Uma pena a falta de tempo para escrever sobre os filmes. Por isso, aqui estou eu tentando dar um gás em momentos de pouca inspiração. Resolvi pegar todos os filmes de horror (ou afins) vistos no ano e que ainda não tinham sido comentados aqui no blog. Então, é jogo rápido. Matando oito coelhos com uma só caixa d'água.
O CONVITE (The Invitation)
Diretora de GAROTA INFERNAL (2009), Karyn Kusama tem no currículo um monte de coisas para a televisão. Este O CONVITE (2015) talvez seja o seu trabalho mais intenso e quem sabe mais autoral. É mais um caso de ótimo filme que foi parar direto no Netflix, sem chance de ter uma carreira na telona. Mas é bom a gente se acostumar com isso e relaxar. Tentar apreciar a experiência que é o filme, mesmo que pensando nele na tela grande, por causa das várias tomadas com poucos close-ups. O ideal é ver sem saber nada a respeito, mas para quem quer saber algo, trata-se de uma história sobre um homem que visita a casa de sua ex-esposa e dá de cara com situações sinistras. Gosto muito da tensão crescente.
TODAS AS CORES DA NOITE
Não vou mentir e dizer que embarquei na viagem toda desse filme. Há algo em TODAS AS CORES DA NOITE (2015) que não parece funcionar. Mas a cena final é tão maravilhosa (com a Sabrina Greve em estado de graça) que eu comecei a achar que era eu que não estava com a cabeça boa para o filme no dia em que o vi. Estava pensando em outras coisas boa parte do tempo. Portanto, seria o caso de uma segunda chance. A propósito, seria a Sabrina Greve a maior estrela dos filmes de horror brasileiros ever?
O RASTRO
É mais curioso do que exatamente bom esta tentativa de fazer um filme de horror no Brasil bem parecido com o que se faz lá fora. O diretor de O RASTRO (2017), J.C. Foyer, deu conta de criar alguns momentos de dar arrepios, mas falha demais na criação de uma atmosfera de suspense e em nos deixar interessados em seus personagens. Chega uma hora que a gente torce para o filme acabar logo mesmo. Uma pena. A trama se passa em um hospital que está passando por um processo de tombamento.
KRISHA
Um filme que passa um mal estar tremendo, já que sentimos um pouco do ponto de vista de alguém rejeitado e também da tensão existente em um ambiente familiar, algo que sempre me deixa muito perturbado. Este é KRISHA (2015), filme de estreia de Trey Edward Shults, do marco do pós-horror AO CAIR DA NOITE (2017). Também se nota algo que é característico dos primeiros filmes em KRISHA que é o diretor quer mostrar serviço e assim há muitos jogos de câmeras curiosos, diferentes, ângulos desconfortáveis etc. Vale muito ver, principalmente pela excelente caracterização da protagonista, vivida por Krisha Fairchild. Sim, quase todos os personagens interpretam a si mesmos, ou pelo menos dão o mesmo nome aos personagens.
7 DESEJOS (Wish Upon)
Eu até tinha achado o ANABELLE (2014) um filme bem decente, mas é impressionante como esse 7 DESEJOS (2017), do mesmo diretor John R. Leonetti, é idiota. Dá pra se divertir e tal, mas a protagonista é uma tapada e a trama, além de imitar um bocado a franquia PREMONIÇÃO, é cheia de furos horríveis. Mas se isso fosse o único problema até que estava bom. No mais, acabei vendo a Sherilyn Fenn no cinema antes de ver em TWIN PEAKS - O RETORNO. E que papel horrível que deram a ela, meu Deus. Povo não respeita quem merece o respeito, não.
THE DEVIL'S CANDY
Para o que parece ser só mais um filme sobre casa assombrada com demônio envolvido, e ainda por cima envolvendo rock pesado, THE DEVIL'S CANDY (2015, foto) vai num crescendo de perturbação que o torna um belo exemplar contemporâneo. Comecei a ver a primeira metade do filme em um dia e não estava curtindo muito, mas depois, no dia seguinte, vi que é uma obra respeitável. A violência, a tensão, a problematização do que parecia simplista e bobo (o diabo no heavy metal), tudo melhora.. E arrepiei no final quando toca uma canção foda, que eu não vou dizer aqui qual é.
ENTES QUERIDOS (The Loved Ones)
Embora seja inferior ao THE DEVIL'S CANDY, do mesmo Sean Byrne, e partir mais para o torturne porn, é bom voltar ao universo de jovens fãs de rock pesado, que parece ser o mundo do diretor. Há alguns cartas na manga, mas na verdade são poucas. Ainda assim ENTES QUERIDOS (2009) é filme pra assistir com os olhos grudados e o coração na mão. Na trama, uma garota que costuma ser rejeitada na escola captura um rapaz por quem tem interesse para fazer com ele um baile de formatura todo especial. Tenso e sangrento.
DEATH NOTE
A gente até quer dar uma chance a esta adaptação do excelente mangá Death Note, mas não tem jeito. A coisa piora muito quando entra em cena o L, que consegue ser mais patético que o Light. Ambos não deveriam ser. De todo modo, o que não funciona no filme DEATH NOTE (2017) nem é a falta de "fidelidade" à obra. É que é tudo feito às pressas, toscamente mesmo. Não dá pra sentir o mínimo suspense. Quem acaba se destacando é a namorada de Light, Margaret Qualley, que tem o seu encanto e ganha o filme em determinado momento. Mas é muito pouco. E pensar que o diretor Adam Wingard vinha de um filme bacana (VOCÊ É O PRÓXIMO, 2011)...
quinta-feira, setembro 14, 2017
quarta-feira, setembro 13, 2017
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS
Vivemos em um momento particularmente delicado em nosso país. Desde 2013 que a sociedade brasileira está dividida, embora as manifestações daquele ano tenham sido bem distintas das que culminaram com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, no ano passado. São de grupos distintos, aliás. Hoje, nem se trata mais de dificuldade de comunicação entre as partes (direita e esquerda, coxinhas e petralhas), mas de uma separação tão irracional quanto torcer por um time de futebol. E esse momento o próprio filme POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS (2017) ajuda a captar: na cena em Lula está no Aeroporto de Congonhas, depois de ter sido levado coercitivamente para depor .
Pelo que é mostrado no filme, havia dois times muito bem delineados: os que achavam que aquilo era um absurdo e estavam ali para dar uma força para o ex-Presidente, vestidos de vermelho e com o apoio da CUT, e aqueles que tinham escrito "Somos todos Moro" em suas bandeiras, e se vestiam de verde e amarelo, todos exultantes por aquele momento que, embora não representasse a prisão de Lula, representou algo próximo disso para eles, que conseguiram com paneladas expulsar uma presidente eleita. Logo, foi um dia de festa para muitos brasileiros.
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS é desses filmes que merecem ser vistos nem que seja por curiosidade mórbida, seja por quem acompanha o cinema brasileiro e quer pensar o filme dentro do cenário do gênero policial brasileiro contemporâneo, seja por quem está interessado em ver como foi o recorte e de que maneira o diretor Marcelo Antunez e seus roteiristas resolveram contar a história da ação da Lava-Jato desde o primeiro momento até o ano passado.
E por mais que a primeira metade do filme funcione até bem como thriller policial, apesar de alguns diálogos bem ruins, o aspecto político é muito frágil e também muito covarde, no sentido de querer vilanizar pessoas que ainda estão sob investigação. Como é o caso do Presidente Lula, que é pintado como uma figura enjoada e afetada por Ary Fontoura. Sabemos que os próprios representantes da direita brasileira dão o braço a torcer quanto ao carisma do ex-presidente e o que é mostrado está bem longe de sua figura. Na sessão em que assisti, porém, que terminou com uma salva de palmas pelo público presente, muitos se divertiram com o modo como Lula foi representado, alguns até dizendo coisas como "olha a cara de pau dele" etc., como se estivessem vendo o próprio Presidente ou uma cena de novela.
Porém, a imagem do verdadeiro Lula nos créditos finais, dizendo que "a jararaca está viva", em entrevista coletiva após o tal depoimento, ajuda a esquecer um pouco a interpretação infeliz de Fontoura. Há outras situações forçadas do roteiro, como as de Bruce Gomlevsky, que vive um dos quatro principais agentes da Lava-Jato. Seu quadro branco contendo as palestras do Lula por diversos países e o dinheiro supostamente desviado mais parece o famoso powerpoint de Dallagnol.
Quanto ao juiz Sérgio Moro, vivido por Marcelo Serrado, o filme o deixa um pouco mais distanciado do caso, como que para torná-lo o mais isento e apartidário possível. Até mesmo cenas do juiz preparando pizza e conversando com o filho em sua casa o filme mostra. Mas os verdadeiros heróis são mesmo os quatro cavaleiros da operação, vividos ficcionalmente por Antonio Calloni, Flávia Alessandra, João Baldasserini e o já citado Gomlevsky, que é o sujeito que canta "Inútil", do Ultraje a Rigor, em um karaokê, mostrando mais uma vez que o filme adotou sim uma posição partidária.
Mesmo quando em determinado momento um deles se questiona sobre quem estaria sendo beneficiando por tantas prisões e acusações naquele momento de tensão política intensa, logo aparece alguém para deixá-lo tranquilo, dizendo que eles estão sim tornando o Brasil melhor. Por um momento, o filme quase conseguiu uma autorreflexão lúcida frente a tudo aquilo que foi mostrado.
Claro não se pode demonizar o filme por assumir uma posição no jogo, muito embora se possa responsabilizá-lo por alguns julgamentos que, mais à frente, poderão ser considerados injustos. Falar de um cenário político sem o distanciamento temporal adequado é sempre arriscado. Mas, como vivemos um momento em que a urgência e o pré-julgamento parecem imperar, a busca pela verdade aparecerá sempre borrada.
No meio deste caldo fervendo, há ainda outros projetos por vir, como a série da Lava-Jato criada pelo José Padilha para a Netflix e os quatro documentários sobre o impeachment de Dilma Rousseff, sendo que dois optaram por retratar a situação mais próximo do ponto de vista da ex-presidenta. Até lá, ficamos na torcida pelo Brasil.
Pelo que é mostrado no filme, havia dois times muito bem delineados: os que achavam que aquilo era um absurdo e estavam ali para dar uma força para o ex-Presidente, vestidos de vermelho e com o apoio da CUT, e aqueles que tinham escrito "Somos todos Moro" em suas bandeiras, e se vestiam de verde e amarelo, todos exultantes por aquele momento que, embora não representasse a prisão de Lula, representou algo próximo disso para eles, que conseguiram com paneladas expulsar uma presidente eleita. Logo, foi um dia de festa para muitos brasileiros.
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS é desses filmes que merecem ser vistos nem que seja por curiosidade mórbida, seja por quem acompanha o cinema brasileiro e quer pensar o filme dentro do cenário do gênero policial brasileiro contemporâneo, seja por quem está interessado em ver como foi o recorte e de que maneira o diretor Marcelo Antunez e seus roteiristas resolveram contar a história da ação da Lava-Jato desde o primeiro momento até o ano passado.
E por mais que a primeira metade do filme funcione até bem como thriller policial, apesar de alguns diálogos bem ruins, o aspecto político é muito frágil e também muito covarde, no sentido de querer vilanizar pessoas que ainda estão sob investigação. Como é o caso do Presidente Lula, que é pintado como uma figura enjoada e afetada por Ary Fontoura. Sabemos que os próprios representantes da direita brasileira dão o braço a torcer quanto ao carisma do ex-presidente e o que é mostrado está bem longe de sua figura. Na sessão em que assisti, porém, que terminou com uma salva de palmas pelo público presente, muitos se divertiram com o modo como Lula foi representado, alguns até dizendo coisas como "olha a cara de pau dele" etc., como se estivessem vendo o próprio Presidente ou uma cena de novela.
Porém, a imagem do verdadeiro Lula nos créditos finais, dizendo que "a jararaca está viva", em entrevista coletiva após o tal depoimento, ajuda a esquecer um pouco a interpretação infeliz de Fontoura. Há outras situações forçadas do roteiro, como as de Bruce Gomlevsky, que vive um dos quatro principais agentes da Lava-Jato. Seu quadro branco contendo as palestras do Lula por diversos países e o dinheiro supostamente desviado mais parece o famoso powerpoint de Dallagnol.
Quanto ao juiz Sérgio Moro, vivido por Marcelo Serrado, o filme o deixa um pouco mais distanciado do caso, como que para torná-lo o mais isento e apartidário possível. Até mesmo cenas do juiz preparando pizza e conversando com o filho em sua casa o filme mostra. Mas os verdadeiros heróis são mesmo os quatro cavaleiros da operação, vividos ficcionalmente por Antonio Calloni, Flávia Alessandra, João Baldasserini e o já citado Gomlevsky, que é o sujeito que canta "Inútil", do Ultraje a Rigor, em um karaokê, mostrando mais uma vez que o filme adotou sim uma posição partidária.
Mesmo quando em determinado momento um deles se questiona sobre quem estaria sendo beneficiando por tantas prisões e acusações naquele momento de tensão política intensa, logo aparece alguém para deixá-lo tranquilo, dizendo que eles estão sim tornando o Brasil melhor. Por um momento, o filme quase conseguiu uma autorreflexão lúcida frente a tudo aquilo que foi mostrado.
Claro não se pode demonizar o filme por assumir uma posição no jogo, muito embora se possa responsabilizá-lo por alguns julgamentos que, mais à frente, poderão ser considerados injustos. Falar de um cenário político sem o distanciamento temporal adequado é sempre arriscado. Mas, como vivemos um momento em que a urgência e o pré-julgamento parecem imperar, a busca pela verdade aparecerá sempre borrada.
No meio deste caldo fervendo, há ainda outros projetos por vir, como a série da Lava-Jato criada pelo José Padilha para a Netflix e os quatro documentários sobre o impeachment de Dilma Rousseff, sendo que dois optaram por retratar a situação mais próximo do ponto de vista da ex-presidenta. Até lá, ficamos na torcida pelo Brasil.
terça-feira, setembro 12, 2017
COMO NOSSOS PAIS
Embora Laís Bodanzky tenha vários trabalhos em seu currículo, longas-metragens de ficção mesmo são apenas quatro. E COMO NOSSOS PAIS (2017) talvez seja o seu trabalho mais bem acabado e também mais ousado em ter que dar conta de temas tão em voga como a questão da busca de libertação da mulher da herança patriarcal, que, junto ao acúmulo de funções nas últimas décadas com o mercado de trabalho, fez com que ela acumulasse cada vez mais afazeres, seja fora de casa, seja cuidando de sua casa e dos filhos. Assim, o sonho de fazer uma peça de teatro, por exemplo, acaba ficando em segundo plano por causa de tanta coisa para resolver. Eis um dos motivos de os homens terem alcançado mais espaço nas artes.
A personagem Rosa, vivida por Maria Ribeiro, é uma personificação dessa mulher brasileira de classe média alta. Mãe de duas crianças pequenas, sendo que uma delas já quer ter um pouco mais de independência, mesmo sendo tão nova, e suspeitando que o marido Dado (Paulo Vilhena) a está traindo com outra, Rosa vive uma crise ainda mais intensa quando uma revelação lhe chega como uma bomba: a mãe (Clarisse Abujamra), durante almoço em família, resolve lhe contar que ela é fruto de uma aventura amorosa, que não é filha de seu pai (vivido com muita simpatia por Jorge Mautner).
Embora bastante importante, a cena da revelação é uma das mais frágeis do filme. Parece dita de maneira tão sem emoção que chega a desafinar com o tipo de dramaturgia que é usado ao longo do filme na maior parte de sua metragem. Se bem que isso é algo que é relevado, uma vez que nos envolvemos com a narrativa e com os personagens, todos interessantes e cativantes, com praticamente todo o ponto de vista sendo de Rosa.
É por meio dela que conhecemos os demais personagens e nos afeiçoamos a eles, gratuitamente, como o pai Homero (Mautner). E é por meio dela que também suspeitamos de Dado e que encaramos com interesse uma aventura que ela se permite ter com um amigo com quem nutre atração física. Mas o mais importante do que tudo isso talvez seja, mais uma vez, a relação com a mãe, que está com uma doença terminal e passa a se despedir da vida com a paz e a confiança de ter feito tudo o que gostaria de ter feito.
Nota-se, portanto, que COMO NOSSOS PAIS tenta abraçar muitas coisas ao mesmo tempo. Os problemas de Rosa deverão fazer parte de seu amadurecimento para torná-la mais forte. Se por um lado o encadeamento de problemas (e de aventuras e de situações amargas e divertidas) torna o filme muitíssimo agradável de ver, com sua montagem dinâmica, mostra-o como uma obra mais horizontal do que vertical, no sentido de que há pouca coisa a se buscar quando aprofundadas as cenas. Há espaço para muito debate extra-fílmico, a partir dos diversos temas expostos e muito bem-vindos, mas o fato de os personagens já problematizarem suas situações em seus próprios diálogos acaba por diminuir o aprofundamento.
Ainda assim, COMO NOSSOS PAIS é tão agradável e tão cheio de amor que é difícil não gostar, difícil não nutrir simpatia e até empatia pela personagem de Maria Ribeiro. Que, aliás, parece estar interpretando a si mesma, de tão natural que ficou seu papel. Como ela é o centro do filme, isso é um ponto bem positivo. E ponto positivo também para Luiz Bolognesi, esposo de Laís, que contribuiu, junto com a diretora da construção do roteiro. Lembrando que Bolognesi também foi responsável pelo roteiro do ótimo BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende.
A personagem Rosa, vivida por Maria Ribeiro, é uma personificação dessa mulher brasileira de classe média alta. Mãe de duas crianças pequenas, sendo que uma delas já quer ter um pouco mais de independência, mesmo sendo tão nova, e suspeitando que o marido Dado (Paulo Vilhena) a está traindo com outra, Rosa vive uma crise ainda mais intensa quando uma revelação lhe chega como uma bomba: a mãe (Clarisse Abujamra), durante almoço em família, resolve lhe contar que ela é fruto de uma aventura amorosa, que não é filha de seu pai (vivido com muita simpatia por Jorge Mautner).
Embora bastante importante, a cena da revelação é uma das mais frágeis do filme. Parece dita de maneira tão sem emoção que chega a desafinar com o tipo de dramaturgia que é usado ao longo do filme na maior parte de sua metragem. Se bem que isso é algo que é relevado, uma vez que nos envolvemos com a narrativa e com os personagens, todos interessantes e cativantes, com praticamente todo o ponto de vista sendo de Rosa.
