Eis um filme que não poderia ter sido feito em pior momento. Na verdade, do jeito que Louis C.K. narra a sua história de um pai que quer dar o melhor para sua filha adolescente, mas que se vê diante de uma situação complicada, fica a dúvida se ele queria provocar ou se estava sendo ingênuo ao abordar uma questão um tanto delicada dessas, por mais que, ao final, percebamos que I LOVE YOU, DADDY (2017) é uma espécie de conto moral.
O que acabou deixando o filme com fama de maldito (e proibido também, no caso) foi a repercussão negativa em torno das acusações de assédio sexual cometidas pelo diretor, ator e comediante. Talvez ele tenha sido mais vítima de suas taras (que envolviam ele gostando de se masturbar na frente das mulheres), não um monstro como foi Harvey Weinstein, esse sim um estuprador e manipulador que merece o desprezo da indústria e até a cadeia.
No caso de I LOVE YOU, DADDY, que só pode ser visto em cópia vazada na internet, Louis C.K. interpreta um roteirista de televisão que está passando uma temporada com a filha adolescente China (Chlöe Grace Moretz). A garota gosta de dizer que ama o pai, até porque o pai costuma satisfazer suas vontades. Como ir passar uma temporada com um grupo de outros adolescentes, fazendo só Deus sabe o quê. Em uma de suas primeiras cenas, Chlöe aparece muito à vontade de biquíni na casa do pai, enquanto ele conversa com o colega de trabalho. O fato de ela estar de biquíni nem deveria representar nada de mais do ponto de vista do erotismo, mas isso depende de quem vê o filme.
No entanto, não é a isso que I LOVE YOU, DADDY se apega. A verdadeira trama do filme surge quando a filha conhece um famoso cineasta veterano acusado de estupro e pedofilia. O sujeito é vivido por John Malkovich. Inicialmente, ela diz odiar o tal diretor, mas à medida que vai conversando com ele, começa a aproximação e posterior paixão. Por ele ser tão mais velho que ela, e ela ainda não ter completado 18 anos, a coisa fica mais delicada para o pai da garota, que se vê na tentativa de afastar a filha daquele velho tarado.
E o interessante é que Malkovich não faz muitos esforços. Ele apenas faz o papel habitual de personagem blasé e com uma boa dose de autoconfiança. Meio que uma variação do que ele já fez em outros filmes. Há outra subtrama que merece menção, que é a da personagem de Rose Byrne, uma atriz linda (e grávida) que ganha o coração do roteirista para ser a personagem principal de sua série. Quanto ao personagem de Malkovich, o curioso é que se a intenção de C.K. era mesmo dar uma alfinetada em Woody Allen, o tiro saiu pela culatra.
sábado, março 31, 2018
sexta-feira, março 30, 2018
DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR (Un Beau Soleil Intérieur)
Há uma cena de DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR (2017) em que uma já cansada e sofrida Isabelle (Juliette Binoche) está em um táxi e pergunta ao motorista se ele está bem, como ele está se sentindo, quer, sinceramente, também saber dele. Tanto para saber do sofrimento alheio e quem sabe entender um pouco o seu, quanto para, talvez, se sentir menos sozinha ou mesmo encontrar alguma forma de alento. Esta é uma das mais belas, tristes e poéticas cenas do filme, embora seja também uma das mais simples. Precisa ser vista dentro do contexto dos acontecimentos anteriores para que seja melhor sentida.
No começo deste novo trabalho de Claire Denis, Isabelle, a heroína da narrativa, conversa de maneira bem pouco natural sobre seu drama, a dificuldade de encontrar alguém para amar, quase como se fosse um musical sem atores cantando. Na primeira cena do filme ela está transando com o amante, um homem casado, um banqueiro um tanto cínico. Ela é uma artista plástica que vive uma vida de menos posses para esbanjar, por isso o homem em certo momento a chama de proletária.
Mas a questão do dinheiro nem é um elemento forte do filme, não. O mais importante é a busca pelo amor, uma busca que esbarra constantemente em frustrações, em sentimento de rejeição. A história certamente encontrará identificação por parte do público, especialmente de um público que vive momentos frequentes de instabilidade na vida amorosa. Daí será fácil se ver um pouco na personagem de Binoche.
Aliás, que mulher, meus amigos. Esta afirmação é muito óbvia, levando em consideração que acompanhamos a atriz desde os anos 1980 e sempre com muita admiração, seja pela beleza, seja pela sensibilidade com que ela agarra os papéis. Mas em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR ela parece estar mais plena como mulher. É possível que pelo olhar de uma diretora como Claire Denis ela tenha alcançado outro patamar de sensibilidade. Uma mulher desta vez vista pelo olhar de outra mulher.
E justamente por ser tão bela e tão apaixonante, é tão irritante vê-la ser rejeitada como nas cenas com o personagem do ator de teatro vivido por Nicolas Duvauchelle, que apareceu em DESEJO E OBSESSÃO (2001) e MINHA TERRA, ÁFRICA (2009), ambos da diretora. As cenas com Duvauchelle talvez sejam as melhores do filme, no sentido de mostrar a tensão de um primeiro encontro, a dúvida sobre o passo seguinte a dar, as palavras como agentes de atrito etc.
Talvez o filme comece a derrapar a partir de uma cena de festa, em que aparece um sujeito um tanto exótico, que chama a atenção de Isabelle. Sua aparência e seus gestos até provocam alguns risos da plateia. O humor em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR é bastante singular e muito bem-vindo, servindo para atenuar o tom de tristeza da personagem.
Terminar como terminou representa uma promessa de um futuro melhor, ou ao menos de uma aceitação por parte da personagem sobre sua vida e seu destino. O conselho do personagem de Gerard Depardieu, em pequeno papel, parece um pouco óbvio até, mas como esquecemos continuamente tantas lições que a vida já nos ensina, é necessário que certas coisas sejam novamente ditas e lembradas.
Há momentos que lembram David Lynch: Binoche dançando ao som de "At last", em linda interpretação de Etta James, como escolha ideal de canção sobre a definitiva (?) chegada do verdadeiro amor; ou mesmo a primeira aparição de Depardieu dentro de um carro, quebrando um pouco a linha narrativa, inserem na obra um ar surreal bem-vindo. Estar "aberta", neste caso, vale também para as escolhas de Denis.
No começo deste novo trabalho de Claire Denis, Isabelle, a heroína da narrativa, conversa de maneira bem pouco natural sobre seu drama, a dificuldade de encontrar alguém para amar, quase como se fosse um musical sem atores cantando. Na primeira cena do filme ela está transando com o amante, um homem casado, um banqueiro um tanto cínico. Ela é uma artista plástica que vive uma vida de menos posses para esbanjar, por isso o homem em certo momento a chama de proletária.
Mas a questão do dinheiro nem é um elemento forte do filme, não. O mais importante é a busca pelo amor, uma busca que esbarra constantemente em frustrações, em sentimento de rejeição. A história certamente encontrará identificação por parte do público, especialmente de um público que vive momentos frequentes de instabilidade na vida amorosa. Daí será fácil se ver um pouco na personagem de Binoche.
Aliás, que mulher, meus amigos. Esta afirmação é muito óbvia, levando em consideração que acompanhamos a atriz desde os anos 1980 e sempre com muita admiração, seja pela beleza, seja pela sensibilidade com que ela agarra os papéis. Mas em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR ela parece estar mais plena como mulher. É possível que pelo olhar de uma diretora como Claire Denis ela tenha alcançado outro patamar de sensibilidade. Uma mulher desta vez vista pelo olhar de outra mulher.
E justamente por ser tão bela e tão apaixonante, é tão irritante vê-la ser rejeitada como nas cenas com o personagem do ator de teatro vivido por Nicolas Duvauchelle, que apareceu em DESEJO E OBSESSÃO (2001) e MINHA TERRA, ÁFRICA (2009), ambos da diretora. As cenas com Duvauchelle talvez sejam as melhores do filme, no sentido de mostrar a tensão de um primeiro encontro, a dúvida sobre o passo seguinte a dar, as palavras como agentes de atrito etc.
Talvez o filme comece a derrapar a partir de uma cena de festa, em que aparece um sujeito um tanto exótico, que chama a atenção de Isabelle. Sua aparência e seus gestos até provocam alguns risos da plateia. O humor em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR é bastante singular e muito bem-vindo, servindo para atenuar o tom de tristeza da personagem.
Terminar como terminou representa uma promessa de um futuro melhor, ou ao menos de uma aceitação por parte da personagem sobre sua vida e seu destino. O conselho do personagem de Gerard Depardieu, em pequeno papel, parece um pouco óbvio até, mas como esquecemos continuamente tantas lições que a vida já nos ensina, é necessário que certas coisas sejam novamente ditas e lembradas.
Há momentos que lembram David Lynch: Binoche dançando ao som de "At last", em linda interpretação de Etta James, como escolha ideal de canção sobre a definitiva (?) chegada do verdadeiro amor; ou mesmo a primeira aparição de Depardieu dentro de um carro, quebrando um pouco a linha narrativa, inserem na obra um ar surreal bem-vindo. Estar "aberta", neste caso, vale também para as escolhas de Denis.
terça-feira, março 20, 2018
MARIA MADALENA (Mary Magdalene)
Já há tantos filmes sobre Jesus que atualmente os realizadores se sentem na obrigação de mudarem um pouco o foco, o ponto de partida, o recorte ou mesmo o ponto de vista. Temos o caso recente de ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO, de Rodrigo García, que fazia um recorte do período em que Cristo combateu as tentações durante sete dias, em jejum. MARIA MADALENA (2018), de Garth Davis, é um pouco mais ousado em sua proposta: quer contar a história pelo ponto de vista de Madalena.
É interessante como, até os dias de hoje, a imagem de Maria Madalena ainda é associada a uma prostituta. Ou, no mínimo, a uma mulher com uma sexualidade muito forte. O próprio filme de Martin Scorsese, A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, em sua adaptação do romance homônimo de Nikos Kazantzákis, mistura a personagem de Madalena com a mulher que seria apedrejada e é salva pelo Nazareno.
Por isso causa estranheza ver uma Madalena até mais ativa em servir ao mestre do que os apóstolos Pedro (Chiwetel Ejiofor) e Judas (Tahar Rahim), para citar os dois que mais aparecem na narrativa. Rooney Mara está ótima como uma Madalena que acredita ser possuída por demônios - seus familiares acham que são os demônios que a impedem de querer se casar com um forte pretendente. Como ela não nutre amor pelo homem, quer mesmo é seguir aquele estranho e intrigante profeta que tem arrebanhado cada vez mais pessoas por onde passa.
Demora um pouco para aceitarmos Joaquin Phoenix como Jesus, mas aos poucos sua imagem como Cristo se torna até interessante. Inclusive nas escolhas do filme em mostrá-lo sorrindo, junto com Madalena, em cenas que compartilham juntos. Passa uma leveza que normalmente não se vê em obras que tratam da vida de Jesus. Embora haja cenas da crucificação, elas são rápidas, o que não quer dizer que não sejam dolorosas.
O que também impressiona é o diferencial no que se refere à ressurreição de Jesus, trazendo dúvidas sobre seu real e material ressurgimento do sepulcro. Afinal, ele aparece apenas para Madalena e é ela a portadora da boa nova, de que Jesus vive. Ao que parece, o filme não optou por ser fiel ao evangelhos canônicos, sendo mais próximo dos evangelhos apócrifos.
Algo que fica no ar é um certo clima de amor romântico não consumado que parece haver entre Madalena e Jesus. Porém, este tipo de impressão pode dizer mais do espectador do que filme em si, já que não é de maneira nenhuma explicitado. Talvez a impressão fique por causa da beleza esplendorosa de Rooney Mara, de seu olhar e de seu sorriso, ao olhar para o mestre. Longe de trazer volúpia, mas sim uma figura cheia de energia e amor, o que pode confundir. De todo modo, esse tipo de confusão está de acordo com certo diálogo entre Pedro e outro apóstolo: os dois acreditam que a entrada de Madalena no corpo de apóstolos não seria bom para o grupo.
Quanto à narrativa, é bom termos um filme narrado sem pressa, sem um particular interesse em conquistar um grande público. É um trabalho quase sensorial, no modo como brinca com a luz e com os olhares e os diálogos lentos dos personagens. MARIA MADALENA pode até não ser um grande filme, mas certamente está bem longe de ser uma obra ordinária ou esquecível, e ainda tem como vantagem o fato de dialogar com o atual momento de empoderamento feminino.
É interessante como, até os dias de hoje, a imagem de Maria Madalena ainda é associada a uma prostituta. Ou, no mínimo, a uma mulher com uma sexualidade muito forte. O próprio filme de Martin Scorsese, A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, em sua adaptação do romance homônimo de Nikos Kazantzákis, mistura a personagem de Madalena com a mulher que seria apedrejada e é salva pelo Nazareno.
Por isso causa estranheza ver uma Madalena até mais ativa em servir ao mestre do que os apóstolos Pedro (Chiwetel Ejiofor) e Judas (Tahar Rahim), para citar os dois que mais aparecem na narrativa. Rooney Mara está ótima como uma Madalena que acredita ser possuída por demônios - seus familiares acham que são os demônios que a impedem de querer se casar com um forte pretendente. Como ela não nutre amor pelo homem, quer mesmo é seguir aquele estranho e intrigante profeta que tem arrebanhado cada vez mais pessoas por onde passa.
Demora um pouco para aceitarmos Joaquin Phoenix como Jesus, mas aos poucos sua imagem como Cristo se torna até interessante. Inclusive nas escolhas do filme em mostrá-lo sorrindo, junto com Madalena, em cenas que compartilham juntos. Passa uma leveza que normalmente não se vê em obras que tratam da vida de Jesus. Embora haja cenas da crucificação, elas são rápidas, o que não quer dizer que não sejam dolorosas.
O que também impressiona é o diferencial no que se refere à ressurreição de Jesus, trazendo dúvidas sobre seu real e material ressurgimento do sepulcro. Afinal, ele aparece apenas para Madalena e é ela a portadora da boa nova, de que Jesus vive. Ao que parece, o filme não optou por ser fiel ao evangelhos canônicos, sendo mais próximo dos evangelhos apócrifos.
Algo que fica no ar é um certo clima de amor romântico não consumado que parece haver entre Madalena e Jesus. Porém, este tipo de impressão pode dizer mais do espectador do que filme em si, já que não é de maneira nenhuma explicitado. Talvez a impressão fique por causa da beleza esplendorosa de Rooney Mara, de seu olhar e de seu sorriso, ao olhar para o mestre. Longe de trazer volúpia, mas sim uma figura cheia de energia e amor, o que pode confundir. De todo modo, esse tipo de confusão está de acordo com certo diálogo entre Pedro e outro apóstolo: os dois acreditam que a entrada de Madalena no corpo de apóstolos não seria bom para o grupo.
