Foi a partir de O ESPELHO (2013) que Mike Flanagan passou a ser visto como um dos possíveis mestres do cinema de horror contemporâneo. Embora seus filmes não se enquadrem no que atualmente se chama de pós-horror, sendo até um pouco tradicionais na forma, há uma sofisticação visual admirável. Assim, mesmo quando pega um projeto já em andamento, como foi o caso de OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016), o cineasta transforma o que é apenas um filme esquecível em uma história de certa forma independente e além de tudo aterrorizante, sabendo muito bem aproveitar os clichês dos filmes de fantasmas e casas assombradas.
Aliás, que especial que foi o ano de 2016 para Flanagan, que compareceu com três filmes. Além do prequel de OUIJA, houve também o eletrizante HUSH – A MORTE OUVE (2016) e o sentimental e sobrenatural O SONO DA MORTE (2016). Se em 2017 sua produção diminuiu, ao menos a Netflix, agindo aqui como produtora também, promoveu uma bela adaptação de uma obra de Stephen King a cargo de Flanagan.
JOGO PERIGOSO (2017) já chama atenção desde o primeiro trailer veiculado. Na trama, Carla Gugino e Bruce Greenwood são um casal que está passando por uma crise no casamento e o marido resolve apimentar um pouco a relação, brincando de práticas de sadomasoquismo em uma casa afastada. A ideia dele seria algemar a esposa na cama para fazer sexo com ela. Quando a coisa começa a parecer com um estupro ela fica um bocado incomodada. Fica mais perturbada ainda quando o marido tem um ataque cardíaco e morre, sem poder tirá-la das algemas a tempo.
A personagem de Gugino não fica sozinha, porém. Tem o fantasma do marido para conversar com ela e ajudá-la a pensar friamente diante da situação que se tornaria muito pior caso ela não pensasse friamente. Afinal, a casa estava distante de qualquer outra, sendo impossível alguém ouvir os gritos da mulher aflita.
O filme sofre uma quebra de ritmo quando somos levados para um flashback da infância da personagem, quando ela lembra um momento nada agradável com o pai. Ao falar de um assunto tão espinhoso, mas ao mesmo tempo tão urgente quanto o abuso infantil, Mike Flanagan mais uma vez trata de contar histórias dolorosas de famílias, como vem sendo sua marca desde pelo menos ABSENTIA (2011).
Ao mesmo tempo em que esse flashback quebra o ritmo, ele ajuda a enriquecer um filme que parecia não se encaminhar para lugar nenhum, ou que seria apenas um thriller tenso e pouco memorável. Além do mais, há a presença de um ator que talvez só seja lembrado por causa de TWIN PEAKS, o gigante Carel Struycken, que reapareceu no "retorno" como uma das entidades do White Lodge. A presença dele em JOGO PERIGOSO é mais de natureza sobrenatural (ou uma alucinação da personagem). Outra presença marcante no elenco de apoio é Henry Thomas, perfeito no papel do pai da protagonista, em especial na cena do eclipse.
Assim, JOGO PERIGOSO, mesmo que fique um pouco atrás das obras para cinema de Flanagan, é um filme que merece atenção, mesmo por quem não acompanha o trabalho do diretor. A tensão e a temática adicional já são motivos mais do que suficientes para dar aquela espiada.
terça-feira, outubro 31, 2017
segunda-feira, outubro 30, 2017
MINDHUNTER - PRIMEIRA TEMPORADA (Mindhunter - Season One)
Não esperava que este ano ainda reservasse uma surpresa tão boa quanto MINDHUNTER (2017), a série que inicialmente chama a atenção por ter produção executiva de David Fincher, que ainda dirige quatro dos dez episódios desta primeira temporada. Eis uma série que conquista o espectador mais exigente logo em seus primeiros minutos e que consegue ficar cada vez mais envolvente à medida que vai se aproximando de seu final. Que não é bem um final (ainda bem), mas vale dizer que a season finale é de dar taquicardia.
MINDHUNTER é baseado no livro Mindhunter - O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, de John E. Douglas e Mark Olshaker. Pelo que andei escutando por aí, a primeira temporada dá conta da primeira metade do livro, que funcionaria como um ótimo complemento para a série criada por Joe Penhall, que tinha como produção mais expressiva até então o roteiro do drama pós-apocalíptico A ESTRADA (2009), de John Hillcoat.
Ao contrário do que muitos podem pensar de início, MINDHUNTER não tem cenas de violência ou de perseguição ou coisa parecida. É investigação e psicologia, basicamente. E um texto tão bem trabalhado que é de dar gosto. Os personagens são tão ou mais envolventes do que a história, que trata do início dos trabalhos do FBI com o estudo dos casos de assassinos em série.
A série é baseada na vida de John E. Douglas e em seus encontros e entrevistas com assassinos famosos, como Ed Kemper, o sujeito que matou a própria mãe e fez sexo com sua cabeça decepada, e Jerry Brudos, o assassino do fetiche de sapatos. Vale destacar também que a interpretação dos atores para esses dois criminosos é admirável. A atmosfera de medo e tensão nas conversas com esses dois, em especial, é de deixar o espectador prendendo a respiração. Mas há outros casos resolvidos pelo próprio protagonista e seu parceiro que empolgam e instigam. Há também uma psicóloga estudiosa do caso que integra o trio.
O grupo é formado aos poucos no seu tempo dentro da narrativa. Antes da união de Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), acompanhamos o certinho Ford conhecendo a ousada Debbie (Hannah Gross), a mulher que o iniciará no caminho do sexo oral e de outras maneiras de melhor se viver. Além de tudo, ela ainda ouve as preocupações que ele faz questão de compartilhar de sua profissão. Mais à frente, Bill se une a Holden para darem aula sobre assassinos seriais em diversas cidades dos Estados Unidos. A presença de Wendy Carr (Anna Torv, de FRINGE) chega para enriquecer ainda mais o grupo.
O fato de a série também nos apresentar à vida privada de seus personagens principais ajuda bastante a nos aproximamos deles. Faz com que nos importemos com esses personagens, faz com que o que eles sentem e temem seja verdadeiro. Um dos melhores exemplos aparece no episódio de número oito, que é o que trata de um diretor de escola infantil que tem o costume de dar cócegas nos alunos.
O que parecia um episódio pouco brilhante diante dos demais acaba sendo um dos mais marcantes pelo mal estar com que passamos a carregar, junto com Holden, das responsabilidades e das decisões que ele resolve tomar, seguindo seus instintos, mas também com muitas dúvidas. Este oitavo episódio é tão marcante que é o único que termina sem música nos créditos finais.
Outro destaque da série é a direção de arte linda, que nos leva aos anos 1970 e a elegância das roupas, dos carros, dos prédios e casas. Há também detalhes importantes no modo como a fotografia é tratada em diferentes momentos, seja para passar uma sensação de bem estar em cenas diurnas com um belo dia de sol, seja para acentuar cenas tensas nos interiores. Na verdade, há tantas qualidades em MINDHUNTER que fica difícil destacar seus problemas. De longe, a melhor produção da Netflix até o momento.
MINDHUNTER é baseado no livro Mindhunter - O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, de John E. Douglas e Mark Olshaker. Pelo que andei escutando por aí, a primeira temporada dá conta da primeira metade do livro, que funcionaria como um ótimo complemento para a série criada por Joe Penhall, que tinha como produção mais expressiva até então o roteiro do drama pós-apocalíptico A ESTRADA (2009), de John Hillcoat.
Ao contrário do que muitos podem pensar de início, MINDHUNTER não tem cenas de violência ou de perseguição ou coisa parecida. É investigação e psicologia, basicamente. E um texto tão bem trabalhado que é de dar gosto. Os personagens são tão ou mais envolventes do que a história, que trata do início dos trabalhos do FBI com o estudo dos casos de assassinos em série.
A série é baseada na vida de John E. Douglas e em seus encontros e entrevistas com assassinos famosos, como Ed Kemper, o sujeito que matou a própria mãe e fez sexo com sua cabeça decepada, e Jerry Brudos, o assassino do fetiche de sapatos. Vale destacar também que a interpretação dos atores para esses dois criminosos é admirável. A atmosfera de medo e tensão nas conversas com esses dois, em especial, é de deixar o espectador prendendo a respiração. Mas há outros casos resolvidos pelo próprio protagonista e seu parceiro que empolgam e instigam. Há também uma psicóloga estudiosa do caso que integra o trio.
O grupo é formado aos poucos no seu tempo dentro da narrativa. Antes da união de Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), acompanhamos o certinho Ford conhecendo a ousada Debbie (Hannah Gross), a mulher que o iniciará no caminho do sexo oral e de outras maneiras de melhor se viver. Além de tudo, ela ainda ouve as preocupações que ele faz questão de compartilhar de sua profissão. Mais à frente, Bill se une a Holden para darem aula sobre assassinos seriais em diversas cidades dos Estados Unidos. A presença de Wendy Carr (Anna Torv, de FRINGE) chega para enriquecer ainda mais o grupo.
O fato de a série também nos apresentar à vida privada de seus personagens principais ajuda bastante a nos aproximamos deles. Faz com que nos importemos com esses personagens, faz com que o que eles sentem e temem seja verdadeiro. Um dos melhores exemplos aparece no episódio de número oito, que é o que trata de um diretor de escola infantil que tem o costume de dar cócegas nos alunos.
O que parecia um episódio pouco brilhante diante dos demais acaba sendo um dos mais marcantes pelo mal estar com que passamos a carregar, junto com Holden, das responsabilidades e das decisões que ele resolve tomar, seguindo seus instintos, mas também com muitas dúvidas. Este oitavo episódio é tão marcante que é o único que termina sem música nos créditos finais.
Outro destaque da série é a direção de arte linda, que nos leva aos anos 1970 e a elegância das roupas, dos carros, dos prédios e casas. Há também detalhes importantes no modo como a fotografia é tratada em diferentes momentos, seja para passar uma sensação de bem estar em cenas diurnas com um belo dia de sol, seja para acentuar cenas tensas nos interiores. Na verdade, há tantas qualidades em MINDHUNTER que fica difícil destacar seus problemas. De longe, a melhor produção da Netflix até o momento.
domingo, outubro 29, 2017
O FORMIDÁVEL (Le Redoutable)
Michel Hazanavicius procurou saber de Jean-Luc Godard se ele havia visto o seu O FORMIDÁVEL (2017), se havia gostado ou desgostado do modo como ele foi caracterizado nesta comédia autobiográfica baseada no livro de uma das ex-esposas do cineasta da Nouvelle Vague, a alemã Anne Wiazemsky. Até onde eu sei, o jovem diretor não recebeu nenhuma resposta de seu "homenageado". Apesar das aspas, podemos dizer que o filme de Hazanavicius consegue ser ao mesmo tempo uma homenagem a Godard, emulando e trazendo à tona momentos importantes daquele recorte da vida e da obra do homem, como também um filme que tira sarro de Godard, aqui vivido por Louis Garrel.
O diretor do oscarizado O ARTISTA (2011) novamente fala sobre cinema e seus bastidores, mas o foco agora é o cinema francês da segunda metade dos anos 1960, quando muita coisa estava mudando no mundo. Em um ano em que tivemos uma comédia que também brinca com os bastidores do cinema francês, como é o caso do divertido ROCK’N ROLL - POR TRÁS DA FAMA, de Guillaume Canet, é bom também receber outro trabalho inteligente e espirituoso. O FORMIDÁVEL talvez exija menos do espectador pouco habituado a ver filmes franceses ou que não esteja a par do trabalho de Godard. É possível se divertir e até aprender um bocado sobre aquele momento tão particular da França.
Foi um momento de revolução para o país, e também de tentativa de revolução para um cinema que já era considerado revolucionário. Mas assim como aconteceu nos cinemas novos de outros países, inclusive o nosso, a década de 1960 foi de inquietação, e Godard estava em um momento tão radical de sua vida que rejeitava até mesmo os seus próprios filmes, colocava-os também na categoria de lixo burguês ou arte ultrapassada. Sua intenção era criar algo totalmente novo na forma e no conteúdo e ainda trazer muito da política que ele abraçava naquele momento, o maoísmo.
Uma das partes mais engraçadas do filme, aliás, é quando Godard fica sabendo que seu filme A CHINESA não foi nada apreciado pelos chineses. Segundo algumas fontes, os revolucionários chineses acharam que o diretor francês não entendeu nada da ideologia de Mao. Outras passagens bem engraçadas são as várias vezes que Godard está presente nas manifestações acirradas de 1968, quando havia briga entre a polícia e os estudantes. Godard, além de perder muitos óculos, sempre se saía mal quando ia para as discussões entre os estudantes comunistas.
Uma das melhores coisas do filme merece ser mencionada como destaque: Stacy Martin, a jovem francesa que encantou o mundo em NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier, faz o papel da jovem esposa de Godard, Anne, que atura, com amor e paciência, as bobagens e os arroubos de arrogância daquele homem que se acha melhor do que todos. Com uma mulher tão doce quanto Anne, difícil não pensar no quanto Godard foi vacilão em ter deixado passar alguém tão especial na vida dele. E para acentuar ainda mais essa impressão, o filme a apresenta sem roupa diversas vezes, uma vez lembrando uma cena de O DESPREZO, em que a câmera de Godard passeia pelo corpo nu de Brigitte Bardot.
Quanto a Bérénice Bejo, a esposa de Hazanavicius, a bela e talentosa atriz aparece pouco, em papel de coadjuvante, como uma das amigas de Godard. É um papel pequeno, mas é sempre bom tê-la presente, como um amuleto de sorte, já que Bejo tem feito uma série de trabalhos muito bons.
O diretor do oscarizado O ARTISTA (2011) novamente fala sobre cinema e seus bastidores, mas o foco agora é o cinema francês da segunda metade dos anos 1960, quando muita coisa estava mudando no mundo. Em um ano em que tivemos uma comédia que também brinca com os bastidores do cinema francês, como é o caso do divertido ROCK’N ROLL - POR TRÁS DA FAMA, de Guillaume Canet, é bom também receber outro trabalho inteligente e espirituoso. O FORMIDÁVEL talvez exija menos do espectador pouco habituado a ver filmes franceses ou que não esteja a par do trabalho de Godard. É possível se divertir e até aprender um bocado sobre aquele momento tão particular da França.
Foi um momento de revolução para o país, e também de tentativa de revolução para um cinema que já era considerado revolucionário. Mas assim como aconteceu nos cinemas novos de outros países, inclusive o nosso, a década de 1960 foi de inquietação, e Godard estava em um momento tão radical de sua vida que rejeitava até mesmo os seus próprios filmes, colocava-os também na categoria de lixo burguês ou arte ultrapassada. Sua intenção era criar algo totalmente novo na forma e no conteúdo e ainda trazer muito da política que ele abraçava naquele momento, o maoísmo.
Uma das partes mais engraçadas do filme, aliás, é quando Godard fica sabendo que seu filme A CHINESA não foi nada apreciado pelos chineses. Segundo algumas fontes, os revolucionários chineses acharam que o diretor francês não entendeu nada da ideologia de Mao. Outras passagens bem engraçadas são as várias vezes que Godard está presente nas manifestações acirradas de 1968, quando havia briga entre a polícia e os estudantes. Godard, além de perder muitos óculos, sempre se saía mal quando ia para as discussões entre os estudantes comunistas.
Uma das melhores coisas do filme merece ser mencionada como destaque: Stacy Martin, a jovem francesa que encantou o mundo em NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier, faz o papel da jovem esposa de Godard, Anne, que atura, com amor e paciência, as bobagens e os arroubos de arrogância daquele homem que se acha melhor do que todos. Com uma mulher tão doce quanto Anne, difícil não pensar no quanto Godard foi vacilão em ter deixado passar alguém tão especial na vida dele. E para acentuar ainda mais essa impressão, o filme a apresenta sem roupa diversas vezes, uma vez lembrando uma cena de O DESPREZO, em que a câmera de Godard passeia pelo corpo nu de Brigitte Bardot.
