIBERDADE (Fifty Shades Freed)
Incrível como uma franquia consegue descer uma ladeira mais abaixo do que já estava. Imaginem se fizessem mais filmes. O que sairia. Sabemos que o principal problema é a fonte e que diretor nenhum conseguiria dar jeito estando tão amarrado ao texto original tosco. Enfim, dureza. A única vantagem de eu ter visto o filme sozinho numa sala em uma sessão que terminou depois da meia noite é que não precisei encarar os olhares constrangidos de ninguém. O shopping, aliás, parecia cenário de O DESPERTAR DOS MORTOS. O que é até uma coisa legal, sei lá. Direção: James Foley. Ano: 2018.
quinta-feira, abril 19, 2018
CABO DO MEDO (Cape Fear)
Não sei onde eu estava com a cabeça na época em que deixei de ver nos cinemas CABO DO MEDO (1991). E olha que eu já tinha saído de uma experiência inenarrável após a sessão de OS BONS COMPANHEIROS (1990). Só podia estar passando por algum momento muito delicado, não sei dizer. O fato é que, na época, só vi este remake espetacular dirigido por Martin Scorsese em VHS. E mesmo assim foi um impacto gigante. Mas se eu não me engano o filme não era bem uma unanimidade na época. Havia gente que achava muito comercial, se não me engano.
A releitura de CABO DO MEDO agora, desta vez respeitando a janela original e em uma ótima cópia ripada de um blu-ray, se deveu a uma brincadeira nova do pessoal do Cinema na Varanda, que está fazendo um novo quadro mensal dedicado à discussão de clássicos. O escolhido do mês de abril foi este filme estrelado por Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis.
CABO DO MEDO foi a sétima colaboração entre Scorsese e o seu então ator-fetiche De Niro. Uma colaboração das mais belas da história do cinema. Já Nick Nolte, havia trabalhado com o cineasta no segmento "Lições de Vida", de CONTOS DE NOVA YORK (1989). A caracterização dos dois personagens chega à perfeição, levando em consideração que ninguém se importe com o nível de intensidade que o filme prefere adotar. Nas cores, nas interpretações, na trilha sonora, na violência etc.
O embate dos dois personagens lembra muito o de PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock. Aliás, todo o filme parece uma grande ode ao mestre do suspense, com uma homenagem explícita a PSICOSE, na cena da cozinha. O que é aquele momento, meus amigos? A própria trilha sonora é de Bernard Herrmann (do filme original), o que dá um tom hitchcockiano especial. Scorsese lida com todas as ferramentas cinematográficas de maneira tão genial que, naquele momento, era difícil não dizer que estávamos diante do maior cineasta americano vivo.
Toda a sequência que antecipa a tal cena da cozinha, com a tentativa de fazer uma armadilha para o ex-presidiário e estuprador é de uma tensão tão grande que jamais imaginaríamos que essa tensão se potencializaria na sequência do barco, quando o filme se encaminha para o seu grandioso desfecho.
Há sequências em que o uso de recortes para simular a profundidade de campo lembra bastante os trabalhos do colega de geração Brian De Palma. E há uma cena em especial que a música fica um pouco de lado para que possamos quase parar de respirar: caso da cena do primeiro encontro de Max Cady (De Niro) com a jovem e inocente Danielle (Juliette Lewis). A cena tem um misto de tensão, perigo, sensualidade e proibição que jamais imaginaríamos nos dias de hoje. Aliás, no ano seguinte, a própria Juliette apareceria beijando Woody Allen no também memorável MARIDOS E ESPOSAS. Ou seja, não faltava exploração da sensualidade da estrela adolescente na época.
CABO DO MEDO é um produto de sua época, mas talvez justamente por isso tenha envelhecido tão bem, tenha adquirido essa aura de clássico, ainda mais com tanta homenagem à velha Hollywood. Um filme que também possui a arte de deixar o nosso sangue intoxicado. Digo isso como elogio. E olha que não exaltei as qualidades formais da obra, que são imensas.