É por meio dela que conhecemos os demais personagens e nos afeiçoamos a eles, gratuitamente, como o pai Homero (Mautner). E é por meio dela que também suspeitamos de Dado e que encaramos com interesse uma aventura que ela se permite ter com um amigo com quem nutre atração física. Mas o mais importante do que tudo isso talvez seja, mais uma vez, a relação com a mãe, que está com uma doença terminal e passa a se despedir da vida com a paz e a confiança de ter feito tudo o que gostaria de ter feito.
Nota-se, portanto, que COMO NOSSOS PAIS tenta abraçar muitas coisas ao mesmo tempo. Os problemas de Rosa deverão fazer parte de seu amadurecimento para torná-la mais forte. Se por um lado o encadeamento de problemas (e de aventuras e de situações amargas e divertidas) torna o filme muitíssimo agradável de ver, com sua montagem dinâmica, mostra-o como uma obra mais horizontal do que vertical, no sentido de que há pouca coisa a se buscar quando aprofundadas as cenas. Há espaço para muito debate extra-fílmico, a partir dos diversos temas expostos e muito bem-vindos, mas o fato de os personagens já problematizarem suas situações em seus próprios diálogos acaba por diminuir o aprofundamento.
Ainda assim, COMO NOSSOS PAIS é tão agradável e tão cheio de amor que é difícil não gostar, difícil não nutrir simpatia e até empatia pela personagem de Maria Ribeiro. Que, aliás, parece estar interpretando a si mesma, de tão natural que ficou seu papel. Como ela é o centro do filme, isso é um ponto bem positivo. E ponto positivo também para Luiz Bolognesi, esposo de Laís, que contribuiu, junto com a diretora da construção do roteiro. Lembrando que Bolognesi também foi responsável pelo roteiro do ótimo BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende.
segunda-feira, setembro 11, 2017
32 DE AGOSTO NA TERRA (Un 32 Août sur Terre)
Quem é Denis Villeneuve? Não pergunto esperando a resposta mais óbvia sobre o fato de ele ser um diretor canadense surgido nos anos 1990 e que foi ganhando cada vez mais o status de diretor singular. Refiro-me principalmente às suas principais marcas autorais. Acho que ao longo do texto poderemos encontrar essas marcas, mas no momento talvez o ideal seja fazer uma rápida comparação deste 32 DE AGOSTO NA TERRA (1998), de título tão estranho, com suas obras mais recentes e mais ligadas à ficção científica, como A CHEGADA (2016) e o ainda inédito BLADE RUNNER 2049 (2017).
No caso de 32 DE AGOSTO NA TERRA, embora não haja um cenário futurista, temos algo que se aproxima desse tipo de cinema que parece ser frio, mas que esconde camadas complexas de sentimentos profundos. Podemos ver isso no citado A CHEGADA também; assim como no filme-paulada POLYTECHNIQUE (2009), que tenta disfarçar, no modo como é narrado, a dor que aquele massacre gerou em grandes proporções. Já em 32 DE AGOSTO NA TERRA, quando possível, Villeneuve tenta nos apresentar a um quarto de motel que mais parece uma cápsula de uma espaçonave.
Esse tipo de invenção não deixa de ganhar força quando analisamos o filme tendo um conjunto da obra já grandiosa em perspectiva. Assim, por mais que se trate de um trabalho menor, sobre uma história de amor minimalista que teima em fugir dos sentimentalismos, como se o mundo tivesse que ser mesmo frio, o alcance de 32 DE AGOSTO NA TERRA é maior do que o esperado. Na trama, Simone, personagem de Pascale Bussières, resolve mudar de vida depois de um acidente quase fatal. Modelo internacional, larga tudo para fazer algo que considera mais importante naquele momento: ser mãe. Como ela não tem um namorado, quer que o pai biológico seja o seu melhor amigo, Philippe (Alexis Martin).
Até aí tudo bem. Já faz alguns anos que esse tipo de negociação é feita. A questão é que Philippe é apaixonado por Simone. Fazer sexo apenas para gerar um filho passa a ser uma tarefa extremamente complicada, levando em consideração que ele não conseguiria fingir não sentir nada por ela além de um amor de amigo. Assim, Philippe luta contra a frieza da situação. Ou daquele mundo. E, como quase sempre acontece com aqueles que seguem o caminho do coração, ele não se dá bem. É quase como uma Lei de Murphy aplicada aos sentimentais.
Em um de seus trabalhos seguintes, Villeneuve voltará ao pessimismo trágico e irônico da vida moderna, com o impactante INCÊNDIOS (2010), este, mais semelhante a uma tragédia grega. Mas antes de chegar lá, em seu primeiro longa-metragem, ele já trazia uma semente do que viria. A visão amarga da vida o perseguiria nas obras seguintes. Nós, como apreciadores de seu belo trabalho, agradecemos.
No caso de 32 DE AGOSTO NA TERRA, embora não haja um cenário futurista, temos algo que se aproxima desse tipo de cinema que parece ser frio, mas que esconde camadas complexas de sentimentos profundos. Podemos ver isso no citado A CHEGADA também; assim como no filme-paulada POLYTECHNIQUE (2009), que tenta disfarçar, no modo como é narrado, a dor que aquele massacre gerou em grandes proporções. Já em 32 DE AGOSTO NA TERRA, quando possível, Villeneuve tenta nos apresentar a um quarto de motel que mais parece uma cápsula de uma espaçonave.
Esse tipo de invenção não deixa de ganhar força quando analisamos o filme tendo um conjunto da obra já grandiosa em perspectiva. Assim, por mais que se trate de um trabalho menor, sobre uma história de amor minimalista que teima em fugir dos sentimentalismos, como se o mundo tivesse que ser mesmo frio, o alcance de 32 DE AGOSTO NA TERRA é maior do que o esperado. Na trama, Simone, personagem de Pascale Bussières, resolve mudar de vida depois de um acidente quase fatal. Modelo internacional, larga tudo para fazer algo que considera mais importante naquele momento: ser mãe. Como ela não tem um namorado, quer que o pai biológico seja o seu melhor amigo, Philippe (Alexis Martin).
Até aí tudo bem. Já faz alguns anos que esse tipo de negociação é feita. A questão é que Philippe é apaixonado por Simone. Fazer sexo apenas para gerar um filho passa a ser uma tarefa extremamente complicada, levando em consideração que ele não conseguiria fingir não sentir nada por ela além de um amor de amigo. Assim, Philippe luta contra a frieza da situação. Ou daquele mundo. E, como quase sempre acontece com aqueles que seguem o caminho do coração, ele não se dá bem. É quase como uma Lei de Murphy aplicada aos sentimentais.
Em um de seus trabalhos seguintes, Villeneuve voltará ao pessimismo trágico e irônico da vida moderna, com o impactante INCÊNDIOS (2010), este, mais semelhante a uma tragédia grega. Mas antes de chegar lá, em seu primeiro longa-metragem, ele já trazia uma semente do que viria. A visão amarga da vida o perseguiria nas obras seguintes. Nós, como apreciadores de seu belo trabalho, agradecemos.
sábado, setembro 09, 2017
OITO FILMES EXIBIDOS NO FESTIVAL VARILUX 2017
Não é que a edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês tenha sido ruim. Apenas não conseguiu ser tão boa quanto a do ano passado. Ou seja, voltou a ser apenas uma apresentação de filmes medianos que já estão todos (ou quase todos) garantidos para serem exibidos no circuito. Alguns até já foram, inclusive. Eu que demorei demais para falar a respeito e o tempo foi passando. Assim, vamos de pílulas sobre os filmes.
O FILHO URUGUAIO (Une Vie Ailleurs)
Drama sensível sobre maternidade, se sentir amado e ao mesmo tempo carente por se achar órfão, O FILHO URUGUAIO (2017), de Olivier Peyon, é desses filmes tão agradáveis e bonitos quanto pouco memoráveis. Dá para destacar a relação que se estabelece entre o menino e o personagem de Ramzy Bedia, que é o sujeito incumbido de convencer a criança de que ele deve voltar para a sua mãe, que só muito recentemente conseguiu encontrá-lo. A personagem de Isabelle Carré é que deveria ter mais força no conjunto. Ainda assim, sobram belas cenas.
PERDIDOS EM PARIS (Paris Pieds Nus)
Não conhecia e sequer sabia que existia essa dupla de comediantes, Fiona Gordon e Dominique Abel. Achei PERDIDOS EM PARIS (2016) muito bom, principalmente no aspecto formal. Lembra o cinema de Roy Andersson, ainda que menos genial, na comparação. Aliás, talvez a comparação seja um pouco injusta com Abel e Gordon. Gosto muito do trabalho de direção de arte, que é responsável por boa parte da beleza do filme, que se perde um pouco quando entra em cena a terceira personagem (Emmanuelle Riva, em um de seus últimos papéis). Até lá estava bem engraçado.
RODIN
Um filme que só tem duas horas mas parece ter três este RODIN (2017), de Jacques Doillon. Impressionantemente desinteressante, mesmo com um ator da força de um Vincent Lindon à frente do personagem. Tentam dar um ar "de arte", com uns fade outs e uns hiatos temporais e tal, mas não tem jeito. Escapam as modelos e, claro, o trabalho impressionante do artista nesta brincadeira sem graça. No caso, o problema nem é o filme ser quadrado. Se fosse, quem sabe até descesse melhor.
TOUR DE FRANCE
Um bonito filme sobre amizade em meio às diferenças, TOUR DE FRANCE (2016), de Rachid Djaïdani, não tem lá muita coisa nova, mas é bem conduzido, Depardieu está bem, mas quem ganha os holofotes é mesmo o jovem Sadek, um rapper famoso na França. E eu nem sabia que ele era um rapper mesmo. Pode até estar interpretando a si mesmo, mas é preciso talento para fazer com que uma história dessas funcione.
UM INSTANTE DE AMOR (Mal de Pierres)
Gosto de como UM INSTANTE DE AMOR (2016, foto), de Nicole Garcia, tem um olhar feminino (ou pelo menos passa a entender), de modo que tenhamos uma personagem complexa e sempre levada pela paixão, com dificuldade de acompanhar uma vida mais racional. Há quem possa achar isso ruim, não sei, talvez por mostrar uma mulher com pouco controle de seus desejos e de sua mente mesmo, mas pra mim é o que há de melhor no filme. E Marion Cotillard tá muito bem nesse papel. Há uma cena de sexo dela que é sensacional. Não do ponto de vista erótico, mas em como consegue ser, de certa forma, mágica.
UMA FAMÍLIA DE DOIS (Demain Tout Commence)
Mais uma vez o povo querendo se aproveitar da simpatia do Omar Sy para fazer um desses melodramas feitos para agradar a família. UMA FAMÍLIA DE DOIS (2016), de Hugo Gélin, acaba parecendo uma comédia dramática da Disney, dessas que passam na sessão da tarde e a gente esquece logo em seguida. Além do mais, quando é para emocionar não emociona. Na trama, Omar Sy é um sujeito mulherengo que tem sua vida mudada quando lhe é entregue uma filha nascida de uma aventura para que ele cuide.
A VIDA DE UMA MULHER (Une Vie)
É muito sofrimento pra uma mulher só, meu Deus.. As partes mais belas de A VIDA DE UMA MULHER (2016), de Stéphane Brizé, são as das cartas, que denunciam a herança literária do filme, partindo do romance de Maupassant, e que eu infelizmente não li. Mas há coisas que são opções estéticas do diretor que funcionam muito bem para passar a sensação de opressão da protagonista, como o uso da janela 1,33:1. Pena que no cinema que eu fui ver o filme exibiram na janela errada, cortando as partes de cima e de baixo da tela, por pura ignorância.
O REENCONTRO (Sage Femme)
Ótima surpresa este O REENCONTRO (2017), de Martin Provost, que meio que passou em branco durante o Varilux por mim e também não foi levado em consideração como algo além de um filme mediano ou menos do que isso. Muito bonita a relação das duas mulheres. Grande performance, principalmente da Catherine Frot, que interpreta uma mulher que trabalha em um hospital de maternidade que está prestes a fechar. Ela é visitada pela mulher que foi esposa de seu pai, vivida por Catherine Deneuve, que só então fica sabendo que o ex-marido não está mais vivo, além de contar para a filha/enteada sobre seu problema grave de saúde.
O FILHO URUGUAIO (Une Vie Ailleurs)
Drama sensível sobre maternidade, se sentir amado e ao mesmo tempo carente por se achar órfão, O FILHO URUGUAIO (2017), de Olivier Peyon, é desses filmes tão agradáveis e bonitos quanto pouco memoráveis. Dá para destacar a relação que se estabelece entre o menino e o personagem de Ramzy Bedia, que é o sujeito incumbido de convencer a criança de que ele deve voltar para a sua mãe, que só muito recentemente conseguiu encontrá-lo. A personagem de Isabelle Carré é que deveria ter mais força no conjunto. Ainda assim, sobram belas cenas.
PERDIDOS EM PARIS (Paris Pieds Nus)
Não conhecia e sequer sabia que existia essa dupla de comediantes, Fiona Gordon e Dominique Abel. Achei PERDIDOS EM PARIS (2016) muito bom, principalmente no aspecto formal. Lembra o cinema de Roy Andersson, ainda que menos genial, na comparação. Aliás, talvez a comparação seja um pouco injusta com Abel e Gordon. Gosto muito do trabalho de direção de arte, que é responsável por boa parte da beleza do filme, que se perde um pouco quando entra em cena a terceira personagem (Emmanuelle Riva, em um de seus últimos papéis). Até lá estava bem engraçado.
RODIN
Um filme que só tem duas horas mas parece ter três este RODIN (2017), de Jacques Doillon. Impressionantemente desinteressante, mesmo com um ator da força de um Vincent Lindon à frente do personagem. Tentam dar um ar "de arte", com uns fade outs e uns hiatos temporais e tal, mas não tem jeito. Escapam as modelos e, claro, o trabalho impressionante do artista nesta brincadeira sem graça. No caso, o problema nem é o filme ser quadrado. Se fosse, quem sabe até descesse melhor.
TOUR DE FRANCE
Um bonito filme sobre amizade em meio às diferenças, TOUR DE FRANCE (2016), de Rachid Djaïdani, não tem lá muita coisa nova, mas é bem conduzido, Depardieu está bem, mas quem ganha os holofotes é mesmo o jovem Sadek, um rapper famoso na França. E eu nem sabia que ele era um rapper mesmo. Pode até estar interpretando a si mesmo, mas é preciso talento para fazer com que uma história dessas funcione.
UM INSTANTE DE AMOR (Mal de Pierres)
Gosto de como UM INSTANTE DE AMOR (2016, foto), de Nicole Garcia, tem um olhar feminino (ou pelo menos passa a entender), de modo que tenhamos uma personagem complexa e sempre levada pela paixão, com dificuldade de acompanhar uma vida mais racional. Há quem possa achar isso ruim, não sei, talvez por mostrar uma mulher com pouco controle de seus desejos e de sua mente mesmo, mas pra mim é o que há de melhor no filme. E Marion Cotillard tá muito bem nesse papel. Há uma cena de sexo dela que é sensacional. Não do ponto de vista erótico, mas em como consegue ser, de certa forma, mágica.
UMA FAMÍLIA DE DOIS (Demain Tout Commence)
Mais uma vez o povo querendo se aproveitar da simpatia do Omar Sy para fazer um desses melodramas feitos para agradar a família. UMA FAMÍLIA DE DOIS (2016), de Hugo Gélin, acaba parecendo uma comédia dramática da Disney, dessas que passam na sessão da tarde e a gente esquece logo em seguida. Além do mais, quando é para emocionar não emociona. Na trama, Omar Sy é um sujeito mulherengo que tem sua vida mudada quando lhe é entregue uma filha nascida de uma aventura para que ele cuide.
A VIDA DE UMA MULHER (Une Vie)
É muito sofrimento pra uma mulher só, meu Deus.. As partes mais belas de A VIDA DE UMA MULHER (2016), de Stéphane Brizé, são as das cartas, que denunciam a herança literária do filme, partindo do romance de Maupassant, e que eu infelizmente não li. Mas há coisas que são opções estéticas do diretor que funcionam muito bem para passar a sensação de opressão da protagonista, como o uso da janela 1,33:1. Pena que no cinema que eu fui ver o filme exibiram na janela errada, cortando as partes de cima e de baixo da tela, por pura ignorância.
O REENCONTRO (Sage Femme)
Ótima surpresa este O REENCONTRO (2017), de Martin Provost, que meio que passou em branco durante o Varilux por mim e também não foi levado em consideração como algo além de um filme mediano ou menos do que isso. Muito bonita a relação das duas mulheres. Grande performance, principalmente da Catherine Frot, que interpreta uma mulher que trabalha em um hospital de maternidade que está prestes a fechar. Ela é visitada pela mulher que foi esposa de seu pai, vivida por Catherine Deneuve, que só então fica sabendo que o ex-marido não está mais vivo, além de contar para a filha/enteada sobre seu problema grave de saúde.
sexta-feira, setembro 08, 2017
IT - A COISA (It)
Um dos maiores méritos de IT - A COISA (2017), de Andy Muschietti, é conseguir apresentar algumas surpresas bem perturbadoras já a partir de seu prólogo, já que tudo o mais tem uma ambientação retrô, como se os realizadores (o diretor e os roteiristas) quisessem trazer à tona não apenas os anos 1980, mas também o jeito de fazer terror daquela época. Assim, IT acaba se tornando uma das obras mais anacrônicas do gênero, nesse momento em que virou moda celebrar a década das extravagâncias e do neon.
No caso de IT - A COISA, somos lançados ao final da década, os anos 1988-89, o que para mim já é interessante, pois o último ano foi o ano de início de minha cinefilia, e eu fui ao cinema ver alguns daqueles filmes que passavam no cinema da cidadezinha onde o filme é ambientado, entre eles A HORA DO PESADELO 5 - O MAIOR HORROR DE FREDDY, de Stephen Hopkins, que contava com um vilão/monstro tão exageradamente sádico e falastrão quanto o palhaço Pennywise criado por Stephen King.
Na trama de IT, uma série de crianças e adolescentes passa a desaparecer na pequena cidade de Derry. Muitos acreditam que o lugar é amaldiçoado por algo de difícil explicação. Para o espectador, porém, já se sabe que o grande responsável por esses desaparecimentos é o tal palhaço assassino, embora não saibamos a origem do mal.
Um dos pontos bem positivos do filme de Muschietti é trazer simpatia para o grupo de garotinhos perturbados de uma forma ou de outra pelo palhaço e que resolvem, por conta própria, tentar resolver o caso e enfrentar não apenas o monstro, mas principalmente seus próprios medos. Nesse sentido, seus medos também são mostrados no terror da vida real, como em coisas como o pai que abusa da filha e o bullying extremamente violento que sofre o gordinho simpático e amável por um grupo de delinquentes.