Quanto a Bérénice Bejo, a esposa de Hazanavicius, a bela e talentosa atriz aparece pouco, em papel de coadjuvante, como uma das amigas de Godard. É um papel pequeno, mas é sempre bom tê-la presente, como um amuleto de sorte, já que Bejo tem feito uma série de trabalhos muito bons.
quinta-feira, outubro 26, 2017
THOR - RAGNAROK
Quando o primeiro filme do Homem de Ferro aportou nos cinemas, um dos maiores destaques e um dos pontos mais apreciados pela audiência foi o bom humor. Nascia, então, uma fórmula que, guardada uma ou outra exceção (talvez apenas os dois primeiros filmes do Capitão América), seria a marca das aventuras de super-heróis do tão desejado Universo Compartilhado Marvel.
Porém, dois filmes do estúdio surgiram para brincar de maneira ainda mais escrachada com os heróis: HOMEM DE FERRO 3, de Shane Black, e GUARDIÕES DA GALÁXIA, de James Gunn. Em seguida, veio o ótimo HOMEM-FORMIGA, de Peyton Reed, provavelmente o produto mais bem-acabado da junção humor e aventura até o momento.
E eis que resolveram dar uma sacudida no deus do trovão, que ganhou dois filmes bem abaixo do que o personagem divino mereceria. O primeiro, THOR (2011), de Kenneth Branagh, é até um bom filme de introdução do personagem, mas é esquecível. Ter chamado Branagh só por ele ter dirigido filmes de Shakespeare não pareceu uma escolha lá muito sábia. O mesmo se pode dizer da escalação de Alan Taylor (diretor de episódios de GAME OF THRONES) para a sequência, THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013), ainda mais anódino.
Se a intenção é juntar os Guardiões da Galáxia com os Vingadores, o Homem-Aranha e um Doutor Estranho metido a engraçado em um mega-lançamento futuro, então, nada mais justo do que apimentar também com muito humor este terceiro e estranho THOR - RAGNAROK (2017), que pelo título poderia ser uma aventura bem dramática. Afinal, Ragnarok é o apocalipse de Asgard, a destruição do lar (e talvez da vida) dos deuses nórdicos.
Mas acontece que preferiram uma comédia. Muito bem. Aceita-se o filme como uma comédia. O que poderia ser mais bem resolvido seria o timing. Fazer comédia não é fácil. Comédia das boas, digo. Não que THOR - RAGNAROK não consiga entreter e divertir em alguns momentos. Consegue sim. Mas a cara de matinê também rima com um pouco de desinteresse com o destino dos personagens ou mesmo com a história.
Há algumas coisas que funcionam bem: Chris Hemsworth, o Thor, já havia provado ser um ótimo ator de comédia em CAÇA-FANTASMAS, de Paul Feig. Assim, seu herói bobão no novo filme funciona muito bem desde o começo, quando ele aparece preso em um lugar que depois saberemos se tratar do lar do infernal Surtur, entidade que vinha aparecendo de maneira recorrente nos sonhos do deus do trovão. Dar cabo de Surtur seria uma forma de evitar o Ragnarok.
Mas o que o deus abobalhado não sabia era que seu lar estaria prestes a ser invadido e tomado por Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte, e primogênita de Odin (Anthony Hopkins). Assim, a irmã que ele não sabia que existia será a grande ameaça para Asgard. Logo no primeiro embate com ela, Thor perde o martelo e é enviado para um planeta estranho chamado Sakaar, conhecido dos leitores da saga Planeta Hulk. E, sim, é lá que o verdão vai travar uma batalha com o protagonista.
Interessante essa avalanche de referências das histórias em quadrinhos da Marvel para tentar construir uma narrativa original. Por mais que seja uma narrativa com todo um jeitão de preguiçosa. Mas talvez seja essa a melhor maneira de ver THOR - RAGNAROK: totalmente relaxado, sem esperar nada além de uma boa comédia com alguns dos super-heróis da Marvel, e que ainda tem como bônus a bela fotografia bem colorida e visual e clima oitentistas. Para muitos, a estreia do neozelandês Taika Waititi, de trajetória pouco conhecida nos cinemas ocidentais, acabou sendo uma boa surpresa.
Porém, dois filmes do estúdio surgiram para brincar de maneira ainda mais escrachada com os heróis: HOMEM DE FERRO 3, de Shane Black, e GUARDIÕES DA GALÁXIA, de James Gunn. Em seguida, veio o ótimo HOMEM-FORMIGA, de Peyton Reed, provavelmente o produto mais bem-acabado da junção humor e aventura até o momento.
E eis que resolveram dar uma sacudida no deus do trovão, que ganhou dois filmes bem abaixo do que o personagem divino mereceria. O primeiro, THOR (2011), de Kenneth Branagh, é até um bom filme de introdução do personagem, mas é esquecível. Ter chamado Branagh só por ele ter dirigido filmes de Shakespeare não pareceu uma escolha lá muito sábia. O mesmo se pode dizer da escalação de Alan Taylor (diretor de episódios de GAME OF THRONES) para a sequência, THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013), ainda mais anódino.
Se a intenção é juntar os Guardiões da Galáxia com os Vingadores, o Homem-Aranha e um Doutor Estranho metido a engraçado em um mega-lançamento futuro, então, nada mais justo do que apimentar também com muito humor este terceiro e estranho THOR - RAGNAROK (2017), que pelo título poderia ser uma aventura bem dramática. Afinal, Ragnarok é o apocalipse de Asgard, a destruição do lar (e talvez da vida) dos deuses nórdicos.
Mas acontece que preferiram uma comédia. Muito bem. Aceita-se o filme como uma comédia. O que poderia ser mais bem resolvido seria o timing. Fazer comédia não é fácil. Comédia das boas, digo. Não que THOR - RAGNAROK não consiga entreter e divertir em alguns momentos. Consegue sim. Mas a cara de matinê também rima com um pouco de desinteresse com o destino dos personagens ou mesmo com a história.
Há algumas coisas que funcionam bem: Chris Hemsworth, o Thor, já havia provado ser um ótimo ator de comédia em CAÇA-FANTASMAS, de Paul Feig. Assim, seu herói bobão no novo filme funciona muito bem desde o começo, quando ele aparece preso em um lugar que depois saberemos se tratar do lar do infernal Surtur, entidade que vinha aparecendo de maneira recorrente nos sonhos do deus do trovão. Dar cabo de Surtur seria uma forma de evitar o Ragnarok.
Mas o que o deus abobalhado não sabia era que seu lar estaria prestes a ser invadido e tomado por Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte, e primogênita de Odin (Anthony Hopkins). Assim, a irmã que ele não sabia que existia será a grande ameaça para Asgard. Logo no primeiro embate com ela, Thor perde o martelo e é enviado para um planeta estranho chamado Sakaar, conhecido dos leitores da saga Planeta Hulk. E, sim, é lá que o verdão vai travar uma batalha com o protagonista.
Interessante essa avalanche de referências das histórias em quadrinhos da Marvel para tentar construir uma narrativa original. Por mais que seja uma narrativa com todo um jeitão de preguiçosa. Mas talvez seja essa a melhor maneira de ver THOR - RAGNAROK: totalmente relaxado, sem esperar nada além de uma boa comédia com alguns dos super-heróis da Marvel, e que ainda tem como bônus a bela fotografia bem colorida e visual e clima oitentistas. Para muitos, a estreia do neozelandês Taika Waititi, de trajetória pouco conhecida nos cinemas ocidentais, acabou sendo uma boa surpresa.
terça-feira, outubro 24, 2017
AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA
Difícil não se impressionar com as qualidades de AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA (1980), de José Miziara, principalmente sua meia-hora inicial, quando vemos uma edição em que se alternam cenas da protagonista vivida por Helena Ramos, a Analu do título, dirigindo um carro numa estrada escura com expressão aflita, enquanto vemos cenas do passado recente, de sua relação complicada com o marido vivido por Ênio Gonçalves. Para completar, a edição não mostra apenas o ponto de vista de Analu, mas também as escapulidas de seu marido, entre elas, a sequência em que Ênio transa com Matilde Mastrangi. Ela que, com seu corpo exuberante, tanto foi objeto de desejo dos marmanjos nos anos 1980. E dá até para sentir uma pontinha de inveja de Ênio, só de vê-lo realizar essa curta sequência.
AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA começa a se “acalmar” e a entrar numa aparente normalidade, com uma narrativa mais linear, quando Analu conhece Fernanda (Márcia Maria), que funciona como uma espécie de porto seguro para aquela mulher em busca de um pouco de tranquilidade depois de sofrer a pressão, as traições e a violência do marido. Ela aceita o convite de ficar na casa de praia de Fernanda em Ubatuba. E a partir desse instante começa a surgir um relacionamento mais íntimo entre elas. Mas as coisas não são tão simples assim e a felicidade das duas, que se revelam doentiamente apaixonadas uma pela outra, encontrará um terrível obstáculo.
Muitos veem a solução do segundo ato do filme como carregada de moralismo, semelhante ao americano ATRAÇÃO FATAL: mas em vez de uma amante psicopata que chega para acabar com um casamento tranquilo, estamos diante de uma lésbica psicopata, o que naturalmente pode atingir a um segmento de minorias que sofre mais preconceitos da sociedade. Porém, o filme vai além das questões moralistas e funciona incrivelmente bem como um suspense que bebe muito da fonte do film noir americano dos anos 1940, adicionado de toques apimentados de sexo e nudez. Vale destacar a atuação de Helena Ramos no papel de Analu: uma atriz de mão cheia que não tinha frescuras em desempenhar cenas mais ousadas nesse “cinema do corpo” que foi o cinema brasileiro dos anos 80.
Quanto a Ênio Gonçalves, ele aparece pouco no filme, mas sua participação é fundamental para estabelecer a figura do homem canalha. E isso é mostrado em algumas curtas tomadas: o traumático bate-boca no apartamento; a transa no barco com Matilde Mastrangi; a cena no escritório com sua secretária; outra, num motel. E no final, o ressurgimento de seu personagem, para acentuar a visão de um mundo onde não há escapatória e a felicidade é só uma ilusão.
Texto publicado originalmente na Revista Zingu! em 21 de agosto de 2011
AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA começa a se “acalmar” e a entrar numa aparente normalidade, com uma narrativa mais linear, quando Analu conhece Fernanda (Márcia Maria), que funciona como uma espécie de porto seguro para aquela mulher em busca de um pouco de tranquilidade depois de sofrer a pressão, as traições e a violência do marido. Ela aceita o convite de ficar na casa de praia de Fernanda em Ubatuba. E a partir desse instante começa a surgir um relacionamento mais íntimo entre elas. Mas as coisas não são tão simples assim e a felicidade das duas, que se revelam doentiamente apaixonadas uma pela outra, encontrará um terrível obstáculo.
Muitos veem a solução do segundo ato do filme como carregada de moralismo, semelhante ao americano ATRAÇÃO FATAL: mas em vez de uma amante psicopata que chega para acabar com um casamento tranquilo, estamos diante de uma lésbica psicopata, o que naturalmente pode atingir a um segmento de minorias que sofre mais preconceitos da sociedade. Porém, o filme vai além das questões moralistas e funciona incrivelmente bem como um suspense que bebe muito da fonte do film noir americano dos anos 1940, adicionado de toques apimentados de sexo e nudez. Vale destacar a atuação de Helena Ramos no papel de Analu: uma atriz de mão cheia que não tinha frescuras em desempenhar cenas mais ousadas nesse “cinema do corpo” que foi o cinema brasileiro dos anos 80.
Quanto a Ênio Gonçalves, ele aparece pouco no filme, mas sua participação é fundamental para estabelecer a figura do homem canalha. E isso é mostrado em algumas curtas tomadas: o traumático bate-boca no apartamento; a transa no barco com Matilde Mastrangi; a cena no escritório com sua secretária; outra, num motel. E no final, o ressurgimento de seu personagem, para acentuar a visão de um mundo onde não há escapatória e a felicidade é só uma ilusão.
Texto publicado originalmente na Revista Zingu! em 21 de agosto de 2011
sexta-feira, outubro 20, 2017
DETROIT EM REBELIÃO (Detroit)
Kathryn Bigelow nos convida para um passeio pela Detroit de 1967, no olho do furacão de uma situação extremamente tensa acontecendo já no calor de um momento incontrolável de rebelião da população negra da cidade, diante da violência policial sofrida. Como resultado, parte da população negra passa a depredar e saquear algumas lojas. Afinal, quando o próprio Estado é o verdadeiro vândalo, abre-se precedente para o vandalismo em menor escala.
Na verdade, DETROIT EM REBELIÃO (2017) não se preocupa em contar ao espectador a grande história que está acontecendo. No começo do filme a câmera nervosa raramente para quieta e é difícil não sair da sessão com pelo menos um pouco de dor de cabeça. O sofrimento por que passa o espectador durante a metragem se faz necessário para que experimentemos um pouco do terror sentido pelo grupo de pessoas atacadas por policiais racistas em um motel, durante os últimos dois terços do filme.
A primeira parte serve para deixar o espectador confuso diante de tantas coisas acontecendo, já que somos levados para o meio da ação, com cortes rápidos, de diversas ações se sucedendo ao mesmo tempo. Aos poucos a câmera se acalma um pouco e vamos conhecendo os personagens, entre eles um policial de Detroit extremamente racista, que já na primeira oportunidade de atirar em um rapaz negro que acabou de roubar uma loja, atira por trás enquanto ele corre. Curiosamente, o tal policial é interpretado pelo garoto da comédia FAMÍLIA DO BAGULHO, de Rawson Marshall Thurber. É admirável que, de adolescente virgem, Will Poulter tenha resultado no que talvez seja o vilão mais odioso do cinema em 2017.
Ele é Krauss, o líder da caçada ao suposto sniper do prédio onde estão uma dupla de amigos que faz parte de um grupo vocal típico da Motown na década de 1960, duas jovens moças com pouco dinheiro, mas dispostas a se divertirem naquele lugar, e outros rapazes, sendo que um deles brinca com uma arma de brinquedo que assusta a polícia e o exército. Quando o lugar é invadido, os policiais brancos não entendem o que aquelas mulheres brancas estariam fazendo naquele lugar. Um dos rapazes é logo considerado o cafetão por estar no mesmo quarto que elas.
Esse jogo perturbador de abuso de poder continua num crescendo contínuo que nos leva a nos sentir tão impotentes quanto aqueles homens e mulheres ameaçados pelo ódio racial. O terror é exponencializado com os assassinatos de homens negros naquele prédio. Ou seja, quem quer ir ao cinema para se divertir apenas, DETROIT EM REBELIÃO não é uma boa pedida.
Kathryn Bigelow vem se especializando em buscar em seus filmes climas de tensão no mínimo desconfortáveis. Depois de ganhar o Oscar com GUERRA AO TERROR (2008) e de entrar de cabeça na caçada a Osama Bin-Laden em A HORA MAIS ESCURA (2012), ela retorna disposta a tratar de outra guerra, uma guerra que os americanos vêm travando desde a época da escravidão, uma guerra covarde em que o mais forte se alimenta de humilhar o mais fraco. A tiracolo, vem a questão da misoginia, andando de mãos dadas com o racismo.
Na verdade, DETROIT EM REBELIÃO (2017) não se preocupa em contar ao espectador a grande história que está acontecendo. No começo do filme a câmera nervosa raramente para quieta e é difícil não sair da sessão com pelo menos um pouco de dor de cabeça. O sofrimento por que passa o espectador durante a metragem se faz necessário para que experimentemos um pouco do terror sentido pelo grupo de pessoas atacadas por policiais racistas em um motel, durante os últimos dois terços do filme.
