Um dos filmes mais sedutores da temporada, ME CHAME PELO SEU NOME (2017), de Luca Guadagnino, já começa mostrando que o caminho que traçará não será o da culpa católica. Os créditos iniciais, trazendo uma sucessão de imagens de estátuas gregas enfatizando a beleza dos corpos, dá indícios de que o que estaremos perto de ver seria algo de natureza pagã, melhor dizendo, pré-cristão, ou seja, longe da culpa.
E bastam as primeiras imagens para que sejamos arremessados para aquele maravilhoso oásis situado no norte da Itália, no início dos anos 1980. O tempo e o lugar são importantes para tirar um pouco o espectador contemporâneo de seus vícios eletrônicos e nos encantar com uma viagem sensorial tão intensa que é como se estivéssemos lá. Talvez esta seja, aliás, a melhor qualidade do filme de Guadagnino, embora mais motivos haveriam de surgir.
O filme é todo narrado do ponto de vista do jovem Elio (Timothée Chalamet, excelente), que está passando o verão com a família naquele lugar. O pai, um professor universitário, aguarda a chegada de um novo assistente, o americano Oliver (Armie Hammer). Desde a primeira vez que Elio vê Oliver já se instala ali um sentimento de atração, embora nem sempre as imagens sejam óbvias para captar. Nem mesmo o sentimento estava claro para o rapaz de 17 anos ainda.
O curioso da estadia de Oliver naquele lugar paradisíaco é que há bem poucos momentos em que o vemos trabalhando com o pai de Elio. Ele mais parece estar ali para passar férias e desfrutar dos prazeres de um café da manhã ao ar livre, de passeios de bicicleta e banhos de piscina ou de rio. Pequenos detalhes, como ele comendo um ovo cozido no café da manhã ou jogando vôlei, são importantes para que se instale o sentimento de prazer constante.
Em certo momento, Oliver pergunta a Elio o que ele faz naquela cidade. O garoto comenta das festas.O clima da festa também é outro exemplar de felicidade, ainda que não seja uma felicidade plena, já que os dois rapazes ainda estarão se divertindo com as moças locais. Ainda assim, como não sentir prazer na cena de sexo de Elio com a jovem Marzia (Esther Garrell)?
Mas a história de amor dos dois rapazes só estava começando. Não apenas uma história de amor, mas uma história de descoberta, não apenas do ainda adolescente Elio, mas também de Oliver, homem feito, que esconde suas inseguranças muito bem. E o filme trata de mostrar a abordagem lenta dos dois, ou melhor, do jovem Elio, de maneira sabiamente lenta, saboreando os primeiros beijos comedidamente, para, só então, chegar a um momento de intimidade completa - até uma memorável cena de masturbação do adolescente deixa de ser uma atividade secreta.
Talvez um dos momentos em que o filme perde um pouco a força seja na sequência de cenas da viagem, quando dá impressão de que a narrativa vai acabar mas ganha um bônus. Para os personagens, porém, aquela viagem representaria uma festa que não parece ter fim, como se eles estivessem o tempo todo negando que o retorno de Oliver para sua casa seria iminente. Tudo isso seria um preparatório para um final dos mais belos dos filmes românticos recentes.
ME CHAME PELO SEU NOME foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Timothée Chalamet), roteiro adaptado (do grande James Ivory) e melhor canção original ("The Mystery of Love", de Surfjan Stevens).
terça-feira, janeiro 30, 2018
sábado, janeiro 27, 2018
LIGADOS PELO AMOR (Stuck in Love)
Em certo momento de LIGADOS PELO AMOR (2012), o personagem de Greg Kinnear, um escritor famoso, confidencia para sua ex-esposa, vivida por Jennifer Connelly, que ele não é um bom escritor, ele é mesmo um bom revisor, ele está sempre pensando no que poderia reescrever em sua vida para que ela pudesse dar certo. É uma das falas mais dolorosas do filme, que trata de uma situação bastante sensível nos relacionamentos: a do sujeito que espera pela mulher voltar depois da traição.
Mas o filme não é apenas sobre a história de Bill Borgens, o personagem de Kinnear, e de sua esposa que agora mora com outro cara. Há também a história de seus filhos, que não poderiam ser mais diferentes: enquanto Sam (Lilly Collins), a mais velha, tem um pensamento mais cínico sobre o amor e a vida a dois, pela experiência de decepção que teve com a mãe, ela vive tendo relações com rapazes que ela faz questão de nunca mais ver. Ela passa a sua ideologia de vida amarga para o seu primeiro livro publicado.
Já o garoto mais novo, Rusty (Nat Wolff), tem uma visão mais romântica da vida e é apaixonado pela garota problemática e viciada em drogas da escola (Liana Liberato). Embora haja alguns momentos bons entre os dois, a maior força do filme está mesmo nos casos envolvendo os personagens de Kinnear e Collins, pelo aspecto mais singular de suas condições. Além do mais, Liana Liberato é o elo fraco do elenco.
O diretor Josh Boone, pouco tempo antes de realizar o popular A CULPA É DAS ESTRELAS (2014), teve a sensibilidade de fazer um filme em que o espectador fica a maior parte do tempo com um nó na garganta, sem que as emoções se desaguem em choro por um bom tempo. Trata-se de uma habilidade admirável. Ainda mais quando vemos uma cena tão bela quanto a que se passa no carro, quando Sam está com o futuro namorado Louis (Logan Lerman), e ambos escutam uma canção bem especial, que põe em cheque a visão cínica do amor de Sam. Trata-se da canção "Between the bars", de Eliott Smith, artista um tanto maldito, por seu envolvimento com drogas, depressão e suposto suicídio ainda muito jovem.
Mas o que mais deixa a gente com o coração na mão são as vezes em que Borgens encontra a mulher por quem ainda nutre uma intenção paixão. As tentativas de ela se esquivar só tornam a tensão ainda mais interessante e também dolorosa. Nem sempre é fácil seguir em frente, mas o filme não fica de chorar pitangas: há algo que é revelado só no final que faz o modo de ver a vida do personagem de Kinnear fazer sentido. Há também a relação de completo rancor da filha com a mãe, o que também rende alguns momentos bastante emotivos.
Enfim, LIGADOS PELO AMOR, por mais que não tenha como se aprofundar em tantos personagens em apenas uma hora e meia de duração, consegue dar contar de narrar essa história com muito amor pelos seus personagens. Só por isso, ele já merece uma conferida, até por não ser uma obra muito conhecida. Além do mais, quem ama livros e música pode sentir um especial carinho pelos personagens e pelos diálogos. A ideia de que um livro ou um álbum pode conter um bocado da personalidade de certa pessoa é muito bonita e possivelmente verdadeira.
Mas o filme não é apenas sobre a história de Bill Borgens, o personagem de Kinnear, e de sua esposa que agora mora com outro cara. Há também a história de seus filhos, que não poderiam ser mais diferentes: enquanto Sam (Lilly Collins), a mais velha, tem um pensamento mais cínico sobre o amor e a vida a dois, pela experiência de decepção que teve com a mãe, ela vive tendo relações com rapazes que ela faz questão de nunca mais ver. Ela passa a sua ideologia de vida amarga para o seu primeiro livro publicado.
Já o garoto mais novo, Rusty (Nat Wolff), tem uma visão mais romântica da vida e é apaixonado pela garota problemática e viciada em drogas da escola (Liana Liberato). Embora haja alguns momentos bons entre os dois, a maior força do filme está mesmo nos casos envolvendo os personagens de Kinnear e Collins, pelo aspecto mais singular de suas condições. Além do mais, Liana Liberato é o elo fraco do elenco.
O diretor Josh Boone, pouco tempo antes de realizar o popular A CULPA É DAS ESTRELAS (2014), teve a sensibilidade de fazer um filme em que o espectador fica a maior parte do tempo com um nó na garganta, sem que as emoções se desaguem em choro por um bom tempo. Trata-se de uma habilidade admirável. Ainda mais quando vemos uma cena tão bela quanto a que se passa no carro, quando Sam está com o futuro namorado Louis (Logan Lerman), e ambos escutam uma canção bem especial, que põe em cheque a visão cínica do amor de Sam. Trata-se da canção "Between the bars", de Eliott Smith, artista um tanto maldito, por seu envolvimento com drogas, depressão e suposto suicídio ainda muito jovem.
Mas o que mais deixa a gente com o coração na mão são as vezes em que Borgens encontra a mulher por quem ainda nutre uma intenção paixão. As tentativas de ela se esquivar só tornam a tensão ainda mais interessante e também dolorosa. Nem sempre é fácil seguir em frente, mas o filme não fica de chorar pitangas: há algo que é revelado só no final que faz o modo de ver a vida do personagem de Kinnear fazer sentido. Há também a relação de completo rancor da filha com a mãe, o que também rende alguns momentos bastante emotivos.
Enfim, LIGADOS PELO AMOR, por mais que não tenha como se aprofundar em tantos personagens em apenas uma hora e meia de duração, consegue dar contar de narrar essa história com muito amor pelos seus personagens. Só por isso, ele já merece uma conferida, até por não ser uma obra muito conhecida. Além do mais, quem ama livros e música pode sentir um especial carinho pelos personagens e pelos diálogos. A ideia de que um livro ou um álbum pode conter um bocado da personalidade de certa pessoa é muito bonita e possivelmente verdadeira.
quarta-feira, janeiro 24, 2018
MAZE RUNNER - A CURA MORTAL (Maze Runner - The Death Cure)
Um dos problemas das franquias de cinema que se estendem por capítulos é que elas exigem certa fidelidade do espectador. Não exatamente no fato de ter a obrigação de ver os referidos filmes, mas de ter que lembrar do que aconteceu nos anteriores, o que seria um convite para uma revisão. Que não seria uma má ideia, mas os dias andam muito corridos. Logo, entrar de novo no universo de MAZE RUNNER é trazer aos poucos as lembranças dos episódios passados. O roteiro ajuda e a ação deste novo filme, como nos demais, é bem eficiente.
MAZE RUNNER - A CURA MORTAL (2018) é o desfecho de uma série que começou de maneira bem modesta neste mundo de ficções científicas juvenis de universos distópicos. O primeiro filme, MAZE RUNNER - CORRER OU MORRER (2014), aliás, nem dava pistas de que se tratava de mais uma dessas distopias. É mais um interessante jogo em que jovens acordam desmemoriados em um perigoso labirinto cercado por monstros. É uma obra que se firma muito bem sozinha, por isso.
A partir do momento em que descobrimos que aqueles garotos e garotas são cobaias de um experimento científico de uma grande corporação e que o restante do mundo está aparentemente em ruínas é que a série se torna um produto um tanto genérico. A sorte é que não deixam a peteca cair e os dois capítulos finais, mesmo tendo mais de duas horas de duração, conseguem ser muito bons no quesito ação.
Sem falar que o herói Thomas, vivido por Dylan O'Brien, é exemplar. Corajoso, apaixonado, bom de briga e disposto a enfrentar desafios gigantes para salvar aqueles a quem ama. Há também um complicador que ajuda a tornar o filme mais interessante: uma das mocinhas, Teresa (Kaya Scodelario), é uma espécie de traidora do grupo, embora ela tenha suas razões em ter ficado junto com o pessoal da WICKED. Ela ainda acredita que uma cura para o vírus mortal possa ser criada em laboratório.
MAZE RUNNER - A CURA MORTAL é um filme com poucas complicações. Os heróis têm como missão libertar um dos amigos que ficou sendo usado como rato de laboratório pela corporação. E, claro, Thomas vai querer ver de novo seu amor, Teresa. Então, há obstáculos pelo caminho, mas as soluções que aparecem são mais ou menos preguiçosas. O que há de interessante nesse percurso é a volta de um antagonista do primeiro filme.
O diretor Wes Ball perde a chance de transformar sua franquia em algo mais do que uma boa e simples aventura juvenil, arriscando-se mais um pouco. De todo modo, as sequências finais, bem dramáticas, são suficientemente boas e não passam do ponto ao querer mais de seus atores e atrizes do que eles são capazes de render. Os efeitos especiais da destruição da cidade não são dos melhores, mas tudo bem. Além do mais, há um pouco de exagero na caracterização do vilão vivido por Aidan Gillen, o Mindinho de GAME OF THRONES, mas isso também é algo que pode ser relevado entre prós e contras. No fim das contas, o saldo é positivo.
MAZE RUNNER - A CURA MORTAL (2018) é o desfecho de uma série que começou de maneira bem modesta neste mundo de ficções científicas juvenis de universos distópicos. O primeiro filme, MAZE RUNNER - CORRER OU MORRER (2014), aliás, nem dava pistas de que se tratava de mais uma dessas distopias. É mais um interessante jogo em que jovens acordam desmemoriados em um perigoso labirinto cercado por monstros. É uma obra que se firma muito bem sozinha, por isso.
A partir do momento em que descobrimos que aqueles garotos e garotas são cobaias de um experimento científico de uma grande corporação e que o restante do mundo está aparentemente em ruínas é que a série se torna um produto um tanto genérico. A sorte é que não deixam a peteca cair e os dois capítulos finais, mesmo tendo mais de duas horas de duração, conseguem ser muito bons no quesito ação.