Outra coisa que conta pontos a favor é o humor, que aparece nos diálogos espirituosos dos meninos. Inclusive, um deles, por também fazer parte do elenco de STRANGER THINGS, torna a semelhança com a série da Netflix ainda mais explícita. Na verdade, a série é que buscou no romance de Stephen King inspiração. Mas IT prefere seguir um caminho mais tradicional na construção do horror. Tanto que parece às vezes uma paródia de filme de horror, de tão próximo que está das convenções do gênero e dos sustos fáceis com uso de música orquestrada tradicionalmente utilizada em tantos exemplares.
O grupo de garotos encontra na figura de Beverly, uma garotinha ruiva que também sofre bullying na escola (Sophia Lillis, que tem tudo para ser um sucesso), uma espécie de primeira aproximação com o sexo oposto. Há uma cena particularmente bonita, que é quando os meninos vão nadar de cueca e ela aparece em trajes de baixo para nadar com eles no lago para depois tomar um sol.
O sol, aliás, é um elemento que funciona como um alívio em muitas sequências. Várias vezes os meninos estão enfrentando o horror em suas próprias casas, nos esgotos ou na casa assombrada e abandonada da cidade quando saem para o sol. E é como se aquilo os salvasse do perigo. Por isso não só a visão do sol como também a menção ao verão fazem com que esse contraste entre luz e trevas seja um elemento que ajuda a simplificar a dicotomia bem e mal que o filme traz.
Mesmo com o advento de filmes de horror mais complexos e que procura fugir das convenções, não deixa de ser curioso o apelo popular de IT - A COISA para as novas gerações. O filme vem sendo muito bem recebido pelo público, com uma bilheteria que tem lhe garantido o sucesso. Agora é esperar pela adaptação da segunda parte do livro, desta vez com os personagens adultos.
No caso de IT - A COISA, somos lançados ao final da década, os anos 1988-89, o que para mim já é interessante, pois o último ano foi o ano de início de minha cinefilia, e eu fui ao cinema ver alguns daqueles filmes que passavam no cinema da cidadezinha onde o filme é ambientado, entre eles A HORA DO PESADELO 5 - O MAIOR HORROR DE FREDDY, de Stephen Hopkins, que contava com um vilão/monstro tão exageradamente sádico e falastrão quanto o palhaço Pennywise criado por Stephen King.
Na trama de IT, uma série de crianças e adolescentes passa a desaparecer na pequena cidade de Derry. Muitos acreditam que o lugar é amaldiçoado por algo de difícil explicação. Para o espectador, porém, já se sabe que o grande responsável por esses desaparecimentos é o tal palhaço assassino, embora não saibamos a origem do mal.
Um dos pontos bem positivos do filme de Muschietti é trazer simpatia para o grupo de garotinhos perturbados de uma forma ou de outra pelo palhaço e que resolvem, por conta própria, tentar resolver o caso e enfrentar não apenas o monstro, mas principalmente seus próprios medos. Nesse sentido, seus medos também são mostrados no terror da vida real, como em coisas como o pai que abusa da filha e o bullying extremamente violento que sofre o gordinho simpático e amável por um grupo de delinquentes.
Outra coisa que conta pontos a favor é o humor, que aparece nos diálogos espirituosos dos meninos. Inclusive, um deles, por também fazer parte do elenco de STRANGER THINGS, torna a semelhança com a série da Netflix ainda mais explícita. Na verdade, a série é que buscou no romance de Stephen King inspiração. Mas IT prefere seguir um caminho mais tradicional na construção do horror. Tanto que parece às vezes uma paródia de filme de horror, de tão próximo que está das convenções do gênero e dos sustos fáceis com uso de música orquestrada tradicionalmente utilizada em tantos exemplares.
O grupo de garotos encontra na figura de Beverly, uma garotinha ruiva que também sofre bullying na escola (Sophia Lillis, que tem tudo para ser um sucesso), uma espécie de primeira aproximação com o sexo oposto. Há uma cena particularmente bonita, que é quando os meninos vão nadar de cueca e ela aparece em trajes de baixo para nadar com eles no lago para depois tomar um sol.
O sol, aliás, é um elemento que funciona como um alívio em muitas sequências. Várias vezes os meninos estão enfrentando o horror em suas próprias casas, nos esgotos ou na casa assombrada e abandonada da cidade quando saem para o sol. E é como se aquilo os salvasse do perigo. Por isso não só a visão do sol como também a menção ao verão fazem com que esse contraste entre luz e trevas seja um elemento que ajuda a simplificar a dicotomia bem e mal que o filme traz.
Mesmo com o advento de filmes de horror mais complexos e que procura fugir das convenções, não deixa de ser curioso o apelo popular de IT - A COISA para as novas gerações. O filme vem sendo muito bem recebido pelo público, com uma bilheteria que tem lhe garantido o sucesso. Agora é esperar pela adaptação da segunda parte do livro, desta vez com os personagens adultos.
quinta-feira, setembro 07, 2017
TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL
Não só TWIN PEAKS - THE RETURN borrou a fronteira entre cinema e televisão no Festival de Cannes deste ano. TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL (2017), a continuação da série com cara de minissérie de 2013, criada por Jane Campion e Gerard Lee, foi recebida com muito carinho por boa parte da crítica e do público, ainda que sua repercussão tenha sido muito mais discreta. Mais uma razão para que divulguemos este trabalho tão bonito e tão cheio de momentos de emoções intensas.
Antes de mais nada, em comparação com a primeira história de TOP OF THE LAKE, passada na Nova Zelândia, e que mais parecia uma espécie de TWIN PEAKS sem o surrealismo, ao tratar da investigação de uma menina de 12 anos em uma cidade cheia de agressores, a nova temporada é muito superior. O engajamento pesado contra a misoginia parece ainda mais intensificado. Ou talvez seja impressão somada com as experiências trazidas pela personagem nos eventos da primeira temporada.
Esse machismo, em TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL, principalmente no começo, parece ainda mais pesado. A impressão que temos é que não há homem algum que preste naquele lugar, a não ser o amigo gay que trabalho no necrotério. E por ser gay, ainda por cima. Isso faz com que muitos dos personagens e dessas situações de machismo pareçam um bocado acima do tom, talvez exageradas.
Felizmente, as coisas ganham um equilíbrio considerável ao longo da narrativa. Até pela figura do personagem do pai adotivo da filha biológica da detetive Robin (Elisabeth Moss). O sujeito é vivido por Ewen Leslie e já passa um ar de homem compreensivo: a esposa (Nicole Kidman) o deixou para ficar com outra mulher e ele aceita essa situação exercitando seu equilíbrio emocional.
Mais uma vez, a série trata de maternidade, mas de maneira ainda mais intensa, já que a própria personagem de Moss está vivenciando o fato de finalmente conhecer a filha adotiva que deu para adoção quase que imediatamente, depois de ter engravidado em um estupro coletivo. Agora a menina, Mary, de quase 18 anos, vivida com brilho por Alice Englert (filha de Campion), está envolvida com um cafetão sinistro que, ainda por cima, tem umas ideias loucas de colocá-la também como as outras que trabalham no prostíbulo, para que ela não se sinta superior, ou coisa do tipo. É assustador a coisa.
Aliás, o tal personagem do namorado de Mary, apelidado de 'Puss', é destaque na série. Perturbadora e intensa interpretação do sueco David Dencik. Há uma cena na praia, com ele e Robin, que parece saída de um filme de horror. Justamente por causa de tantas situações pesadas, há momentos em que o coração não aguenta. E somos levados a nos emocionar bastante com algumas cenas de deixar o coração entalado na garganta, como na cena do primeiro encontro de Robin com Mary, em uma lanchonete. Quando as duas param para fumar um cigarro do lado de fora e conversar um pouco, o grau de sensibilidade explorado é de arrepiar.
Ao que parece teria mesmo que ser uma mulher de talento e sensibilidade como Campion para tratar de maneira tão delicada essa relação complicada entre uma filha que poderia muito bem se sentir rejeitada pela mãe biológica (e que não se relaciona nada bem com a mãe adotiva) e a mãe biológica que se sente afeiçoada imediatamente àquela filha que ela largou por circunstâncias bastante incômodas, para usar de eufemismo.
E eu nem cheguei a falar da trama policial, envolvendo o caso do corpo de uma garotinha asiática grávida que é encontrada dentro de uma mala. Descobre-se no segundo episódio que o feto não tem o DNA da garota, sendo que ela agia como barriga de aluguel. Eis que a narrativa também trata desse tema: o dos casais que desejam muito ter filhos e apelam para pagar meninas pobres para passar pelo processo de gravidez e poder ficar com a criança.
TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL até pode ter os seus problemas - e boa parte deles aparece justamente no último episódio -, mas é certamente dessas séries (ou minisséries) que merecem ser vistas por uma série de motivos: pela temática, pelas excelentes interpretações (principalmente de Moss, mas também da jovem Englert), pela participação especial de Nicole Kidman (que poderia ser maior e mais brilhante, é verdade), e pela sensibilidade toda especial com que trata situações de ordem familiar e afetiva.
Antes de mais nada, em comparação com a primeira história de TOP OF THE LAKE, passada na Nova Zelândia, e que mais parecia uma espécie de TWIN PEAKS sem o surrealismo, ao tratar da investigação de uma menina de 12 anos em uma cidade cheia de agressores, a nova temporada é muito superior. O engajamento pesado contra a misoginia parece ainda mais intensificado. Ou talvez seja impressão somada com as experiências trazidas pela personagem nos eventos da primeira temporada.
Esse machismo, em TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL, principalmente no começo, parece ainda mais pesado. A impressão que temos é que não há homem algum que preste naquele lugar, a não ser o amigo gay que trabalho no necrotério. E por ser gay, ainda por cima. Isso faz com que muitos dos personagens e dessas situações de machismo pareçam um bocado acima do tom, talvez exageradas.
Felizmente, as coisas ganham um equilíbrio considerável ao longo da narrativa. Até pela figura do personagem do pai adotivo da filha biológica da detetive Robin (Elisabeth Moss). O sujeito é vivido por Ewen Leslie e já passa um ar de homem compreensivo: a esposa (Nicole Kidman) o deixou para ficar com outra mulher e ele aceita essa situação exercitando seu equilíbrio emocional.
Mais uma vez, a série trata de maternidade, mas de maneira ainda mais intensa, já que a própria personagem de Moss está vivenciando o fato de finalmente conhecer a filha adotiva que deu para adoção quase que imediatamente, depois de ter engravidado em um estupro coletivo. Agora a menina, Mary, de quase 18 anos, vivida com brilho por Alice Englert (filha de Campion), está envolvida com um cafetão sinistro que, ainda por cima, tem umas ideias loucas de colocá-la também como as outras que trabalham no prostíbulo, para que ela não se sinta superior, ou coisa do tipo. É assustador a coisa.
Aliás, o tal personagem do namorado de Mary, apelidado de 'Puss', é destaque na série. Perturbadora e intensa interpretação do sueco David Dencik. Há uma cena na praia, com ele e Robin, que parece saída de um filme de horror. Justamente por causa de tantas situações pesadas, há momentos em que o coração não aguenta. E somos levados a nos emocionar bastante com algumas cenas de deixar o coração entalado na garganta, como na cena do primeiro encontro de Robin com Mary, em uma lanchonete. Quando as duas param para fumar um cigarro do lado de fora e conversar um pouco, o grau de sensibilidade explorado é de arrepiar.
Ao que parece teria mesmo que ser uma mulher de talento e sensibilidade como Campion para tratar de maneira tão delicada essa relação complicada entre uma filha que poderia muito bem se sentir rejeitada pela mãe biológica (e que não se relaciona nada bem com a mãe adotiva) e a mãe biológica que se sente afeiçoada imediatamente àquela filha que ela largou por circunstâncias bastante incômodas, para usar de eufemismo.
E eu nem cheguei a falar da trama policial, envolvendo o caso do corpo de uma garotinha asiática grávida que é encontrada dentro de uma mala. Descobre-se no segundo episódio que o feto não tem o DNA da garota, sendo que ela agia como barriga de aluguel. Eis que a narrativa também trata desse tema: o dos casais que desejam muito ter filhos e apelam para pagar meninas pobres para passar pelo processo de gravidez e poder ficar com a criança.
TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL até pode ter os seus problemas - e boa parte deles aparece justamente no último episódio -, mas é certamente dessas séries (ou minisséries) que merecem ser vistas por uma série de motivos: pela temática, pelas excelentes interpretações (principalmente de Moss, mas também da jovem Englert), pela participação especial de Nicole Kidman (que poderia ser maior e mais brilhante, é verdade), e pela sensibilidade toda especial com que trata situações de ordem familiar e afetiva.
segunda-feira, setembro 04, 2017
TWIN PEAKS - THE RETURN
Nesta madrugada, enquanto eu via o sensacional episódio final de TWIN PEAKS - THE RETURN (2017), eu ouvia os ventos da madrugada soprando forte, meio que construindo uma trilha sonora incidental/acidental junto aos silêncios das cenas, e dando um ar ainda mais misterioso àquele momento tão especial. Principalmente em um cena em particular: a que mostra o Agente Dale Cooper num carro com Laura Palmer/Carrie Page. Eles estão em silêncio na escuridão de uma estrada que vai levar a Twin Peaks. Em determinado ponto, um carro parece estar seguindo os dois. E a câmera muda de perspectiva para a lateral do carro deles, apontando para a escuridão do banco de trás. O medo de que alguma coisa muito terrível brotasse dali tomou conta de mim. Mas a sensação de maravilhamento supera os medos, como sempre, nos trabalhos de Lynch.
Muito injusto falar deste acontecimento tão especial e tão cheio de nuances de cenas antológicas e outras que merecem ser revistas para serem melhor apreciadas e entendidas, também pela excelência da direção de arte e de tudo o mais que faz com que TWIN PEAKS - O RETORNO seja o trabalho do diretor que mais se aproxima de uma pintura, inclusive com várias cenas que remetem aos quadros e a seus primeiros curtas-metragens. Para alguns, os efeitos especiais até vão parecer toscos, mas tudo ali é feito com total consciência.
Pode até ser injusto falar em tão poucas linhas da mais significativa produção audiovisual do ano - e provavelmente da década -, mas, pra mim, isso se faz necessário, principalmente se queremos estender essa experiência maravilhosa que foram as semanas em que as segundas-feiras se tornaram o melhor dia da semana. Podemos começar, então, falando das expectativas do retorno de TWIN PEAKS, depois de todo esse tempo. Mesmo sabendo que Lynch é craque em frustrar as expectativas da audiência. Mas para fazer algo melhor e revolucionário.
Assim, TWIN PEAKS - O RETORNO começa com quase nada de Twin Peaks, a cidadezinha fictícia que se tornou célebre em todo o mundo. Demoramos a ver os personagens, eles aparecem muito rapidamente em cenas muitas vezes fragmentadas. Aos poucos percebemos que a importância deles será diminuída nesta nova encarnação da série. O humor, ainda que exista, principalmente na figura de Dougie, o doppelgänger que representa a inocência e a pureza dentro de um mundo em que impera a maldade, é diminuído, em comparação com a série clássica.
Dougie é um personagem que é praticamente odiado pela audiência, já que é dentro dele que está preso o espírito de Dale Cooper, nosso herói e único protagonista de verdade da série. Tanto que o nome de Kyle MacLachlan é o único nome que aparece em destaque nos créditos. Os demais aparecem pequeninos, em ordem alfabética, sendo necessário apertar o botão de pause para que possamos ler com atenção o "quem é quem". Como alguns atores e atrizes da série clássica (ou do filme, no caso de David Bowie) morreram durante ou muito antes da série ser finalizada, há vários episódios dedicados à memória deles e delas. O mais bonito, certamente, é o episódio dedicado à Senhora do Tronco Margaret Lanterman (a atriz Catherine E. Coulson, que sofria de doença terminal quando gravou as cenas).
Alguns dizem que TWIN PEAKS - O RETORNO não é uma série, mas um filme dividido em 18 partes. O próprio Lynch parece ter dito algo parecido. Mas a verdade é que talvez não seja nenhuma coisa nem outra. Ou talvez seja as duas coisas, já que, embora haja alguns ganchos, cada episódio tem uma cara própria, uma mensagem própria, por assim dizer. Peguemos um episódio revolucionário como o oitavo, que certamente será estudado por muito estudiosos de cinema e de outras artes como um exemplo de tudo que não se esperaria de uma série de televisão, entre outras ousadias e belezas. Além de ser grandioso na abordagem do grande tema da série, que é a criação e a disseminação do mal na humanidade.
Esse mal aparece na figura de vários homens extremamente violentos e no modo como as mulheres são vistas constantemente molestadas e violentadas por eles. Aliás, a questão da mulher na série é um assunto bem delicado e um dos que mais incomodou a alguns espectadores. Falta uma personagem feminina forte nesta nova roupagem de TWIN PEAKS. Antes havia uma galeria delas, em especial Audrey (Sherilyn Fenn). E o que vemos de Audrey na série é algo muito doloroso de ver. Doloroso e perturbador.
A própria ideia - que se confirma - de que Richard, o filho psicopata de Audrey, teria sido gerado pelo demônio BOB no domínio do corpo de Cooper enquanto ela estava em estado de coma é horrível de pensar. Mas a série vai mais além neste quesito, ao falar também do estupro que esse bad Cooper, também chamado de Mr. C, teria cometido a Diane (Laura Dern).
Uma vez que a série termina, a vontade que temos é de ver tudo de novo. Quanto às canções, excelentes, elas são parte integrante das emoções e de algumas cenas memoráveis desta nova encarnação de TWIN PEAKS. A maior parte delas acontece em um bar chamado The Roadhouse. Nele, vemos passar por nossos olhos e ouvidos artistas como Nine Inch Nails, Eddie Vedder, Lissie, Trouble, Chromatics, Rebekah Del Rio, entre outros. É o caso de ficar de olho também na deliciosa trilha sonora.
Porém, curiosamente, a música, por mais que apareça sempre nos episódios, é muito discreta e econômica ao longo da trama. Aqui, Lynch e Mark Frost (é sempre bom lembrar que ele é um dos criadores e corroteiristas) preferem os silêncios que funcionam para dar um ar de gravidade à maioria das cenas. O espaçamento de segundos entre uma fala e outra de um diálogo, por exemplo, principalmente quando está em cena Gordon (o próprio Lynch), é parte da graça da série, e torna a música de Angelo Badalamenti, se um pouco ausente, mais valorizada quando surge - na segunda temporada da série os produtores usavam um dos temas principais de maneira abusiva, o tempo todo. Assim, o momento em que ela aparece com mais emoção é no retorno definitivo de Cooper. Os fãs em todo o mundo devem ter vibrado e enchido seus corações de muito amor.