A primeira parte serve para deixar o espectador confuso diante de tantas coisas acontecendo, já que somos levados para o meio da ação, com cortes rápidos, de diversas ações se sucedendo ao mesmo tempo. Aos poucos a câmera se acalma um pouco e vamos conhecendo os personagens, entre eles um policial de Detroit extremamente racista, que já na primeira oportunidade de atirar em um rapaz negro que acabou de roubar uma loja, atira por trás enquanto ele corre. Curiosamente, o tal policial é interpretado pelo garoto da comédia FAMÍLIA DO BAGULHO, de Rawson Marshall Thurber. É admirável que, de adolescente virgem, Will Poulter tenha resultado no que talvez seja o vilão mais odioso do cinema em 2017.
Ele é Krauss, o líder da caçada ao suposto sniper do prédio onde estão uma dupla de amigos que faz parte de um grupo vocal típico da Motown na década de 1960, duas jovens moças com pouco dinheiro, mas dispostas a se divertirem naquele lugar, e outros rapazes, sendo que um deles brinca com uma arma de brinquedo que assusta a polícia e o exército. Quando o lugar é invadido, os policiais brancos não entendem o que aquelas mulheres brancas estariam fazendo naquele lugar. Um dos rapazes é logo considerado o cafetão por estar no mesmo quarto que elas.
Esse jogo perturbador de abuso de poder continua num crescendo contínuo que nos leva a nos sentir tão impotentes quanto aqueles homens e mulheres ameaçados pelo ódio racial. O terror é exponencializado com os assassinatos de homens negros naquele prédio. Ou seja, quem quer ir ao cinema para se divertir apenas, DETROIT EM REBELIÃO não é uma boa pedida.
Kathryn Bigelow vem se especializando em buscar em seus filmes climas de tensão no mínimo desconfortáveis. Depois de ganhar o Oscar com GUERRA AO TERROR (2008) e de entrar de cabeça na caçada a Osama Bin-Laden em A HORA MAIS ESCURA (2012), ela retorna disposta a tratar de outra guerra, uma guerra que os americanos vêm travando desde a época da escravidão, uma guerra covarde em que o mais forte se alimenta de humilhar o mais fraco. A tiracolo, vem a questão da misoginia, andando de mãos dadas com o racismo.
quinta-feira, outubro 19, 2017
ENTRE IRMÃS
Um dos méritos do cinema de Breno Silveira é a sua vontade desavergonhada de emocionar a audiência, não importando o quanto isso resulte em um produto um tanto cafona. No entanto, nem sempre o cineasta consegue um bom equilíbrio, e às vezes pode acontecer de a história ter pouca substância ou de o roteiro não ser tão bem cuidado a ponto de prejudicar, e é o que temos, então, em ENTRE IRMÃS (2017), seu mais recente trabalho, algo que beira o novelão.
O que acaba por contar pontos positivos no filme é justamente o fato de termos um bom diretor e um par de protagonistas ótimas, que garantem momentos de boa dramaturgia. Nanda Costa e Marjorie Estiano, que interpretam as duas moças do sertão que são separadas de forma traumática e trilham caminhos bem distintos, são o que há de mais valioso em ENTRE IRMÃS. Principalmente Marjorie, que tem se revelado cada vez mais uma atriz impressionante. Seu papel recente em uma série da Rede Globo, SOB PRESSÃO, foi admirável, e dizem que ela está extraordinária em AS BOAS MANEIRAS, o novo trabalho da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas.
ENTRE IRMÃS, ainda que seja mais irregular do que os trabalhos mais incensados de Silveira, é um bocado produto de sua passagem pelas locações em que trabalhou. Seu filme anterior, GONZAGA – DE PAI PRA FILHO (2012), o apresentou ao sertão nordestino, e sua vontade de contar uma história da época do cangaço em uma produção épica foi o que o levou a adaptar o livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles.
Apesar de o título do livro enfatizar a história de amor entre uma das irmãs e o cangaceiro que a captura de sua família, Silveira preferiu contar as duas histórias em paralelo. No fim das contas, a história da outra irmã, Emília (Marjorie), tem mais força e desperta mais interesse do que a história de Luzia (Nanda), que por optar por uma versão "genérica" da história de Lampião e Maria Bonita, perde um bocado da força, por mais que seja compreensíveis as licenças poéticas, inclusive para ter menos preocupação com datas e eventos políticos.
Outro ponto positivo é o paralelismo entre as duas histórias, bem costuradas em uma edição que ainda tem o mérito de transformar um filme de quase três horas de duração em uma narrativa que parece ter uma hora e meia. Assim, quando vemos o insucesso de Emilia no campo sentimental, ao descobrir que o marido casou com ela por conveniência, vemos também o início de uma maior aproximação de Luzia com o líder dos cangaceiros, o Carcará (Júlio Machado). Há outro momento particularmente bonito, que é quando as duas jovens leem no mesmo jornal notícias sobre a irmã distante: uma na caatinga, vivendo como nômade e fora-da-lei, e a outra na alta sociedade do Recife. A história na capital, inclusive, ainda conta com a presença muito bem-vinda de Letícia Colin, vivendo uma amiga de Emilia.
Assim, por mais que Silveira não tenha conseguido atingir o grau de arrebatamento emocional de 2 FILHOS DE FRANCISCO (2005) e de À BEIRA DO CAMINHO (2012), duas obras que o elevam à categoria de mestre do melodrama, ENTRE IRMÃS tem sim as suas qualidades e merece ser visto com carinho, principalmente para quem não se importa em ver uma narrativa bem clássica e antiquada.
O que acaba por contar pontos positivos no filme é justamente o fato de termos um bom diretor e um par de protagonistas ótimas, que garantem momentos de boa dramaturgia. Nanda Costa e Marjorie Estiano, que interpretam as duas moças do sertão que são separadas de forma traumática e trilham caminhos bem distintos, são o que há de mais valioso em ENTRE IRMÃS. Principalmente Marjorie, que tem se revelado cada vez mais uma atriz impressionante. Seu papel recente em uma série da Rede Globo, SOB PRESSÃO, foi admirável, e dizem que ela está extraordinária em AS BOAS MANEIRAS, o novo trabalho da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas.
ENTRE IRMÃS, ainda que seja mais irregular do que os trabalhos mais incensados de Silveira, é um bocado produto de sua passagem pelas locações em que trabalhou. Seu filme anterior, GONZAGA – DE PAI PRA FILHO (2012), o apresentou ao sertão nordestino, e sua vontade de contar uma história da época do cangaço em uma produção épica foi o que o levou a adaptar o livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles.
Apesar de o título do livro enfatizar a história de amor entre uma das irmãs e o cangaceiro que a captura de sua família, Silveira preferiu contar as duas histórias em paralelo. No fim das contas, a história da outra irmã, Emília (Marjorie), tem mais força e desperta mais interesse do que a história de Luzia (Nanda), que por optar por uma versão "genérica" da história de Lampião e Maria Bonita, perde um bocado da força, por mais que seja compreensíveis as licenças poéticas, inclusive para ter menos preocupação com datas e eventos políticos.
Outro ponto positivo é o paralelismo entre as duas histórias, bem costuradas em uma edição que ainda tem o mérito de transformar um filme de quase três horas de duração em uma narrativa que parece ter uma hora e meia. Assim, quando vemos o insucesso de Emilia no campo sentimental, ao descobrir que o marido casou com ela por conveniência, vemos também o início de uma maior aproximação de Luzia com o líder dos cangaceiros, o Carcará (Júlio Machado). Há outro momento particularmente bonito, que é quando as duas jovens leem no mesmo jornal notícias sobre a irmã distante: uma na caatinga, vivendo como nômade e fora-da-lei, e a outra na alta sociedade do Recife. A história na capital, inclusive, ainda conta com a presença muito bem-vinda de Letícia Colin, vivendo uma amiga de Emilia.
Assim, por mais que Silveira não tenha conseguido atingir o grau de arrebatamento emocional de 2 FILHOS DE FRANCISCO (2005) e de À BEIRA DO CAMINHO (2012), duas obras que o elevam à categoria de mestre do melodrama, ENTRE IRMÃS tem sim as suas qualidades e merece ser visto com carinho, principalmente para quem não se importa em ver uma narrativa bem clássica e antiquada.
domingo, outubro 15, 2017
NA PRAIA À NOITE SOZINHA (Bamui Haebyun-eoseo Honja)
Para quem acompanha, ainda que seja por um breve período de tempo, os filmes de Hong Sang-soo, não deixa de ser desconcertante ver NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017), vencedor do prêmio de melhor atriz para Kim Min-hee no Festival de Berlim. O filme ganhou holofotes ainda mais fortes quando o cineasta confessou que a história é um pouco baseada no caso que Hong teve com a atriz provavelmente durante as gravações do ótimo CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015). O escândalo dessa vez chamou a atenção também dos tabloides e tornou o filme curioso até para as plateias que desconheciam o trabalho do cineasta.
Na trama, Kim Min-hee (do suspense A CRIADA, de Park Chan-wook) interpreta uma jovem atriz que está esperando pelo homem que ama, um diretor de cinema casado. Na primeira parte da narrativa, que se passa em Hamburgo, na Alemanha, ela o espera enquanto conversa com uma mulher mais velha que ela, e que inveja o seu jeito de ser, de viver a vida de maneira mais livre.
Diferente de outros trabalhos do diretor, que investem mais forte na comédia romântica, NA PRAIA À NOITE SOZINHA é um filme mais dramático. Por isso, o que era desconcertante de ver nos outros filmes, como o uso de repetições no enredo (casos, por exemplo, de CERTO AGORA, ERRADO ANTES e de A VISITANTE FRANCESA) e do recurso inesperado do zoom, torna-se um pouco mais sutil no novo filme. Se é que dá para chamar de "novo" filme, pois já existe outro mais novo e o cineasta tem filmado em ritmo quase industrial.
Os homens ridículos e engraçados continuam aparecendo, mas de maneira menos enfática. O que continua em destaque são os diálogos que beiram o superficial, mas que escondem com isso as angústias dos personagens, em especial da protagonista, que fica feliz a cada elogio que recebe (outro elemento recorrente no cinema de Hong), como se precisasse muito desses elogios para não só afagar o ego, mas também trazer um pouco mais de conforto para si, talvez suprir o vazio, principalmente o vazio da ausência do amado.
NA PRAIA À NOITE SOZINHA é um filme sobre solidão. Na primeira parte, vendo a beleza da paisagem da cidade alemã, ela afirma que é ainda mais fácil sentir-se solitária em um ambiente belo como aquele. Ao mesmo tempo, ela diz em outra ocasião que está tudo bem: se ele (o cineasta) vier, ótimo; se não, tudo bem. Uma postura mais serena em relação à vida. É natural os pensamentos oscilarem entre a razão e o sentimento.
As sequências seguintes do filme mostram a atriz de volta ao seu país natal e bebendo e conversando com seus amigos sobre coisas da vida, inclusive as fofocas. A terceira parte é a mais tensa, bela e confessional do filme, quando o jogo de conversas superficiais abrem espaço para que entrem as afirmações intensas e emoções à flor da pele. Do ponto de vista do sentimento que evoca e contagia, porém, parece pouco, em comparação com CERTO AGORA, ERRADO ANTES, que exala muito mais paixão, entusiasmo e aquele frio na barriga familiar.
Na trama, Kim Min-hee (do suspense A CRIADA, de Park Chan-wook) interpreta uma jovem atriz que está esperando pelo homem que ama, um diretor de cinema casado. Na primeira parte da narrativa, que se passa em Hamburgo, na Alemanha, ela o espera enquanto conversa com uma mulher mais velha que ela, e que inveja o seu jeito de ser, de viver a vida de maneira mais livre.
Diferente de outros trabalhos do diretor, que investem mais forte na comédia romântica, NA PRAIA À NOITE SOZINHA é um filme mais dramático. Por isso, o que era desconcertante de ver nos outros filmes, como o uso de repetições no enredo (casos, por exemplo, de CERTO AGORA, ERRADO ANTES e de A VISITANTE FRANCESA) e do recurso inesperado do zoom, torna-se um pouco mais sutil no novo filme. Se é que dá para chamar de "novo" filme, pois já existe outro mais novo e o cineasta tem filmado em ritmo quase industrial.
Os homens ridículos e engraçados continuam aparecendo, mas de maneira menos enfática. O que continua em destaque são os diálogos que beiram o superficial, mas que escondem com isso as angústias dos personagens, em especial da protagonista, que fica feliz a cada elogio que recebe (outro elemento recorrente no cinema de Hong), como se precisasse muito desses elogios para não só afagar o ego, mas também trazer um pouco mais de conforto para si, talvez suprir o vazio, principalmente o vazio da ausência do amado.
NA PRAIA À NOITE SOZINHA é um filme sobre solidão. Na primeira parte, vendo a beleza da paisagem da cidade alemã, ela afirma que é ainda mais fácil sentir-se solitária em um ambiente belo como aquele. Ao mesmo tempo, ela diz em outra ocasião que está tudo bem: se ele (o cineasta) vier, ótimo; se não, tudo bem. Uma postura mais serena em relação à vida. É natural os pensamentos oscilarem entre a razão e o sentimento.
As sequências seguintes do filme mostram a atriz de volta ao seu país natal e bebendo e conversando com seus amigos sobre coisas da vida, inclusive as fofocas. A terceira parte é a mais tensa, bela e confessional do filme, quando o jogo de conversas superficiais abrem espaço para que entrem as afirmações intensas e emoções à flor da pele. Do ponto de vista do sentimento que evoca e contagia, porém, parece pouco, em comparação com CERTO AGORA, ERRADO ANTES, que exala muito mais paixão, entusiasmo e aquele frio na barriga familiar.
sábado, outubro 14, 2017
A MORTE TE DÁ PARABÉNS! (Happy Death Day)
Uma das grandes vantagens dos filmes de horror é que a maioria deles tem um bom apelo para a juventude e ainda costumam custar barato, sem precisar de atores famosos no elenco para ganhar a credibilidade do público. E também nem precisam ter uma história tão original assim, como podemos ver neste A MORTE TE DÁ PARABÉNS! (2017), de Christopher Landon, que é eficiente e com vários pontos positivos.
O filme é uma espécie de versão slasher da comédia romântica FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis, em que Bill Murray acorda indefinidamente no mesmo dia. Recentemente houve um filme que também se apropriou desta brincadeira, ANTES QUE EU VÁ, de Ry Russo-Young. Também costuma ser bastante lembrada a ficção científica NO LIMITE DO AMANHÃ, de Doug Liman. Todos são filmes que mostram protagonistas lutando para vencer uma situação a partir do conhecimento que adquirem do fatídico dia.
São também filmes sobre jornadas de aperfeiçoamento pessoal, de aprender com os próprios erros. Por mais que pareça uma maldição ficar preso no mesmo dia, é também uma chance que o universo está dando para que a pessoa possa, enfim, aparar as arestas no modo como ela trata as pessoas e também, como é o caso de A MORTE TE DÁ PARABÉNS, descobrir a identidade do próprio assassino para, talvez, conseguir acordar viva e no amanhã.
Na trama do filme de Landon, diretor que já havia juntado terror com comédia em COMO SOBREVIVER A UM ATAQUE ZUMBI (2015), Jessica Rothe é Tree, uma garota universitária que acorda no quarto de um dos rapazes. Pelo visto, um rapaz que ela mal conhecia. Até aí nada de mais, até a hora em que ela vai para uma festa e é surpreendida por alguém escondido atrás de uma máscara e ela é então assassinada. No dia seguinte e também nos posteriores, ela sofrerá novas mortes e tentando descobrir o que está acontecendo e o que pode fazer.
No quesito suspense, A MORTE TE DÁ PARABÉNS consegue envolver a audiência jovem, provavelmente uma audiência que talvez nem conheça FEITIÇO DO TEMPO, mas isso nem importa tanto assim. O que importa é que a ressurreição do gênero slasher funciona novamente (se é que dá para chamar de uma ressurreição - talvez não). Ter um assassino misterioso com uma máscara era algo que estava sendo deixado de lado nos filmes de horror recentes e aqui vemos que ainda consegue ser um elemento atraente. Ajuda também o fato de estarmos diante de uma obra que não tenta ser tão pretensiosa. É até inocente, em muitos aspectos.