Sem falar que o herói Thomas, vivido por Dylan O'Brien, é exemplar. Corajoso, apaixonado, bom de briga e disposto a enfrentar desafios gigantes para salvar aqueles a quem ama. Há também um complicador que ajuda a tornar o filme mais interessante: uma das mocinhas, Teresa (Kaya Scodelario), é uma espécie de traidora do grupo, embora ela tenha suas razões em ter ficado junto com o pessoal da WICKED. Ela ainda acredita que uma cura para o vírus mortal possa ser criada em laboratório.
MAZE RUNNER - A CURA MORTAL é um filme com poucas complicações. Os heróis têm como missão libertar um dos amigos que ficou sendo usado como rato de laboratório pela corporação. E, claro, Thomas vai querer ver de novo seu amor, Teresa. Então, há obstáculos pelo caminho, mas as soluções que aparecem são mais ou menos preguiçosas. O que há de interessante nesse percurso é a volta de um antagonista do primeiro filme.
O diretor Wes Ball perde a chance de transformar sua franquia em algo mais do que uma boa e simples aventura juvenil, arriscando-se mais um pouco. De todo modo, as sequências finais, bem dramáticas, são suficientemente boas e não passam do ponto ao querer mais de seus atores e atrizes do que eles são capazes de render. Os efeitos especiais da destruição da cidade não são dos melhores, mas tudo bem. Além do mais, há um pouco de exagero na caracterização do vilão vivido por Aidan Gillen, o Mindinho de GAME OF THRONES, mas isso também é algo que pode ser relevado entre prós e contras. No fim das contas, o saldo é positivo.
segunda-feira, janeiro 22, 2018
O DIA DEPOIS (Geu-hu)
A marca de um grande autor muitas vezes é claramente vista em suas repetições. E por repetições, no caso de Hong Sang-soo, não quer dizer exatamente repetições de temas, mas o uso de repetições dentro da própria estrutura de seus filmes. Por causa disso, quem for ver O DIA DEPOIS (2017) já um tanto acostumado com seus jogos em filmes como A VISITANTE FRANCESA (2012) e a obra-prima CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015) pode ter uma surpresa com este novo trabalho, exibido em Cannes-2017.
O DIA DEPOIS é uma espécie de lado B de NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017), e representa um momento muito particular em que a vida privada e a vida pública do cineasta se misturam, após a exposição do caso que ele teve com a atriz Kim Min-hee, sendo ele então casado. O DIA DEPOIS segue uma posição de lavagem de roupa suja interior ainda mais explícita, já que o protagonista aqui é um homem, o crítico Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon, ator bastante conhecido de outros trabalhos de Hong Sang-soo).
Em certo sentido, lembra o que Woody Allen fez quando dirigiu MARIDOS E ESPOSAS em 1992, como que para expurgar a crise no relacionamento com Mia Farrow, crise que se reflete de maneira grave até os dias de hoje. No caso de O DIA DEPOIS, a situação complicada do homem casado cuja esposa descobre que ele tem uma amante, é explorada com o uso da personagem de Kim Min-hee sendo uma espécie de consciência do personagem, inclusive levando em consideração o fato de ela ser uma pessoa religiosa e tendo crenças bastante firmes.
Diferente de outros filmes anteriores, que exploravam de maneira mais enfática a necessidade de ser amado e elogiado e certa superficialidade das pessoas, aqui temos a aposta em diálogos mais profundos, como aquele em que Kim Min-hee diz se sentir como uma coadjuvante em sua própria vida e de uma maior consciência da própria finitude no mundo, sem no entanto se sentir mal por isso.
Não faltam, porém, vários momentos em que os personagens se embriagam para fugir de seus problemas ou para conversar de maneira mais franca com seu parceiro de copo. Além de tudo, há também o jogo de flertes que também é característico do cinema de Sang-soo, mas que aqui se manifesta de maneira mais sutil nas cenas do patrão e da nova empregada. O homem, mais uma vez, é visto como um ser patético, covarde e um tanto arrogante.
No aspecto formal, é um dos filmes mais prazerosos do diretor, com um uso lindo do preto e branco e de um scope que funciona perfeitamente para colocar os personagens em uma mesa de bar. Se for para enfatizar algo dos diálogos, há uma maior aproximação e um movimento pendular da câmera para cada personagem. Sempre uma satisfação gigante ver cada filme novo deste que já é um dos melhores cineastas em atividade no mundo.
O DIA DEPOIS é uma espécie de lado B de NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017), e representa um momento muito particular em que a vida privada e a vida pública do cineasta se misturam, após a exposição do caso que ele teve com a atriz Kim Min-hee, sendo ele então casado. O DIA DEPOIS segue uma posição de lavagem de roupa suja interior ainda mais explícita, já que o protagonista aqui é um homem, o crítico Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon, ator bastante conhecido de outros trabalhos de Hong Sang-soo).
Em certo sentido, lembra o que Woody Allen fez quando dirigiu MARIDOS E ESPOSAS em 1992, como que para expurgar a crise no relacionamento com Mia Farrow, crise que se reflete de maneira grave até os dias de hoje. No caso de O DIA DEPOIS, a situação complicada do homem casado cuja esposa descobre que ele tem uma amante, é explorada com o uso da personagem de Kim Min-hee sendo uma espécie de consciência do personagem, inclusive levando em consideração o fato de ela ser uma pessoa religiosa e tendo crenças bastante firmes.
Diferente de outros filmes anteriores, que exploravam de maneira mais enfática a necessidade de ser amado e elogiado e certa superficialidade das pessoas, aqui temos a aposta em diálogos mais profundos, como aquele em que Kim Min-hee diz se sentir como uma coadjuvante em sua própria vida e de uma maior consciência da própria finitude no mundo, sem no entanto se sentir mal por isso.
Não faltam, porém, vários momentos em que os personagens se embriagam para fugir de seus problemas ou para conversar de maneira mais franca com seu parceiro de copo. Além de tudo, há também o jogo de flertes que também é característico do cinema de Sang-soo, mas que aqui se manifesta de maneira mais sutil nas cenas do patrão e da nova empregada. O homem, mais uma vez, é visto como um ser patético, covarde e um tanto arrogante.
No aspecto formal, é um dos filmes mais prazerosos do diretor, com um uso lindo do preto e branco e de um scope que funciona perfeitamente para colocar os personagens em uma mesa de bar. Se for para enfatizar algo dos diálogos, há uma maior aproximação e um movimento pendular da câmera para cada personagem. Sempre uma satisfação gigante ver cada filme novo deste que já é um dos melhores cineastas em atividade no mundo.
domingo, janeiro 21, 2018
SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE (Insidious - The Last Key)
A contrário da franquia INVOCAÇÃO DO MAL, que está se expandindo com novos personagens e criações (A boneca Annabelle, a freira assustadora), SOBRENATURAL já demonstrava sinais de cansaço no terceiro capítulo, não dirigido por James Wan. A falta de boas ideias segue predominando neste quarto filme, SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE (2018). Ainda assim, o novo filme ganha um pouco de força lá pela metade da narrativa, principalmente no que é mais forte na série, a exploração dos mundos do além. Aqui é quase como entrar em um labirinto.
SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE se passa em 2010, o ano de lançamento do primeiro filme da série, que mostrava o drama de um casal cujo filho não acordava de um sono e, em seguida, os mesmos pais perceberam a casa sendo assombrada por estranhos fenômenos. Na linha do tempo, a personagem da médium que ajudará esta família estava passando por uma terrível provação também. E essa é a história que é contada neste novo filme.
A parapsicologista Dra. Elise Rainier (Lin Shaye) luta agora com fantasmas do passado que voltam para assombrar o presente. Ela e sua dupla de caça-fantasmas vão parar na casa onde ela morou quando criança, uma casa assombrada por momentos de terror com o próprio pai, que batia nela pelo fato de ela persistir dizendo que via fantasmas. Já na adolescência, ela foge de casa para nunca mais voltar, deixando o irmão mais novo sozinho com o pai, e a mãe já tendo morrido misteriosamente.
A cena da morte da mãe é uma das mais fracas do filme. O que era para ser algo intenso e perturbador se torna banal, um terrível erro do roteirista Leigh Whannell e do novo diretor, Adam Robitel, que traz no currículo o pouco conhecido A POSSESSÃO DE DEBORAH LOGAN (2014). A banalização da morte de uma mãe é um pecado mortal. De todo modo, pode-se entender como sendo algo de menor importância para a trama, e seguir em frente, dando chances ao filme.
Logo no começo de SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE, Elise é chamada para resolver mais um mistério. O que a deixa incomodada é que o mistério está acontecendo na tal casa onde ela morava quando criança. Ainda assim, ela resolve encarar o desafio e lá encontra um homem que está assombrado com vozes de espíritos perturbadores. Mostra a ela, então, o quarto onde há maior predomínio dessas vozes. Um dos espíritos, no entanto, acaba por revelar uma situação ainda mais aterradora acontecendo naquela casa.
E nisso é que o filme ganha pontos: nas pequenas surpresas. Há também boas sacadas e muita tensão em uma cena em que Elise entra em um duto de ventilação para investigar malas. Além do mais, não poderia faltar mais uma das viagens para o outro lado, onde vivem espíritos e demônios, a fim de solucionar o caso. No entanto, é quase certeza que este filme será brevemente esquecido, além de ter sujado um pouco a imagem dos dois primeiros títulos.
SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE se passa em 2010, o ano de lançamento do primeiro filme da série, que mostrava o drama de um casal cujo filho não acordava de um sono e, em seguida, os mesmos pais perceberam a casa sendo assombrada por estranhos fenômenos. Na linha do tempo, a personagem da médium que ajudará esta família estava passando por uma terrível provação também. E essa é a história que é contada neste novo filme.
A parapsicologista Dra. Elise Rainier (Lin Shaye) luta agora com fantasmas do passado que voltam para assombrar o presente. Ela e sua dupla de caça-fantasmas vão parar na casa onde ela morou quando criança, uma casa assombrada por momentos de terror com o próprio pai, que batia nela pelo fato de ela persistir dizendo que via fantasmas. Já na adolescência, ela foge de casa para nunca mais voltar, deixando o irmão mais novo sozinho com o pai, e a mãe já tendo morrido misteriosamente.
A cena da morte da mãe é uma das mais fracas do filme. O que era para ser algo intenso e perturbador se torna banal, um terrível erro do roteirista Leigh Whannell e do novo diretor, Adam Robitel, que traz no currículo o pouco conhecido A POSSESSÃO DE DEBORAH LOGAN (2014). A banalização da morte de uma mãe é um pecado mortal. De todo modo, pode-se entender como sendo algo de menor importância para a trama, e seguir em frente, dando chances ao filme.
Logo no começo de SOBRENATURAL - A ÚLTIMA CHAVE, Elise é chamada para resolver mais um mistério. O que a deixa incomodada é que o mistério está acontecendo na tal casa onde ela morava quando criança. Ainda assim, ela resolve encarar o desafio e lá encontra um homem que está assombrado com vozes de espíritos perturbadores. Mostra a ela, então, o quarto onde há maior predomínio dessas vozes. Um dos espíritos, no entanto, acaba por revelar uma situação ainda mais aterradora acontecendo naquela casa.
E nisso é que o filme ganha pontos: nas pequenas surpresas. Há também boas sacadas e muita tensão em uma cena em que Elise entra em um duto de ventilação para investigar malas. Além do mais, não poderia faltar mais uma das viagens para o outro lado, onde vivem espíritos e demônios, a fim de solucionar o caso. No entanto, é quase certeza que este filme será brevemente esquecido, além de ter sujado um pouco a imagem dos dois primeiros títulos.
quarta-feira, janeiro 17, 2018
ARÁBIA
O que dizer de um filme que consegue ao mesmo tempo narrar com sensibilidade a história de um homem comum em sua trajetória de dor pelo mundo e ao mesmo tempo conclamar o público a usar o seu direito à desobediência civil para fazer valer os seus direitos? Ser transgressor faz muito bem à arte e por isso ouvir em certo momento "Cowboy Fora da Lei", de Raul Seixas, cantada por um grupo de rapazes, é tão bom. Pois esse é ARÁBIA (2017), obra-prima assinada por Affonso Uchôa e João Dumans e vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Brasília.
Quem viu A VIZINHANÇA DO TIGRE (2016) nem imagina o quanto Uchôa cresceu neste seu segundo trabalho em parceria com o roteirista do primeiro filme. Certamente a parceria na direção lhe fez muito bem, mas o fato é que bastam as imagens, nos créditos iniciais, do garoto André (Murilo Caliari) andando de bicicleta ao som de "I'll be here in the morning", de Steven Van Zandt, para percebermos que estamos diante de algo muito especial.
O cuidado com as imagens, que no filme anterior de Uchôa parecia mais solto, é percebido com maior rigor formal já nas primeiras cenas, que nos apresentam ao menino André, à sua tia e ao seu irmão pequeno, que está acamado. A pequena cidade onde moram parece agradável, mas também é triste, a julgar pela imagem que vemos logo de cara de uma fábrica que parece espalhar veneno por toda a redondeza.