Quanto à narrativa, é bom termos um filme narrado sem pressa, sem um particular interesse em conquistar um grande público. É um trabalho quase sensorial, no modo como brinca com a luz e com os olhares e os diálogos lentos dos personagens. MARIA MADALENA pode até não ser um grande filme, mas certamente está bem longe de ser uma obra ordinária ou esquecível, e ainda tem como vantagem o fato de dialogar com o atual momento de empoderamento feminino.
quinta-feira, março 15, 2018
TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM
Saí da sessão de TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM (2017) pensando na bênção da juventude. Uma bênção que vem junto com uma pitada de maldição no pacote. Ao mesmo tempo que a juventude traz vitalidade, inquietação muitas vezes saudável e uma maior possibilidade de inspiração para as mais diversas artes, é também neste período que mais se instala no jovem sentimentos sombrios, especialmente em indivíduos com algum grau de genialidade.
A história do poeta piauiense Torquato Neto pode trazer também questionamentos sobre o grau de visibilidade e talento que certos poetas alcançam. No caso de Torquato, o rapaz teve a sorte de ter se enturmado com o pessoal da Tropicália. Caetano, Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Rogério Duprat são alguns dos participantes do coletivo que mudou a história da música brasileira no final dos anos 1960.
O próprio Torquato acreditava que, naquele momento, a poesia dos livros estava em baixa, em termos de popularidade, mas que ela tinha muito mais chances de alcançar um público maior através da música, até pela tradição brasileira de ótimos letristas. E assim ele foi estabelecendo parcerias com cantores. Gal Costa cantou “Mamãe, coragem”, canção feita para a mãe de Torquato, que sentia a ausência do filho, que partiu para o Rio de Janeiro junto com a turma da música. Além da importante participação no disco-manifesto Tropicália, Torquato ainda fez parceria com músicos como Jards Macalé e Edu Lobo.
A Tropicália e a popularidade de Torquato Neto surgiram em um contexto bastante delicado da política brasileira, já que estávamos vivendo uma das mais violentas ditaduras. Foi nesse contexto que Torquato assinou a coluna “Geleia Geral”, para o jornal Última Hora. Nesse espaço, sua aproximação com o cinema se acentuou cada vez mais. Primeiro com o Cinema Novo, depois com o Cinema Marginal, mais adiante com um tipo de cinema ainda mais marginal, os pequenos filmes em super-8, como o cultuado NOSFERATO NO BRASIL (1970), de Ivan Cardoso, em que o próprio Torquato interpreta o personagem-título. A figura magra de Torquato caiu muito bem com a imagem de um vampiro nos trópicos, embora Cardoso insistisse para que ele não usasse as sandálias de couro.
Tudo isso é visto em TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM, mas de maneira que o filme não parecesse com um documentário tradicional. A opção por não mostrar as entrevistas com as pessoas que tiveram alguma relação com o poeta e que aparecem na teia narrativa foi, segundo os diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando, uma forma de honrar mais Torquato: se o próprio poeta não tinha um vídeo, apenas áudios, todos os outros ganharam apenas comentários em áudio também, o que não chega a ser problema nenhum. Faz parte do charme do documentário.
Uma curiosidade deste longa é que, à medida que ele se aproxima do final, o sentimento de ansiedade e excitação dos primeiros anos de envolvimento com a música por parte de Torquato, vai se transformando em um desinteresse pela vida, quando o poeta passa por uma tentativa de ganhar algum sucesso profissional e artístico quando viaja para a Europa, mas que acaba tendo seus planos bem frustrados. As cartas, que ouvimos pela voz de Jesuíta Barbosa, passam uma sensação de melancolia contagiante.
Ao final do filme, já é quase possível entender o caminho do poeta pelo suicídio aos 28 anos, devido ao vazio que parece se instalar, embora em momento algum o filme explore de maneira pouco respeitosa a depressão e os detalhes envolvendo as tentativas anteriores do poeta de tirar a própria vida. Além do mais, pode não ter sido proposital da parte dos diretores, mas os filmes em super-8 acabam criando uma sensação de desinteresse estranho dentro do que até então havia sido visto. Há inúmeras maneiras de interpretar essas imagens, mas talvez seja bom deixar no ar o que elas podem significar.
Talvez tenha faltado mais ao filme um pouco mais de exploração da poesia de Torquato, de excertos de sua arte no campo das palavras. De todo modo, é possível ver o artista multifacetado e inquieto que ele foi, através das canções (as duas que Gal Costa canta e outras), incluindo uma que encerra o filme, de seu envolvimento com o artista plástico Hélio Oiticica e de seu amor e interesse pelo cinema. Uma prova de que a poesia, para Torquato, ia além das palavras.
segunda-feira, março 12, 2018
TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER
É raro ver um filme brasileiro contemporâneo que trate com seriedade da questão da depressão. Antes tínhamos Walter Hugo Khouri, que com frequência tratava do tema com profundidade. Por isso o filme de estreia de Pedro Coutinho, TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (2017), merece a devida atenção, por mais que seja um trabalho pequeno e modesto.
Os próprios motivos de o personagem de Johnny Massaro se ver em uma teia de tarjas pretas, psicoterapias e tentativas de encontrar um outro alguém pode parecer pequena para muitos: o fim de um namoro de três anos. Quem já passou por esse tipo de situação, de sofrer muito com a ausência da pessoa amada, mesmo duvidando do quanto gostava dela, vai pelo menos se sentir, com frequência, nos sapatos do jovem rapaz.
O fim do relacionamento, que veio por parte de Sofia (Bianca Comparato), foi algo tão surpreendente para Antonio (Massaro) que ele acredita que ele fica à deriva, sem saber para onde ir e o que fazer, mas acredita que sobreviverá facilmente a isso. Tanto que evita entrar em contato com Bianca durante esse primeiro período de tentativa de ficar sozinho novamente.
Primeiro, ele experimenta morar provisoriamente na casa de um casal de amigos, mas o casal estava passando por uma crise e estava fazendo terapia de casal, justo no momento em que ele chega. E é quando ele conhece a terapeuta, que tratará do seu caso também. As cenas com a terapeuta talvez sejam as menos interessantes do filme, mas são a partir delas que algumas perguntas funcionam como gatilho para que Antonio repense os motivos da separação e suas motivações para seguir adiante. Sem falar, que há algo de patético na figura da terapeuta também, que a torna especialmente interessante e um dos alívios cômicos do filme.
Aliás, muito bom poder rir em alguns momentos também. Rir, junto com o personagem, ajuda o espectador a se aproximar mais dele, como na cena de tentativa de conversa com moças via Tinder. E, a partir dessa aproximação, somos também convidados a compartilhar com Antonio de seu momento mais fundo do poço, de muito choro e enfrentamento da dor. E ter um final tão belo e agridoce também ajuda a deixar o filme ao menos simpático em nossa memória afetiva.
Os próprios motivos de o personagem de Johnny Massaro se ver em uma teia de tarjas pretas, psicoterapias e tentativas de encontrar um outro alguém pode parecer pequena para muitos: o fim de um namoro de três anos. Quem já passou por esse tipo de situação, de sofrer muito com a ausência da pessoa amada, mesmo duvidando do quanto gostava dela, vai pelo menos se sentir, com frequência, nos sapatos do jovem rapaz.
O fim do relacionamento, que veio por parte de Sofia (Bianca Comparato), foi algo tão surpreendente para Antonio (Massaro) que ele acredita que ele fica à deriva, sem saber para onde ir e o que fazer, mas acredita que sobreviverá facilmente a isso. Tanto que evita entrar em contato com Bianca durante esse primeiro período de tentativa de ficar sozinho novamente.
Primeiro, ele experimenta morar provisoriamente na casa de um casal de amigos, mas o casal estava passando por uma crise e estava fazendo terapia de casal, justo no momento em que ele chega. E é quando ele conhece a terapeuta, que tratará do seu caso também. As cenas com a terapeuta talvez sejam as menos interessantes do filme, mas são a partir delas que algumas perguntas funcionam como gatilho para que Antonio repense os motivos da separação e suas motivações para seguir adiante. Sem falar, que há algo de patético na figura da terapeuta também, que a torna especialmente interessante e um dos alívios cômicos do filme.
Aliás, muito bom poder rir em alguns momentos também. Rir, junto com o personagem, ajuda o espectador a se aproximar mais dele, como na cena de tentativa de conversa com moças via Tinder. E, a partir dessa aproximação, somos também convidados a compartilhar com Antonio de seu momento mais fundo do poço, de muito choro e enfrentamento da dor. E ter um final tão belo e agridoce também ajuda a deixar o filme ao menos simpático em nossa memória afetiva.
quinta-feira, março 08, 2018
BIG LITTLE LIES
Em determinado momento de BIG LITTLE LIES (2017), Madeline (Reese Witherspoon) conversa com a amiga Celeste (Nicole Kidman), ao telefone, dando a entender que Celeste tem uma vida perfeita, é casada com um homem bom, rico e bonito e tem filhos gêmeos perfeitos. Celeste, que convive com a violência doméstica diariamente, diz, frustrada, que sua vida não é perfeita, que tem passado por coisas ruins também. O marido, vivido por um aterrorizante Alexander Skarsgård, está ali perto, e pergunta à esposa, em tom ameaçador, o que seriam as tais coisas ruins que ela comenta com a amiga.
A princípio, BIG LITTLE LIES pode incomodar um pouco por mostrar a rotina de dondocas ricas vivendo na bela cidade litorânea de Monterey, na Califórnia. Mas é fácil se solidarizar com seus dramas, se importar cada vez mais com ela, mesmo os de Madeline, a dondoca-mor da comunidade, que vive ainda enciumada do ex, fazendo com que o novo marido se sinta rejeitado, por mais companheiro que ele seja.
Jane, a personagem de Shailene Woodley, é nova na cidade, e logo sabemos que seu drama é o mais perturbador: ela tem um filho nascido de um estupro. E já no primeiro dia de escola seu garotinho é acusado de ter agredido uma menina, filha de uma das mulheres mais influentes da cidade, Renata Klein (Laura Dern). O menino não sabe quem é o pai e tem muita curiosidade em saber suas origens.
Deu para perceber que BIG LITTLE LIES tem como principal tema a questão da violência doméstica. Mas a abordagem que o criador e roteirista David E. Kelley usa faz toda a diferença. Os créditos de abertura são lindos, apresentando apenas as personagens femininas dirigindo seus carros com seus filhos pequenos no banco traseiro. Mulheres e crianças são os grandes protagonistas dessa história. Mesmo Laura Dern desempenhando uma espécie de megera na trama, a série trata de mostrar a sororidade entre as personagens de modo tocante.
A série começa com um crime que é deixado em aberto até o final. E talvez a questão do crime seja um pouco o calcanhar de Aquiles desta temporada de BIG LITTLE LIES (inicialmente pensada como minissérie, mas que foi renovada por mais um ano). Isso acontece porque vários personagens que não desempenham papéis importantes, moradores de Monterey e supostas testemunhas dos atos das protagonistas, falam sobre o que viram e que poderia ter sido um dos motivos de a tal morte ter acontecido. Mas até isso funciona bem no final.
BIG LITTLE LIES ganhou quatro prêmios no Globo de Ouro: melhor minissérie, melhor atriz (Nicole Kidman), melhor ator coadjuvante (Alexander Skarsgård) e melhor atriz coadjuvante (Laura Dern).
A princípio, BIG LITTLE LIES pode incomodar um pouco por mostrar a rotina de dondocas ricas vivendo na bela cidade litorânea de Monterey, na Califórnia. Mas é fácil se solidarizar com seus dramas, se importar cada vez mais com ela, mesmo os de Madeline, a dondoca-mor da comunidade, que vive ainda enciumada do ex, fazendo com que o novo marido se sinta rejeitado, por mais companheiro que ele seja.
Jane, a personagem de Shailene Woodley, é nova na cidade, e logo sabemos que seu drama é o mais perturbador: ela tem um filho nascido de um estupro. E já no primeiro dia de escola seu garotinho é acusado de ter agredido uma menina, filha de uma das mulheres mais influentes da cidade, Renata Klein (Laura Dern). O menino não sabe quem é o pai e tem muita curiosidade em saber suas origens.
Deu para perceber que BIG LITTLE LIES tem como principal tema a questão da violência doméstica. Mas a abordagem que o criador e roteirista David E. Kelley usa faz toda a diferença. Os créditos de abertura são lindos, apresentando apenas as personagens femininas dirigindo seus carros com seus filhos pequenos no banco traseiro. Mulheres e crianças são os grandes protagonistas dessa história. Mesmo Laura Dern desempenhando uma espécie de megera na trama, a série trata de mostrar a sororidade entre as personagens de modo tocante.
A série começa com um crime que é deixado em aberto até o final. E talvez a questão do crime seja um pouco o calcanhar de Aquiles desta temporada de BIG LITTLE LIES (inicialmente pensada como minissérie, mas que foi renovada por mais um ano). Isso acontece porque vários personagens que não desempenham papéis importantes, moradores de Monterey e supostas testemunhas dos atos das protagonistas, falam sobre o que viram e que poderia ter sido um dos motivos de a tal morte ter acontecido. Mas até isso funciona bem no final.
BIG LITTLE LIES ganhou quatro prêmios no Globo de Ouro: melhor minissérie, melhor atriz (Nicole Kidman), melhor ator coadjuvante (Alexander Skarsgård) e melhor atriz coadjuvante (Laura Dern).
segunda-feira, março 05, 2018
OSCAR 2018
Foi uma das premiações mais caretas em muitos anos. Não foi chata como a do ano passado, mas também não houve nenhum plot twist tão memorável. E nem poderia ter. Na verdade, o que mais se gostaria de ver era uma continuação ainda mais forte daquilo que foi bastante colocado na pauta do Globo de Ouro. Mas o tom de protesto já havia sido diminuído no tapete vermelho, com várias das estrelas vestidas de branco.
O discurso sobre as minorias não deixou de estar presente aqui e ali, porém. Desde a apresentação do host Jimmy Kimmel, que fez piada até com o fato de existir um filme chamado DO QUE AS MULHERES GOSTAM, estrelado por Mel Gibson, ou sobre o Oscar ser um sujeito de confiança por não ter um pênis. A ausência e quase apagamento de Casey Affleck por causa das acusações de assédio também deram o tom. Ele foi substituído por Jodie Foster e Jennifer Lawrence. Acabou rendendo uma das melhores piadas da noite, fazendo referência a EU, TONYA.
Quanto às premiações, houve poucas surpresas. Talvez só a de melhor documentário, que não foi para VISAGES, VILLAGES, mas para ÍCARO. Quanto ao prêmio principal, este era o mais esperado e o que mais estava rendendo várias possibilidades. O que foi algo bom. Existiu, por alguns momentos, a chance de CORRA! levar o prêmio principal, depois de ter ganhado melhor roteiro. Mas talvez isso fosse demais para Hollywood.
Ganhou Guillermo del Toro com um filme que atira para todos os lados e conseguiu agradar a muitos, inclusive trazendo em seu discurso a luta pelo fim dos muros separando as fronteiras. O fato de UMA MULHER FANTÁSTICA ter ganhado melhor filme e a atriz trans Daniela Vega ter subido ao palco para apresentar melhor a canção de ME CHAME PELO SEU NOME pareceu também muito feliz por parte dos organizadores.