Do ponto de vista do aperfeiçoamento do caráter da heroína, o filme é muito feliz. Logo de início estamos diante de alguém bem pouco afável e bastante arrogante, além de pouco interessada no quanto pode maltratar os sentimentos dos outros. Sem falar em questões familiares pendentes. Isso também é muito bem resolvido no filme, principalmente em uma das últimas sequências da narrativa, o que só prova que se trata de uma obra que tem fôlego para manter o interesse da plateia - na verdade, a história melhora cada vez mais à medida que se aproxima de seu desfecho.
E isso é muito mais do que se poderia esperar de uma produção que, mesmo com a marca da Blumhouse Productions (franquia ATIVIDADE PARANORMAL, franquia SOBRENATURAL, A VISITA etc.), surpreendeu a muitos, inclusive com uma excelente bilheteria conquistada nos Estados Unidos neste fim de semana. No mais, vale prestar atenção em Jessica Rothe, a protagonista. Ela esteve em um papel pequeno em LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, mas em breve poderá ser mais vista encabeçando elencos. Carisma a moça tem.
O filme é uma espécie de versão slasher da comédia romântica FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis, em que Bill Murray acorda indefinidamente no mesmo dia. Recentemente houve um filme que também se apropriou desta brincadeira, ANTES QUE EU VÁ, de Ry Russo-Young. Também costuma ser bastante lembrada a ficção científica NO LIMITE DO AMANHÃ, de Doug Liman. Todos são filmes que mostram protagonistas lutando para vencer uma situação a partir do conhecimento que adquirem do fatídico dia.
São também filmes sobre jornadas de aperfeiçoamento pessoal, de aprender com os próprios erros. Por mais que pareça uma maldição ficar preso no mesmo dia, é também uma chance que o universo está dando para que a pessoa possa, enfim, aparar as arestas no modo como ela trata as pessoas e também, como é o caso de A MORTE TE DÁ PARABÉNS, descobrir a identidade do próprio assassino para, talvez, conseguir acordar viva e no amanhã.
Na trama do filme de Landon, diretor que já havia juntado terror com comédia em COMO SOBREVIVER A UM ATAQUE ZUMBI (2015), Jessica Rothe é Tree, uma garota universitária que acorda no quarto de um dos rapazes. Pelo visto, um rapaz que ela mal conhecia. Até aí nada de mais, até a hora em que ela vai para uma festa e é surpreendida por alguém escondido atrás de uma máscara e ela é então assassinada. No dia seguinte e também nos posteriores, ela sofrerá novas mortes e tentando descobrir o que está acontecendo e o que pode fazer.
No quesito suspense, A MORTE TE DÁ PARABÉNS consegue envolver a audiência jovem, provavelmente uma audiência que talvez nem conheça FEITIÇO DO TEMPO, mas isso nem importa tanto assim. O que importa é que a ressurreição do gênero slasher funciona novamente (se é que dá para chamar de uma ressurreição - talvez não). Ter um assassino misterioso com uma máscara era algo que estava sendo deixado de lado nos filmes de horror recentes e aqui vemos que ainda consegue ser um elemento atraente. Ajuda também o fato de estarmos diante de uma obra que não tenta ser tão pretensiosa. É até inocente, em muitos aspectos.
Do ponto de vista do aperfeiçoamento do caráter da heroína, o filme é muito feliz. Logo de início estamos diante de alguém bem pouco afável e bastante arrogante, além de pouco interessada no quanto pode maltratar os sentimentos dos outros. Sem falar em questões familiares pendentes. Isso também é muito bem resolvido no filme, principalmente em uma das últimas sequências da narrativa, o que só prova que se trata de uma obra que tem fôlego para manter o interesse da plateia - na verdade, a história melhora cada vez mais à medida que se aproxima de seu desfecho.
E isso é muito mais do que se poderia esperar de uma produção que, mesmo com a marca da Blumhouse Productions (franquia ATIVIDADE PARANORMAL, franquia SOBRENATURAL, A VISITA etc.), surpreendeu a muitos, inclusive com uma excelente bilheteria conquistada nos Estados Unidos neste fim de semana. No mais, vale prestar atenção em Jessica Rothe, a protagonista. Ela esteve em um papel pequeno em LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, mas em breve poderá ser mais vista encabeçando elencos. Carisma a moça tem.
segunda-feira, outubro 09, 2017
BLADE RUNNER 2049
Denis Villeneuve disse, em entrevista à Indiewire, que há duas versões de BLADE RUNNER (apesar das várias existentes). A primeira, a de 1982, é sobre um ser humano que se apaixona por uma androide; a segunda, a final cut de 2007, é sobre um replicante que descobre sua verdadeira identidade. O interessante de BLADE RUNNER 2049 (2017) é que é algo entre esses dois temas, juntos e misturados. E tudo narrado na tentativa de tangenciar o original de Ridley Scott, mas, obviamente, sem fugir das obsessões próprias do cineasta canadense.
A decisão de deixar para Villeneuve a direção da sequência de BLADE RUNNER foi um acerto de Ridley Scott, aqui atuando como produtor. O cineasta mais jovem traz frescor e novidade para o universo de Philip K. Dick e Scott, mas também o respeita como se fosse algo digno de adoração. Segundo o próprio Villeneuve, o filme original era como uma Bíblia para ele, algo a ser seguido para que ele conseguisse atingir o seu objetivo final nesta tão aguardada sequência.
No novo filme, que se passa 30 anos após os eventos do primeiro, somos apresentados a uma nova situação. Ainda há replicantes sendo caçados, mas os novos exemplares compartilham suas vidas com os seres humanos que habitam a Califórnia. E assim conhecemos o replicante K (Ryan Gosling), um detetive de polícia que tem a tarefa de caçar replicantes considerados velhos e perigosos pela segurança (encabeçada pela personagem de Robin Wright).
Acontece que já no primeiro modelo que ele trata de "aposentar", o replicante vivido por Dave Bautista, ele ouve algo que o deixa intrigado, algo relacionado a não ter visto um milagre. K é um homem que tem suas próprias angústias, mas leva a vida conformado com o fato de ser um simples androide sem alma. O que mexe com sua cabeça é a história absurda de que uma replicante ter dado à luz uma criança. Nem é preciso dizer que se trata de Rachael, a marcante e apaixonante personagem de Sean Young no filme original.
Rachael teria morrido no fantástico parto e Deckart (Harrison Ford), que havia partido com ela, está desaparecido há 30 anos. Assim, K passa a querer também ir fundo e por conta própria na investigação desse fascinante caso. Até porque ele guarda uma memória que lhe parece muito real para ser um implante. Uma memória envolvendo um cavalinho de madeira. O vazio da vida de K começa a ganhar um ar de novidade e ele passa também a querer transgredir um pouco as leis. Inclusive do ponto de vista dos relacionamentos, já que sua esposa (ou o mais próximo disso) é Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial em forma holográfica que diz amá-lo. O fato de ambos não poderem se tocar é no mínimo perturbador.
Aliás, umas das coisas mais bonitas de BLADE RUNNER 2049 é o quanto choram os androides. Todos eles choram. Muito. Seja por amor, aflição, seja por ódio ou indignação, eles se mostram mais humanos do que os humanos. Assim, Joi sente (ou acredita sentir) de fato um amor muito grande por K, e acredita que o seu amado é alguém mais especial do que imagina ser.
Inclusive, uma das cenas mais belas e empolgantes é uma espécie de ménage à trois envolvendo os dois amantes e uma terceira pessoa. É o tipo de cena que provoca uma sensação de arrebatamento, um momento em que o público quase para de respirar para poder ver e sentir junto com aquele casal. É um dos momentos mais bonitos do cinema recente.
Mas há também, como falado no primeiro parágrafo, a história da busca da identidade do protagonista. E, nisso, o encontro com Deckard é de fundamental importância. A primeira aparição do personagem clássico é bem memorável, assim como o embate inicial entre os dois. Mas, assim como acontece com o filme de Scott, Villeneuve prefere continuar dando um ar de mistério a Deckard, mesmo quando algumas perguntas são respondidas.
Denis Villeneuve entra na mitologia de Blade Runner com sua obsessão por histórias familiares. Desde seu longa de estreia, 32 de AGOSTO NA TERRA (1998), que a questão da paternidade é tratada com profundidade e seriedade. Isso seria levado adiante em filmes tão distintos como INCÊNDIOS (2010), O HOMEM DUPLICADO (2013) e A CHEGADA (2016). A intersecção entre esses filmes inclui pessoas que se sentem deslocadas e se veem diante de um elemento-surpresa ou um desafio que as fazem questionar os seus papéis na existência.
Em BLADE RUNNER 2049, a dor e o vazio que K sente pode muito bem ser vista com distanciamento, mas não é muito diferente da dor que um ser humano também sente ao perceber o seu grau de diferença em relação aos seus semelhantes. Pela segunda vez consecutiva, Denis Villeneuve consegue fazer uma ficção científica existencialista com um coração sangrando e muita personalidade.
A decisão de deixar para Villeneuve a direção da sequência de BLADE RUNNER foi um acerto de Ridley Scott, aqui atuando como produtor. O cineasta mais jovem traz frescor e novidade para o universo de Philip K. Dick e Scott, mas também o respeita como se fosse algo digno de adoração. Segundo o próprio Villeneuve, o filme original era como uma Bíblia para ele, algo a ser seguido para que ele conseguisse atingir o seu objetivo final nesta tão aguardada sequência.
No novo filme, que se passa 30 anos após os eventos do primeiro, somos apresentados a uma nova situação. Ainda há replicantes sendo caçados, mas os novos exemplares compartilham suas vidas com os seres humanos que habitam a Califórnia. E assim conhecemos o replicante K (Ryan Gosling), um detetive de polícia que tem a tarefa de caçar replicantes considerados velhos e perigosos pela segurança (encabeçada pela personagem de Robin Wright).
Acontece que já no primeiro modelo que ele trata de "aposentar", o replicante vivido por Dave Bautista, ele ouve algo que o deixa intrigado, algo relacionado a não ter visto um milagre. K é um homem que tem suas próprias angústias, mas leva a vida conformado com o fato de ser um simples androide sem alma. O que mexe com sua cabeça é a história absurda de que uma replicante ter dado à luz uma criança. Nem é preciso dizer que se trata de Rachael, a marcante e apaixonante personagem de Sean Young no filme original.
Rachael teria morrido no fantástico parto e Deckart (Harrison Ford), que havia partido com ela, está desaparecido há 30 anos. Assim, K passa a querer também ir fundo e por conta própria na investigação desse fascinante caso. Até porque ele guarda uma memória que lhe parece muito real para ser um implante. Uma memória envolvendo um cavalinho de madeira. O vazio da vida de K começa a ganhar um ar de novidade e ele passa também a querer transgredir um pouco as leis. Inclusive do ponto de vista dos relacionamentos, já que sua esposa (ou o mais próximo disso) é Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial em forma holográfica que diz amá-lo. O fato de ambos não poderem se tocar é no mínimo perturbador.
Aliás, umas das coisas mais bonitas de BLADE RUNNER 2049 é o quanto choram os androides. Todos eles choram. Muito. Seja por amor, aflição, seja por ódio ou indignação, eles se mostram mais humanos do que os humanos. Assim, Joi sente (ou acredita sentir) de fato um amor muito grande por K, e acredita que o seu amado é alguém mais especial do que imagina ser.
Inclusive, uma das cenas mais belas e empolgantes é uma espécie de ménage à trois envolvendo os dois amantes e uma terceira pessoa. É o tipo de cena que provoca uma sensação de arrebatamento, um momento em que o público quase para de respirar para poder ver e sentir junto com aquele casal. É um dos momentos mais bonitos do cinema recente.
Mas há também, como falado no primeiro parágrafo, a história da busca da identidade do protagonista. E, nisso, o encontro com Deckard é de fundamental importância. A primeira aparição do personagem clássico é bem memorável, assim como o embate inicial entre os dois. Mas, assim como acontece com o filme de Scott, Villeneuve prefere continuar dando um ar de mistério a Deckard, mesmo quando algumas perguntas são respondidas.
Denis Villeneuve entra na mitologia de Blade Runner com sua obsessão por histórias familiares. Desde seu longa de estreia, 32 de AGOSTO NA TERRA (1998), que a questão da paternidade é tratada com profundidade e seriedade. Isso seria levado adiante em filmes tão distintos como INCÊNDIOS (2010), O HOMEM DUPLICADO (2013) e A CHEGADA (2016). A intersecção entre esses filmes inclui pessoas que se sentem deslocadas e se veem diante de um elemento-surpresa ou um desafio que as fazem questionar os seus papéis na existência.
Em BLADE RUNNER 2049, a dor e o vazio que K sente pode muito bem ser vista com distanciamento, mas não é muito diferente da dor que um ser humano também sente ao perceber o seu grau de diferença em relação aos seus semelhantes. Pela segunda vez consecutiva, Denis Villeneuve consegue fazer uma ficção científica existencialista com um coração sangrando e muita personalidade.
quarta-feira, outubro 04, 2017
BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES - VERSÃO FINAL DO DIRETOR (Blade Runner - The Final Cut)
Às vésperas da estreia de BLADE RUNNER 2049 é natural que muita gente esteja revendo (ou mesmo vendo pela primeira vez) BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (1982), de Ridley Scott. Acho que foi a terceira vez que vi o filme, mas as outras vezes foram de diferentes maneiras e em diferentes versões. A primeira vez foi na televisão, talvez na estreia na Rede Globo, com a famosa narração em voice-over que dá ao filme um tom próximo ao dos filmes noirs dos anos 1940; a segunda, "a versão do diretor" (1992), em VHS também. Logo, já fazia um bom tempo que eu precisava rever o filme e escolhi a "versão final do diretor" (2007), um dos cincos cortes disponíveis, e comandado efetivamente por Scott.
Não vou negar que esse número grande de cortes me incomoda. É como se o filme, apesar de já ter se tornado um clássico, nunca conseguisse chegar a uma versão perfeita e totalmente satisfatória. Por outro lado, para quem é fã e costuma rever com frequência, deve ser interessante ficar comparando as várias versões e ver o que foi retirado e o que foi acrescentado. O que eu senti falta, pela minha memória afetiva, neste final cut foi a cena de Rick Deckard (Harrison Ford) indo embora em um avião com Rachael (Sean Young).
Mesmo assim, não deixa de ser bonito o corte mais abrupto e moderno desta versão de 2007, sem a necessidade de procurar um epílogo para a história e deixando na cabeça do espectador mais possibilidades. Outra coisa que é muito boa, dessa vez em comparação com a primeira versão, é que, sem a narração de Deckard, o filme respira melhor, e fica até mais melancólico o drama dos personagens, principalmente o do protagonista, obrigado a executar a ação de matar os replicantes, robôs tão perfeitos que parecem seres humanos e criados para trabalhar na colonização e exploração em outros planetas. A mais lamentável das mortes é a da Zhora (Joanna Cassidy), a que trabalha em uma casa noturna com uma serpente.
São poucos os replicantes que sobraram e uma delas acaba por se tornar o interesse amoroso de Deckard, Rachael. Trata-se da personagem mais fascinante do filme e, por mais que haja uma tentativa de torná-la um tanto fria como uma máquina, não é asssim que a vemos. E há também a cena de intimidade entre ela e Deckhard, que passa até uma estranha sensação de transgressão. Imagina só transar com um robô. É como se eles estivessem fazendo algo muito proibido e por isso mesmo a cena é tão cheia de calor, ainda mais com aquela trilha sonora maravilhosa do Vangelis.
Não dá para falar de BLADE RUNNER e não destacar também a beleza que é a composição visual do filme: a fotografia com cores tão lindas; a direção de arte que constrói um mundo futurista mas também decadente e desagradável; os designs dos espaços arquitetônicos e dos carros; tudo é muito bem cuidado.