Mas teremos ainda uma boa e agradável surpresa depois de sermos apresentados ao estranho e solitário Cristiano (Aristides de Sousa), rapaz que trabalha na fábrica da cidade. Ele será o narrador de sua própria história, a partir do diário encontrado por André. Assim, como em um trabalho literário em que uma história engole a outra, somos levados pelo braço, e com muito prazer e interesse, para conhecer a história de vida de Cristiano, que já antecipa que falará da mulher mais importante de sua vida, Ana (Renata Cabral).
Um dos aspectos mais interessantes de ARÁBIA é como a narrativa em tom rude de Cristiano consegue ser também tão delicada. O filme é praticamente todo narrado com a voz do rapaz, em sua passagem por diversas cidades de Minas Gerais, inclusive tendo feito uma passagem pela prisão por roubo de carro. Em suas paradas em tantos lugares, ele conhece pessoas que influenciam o seu modo de pensar, como o homem que trouxe os sindicatos e a greve a um povoado que estava trabalhando sem ser devidamente pago pelo patrão, dono de uma plantação de tangerinas.
Como se fosse a personificação do povo brasileiro, Cristiano segue procurando um lugar melhor para si. Acredita encontrar a felicidade quando conhece Ana, em uma fábrica. Justamente uma moça que tem leitura e instrução, coisa que ele não tem. Contrariando as previsões mais pessimistas, Ana o ama de volta. Pelo menos até determinado momento de suas vidas, quando algo ocorre e eles não sabem bem o que é. Como se a sorte tivesse prazo de validade.
ARÁBIA ainda conta com uma trilha sonora admiravelmente linda, com canções de Maria Bethânia ("Três apitos", de Noel Rosa), Renato Teixeira ("Raízes"), um senhor cantando de maneira imperfeitamente bela "Marina", de Dorival Caymmi, em uma festa, além das acima citadas. E boa parte das vezes o convite para ouvir as canções segue junto com o convite para se deleitar com a melancolia da narrativa de Cristiano e das imagens deslumbrantes da fotografia de Leonardo Feliciano. O mundo pode ser um lugar triste, mas ainda há espaço para a beleza da arte, que não apenas nos faz pessoas melhores e mais sensíveis, mas também, neste caso, nos incita a agirmos como seres políticos mais ativos.
Quem viu A VIZINHANÇA DO TIGRE (2016) nem imagina o quanto Uchôa cresceu neste seu segundo trabalho em parceria com o roteirista do primeiro filme. Certamente a parceria na direção lhe fez muito bem, mas o fato é que bastam as imagens, nos créditos iniciais, do garoto André (Murilo Caliari) andando de bicicleta ao som de "I'll be here in the morning", de Steven Van Zandt, para percebermos que estamos diante de algo muito especial.
O cuidado com as imagens, que no filme anterior de Uchôa parecia mais solto, é percebido com maior rigor formal já nas primeiras cenas, que nos apresentam ao menino André, à sua tia e ao seu irmão pequeno, que está acamado. A pequena cidade onde moram parece agradável, mas também é triste, a julgar pela imagem que vemos logo de cara de uma fábrica que parece espalhar veneno por toda a redondeza.
Mas teremos ainda uma boa e agradável surpresa depois de sermos apresentados ao estranho e solitário Cristiano (Aristides de Sousa), rapaz que trabalha na fábrica da cidade. Ele será o narrador de sua própria história, a partir do diário encontrado por André. Assim, como em um trabalho literário em que uma história engole a outra, somos levados pelo braço, e com muito prazer e interesse, para conhecer a história de vida de Cristiano, que já antecipa que falará da mulher mais importante de sua vida, Ana (Renata Cabral).
Um dos aspectos mais interessantes de ARÁBIA é como a narrativa em tom rude de Cristiano consegue ser também tão delicada. O filme é praticamente todo narrado com a voz do rapaz, em sua passagem por diversas cidades de Minas Gerais, inclusive tendo feito uma passagem pela prisão por roubo de carro. Em suas paradas em tantos lugares, ele conhece pessoas que influenciam o seu modo de pensar, como o homem que trouxe os sindicatos e a greve a um povoado que estava trabalhando sem ser devidamente pago pelo patrão, dono de uma plantação de tangerinas.
Como se fosse a personificação do povo brasileiro, Cristiano segue procurando um lugar melhor para si. Acredita encontrar a felicidade quando conhece Ana, em uma fábrica. Justamente uma moça que tem leitura e instrução, coisa que ele não tem. Contrariando as previsões mais pessimistas, Ana o ama de volta. Pelo menos até determinado momento de suas vidas, quando algo ocorre e eles não sabem bem o que é. Como se a sorte tivesse prazo de validade.
ARÁBIA ainda conta com uma trilha sonora admiravelmente linda, com canções de Maria Bethânia ("Três apitos", de Noel Rosa), Renato Teixeira ("Raízes"), um senhor cantando de maneira imperfeitamente bela "Marina", de Dorival Caymmi, em uma festa, além das acima citadas. E boa parte das vezes o convite para ouvir as canções segue junto com o convite para se deleitar com a melancolia da narrativa de Cristiano e das imagens deslumbrantes da fotografia de Leonardo Feliciano. O mundo pode ser um lugar triste, mas ainda há espaço para a beleza da arte, que não apenas nos faz pessoas melhores e mais sensíveis, mas também, neste caso, nos incita a agirmos como seres políticos mais ativos.
segunda-feira, janeiro 15, 2018
STROMBOLI
Ter visto EU SOU INGRID BERGMAN, documentário de Stig Björkman, ajuda bastante a nos levar aos sentimentos da personagem Karin, de STROMBOLI (1950), primeira parceria de Ingrid Bergman com o diretor italiano Roberto Rossellini. Foi nas produções deste filme que Ingrid teve um caso extraconjungal com Rossellini e ficou grávida. Isso significou para ela uma espécie de suicídio comercial de sua carreira em Hollywood, tendo ela se tornado persona non grata nos Estados Unidos.
Sua vida, certamente, passou por uma reviravolta tremenda. Imagina só: abandonar a família que tinha até então e passar a viver em um outro país e formar uma nova família com esse cara de filmes baratos mas cultuados. De certa forma, Karin, a mulher que cai na cilada de casar com um sujeito que mora em uma ilha que não tem nada, a não ser um vulcão ativo, lembra um bocado a própria atriz sueca. Embora a atriz estivesse ali porque queria e não numa situação de prisão. No entanto, tanto a atriz quanto a personagem têm que enfrentar o preconceito de uma sociedade.
Visto hoje, é possível que STROMBOLI seja visto com certa estranheza pelo público, pela mistura de um tipo de dramaturgia que lembra o que se fazia em Hollywood na época, misturado com o que havia de mais melodramático no cinema italiano e incluindo a utilização de não-atores também, característica do neorrealismo italiano. Mas tudo isso pode ser abraçado com muito carinho.
Até porque o filme é narrado de uma maneira tão intensa que é muito fácil nos colocarmos no lugar de Karin. Há, porém, uma cena que é vista com horror pela personagem, mas que pode ser encarada com maravilhamento pelo espectador: uma cena filmada em tom documental, até por ser de fato o registro de pescadores em um ritual de pesca de peixes enormes. Eles cantam enquanto levantam as redes, que trazem o que mais parecem tubarões para seus barcos. É tão admirável quanto a cena do estouro da boiada em RIO VERMELHO, de Howard Hawks.
E há, no final, aquilo que se tornaria muito comum de se ver na filmografia de Rossellini: sua busca pelo religioso, por Deus. Seu filme seguinte já seria FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS (1950). Quanto ao personagem do marido, Antonio, vivido por Mario Vitale, trata-se de um homem simples, comum, que fica um bocado eclipsado pela complexidade e brilho de Karin, uma mulher que, já no próprio filme talvez tenha sido vista pelas alas mais tradicionais da sociedade como um exemplo de mulher imprudente. Hoje é muito mais fácil vê-la como alguém que precisava usar o que dispunha, ou seja, sua beleza e sua sedução, para tentar conseguir o que desejava. Mas o filme, o diretor ou o destino parecem querer pregar-lhe uma lição.
Sua vida, certamente, passou por uma reviravolta tremenda. Imagina só: abandonar a família que tinha até então e passar a viver em um outro país e formar uma nova família com esse cara de filmes baratos mas cultuados. De certa forma, Karin, a mulher que cai na cilada de casar com um sujeito que mora em uma ilha que não tem nada, a não ser um vulcão ativo, lembra um bocado a própria atriz sueca. Embora a atriz estivesse ali porque queria e não numa situação de prisão. No entanto, tanto a atriz quanto a personagem têm que enfrentar o preconceito de uma sociedade.
Visto hoje, é possível que STROMBOLI seja visto com certa estranheza pelo público, pela mistura de um tipo de dramaturgia que lembra o que se fazia em Hollywood na época, misturado com o que havia de mais melodramático no cinema italiano e incluindo a utilização de não-atores também, característica do neorrealismo italiano. Mas tudo isso pode ser abraçado com muito carinho.
Até porque o filme é narrado de uma maneira tão intensa que é muito fácil nos colocarmos no lugar de Karin. Há, porém, uma cena que é vista com horror pela personagem, mas que pode ser encarada com maravilhamento pelo espectador: uma cena filmada em tom documental, até por ser de fato o registro de pescadores em um ritual de pesca de peixes enormes. Eles cantam enquanto levantam as redes, que trazem o que mais parecem tubarões para seus barcos. É tão admirável quanto a cena do estouro da boiada em RIO VERMELHO, de Howard Hawks.
E há, no final, aquilo que se tornaria muito comum de se ver na filmografia de Rossellini: sua busca pelo religioso, por Deus. Seu filme seguinte já seria FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS (1950). Quanto ao personagem do marido, Antonio, vivido por Mario Vitale, trata-se de um homem simples, comum, que fica um bocado eclipsado pela complexidade e brilho de Karin, uma mulher que, já no próprio filme talvez tenha sido vista pelas alas mais tradicionais da sociedade como um exemplo de mulher imprudente. Hoje é muito mais fácil vê-la como alguém que precisava usar o que dispunha, ou seja, sua beleza e sua sedução, para tentar conseguir o que desejava. Mas o filme, o diretor ou o destino parecem querer pregar-lhe uma lição.
segunda-feira, janeiro 08, 2018
GLOBO DE OURO 2018
E toda a polêmica em torno do abuso sexual que chamou a atenção em 2017 deu o tom nesta edição do Globo de Ouro, que contou com a participação da imensa maioria das mulheres vestidas de preto, em protesto. Ficou até complicado para o host Seth Meyers fazer piada no monólogo de abertura, diante de tal situação, mas até que ele conseguiu fazer graça e foi bastante elegante, embora as farpas tenham ido mais para Kevin Spacey do que para Harvey Weinstein, já que o próprio nome do produtor resultou em vaia.
De todo modo, esta edição dos Golden Globes ficará lembrada durante um bom tempo. Principalmente pelo discurso poderoso de Oprah Winfrey (a grande homenageada da noite, com o prêmio Cecil B. De Mille). Ela deixou muita gente de queixo caído pela sensibilidade e por lembrar também da questão racial, que continua sendo um problema nos Estados Unidos. O fato de a atriz e apresentadora ser uma das pessoas mais queridas do país não diminui o preconceito racial.
Outro detalhe curioso também nesta edição é que as atrizes puxaram os prêmios principais. O prêmio de melhor filme dramático para TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME veio logo depois do prêmio de melhor atriz para Frances McDormand. O mesmo aconteceu com a jovem Saoirse Ronan e o filme LADY BIRD - É HORA DE VOAR, injustamente não recebendo uma indicação de melhor direção para Greta Gerwig.
O mesmo aconteceu com os prêmios para a televisão. As maravilhosas Rachel Brosnahan e Elisabeth Moss venceram os prêmios em suas categorias e alavancaram premiações para THE MARVELOUS MRS. MAISEL e THE HANDMAID'S TALE. O mesmo aconteceu com Nicole Kidman e BIG LITTLE LIES. Ou seja, as premiações giraram em torno delas.
E os filmes e séries em si trataram de temas muito apropriados para a situação. O filme dramático premiado fala de morte e estupro de uma jovem, seguido de uma tentativa de vingança de uma mãe. Outros títulos também lidam com a opressão sofrida pelas mulheres em um mundo ainda dominado pelo patriarcado. Mesmo em uma série tão leve quanto THE MARVELOUS MRS. MAISEL.
Assim, os prêmios masculinos acabaram sendo eclipsados nesta premiação, mesmo tendo um time de gigantes na categoria de atores para filme (drama) e a premiação de James Franco ter sido engraçada. O próprio Guillermo Del Toro, que recebeu prêmio de direção, teve a complicada tarefa de subir ao palco depois do discurso fantástico de Oprah. Mas foi muito bom. Mesmo sem mulheres na categoria de direção e sem uma apresentadora mulher no comando, a impressão que fica é que algo mudou ou está mudando em Hollywood. E que pode se expandir para os Estados Unidos e o mundo. Tomara.