Mas Lynch não é um diretor que quer fazer um final convencional. Principalmente o Lynch que já passou por obras que desafiaram as noções do espaço e do tempo cronológico, como ESTRADA PERDIDA (1997), CIDADE DOS SONHOS (2001), RABBITS (2002) e IMPÉRIO DOS SONHOS (2007). Assim, o que menos se poderia esperar deste retorno de TWIN PEAKS seria todo o elenco abraçado e comemorando com alegria a vitória contra as forças do mal, por mais que tenhamos assistido, sim, algumas vitórias muito bonitas. E outras, que parece que vão funcionar, mas não ocorrem como planejado, como é o caso da viagem no tempo de Cooper, para o ano de 1989, poucos momentos antes da morte de Laura Palmer. Cenas sensacionais, aliás.
Em vez disso, somos lançados a um território ainda mais perturbador, em que a própria noção de identidade passa a ser questionada. Uma coisa é vermos isso em um longa-metragem, como ESTRADA PERDIDA ou CIDADE DOS SONHOS. Outra é vermos personagens que nos apegamos ao longo de décadas passar por algo parecido. Lynch, nosso malvado favorito, mestre dos sonhos e senhor do medo e da beleza no bizarro conseguiu de novo. A este senhor eu deixo meu muito obrigado. É graças a pessoas como ele que o ser humano consegue transcender não só sua mortalidade, como também as noções de criatividade e invenção.
domingo, setembro 03, 2017
DAVID LYNCH - A VIDA DE UM ARTISTA (David Lynch - The Art Life)
Um timing perfeito o da chegada do documentário DAVID LYNCH - A VIDA DE UM ARTISTA (2016) aos cinemas. Atualmente, o cineasta anda sendo incensado à categoria de um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos, principalmente pela nova revolução que ele vem mostrando com TWIN PEAKS - THE RETURN (2017), que é, entre outras coisas, uma síntese de toda sua carreira, inclusive de seu período pré-cinema, como pintor, ou quando resolve experimentar pinturas que se movem, o que o levou ao cinema.
Um dos grandes acertos dos diretores Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm foi ter conseguido fazer um documentário que é a cara de seu objeto de estudo. Ou seja, embora possa parecer às vezes um documentário tradicional, com muita fala de David Lynch sobre sua infância, juventude, fatos inusitados de sua vida e arte, isso é contado com um uso de uma música (muitas delas compostas pelo próprio Lynch) e de um som que funcionam como objetos lynchianos perfeitos para o documentário.
Há também um interesse especial por situações surreais na vida de Lynch, como algumas lembranças que ele tem da infância, como a de uma mulher andando completamente nua na rua com sangue saindo pela boca. No geral, porém, não parece haver muitos motivos em sua vida para que o artista tenha preferido adotar esse gosto pelo bizarro e pela violência com humor, que caracterizaria boa parte de sua obra. Inclusive, sua infância parece ser tão perfeita quanto são as cidades que ele aborda, quando vistas de maneira superficial. É assim em TWIN PEAKS (1990-1991); é assim em VELUDO AZUL (1986) etc.
A emulação do jeito Lynch de ser está presente em outras situações e momentos do documentário, como quando há uma exploração do humor retirado da vida real: a primeira experiência com a maconha, ou a visita do pai à sua oficina artística (o conselho do pai: "Não tenha filhos", ao acreditar que o filho é mentalmente doente, é hilário). O que vemos em seus quadros belamente sinistros é uma espécie de sublimação de seu lado mais sombrio através da arte. Sem falar no quanto esses quadros são familiares a quem acompanha a obra cinematográfica e televisiva de Lynch. Explora-se também, nos monólogos, os silêncios, que são tão caros ao cineasta, com sua fala característica.
Quem procura em DAVID LYNCH - A VIDA DE UM ARTISTA uma espécie de compêndio de suas obras cinematográficas, como foram DE PALMA, OZUALDO CANDEIAS E O CINEMA e JIA ZHANG-KE, UM HOMEM DE FENYANG, para citar três exemplos recentes, pode sair um tanto decepcionado do cinema. Então, é bom que o espectador já saiba que estará diante de um Lynch anterior a ERASERHEAD (1977), ainda que vejamos um pouco dos bastidores do primeiro longa-metragem do cineasta, visto por ele como uma das melhores e mais belas coisas que ele já fez. Deste modo, é possível sair bastante satisfeito com o que acabou de ver.
Um dos grandes acertos dos diretores Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm foi ter conseguido fazer um documentário que é a cara de seu objeto de estudo. Ou seja, embora possa parecer às vezes um documentário tradicional, com muita fala de David Lynch sobre sua infância, juventude, fatos inusitados de sua vida e arte, isso é contado com um uso de uma música (muitas delas compostas pelo próprio Lynch) e de um som que funcionam como objetos lynchianos perfeitos para o documentário.
Há também um interesse especial por situações surreais na vida de Lynch, como algumas lembranças que ele tem da infância, como a de uma mulher andando completamente nua na rua com sangue saindo pela boca. No geral, porém, não parece haver muitos motivos em sua vida para que o artista tenha preferido adotar esse gosto pelo bizarro e pela violência com humor, que caracterizaria boa parte de sua obra. Inclusive, sua infância parece ser tão perfeita quanto são as cidades que ele aborda, quando vistas de maneira superficial. É assim em TWIN PEAKS (1990-1991); é assim em VELUDO AZUL (1986) etc.
A emulação do jeito Lynch de ser está presente em outras situações e momentos do documentário, como quando há uma exploração do humor retirado da vida real: a primeira experiência com a maconha, ou a visita do pai à sua oficina artística (o conselho do pai: "Não tenha filhos", ao acreditar que o filho é mentalmente doente, é hilário). O que vemos em seus quadros belamente sinistros é uma espécie de sublimação de seu lado mais sombrio através da arte. Sem falar no quanto esses quadros são familiares a quem acompanha a obra cinematográfica e televisiva de Lynch. Explora-se também, nos monólogos, os silêncios, que são tão caros ao cineasta, com sua fala característica.
Quem procura em DAVID LYNCH - A VIDA DE UM ARTISTA uma espécie de compêndio de suas obras cinematográficas, como foram DE PALMA, OZUALDO CANDEIAS E O CINEMA e JIA ZHANG-KE, UM HOMEM DE FENYANG, para citar três exemplos recentes, pode sair um tanto decepcionado do cinema. Então, é bom que o espectador já saiba que estará diante de um Lynch anterior a ERASERHEAD (1977), ainda que vejamos um pouco dos bastidores do primeiro longa-metragem do cineasta, visto por ele como uma das melhores e mais belas coisas que ele já fez. Deste modo, é possível sair bastante satisfeito com o que acabou de ver.
sexta-feira, setembro 01, 2017
LADY MACBETH
Depois de tantos anos de opressão do patriarcado, é natural que, agora que está havendo uma explosão de embates entre feministas e grupos conservadores e machistas, alguns filmes sobre a libertação feminina despontem. Nesse sentido, um dos grandes destaques recentes partiu do gênero horror, com o ótimo A BRUXA, de Robert Eggars, trazendo uma aliança com o satanismo, por mais que isso possa provocar algum estranhamento. Um outro partiu dos blockbusters de super-heróis: MULHER-MARAVILHA, de Patty Jenkins.
Embora haja uma série de outros títulos que prefiram apontar o dedo para situações de sofrimento intenso da mulher, como são os casos de A VIDA DE UMA MULHER, de Stéphane Brizé, e de FACES DE UMA MULHER, de Arnaud des Pallières, para citar exemplos recentes, há outros filmes - uma minoria, é verdade - que preferem seguir por outro caminho. E podemos dizer que o caminho seguido por LADY MACBETH (2016), primeiro longa-metragem de William Oldroyd, é no mínimo desconcertante.
Baseado no romance Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, do escritor russo Nikolai Leskov, o filme acompanha a história da jovem Katherine (a ótima Florence Pugh), que é vendida pela família e passar a viver um casamento de conveniência com um homem rude e de comportamento doentio. É um homem que parece não saber dar conta da bela esposa que tem, e que deseja que ela fique enclausurada dentro de casa, lendo um livro de orações. “Mas eu prefiro o ar fresco”, diz a jovem, ainda que seja sempre recebida de forma desrespeitosa pelo marido.
Sua vida muda quando ela encontra um serviçal da família, um homem de pele escura chamado Sebastian (Cosmo Jarvis), que até pode não ser o melhor dos homens, como dá a entender pelo modo como trata a empregada/escrava da casa, Anna (Naomi Ackie), mas, comparado ao marido, trata-se de uma promessa de felicidade, como diria Caetano Veloso, para a jovem e carente Katherine.
Mas engana-se quem pensa que as ousadias de Katherine se resumirão apenas às infidelidades, às transas na cama da casa, enquanto o marido e o sogro estão fora. Essas infidelidades, aliás, são inicialmente mostradas como um elemento bastante libertador e agradável, ao mesmo tempo que também funciona como uma espécie de desforra. No entanto, a jovem mulher acaba por repetir nos demais as ações de repressão e violência por ela sofridas. E de maneira ainda mais brutal.
O diretor Oldroyd trata seu filme como uma pintura, com o capricho de quem quer causar maravilhamento em nosso olhar. E funciona que é uma beleza. Mesmo quando serve para atenuar os crimes cometidos em nome dos caprichos e das vontades de Katherine, em sua busca por algo próximo de uma vida ideal, perto do homem que ama. O uso dos silêncios e de uma ausência de maiores sentimentalismos torna o filme uma experiência especial.
Embora haja uma série de outros títulos que prefiram apontar o dedo para situações de sofrimento intenso da mulher, como são os casos de A VIDA DE UMA MULHER, de Stéphane Brizé, e de FACES DE UMA MULHER, de Arnaud des Pallières, para citar exemplos recentes, há outros filmes - uma minoria, é verdade - que preferem seguir por outro caminho. E podemos dizer que o caminho seguido por LADY MACBETH (2016), primeiro longa-metragem de William Oldroyd, é no mínimo desconcertante.
Baseado no romance Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, do escritor russo Nikolai Leskov, o filme acompanha a história da jovem Katherine (a ótima Florence Pugh), que é vendida pela família e passar a viver um casamento de conveniência com um homem rude e de comportamento doentio. É um homem que parece não saber dar conta da bela esposa que tem, e que deseja que ela fique enclausurada dentro de casa, lendo um livro de orações. “Mas eu prefiro o ar fresco”, diz a jovem, ainda que seja sempre recebida de forma desrespeitosa pelo marido.
Sua vida muda quando ela encontra um serviçal da família, um homem de pele escura chamado Sebastian (Cosmo Jarvis), que até pode não ser o melhor dos homens, como dá a entender pelo modo como trata a empregada/escrava da casa, Anna (Naomi Ackie), mas, comparado ao marido, trata-se de uma promessa de felicidade, como diria Caetano Veloso, para a jovem e carente Katherine.
Mas engana-se quem pensa que as ousadias de Katherine se resumirão apenas às infidelidades, às transas na cama da casa, enquanto o marido e o sogro estão fora. Essas infidelidades, aliás, são inicialmente mostradas como um elemento bastante libertador e agradável, ao mesmo tempo que também funciona como uma espécie de desforra. No entanto, a jovem mulher acaba por repetir nos demais as ações de repressão e violência por ela sofridas. E de maneira ainda mais brutal.
O diretor Oldroyd trata seu filme como uma pintura, com o capricho de quem quer causar maravilhamento em nosso olhar. E funciona que é uma beleza. Mesmo quando serve para atenuar os crimes cometidos em nome dos caprichos e das vontades de Katherine, em sua busca por algo próximo de uma vida ideal, perto do homem que ama. O uso dos silêncios e de uma ausência de maiores sentimentalismos torna o filme uma experiência especial.
quarta-feira, agosto 30, 2017
GAME OF THRONES - A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Game of Thrones - The Complete Seventh Season)
Uma pena que o ritmo mais agitado desta sétima temporada de GAME OF THRONES (2017) não tenha contribuído para que a série mantivesse a sua classe, na construção dos bons diálogos e da intriga política que faz com que a dança de cadeiras de poder seja não só interessante, como também intrigante. Infelizmente, a sétima temporada aproximou a série de uma aventura trash menos saborosa do que algumas temporadas de TRUE BLOOD, só para citar uma série vagabunda com estilo.
GAME OF THRONES foi ganhando uma popularidade tão grande ao longo dos anos que se tornou um ponto de encontro de muita gente em bares para assistir o episódio inédito, exibido simultaneamente no mesmo dia em muitos lares do mundo. Inclusive, essa popularidade fez com que a nudez e a violência gráfica, que eram marca das primeiras temporadas, deixassem de ser itens essenciais para chamar a atenção da audiência. Os próprios personagens e a trama em si já haviam ganhado o público.
Mas uma série de situações mal desenvolvidas afetou terrivelmente esta sétima temporada, que se caracterizou pela pressa e pela falta de noção espacial e temporal, e pelo mau cuidado com a direção e com o roteiro também. Para completar, a tendência da série atualmente é, agora que os núcleos estão cada vez mais diminutos, partir para a tal batalha contra os mortos-vivos, personagens que só empolgam os fãs de carteirinha da série mesmo, pois vilões de verdade, desses de deixar o sangue intoxicado de raiva, já passaram vários ao longo da série.
O primeiro episódio começa com empolgação, com Arya conseguindo se vingar de alguns de seus inimigos da lista negra usando a metodologia das máscaras da temporada passada, e partindo pra cima, agora toda poderosa e cheia de força. A intenção é matar Cersei. Mas, como ela sabe que seu irmão Jon Snow é agora rei do Norte, ela resolve fazer uma visitinha aos patrulheiros, sem saber também que lá já se encontravam dois de seus irmãos. Sim, os Starks finalmente se juntaram, depois de tanto sofrimento e perda.
Mas o que marca esta sétima temporada mesmo é finalmente o encontro de Daenerys com Jon Snow, uma reunião que muita gente acreditava que poderia rolar romance. E de fato rola. O problema é que não há um ritmo apropriado para que o tal romance entre os dois carregue o mínimo de tensão inicial antes de começar. Isso é ruim. De todo modo, são dois personagens queridos e tidos como heróis pelos espectadores, ainda que Daenerys consiga ser capaz de fazer coisas bem malvadas quando quer. Sem falar nessa irritante mania de querer que as pessoas se ajoelhem a ela, a toda poderosa.
A desculpa do encontro dos dois nem é bem uma desculpa, mas algo praticamente inevitável para a série: a união dos dois grupos para que juntos possam combater o tal exército dos mortos que está prestes a derrubar a muralha e penetrar no mundo dos vivos. E isso acaba gerando o que talvez seja o pior episódio da série: o penúltimo desta temporada, que mostra um grupo preparado para caçar um morto-vivo. Faltou ao roteiro uma melhor estruturação para que as situações, seja de ação, seja de diálogo, acontecessem. E isso resulta na possibilidade de que a oitava e última temporada seja a mais fraca de todas. Mas tomara que não. Tomara que eles consigam superar a má fase e surpreender novamente.
GAME OF THRONES foi ganhando uma popularidade tão grande ao longo dos anos que se tornou um ponto de encontro de muita gente em bares para assistir o episódio inédito, exibido simultaneamente no mesmo dia em muitos lares do mundo. Inclusive, essa popularidade fez com que a nudez e a violência gráfica, que eram marca das primeiras temporadas, deixassem de ser itens essenciais para chamar a atenção da audiência. Os próprios personagens e a trama em si já haviam ganhado o público.
Mas uma série de situações mal desenvolvidas afetou terrivelmente esta sétima temporada, que se caracterizou pela pressa e pela falta de noção espacial e temporal, e pelo mau cuidado com a direção e com o roteiro também. Para completar, a tendência da série atualmente é, agora que os núcleos estão cada vez mais diminutos, partir para a tal batalha contra os mortos-vivos, personagens que só empolgam os fãs de carteirinha da série mesmo, pois vilões de verdade, desses de deixar o sangue intoxicado de raiva, já passaram vários ao longo da série.
O primeiro episódio começa com empolgação, com Arya conseguindo se vingar de alguns de seus inimigos da lista negra usando a metodologia das máscaras da temporada passada, e partindo pra cima, agora toda poderosa e cheia de força. A intenção é matar Cersei. Mas, como ela sabe que seu irmão Jon Snow é agora rei do Norte, ela resolve fazer uma visitinha aos patrulheiros, sem saber também que lá já se encontravam dois de seus irmãos. Sim, os Starks finalmente se juntaram, depois de tanto sofrimento e perda.
Mas o que marca esta sétima temporada mesmo é finalmente o encontro de Daenerys com Jon Snow, uma reunião que muita gente acreditava que poderia rolar romance. E de fato rola. O problema é que não há um ritmo apropriado para que o tal romance entre os dois carregue o mínimo de tensão inicial antes de começar. Isso é ruim. De todo modo, são dois personagens queridos e tidos como heróis pelos espectadores, ainda que Daenerys consiga ser capaz de fazer coisas bem malvadas quando quer. Sem falar nessa irritante mania de querer que as pessoas se ajoelhem a ela, a toda poderosa.
A desculpa do encontro dos dois nem é bem uma desculpa, mas algo praticamente inevitável para a série: a união dos dois grupos para que juntos possam combater o tal exército dos mortos que está prestes a derrubar a muralha e penetrar no mundo dos vivos. E isso acaba gerando o que talvez seja o pior episódio da série: o penúltimo desta temporada, que mostra um grupo preparado para caçar um morto-vivo. Faltou ao roteiro uma melhor estruturação para que as situações, seja de ação, seja de diálogo, acontecessem. E isso resulta na possibilidade de que a oitava e última temporada seja a mais fraca de todas. Mas tomara que não. Tomara que eles consigam superar a má fase e surpreender novamente.
segunda-feira, agosto 28, 2017
MARTIN
Como se não bastasse criar todo um conceito que seria seguido por gerações e gerações, que é o conceito dos zumbis como o conhecemos hoje, ocorrido em A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (1968), o gigante George A. Romero ainda procurou reinventar o filme de vampiros com MARTIN (1978), em que somos apresentados a uma versão mais realista de um chupador de sangue que vive durante muitos anos de sangue humano. A diferença aqui é que o jovem de 84 anos e com aparência de adolescente do título, vivido por John Amplas, não se encaixa no estilo gótico dos vampiros anteriormente vistos e nascidos do folclore do leste europeu e popularizados pela literatura e depois pelo cinema.