Ridley Scott já havia feito um milagre em trabalhar dentro de uma nave apertada em ALIEN - O 8º PASSAGEIRO (1979) e BLADE RUNNER só era o seu terceiro longa-metragem, o que confirmava o talento emergente. Infelizmente ele deu umas derrapadas pela carreira, mas há mais pontos altos do que baixos, não? Até porque ele se mostrou muito sensível quando trabalhou em dramas, em produções financeiramente menos ambiciosas. A decisão de passar a direção da continuação, BLADE RUNNER 2049, para Denis Villeneuve pode ter sido acertada. Mas isso confirmaremos muito em breve. Até lá, a memória da revisão do filme original segue sendo muito positiva.
Não vou negar que esse número grande de cortes me incomoda. É como se o filme, apesar de já ter se tornado um clássico, nunca conseguisse chegar a uma versão perfeita e totalmente satisfatória. Por outro lado, para quem é fã e costuma rever com frequência, deve ser interessante ficar comparando as várias versões e ver o que foi retirado e o que foi acrescentado. O que eu senti falta, pela minha memória afetiva, neste final cut foi a cena de Rick Deckard (Harrison Ford) indo embora em um avião com Rachael (Sean Young).
Mesmo assim, não deixa de ser bonito o corte mais abrupto e moderno desta versão de 2007, sem a necessidade de procurar um epílogo para a história e deixando na cabeça do espectador mais possibilidades. Outra coisa que é muito boa, dessa vez em comparação com a primeira versão, é que, sem a narração de Deckard, o filme respira melhor, e fica até mais melancólico o drama dos personagens, principalmente o do protagonista, obrigado a executar a ação de matar os replicantes, robôs tão perfeitos que parecem seres humanos e criados para trabalhar na colonização e exploração em outros planetas. A mais lamentável das mortes é a da Zhora (Joanna Cassidy), a que trabalha em uma casa noturna com uma serpente.
São poucos os replicantes que sobraram e uma delas acaba por se tornar o interesse amoroso de Deckard, Rachael. Trata-se da personagem mais fascinante do filme e, por mais que haja uma tentativa de torná-la um tanto fria como uma máquina, não é asssim que a vemos. E há também a cena de intimidade entre ela e Deckhard, que passa até uma estranha sensação de transgressão. Imagina só transar com um robô. É como se eles estivessem fazendo algo muito proibido e por isso mesmo a cena é tão cheia de calor, ainda mais com aquela trilha sonora maravilhosa do Vangelis.
Não dá para falar de BLADE RUNNER e não destacar também a beleza que é a composição visual do filme: a fotografia com cores tão lindas; a direção de arte que constrói um mundo futurista mas também decadente e desagradável; os designs dos espaços arquitetônicos e dos carros; tudo é muito bem cuidado.
Ridley Scott já havia feito um milagre em trabalhar dentro de uma nave apertada em ALIEN - O 8º PASSAGEIRO (1979) e BLADE RUNNER só era o seu terceiro longa-metragem, o que confirmava o talento emergente. Infelizmente ele deu umas derrapadas pela carreira, mas há mais pontos altos do que baixos, não? Até porque ele se mostrou muito sensível quando trabalhou em dramas, em produções financeiramente menos ambiciosas. A decisão de passar a direção da continuação, BLADE RUNNER 2049, para Denis Villeneuve pode ter sido acertada. Mas isso confirmaremos muito em breve. Até lá, a memória da revisão do filme original segue sendo muito positiva.
domingo, outubro 01, 2017
A GHOST STORY
Durante as discussões acaloradas e polêmicas sobre o tal pós-horror, A GHOST STORY (2017), de David Lowery, foi citado frequentemente como um dos principais exemplares do suposto subgênero. Mas isso na verdade não importa muito, a não ser para, mais uma vez, discutir se o filme em questão é feito ou não para assustar ou assombrar o espectador. Assustar, no caso, definitivamente, não. Já assombrar, ele pode sim. Mas no sentido de que pode deixar o espectador pensando no tempo, na morte e na solidão.
A GHOST STORY subverte não só os clichês do drama e do horror, mas também muitas expectativas. Contar a história de um casal que vive feliz em uma casa e que é separado pela morte de um deles poderia ser contado de maneira bem dramática. Em vez disso, sequer vemos o acidente que vitimou C (Casey Affleck), apenas a imagem de seu corpo morto, no carro. Isso depois de mal termos tempo de acompanhar a intimidade do casal.
M (Rooney Mara), sua namorada (ou esposa), vai até o necrotério para reconhecer o corpo. A câmera se mostra distante da personagem como se fosse alguém vendo às escondidas aquele momento tão íntimo, que, ao contrário do que se poderia imaginar, não é carregada de lágrimas e choro. Ela sai triste, talvez ainda sem acreditar no que acabou de acontecer. Logo após a saída dela, C se levanta e vai até a sua casa, com um lençol branco cobrindo o corpo e com dois buracos nos olhos, acentuando a tristeza e parecendo um desses fantasmas de desenho animado.Seu destino não poderia ser outro que não a casa onde morava.
Porém, ao contrário do fantasma de Patrick Swayze em GHOST - DO OUTRO LADO DA VIDA, C não tem ou não consegue se comunicar com a amada ou dar conta da rapidez da passagem do tempo. O modo como o filme lida com os hiatos temporais é admirável. Tão admirável quanto deixar o espectador impaciente, mas também disciplinado, ao ter que acompanhar uma cena de cinco minutos de Mara comendo uma torta, enquanto o fantasma a observa.
São coisas assim que fazem de A GHOST STORY uma experiência não só inusitada, como também um dos filmes mais tristes do ano. Afinal, presenciar o luto pelos olhos do morto é ainda mais doloroso do que pelos olhos dos vivos. Sem falar que o morto em questão é entregue totalmente à solidão da eternidade, preso àquela casa e ao amor de uma mulher que ele vê partir. Para não dizer que ele não consegue se comunicar com ninguém, há um outro fantasma, na casa ao lado em situação ainda mais triste, já que ele nem mesmo se lembra mais quem esperava chegar.
A passagem rápida do tempo ajuda o filme a se tornar mais palatável para os espectadores mais apressados. E há um momento muito especial que servirá como elemento de suspense (ou algo parecido), que surge a partir da cena da misteriosa nota que a personagem de Mara esconde dentro de uma das frestas da casa de madeira. O filme ainda guarda algumas surpresas muito bem-vindas até o final.
E assim David Lowery inscreve seu nome na lista dos nomes quentes de Hollywood. Não havia conseguido ainda no bom drama AMOR FORA DA LEI (2013), que também contava com Affleck e Mara, mas com o original e incomum A GHOST STORY muita gente vai ficar de olho nos seus próximos trabalhos.
A GHOST STORY subverte não só os clichês do drama e do horror, mas também muitas expectativas. Contar a história de um casal que vive feliz em uma casa e que é separado pela morte de um deles poderia ser contado de maneira bem dramática. Em vez disso, sequer vemos o acidente que vitimou C (Casey Affleck), apenas a imagem de seu corpo morto, no carro. Isso depois de mal termos tempo de acompanhar a intimidade do casal.
M (Rooney Mara), sua namorada (ou esposa), vai até o necrotério para reconhecer o corpo. A câmera se mostra distante da personagem como se fosse alguém vendo às escondidas aquele momento tão íntimo, que, ao contrário do que se poderia imaginar, não é carregada de lágrimas e choro. Ela sai triste, talvez ainda sem acreditar no que acabou de acontecer. Logo após a saída dela, C se levanta e vai até a sua casa, com um lençol branco cobrindo o corpo e com dois buracos nos olhos, acentuando a tristeza e parecendo um desses fantasmas de desenho animado.Seu destino não poderia ser outro que não a casa onde morava.
Porém, ao contrário do fantasma de Patrick Swayze em GHOST - DO OUTRO LADO DA VIDA, C não tem ou não consegue se comunicar com a amada ou dar conta da rapidez da passagem do tempo. O modo como o filme lida com os hiatos temporais é admirável. Tão admirável quanto deixar o espectador impaciente, mas também disciplinado, ao ter que acompanhar uma cena de cinco minutos de Mara comendo uma torta, enquanto o fantasma a observa.
São coisas assim que fazem de A GHOST STORY uma experiência não só inusitada, como também um dos filmes mais tristes do ano. Afinal, presenciar o luto pelos olhos do morto é ainda mais doloroso do que pelos olhos dos vivos. Sem falar que o morto em questão é entregue totalmente à solidão da eternidade, preso àquela casa e ao amor de uma mulher que ele vê partir. Para não dizer que ele não consegue se comunicar com ninguém, há um outro fantasma, na casa ao lado em situação ainda mais triste, já que ele nem mesmo se lembra mais quem esperava chegar.
A passagem rápida do tempo ajuda o filme a se tornar mais palatável para os espectadores mais apressados. E há um momento muito especial que servirá como elemento de suspense (ou algo parecido), que surge a partir da cena da misteriosa nota que a personagem de Mara esconde dentro de uma das frestas da casa de madeira. O filme ainda guarda algumas surpresas muito bem-vindas até o final.
E assim David Lowery inscreve seu nome na lista dos nomes quentes de Hollywood. Não havia conseguido ainda no bom drama AMOR FORA DA LEI (2013), que também contava com Affleck e Mara, mas com o original e incomum A GHOST STORY muita gente vai ficar de olho nos seus próximos trabalhos.
sábado, setembro 30, 2017
O FANTASMA DA SICÍLIA (Sicilian Ghost Story)
Há muito tempo se fala na decadência do cinema italiano. E com razão, principalmente se levarmos em conta a sua glória nos anos 1960 e 70. Aí não dá pra ficar sempre esperando só os novos trabalhos de Marco Bellocchio e Nanni Moretti para nos animarmos a ver os novos filmes da terra da bota. É preciso confiar nos novos talentos também, mesmo que eles ainda estejam em fase de construção de sua obra. E dentre esses novos talentos, vale destacar o trabalho dos cineastas Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, os mesmos de SALVO - UMA HISTÓRIA DE AMOR E MÁFIA (2013).
Eles estão de volta em seu segundo longa-metragem, O FANTASMA DA SICÍLIA, que também até poderia ganhar o mesmo subtítulo do anterior, já que também é uma história de amor e também trata da máfia siciliana. A grande vantagem do novo filme em relação ao anterior é que há um capricho maior na construção cênica, na beleza das imagens, na fotografia e nas cores que destacam a bela paisagem de uma região rural da Sicília.
Esse excessivo cuidado com a técnica às vezes até prejudica o aflorar mais forte das emoções, o que é algo que nem combina tanto com o espírito mais explosivo dos italianos. Assim, pouco compartilhamos do amor da protagonista, uma garotinha chamada Luna (Julia Jedikowska), pelo jovem Giuseppe (Gaetano Fernandez), mesmo em circunstâncias tão trágicas. Por isso é preciso que a protagonista externe suas angústias e sua dor oralmente para seus pais para que esse sentimento possa ser ouvido e explicitado também para o espectador. E é, de fato, o momento mais comovente de todo o filme.
Na trama, Luna começa a ter o seu primeiro contato mais próximo com Giuseppe, filho de um gângster. Acontece que depois do primeiro beijo entre eles o menino desaparece. E ninguém na cidade sabe dizer o que aconteceu. Ou sabe, mas não quer dizer à menina. Ela faz uma campanha, distribuindo cartazes pela cidade, para descobrirem o paradeiro do rapaz, mas em vão. O que acaba sendo um forte meio para essa dura realidade que a circunda é o caminho do sonho - por isso a comparação que andam fazendo do filme com O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo Del Toro.
Há sim esse paralelismo entre as duas obras, assim como o fato de haver uma forte ligação com a realidade (a história do sequestro do menino Giuseppe é baseada num caso real), mas os dois filmes seguem caminhos diferentes e, diferente do filme de Del Toro, o mundo da fantasia não é tão assustador quanto a realidade. Está mais para uma fuga, embora, a partir dessa fuga é que Luna passe a ter lampejos de onde encontrar o garoto. A cena em que ela mergulha dentro da água para descobrir a casa onde ele está preso é sensacional. Já as cenas que mostram o garoto no cativeiro são muito tristes e passam uma sensação de desesperança acima de tudo.
Por mais que a obra careça de algo que o coloque como um exemplar de um novo e emergente cinema italiano de primeira grandeza, é admirável e animador o suficiente para que possamos acompanhar com interesse a trajetória de Grassadonia e Piazza. Se continuarem assim, nessa curva ascendente, o próximo filme dos diretores será de fato maravilhoso. Enquanto isso, é preciso valorizar e até rever com carinho O FANTASMA DA SICÍLIA, pelo tanto de beleza e de dor que ele é capaz de proporcionar.
Eles estão de volta em seu segundo longa-metragem, O FANTASMA DA SICÍLIA, que também até poderia ganhar o mesmo subtítulo do anterior, já que também é uma história de amor e também trata da máfia siciliana. A grande vantagem do novo filme em relação ao anterior é que há um capricho maior na construção cênica, na beleza das imagens, na fotografia e nas cores que destacam a bela paisagem de uma região rural da Sicília.
Esse excessivo cuidado com a técnica às vezes até prejudica o aflorar mais forte das emoções, o que é algo que nem combina tanto com o espírito mais explosivo dos italianos. Assim, pouco compartilhamos do amor da protagonista, uma garotinha chamada Luna (Julia Jedikowska), pelo jovem Giuseppe (Gaetano Fernandez), mesmo em circunstâncias tão trágicas. Por isso é preciso que a protagonista externe suas angústias e sua dor oralmente para seus pais para que esse sentimento possa ser ouvido e explicitado também para o espectador. E é, de fato, o momento mais comovente de todo o filme.
Na trama, Luna começa a ter o seu primeiro contato mais próximo com Giuseppe, filho de um gângster. Acontece que depois do primeiro beijo entre eles o menino desaparece. E ninguém na cidade sabe dizer o que aconteceu. Ou sabe, mas não quer dizer à menina. Ela faz uma campanha, distribuindo cartazes pela cidade, para descobrirem o paradeiro do rapaz, mas em vão. O que acaba sendo um forte meio para essa dura realidade que a circunda é o caminho do sonho - por isso a comparação que andam fazendo do filme com O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo Del Toro.
Há sim esse paralelismo entre as duas obras, assim como o fato de haver uma forte ligação com a realidade (a história do sequestro do menino Giuseppe é baseada num caso real), mas os dois filmes seguem caminhos diferentes e, diferente do filme de Del Toro, o mundo da fantasia não é tão assustador quanto a realidade. Está mais para uma fuga, embora, a partir dessa fuga é que Luna passe a ter lampejos de onde encontrar o garoto. A cena em que ela mergulha dentro da água para descobrir a casa onde ele está preso é sensacional. Já as cenas que mostram o garoto no cativeiro são muito tristes e passam uma sensação de desesperança acima de tudo.
Por mais que a obra careça de algo que o coloque como um exemplar de um novo e emergente cinema italiano de primeira grandeza, é admirável e animador o suficiente para que possamos acompanhar com interesse a trajetória de Grassadonia e Piazza. Se continuarem assim, nessa curva ascendente, o próximo filme dos diretores será de fato maravilhoso. Enquanto isso, é preciso valorizar e até rever com carinho O FANTASMA DA SICÍLIA, pelo tanto de beleza e de dor que ele é capaz de proporcionar.
quinta-feira, setembro 28, 2017
O SEQUESTRO (Kidnap)
Halle Berry é um dos vários casos de atriz que chegou ao primeiro time de Hollywood, mas que foi amaldiçoada pelo Oscar, que ganhou com sua ótima atuação em A ÚLTIMA CEIA, de Marc Forster. Isso foi há 16 anos já. De lá pra cá, ela esteve presente em alguns filmes da franquia X-Men, fez um filme que todo mundo adora odiar (MULHER-GATO), esteve presente como coadjuvante em alguns bons títulos (e outros não tão bons também), fez uma obra de respeito (COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO) e de vez em quando se engraça em trabalhar em alguns thrillers de gosto duvidoso, mas que às vezes se mostram uma delícia de assistir.