+ TRÊS FILMES
ÓDIO
Um dos filmes mais singulares da história do cinema brasileiro. Tem uma elegância impressionante na direção, na mesma maneira como também não se importa em mostrar os excessos que a própria história precisa contar. Certamente vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Projeto pessoal e muito querido do Carlo Mossy. Ano: 1977.
FITZCARRALDO
Lembro de ter começado a ver este filme e não ter prosseguido numa exibição na televisão. Com a cópia restaurada, surgiu a chance de ver no cinema. Está longe de ser dos meus favoritos do Werner Herzog, mas não deixa de ser admirável em sua construção e sua ambição. Quem teria bancado um filme desses? Ano: 1982.
QUADRILHA MALDITA (Day of the Outlaw)
Que maravilha de filme, hein! Uma espécie de OS OITO ODIADOS que deu certo. Acho que Tarantino bebeu muito da fonte deste filme pra construir o seu ambicioso projeto. André De Toth é mestre e o seu filme é do mesmo ano de outro western muito especial, o RIO BRAVO, do Hawks. Ano: 1959.
A releitura de CABO DO MEDO agora, desta vez respeitando a janela original e em uma ótima cópia ripada de um blu-ray, se deveu a uma brincadeira nova do pessoal do Cinema na Varanda, que está fazendo um novo quadro mensal dedicado à discussão de clássicos. O escolhido do mês de abril foi este filme estrelado por Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis.
CABO DO MEDO foi a sétima colaboração entre Scorsese e o seu então ator-fetiche De Niro. Uma colaboração das mais belas da história do cinema. Já Nick Nolte, havia trabalhado com o cineasta no segmento "Lições de Vida", de CONTOS DE NOVA YORK (1989). A caracterização dos dois personagens chega à perfeição, levando em consideração que ninguém se importe com o nível de intensidade que o filme prefere adotar. Nas cores, nas interpretações, na trilha sonora, na violência etc.
O embate dos dois personagens lembra muito o de PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock. Aliás, todo o filme parece uma grande ode ao mestre do suspense, com uma homenagem explícita a PSICOSE, na cena da cozinha. O que é aquele momento, meus amigos? A própria trilha sonora é de Bernard Herrmann (do filme original), o que dá um tom hitchcockiano especial. Scorsese lida com todas as ferramentas cinematográficas de maneira tão genial que, naquele momento, era difícil não dizer que estávamos diante do maior cineasta americano vivo.
Toda a sequência que antecipa a tal cena da cozinha, com a tentativa de fazer uma armadilha para o ex-presidiário e estuprador é de uma tensão tão grande que jamais imaginaríamos que essa tensão se potencializaria na sequência do barco, quando o filme se encaminha para o seu grandioso desfecho.
Há sequências em que o uso de recortes para simular a profundidade de campo lembra bastante os trabalhos do colega de geração Brian De Palma. E há uma cena em especial que a música fica um pouco de lado para que possamos quase parar de respirar: caso da cena do primeiro encontro de Max Cady (De Niro) com a jovem e inocente Danielle (Juliette Lewis). A cena tem um misto de tensão, perigo, sensualidade e proibição que jamais imaginaríamos nos dias de hoje. Aliás, no ano seguinte, a própria Juliette apareceria beijando Woody Allen no também memorável MARIDOS E ESPOSAS. Ou seja, não faltava exploração da sensualidade da estrela adolescente na época.
CABO DO MEDO é um produto de sua época, mas talvez justamente por isso tenha envelhecido tão bem, tenha adquirido essa aura de clássico, ainda mais com tanta homenagem à velha Hollywood. Um filme que também possui a arte de deixar o nosso sangue intoxicado. Digo isso como elogio. E olha que não exaltei as qualidades formais da obra, que são imensas.
+ TRÊS FILMES
ÓDIO
Um dos filmes mais singulares da história do cinema brasileiro. Tem uma elegância impressionante na direção, na mesma maneira como também não se importa em mostrar os excessos que a própria história precisa contar. Certamente vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Projeto pessoal e muito querido do Carlo Mossy. Ano: 1977.