Martin não dispõe de dentes caninos prontos para abocanhar facilmente os pescoços de suas vítimas, preferencialmente mulheres. Sua metodologia: usa uma injeção para fazer as vítimas dormirem e em seguida corta os pulsos delas para beber-lhes o sangue. Há, no meio disso, uma satisfação sexual, ao despir a vítima e despir-se também. Mais adiante, ele conta que nunca conseguiu fazer sexo com alguém que estivesse acordada.
MARTIN se destaca pela crueza no estilo, pela fotografia sem filtros e também por um conjunto de interpretações amadoras, mas que funcionam bem no intuito de dar à obra um caráter de estranheza que também se percebe em alguns trabalhos de diretores que lidam com não-atores para a construção de sua dramaturgia. Na verdade, não é muito diferente do que já estávamos acostumados a ver em outros filmes de Romero.
Há também uma série de possibilidades que MARTIN oferece ao espectador, como o fato de o garoto ser ou não um vampiro, e de haver um tratamento em relação à sua personalidade que varia da ternura (vinda de sua expressão de quase inocência no olhar) à imagem de alguém digno de ser de fato encarado como um mal a ser extirpado, como crê o primo que o abriga, mesmo contra sua vontade, em sua casa.
O que deixa o espectador um pouco encucado com o filme talvez seja justamente essa estranheza. É um filme de horror que se passa boa parte do tempo durante o dia, e que muito se assemelha a um drama sobre a falta de pertencimento de um jovem na sociedade. Mas não deixa de fazer falta mais cenas de tensão em que Martin se vê preocupado em ser pego quando tenta executar um de seus atos.
Martin não dispõe de dentes caninos prontos para abocanhar facilmente os pescoços de suas vítimas, preferencialmente mulheres. Sua metodologia: usa uma injeção para fazer as vítimas dormirem e em seguida corta os pulsos delas para beber-lhes o sangue. Há, no meio disso, uma satisfação sexual, ao despir a vítima e despir-se também. Mais adiante, ele conta que nunca conseguiu fazer sexo com alguém que estivesse acordada.
MARTIN se destaca pela crueza no estilo, pela fotografia sem filtros e também por um conjunto de interpretações amadoras, mas que funcionam bem no intuito de dar à obra um caráter de estranheza que também se percebe em alguns trabalhos de diretores que lidam com não-atores para a construção de sua dramaturgia. Na verdade, não é muito diferente do que já estávamos acostumados a ver em outros filmes de Romero.
Há também uma série de possibilidades que MARTIN oferece ao espectador, como o fato de o garoto ser ou não um vampiro, e de haver um tratamento em relação à sua personalidade que varia da ternura (vinda de sua expressão de quase inocência no olhar) à imagem de alguém digno de ser de fato encarado como um mal a ser extirpado, como crê o primo que o abriga, mesmo contra sua vontade, em sua casa.
O que deixa o espectador um pouco encucado com o filme talvez seja justamente essa estranheza. É um filme de horror que se passa boa parte do tempo durante o dia, e que muito se assemelha a um drama sobre a falta de pertencimento de um jovem na sociedade. Mas não deixa de fazer falta mais cenas de tensão em que Martin se vê preocupado em ser pego quando tenta executar um de seus atos.
sexta-feira, agosto 25, 2017
BINGO - O REI DAS MANHÃS
Daniel Rezende é pé quente. Seu primeiro filme como montador foi CIDADE DE DEUS (2002). Já chegou com muita força, recebendo até indicação ao Oscar e um reconhecimento internacional que o levou a trabalhar com Terrence Malick, em A ÁRVORE DA VIDA (2011). Sem falar em colaborações memoráveis em outros filmes marcantes de diretores brasileiros como Walter Salles, José Padilha, Laís Bodansky e novamente com Fernando Meirelles.
Ser um editor de filmes de sucesso de público deve ter lhe dado uma sábia compreensão do que se deve fazer para que um filme flua bem. Em BINGO - O REI DAS MANHÃS (2017), sua estreia na direção de longas-metragens, não parece haver nenhuma gordura. Tudo no filme está ali muito bem amarradinho. Difícil perder o interesse em algum momento. E não só porque é uma obra que fala de assuntos que interessam a quem viveu os anos 1980 e assistia o programa do Bozo, embora tenha um sabor especial para aqueles que testemunharam aqueles anos de exageros.
Provavelmente vão dizer que BINGO é pouco "brasileiro", mas, puxa, que baita filme. Sem falar que há sim muita coisa de brasileiro nele. Se não na estrutura, que é mais clássica e que lembra bastante o cinema americano, mas na história em si, que é toda nossa, na incrível adaptação do palhaço gringo Bozo em terras tupiniquins. E por mais que tenham mudado o nome do palhaço para Bingo por problemas com direitos, foi muito positivo o diretor Daniel Rezende ter mudado o nome do palhaço e também o do ator que o interpreta, que aqui não se chama Arlindo Barreto, mas Augusto Mendes, e é vivido de maneira inspirada por Vladimir Brichta, de modo que possa estar mais livre para construir uma obra de ficção sem obrigações com a verdade.
O fato de BINGO trafegar por caminhos sombrios é outro aspecto atraente. Até dá pra entender o fato de ter sido a Warner a distribuidora do filme aqui, já que é uma empresa que tem raízes nos filmes de gângster e nunca se desvencilhou totalmente dessa linha mais dark. Como o palhaço é uma figura que também desperta medo em algumas pessoas, há pelo menos um momento em que é explorada essa questão com intensidade. E é uma cena tão forte que é fácil questionar se aquilo aconteceu de verdade com o Arlindo no SBT.
Na trama, Augusto Mendes é um ator de pornochanchada que está separado da esposa e que tem uma relação muito próxima com o filho. Logo no começo do filme, o menino até chega a flagrar um pouco o trabalho do pai dentro daquele universo em que o cinema brasileiro parecia uma versão nua, crua e desbocada do que era representado de forma mais limpa nas telenovelas da Globo. Inclusive, era possível ver algumas das atrizes globais nuas em determinados filmes. Isso fazia parte da graça da época e é representado no filme na figura da ex-esposa de Augusto.
As coisas ficam mais interessantes para o protagonista quando ele, depois de se sentir humilhado com uma ponta em uma novela da Rede Globo (no filme, Mundial), vai parar, sem querer, no teste para ser o palhaço Bingo, em uma das mais caras apostas do SBT, que aqui aparece com outro nome também. E é com sua inteligência e astúcia que ele consegue não só tirar sarro do produtor gringo, como mostrar, à sua maneira, que era preciso adaptar as piadas para o Brasil, se quisesse arrancar o riso e conquistar as crianças.
Mas o que mais encanta no filme é o quanto esse universo de programa infantil é tratado como sendo mais uma fachada para a vida louca de Augusto, que bebia e cheirava muito nos bastidores, além de se envolver em orgias e desfrutar das loucuras que o dinheiro podia comprar. Talvez o ponto fraco do filme seja ter quase que uma obrigação de fazer um arco dramático para redimir o personagem, embora isso seja perfeitamente coerente com um tipo de cinema mais comercial - sem querer colocar nenhuma carga pejorativa no termo.
Outras coisas que divertem e emocionam são as inúmeras referências pop dos anos 1980. Não apenas a televisão, mas o comportamento e as canções escolhidas, com muita new wave brasileira, mas também duas lindas faixas do Echo and the Bunnymen. O que não quer dizer que também não haja uma trilha sonora original ótima, que se destaca principalmente nos momentos mais dramáticos e sombrios do filme. Claro que é possível encontrar alguns problemas nas interpretações e no roteiro, mas são coisas que podem ser relevadas diante de um todo brilhante.
Embora o maior mérito seja de Rezende, o cineasta está rodeado de técnicos ilustres: Lula Carvalho como diretor de fotografia, Luiz Bolognesi como roteirista, Marcio Hashimoto como montador, Cassio Amarante na direção de arte, além de um elenco de apoio muito bom - como esquecer de uma cena do Brichta com a Leandra Leal em um restaurante? Aliás, como esquecer tantas cenas memoráveis de BINGO? É o tipo de filme que merece ser revisto, até para prestarmos mais atenção nos detalhes que em uma primeira vez pode passar.
Ser um editor de filmes de sucesso de público deve ter lhe dado uma sábia compreensão do que se deve fazer para que um filme flua bem. Em BINGO - O REI DAS MANHÃS (2017), sua estreia na direção de longas-metragens, não parece haver nenhuma gordura. Tudo no filme está ali muito bem amarradinho. Difícil perder o interesse em algum momento. E não só porque é uma obra que fala de assuntos que interessam a quem viveu os anos 1980 e assistia o programa do Bozo, embora tenha um sabor especial para aqueles que testemunharam aqueles anos de exageros.
Provavelmente vão dizer que BINGO é pouco "brasileiro", mas, puxa, que baita filme. Sem falar que há sim muita coisa de brasileiro nele. Se não na estrutura, que é mais clássica e que lembra bastante o cinema americano, mas na história em si, que é toda nossa, na incrível adaptação do palhaço gringo Bozo em terras tupiniquins. E por mais que tenham mudado o nome do palhaço para Bingo por problemas com direitos, foi muito positivo o diretor Daniel Rezende ter mudado o nome do palhaço e também o do ator que o interpreta, que aqui não se chama Arlindo Barreto, mas Augusto Mendes, e é vivido de maneira inspirada por Vladimir Brichta, de modo que possa estar mais livre para construir uma obra de ficção sem obrigações com a verdade.
O fato de BINGO trafegar por caminhos sombrios é outro aspecto atraente. Até dá pra entender o fato de ter sido a Warner a distribuidora do filme aqui, já que é uma empresa que tem raízes nos filmes de gângster e nunca se desvencilhou totalmente dessa linha mais dark. Como o palhaço é uma figura que também desperta medo em algumas pessoas, há pelo menos um momento em que é explorada essa questão com intensidade. E é uma cena tão forte que é fácil questionar se aquilo aconteceu de verdade com o Arlindo no SBT.
Na trama, Augusto Mendes é um ator de pornochanchada que está separado da esposa e que tem uma relação muito próxima com o filho. Logo no começo do filme, o menino até chega a flagrar um pouco o trabalho do pai dentro daquele universo em que o cinema brasileiro parecia uma versão nua, crua e desbocada do que era representado de forma mais limpa nas telenovelas da Globo. Inclusive, era possível ver algumas das atrizes globais nuas em determinados filmes. Isso fazia parte da graça da época e é representado no filme na figura da ex-esposa de Augusto.
As coisas ficam mais interessantes para o protagonista quando ele, depois de se sentir humilhado com uma ponta em uma novela da Rede Globo (no filme, Mundial), vai parar, sem querer, no teste para ser o palhaço Bingo, em uma das mais caras apostas do SBT, que aqui aparece com outro nome também. E é com sua inteligência e astúcia que ele consegue não só tirar sarro do produtor gringo, como mostrar, à sua maneira, que era preciso adaptar as piadas para o Brasil, se quisesse arrancar o riso e conquistar as crianças.
Mas o que mais encanta no filme é o quanto esse universo de programa infantil é tratado como sendo mais uma fachada para a vida louca de Augusto, que bebia e cheirava muito nos bastidores, além de se envolver em orgias e desfrutar das loucuras que o dinheiro podia comprar. Talvez o ponto fraco do filme seja ter quase que uma obrigação de fazer um arco dramático para redimir o personagem, embora isso seja perfeitamente coerente com um tipo de cinema mais comercial - sem querer colocar nenhuma carga pejorativa no termo.
Outras coisas que divertem e emocionam são as inúmeras referências pop dos anos 1980. Não apenas a televisão, mas o comportamento e as canções escolhidas, com muita new wave brasileira, mas também duas lindas faixas do Echo and the Bunnymen. O que não quer dizer que também não haja uma trilha sonora original ótima, que se destaca principalmente nos momentos mais dramáticos e sombrios do filme. Claro que é possível encontrar alguns problemas nas interpretações e no roteiro, mas são coisas que podem ser relevadas diante de um todo brilhante.
Embora o maior mérito seja de Rezende, o cineasta está rodeado de técnicos ilustres: Lula Carvalho como diretor de fotografia, Luiz Bolognesi como roteirista, Marcio Hashimoto como montador, Cassio Amarante na direção de arte, além de um elenco de apoio muito bom - como esquecer de uma cena do Brichta com a Leandra Leal em um restaurante? Aliás, como esquecer tantas cenas memoráveis de BINGO? É o tipo de filme que merece ser revisto, até para prestarmos mais atenção nos detalhes que em uma primeira vez pode passar.
quinta-feira, agosto 24, 2017
VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS (Valerian and the City of a Thousand Planets)
Luc Besson não é o melhor dos diretores quando o assunto é roteiro, diálogos e dramaticidade. Talvez ele já tenha descoberto que nasceu para um cinema mais pop, mesmo quando faz filmes históricos, como foi o caso de JOANA D’ARC (1999). Seu novo filme, VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS (2017), porém, guarda maior parentesco com um de seus trabalhos mais marcantes, a aventura sci-fi O QUINTO ELEMENTO (1997).
Vinte anos separam os dois filmes, mas há muito em comum neles, principalmente a ambição e o capricho na direção de arte de espaços inventados e incrivelmente belos e coloridos. E podemos dizer isso levando em consideração que chegamos a um momento dos efeitos em CGI que raramente nos impressionam. Felizmente, o filme de Besson tem imagens tão espetaculares que nem mesmo os óculos escuros do 3D conseguem atrapalhar. Ao contrário, é um dos raros exemplares em que a tecnologia soma pontos ao filme.
A produção mais cara da história do cinema francês, ainda que seja uma coprodução com vários outros países, VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é uma adaptação dos quadrinhos franceses nascidos em 1967, o ano mais lisérgico do século. Até por isso, se pensarmos no filme como uma espécie de viagem de ácido, estamos diante de uma das mais bonitas e interessantes experiências visuais e sensoriais dos últimos anos.
O problema é a dificuldade que Besson tem em transformar seus filmes em algo um pouco mais profundo, no que diz respeito à construção dos personagens, aos diálogos (algumas vezes constrangedores) e à narrativa em si, que é bem problemática. Por isso a necessidade de se permitir perder na viagem, a fim de relevar os problemas, que já começam com a própria escolha pouco feliz de trazer Dane DeHann para o papel-título. Por outro lado, a modelo e jovem atriz Cara Delevingne está muito bem no filme, chegando a eclipsar o protagonista com o charme, beleza e inteligência da personagem. Falta química à dupla. Por mais que DeHann seja um dos melhores jovens atores da atualidade, a persona do ator parece não ter combinado com o personagem.
Uma das coisas que mais chama a atenção em VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é a semelhança com o universo e com a trama de STAR WARS. Depois ficamos sabendo que Valérian, os quadrinhos de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, foi uma das maiores influências para a franquia de George Lucas. Há até mesmo um vilão parecidíssimo com Jabba the Hutt. Quanto às apontadas semelhanças dos Pearls de VALERIAN com os Na’vi de AVATAR, talvez isso tenha sido puramente acidental.
Outra coisa que chama a atenção é a ação non-stop, que pode vir tanto desse gosto do próprio Besson pelo cinema de aventura hollywoodiano, como nos próprios quadrinhos de aventura da época, que se caracterizavam por dar pouco espaço para um respiro – no filme, os poucos momentos de tranquilidade são aqueles em que Valerian tenta convencer sua parceira Laureline (Delevigne) a casar com ele. Se por um lado VALERIAN é um filme carente de ordem e de mais liga na construção narrativa, a falta de um roteiro elaborado é compensada por essa bagunça de certa forma divertida. O problema se dá quando a narrativa se aproxima das duas horas de duração e o cansaço é mais do que compreensível.
Ainda assim, é uma pena que VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS tenha tido uma aceitação tão pequena do público, estando já saindo de cartaz rapidamente. Infelizmente, quem não viu vai deixar passar uma oportunidade de ouro de ver um dos mais brilhantes trabalhos de direção de arte e efeitos visuais do cinema contemporâneo na telona. Sem falar nos vários momentos felizes em que o filme efetivamente funciona bem.
Vinte anos separam os dois filmes, mas há muito em comum neles, principalmente a ambição e o capricho na direção de arte de espaços inventados e incrivelmente belos e coloridos. E podemos dizer isso levando em consideração que chegamos a um momento dos efeitos em CGI que raramente nos impressionam. Felizmente, o filme de Besson tem imagens tão espetaculares que nem mesmo os óculos escuros do 3D conseguem atrapalhar. Ao contrário, é um dos raros exemplares em que a tecnologia soma pontos ao filme.
A produção mais cara da história do cinema francês, ainda que seja uma coprodução com vários outros países, VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é uma adaptação dos quadrinhos franceses nascidos em 1967, o ano mais lisérgico do século. Até por isso, se pensarmos no filme como uma espécie de viagem de ácido, estamos diante de uma das mais bonitas e interessantes experiências visuais e sensoriais dos últimos anos.
O problema é a dificuldade que Besson tem em transformar seus filmes em algo um pouco mais profundo, no que diz respeito à construção dos personagens, aos diálogos (algumas vezes constrangedores) e à narrativa em si, que é bem problemática. Por isso a necessidade de se permitir perder na viagem, a fim de relevar os problemas, que já começam com a própria escolha pouco feliz de trazer Dane DeHann para o papel-título. Por outro lado, a modelo e jovem atriz Cara Delevingne está muito bem no filme, chegando a eclipsar o protagonista com o charme, beleza e inteligência da personagem. Falta química à dupla. Por mais que DeHann seja um dos melhores jovens atores da atualidade, a persona do ator parece não ter combinado com o personagem.
Uma das coisas que mais chama a atenção em VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é a semelhança com o universo e com a trama de STAR WARS. Depois ficamos sabendo que Valérian, os quadrinhos de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, foi uma das maiores influências para a franquia de George Lucas. Há até mesmo um vilão parecidíssimo com Jabba the Hutt. Quanto às apontadas semelhanças dos Pearls de VALERIAN com os Na’vi de AVATAR, talvez isso tenha sido puramente acidental.