Pode-se dizer que foi tudo muito bem pensado. Mas, justamente por isso, faltou tensão, faltou enfrentamento. Mas isso se deveu muito ao fato de o Oscar so white da edição de 2016 ter resultado em boa diversidade neste ano. Inclusive com a presença de Greta Gerwig concorrendo na direção e de uma primeira mulher na disputa de melhor diretora de fotografia na história da premiação. Ela perdeu para Roger Deakins, de BLADE RUNNER 2049, mas perder para um cara como esses chega a ser glorioso.
No mais, as piadas foram legais, ainda que bem tranquilas e comportadas, como a do jet ski, a da maconha e a brincadeira dos atores e o apresentador chegando de surpresa em uma sala de cinema ali pertinho. Deu vontade de estar lá.
Os Premiados
Melhor Filme – A FORMA DA ÁGUA
Direção – Guillermo del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Ator – Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Atriz – Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Ator Coadjuvante – Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Atriz Coadjuvante – Allison Janney (EU, TONYA)
Roteiro Original – CORRA!
Roteiro Adaptado – ME CHAME PELO SEU NOME
Fotografia – BLADE RUNNER 2049
Montagem – DUNKIRK
Trilha Sonora Original – A FORMA DA ÁGUA
Canção Original - "Remember me", de VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Mixagem de Som – DUNKIRK
Edição de Som – DUNKIRK
Efeitos Visuais – BLADE RUNNER 2049
Design de produção – A FORMA DA ÁGUA
Figurino – TRAMA FANTASMA
Maquiagem e cabelos – O DESTINO DE UMA NAÇÃO
Filme Estrangeiro – UMA MULHER FANTÁSTICA (Chile)
Longa de Animação – VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Curta de Animação – DEAR BASKETBALL
Curta-metragem – THE SILENT CHILD
Documentário – ÍCARO
Curta Documentário – HEAVEN IS A TRAFFIC ON THE 405
O discurso sobre as minorias não deixou de estar presente aqui e ali, porém. Desde a apresentação do host Jimmy Kimmel, que fez piada até com o fato de existir um filme chamado DO QUE AS MULHERES GOSTAM, estrelado por Mel Gibson, ou sobre o Oscar ser um sujeito de confiança por não ter um pênis. A ausência e quase apagamento de Casey Affleck por causa das acusações de assédio também deram o tom. Ele foi substituído por Jodie Foster e Jennifer Lawrence. Acabou rendendo uma das melhores piadas da noite, fazendo referência a EU, TONYA.
Quanto às premiações, houve poucas surpresas. Talvez só a de melhor documentário, que não foi para VISAGES, VILLAGES, mas para ÍCARO. Quanto ao prêmio principal, este era o mais esperado e o que mais estava rendendo várias possibilidades. O que foi algo bom. Existiu, por alguns momentos, a chance de CORRA! levar o prêmio principal, depois de ter ganhado melhor roteiro. Mas talvez isso fosse demais para Hollywood.
Ganhou Guillermo del Toro com um filme que atira para todos os lados e conseguiu agradar a muitos, inclusive trazendo em seu discurso a luta pelo fim dos muros separando as fronteiras. O fato de UMA MULHER FANTÁSTICA ter ganhado melhor filme e a atriz trans Daniela Vega ter subido ao palco para apresentar melhor a canção de ME CHAME PELO SEU NOME pareceu também muito feliz por parte dos organizadores.
Pode-se dizer que foi tudo muito bem pensado. Mas, justamente por isso, faltou tensão, faltou enfrentamento. Mas isso se deveu muito ao fato de o Oscar so white da edição de 2016 ter resultado em boa diversidade neste ano. Inclusive com a presença de Greta Gerwig concorrendo na direção e de uma primeira mulher na disputa de melhor diretora de fotografia na história da premiação. Ela perdeu para Roger Deakins, de BLADE RUNNER 2049, mas perder para um cara como esses chega a ser glorioso.
No mais, as piadas foram legais, ainda que bem tranquilas e comportadas, como a do jet ski, a da maconha e a brincadeira dos atores e o apresentador chegando de surpresa em uma sala de cinema ali pertinho. Deu vontade de estar lá.
Os Premiados
Melhor Filme – A FORMA DA ÁGUA
Direção – Guillermo del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Ator – Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Atriz – Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Ator Coadjuvante – Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Atriz Coadjuvante – Allison Janney (EU, TONYA)
Roteiro Original – CORRA!
Roteiro Adaptado – ME CHAME PELO SEU NOME
Fotografia – BLADE RUNNER 2049
Montagem – DUNKIRK
Trilha Sonora Original – A FORMA DA ÁGUA
Canção Original - "Remember me", de VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Mixagem de Som – DUNKIRK
Edição de Som – DUNKIRK
Efeitos Visuais – BLADE RUNNER 2049
Design de produção – A FORMA DA ÁGUA
Figurino – TRAMA FANTASMA
Maquiagem e cabelos – O DESTINO DE UMA NAÇÃO
Filme Estrangeiro – UMA MULHER FANTÁSTICA (Chile)
Longa de Animação – VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Curta de Animação – DEAR BASKETBALL
Curta-metragem – THE SILENT CHILD
Documentário – ÍCARO
Curta Documentário – HEAVEN IS A TRAFFIC ON THE 405
domingo, março 04, 2018
THE POST - A GUERRA SECRETA (The Post)
Steven Spielberg tem um especial interesse pela História dos Estados Unidos desde criança. De acordo com o que ele mesmo diz no documentário SPIELBERG, de Susan Lacy, seus primeiros curtas experimentais foram sobre a Segunda Guerra Mundial, especialmente sobre situações envolvendo os aviões. Não por acaso, sua primeira experimentação profissional com a guerra foi em uma comédia, 1941 - UMA GUERRA MUITO LOUCA (1979). Só anos depois ele se atreveu a fazer um filme "sério" sobre a guerra, O IMPÉRIO DO SOL (1987), o primeiro de vários.
THE POST - A GUERRA SECRETA (2017) não é sobre a guerra, não a guerra que ele tanto prefere citar em suas obras, talvez por ser a guerra mais honrada dos americanos, mas, como o próprio título brasileiro diz, sobre uma guerra secreta, uma guerra acontecendo nos bastidores, em um momento em que os Estados Unidos estavam sob a mão de um presidente vilão. Não à toa, este filme chega em um momento em que o país está sendo governado por Donald Trump, um motivo e tanto para que Hollywood volte a ser tão politizada quanto foi nos anos 1970.
E chegamos em 1971, ano em que se passa a história de THE POST, quando repórteres do jornal The Washington Post, em especial Ben Bradlee (Tom Hanks), tentam a todo custo conseguir um furo e acabam descobrindo algo muito podre no governo de Richard Nixon. Na verdade, o tal furo foi conseguido de mãos beijadas por uma anônima, que distribuiu documentos secretos que incriminavam o Governo, que mentiu muito sobre a Guerra do Vietnã.
A semelhança de THE POST com o oscarizado SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy, é talvez só o caráter investigativo e uma visão mais gloriosa do jornalismo, embora, surpreendentemente, Spielberg consiga criar uma figura cínica do personagem de Hanks, e uma posição relativamente heroica da publisher Kay Graham, vivida por Meryl Streep. Não deixa de ser um alívio, levando em consideração que ele poderia ir pelo caminho fácil do bem contra o mal, pintando seus heróis com imagens essencialmente puras.
Outra vantagem de THE POST em relação ao filme que levou o Oscar é que Spielberg é muito mais cineasta, e isso transparece lindamente nas cenas em que sua câmera passeia pelos ambientes físicos do jornal, como nas reuniões, e nos vários planos-sequência. Há muito verbalismo sim, mas a palavra aqui é importante. E é interessante perceber que o cineasta não nos introduz tão facilmente ao enredo. É preciso prestar atenção para ir se acostumando e entendendo o ambiente e a situação, para depois se ver engolfado no suspense crescente da trama.
Além de contar com Streep e Hanks, há um elenco de apoio excepcional em THE POST: Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts (que, aliás, está em LADY BIRD também), Bruce Greenwood, Alison Brie, Bradley Whitford, Jesse Plemons. Um elenco grandioso que, compreensivelmente, é mal utilizado, em prol da trama. Um cineasta do porte de Spielberg pode se dar a esse luxo e aqui entrega seu melhor trabalho desde MUNIQUE (2005). Vale destacar também a 17ª parceria com o excelente diretor de fotografia Janusz Kaminski, que tem trabalhado com Spielberg desde A LISTA DE SCHINDLER (1993).
THE POST - A GUERRA SECRETA recebeu apenas duas indicações ao Oscar: filme e atriz (Meryl Streep).
THE POST - A GUERRA SECRETA (2017) não é sobre a guerra, não a guerra que ele tanto prefere citar em suas obras, talvez por ser a guerra mais honrada dos americanos, mas, como o próprio título brasileiro diz, sobre uma guerra secreta, uma guerra acontecendo nos bastidores, em um momento em que os Estados Unidos estavam sob a mão de um presidente vilão. Não à toa, este filme chega em um momento em que o país está sendo governado por Donald Trump, um motivo e tanto para que Hollywood volte a ser tão politizada quanto foi nos anos 1970.
E chegamos em 1971, ano em que se passa a história de THE POST, quando repórteres do jornal The Washington Post, em especial Ben Bradlee (Tom Hanks), tentam a todo custo conseguir um furo e acabam descobrindo algo muito podre no governo de Richard Nixon. Na verdade, o tal furo foi conseguido de mãos beijadas por uma anônima, que distribuiu documentos secretos que incriminavam o Governo, que mentiu muito sobre a Guerra do Vietnã.
A semelhança de THE POST com o oscarizado SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy, é talvez só o caráter investigativo e uma visão mais gloriosa do jornalismo, embora, surpreendentemente, Spielberg consiga criar uma figura cínica do personagem de Hanks, e uma posição relativamente heroica da publisher Kay Graham, vivida por Meryl Streep. Não deixa de ser um alívio, levando em consideração que ele poderia ir pelo caminho fácil do bem contra o mal, pintando seus heróis com imagens essencialmente puras.
Outra vantagem de THE POST em relação ao filme que levou o Oscar é que Spielberg é muito mais cineasta, e isso transparece lindamente nas cenas em que sua câmera passeia pelos ambientes físicos do jornal, como nas reuniões, e nos vários planos-sequência. Há muito verbalismo sim, mas a palavra aqui é importante. E é interessante perceber que o cineasta não nos introduz tão facilmente ao enredo. É preciso prestar atenção para ir se acostumando e entendendo o ambiente e a situação, para depois se ver engolfado no suspense crescente da trama.
Além de contar com Streep e Hanks, há um elenco de apoio excepcional em THE POST: Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts (que, aliás, está em LADY BIRD também), Bruce Greenwood, Alison Brie, Bradley Whitford, Jesse Plemons. Um elenco grandioso que, compreensivelmente, é mal utilizado, em prol da trama. Um cineasta do porte de Spielberg pode se dar a esse luxo e aqui entrega seu melhor trabalho desde MUNIQUE (2005). Vale destacar também a 17ª parceria com o excelente diretor de fotografia Janusz Kaminski, que tem trabalhado com Spielberg desde A LISTA DE SCHINDLER (1993).
THE POST - A GUERRA SECRETA recebeu apenas duas indicações ao Oscar: filme e atriz (Meryl Streep).
quinta-feira, março 01, 2018
QUATRO TÍTULOS INDICADOS AO OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO
É uma sorte quando o circuito exibidor dá espaço a todos os títulos indicados à categoria de filme em língua estrangeira no Oscar, como aconteceu neste ano. Mas essa sorte está associada, principalmente, ao fato de esses filmes terem sido vencedores nos principais festivais internacionais (Cannes, Berlim, Veneza). Seria este um fenômeno novo esse? Que eu me lembre, antes os indicados a esta categoria não estavam tão associados assim aos prêmios dos festivais. Pode ser positivo isso, embora os festivais não tenham acertado muito bem em suas escolhas.
THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (The Square)
O diretor Ruben Östlund ficou lembrado por um vídeo que ele, com muito bom humor, disponibilizou de sua revolta ao não ter sido indicado ao Oscar por FORÇA MAIOR (2014), um filme com ambições menores, mas bem melhor resolvido que este THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (2017), vencedor da Palma de Ouro em Cannes e representante da Suécia no Oscar. O novo trabalho de Östlund é gostoso de ver, tem uma beleza plástica agradável aos olhos, mas parece superficial por atirar para todos os lados. É ao mesmo tempo uma crítica à arte considerada nobre e também quer ser humanista, ao colocar seus personagens em posição de vergonha por seus atos. Apesar de relativamente longo em sua duração, a narrativa é bem conduzida, especialmente nas cenas envolvendo o assalto. Já a presença de Elisabeth Moss, embora sempre bem-vinda, pareceu desperdiçada em um papel pequeno. Mas gosto da cena da camisinha.
CORPO E ALMA (Teströl és lélekröl)
O filme da diretora Ildikó Enyedi conquistou o Urso de Ouro em Berlim e indicação ao Oscar pela Hungria. CORPO E ALMA (2017) chama a atenção por ser uma variação muito boa de uma história de amor entre pessoas com algum grau de deficiência. A história se passa em um matadouro, e confesso que foi um alívio ver que só há apenas uma cena de matança de animais (simulada). Não aguentaria se houvesse mais. O filme se concentra nessa relação entre um homem com um braço paralisado e uma mulher, sua chefe, autista. A relação dos dois se dá quando eles descobrem que compartilham o mesmo sonho. No sonho, eles são dois cervos que fazem sexo. Saber disso passa a ser essencial para uma aproximação mais íntima dos dois, por mais difícil que seja. Uma das cenas finais é perturbadoramente bela.
O INSULTO (L'Insulte / Qadiat Raqm 23)
Uma pena que O INSULTO comece tão bem, até lembrando um pouco o trabalho do iraniano Asghar Farhadi, mas que tenha uma conclusão pouco satisfatória, denunciando o quão quadrado é seu roteiro e suas intenções. A primeira hora é bem boa, centrando na trama da discussão boba entre dois homens de diferentes etnias no Líbano: um deles é palestino; o outro é libanês. A briga chega a situações bem pesadas e vai parar no tribunal, quando O INSULTO ganha ares de filme de tribunal tradicional. O diretor Ziad Doueiri, de LILA DIZ (2004), não tinha até então nenhum filme exibido na cidade. O INSULTO foi vencedor do Leão de Ouro em Veneza e é representante do Líbano no Oscar.
SEM AMOR (Nelyubov)
O novo filme de Andrei Zvyagintsev é uma bela surpresa. Surpreende principalmente por ser muito mais acessível do que o anterior, LEVIATÃ (2014), uma obra muito mais complexa e lenta. SEM AMOR (2017, foto) poderia muito bem passar em uma sala de circuito mais comercial sem nenhum medo de espantar um público maior. Na trama, marido e esposa vivem um divorcio litigioso e no meio do fogo cruzado o filho dos dois, um garotinho, se sente rejeitado e desaparece. A vida dos dois passa a girar em torno da busca pelo menino. Enquanto isso, o filme vai fazendo um estudo sobre os graus de frieza e egoísmo dos personagens. A fotografia é de uma lindeza impressionante. SEM AMOR ganhou o Prêmio do Júri em Cannes 2017 e é representante da Rússia no Oscar 2017. Em minha opinião, é melhor do que THE SQUARE.
THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (The Square)
O diretor Ruben Östlund ficou lembrado por um vídeo que ele, com muito bom humor, disponibilizou de sua revolta ao não ter sido indicado ao Oscar por FORÇA MAIOR (2014), um filme com ambições menores, mas bem melhor resolvido que este THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (2017), vencedor da Palma de Ouro em Cannes e representante da Suécia no Oscar. O novo trabalho de Östlund é gostoso de ver, tem uma beleza plástica agradável aos olhos, mas parece superficial por atirar para todos os lados. É ao mesmo tempo uma crítica à arte considerada nobre e também quer ser humanista, ao colocar seus personagens em posição de vergonha por seus atos. Apesar de relativamente longo em sua duração, a narrativa é bem conduzida, especialmente nas cenas envolvendo o assalto. Já a presença de Elisabeth Moss, embora sempre bem-vinda, pareceu desperdiçada em um papel pequeno. Mas gosto da cena da camisinha.
CORPO E ALMA (Teströl és lélekröl)
O filme da diretora Ildikó Enyedi conquistou o Urso de Ouro em Berlim e indicação ao Oscar pela Hungria. CORPO E ALMA (2017) chama a atenção por ser uma variação muito boa de uma história de amor entre pessoas com algum grau de deficiência. A história se passa em um matadouro, e confesso que foi um alívio ver que só há apenas uma cena de matança de animais (simulada). Não aguentaria se houvesse mais. O filme se concentra nessa relação entre um homem com um braço paralisado e uma mulher, sua chefe, autista. A relação dos dois se dá quando eles descobrem que compartilham o mesmo sonho. No sonho, eles são dois cervos que fazem sexo. Saber disso passa a ser essencial para uma aproximação mais íntima dos dois, por mais difícil que seja. Uma das cenas finais é perturbadoramente bela.
O INSULTO (L'Insulte / Qadiat Raqm 23)
Uma pena que O INSULTO comece tão bem, até lembrando um pouco o trabalho do iraniano Asghar Farhadi, mas que tenha uma conclusão pouco satisfatória, denunciando o quão quadrado é seu roteiro e suas intenções. A primeira hora é bem boa, centrando na trama da discussão boba entre dois homens de diferentes etnias no Líbano: um deles é palestino; o outro é libanês. A briga chega a situações bem pesadas e vai parar no tribunal, quando O INSULTO ganha ares de filme de tribunal tradicional. O diretor Ziad Doueiri, de LILA DIZ (2004), não tinha até então nenhum filme exibido na cidade. O INSULTO foi vencedor do Leão de Ouro em Veneza e é representante do Líbano no Oscar.
SEM AMOR (Nelyubov)
O novo filme de Andrei Zvyagintsev é uma bela surpresa. Surpreende principalmente por ser muito mais acessível do que o anterior, LEVIATÃ (2014), uma obra muito mais complexa e lenta. SEM AMOR (2017, foto) poderia muito bem passar em uma sala de circuito mais comercial sem nenhum medo de espantar um público maior. Na trama, marido e esposa vivem um divorcio litigioso e no meio do fogo cruzado o filho dos dois, um garotinho, se sente rejeitado e desaparece. A vida dos dois passa a girar em torno da busca pelo menino. Enquanto isso, o filme vai fazendo um estudo sobre os graus de frieza e egoísmo dos personagens. A fotografia é de uma lindeza impressionante. SEM AMOR ganhou o Prêmio do Júri em Cannes 2017 e é representante da Rússia no Oscar 2017. Em minha opinião, é melhor do que THE SQUARE.
quarta-feira, fevereiro 28, 2018
TRAMA FANTASMA (Phantom Thread)
Não é sempre que uma experiência tão densa e tão intensa quanto ver TRAMA FANTASMA (2017) no cinema é uma opção dentro do circuito de filmes. Uma sorte Paul Thomas Anderson ter conseguido um espaço considerável dentro do cinema mainstream e seus filmes poderem ser vistos até mesmo fora dos espaços dedicados apenas a cinema alternativo. Um privilégio e tanto. Até porque o filme chega também como sendo a despedida de Daniel Day-Lewis. O ator anunciou sua aposentadoria, mas se for mesmo o fim, é um fim digno de um gigante da atuação.
Além do mais, o papel de Day-Lewis aqui é bem diferente do de SANGUE NEGRO (2007), a parceria anterior do ator com PTA. Em vez de um personagem intenso, temos na figura do costureiro Reynolds Woodcock um homem muito delicado e sensível, embora bastante dominador. Temos aqui a figura de um artista meticuloso, que não pode e naturalmente não gosta de ser incomodado em seus momentos de criação, em especial pela manhã.
O interessante de TRAMA FANTASMA é que, ao terminar a sessão, ainda ficamos sem saber direito sobre o que é o filme. Pode ser tanto uma história de amor quanto uma história de horror. As duas coisas cabem muito bem e não são excludentes. Por isso dizer que é um filme romântico não seria errôneo, já que o termo "romântico" é muito mais amplo do que muitas pessoas imaginam. O romantismo pode e é associado à morbidez, ao sofrimento, à morte e a um amor que surge das maneiras mais estranhas.
Do outro lado da balança dessa história de amor temos Alma (Vicky Krieps), uma jovem mulher que trabalha como garçonete em uma cidadezinha e é cortejada e convidada a morar com o charmoso costureiro que tem idade para ser seu pai, em Londres. Simples e humilde, Alma parece que não durará muito no esquema cruel de rejeição que o costureiro está acostumado a tratar suas musas. Em geral, ele escolhe a moça e, depois de um tempo, com a ajuda da irmã Cyrill (Lesley Manville, brilhante), trata de despedi-la.
Acontece que com Alma a coisa é um pouco diferente. Principalmente quando ela começa a tomar uma atitude mais ativa para não ser deixada de lado. Ainda que a história não seja tão importante quanto a direção é, graças ao modo muito especial com que Paul Thomas Anderson pinta com tintas muito criativas e inspiradas seu conto perverso, o mais interessante é entrar na sessão sabendo o menos possível. Surpresas são bem-vindas, assim como o estranhamento que dá a TRAMA FANTASMA o seu aspecto único.
Um dos destaques do filme é a forma como o cineasta nos coloca dentro de ambientes fechados e claustrofóbicos de modo a nos deixar inquietos, mas também maravilhados. Até mesmo a posição da câmera do lado de fora de um carro dirigido por Reynolds é inusitada. Mas o que mais vemos são ações acontecendo dentro da casa, com uma escada apertada, por onde passam as várias mulheres que trabalham para o costureiro em uma espécie de ritual para a elaboração de suas obras de arte em forma de vestidos.
TRAMA FANTASMA guarda muitas semelhanças com o cinema de Douglas Sirk, e talvez também com o de algum outro cineasta da velha Hollywood adepto do melodrama, mas o que Paul Thomas Anderson retira do cinema clássico ele transforma em algo moderno e único. Ainda que possamos entender o esqueleto da trama como sendo, de certa forma, usual, isso é um dos motivos pelos quais o filme é tão envolvente e encantador, prendendo a atenção por cada detalhes do início ao fim de sua metragem. E o que é melhor: é o tipo de obra que fica com a gente por dias e dias, tornando-se objeto de afeto e admiração crescentes.
TRAMA FANTASMA recebeu seis indicações ao Oscar: filme, direção, ator (Day-Lewis), atriz coadjuvante (Leslie Manville), figurino e trilha sonora original (Jonny Greenwood).
Além do mais, o papel de Day-Lewis aqui é bem diferente do de SANGUE NEGRO (2007), a parceria anterior do ator com PTA. Em vez de um personagem intenso, temos na figura do costureiro Reynolds Woodcock um homem muito delicado e sensível, embora bastante dominador. Temos aqui a figura de um artista meticuloso, que não pode e naturalmente não gosta de ser incomodado em seus momentos de criação, em especial pela manhã.
O interessante de TRAMA FANTASMA é que, ao terminar a sessão, ainda ficamos sem saber direito sobre o que é o filme. Pode ser tanto uma história de amor quanto uma história de horror. As duas coisas cabem muito bem e não são excludentes. Por isso dizer que é um filme romântico não seria errôneo, já que o termo "romântico" é muito mais amplo do que muitas pessoas imaginam. O romantismo pode e é associado à morbidez, ao sofrimento, à morte e a um amor que surge das maneiras mais estranhas.
Do outro lado da balança dessa história de amor temos Alma (Vicky Krieps), uma jovem mulher que trabalha como garçonete em uma cidadezinha e é cortejada e convidada a morar com o charmoso costureiro que tem idade para ser seu pai, em Londres. Simples e humilde, Alma parece que não durará muito no esquema cruel de rejeição que o costureiro está acostumado a tratar suas musas. Em geral, ele escolhe a moça e, depois de um tempo, com a ajuda da irmã Cyrill (Lesley Manville, brilhante), trata de despedi-la.
Acontece que com Alma a coisa é um pouco diferente. Principalmente quando ela começa a tomar uma atitude mais ativa para não ser deixada de lado. Ainda que a história não seja tão importante quanto a direção é, graças ao modo muito especial com que Paul Thomas Anderson pinta com tintas muito criativas e inspiradas seu conto perverso, o mais interessante é entrar na sessão sabendo o menos possível. Surpresas são bem-vindas, assim como o estranhamento que dá a TRAMA FANTASMA o seu aspecto único.
Um dos destaques do filme é a forma como o cineasta nos coloca dentro de ambientes fechados e claustrofóbicos de modo a nos deixar inquietos, mas também maravilhados. Até mesmo a posição da câmera do lado de fora de um carro dirigido por Reynolds é inusitada. Mas o que mais vemos são ações acontecendo dentro da casa, com uma escada apertada, por onde passam as várias mulheres que trabalham para o costureiro em uma espécie de ritual para a elaboração de suas obras de arte em forma de vestidos.
TRAMA FANTASMA guarda muitas semelhanças com o cinema de Douglas Sirk, e talvez também com o de algum outro cineasta da velha Hollywood adepto do melodrama, mas o que Paul Thomas Anderson retira do cinema clássico ele transforma em algo moderno e único. Ainda que possamos entender o esqueleto da trama como sendo, de certa forma, usual, isso é um dos motivos pelos quais o filme é tão envolvente e encantador, prendendo a atenção por cada detalhes do início ao fim de sua metragem. E o que é melhor: é o tipo de obra que fica com a gente por dias e dias, tornando-se objeto de afeto e admiração crescentes.
TRAMA FANTASMA recebeu seis indicações ao Oscar: filme, direção, ator (Day-Lewis), atriz coadjuvante (Leslie Manville), figurino e trilha sonora original (Jonny Greenwood).
sábado, fevereiro 24, 2018
A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water)
Guillermo del Toro é desses cineastas do qual se pode esperar as mais diversas reações. Além de não ser uma unanimidade entre os gostos dos cinéfilos em geral, seus filmes oscilam mesmo entre aqueles que valorizam seu trabalho.
Porém, uma coisa que se percebe ao ver A FORMA DA ÁGUA (2017) é que o cineasta não tem uma sensibilidade muito apurada quando quer tratar de histórias de amor. Falta a esta história de amor entre uma zeladora muda de uma instituição militar dos anos 1960 e uma criatura capturada no Rio Amazonas uma sutileza que torne tanto o enredo quanto a caracterização dos personagens críveis e efetivamente comoventes.
Posso estar sendo um pouco cínico ao dizer isso, mas, para conquistar as mais diferentes plateias, del Toro atira para todos os lados: quer agradar as minorias (gays, mulheres negras, pessoas com deficiência), tratar de assédio sexual e mostrar uma mulher como empoderada e protagonista da ação. Além disso, quer mostrar seu amor pelo cinema com cenas que não parecem caber muito bem em seu estilo, por mais que o amor que ele sinta pela arte seja genuíno e verdadeiro. Para completar, del Toro ainda mostra que não faz concessões à indústria, trazendo cenas de nudez (frontal, inclusive) e um pouco de gore. Nada disto é pecado. De jeito nenhum. Mas a impressão que dá é que parece forçado e não espontâneo.
O filme conta a história de uma zeladora muda (Sally Hawkins) que trabalha em uma instituição secreta militar do governo americano da década de 1960. Como ela é responsável, junto com sua melhor amiga (Octavia Spencer), de limpar o local, ela descobre que uma criatura foi capturada e está presa, que essa criatura é capaz de se comunicar, e que essa mesma criatura está sofrendo violência física de um dos homens do governo, o personagem de Michael Shannon.
Aliás, por mais que o personagem de Shannon tenha as suas peculiaridades como vilão do filme, del Toro exagera um bocado na caracterização vilanesca dele, prejudicando um pouco o envolvimento do espectador na torcida pela busca da protagonista em retirar aquela criatura (por quem ela já estava apaixonada) daquele lugar. Ela lida com a missão com a ajuda do companheiro de quarto e grande amigo (Richard Jenkins).
Entre os pontos positivos do filme estão as cenas de amor entre o casal: Elisa, a mulher muda, e a criatura, vivida pelo mesmo Doug Jones que havia feito o Abe Sapien de HELLBOY (2004) e HELLBOY II - O EXÉRCITO DOURADO (2008), além de ter sido também o Fauno de O LABIRINTO DO FAUNO (2006). Podem até falar de del Toro, mas não dá para dizer que não existe uma coerência e uma marca autoral em sua obra. E não apenas por denominadores comuns e repetições como essa. Seu amor pelos monstros e pessoas marginalizadas e oprimidas já era visível. Em A FORMA DA ÁGUA isso apenas se tornou mais explícito.
Queria ter gostado mais do filme. Uma pena que não houve maior envolvimento emocional da minha parte e confesso que algumas vezes o filme me deu um pouco de sono. Em geral, as fantasias fazem isso comigo. Assim, fortalece em mim a impressão de que del Toro é um excelente diretor de arte. Isso já se notava em todos os seus trabalhos anteriores. E por causa desse aspecto um tanto mais calculista, falta maior capacidade de lidar e de passar as emoções que deseja trasmitir. Por isso prefiro seus filmes de horror sangrentos e com imagens lindas, como A COLINA ESCARLATE (2015), seu trabalho anterior.
A FORMA DA ÁGUA é o recordista de indicações ao Oscar do ano (13), concorrendo nas categorias de filme, direção, atriz (Sally Hawkins), ator coadjuvante (Richard Jenkins), atriz coadjuvante (Octavia Spencer), trilha sonora original, roteiro original, fotografia, figurino, edição de som, mixagem de som, montagem e direção de arte.
Porém, uma coisa que se percebe ao ver A FORMA DA ÁGUA (2017) é que o cineasta não tem uma sensibilidade muito apurada quando quer tratar de histórias de amor. Falta a esta história de amor entre uma zeladora muda de uma instituição militar dos anos 1960 e uma criatura capturada no Rio Amazonas uma sutileza que torne tanto o enredo quanto a caracterização dos personagens críveis e efetivamente comoventes.