Foi o caso de NA COMPANHIA DO MEDO, de Mathieu Kassovitz; A ESTRANHA PERFEITA, de James Foley; o pouco visto MARÉ NEGRA, de John Stockwell; e CHAMADA DE EMERGÊNCIA, de Brad Anderson, que é o título que mais se assemelha em espírito com o novo O SEQUESTRO (2017), devido á tensão constante e o desespero da protagonista para salvar a vida de alguém. No caso do novo filme, trata-se da vida do próprio filho, que é sequestrado por um casal com pinta de white trash people.
Aliás, muito bom o modo como pintam os vilões. Eles realmente parecem ameaçadores. E isso contribui bastante para que nos sintamos no lugar da personagem da mãe desesperada e que não prefere não esperar pela polícia, que nada faz a não ser pedir que as pessoas preencham formulários e esperem sentados. Se há filmes que valorizam a polícia americana, este aqui é ao menos um que faz uma crítica, remetendo um pouco aos famosos thrillers de justiceiros que foram moda nos anos 1970 e 1980, como DESEJO DE MATAR.
Aqui, no entanto, não se trata de um filme de vingança. A própria protagonista, ao tentar negociar com os sequestradores, afirma que não tem nenhum interesse em entregá-los à polícia, que só quer que eles lhe devolvam o filho. Para quem não viu o filme, a trama nos apresenta a uma garçonete (Halle Berry) que está passando por uma situação delicada de divórcio litigioso com o ex-marido e que, no dia que leva o filho ao parque de diversões, o garoto desaparece.
O que parecia um filme bem ordinário acaba se mostrando uma diversão eficiente e empolgante logo que a personagem de Berry sai em disparada perseguindo com o próprio carro os bandidos na estrada. Até imagina-se que em algum momento O SEQUESTRO vai perder o fôlego, mas não é isso que acontece. Ponto para o diretor Luis Prieto, mais ou menos conhecido por CONTRA O TEMPO (2012) remake britânico de PUSHER, de Nicolas Winding Refn . Não deixa de ser um diretor que merece a atenção daqueles que apreciam um bom filme de ação de baixo orçamento.
Voltando a O SEQUESTRO, vale destacar o bem-sucedido clímax, que, por mais que não pareça muito diferente do de tantos outros filmes do gênero, é bastante eficiente na construção do suspense e do medo. Pode até passar a impressão de que a última cena, seguida dos créditos, aponta novamente o filme para uma direção do trash, mas por que não considerar isso como um de seus charmes?
segunda-feira, setembro 25, 2017
COLUMBUS
Uma das vantagens de ver COLUMBUS (2017) no cinema é que é o mais próximo que podemos chegar de visualizar as belas construções arquitetônicas da cidade-título em dimensões próximas das reais. E mais: quem não liga muito para arquitetura pode ficar também interessado no filme mesmo assim, já que o que o diretor Kogonada faz em seu longa de estreia é aproveitar a cidade que ama, Columbus, no estado de Indiana, para usá-la como elemento primordial da direção de arte.
Claro que não se trata apenas de pegar as construções e mostrá-las ao fundo enquanto os protagonistas desfilam e falam de seus problemas, mas há todo um cuidado com os ângulos, o modo como é mostrado cada edifício, seja ele um banco ou uma igreja, uma escola ou um hospital. Isso parece frio, mas é justamente o contrário: afinal, arquitetura também não é arte? Logo, um filme que se passa em uma cidade que é famosa por sua arquitetura moderna e que enfatiza isso intensamente, não deixa de passar muitos sentimentos, embora evite fincar os pés no melodrama ou numa história de amor tradicional.
Vemos a paixão e do entusiasmo da personagem Casey (Haley Lu Richardson, em performance memorável, depois de ter papéis de coadjuvantes mais ou menos superficiais em filmes importantes como QUASE 18, de Kelly Fremon Craig, e FRAGMENTADO, de M. Night Shyamalan) pela história da arquitetura de sua cidade. Em COLUMBUS a atriz tem a chance de mostrar melhor o seu talento dramático, no papel de uma garota que mora com a mãe que já teve problemas com drogas e que conhece Jin (John Cho), um sul-coreano que está passando uns tempos na cidade, por causa do estado de saúde de seu pai - no início do filme ele sofre um derrame.
Filmes que unem estranhos são sempre interessantes, mesmo aqueles que procuram sair do caminho da história de amor entre os protagonistas, como se pode ver também em obras como APENAS UMA VEZ e MESMO SE NADA DER CERTO, ambos de John Carney. Em ambos os filmes de Carney há uma tensão sexual entre os personagens e a possibilidade de haver uma relação mais íntima, mas essa intimidade chega mais na profundidade de contar ao outro o que sente em COLUMBUS. Em alguns momentos o filme de Kogonada lembra um pouco o ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, mas não há a intenção aqui de trabalhar com afinco um romantismo. Seria, no máximo, uma espécie de versão negativa do clássico de Linklater.
Sobre os personagens principais, se por um lado Casey é muito sensível e muito apegada à mãe - motivo de ela não sair da cidade para estudar ou fazer aquilo que mais lhe interessa, algo relacionado a arquitetura -, o que Jin sente pelo pai prestes a morerr é quase nada. Só não é nada pois podemos ver que se trata também de um sentimento de ressentimento por ter sido ignorado pelo pai durante tantos anos. Por que ele teria que ficar adiando a sua vida por alguém que ele nem nutre afeto? Devido à tradição coreana, ele é obrigado a passar por uma espécie de luto forçado. Quem não faz isso é considerado maldito pela tradição do lugar.
COLUMBUS procura ir fundo nos diálogos e nos sentimentos de seus personagens, tornando-os sempre interessantes (ela angustiada e agitada, ele calmo e com ar de desiludido), mas o grande barato do filme é que as imagens conseguem se sobrepor a tudo. Como se, além de bombardeados pela aflição e pela angústia daqueles jovens, ainda tenhamos que nos sentir pequenos diante daquelas construções imponentes. E sem saber direito o que sentir diante de tudo isso, numa espécie de borrão de emoções muito bem-vindo. Nota-se um cineasta promissor em Kogonada. Fiquemos de olhos nos próximos trabalhos.
sábado, setembro 23, 2017
MÃE! (Mother!)
Darren Aronofsky chega ao seu sétimo longa-metragem aumentando ainda mais a polaridade sobre as discussões sobre gostar ou não gostar de sua obra - ou encará-la como algo precioso ou ruim e pretensioso. Isso vem desde seu longa de estreia, PI (1998), e continuou em suas obras seguintes. Mas uma coisa que não podemos negar é que se trata de um diretor corajoso e também bastante coerente em suas obsessões e interesses. MÃE! (2017) pode ser tanto parte da trilogia dos filmes religiosos do diretor, ao lado de FONTE DA VIDA (2006) e NOÉ (2014), quanto da trilogia dos filmes de horror, ao lado de RÉQUIEM PARA UM SONHO (2000) e CISNE NEGRO (2010).
É interessante analisar MÃE! tanto de um aspecto quanto de outro. Do ponto de vista do cinema de horror, é um dos mais curiosos no modo como ele inclui uma história que aparentemente pode seguir uma linha de O BEBÊ DE ROSEMARY, de Roman Polanski, mas que acaba se alinhando mais com um IMPÉRIO DOS SONHOS, de David Lynch. Ou seja, trata-se de um filme que nos coloca no lugar de uma personagem perturbada e que acaba por também nos contagiar com esse sentimento de deslocamento temporal e psicológico. O que está acontecendo? Essa é uma das perguntas que mais podem surgir durante as sessões de MÃE!
No aspecto religioso, é uma obra que pode ser vista como uma alegoria da Bíblia, tendo destacadas citações de personagens e livros bíblicos ao longo de sua trama, às vezes até de maneira pouco sutil, como em determinada fala de Jennifer Lawrence, ou em um acontecimento entre dois irmãos. Ao final, as metáforas parecem mais claras, o que acaba sendo uma espécie de convite para rever o filme e tentar esclarecer um pouco mais o que se acabou de ver. Afinal, trata-se de uma obra singular em muitos aspectos. Há, inclusive, quem vá sair da sessão com raiva ou algo parecido.
Na trama, Javier Bardem é um poeta que há tempos não escreve nenhuma obra nova e portanto está em crise de criatividade. Jennifer Lawrence é a esposa dedicada e bastante carente que faz o possível para agradar o marido e reconstruir lentamente a casa que outrora foi destruída. Os dois moram em uma residência longe da civilização. Por isso o espanto quando aparece um homem na porta (Ed Harris) certa noite. No dia seguinte, surge também uma mulher (Michelle Pfeiffer, ótima). Aos poucos, as pessoas que vão surgindo vão tornando a vida da protagonista um inferno.
O que talvez conte pontos contra o filme seja a dificuldade de comprar os sentimentos de dor, desorientação e perturbação da personagem de Lawrence, especialmente no terceiro ato, que requer mais força - pensar na Mia Farrow em O BEBÊ DE ROSEMARY é até covardia. De todo modo, não deixa de ser um tanto impactante o final, como se Aronofsky quisesse ir mais fundo no horror psicológico do que quando realizou CISNE NEGRO. Olha aí: CISNE NEGRO contava com o talento monstruoso de Natalie Portman, goste-se ou não do filme.
Quanto a Javier Bardem, trata-se talvez do ator mais versátil de sua geração, e aqui ele aparece um tanto quanto assustador em alguns momentos. O fato de ele representar quem representa no filme pode trazer muitas discussões sobre uma visão talvez crítica de Aronofsky sobre Deus, embora ele tenha abraçado com fé a história fantástica do dilúvio em NOÉ, tornando-a ainda mais fantástica do que a contada na Bíblia. E isso foi um acerto e tanto.
MÃE! também estaria aberto a outras interpretações que não a de simplesmente apresentar um Deus cheio de vaidade e sendo uma espécie de vampiro do amor alheio. Poderíamos dizer que se trata também de um filme sobre a natureza do homem, ou de artistas em especial, que costumam se aproveitar do amor de seus seguidores e adoradores para produzir sua arte. Até que ponto Aronofsky estaria se autocriticando e ao mesmo tempo exaltando o próprio ego? São só algumas das perguntas que podem ou não surgir. O que é muito positivo para um cinema que tem a intenção de ficar mais tempo na memória de seus espectadores.
É interessante analisar MÃE! tanto de um aspecto quanto de outro. Do ponto de vista do cinema de horror, é um dos mais curiosos no modo como ele inclui uma história que aparentemente pode seguir uma linha de O BEBÊ DE ROSEMARY, de Roman Polanski, mas que acaba se alinhando mais com um IMPÉRIO DOS SONHOS, de David Lynch. Ou seja, trata-se de um filme que nos coloca no lugar de uma personagem perturbada e que acaba por também nos contagiar com esse sentimento de deslocamento temporal e psicológico. O que está acontecendo? Essa é uma das perguntas que mais podem surgir durante as sessões de MÃE!
No aspecto religioso, é uma obra que pode ser vista como uma alegoria da Bíblia, tendo destacadas citações de personagens e livros bíblicos ao longo de sua trama, às vezes até de maneira pouco sutil, como em determinada fala de Jennifer Lawrence, ou em um acontecimento entre dois irmãos. Ao final, as metáforas parecem mais claras, o que acaba sendo uma espécie de convite para rever o filme e tentar esclarecer um pouco mais o que se acabou de ver. Afinal, trata-se de uma obra singular em muitos aspectos. Há, inclusive, quem vá sair da sessão com raiva ou algo parecido.
Na trama, Javier Bardem é um poeta que há tempos não escreve nenhuma obra nova e portanto está em crise de criatividade. Jennifer Lawrence é a esposa dedicada e bastante carente que faz o possível para agradar o marido e reconstruir lentamente a casa que outrora foi destruída. Os dois moram em uma residência longe da civilização. Por isso o espanto quando aparece um homem na porta (Ed Harris) certa noite. No dia seguinte, surge também uma mulher (Michelle Pfeiffer, ótima). Aos poucos, as pessoas que vão surgindo vão tornando a vida da protagonista um inferno.
O que talvez conte pontos contra o filme seja a dificuldade de comprar os sentimentos de dor, desorientação e perturbação da personagem de Lawrence, especialmente no terceiro ato, que requer mais força - pensar na Mia Farrow em O BEBÊ DE ROSEMARY é até covardia. De todo modo, não deixa de ser um tanto impactante o final, como se Aronofsky quisesse ir mais fundo no horror psicológico do que quando realizou CISNE NEGRO. Olha aí: CISNE NEGRO contava com o talento monstruoso de Natalie Portman, goste-se ou não do filme.
Quanto a Javier Bardem, trata-se talvez do ator mais versátil de sua geração, e aqui ele aparece um tanto quanto assustador em alguns momentos. O fato de ele representar quem representa no filme pode trazer muitas discussões sobre uma visão talvez crítica de Aronofsky sobre Deus, embora ele tenha abraçado com fé a história fantástica do dilúvio em NOÉ, tornando-a ainda mais fantástica do que a contada na Bíblia. E isso foi um acerto e tanto.
MÃE! também estaria aberto a outras interpretações que não a de simplesmente apresentar um Deus cheio de vaidade e sendo uma espécie de vampiro do amor alheio. Poderíamos dizer que se trata também de um filme sobre a natureza do homem, ou de artistas em especial, que costumam se aproveitar do amor de seus seguidores e adoradores para produzir sua arte. Até que ponto Aronofsky estaria se autocriticando e ao mesmo tempo exaltando o próprio ego? São só algumas das perguntas que podem ou não surgir. O que é muito positivo para um cinema que tem a intenção de ficar mais tempo na memória de seus espectadores.
quarta-feira, setembro 20, 2017
PARIS, TEXAS
Engraçado como o tempo nos prega peças. A minha memória de PARIS, TEXAS (1984), possivelmente a obra-prima máxima de Wim Wenders, já estava um bocado nebulosa. Não sei por que, por exemplo, havia limado o personagem do garotinho de minhas memórias. Talvez por que na época me interessasse pouco a questão de filhos ou questões paternas. O que mais pegou na cabeça daquele adolescente de cerca de 16 anos que já se julgava um cinéfilo (na verdade não lembro se já usava esse termo para me descrever) foi a dor do personagem de Harry Dean Stanton e o impacto do reencontro com a ex-mulher, depois de anos vagando pelo deserto, tido como morto ou desaparecido. Além da força das imagens do deserto e da trilha de Ry Cooder.
Não estava nos meus planos rever PARIS, TEXAS tão cedo. Na verdade, estava ensaiando uma peregrinação pelo cinema de Wim Wenders a partir de seus primeiros filmes. Até já tinha preparado uma cópia de VERÃO NA CIDADE (1970), seu primeiro longa, para ver. Mas eis que morre o querido Harry Dean Stanton e cresce uma vontade imensa de (re)ver o que talvez seja o filme mais importante que Wenders realizou nos Estados Unidos, país que sempre o fascinou e que o inspirou a fazer alguns ótimos trabalhos nos anos 1980.
A morte de Harry Dean Stanton, só não chegou a ser tão lamentada porque, afinal, ele já tinha 91 anos. Viveu plenamente, imagina-se. Mas não deixa de ficar um ar de melancolia no ar, justamente por sua participação em TWIN PEAKS - O RETORNO. São breves, mas importantes aparições, especialmente no episódio 6, em que ele chega a ver o espírito de uma criança subir ao céu depois de morrer em um acidente. Lynch o colocou como capaz de ver além do que o olho terreno é capaz.
Embora trate de questões aparentemente mundanas, PARIS, TEXAS é dessas obras que sublimam isso. Além do mais, quem disse que relações humanas são exclusividade de nosso plano de existência? As dores e as angústias seguem presentes enquanto não se cuida delas. Às vezes as pessoas preferem esquecê-las. É o caso de Travis Henderson (Dean Stanton), um homem que perambula sozinho pelo deserto americano, completamente sem rumo, tendo esquecido de si mesmo. Até o dia que é socorrido em uma cidadezinha muito pequena e seu paradeiro é informado ao irmão (Dean Stockwell).