Outra coisa que chama a atenção é a ação non-stop, que pode vir tanto desse gosto do próprio Besson pelo cinema de aventura hollywoodiano, como nos próprios quadrinhos de aventura da época, que se caracterizavam por dar pouco espaço para um respiro – no filme, os poucos momentos de tranquilidade são aqueles em que Valerian tenta convencer sua parceira Laureline (Delevigne) a casar com ele. Se por um lado VALERIAN é um filme carente de ordem e de mais liga na construção narrativa, a falta de um roteiro elaborado é compensada por essa bagunça de certa forma divertida. O problema se dá quando a narrativa se aproxima das duas horas de duração e o cansaço é mais do que compreensível.
Ainda assim, é uma pena que VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS tenha tido uma aceitação tão pequena do público, estando já saindo de cartaz rapidamente. Infelizmente, quem não viu vai deixar passar uma oportunidade de ouro de ver um dos mais brilhantes trabalhos de direção de arte e efeitos visuais do cinema contemporâneo na telona. Sem falar nos vários momentos felizes em que o filme efetivamente funciona bem.
terça-feira, agosto 22, 2017
CINCO FILMES VISTOS NO CINE CEARÁ 2017
Curiosa a escolha dos filmes da mostra competitiva de longas-metragens da 27ª edição do Cine Ceará. Terá sido uma coincidência ou foi mesmo proposital a escolha de títulos que abordam, seja de maneira mais aprofundada ou apenas tangencial, a questão das relações homoafetivas e das complexidades da diversidade sexual na sociedade? Dos sete filmes que concorreram à categoria de longa-metragem, apenas os dois brasileiros não abordaram o tema: MALASARTES E O DUELO COM A MORTE, de Paulo Morelli, e PEDRO SOB A CAMA, de Paulo Pons. São dois filmes totalmente distintos em tamanho e em intenção que ficarão de fora desta discussão, por não se afinarem com a característica central dos demais títulos. Então, falemos dos outros cinco filmes, vindos de países como Chile, Argentina, Cuba e República Dominicana.
UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica)
UMA MULHER FANTÁSTICA (2017, foto), de Sebastián Lelio, diretor de GLORIA (2013), é desses filmes que tem como principal mérito a capacidade de deixar o espectador muito interessado em acompanhar a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual, em seu calvário, após perder o amante/companheiro, vítima de um aneurisma. Como aquele homem que se foi representava para ela o mais próximo que conseguira chegar de uma aceitação como mulher pela sociedade, o que vem a seguir é uma série de situações de humilhação e agressão, vindas principalmente da família do ex-companheiro. A busca de dignidade é o que move a personagem e a principal bandeira que o filme levanta. Apesar de nem sempre acertar e de utilizar algumas metáforas óbvias em certos momentos, o vigor de UMA MULHER FANTÁSTICA o destaca como uma obra que tende a alcançar um público maior do que os seus concorrentes.
NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (Nadie Nos Mira)
Ao contrário de UMA MULHER FANTÁSTICA, que é um filme que lida com as emoções de maneira bem pouco moderada, NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (2017), da diretora Julia Solomonoff (O ÚLTIMO VERÃO DE LA BOYITA, 2009), é um exemplo de sobriedade na construção narrativa, ao lidar com as questões do êxito e do fracasso a partir de expectativas criadas principalmente pelo seu protagonista. Diferente do filme anteriormente citado, Ninguém Está Olhando não mostra uma sociedade que se incomoda com o indivíduo; é exatamente o oposto que acontece: vemos o personagem invisível, um latino que não tem o estereótipo do latino, vivendo em uma metrópole, Nova York, que já se caracteriza por sua pluralidade de indivíduos. Na trama, Nico (Guillermo Pfening), ator bem-sucedido na Argentina, tenta a sorte nos Estados Unidos, passando por uma série de frustrações que o levam a um sentimento de desalento. Em NINGUÉM ESTÁ OLHANDO, a questão das relações homoafetivas se dá de maneira mais sutil, já que o protagonista gasta pouco de seu tempo em aventuras com outros homens e lida muito mais com suas angústias e necessidades profissionais. O que mais pesa, positivamente, no filme é o seu teor universal. NINGUÉM ESTÁ OLHANDO foi o grande vencedor do Cine Ceará 2017, tendo sido premiado nas categorias de melhor longa-metragem pelo júri oficial e pelo júri da crítica e de melhor ator.,
SANTA E ANDRÉS (Santa y Andrés)
Duas produções de Cuba chegam com a intenção de questionar certas condutas hediondas do governo de Fidel relacionadas aos homossexuais. O primeiro deles, SANTA E ANDRÉS (2016), de Carlos Lechuga, é mais enfático, tanto que o filme, apesar de realizado com o aval do Estado, teve exibição proibida em Cuba, mesmo com sua história ambientada no início dos anos 1980, quando, provavelmente, a intolerância era maior. Na trama, Santa (Lola Amores, vencedora do prêmio de melhor atriz no festival) é uma camponesa revolucionária que tem como missão vigiar Andrés, um escritor homossexual que mora pelos arredores e que pode atrapalhar um evento oficial importante, fazendo reclamações à imprensa sobre os maus tratos sofridos e a censura que lhe é imposta. Mas o mais importante do filme nem são as questões políticas, mas a relação que se constrói aos poucos e com muita habilidade por parte do diretor entre esse dois personagens com diferentes pontos de vista. Esse mérito, de saber construir no tempo certo o relacionamento dos dois, junto com diálogos bem construídos e silêncios bem pautados, é louvável.
ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA (Últimos Días en la Habana)
A segunda produção cubana do festival, ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA, de Fernando Pérez, é mais uma que não pega leve com o regime de Fidel, embora não seja tão enfática quanto Santa e Andrés do ponto de vista político. Há também um personagem homossexual em condições de vida bem sofridas. Diego, vivido por Jorge Martinez, está acamado e em situação grave ocasionada pela AIDS. Mesmo sem poder sair do quarto, ele conserva seu senso de humor e sua vontade de ter uma relação sexual com algum rapaz. Diego divide o apartamento com o amigo Miguel (Patricio Wood), um homem sério e sisudo que sonha em largar o país e ir embora para os Estados Unidos. Últimos Dias em Havana é um filme que se balança entre a leveza de seu bom humor e o melodrama, que surge especialmente perto do final. Contam pontos a favor do filme a ambientação, em um condomínio pobre e sem água encanada, e a dinâmica dos personagens, sejam os protagonistas, seja o elenco de apoio.
O HOMEM QUE CUIDA (El Hombre Que Cuida)
Quanto a O HOMEM QUE CUIDA (2017), de Alejandro Andújar, o representante da República Dominicana, ele apenas tangencia a questão do desejo, na pessoa de um dos personagens jovens, o filho do dono da casa, que se diz bastante interessado na bela e jovem vizinha, mas cuja pouca iniciativa e comportamento estranho (e às vezes violento) faz com que percebamos quase uma tendência à negação da sexualidade. Um dos destaques do filme é a bela fotografia em cores vivas, junto com uma direção de arte bem trabalhada em um ambiente tão simples, uma casa de praia. Trata-se de um filme que lida com uma situação bastante familiar a nós, brasileiros: a exploração das classes trabalhadoras pela elite econômica. Talvez falte ao filme uma maior força na construção do protagonista, o que resulta em uma dificuldade de empatia com o público, mas isso é compensado no modo como são apresentados os jovens que chegam à casa de praia para se divertir às escondidas do dono do lugar.
A presença de vários filmes sobre a temática LGBT, numa amostragem tão pequena como a da competição do Cine Ceará, talvez se deva aos debates atualmente mais intensos sobre o assunto, bem como à resistência dos grupos mais progressistas frente à insurgência cada vez maior de uma ala mais conservadora da sociedade. Neste cenário, há até mesmo espaço para um filme protagonizado por uma atriz trans (UMA MULHER FANTÁSTICA), e não um ator ou atriz representando o papel. Isso representa um avanço e tanto. Como diria Bob Dylan, “os tempos, eles estão mudando”.
Texto originalmente publicado no site da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema
UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica)
UMA MULHER FANTÁSTICA (2017, foto), de Sebastián Lelio, diretor de GLORIA (2013), é desses filmes que tem como principal mérito a capacidade de deixar o espectador muito interessado em acompanhar a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual, em seu calvário, após perder o amante/companheiro, vítima de um aneurisma. Como aquele homem que se foi representava para ela o mais próximo que conseguira chegar de uma aceitação como mulher pela sociedade, o que vem a seguir é uma série de situações de humilhação e agressão, vindas principalmente da família do ex-companheiro. A busca de dignidade é o que move a personagem e a principal bandeira que o filme levanta. Apesar de nem sempre acertar e de utilizar algumas metáforas óbvias em certos momentos, o vigor de UMA MULHER FANTÁSTICA o destaca como uma obra que tende a alcançar um público maior do que os seus concorrentes.
NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (Nadie Nos Mira)
Ao contrário de UMA MULHER FANTÁSTICA, que é um filme que lida com as emoções de maneira bem pouco moderada, NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (2017), da diretora Julia Solomonoff (O ÚLTIMO VERÃO DE LA BOYITA, 2009), é um exemplo de sobriedade na construção narrativa, ao lidar com as questões do êxito e do fracasso a partir de expectativas criadas principalmente pelo seu protagonista. Diferente do filme anteriormente citado, Ninguém Está Olhando não mostra uma sociedade que se incomoda com o indivíduo; é exatamente o oposto que acontece: vemos o personagem invisível, um latino que não tem o estereótipo do latino, vivendo em uma metrópole, Nova York, que já se caracteriza por sua pluralidade de indivíduos. Na trama, Nico (Guillermo Pfening), ator bem-sucedido na Argentina, tenta a sorte nos Estados Unidos, passando por uma série de frustrações que o levam a um sentimento de desalento. Em NINGUÉM ESTÁ OLHANDO, a questão das relações homoafetivas se dá de maneira mais sutil, já que o protagonista gasta pouco de seu tempo em aventuras com outros homens e lida muito mais com suas angústias e necessidades profissionais. O que mais pesa, positivamente, no filme é o seu teor universal. NINGUÉM ESTÁ OLHANDO foi o grande vencedor do Cine Ceará 2017, tendo sido premiado nas categorias de melhor longa-metragem pelo júri oficial e pelo júri da crítica e de melhor ator.,
SANTA E ANDRÉS (Santa y Andrés)
Duas produções de Cuba chegam com a intenção de questionar certas condutas hediondas do governo de Fidel relacionadas aos homossexuais. O primeiro deles, SANTA E ANDRÉS (2016), de Carlos Lechuga, é mais enfático, tanto que o filme, apesar de realizado com o aval do Estado, teve exibição proibida em Cuba, mesmo com sua história ambientada no início dos anos 1980, quando, provavelmente, a intolerância era maior. Na trama, Santa (Lola Amores, vencedora do prêmio de melhor atriz no festival) é uma camponesa revolucionária que tem como missão vigiar Andrés, um escritor homossexual que mora pelos arredores e que pode atrapalhar um evento oficial importante, fazendo reclamações à imprensa sobre os maus tratos sofridos e a censura que lhe é imposta. Mas o mais importante do filme nem são as questões políticas, mas a relação que se constrói aos poucos e com muita habilidade por parte do diretor entre esse dois personagens com diferentes pontos de vista. Esse mérito, de saber construir no tempo certo o relacionamento dos dois, junto com diálogos bem construídos e silêncios bem pautados, é louvável.
ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA (Últimos Días en la Habana)
A segunda produção cubana do festival, ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA, de Fernando Pérez, é mais uma que não pega leve com o regime de Fidel, embora não seja tão enfática quanto Santa e Andrés do ponto de vista político. Há também um personagem homossexual em condições de vida bem sofridas. Diego, vivido por Jorge Martinez, está acamado e em situação grave ocasionada pela AIDS. Mesmo sem poder sair do quarto, ele conserva seu senso de humor e sua vontade de ter uma relação sexual com algum rapaz. Diego divide o apartamento com o amigo Miguel (Patricio Wood), um homem sério e sisudo que sonha em largar o país e ir embora para os Estados Unidos. Últimos Dias em Havana é um filme que se balança entre a leveza de seu bom humor e o melodrama, que surge especialmente perto do final. Contam pontos a favor do filme a ambientação, em um condomínio pobre e sem água encanada, e a dinâmica dos personagens, sejam os protagonistas, seja o elenco de apoio.
O HOMEM QUE CUIDA (El Hombre Que Cuida)
Quanto a O HOMEM QUE CUIDA (2017), de Alejandro Andújar, o representante da República Dominicana, ele apenas tangencia a questão do desejo, na pessoa de um dos personagens jovens, o filho do dono da casa, que se diz bastante interessado na bela e jovem vizinha, mas cuja pouca iniciativa e comportamento estranho (e às vezes violento) faz com que percebamos quase uma tendência à negação da sexualidade. Um dos destaques do filme é a bela fotografia em cores vivas, junto com uma direção de arte bem trabalhada em um ambiente tão simples, uma casa de praia. Trata-se de um filme que lida com uma situação bastante familiar a nós, brasileiros: a exploração das classes trabalhadoras pela elite econômica. Talvez falte ao filme uma maior força na construção do protagonista, o que resulta em uma dificuldade de empatia com o público, mas isso é compensado no modo como são apresentados os jovens que chegam à casa de praia para se divertir às escondidas do dono do lugar.
A presença de vários filmes sobre a temática LGBT, numa amostragem tão pequena como a da competição do Cine Ceará, talvez se deva aos debates atualmente mais intensos sobre o assunto, bem como à resistência dos grupos mais progressistas frente à insurgência cada vez maior de uma ala mais conservadora da sociedade. Neste cenário, há até mesmo espaço para um filme protagonizado por uma atriz trans (UMA MULHER FANTÁSTICA), e não um ator ou atriz representando o papel. Isso representa um avanço e tanto. Como diria Bob Dylan, “os tempos, eles estão mudando”.
Texto originalmente publicado no site da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema
domingo, agosto 20, 2017
ANNABELLE 2 - A CRIAÇÃO DO MAL (Annabelle - Creation)
Em tempos de discussão sobre o pós-terror, ver um filme que dialoga com o terror tradicional como ANNABELLE 2 - A CRIAÇÃO DO MAL (2017) quase passa a impressão de estarmos vendo uma obra ultrapassada. Mas será que é mesmo verdade? De todo modo, não deixa de ser admirável o quanto o diretor David F. Sandberg conseguiu transformar um roteiro banal em algo elegante na construção formal e que sabe equilibrar a sutileza de mostrar o mal aos poucos, no começo do filme, até ter que mostrá-lo de forma explícita em seu terceiro ato.
Sabemos que o primeiro filme sobre a boneca Annabelle já havia sido feito para explorar o sucesso que a criatura teve em INVOCAÇÃO DO MAL (2013). Mas os produtores, entre eles o cineasta James Wan, um dos grandes diretores do gênero na atualidade, souberam fazer de ANNABELLE (2014), dirigido por John R. Leonetti, uma obra bem decente e com seus encantos, embora pouco memorável.
Com um cineasta melhor, como é o caso de Sandberg, de QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016), a tendência seria mesmo uma obra melhor, mais caprichada, pelo menos na condução narrativa. E assim ocorreu, por mais que saibamos que o teor caça-níquel seja ainda maior ao buscar um novo prequel, já que o primeiro ANNABELLE já era uma apresentação de fatos que antecederam o filme de Wan. Aqui voltamos à verdadeira origem da boneca.
Felizmente, o modo como o diretor Sandberg e o roteirista Gary Dauberman resolvem contar essa história é bem satisfatória. Somos apresentados inicialmente a uma família composta por um pai (Anthony LaPaglia), uma mãe (Miranda Otto) e uma garotinha, filha deles (Samara Lee). O modo como eles a perdem é brutal e funciona como um prólogo muito bom para a verdadeira história que viria a seguir, passando-se 12 anos após o trágico evento.
Assim, conhecemos um grupo de meninas que serão abrigadas em uma casa que funcionará como orfanato. As meninas que mais contarão para o espectador são as mais jovens, Linda (Lulu Wilson) e Janice (Thalita Bateman). Esta segunda convive com uma sequela da poliomielite e tem dificuldade de locomoção. As duas são muito amigas e sonham em ser adotadas pela mesma família, para que sejam, oficialmente, irmãs. Há a personagem de uma amável freira que cuida das meninas (Stephanie Sigman) e as demais meninas mais velhas, que já pensam em garotos e namoros, mesmo estando em um ambiente totalmente distante desse tipo de tentação.
E o filme prefere não adicionar personagens masculinos, o que acaba por ser uma boa escolha, já que isso dá mais mais força às várias personagens, mesmo à misteriosa Sra. Mullins (Miranda Otto), que vive o tempo todo trancada em um quarto, sem ser vista pelos demais habitantes do novo orfanato.
Há um cuidado especial na apresentação da casa, no quanto ela é grande e composta por lugares proibidos, como o quarto dos Mullins e, principalmente, o quarto onde habitava a garotinha morta Bee. O horror propriamente dito já começa no silêncio, ou melhor, no ainda não-dito, mas já sabido pelos espectadores, que é o fato de que aquela casa tem uma energia negativa. Aos poucos, pequenos eventos como janelas que se abrem sozinhas ou coisas do tipo vão ajudando a compor a narrativa de horror.
As explicações sobre o porquê de haver um mal naquela boneca são rápidas, mas funcionam, embora o mais importante seja o quanto a direção sabe lidar com os ataques que as forças malignas impõem às crianças, aproveitando-se de sua inocência e curiosidade. Há uma opção por evitar sustos fáceis, o que fornece mais dignidade à obra, embora estejamos diante de uma série de convenções que os filmes de horror trataram de usar como códigos ao longo dos anos. Os próprios movimentos de câmera já antecipam que o que veremos a seguir é algo assustador.
Para o bem e para o mal, isso funciona, levando em consideração que estamos diante de um filme que oferece ao público aquilo que ele espera encontrar. O espectador até mesmo já sabe que, mais cedo ou mais tarde, verá a figura de uma freira maligna, que foi apresentada em INVOCAÇÃO DO MAL 2 (2016), e que até ganhará também um filme spin-off, THE NUN (2018), a ser dirigido por Corin Hardy (A MALDIÇÃO DA FLORESTA, 2015). Ou seja, estamos diante de uma franquia que não se diferencia muito dos filmes de super-heróis da Marvel, havendo até mesmo uma cena pós-créditos. Ao menos é uma franquia que tem sido tratada com carinho por seus realizadores. Que continue assim.
Sabemos que o primeiro filme sobre a boneca Annabelle já havia sido feito para explorar o sucesso que a criatura teve em INVOCAÇÃO DO MAL (2013). Mas os produtores, entre eles o cineasta James Wan, um dos grandes diretores do gênero na atualidade, souberam fazer de ANNABELLE (2014), dirigido por John R. Leonetti, uma obra bem decente e com seus encantos, embora pouco memorável.