Prêmios da noite
Cinema
Melhor Filme (Drama): TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
Melhor Filme (Comédia/Musical): LADY BIRD - É HORA DE VOAR
Melhor Direção: Guillermo Del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Melhor Ator (Drama): Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Melhor Ator (Comédia/Musical): James Franco (O ARTISTA DO DESASTRE)
Melhor Atriz (Drama): Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Saoirse Ronan (LADY BIRD - É HORA DE VOAR)
Melhor Ator Coadjuvante: Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Atriz Coadjuvante: Allison Janney (EU, TONYA)
Melhor Roteiro: Martin McDonaugh (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Trilha Sonora: A FORMA DA ÁGUA
Melhor Canção Original: "This is me" (O REI DO SHOW)
Melhor Animação: VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Melhor Filme Estrangeiro: EM PEDAÇOS (Alemanha)
Televisão
Melhor Série (Drama): THE HANDMAID'S TALE
Melhor Série (Comédia/Musical): THE MARVELOUS MRS. MAISEL
Melhor Minissérie ou Telefilme: BIG LITTLE LIES
Melhor Ator de Série (Drama): Sterling K. Brown (THIS IS US)
Melhor Ator de Série (Comédia): Aziz Anzari (MASTER OF NONE)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Ewan McGregor (FARGO)
Melhor Atriz de Série (Drama): Elisabeth Moss (THE HANDMAID'S TALE)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Rachel Brosnahan (THE MARVELOUS MRS. MAISEL)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Nicole Kidman (BIG LITTLE LIES)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Alexander Skarsgard (BIG LITTLE LIES)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Laura Dern (BIG LITTLE LIES)
quarta-feira, janeiro 03, 2018
MULHER MOLHADA AO VENTO (Kaze ni Nureta Onna)
Que bom seria se alguma produtora brasileira bancasse algo semelhante ao que a produtora japonesa Nikkatsu fez com este projeto, de trazer de volta o espírito das comédias eróticas japonesas que faziam muito sucesso nos anos 1970 e 80, a exemplo do que acontecia também no Brasil e na Itália.
Foram produzidos cinco filmes, sendo que os diretores, alguns deles famosos mundialmente, teriam que cumprir três regras. São elas: o filme deve ter menos de 80 minutos de duração; deve conter uma cena de nudez ou de sexo a cada dez minutos pelo menos; e deve ser filmado em menos de uma semana. MULHER MOLHADA AO VENTO (2016), de Akihiko Shiota, foi o primeiro dessa linha a sair do forno.
E que delícia que é este filme, hein. Não só porque as cenas de sexo são boas, a atriz é linda e carismática e o filme é muito divertido, sendo possível rir muitas vezes, mas por causa também de seus aspectos formais. A fotografia em cores é linda, a direção de arte é caprichada, mesmo com uma agenda de produção tão apertada, e, principalmente, é possível se sentir no lugar do protagonista.
Na trama, Kosuke (Tasuku Nagaoka), um dramaturgo que vive isolado no meio da selva, é constantemente perseguido por uma bela e sensual jovem chamada Shiori (Yuki Mamiya). A primeira aparição da moça é impagável. Ela entra com bicicleta e tudo dentro de uma lagoa e sai de lá tirando a camiseta e mostrando os seios ao assustado dramaturgo. Enquanto ela espreme a camiseta molhada para vestir novamente, ela diz que vai ficar com o rapaz.
Kosuke não diz nada e vai embora, Shiori tenta agarrá-lo, literalmente, pelo pescoço, mas ele a joga no chão, violentamente. Aos poucos, porém, ele vai se tornando cada vez mais excitado e interessado por aquela mulher meio louca, que ele acaba vendo que está trabalhando de garçonete em um café que ele costuma frequentar. Chega um ponto em que o jogo muda, e ele, sem aguentar mais de desejo, tenta agarrar a moça. Ela, porém, joga com ele e aparece fazendo sexo com outros homens, fazendo com que ele fique ainda mais louco de vontade.
Até certo momento, parece uma variação de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel, mas as coisas mudam bastante de rumo a cada virada inesperada do roteiro e do modo como os personagens solucionam seus problemas, necessidades e desejos. Assim, é possível também rir do quanto a cada momento esses personagens vão tomando atitudes bem loucas. A cena de sexo dos dois personagens, enquanto uma mulher está ao telefone é genial, assim como a tentativa de um ménage à trois dentro do barraco de Kosuke. Começar o ano com este filme foi uma escolha bem acertada.
Foram produzidos cinco filmes, sendo que os diretores, alguns deles famosos mundialmente, teriam que cumprir três regras. São elas: o filme deve ter menos de 80 minutos de duração; deve conter uma cena de nudez ou de sexo a cada dez minutos pelo menos; e deve ser filmado em menos de uma semana. MULHER MOLHADA AO VENTO (2016), de Akihiko Shiota, foi o primeiro dessa linha a sair do forno.
E que delícia que é este filme, hein. Não só porque as cenas de sexo são boas, a atriz é linda e carismática e o filme é muito divertido, sendo possível rir muitas vezes, mas por causa também de seus aspectos formais. A fotografia em cores é linda, a direção de arte é caprichada, mesmo com uma agenda de produção tão apertada, e, principalmente, é possível se sentir no lugar do protagonista.
Na trama, Kosuke (Tasuku Nagaoka), um dramaturgo que vive isolado no meio da selva, é constantemente perseguido por uma bela e sensual jovem chamada Shiori (Yuki Mamiya). A primeira aparição da moça é impagável. Ela entra com bicicleta e tudo dentro de uma lagoa e sai de lá tirando a camiseta e mostrando os seios ao assustado dramaturgo. Enquanto ela espreme a camiseta molhada para vestir novamente, ela diz que vai ficar com o rapaz.
Kosuke não diz nada e vai embora, Shiori tenta agarrá-lo, literalmente, pelo pescoço, mas ele a joga no chão, violentamente. Aos poucos, porém, ele vai se tornando cada vez mais excitado e interessado por aquela mulher meio louca, que ele acaba vendo que está trabalhando de garçonete em um café que ele costuma frequentar. Chega um ponto em que o jogo muda, e ele, sem aguentar mais de desejo, tenta agarrar a moça. Ela, porém, joga com ele e aparece fazendo sexo com outros homens, fazendo com que ele fique ainda mais louco de vontade.
Até certo momento, parece uma variação de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel, mas as coisas mudam bastante de rumo a cada virada inesperada do roteiro e do modo como os personagens solucionam seus problemas, necessidades e desejos. Assim, é possível também rir do quanto a cada momento esses personagens vão tomando atitudes bem loucas. A cena de sexo dos dois personagens, enquanto uma mulher está ao telefone é genial, assim como a tentativa de um ménage à trois dentro do barraco de Kosuke. Começar o ano com este filme foi uma escolha bem acertada.
terça-feira, janeiro 02, 2018
BLACK MIRROR - QUARTA TEMPORADA (Black Mirror - Series 4)
É até meio covardia fazer uma única postagem para o que podemos encarar como sendo seis longas-metragens de curta duração. Ainda assim, tentemos falar alguma coisa sobre cada um dos assim chamados episódios da quarta temporada de BLACK MIRROR (2017), sem que pareça uma mera descrição da trama. Antes de mais nada, vale destacar que estamos diante da mais bem-sucedida das temporadas da série/antologia criada por Charlie Brooker, que também participou como roteirista de todos os episódios.
"USS Callister", dirigido por Toby Haynes, a princípio parece apenas uma sátira de Star Trek, exagerando no que pode ter ficado datado na série que nasceu nos anos 1960. Mas depois vemos que a história é outra: conhecemos um diretor de uma empresa de informática (Jesse Plemons) que não é muito popular em seu ambiente de trabalho. Em compensação, ele é o líder da nave no universo virtual que criou. É uma história sobre carência afetiva e maldade.
"Arkangel", dirigido por Jodie Foster, foca na vida preocupada de uma mãe, que uma vez perde sua filha em um passeio e resolve aceitar uma experiência de uma empresa que implanta um chip na filha e a mãe pode não apenas monitorá-la, mas também ver o que ela está vendo, entre outras coisas. É um conto moral sobre invasão de privacidade, mais um tema muito contemporâneo. Gosto muito de como o filme lida com o crescimento da garota e do momento de ruptura/discussão com a mãe.
"Crocodile", dirigido por John Hillcoat, junta duas histórias que se cruzam lá no final. A da mulher que comete um crime ao aceitar esconder o corpo de uma vítima de acidente na estrada; e a de uma moça que trabalha em seguros de vida e que tem à sua disposição aparelhos que conseguem capturar as memórias das pessoas. A história é fascinante e o modo como Hillcoat lida com o medo da mulher de ser descoberta e de cada vez mais aumentar os seus problemas e pecados é angustiante. É mais um thriller que conta com uma tecnologia fascinante a favor da trama.
"Hang the DJ" (foto), dirigido por Timothy Van Patten, é o episódio que mais agradará os espíritos românticos. É o episódio de BLACK MIRROR que conta uma história de amor, assim como na temporada passada foi "San Junipero". Podemos dizer que são histórias irmãs, sendo que "Hang the DJ" expressa de maneira mais enfática a ideia de se ter uma alma gêmea. Quem determina é um programa de relacionamentos que obriga as pessoas a ficarem com as pessoas na duração que o sistema achar mais conveniente, seja apenas 12 horas, seja um ano ou mais. E é assim que vamos nos apaixonando pelo casal vivido por Georgina Campbell e Joe Cole. Os dois se gostam desde o primeiro encontro, mas logo têm que se afastar e ficar com outras pessoas por períodos longos. Histórias de amor que encontram obstáculos não são novidade nenhuma. Ao contrário. Mas a inclusão de um evoluído sistema de matches dentro de uma espécie de universo distópico torna tudo bem atual.
"Metalhead", dirigido por David Slade, é o episódio que mais junta terror com ação e suspense da temporada. É o equivalente ao "Shut up and Dance", da temporada passada. Só que com muito mais estilo. A fotografia em preto, branco e prata é de uma beleza impressionante. Na trama, um pequeno grupo de pessoas em um carro futurista passeiam por um deserto a fim de obter uma caixa. Mas eles são atacados pelo que chamam de cachorro - na verdade, uma espécie de robô de quatro patas quase invencível que sai à cata de seres humanos. Esse monstrinho é fascinante em sua criação. Muito bom ver que o dinheiro que colocaram a mais na série está rendendo bons frutos. Slade consegue, aqui, superar todos os seus trabalhos no cinema.
"Black Museum", dirigido por Colm McCarthy, é o que pode pegar um público pouco acostumado com um horror com violência desprevenido. É talvez o mais pesado dos episódios de BLACK MIRROR. Charlie Brooker junta várias ideias muito inteligentes e não tem pena de gastá-las em um único episódio, que conta a história de uma jovem que visita um museu especializado em crimes. E, como não há ninguém no tal museu, ela é recepcionada pelo dono do lugar, que conta três histórias tão envolventes quanto horripilantes. A ideia dos cookies, que foi usada também nos episódios "USS Callister", em "Hang the DJ", e em "White Christmas" (2014), em maior ou menor grau de terror e angústia, é usada aqui novamente. Talvez o problema do episódio seja a duração e a sensação de que ele não é tão unitário e orgânico quanto os demais. Mas é difícil passar indiferente por ele.
No mais, podemos dizer que esta quarta temporada foi um grande sucesso criativo, por mais que não esteja agradando a todos.
"USS Callister", dirigido por Toby Haynes, a princípio parece apenas uma sátira de Star Trek, exagerando no que pode ter ficado datado na série que nasceu nos anos 1960. Mas depois vemos que a história é outra: conhecemos um diretor de uma empresa de informática (Jesse Plemons) que não é muito popular em seu ambiente de trabalho. Em compensação, ele é o líder da nave no universo virtual que criou. É uma história sobre carência afetiva e maldade.
"Arkangel", dirigido por Jodie Foster, foca na vida preocupada de uma mãe, que uma vez perde sua filha em um passeio e resolve aceitar uma experiência de uma empresa que implanta um chip na filha e a mãe pode não apenas monitorá-la, mas também ver o que ela está vendo, entre outras coisas. É um conto moral sobre invasão de privacidade, mais um tema muito contemporâneo. Gosto muito de como o filme lida com o crescimento da garota e do momento de ruptura/discussão com a mãe.
"Crocodile", dirigido por John Hillcoat, junta duas histórias que se cruzam lá no final. A da mulher que comete um crime ao aceitar esconder o corpo de uma vítima de acidente na estrada; e a de uma moça que trabalha em seguros de vida e que tem à sua disposição aparelhos que conseguem capturar as memórias das pessoas. A história é fascinante e o modo como Hillcoat lida com o medo da mulher de ser descoberta e de cada vez mais aumentar os seus problemas e pecados é angustiante. É mais um thriller que conta com uma tecnologia fascinante a favor da trama.
"Hang the DJ" (foto), dirigido por Timothy Van Patten, é o episódio que mais agradará os espíritos românticos. É o episódio de BLACK MIRROR que conta uma história de amor, assim como na temporada passada foi "San Junipero". Podemos dizer que são histórias irmãs, sendo que "Hang the DJ" expressa de maneira mais enfática a ideia de se ter uma alma gêmea. Quem determina é um programa de relacionamentos que obriga as pessoas a ficarem com as pessoas na duração que o sistema achar mais conveniente, seja apenas 12 horas, seja um ano ou mais. E é assim que vamos nos apaixonando pelo casal vivido por Georgina Campbell e Joe Cole. Os dois se gostam desde o primeiro encontro, mas logo têm que se afastar e ficar com outras pessoas por períodos longos. Histórias de amor que encontram obstáculos não são novidade nenhuma. Ao contrário. Mas a inclusão de um evoluído sistema de matches dentro de uma espécie de universo distópico torna tudo bem atual.