Posso estar sendo um pouco cínico ao dizer isso, mas, para conquistar as mais diferentes plateias, del Toro atira para todos os lados: quer agradar as minorias (gays, mulheres negras, pessoas com deficiência), tratar de assédio sexual e mostrar uma mulher como empoderada e protagonista da ação. Além disso, quer mostrar seu amor pelo cinema com cenas que não parecem caber muito bem em seu estilo, por mais que o amor que ele sinta pela arte seja genuíno e verdadeiro. Para completar, del Toro ainda mostra que não faz concessões à indústria, trazendo cenas de nudez (frontal, inclusive) e um pouco de gore. Nada disto é pecado. De jeito nenhum. Mas a impressão que dá é que parece forçado e não espontâneo.
O filme conta a história de uma zeladora muda (Sally Hawkins) que trabalha em uma instituição secreta militar do governo americano da década de 1960. Como ela é responsável, junto com sua melhor amiga (Octavia Spencer), de limpar o local, ela descobre que uma criatura foi capturada e está presa, que essa criatura é capaz de se comunicar, e que essa mesma criatura está sofrendo violência física de um dos homens do governo, o personagem de Michael Shannon.
Aliás, por mais que o personagem de Shannon tenha as suas peculiaridades como vilão do filme, del Toro exagera um bocado na caracterização vilanesca dele, prejudicando um pouco o envolvimento do espectador na torcida pela busca da protagonista em retirar aquela criatura (por quem ela já estava apaixonada) daquele lugar. Ela lida com a missão com a ajuda do companheiro de quarto e grande amigo (Richard Jenkins).
Entre os pontos positivos do filme estão as cenas de amor entre o casal: Elisa, a mulher muda, e a criatura, vivida pelo mesmo Doug Jones que havia feito o Abe Sapien de HELLBOY (2004) e HELLBOY II - O EXÉRCITO DOURADO (2008), além de ter sido também o Fauno de O LABIRINTO DO FAUNO (2006). Podem até falar de del Toro, mas não dá para dizer que não existe uma coerência e uma marca autoral em sua obra. E não apenas por denominadores comuns e repetições como essa. Seu amor pelos monstros e pessoas marginalizadas e oprimidas já era visível. Em A FORMA DA ÁGUA isso apenas se tornou mais explícito.
Queria ter gostado mais do filme. Uma pena que não houve maior envolvimento emocional da minha parte e confesso que algumas vezes o filme me deu um pouco de sono. Em geral, as fantasias fazem isso comigo. Assim, fortalece em mim a impressão de que del Toro é um excelente diretor de arte. Isso já se notava em todos os seus trabalhos anteriores. E por causa desse aspecto um tanto mais calculista, falta maior capacidade de lidar e de passar as emoções que deseja trasmitir. Por isso prefiro seus filmes de horror sangrentos e com imagens lindas, como A COLINA ESCARLATE (2015), seu trabalho anterior.
A FORMA DA ÁGUA é o recordista de indicações ao Oscar do ano (13), concorrendo nas categorias de filme, direção, atriz (Sally Hawkins), ator coadjuvante (Richard Jenkins), atriz coadjuvante (Octavia Spencer), trilha sonora original, roteiro original, fotografia, figurino, edição de som, mixagem de som, montagem e direção de arte.
sexta-feira, fevereiro 23, 2018
MOZART IN THE JUNGLE - A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Mozart in the Jungle - The Complete Fourth Season)
Estava lendo o que escrevi sobre a segunda temporada de MOZART IN THE JUNGLE e notei que eu já me incomodava um pouco com o andamento às vezes apressado demais da narrativa, para o bem e para o mal. Funciona para o bem quando alguns personagens que não nos interessam muito têm sua trama passada mais rapidamente. E o que mais importa nesta quarta temporada é mesmo a relação entre Rodrigo e Hailey.
A quarta temporada (2018) é uma continuação quase direta dos episódios finais da terceira. Ou seja, vemos tanto uma maior aproximação da jovem com o maestro Rodrigo DeSousa - que passam a assumir um namoro e a morarem juntos - quanto sua busca pela difícil carreira de maestrina. Como Rodrigo e como a própria temporada em si, tudo parece estar passando por um grande sentimento de desorientação. Rodrigo se mete em vários projetos ao mesmo tempo: além de continuar na orquestra de Nova York, assume uma orquestra infantil, aceita um projeto de reger o Réquiem de Mozart no Japão e ainda é convidado para um ousado projeto de dança - o personagem do coreógrafo é interpretado pelo cineasta John Cameron Mitchell.
E se a segunda temporada teve uma viagem maravilhosa para o México e a terceira para a Itália, estava nova temporada conta com episódios lindos passados no Japão. Aliás, arriscaria dizer que o episódio 8, intitulado "Ichi Go Ichi E", em que o casal experiencia uma espécie de ritual de um chá mágico, é de uma beleza que chega a doer na alma. Fiquei pensando sobre a questão da "falta que a falta faz" - lembrei de um livro infantil que a Companhia de Letras lançou e que achei fantástico, sobre o assunto.
Quer dizer, enquanto estamos acompanhando a rotina de namorados de Rodrigo e Hailey, sentimos falta daquele muro que os separa e que torna a relação dos dois mais atraente e apaixonante. Coisas do romantismo perverso. E por isso às vezes pensar em uma separação dos dois seria saudável para o reajustamento da série. Só nunca pensei que quer isso fosse ser tão cruel para nosso espírito.
A dor que sentimos ao final do citado episódio do chá é imensa, é a dor do coração partido, que é estendida para os demais episódios finais com uma intensidade menor, mas que ainda persiste. Aumenta a cada vez que lembramos das imagens finais do tal oitavo episódio. Amar não é fácil. Mas é muito bom poder ver uma série que nos faz lembrar que as dificuldades da vida (afetiva, profissional etc.) são um assunto de todos os mortais e que a arte e o trabalho podem muito bem servir como um consolo para nossa alma.
A quarta temporada (2018) é uma continuação quase direta dos episódios finais da terceira. Ou seja, vemos tanto uma maior aproximação da jovem com o maestro Rodrigo DeSousa - que passam a assumir um namoro e a morarem juntos - quanto sua busca pela difícil carreira de maestrina. Como Rodrigo e como a própria temporada em si, tudo parece estar passando por um grande sentimento de desorientação. Rodrigo se mete em vários projetos ao mesmo tempo: além de continuar na orquestra de Nova York, assume uma orquestra infantil, aceita um projeto de reger o Réquiem de Mozart no Japão e ainda é convidado para um ousado projeto de dança - o personagem do coreógrafo é interpretado pelo cineasta John Cameron Mitchell.
E se a segunda temporada teve uma viagem maravilhosa para o México e a terceira para a Itália, estava nova temporada conta com episódios lindos passados no Japão. Aliás, arriscaria dizer que o episódio 8, intitulado "Ichi Go Ichi E", em que o casal experiencia uma espécie de ritual de um chá mágico, é de uma beleza que chega a doer na alma. Fiquei pensando sobre a questão da "falta que a falta faz" - lembrei de um livro infantil que a Companhia de Letras lançou e que achei fantástico, sobre o assunto.
Quer dizer, enquanto estamos acompanhando a rotina de namorados de Rodrigo e Hailey, sentimos falta daquele muro que os separa e que torna a relação dos dois mais atraente e apaixonante. Coisas do romantismo perverso. E por isso às vezes pensar em uma separação dos dois seria saudável para o reajustamento da série. Só nunca pensei que quer isso fosse ser tão cruel para nosso espírito.
A dor que sentimos ao final do citado episódio do chá é imensa, é a dor do coração partido, que é estendida para os demais episódios finais com uma intensidade menor, mas que ainda persiste. Aumenta a cada vez que lembramos das imagens finais do tal oitavo episódio. Amar não é fácil. Mas é muito bom poder ver uma série que nos faz lembrar que as dificuldades da vida (afetiva, profissional etc.) são um assunto de todos os mortais e que a arte e o trabalho podem muito bem servir como um consolo para nossa alma.
quinta-feira, fevereiro 22, 2018
TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three Billboards Outside Ellbing, Missouri)
O irlandês Martin McDonagh já ganhou um Oscar de melhor filme: pelo curta-metragem SIX SHOOTER (2004), uma deliciosa comédia de humor negro, uma pequena obra-prima. TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (2017), seu mais novo filme, é o mais próximo que ele se aproxima de repetir o feito, desta vez numa categoria bem mais visada, a de longa-metragem. O que pode prejudicar um pouco o seu intento é que se trata do filme que mais divide opiniões dentre os nove indicados.
É fácil de entender. Afinal, em tempos como o nosso, é complicado você oferecer a um policial racista uma oportunidade de se tornar um pouco simpático ou de ganhar alguma redenção. Dizer isso, aliás, é um pouco estragar o filme para quem ainda não o viu e por isso a minha recomendação é não ler nada sobre a história de TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME. Trata-se de um filme cujas surpresas na trama são várias e excitantes, justamente por fugirem do que estávamos esperando.
O que o filme vende é a história de uma mulher que alimenta um ódio terrível devido a um fato bem justificável: a morte e estupro de sua filha adolescente. Ela tem a ideia de alugar três outdoors situados em uma rota onde passam poucos carros para reclamar do xerife da cidade (Woody Harrelson) sobre a total falta de eficiência da polícia em prender ou mesmo identificar o estuprador assassino. Pelo que ela diz, a polícia arranja tempo para bater ou torturar negros, embora isso não seja exatamente mostrado no filme, mas não tem tempo de pegar o criminosos. A personificação da polícia racista aparece na figura do personagem de Sam Rockwell.
Um dos fatos curiosos de TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME é que não há personagens que nós amemos ou criemos alguma afeição. Mesmo a heroína é muito antipática, além de preconceituosa, como podemos ver nas cenas com Peter Dinklage. Mas aí acontece algo que muda tudo: a morte do xerife e as cartas que ele deixa para algumas pessoas. As cartas, mais do que os anúncios, serão as responsáveis pelas grandes viradas na história e no modo como os personagens passam a ver a própria existência. Principalmente o policial idiota racista, que, simbolicamente, precisa passar pelas chamas do inferno para tentar buscar um caminho melhor. Ajudam também as palavras do xerife, que afirmam que ele, no fundo, é um homem bom. A cena no hospital, junto com o homem que ele havia quase matado, é uma das mais poderosas do filme.
O que confunde em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME é que McDonagh parece cínico demais para vender uma história aberta sobre redenção e perdão, próximo de um sermão cristão. Mas ao mesmo tempo parece correto de se fazer nos dias de hoje. Se fosse diferente, certamente o filme seria acusado de ser excessivamente melodramático e até anacrônico. Nos dias de hoje não temos mais um Frank Capra.
Mas temos ainda, viva e forte, a herança do cinema dos irmãos Coen, que é com quem McDonagh vem sendo comparado. A principal diferença aqui é que temos um diretor irlandês falando de algo que talvez não conheça muito, os Estados Unidos. Mas isso nunca foi exatamente um problema em Hollywood, terra de tantos estrangeiros, foi? Nem é preciso citar nomes.
Em tempos de muita raiva espalhada em todo o mundo por causa do atual cenário político e social, um filme raivoso, mas que também prega o perdão, mesmo que de uma maneira doentiamente torta e violenta, não deixa de ser bem-vindo.
TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME recebeu sete indicações ao Oscar: filme, atriz (Frances McDormand), ator coadjuvante (Sam Rockwell), ator coadjuvante (Woody Harrelson), trilha sonora original, roteiro (McDonagh) e montagem.
É fácil de entender. Afinal, em tempos como o nosso, é complicado você oferecer a um policial racista uma oportunidade de se tornar um pouco simpático ou de ganhar alguma redenção. Dizer isso, aliás, é um pouco estragar o filme para quem ainda não o viu e por isso a minha recomendação é não ler nada sobre a história de TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME. Trata-se de um filme cujas surpresas na trama são várias e excitantes, justamente por fugirem do que estávamos esperando.
O que o filme vende é a história de uma mulher que alimenta um ódio terrível devido a um fato bem justificável: a morte e estupro de sua filha adolescente. Ela tem a ideia de alugar três outdoors situados em uma rota onde passam poucos carros para reclamar do xerife da cidade (Woody Harrelson) sobre a total falta de eficiência da polícia em prender ou mesmo identificar o estuprador assassino. Pelo que ela diz, a polícia arranja tempo para bater ou torturar negros, embora isso não seja exatamente mostrado no filme, mas não tem tempo de pegar o criminosos. A personificação da polícia racista aparece na figura do personagem de Sam Rockwell.
Um dos fatos curiosos de TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME é que não há personagens que nós amemos ou criemos alguma afeição. Mesmo a heroína é muito antipática, além de preconceituosa, como podemos ver nas cenas com Peter Dinklage. Mas aí acontece algo que muda tudo: a morte do xerife e as cartas que ele deixa para algumas pessoas. As cartas, mais do que os anúncios, serão as responsáveis pelas grandes viradas na história e no modo como os personagens passam a ver a própria existência. Principalmente o policial idiota racista, que, simbolicamente, precisa passar pelas chamas do inferno para tentar buscar um caminho melhor. Ajudam também as palavras do xerife, que afirmam que ele, no fundo, é um homem bom. A cena no hospital, junto com o homem que ele havia quase matado, é uma das mais poderosas do filme.
O que confunde em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME é que McDonagh parece cínico demais para vender uma história aberta sobre redenção e perdão, próximo de um sermão cristão. Mas ao mesmo tempo parece correto de se fazer nos dias de hoje. Se fosse diferente, certamente o filme seria acusado de ser excessivamente melodramático e até anacrônico. Nos dias de hoje não temos mais um Frank Capra.
Mas temos ainda, viva e forte, a herança do cinema dos irmãos Coen, que é com quem McDonagh vem sendo comparado. A principal diferença aqui é que temos um diretor irlandês falando de algo que talvez não conheça muito, os Estados Unidos. Mas isso nunca foi exatamente um problema em Hollywood, terra de tantos estrangeiros, foi? Nem é preciso citar nomes.
Em tempos de muita raiva espalhada em todo o mundo por causa do atual cenário político e social, um filme raivoso, mas que também prega o perdão, mesmo que de uma maneira doentiamente torta e violenta, não deixa de ser bem-vindo.
TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME recebeu sete indicações ao Oscar: filme, atriz (Frances McDormand), ator coadjuvante (Sam Rockwell), ator coadjuvante (Woody Harrelson), trilha sonora original, roteiro (McDonagh) e montagem.
domingo, fevereiro 18, 2018
PANTERA NEGRA (Black Panther)
Um crítico de um jornal estrangeiro disse sobre PANTERA NEGRA (2018): é um filme mais interessante para falar sobre do que para assistir. E, nesse sentido, tendo a concordar com ele. Mas não deveria ser assim. É claro que é o filme mais politizado da Marvel até então. E é talvez o mais feliz em fazer isso, ao questionar o papel de uma superpotência como Wakanda, o país (fictício) mais poderoso tecnologicamente e escondido no continente africano, que vive sob o lema: devemos ficar isolados e escondidos ou ajudar aqueles países que precisam de auxílio?