Com um cineasta melhor, como é o caso de Sandberg, de QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016), a tendência seria mesmo uma obra melhor, mais caprichada, pelo menos na condução narrativa. E assim ocorreu, por mais que saibamos que o teor caça-níquel seja ainda maior ao buscar um novo prequel, já que o primeiro ANNABELLE já era uma apresentação de fatos que antecederam o filme de Wan. Aqui voltamos à verdadeira origem da boneca.
Felizmente, o modo como o diretor Sandberg e o roteirista Gary Dauberman resolvem contar essa história é bem satisfatória. Somos apresentados inicialmente a uma família composta por um pai (Anthony LaPaglia), uma mãe (Miranda Otto) e uma garotinha, filha deles (Samara Lee). O modo como eles a perdem é brutal e funciona como um prólogo muito bom para a verdadeira história que viria a seguir, passando-se 12 anos após o trágico evento.
Assim, conhecemos um grupo de meninas que serão abrigadas em uma casa que funcionará como orfanato. As meninas que mais contarão para o espectador são as mais jovens, Linda (Lulu Wilson) e Janice (Thalita Bateman). Esta segunda convive com uma sequela da poliomielite e tem dificuldade de locomoção. As duas são muito amigas e sonham em ser adotadas pela mesma família, para que sejam, oficialmente, irmãs. Há a personagem de uma amável freira que cuida das meninas (Stephanie Sigman) e as demais meninas mais velhas, que já pensam em garotos e namoros, mesmo estando em um ambiente totalmente distante desse tipo de tentação.
E o filme prefere não adicionar personagens masculinos, o que acaba por ser uma boa escolha, já que isso dá mais mais força às várias personagens, mesmo à misteriosa Sra. Mullins (Miranda Otto), que vive o tempo todo trancada em um quarto, sem ser vista pelos demais habitantes do novo orfanato.
Há um cuidado especial na apresentação da casa, no quanto ela é grande e composta por lugares proibidos, como o quarto dos Mullins e, principalmente, o quarto onde habitava a garotinha morta Bee. O horror propriamente dito já começa no silêncio, ou melhor, no ainda não-dito, mas já sabido pelos espectadores, que é o fato de que aquela casa tem uma energia negativa. Aos poucos, pequenos eventos como janelas que se abrem sozinhas ou coisas do tipo vão ajudando a compor a narrativa de horror.
As explicações sobre o porquê de haver um mal naquela boneca são rápidas, mas funcionam, embora o mais importante seja o quanto a direção sabe lidar com os ataques que as forças malignas impõem às crianças, aproveitando-se de sua inocência e curiosidade. Há uma opção por evitar sustos fáceis, o que fornece mais dignidade à obra, embora estejamos diante de uma série de convenções que os filmes de horror trataram de usar como códigos ao longo dos anos. Os próprios movimentos de câmera já antecipam que o que veremos a seguir é algo assustador.
Para o bem e para o mal, isso funciona, levando em consideração que estamos diante de um filme que oferece ao público aquilo que ele espera encontrar. O espectador até mesmo já sabe que, mais cedo ou mais tarde, verá a figura de uma freira maligna, que foi apresentada em INVOCAÇÃO DO MAL 2 (2016), e que até ganhará também um filme spin-off, THE NUN (2018), a ser dirigido por Corin Hardy (A MALDIÇÃO DA FLORESTA, 2015). Ou seja, estamos diante de uma franquia que não se diferencia muito dos filmes de super-heróis da Marvel, havendo até mesmo uma cena pós-créditos. Ao menos é uma franquia que tem sido tratada com carinho por seus realizadores. Que continue assim.
sexta-feira, agosto 18, 2017
AS IRMÃS DE GION (Gion No Shimai)
Ter visto apenas cinco filmes de Kenji Mizoguchi é muito pouco, se pensarmos em uma carreira longa, que inclui vários filmes da época do cinema mudo, provavelmente alguns perdidos, mas se pensar que em 2016 pude ver quatro filmes deste fantástico cineasta, já é motivo para comemorar. Até porque cada filme visto é uma descoberta de uma nova joia. Pela amostragem até então feita por mim, todos os filmes vistos eram todos dos anos 1950, sua última década de vida e a década com mais filmes cultuados.
E como neste período sua tendência era a criação de filmes que explorassem a tragédia de uma maneira mais intensa e exacerbada, não deixa de ser feliz e mais suave poder ver AS IRMÃS DE GION (1936), que tem um registro mais leve, embora seja mais uma obra que lida com sensibilidade com o drama das mulheres na sociedade japonesa. Em especial o drama das gueixas, que seria visto com muito mais tristeza e desencanto em A VIDA DE O'HARU (1952). Como meu conhecimento da obra de Mizoguchi é ainda muito restrito, acredito que ainda vou topar com outros filmes que abordam a situação da gueixa.
Mas uma coisa já podemos dizer: em 1936 Mizoguchi já era o cara! Em AS IRMÃS DE GION (1936), a trama até lembra um pouco os romances de Jane Austen, só que transposta para o mundo das gueixas. E a personagem mais fascinante é justamente a gueixa manipuladora, a irmã mais jovem das duas, a mais bonita. A outra, um pouco mais apagada e triste, se deixa levar pelo amor que sente por um velho homem falido. A trama é contada de maneira breve e é impressionante. Há também umas tomadas bem ousadas, um pouco longas e cheias de força e significado. Por isso, desde o começo há sempre a impressão de que estamos vendo algo muito especial. E de fato estamos.
A marcante fala final da personagem mais jovem, Omocha (Usuzu Yamada), sobre o absurdo de existir a profissão de gueixa, depois de ela passar por uma situação terrível, é certamente a expressão de uma indignação do próprio cineasta, que nunca se conformou com o fato de terem vendido sua irmã para uma casa de gueixas quando a família estava passando por uma situação financeira muito delicada. O tratamento brutal de seu pai com sua mãe e sua irmã também foram fundamentais para que ele defendesse sempre as mulheres em seus filmes. Sentimos esse amor e esse cuidado em cada um de seus filmes, mesmo aqueles em que os protagonistas são principalmente os homens.
Em AS IRMÃS DE GION há espaço para o amor para as duas irmãs retratadas. Por mais que a mais velha, Umekichi (Yôko Umemura), possa seja julgada como boba por boa parte da plateia pelo seu total desapego ao dinheiro e total amor por um homem que nada tem a lhe dar de conforto, já que está falido financeiramente, não é assim que Mizoguchi a apresenta, embora sua melancolia diminua bastante sua luz e a personagem da irmã mais nova, cheia de truques para ser esperta em um mundo de homens, seja muito mais fascinante. Devia já ser nos anos 1930, continua sendo nos dias de hoje. Quanta beleza esse cineasta foi capaz de extrair em forma de arte de seu sofrimento pessoal e de sua empatia com as mulheres.
E como neste período sua tendência era a criação de filmes que explorassem a tragédia de uma maneira mais intensa e exacerbada, não deixa de ser feliz e mais suave poder ver AS IRMÃS DE GION (1936), que tem um registro mais leve, embora seja mais uma obra que lida com sensibilidade com o drama das mulheres na sociedade japonesa. Em especial o drama das gueixas, que seria visto com muito mais tristeza e desencanto em A VIDA DE O'HARU (1952). Como meu conhecimento da obra de Mizoguchi é ainda muito restrito, acredito que ainda vou topar com outros filmes que abordam a situação da gueixa.
Mas uma coisa já podemos dizer: em 1936 Mizoguchi já era o cara! Em AS IRMÃS DE GION (1936), a trama até lembra um pouco os romances de Jane Austen, só que transposta para o mundo das gueixas. E a personagem mais fascinante é justamente a gueixa manipuladora, a irmã mais jovem das duas, a mais bonita. A outra, um pouco mais apagada e triste, se deixa levar pelo amor que sente por um velho homem falido. A trama é contada de maneira breve e é impressionante. Há também umas tomadas bem ousadas, um pouco longas e cheias de força e significado. Por isso, desde o começo há sempre a impressão de que estamos vendo algo muito especial. E de fato estamos.
A marcante fala final da personagem mais jovem, Omocha (Usuzu Yamada), sobre o absurdo de existir a profissão de gueixa, depois de ela passar por uma situação terrível, é certamente a expressão de uma indignação do próprio cineasta, que nunca se conformou com o fato de terem vendido sua irmã para uma casa de gueixas quando a família estava passando por uma situação financeira muito delicada. O tratamento brutal de seu pai com sua mãe e sua irmã também foram fundamentais para que ele defendesse sempre as mulheres em seus filmes. Sentimos esse amor e esse cuidado em cada um de seus filmes, mesmo aqueles em que os protagonistas são principalmente os homens.
Em AS IRMÃS DE GION há espaço para o amor para as duas irmãs retratadas. Por mais que a mais velha, Umekichi (Yôko Umemura), possa seja julgada como boba por boa parte da plateia pelo seu total desapego ao dinheiro e total amor por um homem que nada tem a lhe dar de conforto, já que está falido financeiramente, não é assim que Mizoguchi a apresenta, embora sua melancolia diminua bastante sua luz e a personagem da irmã mais nova, cheia de truques para ser esperta em um mundo de homens, seja muito mais fascinante. Devia já ser nos anos 1930, continua sendo nos dias de hoje. Quanta beleza esse cineasta foi capaz de extrair em forma de arte de seu sofrimento pessoal e de sua empatia com as mulheres.
segunda-feira, agosto 14, 2017
O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (The Beguiled)
Embora possamos dizer que O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (2017), de Sofia Coppola, é uma nova releitura do romance pouco conhecido de Thomas Cullinan, o mesmo que deu origem ao filme homônimo de Don Siegel de 1971, é muito difícil acreditar que as intenções de Sofia não fossem a de colocar seu trabalho junto ao longa estrelado por Clint Eastwood, trazendo questões pertinentes ligadas à força da mulher na sociedade machista construída ao longo dos séculos.
Assim, parece complicado se desligar da versão de Siegel, até pelo impacto, como thriller, que a produção setentista tem até hoje, embora quem não viu o filme de Siegel até possa ver a versão de Coppola como algo à parte, único, independente. A intenção da diretora parece ser provocar, mudar o ponto de vista da trama. Não vemos mais a história pelos olhos do soldado ianque ferido que é desejado por mulheres de todas as idades de um internato de garotas na Virginia, na época da Guerra Civil Americana. No filme de Siegel, ele consegue tirar proveito dessa situação, como se estivesse numa loja de doces. Ao mesmo tempo, o que acontece a seguir com ele é um pesadelo terrível.
O trailer da nova versão, ganhadora do prêmio de melhor direção em Cannes, infelizmente não soube esconder a parte trágica do que acontece com o tal soldado quando ele adentra aquele território de mulheres que se veem mudadas e excitadas com sua presença. Em entrevista, Sofia Coppola disse que fez seu filme para as mulheres e para seus amigos gays. Faz sentido, principalmente na cena em que Nicole Kidman, a dona do internato, banha o corpo nu e inconsciente do soldado (Colin Farrell) e sente o calor do desejo.
Três gerações de atrizes - Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning - se comportam de maneira diferente diante daquele homem. Mas todas elas se sentem bastante atraídas por ele. A mais velha parece ter uma reputação a zelar, mas tenta se aproveitar do fato de mandar naquele lugar; a do meio vê naquele homem uma passagem para a felicidade do amor romântico; já a mais jovem é impulsiva o suficiente para jogar o seu charme e avançar o sinal sem a menor culpa.
Por mais que estejamos diante de um filme que trata do desejo de diferentes mulheres por um homem, O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS é também um filme sobre o corpo objetificado de um homem, de como a aparente fragilidade feminina pode esconder uma força - e até uma maldade - que o homem não imagina que terá que sofrer. Trata-se de uma obra feminista, como já era o primeiro trabalho da diretora, AS VIRGENS SUICIDAS (1999), mas é também um filme que procura sua própria beleza nas imagens através da luz natural da fotografia de Philippe Le Sourd, dos figurinos sóbrios das moças do internato, em um colorido "feminino" que também sabe lidar muito bem com o vermelho vivo. O que é natural. Afinal, a mulher não sangra todo mês?
Assim, parece complicado se desligar da versão de Siegel, até pelo impacto, como thriller, que a produção setentista tem até hoje, embora quem não viu o filme de Siegel até possa ver a versão de Coppola como algo à parte, único, independente. A intenção da diretora parece ser provocar, mudar o ponto de vista da trama. Não vemos mais a história pelos olhos do soldado ianque ferido que é desejado por mulheres de todas as idades de um internato de garotas na Virginia, na época da Guerra Civil Americana. No filme de Siegel, ele consegue tirar proveito dessa situação, como se estivesse numa loja de doces. Ao mesmo tempo, o que acontece a seguir com ele é um pesadelo terrível.
O trailer da nova versão, ganhadora do prêmio de melhor direção em Cannes, infelizmente não soube esconder a parte trágica do que acontece com o tal soldado quando ele adentra aquele território de mulheres que se veem mudadas e excitadas com sua presença. Em entrevista, Sofia Coppola disse que fez seu filme para as mulheres e para seus amigos gays. Faz sentido, principalmente na cena em que Nicole Kidman, a dona do internato, banha o corpo nu e inconsciente do soldado (Colin Farrell) e sente o calor do desejo.
Três gerações de atrizes - Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning - se comportam de maneira diferente diante daquele homem. Mas todas elas se sentem bastante atraídas por ele. A mais velha parece ter uma reputação a zelar, mas tenta se aproveitar do fato de mandar naquele lugar; a do meio vê naquele homem uma passagem para a felicidade do amor romântico; já a mais jovem é impulsiva o suficiente para jogar o seu charme e avançar o sinal sem a menor culpa.
Por mais que estejamos diante de um filme que trata do desejo de diferentes mulheres por um homem, O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS é também um filme sobre o corpo objetificado de um homem, de como a aparente fragilidade feminina pode esconder uma força - e até uma maldade - que o homem não imagina que terá que sofrer. Trata-se de uma obra feminista, como já era o primeiro trabalho da diretora, AS VIRGENS SUICIDAS (1999), mas é também um filme que procura sua própria beleza nas imagens através da luz natural da fotografia de Philippe Le Sourd, dos figurinos sóbrios das moças do internato, em um colorido "feminino" que também sabe lidar muito bem com o vermelho vivo. O que é natural. Afinal, a mulher não sangra todo mês?
sexta-feira, agosto 11, 2017
CORPO ELÉTRICO
E a primeira sessão organizada pela Aceccine (Associação Cearense de Críticos de Cinema) foi um sucesso. O filme escolhido, e exibido no último domingo, dia 6, foi CORPO ELÉTRICO (2017), de Marcelo Caetano. A sessão, lotada e com muita gente que ficou de fora, sem poder assistir a essa première, contou com a presença do diretor para um debate muito enriquecedor sobre a obra e sobre as questões que ela levanta.
Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor, que já trabalhou como assistente de direção de cineastas como Kiko Goifman, Hilton Lacerda, Gabriel Mascaro e Anna Muylaert. Logo, ele faz parte dessa nova geração de ótimos realizadores que trazem uma saudável inquietação para a tela e, em consequência, para a audiência.
O diretor, no debate, comentou que assistiu bastante FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach, como um exemplo de trabalho que dialoga bastante com o seu filme – Caetano afirmou que seu filme-farol é ANJOS DO ARRABALDE, também do Carlão. Assim, no que se refere ao trabalho em uma fábrica e à busca urgente do prazer no pouco tempo livre que resta a esses personagens, há, sim, uma conversa com esses dois cinemas que demonstram amor pelos menos favorecidos pela sociedade e que trabalham por muitas e muitas horas diariamente.
Diferente do cinema de Carlão, no entanto, o trabalho de Caetano tem uma preocupação (ou interesse natural) por um tipo de cinema-verdade, que flerta com o documentário e de diálogos mais realistas. A primeira cena, em que vemos o protagonista Elias (Kelner Macêdo) contando um sonho que teve envolvendo o mar traz uma intimidade que conquista e fascina o espectador logo no início, e que demarca o território de aproximação de corpos que será uma constante em todo o filme, a partir da relação que Elias estabelece com o universo ao redor.
Há quem vá estranhar no filme o modo como os personagens se aproximam uns dos outros de maneira tão intensa, ainda mais levando em consideração que há uma intenção de dar voz aos grupos gays mais marginalizados, como é o caso, principalmente, do núcleo familiar de Wellington (Lucas Andrade), constituído de pessoas que trabalham no entretenimento da noite, nas boates. O filme, inclusive, traz nomes como Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada e outras conhecidas de quem acompanha o trabalho de transformistas da noite paulistana.
O filme frustra algumas expectativas, o que sinaliza um flerte com a vida real. Há, por exemplo, o caso do migrante africano que chega até a fábrica e que desperta o desejo de Elias mas que é algo que acaba não se concretizando. Há uma fuga do amor romântico em todo o filme, tipo de amor que seria opressor, segundo o diretor.
No entanto, a alegria de viver e a liberdade de estar com quem quiser de Elias acabam, eventualmente, trombando com uma melancolia que nasce dessa necessidade (e dessa facilidade) que o personagem tem de estar sempre perto de alguém – não necessariamente em busca de sexo fácil - e isso funciona como uma mola para que a conclusão seja carregada de uma espécie de medo de Elias de não querer ficar só. Mas isso só torna a obra ainda mais rica e complexamente interessante.
Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor, que já trabalhou como assistente de direção de cineastas como Kiko Goifman, Hilton Lacerda, Gabriel Mascaro e Anna Muylaert. Logo, ele faz parte dessa nova geração de ótimos realizadores que trazem uma saudável inquietação para a tela e, em consequência, para a audiência.
O diretor, no debate, comentou que assistiu bastante FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach, como um exemplo de trabalho que dialoga bastante com o seu filme – Caetano afirmou que seu filme-farol é ANJOS DO ARRABALDE, também do Carlão. Assim, no que se refere ao trabalho em uma fábrica e à busca urgente do prazer no pouco tempo livre que resta a esses personagens, há, sim, uma conversa com esses dois cinemas que demonstram amor pelos menos favorecidos pela sociedade e que trabalham por muitas e muitas horas diariamente.
Diferente do cinema de Carlão, no entanto, o trabalho de Caetano tem uma preocupação (ou interesse natural) por um tipo de cinema-verdade, que flerta com o documentário e de diálogos mais realistas. A primeira cena, em que vemos o protagonista Elias (Kelner Macêdo) contando um sonho que teve envolvendo o mar traz uma intimidade que conquista e fascina o espectador logo no início, e que demarca o território de aproximação de corpos que será uma constante em todo o filme, a partir da relação que Elias estabelece com o universo ao redor.