"Metalhead", dirigido por David Slade, é o episódio que mais junta terror com ação e suspense da temporada. É o equivalente ao "Shut up and Dance", da temporada passada. Só que com muito mais estilo. A fotografia em preto, branco e prata é de uma beleza impressionante. Na trama, um pequeno grupo de pessoas em um carro futurista passeiam por um deserto a fim de obter uma caixa. Mas eles são atacados pelo que chamam de cachorro - na verdade, uma espécie de robô de quatro patas quase invencível que sai à cata de seres humanos. Esse monstrinho é fascinante em sua criação. Muito bom ver que o dinheiro que colocaram a mais na série está rendendo bons frutos. Slade consegue, aqui, superar todos os seus trabalhos no cinema.
"Black Museum", dirigido por Colm McCarthy, é o que pode pegar um público pouco acostumado com um horror com violência desprevenido. É talvez o mais pesado dos episódios de BLACK MIRROR. Charlie Brooker junta várias ideias muito inteligentes e não tem pena de gastá-las em um único episódio, que conta a história de uma jovem que visita um museu especializado em crimes. E, como não há ninguém no tal museu, ela é recepcionada pelo dono do lugar, que conta três histórias tão envolventes quanto horripilantes. A ideia dos cookies, que foi usada também nos episódios "USS Callister", em "Hang the DJ", e em "White Christmas" (2014), em maior ou menor grau de terror e angústia, é usada aqui novamente. Talvez o problema do episódio seja a duração e a sensação de que ele não é tão unitário e orgânico quanto os demais. Mas é difícil passar indiferente por ele.
No mais, podemos dizer que esta quarta temporada foi um grande sucesso criativo, por mais que não esteja agradando a todos.
domingo, dezembro 31, 2017
TOP 20 2017 E O BALANÇO DO ANO
2. PERSONAL SHOPPER, de Olivier Assayas
3. A CRIADA, de Chan-wook Park
4. JOHN WICK - UM NOVO DIA PARA MATAR, de Chad Stahelski
6. PATERSON, de Jim Jarmusch
7. EM RITMO DE FUGA, de Edgar Wright
8. COLO, de Teresa Villaverde
10. LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, de Damien Chazelle
11. MANCHESTER À BEIRA-MAR, de Kenneth Lonergan
12. A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra
14. JOVEM MULHER, de Léonor Serraille
15. TONI ERDMANN, de Maren Ade
16. COLUMBUS, de Kogonada
18. JACKIE, de Pablo Larraín
19. DETROIT EM REBELIÃO, de Kathryn Bigelow
20. SILÊNCIO, de Martin Scorsese
Menções honrosas
NA VERTICAL, de Alain Guiraudie
120 BATIMENTOS POR MINUTO, de Robin Campillo
BLADE RUNNER 2049, de Denis Villeneuve
BOM COMPORTAMENTO, de Bennie e Josh Safdie
FRAGMENTADO, de M. Night Shyamalan
LUCKY, de John Carroll Lynch
AS DUAS IRENES, de Fabio Meira
BEDUÍNO, de Júlio Bressane
BINGO, O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende
EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck
Fora de competição
TWIN PEAKS - O RETORNO, de David Lynch e Mark Frost
Mantendo ainda a minha tradição, os melhores do ano acima correspondem a filmes contemporâneos vistos exclusivamente nos cinemas no ano corrente. Por isso, não estranhem a presença do romeno SIERANEVADA, de Cristi Puiu, que é um desses filmes que parece que nada acontece, em uma reunião de família. Só houve duas exibições em Fortaleza. Uma no final de 2016 e outra na mostra Retrospectiva/Expectativa.
Também não estranhem a ausência de TWIN PEAKS - O RETORNO, o grande evento audiovisual do ano, que muitos veículos de respeito estão colocando como melhor filme de 2017. Eu até já votei nele no prêmio do Cinema na Varanda como melhor filme do ano, mas isso porque as regras permitiam. E porque não houve nada mais impactante que o retorno do nosso querido Lynch depois de um longo hiato. Para nossa sorte, Lynch nunca esteve em melhor forma e tão inspirado.
Lynch está presente também no trabalho de alguns de seus seguidores. Muito provavelmente, o maior deles seja o ainda pouco conhecido Philippe Grandrieux, cujo APESAR DA NOITE possui inúmeros elementos claramente lynchianos. Até mesmo a dúvida se se trata de um filme de horror ou não está presente, embora seja ao mesmo tempo um filme que transborda amor e cheira a medo, muito medo.
Falando em medo, outro filme francês se destacou em nosso circuito. PERSONAL SHOPPER, de Olivier Assayas, é a segunda parceria do diretor com Kristen Stewart, e desta vez ele preferiu investir em menos texto e mais atmosfera. Muito amor para este filme. O horror também esteve presente em outras obras fantásticas, sendo o grande destaque, inclusive nas premiações, CORRA!, de Jordan Peele, que lida com a questão do racismo de maneira genial.
Dois dos melhores filmes de ação da década despontaram este ano também: JOHN WICK - UM NOVO DIA PARA MATAR, de Chad Stahelski, e EM RITMO DE FUGA, de Edgar Wright. São dois trabalhos bem distintos: um mais herdeiro do cinema de ação de Hong Kong; outro que brinca com o gênero musical, inserindo canções dentro das sequências de ação de forma linda.
Mas já que falei de musical, não há como esquecer de LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, de Damien Chazelle, uma tocante homenagem ao gênero, tanto o produzido nos Estados Unidos até os anos 1950, quanto às belíssimas realizações francesas dos anos 1960. Detalhe: precisei ver uma segunda vez para perceber a real beleza do filme e das canções.
Neste ano de 2017, a tensão esteve no ar. E pudemos lamber os dedos com ela em obras tão distintas quanto A CRIADA, de Chan-wook Park, e DETROIT EM REBELIÃO, de Kathryn Bigelow. O primeiro contém uma trama cheia de intrigas e que ainda traz a melhor cena de sexo do ano do cinema mainstream; o segundo é um estudo sobre o mal e o racismo nos Estados Unidos dos anos 1960. Toda a enorme sequência de tensão dentro do hotel é de deixar os nervos de qualquer um em frangalhos.
Bigelow, aliás, não foi a única diretora mulher a se destacar neste ano. Podemos até dizer, sem fazer muita pesquisa, que 2017 foi o ano em que mais tivemos filmes dirigidos por mulheres abrilhantando nosso circuito. Alguns dos melhores exemplos são COLO, de Teresa Villaverde, TONI ERDMANN, de Mare Aden, e JOVEM MULHER, de Léonor Serraille. São três filmes com uma sensibilidade muito apurada no trato com questões familiares e de busca de independência.
Falando em mulheres, dois filmes apresentaram retratos femininos admiráveis e que fogem à regra do que geralmente é visto: LADY MACBETH, de William Oldroyd; e JACKIE, de Pablo Larraín. Um suspense e um retrato de uma mulher real em registro de tensão.
Quanto aos personagens masculinos, podemos destacar Adam Driver (o grande ator de sua geração) em PATERSON, de Jim Jarmursch, no papel de um poeta motorista de ônibus com uma rotina de vida bem regrada; e um envelhecido Jean-Pierre Léaud como um monarca em seus últimos dias em A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra.
As histórias de amor tortas e que doem um bocado no coração também estiveram presentes. Podemos citar como exemplos FRANTZ, de François Ozon, e COLUMBUS, de Kogonada. E houve espaço também para histórias de dilaçeramento da alma, como é o caso de MANCHESTER À BEIRA-MAR, de Kenneth Lonergan. Já a devoção à fé pôde ser vista no admirável SILÊNCIO, de Martin Scorsese.
Top 5 Piores do Ano
Como eu evitei muitas tranqueiras, segue apenas alguns que eu dei um voto de confiança e que não me retribuíram com nada além de desgosto, aqui, sem os nomes dos culpados:
1. A GRANDE MURALHA
2. ASSASSIN'S CREED
3. KINGSMAN - O CÍRCULO DOURADO
4. A TORRE NEGRA
5. O RASTRO
As séries e minisséries
Vi bem menos séries e minisséries do que no ano passado. Parece que isso é uma tendência e não me importo muito com isso, na verdade. 2017 foi o ano que eu mais desisti de séries que eu acompanhava. Chega uma hora que não dá mais. Os destaques:
1. TWIN PEAKS - O RETORNO (afinal, é série ou é filme? :))
2. THE MARVELOUS MRS. MAISIE - PRIMEIRA TEMPORADA
3. TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL
4. MINDHUNTER - PRIMEIRA TEMPORADA
5. GIRLS - SEXTA TEMPORADA
6. BETTER CALL SAUL - TERCEIRA TEMPORADA
7. MOZART IN THE JUNGLE - TERCEIRA TEMPORADA
8. HOMELAND - SEXTA TEMPORADA
9. MR. ROBOT - TERCEIRA TEMPORADA
10. GAME OF THRONES - SÉTIMA TEMPORADA
Top 5 Musas do Ano
A seção mais polêmica do balanço anual segue meio tímida, mas ainda com muita vontade de exaltar o encantamento dos rostos (e corpos) femininos.
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| 1. Gal Gadot - MULHER MARAVILHA + LIGA DA JUSTIÇA |
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| 2. Marion Cotillard - ALIADOS + ROCK'N ROLL - POR TRÁS DA FAMA + UM INSTANTE DE AMOR |
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| 3. Roxane Mesquida - APESAR DA NOITE |
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| 4. Kim Min-hee - A CRIADA + NA PRAIA À NOITE SOZINHA |
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| 5. Stacy Martin - O FORMIDÁVEL |
Clássicos Revisitados (ou vistos pela primeira vez) na telona
8½, de Federico Fellini
A BELA DA TARDE, de Luis Buñuel
CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch
DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS, de Jacques Demy
EL TOPO, de Alejandro Jodorowsky
FITZCARRALDO, de Werner Herzog
HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais
LAÇOS DE SANGUE, de Ida Lupino
NOSFERATU, O VAMPIRO DA NOITE, de Werner Herzog
O MUNDO É O CULPADO, de Ida Lupino
O MUNDO ODEIA-ME, de Ida Lupino
S. BERNARDO, de Leon Hirszman
Top 20 vistos (pela primeira vez) na telinha (em ordem alfabética)
32 DE AGOSTO NA TERRA, de Denis Villeneuve
A GHOST STORY, de David Lowery
A UM PASSO DA LIBERDADE, de Jacques Becker
AS IRMÃS DE GION, de Kenji Mizoguchi
ARIELLA, de John Herbert
BEIJO NA BOCA, de Paulo Sérgio de Almeida
CERTAS MULHERES, de Kelly Reichardt
EU MATEI LÚCIO FLÁVIO, de Antônio Calmon
GERMAN CONCENTRATION CAMPS FACTUAL SURVEY/ MEMORY OF THE CAMPS, de Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein
GRAVE, de Julia Docournau
HOMEM COMUM, de Carlos Nader
METROPOLITAN, de Whit Stillman
MUITO PRAZER, de David Neves
NÃO MATARÁS, de Ernst Lubitsch
O DESEJO, de Walter Hugo Khouri
OS DEMÔNIOS, de Ken Russell
QUEM AMA NÃO TEME, de Ida Lupino
THE DEVIL'S CANDY, de Sean Byrne
TODAS AS MULHERES DO MUNDO, de Domingos de Oliveira
TWIN PEAKS - THE MISSING PIECES, de David Lynch
Revisões na telinha
A NOITE DOS MORTOS-VIVOS, de George A. Romero
BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, de Ridley Scott
FILHOS E AMANTES, de Francisco Ramalho Jr.
IMPÉRIO DOS SONHOS, de David Lynch
O FANTASMA DO FUTURO, de Mamoru Oshii
O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan
PARIS, TEXAS, de Wim Wenders
RELÍQUIA MACABRA / O FALCÃO MALTÊS, de John Huston
TRAINSPOTTING - SEM LIMITES, de Danny Boyle
TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER, de David Lynch
Feliz 2018!
Antes de receber o ano que virá é sempre bom agradecer pelo ano que passou. Por mais que 2017 tenha sido difícil. Bem mais difícil do que foi o anterior e o anterior e o anterior etc.. Estar vivo para contar a história é sempre uma dádiva. Até porque dentro das dificuldades também temos histórias boas para contar. Há muito o que melhorar em minhas atitudes e na forma como eu me vejo e vejo o mundo, mas a gente está neste mundo para aprender, não é? Quero agradecer aos amigos presentes de alguma maneira, aos familiares que foram uma fortaleza em muitos momentos de fragilidade, a Deus que está sempre por perto. E ao motivo de eu escrever isso aqui, o cinema.