FITZCARRALDO
Lembro de ter começado a ver este filme e não ter prosseguido numa exibição na televisão. Com a cópia restaurada, surgiu a chance de ver no cinema. Está longe de ser dos meus favoritos do Werner Herzog, mas não deixa de ser admirável em sua construção e sua ambição. Quem teria bancado um filme desses? Ano: 1982.
QUADRILHA MALDITA (Day of the Outlaw)
Que maravilha de filme, hein! Uma espécie de OS OITO ODIADOS que deu certo. Acho que Tarantino bebeu muito da fonte deste filme pra construir o seu ambicioso projeto. André De Toth é mestre e o seu filme é do mesmo ano de outro western muito especial, o RIO BRAVO, do Hawks. Ano: 1959.
domingo, abril 15, 2018
SEVERINA
Impressionante como as histórias de amor não se esgotam e se reinventam, passados tantos séculos. No caso de SEVERINA (2017), retorno de Felipe Hirsch à direção de cinema depois de um relativamente longo hiato, temos a história de amor de uma livreiro e uma ladra de livros em uma cidade do Uruguai. Ele (Javier Drolas), cujo nome nunca é citado ao longo da narrativa, talvez tenha deixado aquela moça bonita roubar os livros por ela ser bonita. Na terceira vez, no entanto, ele não deixa passar. Até porque ele também tem interesse em conversar e saber quem é aquela jovem mulher, vivida por Clara Quevedo.
Ela afirma se chamar Ana, mas nunca sabemos se é mesmo esse o verdadeiro nome. Um dos fortes atrativos da moça está no seu mistério. É pelo mistério que o livreiro se vê cada vez mais enredado em seus quereres, e é pela obsessão que ele sente por ela que ele se vê capaz de fazer algo inimaginável. O amor está associado fortemente ao perdão nesta espécie de fábula que tem o sabor de um ótimo livro, desses que a gente faz questão de fazer anotações, marcar os trechos mais interessantes. Há diversos momentos no filme em que queremos dar uma pausa para fazer anotações, guardar certos diálogos ou mesmo citações. SEVERINA, inclusive, já começa com uma inquietante epígrafe de Williams Carlos Williams.
O prazer da palavra também está presente no uso do recurso da voice-over, acentuando o sentimento de melancolia do narrador. A narração é bem-vinda, até por trazer ideias muito boas para dar força a esse delírio amoroso. Como é o caso de quando o narrador diz que a vida de um indivíduo é formada por coisas reais, coisas simples e coisas fantasmas. As coisas reais seriam aquelas coisas de grande valor e pouco frequentes na vida da pessoa, as coisas simples são as coisas rotineiras e as coisas fantasmas seriam aquelas terríveis, como a febre, dores e decepções terríveis.
A divisão da narrativa por capítulos também se constitui em mais um namoro do cinema com a literatura no filme, que pela própria história já seria óbvio. Os nomes dos capítulos que os antecipam fornecem um misto de suspense e humor que traz não só um ar de espirituosidade à obra, mas também um sentimento de surrealidade, à medida que os gestos de amor do livreiro por Ana vão se intensificando. E intensificam também o nosso interesse e respeito por SEVERINA, uma das melhores surpresas do cinema brasileiro recente.
+ TRÊS FILMES
ZAMA
Acho que nunca um filme me causou tanto mal estar e tanta náusea. Talvez eu já estivesse predisposto a esse sentimento, mas o filme aumenta isso. Se é a intenção mesmo de Martel (acho que é), parabéns. Mas nunca mais quero ver este filme de novo. Ainda assim, só não o considero ruim pelo modo como a diretora encena. Mas sei lá se isso não é só pra parecer diferente. Direção: Lucrecia Martel. Ano: 2017.
A LIVRARIA (The Bookshop)
Um filme que é simpático por sua vontade de exaltar os livros e ao trazer personagens interessantes, mas que falha em muitas coisas. O que temos é a impressão de que houve falha na adaptação do romance. O personagem do Bill Nighy é um achado. Certamente no romance deve ser fascinante ou próximo disso. Mas infelizmente fica tudo raso no resultado final. Direção: Isabel Coixet. Ano: 2017.