É uma cutucada e tanto nos Estados Unidos, que são um país que não ajuda: ao contrário: suga dos demais, assassina e ainda sai bem na fita, como heróis. E quem diz isso é um grupo de americanos. A ideia de Wakanda e do Pantera Negra surgiu de Stan Lee e Jack Kirby, lá nos anos 1960, quando os negros ainda eram um grupo que levava porrada da polícia a toda hora nas ruas e não podia se manifestar. Agora as coisas mudaram bastante para melhor, mas ainda há muito a melhorar, ainda há muitos casos de racismo, de neonazismo, de violência contra os negros.
Mas, por mais que filmes de super-heróis tenham adquirido um caráter político recentemente - no ano passado foi MULHER-MARAVILHA, de Patty Jenkins -, é preciso pensá-los como obras que empolguem, que nos coloquem nos sapatos de seus personagens, que façam com que nos importemos com eles, que temamos por suas vidas, com a suspensão da descrença funcionando também. É possível dizer isto de PANTERA NEGRA? Não creio. Talvez os filmes da Marvel tenham chegado em um momento em que causam muita preguiça por deixarem de ser novidade. Mas se a quantidade de espectadores estivesse diminuindo, talvez se pensasse em uma crise nesses filmes, mas isto não está acontecendo. Então, ainda veremos muitas produções de super-heróis pela frente.
Ao menos o novo filme é mais comedido, faz uma oposição a THOR - RAGNAROK, que pede risadas e gargalhadas do espectador o tempo todo. Este filme, dirigido pelo mesmo Ryan Coogler do ótimo CREED - NASCIDO PARA LUTAR (2015), entra mais em sintonia com os três filmes do Capitão América, mais sérios. Mas a impressão que fica é que há dinheiro demais envolvido. Será que dinheiro demais estraga? Afinal, foi com o orçamento milionário que conseguiram fazer de maneira tão bela Wakanda. Mas quem hoje em dia ainda se empolga com efeitos especiais? Eles apenas precisam estar lá e fazer o papel para justificar o investimento.
Comparando CREED com PANTERA NEGRA, é fácil imaginar um cineasta engessado pela estrutura e pelo estilo Marvel/Disney? Em que momento o interesse amoroso do Rei T'Challa (Chadwick Boseman) parece de fato envolvente? Em que momento ficamos de fato duvidando que o Pantera Negra voltaria para tomar o trono de volta após o confronto com o vilão Erik Killmonger (Michael B. Jordan)? Mais: as cenas de ação empolgam? Talvez as que se passam na Coreia, um pouco.
Quem pensa que filmes de super-heróis não devem se preocupar com esse tipo de coisa está errado. As melhores aventuras nos quadrinhos deixam os leitores às vezes sem fôlego. Os filmes também deveriam deixar. Nesse sentido, as produções imperfeitas da DC/Warner até tem parecido mais interessantes. Em agosto vem aí o mais ambicioso dos filmes da Marvel: VINGADORES: GUERRA INFINITA. É bom que os realizadores consigam dar conta de tantos personagens.
É uma cutucada e tanto nos Estados Unidos, que são um país que não ajuda: ao contrário: suga dos demais, assassina e ainda sai bem na fita, como heróis. E quem diz isso é um grupo de americanos. A ideia de Wakanda e do Pantera Negra surgiu de Stan Lee e Jack Kirby, lá nos anos 1960, quando os negros ainda eram um grupo que levava porrada da polícia a toda hora nas ruas e não podia se manifestar. Agora as coisas mudaram bastante para melhor, mas ainda há muito a melhorar, ainda há muitos casos de racismo, de neonazismo, de violência contra os negros.
Mas, por mais que filmes de super-heróis tenham adquirido um caráter político recentemente - no ano passado foi MULHER-MARAVILHA, de Patty Jenkins -, é preciso pensá-los como obras que empolguem, que nos coloquem nos sapatos de seus personagens, que façam com que nos importemos com eles, que temamos por suas vidas, com a suspensão da descrença funcionando também. É possível dizer isto de PANTERA NEGRA? Não creio. Talvez os filmes da Marvel tenham chegado em um momento em que causam muita preguiça por deixarem de ser novidade. Mas se a quantidade de espectadores estivesse diminuindo, talvez se pensasse em uma crise nesses filmes, mas isto não está acontecendo. Então, ainda veremos muitas produções de super-heróis pela frente.
Ao menos o novo filme é mais comedido, faz uma oposição a THOR - RAGNAROK, que pede risadas e gargalhadas do espectador o tempo todo. Este filme, dirigido pelo mesmo Ryan Coogler do ótimo CREED - NASCIDO PARA LUTAR (2015), entra mais em sintonia com os três filmes do Capitão América, mais sérios. Mas a impressão que fica é que há dinheiro demais envolvido. Será que dinheiro demais estraga? Afinal, foi com o orçamento milionário que conseguiram fazer de maneira tão bela Wakanda. Mas quem hoje em dia ainda se empolga com efeitos especiais? Eles apenas precisam estar lá e fazer o papel para justificar o investimento.
Comparando CREED com PANTERA NEGRA, é fácil imaginar um cineasta engessado pela estrutura e pelo estilo Marvel/Disney? Em que momento o interesse amoroso do Rei T'Challa (Chadwick Boseman) parece de fato envolvente? Em que momento ficamos de fato duvidando que o Pantera Negra voltaria para tomar o trono de volta após o confronto com o vilão Erik Killmonger (Michael B. Jordan)? Mais: as cenas de ação empolgam? Talvez as que se passam na Coreia, um pouco.
Quem pensa que filmes de super-heróis não devem se preocupar com esse tipo de coisa está errado. As melhores aventuras nos quadrinhos deixam os leitores às vezes sem fôlego. Os filmes também deveriam deixar. Nesse sentido, as produções imperfeitas da DC/Warner até tem parecido mais interessantes. Em agosto vem aí o mais ambicioso dos filmes da Marvel: VINGADORES: GUERRA INFINITA. É bom que os realizadores consigam dar conta de tantos personagens.
quarta-feira, fevereiro 14, 2018
TRÊS FILMES BASEADOS EM HISTÓRIAS REAIS
Recentemente vi três filmes baseados em histórias reais e acho que de certa forma eles conversam entre si. Talvez por estarem todos de alguma maneira ligados ao esporte e ao american way of life. São filmes com graus diferentes de drama e comédia como escolhas de seus realizadores.
EU, TONYA (I, Tonya)
Craig Gillespie não é exatamente um autor. Na época de A GAROTA IDEAL (2007) até chamou a atenção dentro do espaço indie, mas seus trabalhos seguintes só mostraram o quanto ele se tornou apenas um operário padrão pouco eficiente. EU, TONYA (2017) tem a vantagem de disfarçar seus problemas narrativos através do humor negro. É uma história de violência e de abusos que não leva a sério o sofrimento de suas personagens, o que pode ser encarado como algo problemático. Mas há coisas boas, como as performances de Margot Robbie e Allison Janney, filha e mãe. Um dos problemas que eu vejo é que nem sempre conseguem enfeiar Margot. Em alguns momentos, a maquiagem procura exagerar esse aspecto; em outros, parecem esquecer e lá está a atriz bela como sempre de novo. Indicado ao Oscar nas categorias de atriz, atriz coadjuvante e montagem.
GUERRA DOS SEXOS (The Battle of the Sexes)
Este filme tem um papel mais importante do que a gente imagina, até por ter uma pegada mais descontraída e uma performance mais do mesmo de Steve Carell. A direção é dos videoclipeiros Valerie Farris e Jonathan Dayton, que fizeram alguns memoráveis vídeos dos Smashing Pumpkins na década de 1990. GUERRA DOS SEXOS (2017) conta a história da primeira disputa entre tenistas de sexo diferente, graças a uma mania de apostador Bobby Riggs (Carell). Ele convida a tenista número 1 Billie Jean King (Emma Stone) para uma disputa, de modo a comprovar a superioridade dos homens. As tenistas vinham de uma situação complicada e de uma separação com a liga dos tenistas, extremamente machista. Mas o que há de melhor no filme é o relacionamento de Billie Jean com uma cabeleireira que ela conhece (Andrea Riseborough). As cenas de amor das duas são lindas e superam as batalhas nas quadras.
O QUE TE FAZ MAIS FORTE (Stronger)
Aqui não temos nenhum esportista em ação, mas um homem comum, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), que teve o azar de estar na linha de chegada de uma maratona em Boston em 2013 quando houve um atentado terrorista. Tudo para receber bem sua ex-namorada, vivida por Tatiana Maslany (da série ORPHAN BLACK). Dirigido por David Gordon Green, um ex-autor, por assim dizer, O QUE TE FAZ MAIS FORTE (2017) tem seus momentos de emoções fortes e até de bom humor (caso da cena em que Jeff dirige um carro sem as pernas). Podem até achar que a obra exagera no drama, mas não vi nenhum problema em mostrar detalhes da dificuldade da transição da nova vida de Jeff, que não foi apenas perder as pernas, mas ser considerado uma espécie de herói pela sua cidade e nos Estados Unidos também. Cena mais tocante: o encontro de Jeff com o caubói Carlos, o homem que salvou sua vida.
EU, TONYA (I, Tonya)
Craig Gillespie não é exatamente um autor. Na época de A GAROTA IDEAL (2007) até chamou a atenção dentro do espaço indie, mas seus trabalhos seguintes só mostraram o quanto ele se tornou apenas um operário padrão pouco eficiente. EU, TONYA (2017) tem a vantagem de disfarçar seus problemas narrativos através do humor negro. É uma história de violência e de abusos que não leva a sério o sofrimento de suas personagens, o que pode ser encarado como algo problemático. Mas há coisas boas, como as performances de Margot Robbie e Allison Janney, filha e mãe. Um dos problemas que eu vejo é que nem sempre conseguem enfeiar Margot. Em alguns momentos, a maquiagem procura exagerar esse aspecto; em outros, parecem esquecer e lá está a atriz bela como sempre de novo. Indicado ao Oscar nas categorias de atriz, atriz coadjuvante e montagem.
GUERRA DOS SEXOS (The Battle of the Sexes)
Este filme tem um papel mais importante do que a gente imagina, até por ter uma pegada mais descontraída e uma performance mais do mesmo de Steve Carell. A direção é dos videoclipeiros Valerie Farris e Jonathan Dayton, que fizeram alguns memoráveis vídeos dos Smashing Pumpkins na década de 1990. GUERRA DOS SEXOS (2017) conta a história da primeira disputa entre tenistas de sexo diferente, graças a uma mania de apostador Bobby Riggs (Carell). Ele convida a tenista número 1 Billie Jean King (Emma Stone) para uma disputa, de modo a comprovar a superioridade dos homens. As tenistas vinham de uma situação complicada e de uma separação com a liga dos tenistas, extremamente machista. Mas o que há de melhor no filme é o relacionamento de Billie Jean com uma cabeleireira que ela conhece (Andrea Riseborough). As cenas de amor das duas são lindas e superam as batalhas nas quadras.
O QUE TE FAZ MAIS FORTE (Stronger)
Aqui não temos nenhum esportista em ação, mas um homem comum, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), que teve o azar de estar na linha de chegada de uma maratona em Boston em 2013 quando houve um atentado terrorista. Tudo para receber bem sua ex-namorada, vivida por Tatiana Maslany (da série ORPHAN BLACK). Dirigido por David Gordon Green, um ex-autor, por assim dizer, O QUE TE FAZ MAIS FORTE (2017) tem seus momentos de emoções fortes e até de bom humor (caso da cena em que Jeff dirige um carro sem as pernas). Podem até achar que a obra exagera no drama, mas não vi nenhum problema em mostrar detalhes da dificuldade da transição da nova vida de Jeff, que não foi apenas perder as pernas, mas ser considerado uma espécie de herói pela sua cidade e nos Estados Unidos também. Cena mais tocante: o encontro de Jeff com o caubói Carlos, o homem que salvou sua vida.
segunda-feira, fevereiro 12, 2018
O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (The Killing of a Sacred Deer)
O trabalho do cineasta grego Yorgos Lanthimos não é apreciado por tantos - basta ver a quantidade de pessoas indignadas no IMDB e dispostas a jogar pedra no seu mais recente filme. Embora já tenha seis longas-metragens prontos em seu currículo e um outro já pronto para ser lançado ainda este ano, foi com O LAGOSTA (2015) que o diretor grego chamou atenção mundialmente com aquela que talvez seja a comédia romântica mais estranha já feita.
Os filmes do diretor na verdade são inclassificáveis, mas se a história de um homem que vai se transformar em um animal (uma lagosta) simplesmente por não ter conseguido uma namorada ou uma esposa pode ser vista como um romance, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), se aproxima mais do horror.
E nesse sentido, é um dos mais assustadores filmes de horror já feitos neste milênio. Pode ser uma afirmativa exagerada, mas não creio que seja. Talvez o segredo para ver o filme seja estar totalmente livre de expectativas, ver a obra sem saber nada a respeito. Claro que, por não ser exatamente um filme agradável, alguns espectadores podem, literalmente, fugir correndo da sala de cinema, como eu cheguei a presenciar na sessão em que participei.
É uma pena que seja uma obra que, ao ser lançada no meio da temporada do Oscar, acabe passando batido por muitos. E certamente não ficará muito tempo em cartaz. Ainda assim, é melhor do que não ter passado no cinema, como foi o caso de O LAGOSTA. Trata-se de um filme especial, desses que ficam com o espectador ao final da sessão e por alguns dias ainda, com suas imagens poderosas, estranhas e muitas vezes aterrorizantes.
A primeira imagem de O SACRIFÍCIO DE UM CERVO SAGRADO é a de um grande close na cirurgia de um coração. Trata-se de uma imagem real de uma cirurgia que foi aproveitada para o filme. O protagonista, Dr. Steven Murphy (Colin Farrell), é um cirurgião cardiologista. Ao término de uma cirurgia de rotina, ele anda com um colega pelos corredores do hospital e conversa sobre um relógio bonito. "Onde o comprou?", pergunta ele. Mais tarde saberemos de seus encontros estranhos com um garoto de 16 anos (Barry Keoghan, que já tem um rosto um tanto incomum e por isso se encaixa perfeitamente com o personagem).
A princípio não sabemos do que se tratam esses encontros do médico e esse rapaz. Haveria ali uma espécie de relacionamento impróprio, por assim dizer? Chama a atenção também o tipo de dramaturgia em que as falas dos personagens são despidas de emoção, algo já visto em O LAGOSTA. Trata-se de um tipo de trabalho que lembra bastante o uso de modelos no trabalho de Robert Bresson, que nas entrevistas é tido como uma das grandes influências do cineasta grego.