O cinema, em boa parte das vezes, foi o maior motivo de eu me sentir vivo e feliz. Com os filmes nos tornamos pessoas melhores, adentrando histórias múltiplas e personagens dos mais diversos, nos tornamos meio que filósofos da existência e da arte também. Peço desculpas aos amigos que precisaram de mim e eu não pude estar presente por egoísmo ou por cansaço ou por motivos de desenergização, que foi a tônica neste ano. Quem sabe no próximo ano tudo isso mude, de preferência para melhor, não é? O que não houve de viagens e de amores em 2017 pode ser compensado no ano que virá. E se não rolar nada disso, há sempre os filmes, os livros, os discos e os grandes amigos. Obrigado por tudo e até o próximo ano.
sábado, dezembro 30, 2017
MR. ROBOT - TEMPORADA 3 (Mr. Robot - Season 3)
A segunda temporada de MR. ROBOT foi tão confusa e cheia de perguntas que ficaram no ar (se é que dava pra fazer perguntas a certa altura) que o criador Sam Esmail e seus parceiros de crime só tinham mesmo que responder várias destas nesta terceira temporada (2017), que é bem mais acessível. Por mais que seja decepcionante se comparada à sensacional primeira temporada, esta terceira consegue diminuir um pouco da estranheza e dos planos muito distantes e focar na trama e em momentos de suspense.
Melhor exemplo não há do que no episódio 5 ("eps3.4_runtime-error.r00"), que tem um longo plano-sequência que nos deixa zonzos e maravilhados. No tal episódio, Elliot acorda desmemoriado, já que ele virou uma espécie de Dr. Jeckyl na comparação com O Médico e o Monstro. Agora, sua intenção é evitar que o estágio 2, que tudo indica que será a explosão do prédio da ECorp em Nova York, se concretize, segundo os supostos planos da Dark Army, que talvez tenham sido planejados pelo seu alter-ego do mal Mr. Robot. É um baita de um episódio, sem dúvida.
Depois desse, a temperatura esfria um pouco, mas novidades não faltam na temporada. Há um episódio dedicado exclusivamente a Tyrell. Finalmente ficamos sabendo todos os detalhes de seu desaparecimento. Assim, é um episódio que volta no tempo para os eventos que ficam num limbo entre a temporada 1 e a 2. Tyrell não é o mais simpático dos personagens, além de ser um assassino frio, mas neste episódio ele ganha um pouco mais de simpatia, até pelo sofrimento por que passa. Nisso vale destacar o excelente trabalho de Bobby Cannavale, no papel de um homem cruel que está pronto para limpar toda a sujeira que a Dark Army executa. Grande papel.
Já Grace Gummer, como a agente do FBI Dominique DiPierro, continua sendo uma ótima escolha e uma das melhores aquisições desde a temporada passada. Seus melhores momentos são nos episódios finais: o primeiro deles em uma cena íntima com Darlene (Carly Chaikin); e o segundo no episódio em que ela descobre o traidor no FBI, a pessoa que estava trabalhando com a Dark Army. O episódio é tenso e é um dos poucos momentos em que nos importamos com os personagens, coisa que estava sendo um problema até então, dado o distanciamento com a que a série parece tratar seus personagens e seu próprio enredo. Talvez por sua intenção em parecer ousado na forma.
Mas o que importa é que a série termina de maneira bem satisfatória e com um espaço para novos horizontes e possibilidades para os personagens principais, Elliot (Rami Malek), Angela (Portia Doubleday), Darlene e agora também uma amarga agente Dom. Christian Slater como o Mr. Robot continua apenas ok, mas como ele é um personagem necessário para a série, não dá para descartar de jeito nenhum. Coisa que pode muito bem ser feita com Tyrell. Os chineses da Dark Army também já encheram o saco e poderiam ser deixados de lado por novos antagonistas.
Aliás, ainda acho uma pena que a série tenha abdicado de seu lado transgressor e anticapitalista. Estava bom demais para ser verdade. Mas é o preço de uma revolução e da maturidade que ela traz quando muitas pessoas são prejudicadas com os atos.
Melhor exemplo não há do que no episódio 5 ("eps3.4_runtime-error.r00"), que tem um longo plano-sequência que nos deixa zonzos e maravilhados. No tal episódio, Elliot acorda desmemoriado, já que ele virou uma espécie de Dr. Jeckyl na comparação com O Médico e o Monstro. Agora, sua intenção é evitar que o estágio 2, que tudo indica que será a explosão do prédio da ECorp em Nova York, se concretize, segundo os supostos planos da Dark Army, que talvez tenham sido planejados pelo seu alter-ego do mal Mr. Robot. É um baita de um episódio, sem dúvida.
Depois desse, a temperatura esfria um pouco, mas novidades não faltam na temporada. Há um episódio dedicado exclusivamente a Tyrell. Finalmente ficamos sabendo todos os detalhes de seu desaparecimento. Assim, é um episódio que volta no tempo para os eventos que ficam num limbo entre a temporada 1 e a 2. Tyrell não é o mais simpático dos personagens, além de ser um assassino frio, mas neste episódio ele ganha um pouco mais de simpatia, até pelo sofrimento por que passa. Nisso vale destacar o excelente trabalho de Bobby Cannavale, no papel de um homem cruel que está pronto para limpar toda a sujeira que a Dark Army executa. Grande papel.
Já Grace Gummer, como a agente do FBI Dominique DiPierro, continua sendo uma ótima escolha e uma das melhores aquisições desde a temporada passada. Seus melhores momentos são nos episódios finais: o primeiro deles em uma cena íntima com Darlene (Carly Chaikin); e o segundo no episódio em que ela descobre o traidor no FBI, a pessoa que estava trabalhando com a Dark Army. O episódio é tenso e é um dos poucos momentos em que nos importamos com os personagens, coisa que estava sendo um problema até então, dado o distanciamento com a que a série parece tratar seus personagens e seu próprio enredo. Talvez por sua intenção em parecer ousado na forma.
Mas o que importa é que a série termina de maneira bem satisfatória e com um espaço para novos horizontes e possibilidades para os personagens principais, Elliot (Rami Malek), Angela (Portia Doubleday), Darlene e agora também uma amarga agente Dom. Christian Slater como o Mr. Robot continua apenas ok, mas como ele é um personagem necessário para a série, não dá para descartar de jeito nenhum. Coisa que pode muito bem ser feita com Tyrell. Os chineses da Dark Army também já encheram o saco e poderiam ser deixados de lado por novos antagonistas.
Aliás, ainda acho uma pena que a série tenha abdicado de seu lado transgressor e anticapitalista. Estava bom demais para ser verdade. Mas é o preço de uma revolução e da maturidade que ela traz quando muitas pessoas são prejudicadas com os atos.
sexta-feira, dezembro 29, 2017
RODA GIGANTE (Wonder Wheel)
A década de 2010 não começou muito promissora para Woody Allen. Seu filme daquele ano, VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (2010), é uma de suas obras mais apagadas e esquecíveis. Mas eis que ao menos dois títulos costumam ser lembrados como dois dos melhores de sua fase recente, MEIA-NOITE EM PARIS (2011) e BLUE JASMINE (2013), embora seja digno de nota seu filme mais romântico em muitos anos, um dos poucos que seguem uma linha mais alto astral, fugindo do amargo da vida: MAGIA AO LUAR (2014).
Mas é com BLUE JASMINE que o novo filme, RODA GIGANTE (2017), dialoga melhor dentro do corpo de sua obra, tanto pelo teor amargo quanto pelo texto, que valoriza suas protagonistas. Trata-se de um filme que namora o teatro não apenas na dramaturgia, mas também nas próprias citações (Eugene O'Neill, Shakespeare, Tchekov, a tragédia grega etc.).
Porém, por mais que o texto esteja em um dos primeiros planos, há a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro, que explora lindamente a luz. A luz do parque de diversões que ilumina o quarto de Ginny (Kate Winslet), a luz do sol que traz um tom alaranjado para a Coney Island dos anos 1950, e até mesmo as luzes mais diáfanas, como as luzes da noite, como em uma cena em que Ginny está com o amante (Justin Timberlake) à luz das estrelas e da lua e em certo momento a luz diminui. São pequenos detalhes que valem ser percebidos em apreciações seguintes do filme.
Quanto à Kate Winslet, ela está fantástica. É uma de suas melhores atuações e só não deve ser lembrada nas premiações por ocasião da atual caça às bruxas, que não está sendo um bom negócio para Woody Allen e quem quer que esteja envolvido com ele. De todo modo, independente de premiações, o que conta mesmo é o impacto de seu desempenho como uma garçonete infeliz no casamento que encontra na figura de um rapaz mais jovem que ela, um salva-vidas, a razão para voltar a ter esperança no futuro.
Acontece que o rapaz, Mickey, não entra na relação com tanto ímpeto quanto ela. Para ele, trata-se mais de uma relação que é curtida sem necessariamente ter um comprometimento. As coisas ficam ainda mais turvas para Mickey quando ele passa a ficar interessado na enteada de Ginny, a jovem Carolina (Juno Temple), que vai para Coney Island fugida dos mafiosos. Ela havia casado, para desgosto do pai (Jim Belushi), com um mafioso perigoso. Mickey, por sua vez, considera a história de vida de Carolina muito interessante. Ela viveu a vida intensamente, mesmo sendo tão jovem, segundo ele. Sua visão é de alguém que vê a vida como uma peça, ou como algo próximo de uma encenação. Pena o filme não aprofundar mais essas questões, mas no começo, em diálogo com Ginny, ele fala sobre a questão do destino em oposição aos atos e escolhas de cada pessoa.
No sentido de que se trata também de um filme sobre amor e desamor, RODA GIGANTE também dialoga com o título anterior de Allen, CAFÉ SOCIETY (2016). Ambos são contos de época sobre pessoas que se apaixonam, mas que percebem que seus objetos de desejo não estão tão à disposição quanto elas gostariam. A cena do relógio em RODA GIGANTE é uma das mais dolorosas. Nada nos prepara, porém, para o desfecho: sutil e ao mesmo tempo carregado de força cinematográfica e teatral.
Mas é com BLUE JASMINE que o novo filme, RODA GIGANTE (2017), dialoga melhor dentro do corpo de sua obra, tanto pelo teor amargo quanto pelo texto, que valoriza suas protagonistas. Trata-se de um filme que namora o teatro não apenas na dramaturgia, mas também nas próprias citações (Eugene O'Neill, Shakespeare, Tchekov, a tragédia grega etc.).
Porém, por mais que o texto esteja em um dos primeiros planos, há a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro, que explora lindamente a luz. A luz do parque de diversões que ilumina o quarto de Ginny (Kate Winslet), a luz do sol que traz um tom alaranjado para a Coney Island dos anos 1950, e até mesmo as luzes mais diáfanas, como as luzes da noite, como em uma cena em que Ginny está com o amante (Justin Timberlake) à luz das estrelas e da lua e em certo momento a luz diminui. São pequenos detalhes que valem ser percebidos em apreciações seguintes do filme.
Quanto à Kate Winslet, ela está fantástica. É uma de suas melhores atuações e só não deve ser lembrada nas premiações por ocasião da atual caça às bruxas, que não está sendo um bom negócio para Woody Allen e quem quer que esteja envolvido com ele. De todo modo, independente de premiações, o que conta mesmo é o impacto de seu desempenho como uma garçonete infeliz no casamento que encontra na figura de um rapaz mais jovem que ela, um salva-vidas, a razão para voltar a ter esperança no futuro.
Acontece que o rapaz, Mickey, não entra na relação com tanto ímpeto quanto ela. Para ele, trata-se mais de uma relação que é curtida sem necessariamente ter um comprometimento. As coisas ficam ainda mais turvas para Mickey quando ele passa a ficar interessado na enteada de Ginny, a jovem Carolina (Juno Temple), que vai para Coney Island fugida dos mafiosos. Ela havia casado, para desgosto do pai (Jim Belushi), com um mafioso perigoso. Mickey, por sua vez, considera a história de vida de Carolina muito interessante. Ela viveu a vida intensamente, mesmo sendo tão jovem, segundo ele. Sua visão é de alguém que vê a vida como uma peça, ou como algo próximo de uma encenação. Pena o filme não aprofundar mais essas questões, mas no começo, em diálogo com Ginny, ele fala sobre a questão do destino em oposição aos atos e escolhas de cada pessoa.
No sentido de que se trata também de um filme sobre amor e desamor, RODA GIGANTE também dialoga com o título anterior de Allen, CAFÉ SOCIETY (2016). Ambos são contos de época sobre pessoas que se apaixonam, mas que percebem que seus objetos de desejo não estão tão à disposição quanto elas gostariam. A cena do relógio em RODA GIGANTE é uma das mais dolorosas. Nada nos prepara, porém, para o desfecho: sutil e ao mesmo tempo carregado de força cinematográfica e teatral.
quarta-feira, dezembro 27, 2017
O MUNDO ODEIA-ME (The Hitch-Hiker)
Em um ano em que pudemos conferir, por olhos masculinos, a ascensão do mal na sociedade no evento audiovisual TWIN PEAKS - O RETORNO,
de David Lynch e Mark Frost, que expõe atos terríveis praticados por
homens principalmente às mulheres, numa visão triste e pessimista da
crescente violência que bateu à nossa porta, é no mínimo curioso, no
calor deste 2017 (ano em que tantas questões de cunho social surgiram),
poder (re)ver e pensar um filme de Ida Lupino, a mais importante
diretora de cinema da velha Hollywood, num trabalho que trata justamente
da violência masculina.