A NOIVA DO DESERTO (La Novia del Desierto)
Acho que me faltou mais identificação ou proximidade com os personagens para que eu me interessasse pelo romance deles. Mas gosto de como há momentos em que a atmosfera é bem captada, como na cena da tempestade, ou nas várias vezes em que o filme respira bem entre as falas dos protagonistas. Direção: Cecilia Atán e Valeria Pivato. Ano: 2017.
Ela afirma se chamar Ana, mas nunca sabemos se é mesmo esse o verdadeiro nome. Um dos fortes atrativos da moça está no seu mistério. É pelo mistério que o livreiro se vê cada vez mais enredado em seus quereres, e é pela obsessão que ele sente por ela que ele se vê capaz de fazer algo inimaginável. O amor está associado fortemente ao perdão nesta espécie de fábula que tem o sabor de um ótimo livro, desses que a gente faz questão de fazer anotações, marcar os trechos mais interessantes. Há diversos momentos no filme em que queremos dar uma pausa para fazer anotações, guardar certos diálogos ou mesmo citações. SEVERINA, inclusive, já começa com uma inquietante epígrafe de Williams Carlos Williams.
O prazer da palavra também está presente no uso do recurso da voice-over, acentuando o sentimento de melancolia do narrador. A narração é bem-vinda, até por trazer ideias muito boas para dar força a esse delírio amoroso. Como é o caso de quando o narrador diz que a vida de um indivíduo é formada por coisas reais, coisas simples e coisas fantasmas. As coisas reais seriam aquelas coisas de grande valor e pouco frequentes na vida da pessoa, as coisas simples são as coisas rotineiras e as coisas fantasmas seriam aquelas terríveis, como a febre, dores e decepções terríveis.
A divisão da narrativa por capítulos também se constitui em mais um namoro do cinema com a literatura no filme, que pela própria história já seria óbvio. Os nomes dos capítulos que os antecipam fornecem um misto de suspense e humor que traz não só um ar de espirituosidade à obra, mas também um sentimento de surrealidade, à medida que os gestos de amor do livreiro por Ana vão se intensificando. E intensificam também o nosso interesse e respeito por SEVERINA, uma das melhores surpresas do cinema brasileiro recente.
+ TRÊS FILMES
ZAMA
Acho que nunca um filme me causou tanto mal estar e tanta náusea. Talvez eu já estivesse predisposto a esse sentimento, mas o filme aumenta isso. Se é a intenção mesmo de Martel (acho que é), parabéns. Mas nunca mais quero ver este filme de novo. Ainda assim, só não o considero ruim pelo modo como a diretora encena. Mas sei lá se isso não é só pra parecer diferente. Direção: Lucrecia Martel. Ano: 2017.
A LIVRARIA (The Bookshop)
Um filme que é simpático por sua vontade de exaltar os livros e ao trazer personagens interessantes, mas que falha em muitas coisas. O que temos é a impressão de que houve falha na adaptação do romance. O personagem do Bill Nighy é um achado. Certamente no romance deve ser fascinante ou próximo disso. Mas infelizmente fica tudo raso no resultado final. Direção: Isabel Coixet. Ano: 2017.
A NOIVA DO DESERTO (La Novia del Desierto)
Acho que me faltou mais identificação ou proximidade com os personagens para que eu me interessasse pelo romance deles. Mas gosto de como há momentos em que a atmosfera é bem captada, como na cena da tempestade, ou nas várias vezes em que o filme respira bem entre as falas dos protagonistas. Direção: Cecilia Atán e Valeria Pivato. Ano: 2017.
quarta-feira, abril 11, 2018
GUERRA CONJUGAL
Tenho lamentado muito a falta de atualizações do blog. Isso tem ocorrido em parte por causa de um cansaço que tomou conta de mim e que parece ir além da esfera física, em parte por este espaço ter ficado abandonado por leitores, em parte porque não tenho conseguido encontrar tempo para a atualização sem que eu fique com dor na consciência também em não estar fazendo outras coisas que são mais urgentes. Tempos difíceis.