As estranhezas chegam também em casa, com a esposa (Nicole Kidman) alimentando uma das taras do marido: fingir que está imobilizada em anestesia geral para que ele possa desfrutar dessa fantasia aparentemente recorrente. Yorgos Lanthimos segue, assim, mantendo a atenção do espectador cada vez mais em alta. Inclusive pela utilização de uma trilha sonora que aos poucos vai se tornando perturbadora, principalmente a partir do momento em que um dos dois filhos de Steven afirma não conseguir se levantar da cama, teria perdido a mobilidade dos membros.
É quando as respostas para isso surgem em uma conversa com o incômodo Martin, o garoto de 16 anos, que àquela altura já havia visitado a família de Steven e feito o médico visitar sua mãe (Alicia Silverstone, em uma única mas marcante sequência). As respostas para esse pesadelo que se transformou a vida do cirurgião seriam dadas em poucos segundos, a ponto de o espectador ficar não apenas aterrorizado, mas também desnorteado. Mais uma vez, Lanthimos trabalha com o tema da punição, e o que acontece a seguir é impressionante.
Imagens das cenas seguintes, de tão bizarras - algumas delas chocantes - certamente ficarão presentes na memória de muitos espectadores, mesmo aqueles que sairão da sessão com um pouco de raiva do filme. O ar de tragédia, segundo consta em vários textos sobre o filme, é inspirado no mito de Ifigênia, filha de Agamemnon. Segundo o mito, Agamemnon teria que sacrificar a própria filha por ter matado um cervo em uma floresta. Tragédia grega, horror arrepiante, Bresson e o que muitos dizem ser uma imaginação saída de uma mente doentia são alguns dos ingredientes para a construção deste espetáculo singular e perturbador que é O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO.
Os filmes do diretor na verdade são inclassificáveis, mas se a história de um homem que vai se transformar em um animal (uma lagosta) simplesmente por não ter conseguido uma namorada ou uma esposa pode ser vista como um romance, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), se aproxima mais do horror.
E nesse sentido, é um dos mais assustadores filmes de horror já feitos neste milênio. Pode ser uma afirmativa exagerada, mas não creio que seja. Talvez o segredo para ver o filme seja estar totalmente livre de expectativas, ver a obra sem saber nada a respeito. Claro que, por não ser exatamente um filme agradável, alguns espectadores podem, literalmente, fugir correndo da sala de cinema, como eu cheguei a presenciar na sessão em que participei.
É uma pena que seja uma obra que, ao ser lançada no meio da temporada do Oscar, acabe passando batido por muitos. E certamente não ficará muito tempo em cartaz. Ainda assim, é melhor do que não ter passado no cinema, como foi o caso de O LAGOSTA. Trata-se de um filme especial, desses que ficam com o espectador ao final da sessão e por alguns dias ainda, com suas imagens poderosas, estranhas e muitas vezes aterrorizantes.
A primeira imagem de O SACRIFÍCIO DE UM CERVO SAGRADO é a de um grande close na cirurgia de um coração. Trata-se de uma imagem real de uma cirurgia que foi aproveitada para o filme. O protagonista, Dr. Steven Murphy (Colin Farrell), é um cirurgião cardiologista. Ao término de uma cirurgia de rotina, ele anda com um colega pelos corredores do hospital e conversa sobre um relógio bonito. "Onde o comprou?", pergunta ele. Mais tarde saberemos de seus encontros estranhos com um garoto de 16 anos (Barry Keoghan, que já tem um rosto um tanto incomum e por isso se encaixa perfeitamente com o personagem).
A princípio não sabemos do que se tratam esses encontros do médico e esse rapaz. Haveria ali uma espécie de relacionamento impróprio, por assim dizer? Chama a atenção também o tipo de dramaturgia em que as falas dos personagens são despidas de emoção, algo já visto em O LAGOSTA. Trata-se de um tipo de trabalho que lembra bastante o uso de modelos no trabalho de Robert Bresson, que nas entrevistas é tido como uma das grandes influências do cineasta grego.
As estranhezas chegam também em casa, com a esposa (Nicole Kidman) alimentando uma das taras do marido: fingir que está imobilizada em anestesia geral para que ele possa desfrutar dessa fantasia aparentemente recorrente. Yorgos Lanthimos segue, assim, mantendo a atenção do espectador cada vez mais em alta. Inclusive pela utilização de uma trilha sonora que aos poucos vai se tornando perturbadora, principalmente a partir do momento em que um dos dois filhos de Steven afirma não conseguir se levantar da cama, teria perdido a mobilidade dos membros.
É quando as respostas para isso surgem em uma conversa com o incômodo Martin, o garoto de 16 anos, que àquela altura já havia visitado a família de Steven e feito o médico visitar sua mãe (Alicia Silverstone, em uma única mas marcante sequência). As respostas para esse pesadelo que se transformou a vida do cirurgião seriam dadas em poucos segundos, a ponto de o espectador ficar não apenas aterrorizado, mas também desnorteado. Mais uma vez, Lanthimos trabalha com o tema da punição, e o que acontece a seguir é impressionante.
Imagens das cenas seguintes, de tão bizarras - algumas delas chocantes - certamente ficarão presentes na memória de muitos espectadores, mesmo aqueles que sairão da sessão com um pouco de raiva do filme. O ar de tragédia, segundo consta em vários textos sobre o filme, é inspirado no mito de Ifigênia, filha de Agamemnon. Segundo o mito, Agamemnon teria que sacrificar a própria filha por ter matado um cervo em uma floresta. Tragédia grega, horror arrepiante, Bresson e o que muitos dizem ser uma imaginação saída de uma mente doentia são alguns dos ingredientes para a construção deste espetáculo singular e perturbador que é O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO.
domingo, fevereiro 11, 2018
A LEI DA FRONTEIRA (Frontier Marshal)
Uma das mais fascinantes entrevistas do livro Afinal, Quem Faz os Filmes, de Peter Bogdanovich, é justamente de um cineasta pouco lembrado, o pioneiro Allan Dwan. Isso se dá porque, pelo fato de ele ter participado da aurora do cinema em Hollywood, ele tinha muitas histórias incríveis para contar. E que histórias. Não vou citar exemplos aqui, pois o ideal é entrar em contato direto com essa entrevista e viajar no tempo.
Recentemente surgiu em um dos fóruns de compartilhamento que acompanho uma cópia muito boa de A LEI DA FRONTEIRA (1939), uma das primeiras histórias a tratar de duas lendas do Velho Oeste: o xerife Wyatt Earp, homem da lei respeitado e que impôs respeito, e seu amigo trágico Doc Halliday, um pistoleiro bastante temido. A amizade entre os dois é inusitada, e o filme de Dwan traz uma romantização bela à mitologia. Aliás, como é admirável o modo como os americanos foram construindo seus mitos dentro de relativamente pouco tempo de História.
Em A LEI DA FRONTEIRA, Earp é vivido por Randolph Scott, ator que construiu sua carreira como heróis de westerns. Já Doc Halliday é vivido por Cesar Romero, que ficaria famoso como o Coringa da série do Batman dos anos 1960.
Na trama, passada na mítica Tombstone, um proprietário de um bar tenta se livrar de seu concorrente contratando um pistoleiro para destruir o local. O que ninguém esperava era que um forasteiro chamado Wyatt Earp apareceria para botar ordem na casa e se tornar o xerife da cidade. A presença de Earp não é nada agradável para esses homens e logo seus inimigos tratam de se livrar dele. Em vão.
Página virada por ora, pois é o momento em que o filme salta um pouco no tempo até o retorno do famoso Doc Halliday à cidade. Alcoólatra e com tuberculose, o ex-médico recebe a visita da ex-noiva. Isso o maltrata e mostra-o frágil aos olhos de Earp, que trata de ajudá-lo. Assim o filme vai se enchendo de amor, e por isso é até mais fácil gostar da persona trágica de Halliday.
Talvez o que incomode um pouco em A LEI DA FRONTEIRA seja o modo muito rápido com que tudo acontece, inclusive mostrando a briga de Earp com os bandidos no OK Corral. Trata-se de um filme curto, dinâmico. Para o bem e para o mal. Como o espectador terá outros filmes sobre esses personagens analisando de diferentes perspectivas e poéticas, não há do que reclamar. Até porque o cinema que Dwan faz é admirável desde os primeiros fotogramas, que sintetizam os primeiros anos da construção de Tombstone com várias imagens sobrepostas. Um domínio admirável da gramática cinematográfica em um dos anos mais mágicos para o cinema americano. A vontade de ver mais filmes sobre esses personagens só aumenta.
Recentemente surgiu em um dos fóruns de compartilhamento que acompanho uma cópia muito boa de A LEI DA FRONTEIRA (1939), uma das primeiras histórias a tratar de duas lendas do Velho Oeste: o xerife Wyatt Earp, homem da lei respeitado e que impôs respeito, e seu amigo trágico Doc Halliday, um pistoleiro bastante temido. A amizade entre os dois é inusitada, e o filme de Dwan traz uma romantização bela à mitologia. Aliás, como é admirável o modo como os americanos foram construindo seus mitos dentro de relativamente pouco tempo de História.
Em A LEI DA FRONTEIRA, Earp é vivido por Randolph Scott, ator que construiu sua carreira como heróis de westerns. Já Doc Halliday é vivido por Cesar Romero, que ficaria famoso como o Coringa da série do Batman dos anos 1960.
Na trama, passada na mítica Tombstone, um proprietário de um bar tenta se livrar de seu concorrente contratando um pistoleiro para destruir o local. O que ninguém esperava era que um forasteiro chamado Wyatt Earp apareceria para botar ordem na casa e se tornar o xerife da cidade. A presença de Earp não é nada agradável para esses homens e logo seus inimigos tratam de se livrar dele. Em vão.
Página virada por ora, pois é o momento em que o filme salta um pouco no tempo até o retorno do famoso Doc Halliday à cidade. Alcoólatra e com tuberculose, o ex-médico recebe a visita da ex-noiva. Isso o maltrata e mostra-o frágil aos olhos de Earp, que trata de ajudá-lo. Assim o filme vai se enchendo de amor, e por isso é até mais fácil gostar da persona trágica de Halliday.
Talvez o que incomode um pouco em A LEI DA FRONTEIRA seja o modo muito rápido com que tudo acontece, inclusive mostrando a briga de Earp com os bandidos no OK Corral. Trata-se de um filme curto, dinâmico. Para o bem e para o mal. Como o espectador terá outros filmes sobre esses personagens analisando de diferentes perspectivas e poéticas, não há do que reclamar. Até porque o cinema que Dwan faz é admirável desde os primeiros fotogramas, que sintetizam os primeiros anos da construção de Tombstone com várias imagens sobrepostas. Um domínio admirável da gramática cinematográfica em um dos anos mais mágicos para o cinema americano. A vontade de ver mais filmes sobre esses personagens só aumenta.
sábado, fevereiro 10, 2018
LADY BIRD - A HORA DE VOAR (Lady Bird)
A personagem Christine 'Lady Bird' McPherson, vivida pela brilhante Saoirse Ronan, em LADY BIRD - A HORA DE VOAR (2017) possui algo em comum com outra jovem em um filme indie recente: Casey (Haley Lu Richardson), em COLUMBUS, de Kogonada. São como dois lados de uma mesma moeda: enquanto Lady Bird tem uma vontade imensa de sair de sua cidade natal Sacramento e fazer algum curso superior em Nova York, apesar de suas notas baixas, sua contraparte tem dificuldades de sair de sua cidade para não deixar a mãe.
Claro que as circunstâncias são totalmente distintas, mas não resisti em fazer essa comparação, até por serem personagens que dialogam com a juventude de hoje, mesmo levando em consideração que LADY BIRD, a estreia na direção de Greta Gerwig, se passa no ano de 2002, sendo, portanto, a história de alguém que está um tanto perdida naquele momento pós-11 de setembro, mas com ainda um pé na década anterior - um dos momentos mais bonitos e simples do filme é quando a protagonista está no carro com o pai ouvindo a agridoce "Hand in my pocket", de Alanis Morrissette, e fazendo a observação de que a cantora compões esta faixa em apenas 10 minutos.
Isso diz muito da personagem, de sua vontade de dar um salto, mesmo sabendo de suas dificuldades em ser tão boa quanto suas colegas de classe, que conseguem tirar notas boas em Matemática. A ida para a universidade está bem aí e ela se sente frustrada com a difícil possibilidade de ingressar em uma universidade do lado leste do país, de preferência longe de sua família, como forma de se cortar o mais rápido possível o cordão umbilical com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), que é excessivamente preocupada com a filha única.
Lady Bird acha que a mãe, apesar de amá-la muito, não gosta dela, não a aceita como ela é, com suas imperfeições. São coisas como essas que tornam a jovem protagonista tão encantadora, tão apaixonante. E um dos grandes méritos da direção de Greta Gerwig é conseguir nos deixar com aquele friozinho na barriga em situações de novidade da protagonista: a primeira transa, a espera pela correspondência das universidades, a autoafirmação através de novas amizades na escola, a busca de namorados que façam de sua primeira transa algo especial.
E nesse sentido nem sempre ela é bem-sucedida. O que não quer dizer que não nos solidarizemos e nos alegremos com suas pequenas conquistas. Estar com o nome na lista de espera de uma universidade não deixa de ser uma vitória. Ou quase. Falando em vitória, LADY BIRD é desses filmes que também lidam com o fracasso com muita ternura: há a melhor amiga gordinha que sofre com a solidão e há o pai desempregado (Tracy Letts, sempre ótimo) que sofre com depressão. Há também um outro jovem com um problema complicado que encontrará a compreensão da jovem.
O que temos em nossa frente não é simplesmente um filme que conseguiu quase 100% de aprovação no site Rotten Tomatoes; é uma obra simples e pequena, mas com sutilezas e sensibilidades que o tornam especial para uma boa parcela da audiência. O curioso é que, assim como COLUMBUS, o filme tenta o possível para não carregar nas sentimentalidades e provocar choro fácil. O que não impede que o amor transborde e sintamos tanto a relação de amor e ódio de Lady Bird com sua cidade, quanto nos importemos com as brigas que ela tem com a mãe.
Greta Gerwig está cercada por atores ótimos, tanto os veteranos já citados, como dois jovens presentes em filmes marcantes do cinema americano contemporâneo: Lucas Hedges, que brilhou em MANCHESTER À BEIRA-MAR; e o genial Timothée Chalamet, que nem precisa provar mais nada para ninguém depois do que mostrou em ME CHAME PELO SEU NOME. Sem falar em jovens garotas que ainda podem se destacar futuramente, como Odeia Rush e Beanie Feldstein.
LADY BIRD - A HORA DE VOAR foi indicado ao Oscar em cinco categorias: melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Saoirse Ronan), melhor atriz coadjuvante (Laurie Metcalf) e melhor roteiro original (Greta Gerwig).
Claro que as circunstâncias são totalmente distintas, mas não resisti em fazer essa comparação, até por serem personagens que dialogam com a juventude de hoje, mesmo levando em consideração que LADY BIRD, a estreia na direção de Greta Gerwig, se passa no ano de 2002, sendo, portanto, a história de alguém que está um tanto perdida naquele momento pós-11 de setembro, mas com ainda um pé na década anterior - um dos momentos mais bonitos e simples do filme é quando a protagonista está no carro com o pai ouvindo a agridoce "Hand in my pocket", de Alanis Morrissette, e fazendo a observação de que a cantora compões esta faixa em apenas 10 minutos.