Já ficamos sabendo que Travis tem um filho, uma criança que guarda pouca lembrança do pai, devido aos quatro anos de desaparecimento. E ficamos sabendo que a mãe também está desaparecida. A primeira imagem dela que vemos é através de uma filmagem em super-8 que o irmão de Travis sugere que seja ele veja. Cada imagem de Jane (Nastassja Kinski) é como uma facada no peito. Pelo menos é o que imaginamos. O cinema, diferente da literatura, nos convida a imaginar o que se passa na cabeça dos personagens a partir de suas atuações e também da montagem. E, nesse sentido, Wenders foi muito feliz. Como, aliás, consegue ser em tudo neste filme.
As primeiras imagens de Travis no deserto já denunciam que estamos vendo uma obra incomum. Inspirada por musas talvez. Mas também realizada com muita racionalidade na escolha dos planos, das cores, da significância das cores e do modo como isso nos afeta inconscientemente. Sabemos da força da cor vermelha, em muitas sequências, e também do verde, mas só um estudo mais detalhado para entender alguns dos segredos da linda paleta que o cineasta alemão escolheu para contar a sua história.
Uma história sobre perdas e reconquistas, PARIS, TEXAS é um dos mais belos, mas também mais amargos filmes realizados nas últimas décadas. E Travis é um dos grandes heróis solitários do cinema, talvez tão grande quanto o Ethan Edwards, de John Wayne, em RASTROS DE ÓDIO. Com a diferença aqui é que temos um homem que experimentou momentos felizes em sua relação com Jane, no passado. O fato de o filme nos esconder o passado de Travis é outro acerto gigantesco, pois a história contada pelo próprio personagem conversando com Jane na cabine do peep show é tão cheia de força que não necessita de música de fundo ou muitos adornos. Ao contrário: os silêncios entre cada fala têm um impacto devastador.
Mas depois Wenders sabe usar muito bem a música para fechar com chave de ouro esta obra-prima. A cena de Jane reencontrando o filho tem um misto de alegria e tristeza que não sabemos muito bem mensurar ou descrever. E o diretor faz isso muito bem com o uso das cores, do posicionamento dos personagens em cena, e do quanto aquelas pouco mais de duas horas de projeção já nos trouxeram de lágrimas ou de nós na garganta. O sentimento de agradecimento que sentimos por Wenders é talvez semelhante ao que Jane e o filho Hunter sentem por Travis no final.
Não estava nos meus planos rever PARIS, TEXAS tão cedo. Na verdade, estava ensaiando uma peregrinação pelo cinema de Wim Wenders a partir de seus primeiros filmes. Até já tinha preparado uma cópia de VERÃO NA CIDADE (1970), seu primeiro longa, para ver. Mas eis que morre o querido Harry Dean Stanton e cresce uma vontade imensa de (re)ver o que talvez seja o filme mais importante que Wenders realizou nos Estados Unidos, país que sempre o fascinou e que o inspirou a fazer alguns ótimos trabalhos nos anos 1980.
A morte de Harry Dean Stanton, só não chegou a ser tão lamentada porque, afinal, ele já tinha 91 anos. Viveu plenamente, imagina-se. Mas não deixa de ficar um ar de melancolia no ar, justamente por sua participação em TWIN PEAKS - O RETORNO. São breves, mas importantes aparições, especialmente no episódio 6, em que ele chega a ver o espírito de uma criança subir ao céu depois de morrer em um acidente. Lynch o colocou como capaz de ver além do que o olho terreno é capaz.
Embora trate de questões aparentemente mundanas, PARIS, TEXAS é dessas obras que sublimam isso. Além do mais, quem disse que relações humanas são exclusividade de nosso plano de existência? As dores e as angústias seguem presentes enquanto não se cuida delas. Às vezes as pessoas preferem esquecê-las. É o caso de Travis Henderson (Dean Stanton), um homem que perambula sozinho pelo deserto americano, completamente sem rumo, tendo esquecido de si mesmo. Até o dia que é socorrido em uma cidadezinha muito pequena e seu paradeiro é informado ao irmão (Dean Stockwell).
Já ficamos sabendo que Travis tem um filho, uma criança que guarda pouca lembrança do pai, devido aos quatro anos de desaparecimento. E ficamos sabendo que a mãe também está desaparecida. A primeira imagem dela que vemos é através de uma filmagem em super-8 que o irmão de Travis sugere que seja ele veja. Cada imagem de Jane (Nastassja Kinski) é como uma facada no peito. Pelo menos é o que imaginamos. O cinema, diferente da literatura, nos convida a imaginar o que se passa na cabeça dos personagens a partir de suas atuações e também da montagem. E, nesse sentido, Wenders foi muito feliz. Como, aliás, consegue ser em tudo neste filme.
As primeiras imagens de Travis no deserto já denunciam que estamos vendo uma obra incomum. Inspirada por musas talvez. Mas também realizada com muita racionalidade na escolha dos planos, das cores, da significância das cores e do modo como isso nos afeta inconscientemente. Sabemos da força da cor vermelha, em muitas sequências, e também do verde, mas só um estudo mais detalhado para entender alguns dos segredos da linda paleta que o cineasta alemão escolheu para contar a sua história.
Uma história sobre perdas e reconquistas, PARIS, TEXAS é um dos mais belos, mas também mais amargos filmes realizados nas últimas décadas. E Travis é um dos grandes heróis solitários do cinema, talvez tão grande quanto o Ethan Edwards, de John Wayne, em RASTROS DE ÓDIO. Com a diferença aqui é que temos um homem que experimentou momentos felizes em sua relação com Jane, no passado. O fato de o filme nos esconder o passado de Travis é outro acerto gigantesco, pois a história contada pelo próprio personagem conversando com Jane na cabine do peep show é tão cheia de força que não necessita de música de fundo ou muitos adornos. Ao contrário: os silêncios entre cada fala têm um impacto devastador.
Mas depois Wenders sabe usar muito bem a música para fechar com chave de ouro esta obra-prima. A cena de Jane reencontrando o filho tem um misto de alegria e tristeza que não sabemos muito bem mensurar ou descrever. E o diretor faz isso muito bem com o uso das cores, do posicionamento dos personagens em cena, e do quanto aquelas pouco mais de duas horas de projeção já nos trouxeram de lágrimas ou de nós na garganta. O sentimento de agradecimento que sentimos por Wenders é talvez semelhante ao que Jane e o filho Hunter sentem por Travis no final.
segunda-feira, setembro 18, 2017
FEITO NA AMÉRICA (American Made)
Por mais que esteja em um momento de crise, a carreira de Tom Cruise, seu conjunto da obra, continua sendo um tópico de discussão entre os fãs de cinema e principalmente entre os admiradores do astro. O que chama a atenção neste FEITO NA AMÉRICA (2017), segunda e bem-sucedida parceria com o diretor Doug Liman, de NO LIMITE DO AMANHÃ (2014), é que há um pouco de espaço, mais uma vez, para que Cruise deixe um pouco de lado sua vaidade - que é perfeitamente visível em cada obra sua - e se mostre em situações de perda ou vexame (como esquecer a cena em que ele está sem um dos dentes?).
Aliás, FEITO NA AMÉRICA também mostra o quanto Cruise é um ótimo ator de comédias - se bem que em ENCONTRO EXPLOSIVO, com a Cameron Diaz, ele já havia feito isso muito bem, embora seja um trabalho mais esquecível. Vê-se o novo trabalho de Liman com um sorriso de orelha a orelha. A opção por um registro cômico e de comédia maluca para contar a história baseada em fatos da vida de um piloto de aviões que se torna uma espécie de agente duplo da CIA e do Cartel de Medellín se justifica pelo absurdo da situação, que é tão inacreditável que só podia acontecer na vida real mesmo.
Na trama de FEITO NA AMÉRICA, Cruise é Barry Seal, um piloto da TWA que aceita a proposta de um agente da CIA para fazer voos rasantes em países da América Latina e documentar ações de países considerados inimigos dos Estados Unidos. O que Seal não contava era que os chefões do Cartel de Medellín descobririam suas ações tão facilmente, a ponto de convidá-lo para juntar-se a eles nos negócios. A partir daquele momento, Seal passaria também a contrabandear cocaína para os Estados Unidos.
Essa brincadeira perigosa, que acabaria inevitavelmente por envolver sua família, só não chega a ser tão intensa do ponto de vista dramático por causa do tom leve que Liman e Cruise, o verdadeiro dono do filme, preferem impor à trama, mesmo em situações trágicas, envolvendo carros explodindo e o perigo de perder a vida a qualquer momento pelas mãos dos inimigos.
Quanto à escolha do elenco de apoio, é curiosa a opção de Cruise por nomes pouco famosos. Sua preferência por diminuir o orçamento de seus filmes nos últimos anos e talvez o brilho extra que outro ator ou atriz possa roubar de si se destaca pela presença em cena de apenas um ator de primeiro time, o irlandês Domhnall Gleeson. A atriz que faz sua esposa, Sarah Wright, é pouco conhecida de quem não acompanha suas séries de televisão. Outros dois ótimos nomes conhecidos da televisão aparecem em papéis bem pequenos: a adorável Lola Kirke, de MOZART IN THE JUNGLE, e o ótimo Jesse Plemons, da segunda temporada de FARGO. Seus papéis são minúsculos, um verdadeiro desperdício de talentos.
De todo modo, o que importa mesmo no filme é a ousadia de colocar Cruise fugindo com cocaína por todo o corpo em uma bicicleta para crianças, ou quase morrendo com um trote de Pablo Escobar e cia., ou tentando fazer quase o mesmo que Escobar fazia na época em que não tinha mais onde guardar tanto dinheiro: enterrando, escondendo etc. Há quem vá achar a narração em voice-over do Seal do futuro um pouco didática demais, mas acaba sendo mais um atrativo e mais um elemento de diversão deste belo filme, que se mostra muito bom de ver em salas IMAX, com sua alternância do granulado de algumas cenas mais próximas (especialmente close-ups) e de intensa nitidez em planos gerais.
Aliás, FEITO NA AMÉRICA também mostra o quanto Cruise é um ótimo ator de comédias - se bem que em ENCONTRO EXPLOSIVO, com a Cameron Diaz, ele já havia feito isso muito bem, embora seja um trabalho mais esquecível. Vê-se o novo trabalho de Liman com um sorriso de orelha a orelha. A opção por um registro cômico e de comédia maluca para contar a história baseada em fatos da vida de um piloto de aviões que se torna uma espécie de agente duplo da CIA e do Cartel de Medellín se justifica pelo absurdo da situação, que é tão inacreditável que só podia acontecer na vida real mesmo.
Na trama de FEITO NA AMÉRICA, Cruise é Barry Seal, um piloto da TWA que aceita a proposta de um agente da CIA para fazer voos rasantes em países da América Latina e documentar ações de países considerados inimigos dos Estados Unidos. O que Seal não contava era que os chefões do Cartel de Medellín descobririam suas ações tão facilmente, a ponto de convidá-lo para juntar-se a eles nos negócios. A partir daquele momento, Seal passaria também a contrabandear cocaína para os Estados Unidos.
Essa brincadeira perigosa, que acabaria inevitavelmente por envolver sua família, só não chega a ser tão intensa do ponto de vista dramático por causa do tom leve que Liman e Cruise, o verdadeiro dono do filme, preferem impor à trama, mesmo em situações trágicas, envolvendo carros explodindo e o perigo de perder a vida a qualquer momento pelas mãos dos inimigos.
Quanto à escolha do elenco de apoio, é curiosa a opção de Cruise por nomes pouco famosos. Sua preferência por diminuir o orçamento de seus filmes nos últimos anos e talvez o brilho extra que outro ator ou atriz possa roubar de si se destaca pela presença em cena de apenas um ator de primeiro time, o irlandês Domhnall Gleeson. A atriz que faz sua esposa, Sarah Wright, é pouco conhecida de quem não acompanha suas séries de televisão. Outros dois ótimos nomes conhecidos da televisão aparecem em papéis bem pequenos: a adorável Lola Kirke, de MOZART IN THE JUNGLE, e o ótimo Jesse Plemons, da segunda temporada de FARGO. Seus papéis são minúsculos, um verdadeiro desperdício de talentos.
De todo modo, o que importa mesmo no filme é a ousadia de colocar Cruise fugindo com cocaína por todo o corpo em uma bicicleta para crianças, ou quase morrendo com um trote de Pablo Escobar e cia., ou tentando fazer quase o mesmo que Escobar fazia na época em que não tinha mais onde guardar tanto dinheiro: enterrando, escondendo etc. Há quem vá achar a narração em voice-over do Seal do futuro um pouco didática demais, mas acaba sendo mais um atrativo e mais um elemento de diversão deste belo filme, que se mostra muito bom de ver em salas IMAX, com sua alternância do granulado de algumas cenas mais próximas (especialmente close-ups) e de intensa nitidez em planos gerais.
quinta-feira, setembro 14, 2017
OITO FILMES DE HORROR
Uma pena a falta de tempo para escrever sobre os filmes. Por isso, aqui estou eu tentando dar um gás em momentos de pouca inspiração. Resolvi pegar todos os filmes de horror (ou afins) vistos no ano e que ainda não tinham sido comentados aqui no blog. Então, é jogo rápido. Matando oito coelhos com uma só caixa d'água.
O CONVITE (The Invitation)
Diretora de GAROTA INFERNAL (2009), Karyn Kusama tem no currículo um monte de coisas para a televisão. Este O CONVITE (2015) talvez seja o seu trabalho mais intenso e quem sabe mais autoral. É mais um caso de ótimo filme que foi parar direto no Netflix, sem chance de ter uma carreira na telona. Mas é bom a gente se acostumar com isso e relaxar. Tentar apreciar a experiência que é o filme, mesmo que pensando nele na tela grande, por causa das várias tomadas com poucos close-ups. O ideal é ver sem saber nada a respeito, mas para quem quer saber algo, trata-se de uma história sobre um homem que visita a casa de sua ex-esposa e dá de cara com situações sinistras. Gosto muito da tensão crescente.
TODAS AS CORES DA NOITE
Não vou mentir e dizer que embarquei na viagem toda desse filme. Há algo em TODAS AS CORES DA NOITE (2015) que não parece funcionar. Mas a cena final é tão maravilhosa (com a Sabrina Greve em estado de graça) que eu comecei a achar que era eu que não estava com a cabeça boa para o filme no dia em que o vi. Estava pensando em outras coisas boa parte do tempo. Portanto, seria o caso de uma segunda chance. A propósito, seria a Sabrina Greve a maior estrela dos filmes de horror brasileiros ever?
O RASTRO
É mais curioso do que exatamente bom esta tentativa de fazer um filme de horror no Brasil bem parecido com o que se faz lá fora. O diretor de O RASTRO (2017), J.C. Foyer, deu conta de criar alguns momentos de dar arrepios, mas falha demais na criação de uma atmosfera de suspense e em nos deixar interessados em seus personagens. Chega uma hora que a gente torce para o filme acabar logo mesmo. Uma pena. A trama se passa em um hospital que está passando por um processo de tombamento.
KRISHA
Um filme que passa um mal estar tremendo, já que sentimos um pouco do ponto de vista de alguém rejeitado e também da tensão existente em um ambiente familiar, algo que sempre me deixa muito perturbado. Este é KRISHA (2015), filme de estreia de Trey Edward Shults, do marco do pós-horror AO CAIR DA NOITE (2017). Também se nota algo que é característico dos primeiros filmes em KRISHA que é o diretor quer mostrar serviço e assim há muitos jogos de câmeras curiosos, diferentes, ângulos desconfortáveis etc. Vale muito ver, principalmente pela excelente caracterização da protagonista, vivida por Krisha Fairchild. Sim, quase todos os personagens interpretam a si mesmos, ou pelo menos dão o mesmo nome aos personagens.