Estou começando assim, mais uma vez em primeira pessoa, como nos primórdios do blog, falando um pouco por cima de meus problemas, para arrancar o texto que ainda não sei como sairá. A lista de filmes vistos e não escritos, aliás, é tão imensa que chega a dar tristeza. Mas aproveitemos este momento agora para escrever sobre um deles. O escolhido é GUERRA CONJUGAL (1974), de Joaquim Pedro de Andrade, um dos filmes que mais me deu prazer de ver nos últimos meses.
Só a cena que mostra o personagem do advogado vivido por Lima Duarte recebendo uma jovem em seu escritório já torna o filme muito especial. Mesmo levando-se em consideração o fato de ser um trabalho de um de nossos melhores realizadores. Não consigo pensar em outro título melhor do cineasta do que este, pelo menos não do ponto de vista do prazer narrativo. |
Acompanhamos em GUERRA CONJUGAL histórias em bloco de quatro personagens: o já citado advogado vivido por Lima Duarte; o casal de velhinhos vivido por Joffre Soares e Carmem Silva; e o cafajeste Nelsinho, vivido por Carlos Gregório. O filme certamente nos dias de hoje seria bastante problematizado, até pelo modo como a questão do assédio é tratado com leveza e humor, embora as mulheres não sejam nada bobas aqui.
O filme começa com o personagem de Joffre Soares acordando no meio da noite, reclamando que está se sentindo mal para a mulher. Ele teme morrer antes da esposa, por quem nutre uma relação de amor e ódio. Em seguida, vemos a tal cena do advogado tarado e aproveitador. Já Nelsinho, tem como grande destaque a cena em que está namorando uma moça perto da avó cega dela. Detalhe: a jovem está praticamente nua enquanto falam com a senhora idosa.
As linhas narrativas são mostradas em blocos, adaptando 16 contos extraídos de sete livros de Dalton Trevisan. Daí o texto ser tão bom quanto o trabalho de cenografia. Joaquim Pedro de Andrade consegue extrair beleza de espaços muito pobres, como a casa do casal de velhos, com um trabalho de cores que está sendo valorizado pela nova cópia remasterizada.
Pena que o filme poderia ser mais longo e ainda mais ousado se não tivesse sido vítima da censura da época, que o liberou com cortes para maiores de 18 anos, afirmando que era uma obra que afrontava as instituições familiares.
+ TRÊS FILMES
MUITO PRAZER
Custei a acreditar que MUITO PRAZER foi feito depois de LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA (1971). Demorou demais o David Neves a fazer outra belezura. E é um filme bem diferente do anterior, é mais uma crônica, mas é também bem interessado na alma feminina. Otávio Augusto talvez tenha aqui o melhor papel de sua carreira, e Ítala Nandi e Antonio Pedro também estão excelentes. Ano: 1979.
XICA DA SILVA
Ficou linda a restauração deste filme de Carlos Diegues. Com as cores vivas e belas como devia ser na época de seu lançamento. Não sou tão fã da protagonista e às vezes até acho o filme meio aborrecido, mas gosto muito a partir da chegada do personagem do José Wilker. Se bem que Walmor Chagas também passa uma nobreza admirável a seu personagem. É o filme que anteciparia as duas obras-primas de Diegues, CHUVAS DE VERÃO (1978) e BYE BYE BRASIL (1980). Melhor do que isso ele não ficaria. Ah, e é muito legal ver a Elke Maravilha linda, antes de chegar aos 30. Ano: 1976.
A GRANDE CIDADE OU AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE LUZIA E SEUS 3 AMIGOS CHEGADOS DE LONGE
Outro belo filme dentro da filmografia irregular de Diegues. O que mais se destaca é a câmera do Dib Lutfi, que faz do Rio de Janeiro um personagem grande na história. Antonio Pitanga também está ótimo e a cena final da Anecy Rocha é impactante. Tinha-a visto em CINEMA NOVO, do Eryk Rocha, e já achado bem forte. Já o papel do Leonardo Villar é um pouco fraco. Ano: 1966.