Lupino, atriz que esteve em alta no auge do film noir em trabalhos como SEU ÚLTIMO REFÚGIO (1941), de Raoul Walsh, e CINZAS QUE QUEIMAM
(1951), de Nicholas Ray, construiu uma sólida carreira como diretora em
mais de 40 títulos, entre longas-metragens e episódios para séries de
televisão. O filme aqui em discussão é THE HITCH-HIKER, que no Brasil recebeu o desagradável título O MUNDO ODEIA-ME (1953).
Depois
de quatro filmes protagonizados por mulheres, Lupino corroteiriza e
dirige seu primeiro trabalho com protagonistas homens. Quase não há
mulheres em cena em O MUNDO ODEIA-ME. O que vemos é principalmente um estudo tenso em torno de três homens, com direito a muitos close-ups
e aproximações de câmera dos rostos masculinos. A primeira aproximação
do rosto do criminoso pela câmera é inesquecível: depois de revelada a
arma na mão em rápidas sequências de campo e contracampo dentro do
carro, a câmera se move até o personagem, que sai da escuridão para a
luz, no belo trabalho de direção de fotografia de Nicholas Musuruca (o
mesmo de FUGA AO PASSADO e SANGUE DE PANTERA).
O MUNDO ODEIA-ME é baseado no caso real de um serial killer,
William Cook, que matou seis pessoas que lhe deram carona nos Estados
Unidos e no México em 1950. Depois de capturado, Cook foi condenado à
morte pela justiça americana e enviado à câmara de gás, três meses antes
do lançamento do filme de Lupino.
O
nome do psicopata é mudado no filme, assim como seu destino final. Na
versão cinematográfica, o criminoso se chama Emmett Myers (William
Talman) e possui uma característica física curiosa: devido a uma
pálpebra que não fecha, ele permanece com um dos olhos sempre aberto,
elemento muito bem utilizado em uma tensa cena de tentativa de fuga.
Na
trama, dois amigos, Roy Collins (Edmond O’Brien) e Gilbert Bowen (Frank
Lovejoy), viajam para pescar em uma cidade litorânea distante de seus
lares, dando a entender que aquela viagem seria uma espécie de fuga do
ambiente doméstico. No caminho, perto da fronteira do México, resolvem
dar carona a um sujeito que parecia estar com o carro sem gasolina. Logo
descobrem, porém, que o homem não é nada amistoso e apresenta uma arma
apontada para eles no banco de trás do carro. Os dois homens ajudarão o
psicopata a chegar a seu destino, mas ambos não sabem se sairão vivos
dessa jornada.
Um dos aspectos mais admiráveis de O MUNDO ODEIA-ME
é a narrativa dinâmica, que em apenas 70 minutos de filme é capaz de
mexer com os nervos do espectador, trazendo um clima de tensão que não
envelheceu nada com o passar dos anos. Bastam sete minutos iniciais para
que a situação (o assassino se revelando de imediato no banco de trás
do carro e o aprisionamento dos dois homens àquele sujeito) já se
estabeleça.
O
modo como Myers, o psicopata, é apresentado, do ponto de vista físico, o
aproxima de um monstro, em certo sentido, ainda que um pouco disso se
dê através de uma deformidade genética: o fato de Myers não conseguir
fechar um dos olhos. Myers é resquício da visão dos psicopatas
apresentados no cinema nas décadas de 1940, mais masculinos, diferente
de um Norman Bates e seu apego com a mãe (ainda que morta), vagamente
efeminado e com certa fragilidade física, passando a impressão de ser
inofensivo, em PSICOSE (1960), de Alfred Hitchcock.
Myers
é um homem que faz questão de mostrar sua masculinidade, sua crueldade e
sua total falta de respeito às leis e às instituições, embora encare a
busca dos homens por outras mulheres como fraqueza. Possui fascinação
pela própria arma, sempre apontada para os dois reféns, noite e dia, e
quase sempre olhando para ela, como fascinado pelo próprio pênis (ou por
outro pênis que carrega). Aprecia jogos de sadismo, como o do tiro ao
alvo com o rifle e uma latinha, e diverte-se com a crescente perda de
controle psicológico das duas vítimas.
Lupino também faz um estudo da amizade dos dois homens, embora não tão terno quanto os bromances
dos filmes de Howard Hawks, cineasta contemporâneo da diretora. A
amizade masculina de Collins e Bowen contrasta com a preferência de
viver longe da sociedade de Myers, de sua maneira de ver a vida como
algo a ser roubado, pois presente nenhum jamais lhe foi dado. Eis,
aliás, um dos motivos da criação do título brasileiro, que parece querer
mostrar um pouco de solidariedade ao vilão, uma tarefa até difícil de
alimentar, levando em consideração personagem tão execrável. Que o digam
Collins e Bowen, que passaram dias ao lado de uma pessoa que pode ser
vista como uma das mais terríveis manifestações do mal.
Texto publicado originalmente no site da Mostra Ida Lupino - Subversão e Resiliência.
terça-feira, dezembro 26, 2017
O REI DO SHOW (The Greatest Showman)
A cota de filmes musicais bem que poderia ser maior, levando em consideração o sucesso de LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES. E eis que aparece um filme que está se autopromovendo com os nomes de dois músicos que compuseram as letras do filme de Damien Chazelle. Mas acontece que Benj Pasek and Justin Paul não fizeram as belas canções do filme de Chazelle, apenas as letras. E isso faz alguma diferença, pois as canções de O REI DO SHOW (2017), por mais que sejam grudentas, não são nada especiais. Ainda assim, não dá para negar a bela produção do filme do estreante Michael Gracey.
Também não incomoda tanto a história simples. Em geral, as histórias de musicais são simples mesmo. O que importa é o modo como essa história é contada a partir de um bom conjunto de canções que deveriam emocionar. Mas, por mais que as mentes por trás de O REI DO SHOW tenham preferido um tipo de sonoridade que se aproxima da música pop contemporânea, eles acabaram se inspirando no que de pior há nessa música pop. Ou seja, o que vemos é aquele tipo de música que se costuma ser vista em programas de calouros, desses que valorizam mais a extensão vocal do que qualquer outra coisa.
Além do mais, a cafonice dá o tom em O REI DO SHOW, que conta uma história até bastante curiosa, que é a da trajetória de P.T. Barnum, vivido por Hugh Jackman. Ele foi um sujeito que veio de família muito pobre, mas que era apaixonado por uma menina rica de sua cidade. Ele cresce, consegue se estabelecer financeiramente e leva a garota (Michelle Williams) consigo, para desgosto do pai da moça.
A ideia de construir um circo com pessoas singulares, que eram vistas como aberrações por boa parte da população da cidade, veio quando ele viu um anão atravessando a rua. O curioso é que hoje em dia tratar desse tema é até um pouco tabu, já que vender essas pessoas pelos seus "defeitos" ou singularidades não é tido com bons olhos, como pudemos ver em filmes que mostram a exploração perversa de tipos físicos, como VÊNUS NEGRA e HOMEM-ELEFANTE.
Até os animais, que hoje não são mais utilizados em circos, são praticamente escondidos do filme. São assuntos delicados, mas que são abordados até de maneira esperta, como mostrar essas pessoas como sendo especiais, no melhor sentido da palavra, além de dignas de aplausos, mesmo não sendo muito bem-vistas pelo crítico de teatro que teima em alfinetar o espetáculo de Barnum. Há algumas subtramas até que boas, como a da paixão do ator de teatro vivido por Zac Efron (que deveria se concentrar apenas em comédias mesmo) pela trapezista (Zendaya), mas a mais importante das subtramas mesmo é a que envolve a mulher que é considerada a melhor cantora da Europa, Jenny Lynd, vivida por uma deslubrante Rebecca Ferguson.
A atriz, aliás, está tão atraente e cheia de brilho que nem precisa se esforçar muito para parecer mais interessante do que a esposa de Barnum - o que aconteceu com Michelle Williams, que vive estampando agora um sorriso sem graça? Ela sempre foi assim ou foi piorando? Acontece que o filme também estraga o perigo do adultério, de Barnum ter um caso com essa mulher bela. Há um pouco (muito pouco) de tensão no ar, mas o filme prefere brincar com clichês manjados. As canções, em vez de ajudar, entrecortando as cenas dramáticas, acabam por estragar ainda mais.
De todo modo, O REI DO SHOW deve conseguir chamar a atenção de boa parte do público, além de ter conseguido uma vaga fácil no Globo de Ouro, devido ao aspecto musical. O filme ganhou indicações nas categorias de melhor filme (comédia ou musical), melhor ator (comédia ou musical) para Hugh Jackman e melhor canção para "This is me".
Também não incomoda tanto a história simples. Em geral, as histórias de musicais são simples mesmo. O que importa é o modo como essa história é contada a partir de um bom conjunto de canções que deveriam emocionar. Mas, por mais que as mentes por trás de O REI DO SHOW tenham preferido um tipo de sonoridade que se aproxima da música pop contemporânea, eles acabaram se inspirando no que de pior há nessa música pop. Ou seja, o que vemos é aquele tipo de música que se costuma ser vista em programas de calouros, desses que valorizam mais a extensão vocal do que qualquer outra coisa.
Além do mais, a cafonice dá o tom em O REI DO SHOW, que conta uma história até bastante curiosa, que é a da trajetória de P.T. Barnum, vivido por Hugh Jackman. Ele foi um sujeito que veio de família muito pobre, mas que era apaixonado por uma menina rica de sua cidade. Ele cresce, consegue se estabelecer financeiramente e leva a garota (Michelle Williams) consigo, para desgosto do pai da moça.
A ideia de construir um circo com pessoas singulares, que eram vistas como aberrações por boa parte da população da cidade, veio quando ele viu um anão atravessando a rua. O curioso é que hoje em dia tratar desse tema é até um pouco tabu, já que vender essas pessoas pelos seus "defeitos" ou singularidades não é tido com bons olhos, como pudemos ver em filmes que mostram a exploração perversa de tipos físicos, como VÊNUS NEGRA e HOMEM-ELEFANTE.
Até os animais, que hoje não são mais utilizados em circos, são praticamente escondidos do filme. São assuntos delicados, mas que são abordados até de maneira esperta, como mostrar essas pessoas como sendo especiais, no melhor sentido da palavra, além de dignas de aplausos, mesmo não sendo muito bem-vistas pelo crítico de teatro que teima em alfinetar o espetáculo de Barnum. Há algumas subtramas até que boas, como a da paixão do ator de teatro vivido por Zac Efron (que deveria se concentrar apenas em comédias mesmo) pela trapezista (Zendaya), mas a mais importante das subtramas mesmo é a que envolve a mulher que é considerada a melhor cantora da Europa, Jenny Lynd, vivida por uma deslubrante Rebecca Ferguson.
A atriz, aliás, está tão atraente e cheia de brilho que nem precisa se esforçar muito para parecer mais interessante do que a esposa de Barnum - o que aconteceu com Michelle Williams, que vive estampando agora um sorriso sem graça? Ela sempre foi assim ou foi piorando? Acontece que o filme também estraga o perigo do adultério, de Barnum ter um caso com essa mulher bela. Há um pouco (muito pouco) de tensão no ar, mas o filme prefere brincar com clichês manjados. As canções, em vez de ajudar, entrecortando as cenas dramáticas, acabam por estragar ainda mais.
De todo modo, O REI DO SHOW deve conseguir chamar a atenção de boa parte do público, além de ter conseguido uma vaga fácil no Globo de Ouro, devido ao aspecto musical. O filme ganhou indicações nas categorias de melhor filme (comédia ou musical), melhor ator (comédia ou musical) para Hugh Jackman e melhor canção para "This is me".
sexta-feira, dezembro 22, 2017
LUCKY
Pode até não parecer, mas a trajetória de Harry Dean Stanton perpassou da metade da história do cinema americano. Atuando desde os anos 1950, no cinema e na televisão, o ator hoje é lembrado principalmente por aquele que é o papel de sua vida, o do solitário e atormentado Travis Henderson, de PARIS, TEXAS, de Wim Wenders, um dos filmes mais belos já feitos. Muitos (eu, inclusive) tiveram a oportunidade de rever por ocasião da morte do ator, em setembro deste ano, como uma homenagem.
LUCKY (2017), de John Carroll Lynch, é uma espécie de filme-testamento do ator. O personagem, um senhor de 90 anos que é veterano da Segunda Guerra Mundial, foi totalmente inspirado em Dean Stanton. Afinal, assim como o personagem, o ator nunca casou, nunca teve filhos (não que ele saiba), começou a fumar desde muito cedo, e também serviu, como cozinheiro, durante a Segunda Guerra Mundial.
Logo, Stanton acaba por interpretar a si mesmo em LUCKY, este filme que parece tão pequeno em suas pretensões, mas que alcança uma dimensão poética impressionante. Na trama, Lucky é um homem velho que vive em uma cidade do interior que mais parece uma cidade fantasma e que descobre, depois de um desmaio, que seu corpo está começando a dar sinais de que pode chegar ao fim. Vemos muitos espaços vazios, desertos, além de bares e restaurantes. Alguns desses lugares se repetem ao longo da narrativa, como que para acentuar a rotina de vida pouco excitante de Lucky.