7 DESEJOS (Wish Upon)
Eu até tinha achado o ANABELLE (2014) um filme bem decente, mas é impressionante como esse 7 DESEJOS (2017), do mesmo diretor John R. Leonetti, é idiota. Dá pra se divertir e tal, mas a protagonista é uma tapada e a trama, além de imitar um bocado a franquia PREMONIÇÃO, é cheia de furos horríveis. Mas se isso fosse o único problema até que estava bom. No mais, acabei vendo a Sherilyn Fenn no cinema antes de ver em TWIN PEAKS - O RETORNO. E que papel horrível que deram a ela, meu Deus. Povo não respeita quem merece o respeito, não.
THE DEVIL'S CANDY
Para o que parece ser só mais um filme sobre casa assombrada com demônio envolvido, e ainda por cima envolvendo rock pesado, THE DEVIL'S CANDY (2015, foto) vai num crescendo de perturbação que o torna um belo exemplar contemporâneo. Comecei a ver a primeira metade do filme em um dia e não estava curtindo muito, mas depois, no dia seguinte, vi que é uma obra respeitável. A violência, a tensão, a problematização do que parecia simplista e bobo (o diabo no heavy metal), tudo melhora.. E arrepiei no final quando toca uma canção foda, que eu não vou dizer aqui qual é.
ENTES QUERIDOS (The Loved Ones)
Embora seja inferior ao THE DEVIL'S CANDY, do mesmo Sean Byrne, e partir mais para o torturne porn, é bom voltar ao universo de jovens fãs de rock pesado, que parece ser o mundo do diretor. Há alguns cartas na manga, mas na verdade são poucas. Ainda assim ENTES QUERIDOS (2009) é filme pra assistir com os olhos grudados e o coração na mão. Na trama, uma garota que costuma ser rejeitada na escola captura um rapaz por quem tem interesse para fazer com ele um baile de formatura todo especial. Tenso e sangrento.
DEATH NOTE
A gente até quer dar uma chance a esta adaptação do excelente mangá Death Note, mas não tem jeito. A coisa piora muito quando entra em cena o L, que consegue ser mais patético que o Light. Ambos não deveriam ser. De todo modo, o que não funciona no filme DEATH NOTE (2017) nem é a falta de "fidelidade" à obra. É que é tudo feito às pressas, toscamente mesmo. Não dá pra sentir o mínimo suspense. Quem acaba se destacando é a namorada de Light, Margaret Qualley, que tem o seu encanto e ganha o filme em determinado momento. Mas é muito pouco. E pensar que o diretor Adam Wingard vinha de um filme bacana (VOCÊ É O PRÓXIMO, 2011)...
O CONVITE (The Invitation)
Diretora de GAROTA INFERNAL (2009), Karyn Kusama tem no currículo um monte de coisas para a televisão. Este O CONVITE (2015) talvez seja o seu trabalho mais intenso e quem sabe mais autoral. É mais um caso de ótimo filme que foi parar direto no Netflix, sem chance de ter uma carreira na telona. Mas é bom a gente se acostumar com isso e relaxar. Tentar apreciar a experiência que é o filme, mesmo que pensando nele na tela grande, por causa das várias tomadas com poucos close-ups. O ideal é ver sem saber nada a respeito, mas para quem quer saber algo, trata-se de uma história sobre um homem que visita a casa de sua ex-esposa e dá de cara com situações sinistras. Gosto muito da tensão crescente.
TODAS AS CORES DA NOITE
Não vou mentir e dizer que embarquei na viagem toda desse filme. Há algo em TODAS AS CORES DA NOITE (2015) que não parece funcionar. Mas a cena final é tão maravilhosa (com a Sabrina Greve em estado de graça) que eu comecei a achar que era eu que não estava com a cabeça boa para o filme no dia em que o vi. Estava pensando em outras coisas boa parte do tempo. Portanto, seria o caso de uma segunda chance. A propósito, seria a Sabrina Greve a maior estrela dos filmes de horror brasileiros ever?
O RASTRO
É mais curioso do que exatamente bom esta tentativa de fazer um filme de horror no Brasil bem parecido com o que se faz lá fora. O diretor de O RASTRO (2017), J.C. Foyer, deu conta de criar alguns momentos de dar arrepios, mas falha demais na criação de uma atmosfera de suspense e em nos deixar interessados em seus personagens. Chega uma hora que a gente torce para o filme acabar logo mesmo. Uma pena. A trama se passa em um hospital que está passando por um processo de tombamento.
KRISHA
Um filme que passa um mal estar tremendo, já que sentimos um pouco do ponto de vista de alguém rejeitado e também da tensão existente em um ambiente familiar, algo que sempre me deixa muito perturbado. Este é KRISHA (2015), filme de estreia de Trey Edward Shults, do marco do pós-horror AO CAIR DA NOITE (2017). Também se nota algo que é característico dos primeiros filmes em KRISHA que é o diretor quer mostrar serviço e assim há muitos jogos de câmeras curiosos, diferentes, ângulos desconfortáveis etc. Vale muito ver, principalmente pela excelente caracterização da protagonista, vivida por Krisha Fairchild. Sim, quase todos os personagens interpretam a si mesmos, ou pelo menos dão o mesmo nome aos personagens.
7 DESEJOS (Wish Upon)
Eu até tinha achado o ANABELLE (2014) um filme bem decente, mas é impressionante como esse 7 DESEJOS (2017), do mesmo diretor John R. Leonetti, é idiota. Dá pra se divertir e tal, mas a protagonista é uma tapada e a trama, além de imitar um bocado a franquia PREMONIÇÃO, é cheia de furos horríveis. Mas se isso fosse o único problema até que estava bom. No mais, acabei vendo a Sherilyn Fenn no cinema antes de ver em TWIN PEAKS - O RETORNO. E que papel horrível que deram a ela, meu Deus. Povo não respeita quem merece o respeito, não.
THE DEVIL'S CANDY
Para o que parece ser só mais um filme sobre casa assombrada com demônio envolvido, e ainda por cima envolvendo rock pesado, THE DEVIL'S CANDY (2015, foto) vai num crescendo de perturbação que o torna um belo exemplar contemporâneo. Comecei a ver a primeira metade do filme em um dia e não estava curtindo muito, mas depois, no dia seguinte, vi que é uma obra respeitável. A violência, a tensão, a problematização do que parecia simplista e bobo (o diabo no heavy metal), tudo melhora.. E arrepiei no final quando toca uma canção foda, que eu não vou dizer aqui qual é.
ENTES QUERIDOS (The Loved Ones)
Embora seja inferior ao THE DEVIL'S CANDY, do mesmo Sean Byrne, e partir mais para o torturne porn, é bom voltar ao universo de jovens fãs de rock pesado, que parece ser o mundo do diretor. Há alguns cartas na manga, mas na verdade são poucas. Ainda assim ENTES QUERIDOS (2009) é filme pra assistir com os olhos grudados e o coração na mão. Na trama, uma garota que costuma ser rejeitada na escola captura um rapaz por quem tem interesse para fazer com ele um baile de formatura todo especial. Tenso e sangrento.
DEATH NOTE
A gente até quer dar uma chance a esta adaptação do excelente mangá Death Note, mas não tem jeito. A coisa piora muito quando entra em cena o L, que consegue ser mais patético que o Light. Ambos não deveriam ser. De todo modo, o que não funciona no filme DEATH NOTE (2017) nem é a falta de "fidelidade" à obra. É que é tudo feito às pressas, toscamente mesmo. Não dá pra sentir o mínimo suspense. Quem acaba se destacando é a namorada de Light, Margaret Qualley, que tem o seu encanto e ganha o filme em determinado momento. Mas é muito pouco. E pensar que o diretor Adam Wingard vinha de um filme bacana (VOCÊ É O PRÓXIMO, 2011)...
quarta-feira, setembro 13, 2017
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS
Vivemos em um momento particularmente delicado em nosso país. Desde 2013 que a sociedade brasileira está dividida, embora as manifestações daquele ano tenham sido bem distintas das que culminaram com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, no ano passado. São de grupos distintos, aliás. Hoje, nem se trata mais de dificuldade de comunicação entre as partes (direita e esquerda, coxinhas e petralhas), mas de uma separação tão irracional quanto torcer por um time de futebol. E esse momento o próprio filme POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS (2017) ajuda a captar: na cena em Lula está no Aeroporto de Congonhas, depois de ter sido levado coercitivamente para depor .
Pelo que é mostrado no filme, havia dois times muito bem delineados: os que achavam que aquilo era um absurdo e estavam ali para dar uma força para o ex-Presidente, vestidos de vermelho e com o apoio da CUT, e aqueles que tinham escrito "Somos todos Moro" em suas bandeiras, e se vestiam de verde e amarelo, todos exultantes por aquele momento que, embora não representasse a prisão de Lula, representou algo próximo disso para eles, que conseguiram com paneladas expulsar uma presidente eleita. Logo, foi um dia de festa para muitos brasileiros.
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS é desses filmes que merecem ser vistos nem que seja por curiosidade mórbida, seja por quem acompanha o cinema brasileiro e quer pensar o filme dentro do cenário do gênero policial brasileiro contemporâneo, seja por quem está interessado em ver como foi o recorte e de que maneira o diretor Marcelo Antunez e seus roteiristas resolveram contar a história da ação da Lava-Jato desde o primeiro momento até o ano passado.
E por mais que a primeira metade do filme funcione até bem como thriller policial, apesar de alguns diálogos bem ruins, o aspecto político é muito frágil e também muito covarde, no sentido de querer vilanizar pessoas que ainda estão sob investigação. Como é o caso do Presidente Lula, que é pintado como uma figura enjoada e afetada por Ary Fontoura. Sabemos que os próprios representantes da direita brasileira dão o braço a torcer quanto ao carisma do ex-presidente e o que é mostrado está bem longe de sua figura. Na sessão em que assisti, porém, que terminou com uma salva de palmas pelo público presente, muitos se divertiram com o modo como Lula foi representado, alguns até dizendo coisas como "olha a cara de pau dele" etc., como se estivessem vendo o próprio Presidente ou uma cena de novela.
Porém, a imagem do verdadeiro Lula nos créditos finais, dizendo que "a jararaca está viva", em entrevista coletiva após o tal depoimento, ajuda a esquecer um pouco a interpretação infeliz de Fontoura. Há outras situações forçadas do roteiro, como as de Bruce Gomlevsky, que vive um dos quatro principais agentes da Lava-Jato. Seu quadro branco contendo as palestras do Lula por diversos países e o dinheiro supostamente desviado mais parece o famoso powerpoint de Dallagnol.
Quanto ao juiz Sérgio Moro, vivido por Marcelo Serrado, o filme o deixa um pouco mais distanciado do caso, como que para torná-lo o mais isento e apartidário possível. Até mesmo cenas do juiz preparando pizza e conversando com o filho em sua casa o filme mostra. Mas os verdadeiros heróis são mesmo os quatro cavaleiros da operação, vividos ficcionalmente por Antonio Calloni, Flávia Alessandra, João Baldasserini e o já citado Gomlevsky, que é o sujeito que canta "Inútil", do Ultraje a Rigor, em um karaokê, mostrando mais uma vez que o filme adotou sim uma posição partidária.
Mesmo quando em determinado momento um deles se questiona sobre quem estaria sendo beneficiando por tantas prisões e acusações naquele momento de tensão política intensa, logo aparece alguém para deixá-lo tranquilo, dizendo que eles estão sim tornando o Brasil melhor. Por um momento, o filme quase conseguiu uma autorreflexão lúcida frente a tudo aquilo que foi mostrado.
Claro não se pode demonizar o filme por assumir uma posição no jogo, muito embora se possa responsabilizá-lo por alguns julgamentos que, mais à frente, poderão ser considerados injustos. Falar de um cenário político sem o distanciamento temporal adequado é sempre arriscado. Mas, como vivemos um momento em que a urgência e o pré-julgamento parecem imperar, a busca pela verdade aparecerá sempre borrada.
No meio deste caldo fervendo, há ainda outros projetos por vir, como a série da Lava-Jato criada pelo José Padilha para a Netflix e os quatro documentários sobre o impeachment de Dilma Rousseff, sendo que dois optaram por retratar a situação mais próximo do ponto de vista da ex-presidenta. Até lá, ficamos na torcida pelo Brasil.
Pelo que é mostrado no filme, havia dois times muito bem delineados: os que achavam que aquilo era um absurdo e estavam ali para dar uma força para o ex-Presidente, vestidos de vermelho e com o apoio da CUT, e aqueles que tinham escrito "Somos todos Moro" em suas bandeiras, e se vestiam de verde e amarelo, todos exultantes por aquele momento que, embora não representasse a prisão de Lula, representou algo próximo disso para eles, que conseguiram com paneladas expulsar uma presidente eleita. Logo, foi um dia de festa para muitos brasileiros.
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS é desses filmes que merecem ser vistos nem que seja por curiosidade mórbida, seja por quem acompanha o cinema brasileiro e quer pensar o filme dentro do cenário do gênero policial brasileiro contemporâneo, seja por quem está interessado em ver como foi o recorte e de que maneira o diretor Marcelo Antunez e seus roteiristas resolveram contar a história da ação da Lava-Jato desde o primeiro momento até o ano passado.
E por mais que a primeira metade do filme funcione até bem como thriller policial, apesar de alguns diálogos bem ruins, o aspecto político é muito frágil e também muito covarde, no sentido de querer vilanizar pessoas que ainda estão sob investigação. Como é o caso do Presidente Lula, que é pintado como uma figura enjoada e afetada por Ary Fontoura. Sabemos que os próprios representantes da direita brasileira dão o braço a torcer quanto ao carisma do ex-presidente e o que é mostrado está bem longe de sua figura. Na sessão em que assisti, porém, que terminou com uma salva de palmas pelo público presente, muitos se divertiram com o modo como Lula foi representado, alguns até dizendo coisas como "olha a cara de pau dele" etc., como se estivessem vendo o próprio Presidente ou uma cena de novela.
Porém, a imagem do verdadeiro Lula nos créditos finais, dizendo que "a jararaca está viva", em entrevista coletiva após o tal depoimento, ajuda a esquecer um pouco a interpretação infeliz de Fontoura. Há outras situações forçadas do roteiro, como as de Bruce Gomlevsky, que vive um dos quatro principais agentes da Lava-Jato. Seu quadro branco contendo as palestras do Lula por diversos países e o dinheiro supostamente desviado mais parece o famoso powerpoint de Dallagnol.
Quanto ao juiz Sérgio Moro, vivido por Marcelo Serrado, o filme o deixa um pouco mais distanciado do caso, como que para torná-lo o mais isento e apartidário possível. Até mesmo cenas do juiz preparando pizza e conversando com o filho em sua casa o filme mostra. Mas os verdadeiros heróis são mesmo os quatro cavaleiros da operação, vividos ficcionalmente por Antonio Calloni, Flávia Alessandra, João Baldasserini e o já citado Gomlevsky, que é o sujeito que canta "Inútil", do Ultraje a Rigor, em um karaokê, mostrando mais uma vez que o filme adotou sim uma posição partidária.
Mesmo quando em determinado momento um deles se questiona sobre quem estaria sendo beneficiando por tantas prisões e acusações naquele momento de tensão política intensa, logo aparece alguém para deixá-lo tranquilo, dizendo que eles estão sim tornando o Brasil melhor. Por um momento, o filme quase conseguiu uma autorreflexão lúcida frente a tudo aquilo que foi mostrado.
Claro não se pode demonizar o filme por assumir uma posição no jogo, muito embora se possa responsabilizá-lo por alguns julgamentos que, mais à frente, poderão ser considerados injustos. Falar de um cenário político sem o distanciamento temporal adequado é sempre arriscado. Mas, como vivemos um momento em que a urgência e o pré-julgamento parecem imperar, a busca pela verdade aparecerá sempre borrada.
No meio deste caldo fervendo, há ainda outros projetos por vir, como a série da Lava-Jato criada pelo José Padilha para a Netflix e os quatro documentários sobre o impeachment de Dilma Rousseff, sendo que dois optaram por retratar a situação mais próximo do ponto de vista da ex-presidenta. Até lá, ficamos na torcida pelo Brasil.
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