Estou começando assim, mais uma vez em primeira pessoa, como nos primórdios do blog, falando um pouco por cima de meus problemas, para arrancar o texto que ainda não sei como sairá. A lista de filmes vistos e não escritos, aliás, é tão imensa que chega a dar tristeza. Mas aproveitemos este momento agora para escrever sobre um deles. O escolhido é GUERRA CONJUGAL (1974), de Joaquim Pedro de Andrade, um dos filmes que mais me deu prazer de ver nos últimos meses.
Só a cena que mostra o personagem do advogado vivido por Lima Duarte recebendo uma jovem em seu escritório já torna o filme muito especial. Mesmo levando-se em consideração o fato de ser um trabalho de um de nossos melhores realizadores. Não consigo pensar em outro título melhor do cineasta do que este, pelo menos não do ponto de vista do prazer narrativo. |
Acompanhamos em GUERRA CONJUGAL histórias em bloco de quatro personagens: o já citado advogado vivido por Lima Duarte; o casal de velhinhos vivido por Joffre Soares e Carmem Silva; e o cafajeste Nelsinho, vivido por Carlos Gregório. O filme certamente nos dias de hoje seria bastante problematizado, até pelo modo como a questão do assédio é tratado com leveza e humor, embora as mulheres não sejam nada bobas aqui.
O filme começa com o personagem de Joffre Soares acordando no meio da noite, reclamando que está se sentindo mal para a mulher. Ele teme morrer antes da esposa, por quem nutre uma relação de amor e ódio. Em seguida, vemos a tal cena do advogado tarado e aproveitador. Já Nelsinho, tem como grande destaque a cena em que está namorando uma moça perto da avó cega dela. Detalhe: a jovem está praticamente nua enquanto falam com a senhora idosa.
As linhas narrativas são mostradas em blocos, adaptando 16 contos extraídos de sete livros de Dalton Trevisan. Daí o texto ser tão bom quanto o trabalho de cenografia. Joaquim Pedro de Andrade consegue extrair beleza de espaços muito pobres, como a casa do casal de velhos, com um trabalho de cores que está sendo valorizado pela nova cópia remasterizada.
Pena que o filme poderia ser mais longo e ainda mais ousado se não tivesse sido vítima da censura da época, que o liberou com cortes para maiores de 18 anos, afirmando que era uma obra que afrontava as instituições familiares.
+ TRÊS FILMES
MUITO PRAZER
Custei a acreditar que MUITO PRAZER foi feito depois de LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA (1971). Demorou demais o David Neves a fazer outra belezura. E é um filme bem diferente do anterior, é mais uma crônica, mas é também bem interessado na alma feminina. Otávio Augusto talvez tenha aqui o melhor papel de sua carreira, e Ítala Nandi e Antonio Pedro também estão excelentes. Ano: 1979.
XICA DA SILVA
Ficou linda a restauração deste filme de Carlos Diegues. Com as cores vivas e belas como devia ser na época de seu lançamento. Não sou tão fã da protagonista e às vezes até acho o filme meio aborrecido, mas gosto muito a partir da chegada do personagem do José Wilker. Se bem que Walmor Chagas também passa uma nobreza admirável a seu personagem. É o filme que anteciparia as duas obras-primas de Diegues, CHUVAS DE VERÃO (1978) e BYE BYE BRASIL (1980). Melhor do que isso ele não ficaria. Ah, e é muito legal ver a Elke Maravilha linda, antes de chegar aos 30. Ano: 1976.
A GRANDE CIDADE OU AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE LUZIA E SEUS 3 AMIGOS CHEGADOS DE LONGE
Outro belo filme dentro da filmografia irregular de Diegues. O que mais se destaca é a câmera do Dib Lutfi, que faz do Rio de Janeiro um personagem grande na história. Antonio Pitanga também está ótimo e a cena final da Anecy Rocha é impactante. Tinha-a visto em CINEMA NOVO, do Eryk Rocha, e já achado bem forte. Já o papel do Leonardo Villar é um pouco fraco. Ano: 1966.
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