Essa carência de poucas emoções, ou mesmo de pouca energia para desperdiçar, talvez seja um dos segredos da longevidade de Lucky, junto com o apego à sua vida simples e aos pequenos prazeres que sua vida lhe proporciona. E haja simplicidade em sua vida: as únicas coisas que Lucky abastece no mercadinho são cigarros e caixas de leite. O café é tomado na lanchonete, espaço em que ele é tratado como uma espécie de alguém da família naquela cidade onde todo mundo se conhece.
Importante, gostoso e enriquecedor ter no filme a participação especial do amigo David Lynch, interpretando alguém muito parecido com o Gordon de TWIN PEAKS. Lynch e Stanton trabalharam juntos em diversos filmes. Na nova temporada da série, inclusive, ele aparece em cinco episódios, também em um papel semibiográfico, falando sobre o hábito de fumar desde cedo. Lynch, como um diretor que valoriza muito a figura do homem velho, trata com muito carinho aquele homem que carrega quase um século nas costas.
Algumas cenas são de uma beleza ímpar: a cena do aniversário do garotinho mexicano, em que Lucky canta uma canção em espanhol; a cena da conversa com um colega aposentado das forças armadas que contará uma história fascinante sobre uma garotinha japonesa; a cena em que David Lynch fala sobre o amor incondicional por seu bicho de estimação desaparecido; e há também espaço para o mistério em algumas cenas, ainda que bastante ligadas ao realismo que o filme parece promover.
Não falta espaço para filosofar sobre a finitude, sobre aceitar a realidade como ela é, tanto em discussões dos próprios personagens quanto nas entrelinhas e no quanto o filme fica com o espectador após a sessão. Trabalhos como este justificam a ida ao cinema. Até porque o resultado está mais para uma paz de espírito do que para uma lamentação relativa ao fim de uma jornada.
LUCKY (2017), de John Carroll Lynch, é uma espécie de filme-testamento do ator. O personagem, um senhor de 90 anos que é veterano da Segunda Guerra Mundial, foi totalmente inspirado em Dean Stanton. Afinal, assim como o personagem, o ator nunca casou, nunca teve filhos (não que ele saiba), começou a fumar desde muito cedo, e também serviu, como cozinheiro, durante a Segunda Guerra Mundial.
Logo, Stanton acaba por interpretar a si mesmo em LUCKY, este filme que parece tão pequeno em suas pretensões, mas que alcança uma dimensão poética impressionante. Na trama, Lucky é um homem velho que vive em uma cidade do interior que mais parece uma cidade fantasma e que descobre, depois de um desmaio, que seu corpo está começando a dar sinais de que pode chegar ao fim. Vemos muitos espaços vazios, desertos, além de bares e restaurantes. Alguns desses lugares se repetem ao longo da narrativa, como que para acentuar a rotina de vida pouco excitante de Lucky.
Essa carência de poucas emoções, ou mesmo de pouca energia para desperdiçar, talvez seja um dos segredos da longevidade de Lucky, junto com o apego à sua vida simples e aos pequenos prazeres que sua vida lhe proporciona. E haja simplicidade em sua vida: as únicas coisas que Lucky abastece no mercadinho são cigarros e caixas de leite. O café é tomado na lanchonete, espaço em que ele é tratado como uma espécie de alguém da família naquela cidade onde todo mundo se conhece.
Importante, gostoso e enriquecedor ter no filme a participação especial do amigo David Lynch, interpretando alguém muito parecido com o Gordon de TWIN PEAKS. Lynch e Stanton trabalharam juntos em diversos filmes. Na nova temporada da série, inclusive, ele aparece em cinco episódios, também em um papel semibiográfico, falando sobre o hábito de fumar desde cedo. Lynch, como um diretor que valoriza muito a figura do homem velho, trata com muito carinho aquele homem que carrega quase um século nas costas.
Algumas cenas são de uma beleza ímpar: a cena do aniversário do garotinho mexicano, em que Lucky canta uma canção em espanhol; a cena da conversa com um colega aposentado das forças armadas que contará uma história fascinante sobre uma garotinha japonesa; a cena em que David Lynch fala sobre o amor incondicional por seu bicho de estimação desaparecido; e há também espaço para o mistério em algumas cenas, ainda que bastante ligadas ao realismo que o filme parece promover.
Não falta espaço para filosofar sobre a finitude, sobre aceitar a realidade como ela é, tanto em discussões dos próprios personagens quanto nas entrelinhas e no quanto o filme fica com o espectador após a sessão. Trabalhos como este justificam a ida ao cinema. Até porque o resultado está mais para uma paz de espírito do que para uma lamentação relativa ao fim de uma jornada.
segunda-feira, dezembro 18, 2017
STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI (Star Wars: Episode VIII - The Last Jedi)
Por mais que haja uma tendência de a criação mais célebre de George Lucas se repetir em muitos aspectos e em diversas sequências - que o diga STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA (2015), dirigido por J.J. Abrams, que é quase um remake de GUERRA NAS ESTRELAS (1977) -, é muito bom poder ver o novo caminho proposto por Rian Johnson no novo STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI (2017), que finalmente se desprende do velho e abraça o novo.
O filme anterior desta fase Disney da Lucas Film. já acenava para um desapegar do passado. E em OS ÚLTIMOS JEDI há uma cena em especial que ilustra bastante isso: o espírito de Yoda aparece para Luke Skywalker (Mark Hamill) e faz uma fogueira com os velhos pergaminhos sagrados Jedi. Mas claro que nem toda nostalgia pôde ficar de fora. Até porque é ela que alimenta boa parte desse universo idolatrado por uma legião de fãs ao redor do mundo.
Mas é preciso alimentar também os novos personagens. Felizmente é isso que é feito em OS ÚLTIMOS JEDI, principalmente. Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver), Finn (John Boyega), Poe (Oscar Isaac), entre outros, são personagens que ganham contornos maiores e mais interessantes que os membros da velha guarda neste novo filme. Aliás, uma das coisas que se destaca aqui é o modo como Johnson resolve também promover uma espécie de renúncia à velha dramaturgia que funcionava como uma desculpa para interpretações canastronas.
Em OS ÚLTIMOS JEDI podemos finalmente nos encantar com ao menos uma a interpretação fantástica: a de Adam Driver, como o vilão complexo Kylo Ren, filho da Princesa Leia (Carrie Fisher) com Han Solo (Harrison Ford). Ele é um rapaz que teve contato com a força, mas, assim como aconteceu com Darth Vader, por algum motivo ele preferiu abraçar o lado sombrio. Detalhes de como isso aconteceu podem ser vistos no filme.
Mas o grande barato desse novo personagem é que ele não é tão preto no branco assim. As cenas de Rey dialogando numa conexão espiritual com Kylo, enquanto está recebendo treinamento com Luke, chegam a ser impressionantes no modo como lidam com a questão do desejo. Em certo momento, Rey se incomoda com Kylo estar sem camisa. Aquilo a estava atrapalhando, mexendo com seus instintos mais primitivos. E o desejo mais uma vez aparece como um ingrediente perigoso. É uma história que havia sido contada antes na tragédia de Anakin Skywalker, nos episódios I-III.
Por mais que OS ÚLTIMOS JEDI comece com uma longa sequência de batalha no céu (às vezes um pouco confusa) entre os rebeldes e a República, são certos detalhes que tornam o filme algo que vai se tornar lembrado com carinho por boa parte do público, já que não há aqui uma narrativa tão prazerosa como a de O DESPERTAR DA FORÇA. Rian Johnson parece ter maior dificuldade em juntar as peças e o filme cansa em determinados momentos de sua duração.
Assim, além do perigosíssimo caso de amor (não explicitado) entre Rey e Kylo, há algo que chama muito a atenção no novo filme: a direção de arte fantástica, que flerta com David Lynch, ao criar um lugar todo em vermelho como lar do líder da República, o monstruoso Snoke (Andy Serkis). Até Laura Dern dá o ar de sua graça no elenco, falando em Lynch. O fato é que esse vermelho, que funcionará como pano de fundo para uma batalha linda de ver, passa sensações de perigo e de excitação bastante envolventes.
Até mesmo as cenas da batalha no deserto são pinceladas com vermelho, como nas cenas em que veículos pequenos pilotados pelos rebeldes tocam no chão com frequência, enquanto se aproximam das grandes armas da República. Há várias sequências que trazem bastante empolgação e surpresa ao longo da narrativa, principalmente no terceiro ato. Mas é melhor não citá-las e deixar que o próprio espectador as desfrute. Só o fato de Rian Johnson entregar algo bem diferente do que se esperaria já é um mérito para sua contribuição.
No mais, não esqueçamos do grande trunfo de STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI: Adam Driver, que está vivendo um momento muito especial em sua carreira. Só neste ano ele pôde ser visto em quatro filmes importantes na tela grande: SILÊNCIO, de Martin Scorsese; PATERSON, de Jim Jarmursch; LOGAN LUCKY - ROUBO EM FAMÍLIA, de Steven Soderbergh; e este novo STAR WARS. Além disso, Driver encerrou muito bem sua participação na ótima série GIRLS, de Lena Dunham. Não é pouco.
O filme anterior desta fase Disney da Lucas Film. já acenava para um desapegar do passado. E em OS ÚLTIMOS JEDI há uma cena em especial que ilustra bastante isso: o espírito de Yoda aparece para Luke Skywalker (Mark Hamill) e faz uma fogueira com os velhos pergaminhos sagrados Jedi. Mas claro que nem toda nostalgia pôde ficar de fora. Até porque é ela que alimenta boa parte desse universo idolatrado por uma legião de fãs ao redor do mundo.
Mas é preciso alimentar também os novos personagens. Felizmente é isso que é feito em OS ÚLTIMOS JEDI, principalmente. Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver), Finn (John Boyega), Poe (Oscar Isaac), entre outros, são personagens que ganham contornos maiores e mais interessantes que os membros da velha guarda neste novo filme. Aliás, uma das coisas que se destaca aqui é o modo como Johnson resolve também promover uma espécie de renúncia à velha dramaturgia que funcionava como uma desculpa para interpretações canastronas.
Em OS ÚLTIMOS JEDI podemos finalmente nos encantar com ao menos uma a interpretação fantástica: a de Adam Driver, como o vilão complexo Kylo Ren, filho da Princesa Leia (Carrie Fisher) com Han Solo (Harrison Ford). Ele é um rapaz que teve contato com a força, mas, assim como aconteceu com Darth Vader, por algum motivo ele preferiu abraçar o lado sombrio. Detalhes de como isso aconteceu podem ser vistos no filme.
Mas o grande barato desse novo personagem é que ele não é tão preto no branco assim. As cenas de Rey dialogando numa conexão espiritual com Kylo, enquanto está recebendo treinamento com Luke, chegam a ser impressionantes no modo como lidam com a questão do desejo. Em certo momento, Rey se incomoda com Kylo estar sem camisa. Aquilo a estava atrapalhando, mexendo com seus instintos mais primitivos. E o desejo mais uma vez aparece como um ingrediente perigoso. É uma história que havia sido contada antes na tragédia de Anakin Skywalker, nos episódios I-III.
Por mais que OS ÚLTIMOS JEDI comece com uma longa sequência de batalha no céu (às vezes um pouco confusa) entre os rebeldes e a República, são certos detalhes que tornam o filme algo que vai se tornar lembrado com carinho por boa parte do público, já que não há aqui uma narrativa tão prazerosa como a de O DESPERTAR DA FORÇA. Rian Johnson parece ter maior dificuldade em juntar as peças e o filme cansa em determinados momentos de sua duração.
Assim, além do perigosíssimo caso de amor (não explicitado) entre Rey e Kylo, há algo que chama muito a atenção no novo filme: a direção de arte fantástica, que flerta com David Lynch, ao criar um lugar todo em vermelho como lar do líder da República, o monstruoso Snoke (Andy Serkis). Até Laura Dern dá o ar de sua graça no elenco, falando em Lynch. O fato é que esse vermelho, que funcionará como pano de fundo para uma batalha linda de ver, passa sensações de perigo e de excitação bastante envolventes.
Até mesmo as cenas da batalha no deserto são pinceladas com vermelho, como nas cenas em que veículos pequenos pilotados pelos rebeldes tocam no chão com frequência, enquanto se aproximam das grandes armas da República. Há várias sequências que trazem bastante empolgação e surpresa ao longo da narrativa, principalmente no terceiro ato. Mas é melhor não citá-las e deixar que o próprio espectador as desfrute. Só o fato de Rian Johnson entregar algo bem diferente do que se esperaria já é um mérito para sua contribuição.
No mais, não esqueçamos do grande trunfo de STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI: Adam Driver, que está vivendo um momento muito especial em sua carreira. Só neste ano ele pôde ser visto em quatro filmes importantes na tela grande: SILÊNCIO, de Martin Scorsese; PATERSON, de Jim Jarmursch; LOGAN LUCKY - ROUBO EM FAMÍLIA, de Steven Soderbergh; e este novo STAR WARS. Além disso, Driver encerrou muito bem sua participação na ótima série GIRLS, de Lena Dunham. Não é pouco.
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