Há quem vá estranhar no filme o modo como os personagens se aproximam uns dos outros de maneira tão intensa, ainda mais levando em consideração que há uma intenção de dar voz aos grupos gays mais marginalizados, como é o caso, principalmente, do núcleo familiar de Wellington (Lucas Andrade), constituído de pessoas que trabalham no entretenimento da noite, nas boates. O filme, inclusive, traz nomes como Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada e outras conhecidas de quem acompanha o trabalho de transformistas da noite paulistana.
O filme frustra algumas expectativas, o que sinaliza um flerte com a vida real. Há, por exemplo, o caso do migrante africano que chega até a fábrica e que desperta o desejo de Elias mas que é algo que acaba não se concretizando. Há uma fuga do amor romântico em todo o filme, tipo de amor que seria opressor, segundo o diretor.
No entanto, a alegria de viver e a liberdade de estar com quem quiser de Elias acabam, eventualmente, trombando com uma melancolia que nasce dessa necessidade (e dessa facilidade) que o personagem tem de estar sempre perto de alguém – não necessariamente em busca de sexo fácil - e isso funciona como uma mola para que a conclusão seja carregada de uma espécie de medo de Elias de não querer ficar só. Mas isso só torna a obra ainda mais rica e complexamente interessante.
sexta-feira, agosto 04, 2017
GRAVE
Há vários filmes sobre a chegada da maturidade na juventude, principalmente trabalhando no registro mais realista, seja usando o drama ou a comédia. Mas usar o cinema de horror para tratar o tema, e de maneira inteligente, pode ser muito recompensador. É o caso de GRAVE (2016), da cineasta francesa Julia Docournau, que também funciona como um ótimo drama de horror sobre canibalismo. Quando a narrativa e a atmosfera conseguem sustentar muito bem o filme, sem que seja preciso explicar metáforas ou coisas do tipo, já podemos dizer que a obra merece o nosso respeito.
Na trama de GRAVE, Justine (Garance Marillier) é uma jovem recém-ingressa na faculdade de Veterinária, onde sua irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), também estuda. Logo na primeira noite, ela é vítima dos trotes aplicados aos calouros pelos demais universitários. Trata-se de uma maratona de situações incômodas, como ser banhado com sangue de animais e ter que comer carne crua. Isso para quem é vegetariano é bem perturbador. Para Justine, que vem de uma família de veterinários e também de vegetarianos, não é nada fácil.
O problema é que Justine descobre, a partir desse primeiro contato com um tipo de alimento que não lhe era familiar, uma compulsão pela carne, especialmente a carne crua. Assim, ter que atacar a geladeira de seu quarto, com quem divide com um rapaz gay, não é nada perto do que virá a seguir. Como o filme também lida com a questão do desejo sexual, Docournau junta a fome com a vontade de comer.
E, nisso, temos algumas cenas bem memoráveis, como a tentativa de Justine de perder a virgindade, ou a cena em que a irmã quer ajudá-la a fazer uma depilação com cera para se preparar para uma noite de sexo com algum rapaz. O que se sucede depois dessa tentativa de depilação é um dos pontos altos do filme. Assim como a cena de sexo em que Justine tenta se esforçar para não comer, literalmente, o parceiro sexual. Trata-se, aliás, de uma das mais sensuais cenas de sexo do cinema mainstream recente, contaminando o público com essa vontade de morder e arrancar pedaço.
Há quem vá achar que o filme se encaminha para uma conclusão um pouco exagerada no sangue e no gore, mas o que eu vejo ali é mais uma sutileza dentro do chamado cinema extremo. Há uma beleza nos enquadramentos, nas cores, principalmente no vermelho, que faz com que GRAVE seja desses filmes que marcam. Como o filme já está dando muito o que falar pela internet e sendo bastante visto pelos fãs do cinema de horror desde sua boa repercussão em Cannes, se há uma distribuidora que o comprou é bom que arranje logo uma data para exibição. Até porque as pessoas que gostaram do filme em casa vão querer rever no cinema para experienciar e também para ver a reação de uma audiência, de preferência lotada.
Porém, um dos possíveis agentes complicadores da distribuição do filme no Brasil, infelizmente, é o fato de ser falado em língua francesa. São raros os filmes de horror franceses que chegam ao circuito em uma quantidade de cópias que alcance um público amplo, o público dos shoppings. Por isso, ao que parece, o destino do filme de Julia Docournau será mesmo a telinha.
Na trama de GRAVE, Justine (Garance Marillier) é uma jovem recém-ingressa na faculdade de Veterinária, onde sua irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), também estuda. Logo na primeira noite, ela é vítima dos trotes aplicados aos calouros pelos demais universitários. Trata-se de uma maratona de situações incômodas, como ser banhado com sangue de animais e ter que comer carne crua. Isso para quem é vegetariano é bem perturbador. Para Justine, que vem de uma família de veterinários e também de vegetarianos, não é nada fácil.
O problema é que Justine descobre, a partir desse primeiro contato com um tipo de alimento que não lhe era familiar, uma compulsão pela carne, especialmente a carne crua. Assim, ter que atacar a geladeira de seu quarto, com quem divide com um rapaz gay, não é nada perto do que virá a seguir. Como o filme também lida com a questão do desejo sexual, Docournau junta a fome com a vontade de comer.
E, nisso, temos algumas cenas bem memoráveis, como a tentativa de Justine de perder a virgindade, ou a cena em que a irmã quer ajudá-la a fazer uma depilação com cera para se preparar para uma noite de sexo com algum rapaz. O que se sucede depois dessa tentativa de depilação é um dos pontos altos do filme. Assim como a cena de sexo em que Justine tenta se esforçar para não comer, literalmente, o parceiro sexual. Trata-se, aliás, de uma das mais sensuais cenas de sexo do cinema mainstream recente, contaminando o público com essa vontade de morder e arrancar pedaço.
Há quem vá achar que o filme se encaminha para uma conclusão um pouco exagerada no sangue e no gore, mas o que eu vejo ali é mais uma sutileza dentro do chamado cinema extremo. Há uma beleza nos enquadramentos, nas cores, principalmente no vermelho, que faz com que GRAVE seja desses filmes que marcam. Como o filme já está dando muito o que falar pela internet e sendo bastante visto pelos fãs do cinema de horror desde sua boa repercussão em Cannes, se há uma distribuidora que o comprou é bom que arranje logo uma data para exibição. Até porque as pessoas que gostaram do filme em casa vão querer rever no cinema para experienciar e também para ver a reação de uma audiência, de preferência lotada.
Porém, um dos possíveis agentes complicadores da distribuição do filme no Brasil, infelizmente, é o fato de ser falado em língua francesa. São raros os filmes de horror franceses que chegam ao circuito em uma quantidade de cópias que alcance um público amplo, o público dos shoppings. Por isso, ao que parece, o destino do filme de Julia Docournau será mesmo a telinha.
quinta-feira, agosto 03, 2017
MULHER SATÂNICA (The Devil Is a Woman)
Não sei o que mais me deixou irritado neste filme: a personagem de Marlene Dietrich, Concha Perez, que faz gato e sapato de um homem (de bem mais de um homem, na verdade), ou se do infeliz que não consegue virar a página, o Capitão Don Pasqual Costelar, vivido por Lionel Atwill. Pensando bem, quem mais merece mesmo o nosso desprezo é o tal homem, que não consegue dominar seu coração.
O problema é que em MULHER SATÂNICA (1935) Marlene Dietrich já nem estava tão bela quanto nos trabalhos anteriores de Josef Von Sternberg. Se fosse uma femme fatale mais bela talvez nós entendêssemos um pouco mais a obsessão de Pasqualito (como Concha costuma chama o homem, meio que carinhosamente, meio que tirando sarro do coitado, que fica mendigando seus beijos e só recebe traições ou enganações em troca.
O drama de Don Pasqual é narrado, em parte, em um longo flashback, a outro homem, Don Paquito (Edward Everett Horton), que seria supostamente mais uma vítima dos feitiços de Concha, nesta trama que se passa durante a revolução na Espanha, no século XIX. Na verdade, a intenção de Don Pasqual era espantar o novo rival, mais jovem e belo do que ele.
Como se trata de um filme de Sternberg, já se espera todo um trabalho de direção de arte bem cuidada, como foi o caso, principalmente, do anterior, A IMPERATRIZ VERMELHA (1934), o mais barroco de todos os trabalho do diretor. Em MULHER SATÂNICA os cenários são bem menores e econômicos, mas o diretor consegue nos deixar dentro da ação com poucos recursos. Vemos poucos lugares: a casa onde mora Concha, o local do carnaval do começo do filme ou a estação de trem, tudo mostrado numa espécie de filtro. Gostei particularmente de uma cena de chuva.
Mas, no geral, parece que o cineasta já se cansava de trabalhar com Dietrich e vice-versa. Por outro lado, ela tem uma representação tão forte no cinema do diretor que imaginá-lo sem sua musa é até difícil, por mais que muitos elogiem seu trabalho seguinte, o ambicioso CRIME E CASTIGO (1935), adaptação do famoso romance de Dostoiévski.
A despedida da parceria Sternberg-Dietrich representa um fechamento de um ciclo bem interessante, em que a mulher é mostrada muitas vezes em situação de poder. Já começou assim no primeiro filme que fizeram juntos, O ANJO AZUL (1930), mas a versatilidade de Dietrich se mostrou bem mais atraente quando ela encarnou mulheres mais sensíveis e apaixonadas, como foi o caso de seus papéis em MARROCOS (1930) e DESONRADA (1931), não por acaso filmes em que ela aparece com uma beleza bem mais digna de nota.
MULHER SATÂNICA é também mais um exemplo do interesse do cineasta por locais exóticos. Por mais que percebamos uma visão bem estereotipada do povo espanhol, não dá para negar que há também um fascínio do diretor pelo estrangeiro, que funciona mais uma vez aqui para oferecer combustível para a construção de mais uma extravagância visual na obra de Sternberg.
O problema é que em MULHER SATÂNICA (1935) Marlene Dietrich já nem estava tão bela quanto nos trabalhos anteriores de Josef Von Sternberg. Se fosse uma femme fatale mais bela talvez nós entendêssemos um pouco mais a obsessão de Pasqualito (como Concha costuma chama o homem, meio que carinhosamente, meio que tirando sarro do coitado, que fica mendigando seus beijos e só recebe traições ou enganações em troca.
O drama de Don Pasqual é narrado, em parte, em um longo flashback, a outro homem, Don Paquito (Edward Everett Horton), que seria supostamente mais uma vítima dos feitiços de Concha, nesta trama que se passa durante a revolução na Espanha, no século XIX. Na verdade, a intenção de Don Pasqual era espantar o novo rival, mais jovem e belo do que ele.
Como se trata de um filme de Sternberg, já se espera todo um trabalho de direção de arte bem cuidada, como foi o caso, principalmente, do anterior, A IMPERATRIZ VERMELHA (1934), o mais barroco de todos os trabalho do diretor. Em MULHER SATÂNICA os cenários são bem menores e econômicos, mas o diretor consegue nos deixar dentro da ação com poucos recursos. Vemos poucos lugares: a casa onde mora Concha, o local do carnaval do começo do filme ou a estação de trem, tudo mostrado numa espécie de filtro. Gostei particularmente de uma cena de chuva.
Mas, no geral, parece que o cineasta já se cansava de trabalhar com Dietrich e vice-versa. Por outro lado, ela tem uma representação tão forte no cinema do diretor que imaginá-lo sem sua musa é até difícil, por mais que muitos elogiem seu trabalho seguinte, o ambicioso CRIME E CASTIGO (1935), adaptação do famoso romance de Dostoiévski.
A despedida da parceria Sternberg-Dietrich representa um fechamento de um ciclo bem interessante, em que a mulher é mostrada muitas vezes em situação de poder. Já começou assim no primeiro filme que fizeram juntos, O ANJO AZUL (1930), mas a versatilidade de Dietrich se mostrou bem mais atraente quando ela encarnou mulheres mais sensíveis e apaixonadas, como foi o caso de seus papéis em MARROCOS (1930) e DESONRADA (1931), não por acaso filmes em que ela aparece com uma beleza bem mais digna de nota.
MULHER SATÂNICA é também mais um exemplo do interesse do cineasta por locais exóticos. Por mais que percebamos uma visão bem estereotipada do povo espanhol, não dá para negar que há também um fascínio do diretor pelo estrangeiro, que funciona mais uma vez aqui para oferecer combustível para a construção de mais uma extravagância visual na obra de Sternberg.
terça-feira, agosto 01, 2017
PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA (War for the Planet of the Apes)
O terceiro filme da trilogia dos macacos (se é que não haverá um quarto) traz mais luz e também mais sombras para explicar os acontecimentos que trouxeram a extinção do homem como ele é conhecido e a evolução dos macacos como seres inteligentes e governadores da Terra, como mostrado no clássico O PLANETA DOS MACACOS (1968), de Franklin J. Schaffner. A ideia de criar uma série de filmes que levasse a contar a história que levou a essa situação, afinal, foi muito feliz.
O sucesso de PLANETA DOS MACACOS - A ORIGEM (2011) e principalmente do ótimo PLANETA DOS MACACOS - O CONFRONTO (2014) nos trouxe a este inevitável terceiro filme. Aliás, O CONFRONTO pode ser visto como um dos grandes marcos recentes do uso do CGI. O modo como foram construídos de maneira tão realista os símios é de tirar o chapéu. Sem falar que havia um tom muito sombrio naquela história em que torcemos pelos macacos e admiramos o grande líder César (Andy Serkis).
Por isso, quando chegamos em PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA (2017), novamente dirigido por Matt Reeves, já estamos até acostumados com esses efeitos visuais perfeitos que se confundem e se misturam com naturalidade às figuras dos humanos, dessa vez bem poucos. Afinal, a humanidade está cada vez mais entrando em extinção. Algumas surpresas acontecem, embora sejam surpresas que já pudessem ser esperadas pelo andar da carruagem. Uma delas é explicar o processo dos macacos se tornando cada vez mais eloquentes (que bela sacada o personagem do Bad Ape!) e os humanos perdendo a capacidade de falar e de raciocinar.
E temos o representante da resistência humana, vivido por um Woody Harrelson com pinta de Coronel Kurtz, o personagem de Marlon Brando em APOCALYPSE NOW. A semelhança é proposital, bem como a alegoria com a figura do próprio Deus bíblico. Harrelson matou o único filho para que a humanidade fosse salva. Pelo menos é assim que ele se vê. Isso porque ele percebe que o contato entre os humanos doentes poderia ser fatal.
E por isso ele compra guerra com o maior dos líderes dos grupos símios, o honrado César, que quis viver em paz com sua família e sua tribo até ter sua paz totalmente perturbada pelo inimigo. E assim César alimenta um ódio que o torna semelhante ao seu inimigo no segundo filme, o enraivecido Koba. Por isso César deseja enfrentar o assassino de sua mulher e de seu filho sozinho, como se fosse a última coisa a fazer na vida. A trajetória do herói atormentado não é fácil, mas talvez falte ao filme um pouco mais de capacidade de nos colocar no lugar de César e dos demais macacos, inclusive dos que estão presos. A trilha sonora de Michael Giacchino tem a sua eficiência, mas às vezes passa a impressão de querer forçar o sentimentalismo e o tom de tragédia.
De todo modo, PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA tem inúmeras qualidades e encerra de maneira muito digna essa nova visão de um clássico que foi contado pelo ponto de vista dos humanos e que agora pode ser visto como uma metáfora dos Estados Unidos da era Trump, com o muro de proteção militar e o preconceito gigantesco. Mas o contexto político do filme só funciona bem porque a direção de Matt Reeves é mais uma vez bem-sucedida.
O sucesso de PLANETA DOS MACACOS - A ORIGEM (2011) e principalmente do ótimo PLANETA DOS MACACOS - O CONFRONTO (2014) nos trouxe a este inevitável terceiro filme. Aliás, O CONFRONTO pode ser visto como um dos grandes marcos recentes do uso do CGI. O modo como foram construídos de maneira tão realista os símios é de tirar o chapéu. Sem falar que havia um tom muito sombrio naquela história em que torcemos pelos macacos e admiramos o grande líder César (Andy Serkis).
Por isso, quando chegamos em PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA (2017), novamente dirigido por Matt Reeves, já estamos até acostumados com esses efeitos visuais perfeitos que se confundem e se misturam com naturalidade às figuras dos humanos, dessa vez bem poucos. Afinal, a humanidade está cada vez mais entrando em extinção. Algumas surpresas acontecem, embora sejam surpresas que já pudessem ser esperadas pelo andar da carruagem. Uma delas é explicar o processo dos macacos se tornando cada vez mais eloquentes (que bela sacada o personagem do Bad Ape!) e os humanos perdendo a capacidade de falar e de raciocinar.
E temos o representante da resistência humana, vivido por um Woody Harrelson com pinta de Coronel Kurtz, o personagem de Marlon Brando em APOCALYPSE NOW. A semelhança é proposital, bem como a alegoria com a figura do próprio Deus bíblico. Harrelson matou o único filho para que a humanidade fosse salva. Pelo menos é assim que ele se vê. Isso porque ele percebe que o contato entre os humanos doentes poderia ser fatal.
E por isso ele compra guerra com o maior dos líderes dos grupos símios, o honrado César, que quis viver em paz com sua família e sua tribo até ter sua paz totalmente perturbada pelo inimigo. E assim César alimenta um ódio que o torna semelhante ao seu inimigo no segundo filme, o enraivecido Koba. Por isso César deseja enfrentar o assassino de sua mulher e de seu filho sozinho, como se fosse a última coisa a fazer na vida. A trajetória do herói atormentado não é fácil, mas talvez falte ao filme um pouco mais de capacidade de nos colocar no lugar de César e dos demais macacos, inclusive dos que estão presos. A trilha sonora de Michael Giacchino tem a sua eficiência, mas às vezes passa a impressão de querer forçar o sentimentalismo e o tom de tragédia.
De todo modo, PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA tem inúmeras qualidades e encerra de maneira muito digna essa nova visão de um clássico que foi contado pelo ponto de vista dos humanos e que agora pode ser visto como uma metáfora dos Estados Unidos da era Trump, com o muro de proteção militar e o preconceito gigantesco. Mas o contexto político do filme só funciona bem porque a direção de Matt Reeves é mais uma vez bem-sucedida.
Assinar:
Postagens (Atom)





