Isso diz muito da personagem, de sua vontade de dar um salto, mesmo sabendo de suas dificuldades em ser tão boa quanto suas colegas de classe, que conseguem tirar notas boas em Matemática. A ida para a universidade está bem aí e ela se sente frustrada com a difícil possibilidade de ingressar em uma universidade do lado leste do país, de preferência longe de sua família, como forma de se cortar o mais rápido possível o cordão umbilical com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), que é excessivamente preocupada com a filha única.
Lady Bird acha que a mãe, apesar de amá-la muito, não gosta dela, não a aceita como ela é, com suas imperfeições. São coisas como essas que tornam a jovem protagonista tão encantadora, tão apaixonante. E um dos grandes méritos da direção de Greta Gerwig é conseguir nos deixar com aquele friozinho na barriga em situações de novidade da protagonista: a primeira transa, a espera pela correspondência das universidades, a autoafirmação através de novas amizades na escola, a busca de namorados que façam de sua primeira transa algo especial.
E nesse sentido nem sempre ela é bem-sucedida. O que não quer dizer que não nos solidarizemos e nos alegremos com suas pequenas conquistas. Estar com o nome na lista de espera de uma universidade não deixa de ser uma vitória. Ou quase. Falando em vitória, LADY BIRD é desses filmes que também lidam com o fracasso com muita ternura: há a melhor amiga gordinha que sofre com a solidão e há o pai desempregado (Tracy Letts, sempre ótimo) que sofre com depressão. Há também um outro jovem com um problema complicado que encontrará a compreensão da jovem.
O que temos em nossa frente não é simplesmente um filme que conseguiu quase 100% de aprovação no site Rotten Tomatoes; é uma obra simples e pequena, mas com sutilezas e sensibilidades que o tornam especial para uma boa parcela da audiência. O curioso é que, assim como COLUMBUS, o filme tenta o possível para não carregar nas sentimentalidades e provocar choro fácil. O que não impede que o amor transborde e sintamos tanto a relação de amor e ódio de Lady Bird com sua cidade, quanto nos importemos com as brigas que ela tem com a mãe.
Greta Gerwig está cercada por atores ótimos, tanto os veteranos já citados, como dois jovens presentes em filmes marcantes do cinema americano contemporâneo: Lucas Hedges, que brilhou em MANCHESTER À BEIRA-MAR; e o genial Timothée Chalamet, que nem precisa provar mais nada para ninguém depois do que mostrou em ME CHAME PELO SEU NOME. Sem falar em jovens garotas que ainda podem se destacar futuramente, como Odeia Rush e Beanie Feldstein.
LADY BIRD - A HORA DE VOAR foi indicado ao Oscar em cinco categorias: melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Saoirse Ronan), melhor atriz coadjuvante (Laurie Metcalf) e melhor roteiro original (Greta Gerwig).
quarta-feira, fevereiro 07, 2018
TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the Money in the World)
A carreira de Ridley Scott é uma das mais interessantes dentre os cineastas veteranos em atividade. São quase 30 filmes para cinema, equilibrando-se entre ficções científicas, dramas contemporâneos, fantasias e filmes de época. Muita coisa parece interessar a Scott, seja a lenda de Robin Hood, a história de Moisés atravessando o Mar Vermelho, Cristóvão Colombo, além de histórias de monstros espaciais. Em TODO O DINHEIRO DO MUNDO (2017), Scott olha para nosso mundo, para pessoas diferentes. Pessoas gananciosas, pessoas desesperadas, pessoas desesperançadas.
Como o cinema é uma excelente janela de aprendizagem, somos apresentados aqui ao então homem mais rico do mundo, o magnata John Paul Getty (Christopher Plummer), uma espécie de Tio Patinhas mais sombrio. Para ele, nada era mais importante do que o seu dinheiro. Tirar de seus trilhões de dólares 17 milhões para o resgate do seu neto sequestrado estava fora de cogitação, então.
E é essa basicamente a história. Enquanto a mãe do garoto, vivida por Michelle Williams, tenta desesperadamente conseguir até mesmo conversar com o velho avarento, ele chama um de seus empregados (Mark Wahlberg) para tentar descobrir o paradeiro do menino sem que, com isso, precise gastar muito dinheiro. O filme apresenta algumas situações bem absurdas sobre até que ponto vai a doença daquele velho de quase 90 anos.
Se o filme de Scott falha em não conseguir criar uma atmosfera de suspense dentro desse situação de estresse do sequestro do rapaz, do jeito que o filme se encaminha dá até impressão de que o cineasta queria aquele tom. De certa maneira, isso tem o seu lado positivo, já que não se transforma em um thriller banal sobre sequestro e busca, coisa que já se viu tantas vezes no cinema. Scott prefere enfatizar o conto moral sobre aquela situação absurda.
Por mais que possamos pensar que sua moral da história é simples até demais, não há problema nenhum em lembrar disso de vez em quando. Lembrar que não se leva dinheiro para a sepultura. O que parece incomodar um pouco na construção é sua estranheza no modo como costura sua trama sem personagens principais, e com uma Michelle Williams muito bem no papel da mãe desesperada, sem se descabelar ou transformar o filme em uma grande tragédia ou um grande melodrama. Até porque raramente Scott é apegado a sentimentalidades.
No mais, o tom da fotografia chama a atenção. Dá até dúvida se não é problema do projetor, de tão escura que é a imagem, em tom sépia, muito provavelmente para emular aquele ano, 1973. A escolha de Scott por esse tipo de imagem é bem curiosa, já que obras anteriores dele, como PERDIDO EM MARTE (2015) e ALIEN - COVENANT (2017), se destacavam por fotografias cristalinas, mesmo em cenas noturnas.
Uma pena que o filme seja mais lembrado pelo caso envolvendo o escândalo sexual de Kevin Spacey, que forçou Scott a substituí-lo por Plummer em um intervalo de tempo admiravelmente veloz. A tempo inclusive de participar da temporada de premiações. No caso do Oscar, apenas Christopher Plummer recebeu a única indicação, de ator coadjuvante. Não deixa de ser uma ironia.
Como o cinema é uma excelente janela de aprendizagem, somos apresentados aqui ao então homem mais rico do mundo, o magnata John Paul Getty (Christopher Plummer), uma espécie de Tio Patinhas mais sombrio. Para ele, nada era mais importante do que o seu dinheiro. Tirar de seus trilhões de dólares 17 milhões para o resgate do seu neto sequestrado estava fora de cogitação, então.
E é essa basicamente a história. Enquanto a mãe do garoto, vivida por Michelle Williams, tenta desesperadamente conseguir até mesmo conversar com o velho avarento, ele chama um de seus empregados (Mark Wahlberg) para tentar descobrir o paradeiro do menino sem que, com isso, precise gastar muito dinheiro. O filme apresenta algumas situações bem absurdas sobre até que ponto vai a doença daquele velho de quase 90 anos.
Se o filme de Scott falha em não conseguir criar uma atmosfera de suspense dentro desse situação de estresse do sequestro do rapaz, do jeito que o filme se encaminha dá até impressão de que o cineasta queria aquele tom. De certa maneira, isso tem o seu lado positivo, já que não se transforma em um thriller banal sobre sequestro e busca, coisa que já se viu tantas vezes no cinema. Scott prefere enfatizar o conto moral sobre aquela situação absurda.
Por mais que possamos pensar que sua moral da história é simples até demais, não há problema nenhum em lembrar disso de vez em quando. Lembrar que não se leva dinheiro para a sepultura. O que parece incomodar um pouco na construção é sua estranheza no modo como costura sua trama sem personagens principais, e com uma Michelle Williams muito bem no papel da mãe desesperada, sem se descabelar ou transformar o filme em uma grande tragédia ou um grande melodrama. Até porque raramente Scott é apegado a sentimentalidades.
No mais, o tom da fotografia chama a atenção. Dá até dúvida se não é problema do projetor, de tão escura que é a imagem, em tom sépia, muito provavelmente para emular aquele ano, 1973. A escolha de Scott por esse tipo de imagem é bem curiosa, já que obras anteriores dele, como PERDIDO EM MARTE (2015) e ALIEN - COVENANT (2017), se destacavam por fotografias cristalinas, mesmo em cenas noturnas.
Uma pena que o filme seja mais lembrado pelo caso envolvendo o escândalo sexual de Kevin Spacey, que forçou Scott a substituí-lo por Plummer em um intervalo de tempo admiravelmente veloz. A tempo inclusive de participar da temporada de premiações. No caso do Oscar, apenas Christopher Plummer recebeu a única indicação, de ator coadjuvante. Não deixa de ser uma ironia.
terça-feira, janeiro 30, 2018
ME CHAME PELO SEU NOME (Call Me by Your Name)
Um dos filmes mais sedutores da temporada, ME CHAME PELO SEU NOME (2017), de Luca Guadagnino, já começa mostrando que o caminho que traçará não será o da culpa católica. Os créditos iniciais, trazendo uma sucessão de imagens de estátuas gregas enfatizando a beleza dos corpos, dá indícios de que o que estaremos perto de ver seria algo de natureza pagã, melhor dizendo, pré-cristão, ou seja, longe da culpa.
E bastam as primeiras imagens para que sejamos arremessados para aquele maravilhoso oásis situado no norte da Itália, no início dos anos 1980. O tempo e o lugar são importantes para tirar um pouco o espectador contemporâneo de seus vícios eletrônicos e nos encantar com uma viagem sensorial tão intensa que é como se estivéssemos lá. Talvez esta seja, aliás, a melhor qualidade do filme de Guadagnino, embora mais motivos haveriam de surgir.
O filme é todo narrado do ponto de vista do jovem Elio (Timothée Chalamet, excelente), que está passando o verão com a família naquele lugar. O pai, um professor universitário, aguarda a chegada de um novo assistente, o americano Oliver (Armie Hammer). Desde a primeira vez que Elio vê Oliver já se instala ali um sentimento de atração, embora nem sempre as imagens sejam óbvias para captar. Nem mesmo o sentimento estava claro para o rapaz de 17 anos ainda.
O curioso da estadia de Oliver naquele lugar paradisíaco é que há bem poucos momentos em que o vemos trabalhando com o pai de Elio. Ele mais parece estar ali para passar férias e desfrutar dos prazeres de um café da manhã ao ar livre, de passeios de bicicleta e banhos de piscina ou de rio. Pequenos detalhes, como ele comendo um ovo cozido no café da manhã ou jogando vôlei, são importantes para que se instale o sentimento de prazer constante.
Em certo momento, Oliver pergunta a Elio o que ele faz naquela cidade. O garoto comenta das festas.O clima da festa também é outro exemplar de felicidade, ainda que não seja uma felicidade plena, já que os dois rapazes ainda estarão se divertindo com as moças locais. Ainda assim, como não sentir prazer na cena de sexo de Elio com a jovem Marzia (Esther Garrell)?
Mas a história de amor dos dois rapazes só estava começando. Não apenas uma história de amor, mas uma história de descoberta, não apenas do ainda adolescente Elio, mas também de Oliver, homem feito, que esconde suas inseguranças muito bem. E o filme trata de mostrar a abordagem lenta dos dois, ou melhor, do jovem Elio, de maneira sabiamente lenta, saboreando os primeiros beijos comedidamente, para, só então, chegar a um momento de intimidade completa - até uma memorável cena de masturbação do adolescente deixa de ser uma atividade secreta.
Talvez um dos momentos em que o filme perde um pouco a força seja na sequência de cenas da viagem, quando dá impressão de que a narrativa vai acabar mas ganha um bônus. Para os personagens, porém, aquela viagem representaria uma festa que não parece ter fim, como se eles estivessem o tempo todo negando que o retorno de Oliver para sua casa seria iminente. Tudo isso seria um preparatório para um final dos mais belos dos filmes românticos recentes.
ME CHAME PELO SEU NOME foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Timothée Chalamet), roteiro adaptado (do grande James Ivory) e melhor canção original ("The Mystery of Love", de Surfjan Stevens).
E bastam as primeiras imagens para que sejamos arremessados para aquele maravilhoso oásis situado no norte da Itália, no início dos anos 1980. O tempo e o lugar são importantes para tirar um pouco o espectador contemporâneo de seus vícios eletrônicos e nos encantar com uma viagem sensorial tão intensa que é como se estivéssemos lá. Talvez esta seja, aliás, a melhor qualidade do filme de Guadagnino, embora mais motivos haveriam de surgir.
O filme é todo narrado do ponto de vista do jovem Elio (Timothée Chalamet, excelente), que está passando o verão com a família naquele lugar. O pai, um professor universitário, aguarda a chegada de um novo assistente, o americano Oliver (Armie Hammer). Desde a primeira vez que Elio vê Oliver já se instala ali um sentimento de atração, embora nem sempre as imagens sejam óbvias para captar. Nem mesmo o sentimento estava claro para o rapaz de 17 anos ainda.
O curioso da estadia de Oliver naquele lugar paradisíaco é que há bem poucos momentos em que o vemos trabalhando com o pai de Elio. Ele mais parece estar ali para passar férias e desfrutar dos prazeres de um café da manhã ao ar livre, de passeios de bicicleta e banhos de piscina ou de rio. Pequenos detalhes, como ele comendo um ovo cozido no café da manhã ou jogando vôlei, são importantes para que se instale o sentimento de prazer constante.
Em certo momento, Oliver pergunta a Elio o que ele faz naquela cidade. O garoto comenta das festas.O clima da festa também é outro exemplar de felicidade, ainda que não seja uma felicidade plena, já que os dois rapazes ainda estarão se divertindo com as moças locais. Ainda assim, como não sentir prazer na cena de sexo de Elio com a jovem Marzia (Esther Garrell)?
Mas a história de amor dos dois rapazes só estava começando. Não apenas uma história de amor, mas uma história de descoberta, não apenas do ainda adolescente Elio, mas também de Oliver, homem feito, que esconde suas inseguranças muito bem. E o filme trata de mostrar a abordagem lenta dos dois, ou melhor, do jovem Elio, de maneira sabiamente lenta, saboreando os primeiros beijos comedidamente, para, só então, chegar a um momento de intimidade completa - até uma memorável cena de masturbação do adolescente deixa de ser uma atividade secreta.
Talvez um dos momentos em que o filme perde um pouco a força seja na sequência de cenas da viagem, quando dá impressão de que a narrativa vai acabar mas ganha um bônus. Para os personagens, porém, aquela viagem representaria uma festa que não parece ter fim, como se eles estivessem o tempo todo negando que o retorno de Oliver para sua casa seria iminente. Tudo isso seria um preparatório para um final dos mais belos dos filmes românticos recentes.
ME CHAME PELO SEU NOME foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Timothée Chalamet), roteiro adaptado (do grande James Ivory) e melhor canção original ("The Mystery of Love", de Surfjan Stevens).
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