Uma pena que o ritmo mais agitado desta sétima temporada de GAME OF THRONES (2017) não tenha contribuído para que a série mantivesse a sua classe, na construção dos bons diálogos e da intriga política que faz com que a dança de cadeiras de poder seja não só interessante, como também intrigante. Infelizmente, a sétima temporada aproximou a série de uma aventura trash menos saborosa do que algumas temporadas de TRUE BLOOD, só para citar uma série vagabunda com estilo.
GAME OF THRONES foi ganhando uma popularidade tão grande ao longo dos anos que se tornou um ponto de encontro de muita gente em bares para assistir o episódio inédito, exibido simultaneamente no mesmo dia em muitos lares do mundo. Inclusive, essa popularidade fez com que a nudez e a violência gráfica, que eram marca das primeiras temporadas, deixassem de ser itens essenciais para chamar a atenção da audiência. Os próprios personagens e a trama em si já haviam ganhado o público.
Mas uma série de situações mal desenvolvidas afetou terrivelmente esta sétima temporada, que se caracterizou pela pressa e pela falta de noção espacial e temporal, e pelo mau cuidado com a direção e com o roteiro também. Para completar, a tendência da série atualmente é, agora que os núcleos estão cada vez mais diminutos, partir para a tal batalha contra os mortos-vivos, personagens que só empolgam os fãs de carteirinha da série mesmo, pois vilões de verdade, desses de deixar o sangue intoxicado de raiva, já passaram vários ao longo da série.
O primeiro episódio começa com empolgação, com Arya conseguindo se vingar de alguns de seus inimigos da lista negra usando a metodologia das máscaras da temporada passada, e partindo pra cima, agora toda poderosa e cheia de força. A intenção é matar Cersei. Mas, como ela sabe que seu irmão Jon Snow é agora rei do Norte, ela resolve fazer uma visitinha aos patrulheiros, sem saber também que lá já se encontravam dois de seus irmãos. Sim, os Starks finalmente se juntaram, depois de tanto sofrimento e perda.
Mas o que marca esta sétima temporada mesmo é finalmente o encontro de Daenerys com Jon Snow, uma reunião que muita gente acreditava que poderia rolar romance. E de fato rola. O problema é que não há um ritmo apropriado para que o tal romance entre os dois carregue o mínimo de tensão inicial antes de começar. Isso é ruim. De todo modo, são dois personagens queridos e tidos como heróis pelos espectadores, ainda que Daenerys consiga ser capaz de fazer coisas bem malvadas quando quer. Sem falar nessa irritante mania de querer que as pessoas se ajoelhem a ela, a toda poderosa.
A desculpa do encontro dos dois nem é bem uma desculpa, mas algo praticamente inevitável para a série: a união dos dois grupos para que juntos possam combater o tal exército dos mortos que está prestes a derrubar a muralha e penetrar no mundo dos vivos. E isso acaba gerando o que talvez seja o pior episódio da série: o penúltimo desta temporada, que mostra um grupo preparado para caçar um morto-vivo. Faltou ao roteiro uma melhor estruturação para que as situações, seja de ação, seja de diálogo, acontecessem. E isso resulta na possibilidade de que a oitava e última temporada seja a mais fraca de todas. Mas tomara que não. Tomara que eles consigam superar a má fase e surpreender novamente.
quarta-feira, agosto 30, 2017
segunda-feira, agosto 28, 2017
MARTIN
Como se não bastasse criar todo um conceito que seria seguido por gerações e gerações, que é o conceito dos zumbis como o conhecemos hoje, ocorrido em A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (1968), o gigante George A. Romero ainda procurou reinventar o filme de vampiros com MARTIN (1978), em que somos apresentados a uma versão mais realista de um chupador de sangue que vive durante muitos anos de sangue humano. A diferença aqui é que o jovem de 84 anos e com aparência de adolescente do título, vivido por John Amplas, não se encaixa no estilo gótico dos vampiros anteriormente vistos e nascidos do folclore do leste europeu e popularizados pela literatura e depois pelo cinema.
Martin não dispõe de dentes caninos prontos para abocanhar facilmente os pescoços de suas vítimas, preferencialmente mulheres. Sua metodologia: usa uma injeção para fazer as vítimas dormirem e em seguida corta os pulsos delas para beber-lhes o sangue. Há, no meio disso, uma satisfação sexual, ao despir a vítima e despir-se também. Mais adiante, ele conta que nunca conseguiu fazer sexo com alguém que estivesse acordada.
MARTIN se destaca pela crueza no estilo, pela fotografia sem filtros e também por um conjunto de interpretações amadoras, mas que funcionam bem no intuito de dar à obra um caráter de estranheza que também se percebe em alguns trabalhos de diretores que lidam com não-atores para a construção de sua dramaturgia. Na verdade, não é muito diferente do que já estávamos acostumados a ver em outros filmes de Romero.
Há também uma série de possibilidades que MARTIN oferece ao espectador, como o fato de o garoto ser ou não um vampiro, e de haver um tratamento em relação à sua personalidade que varia da ternura (vinda de sua expressão de quase inocência no olhar) à imagem de alguém digno de ser de fato encarado como um mal a ser extirpado, como crê o primo que o abriga, mesmo contra sua vontade, em sua casa.
O que deixa o espectador um pouco encucado com o filme talvez seja justamente essa estranheza. É um filme de horror que se passa boa parte do tempo durante o dia, e que muito se assemelha a um drama sobre a falta de pertencimento de um jovem na sociedade. Mas não deixa de fazer falta mais cenas de tensão em que Martin se vê preocupado em ser pego quando tenta executar um de seus atos.
Martin não dispõe de dentes caninos prontos para abocanhar facilmente os pescoços de suas vítimas, preferencialmente mulheres. Sua metodologia: usa uma injeção para fazer as vítimas dormirem e em seguida corta os pulsos delas para beber-lhes o sangue. Há, no meio disso, uma satisfação sexual, ao despir a vítima e despir-se também. Mais adiante, ele conta que nunca conseguiu fazer sexo com alguém que estivesse acordada.
MARTIN se destaca pela crueza no estilo, pela fotografia sem filtros e também por um conjunto de interpretações amadoras, mas que funcionam bem no intuito de dar à obra um caráter de estranheza que também se percebe em alguns trabalhos de diretores que lidam com não-atores para a construção de sua dramaturgia. Na verdade, não é muito diferente do que já estávamos acostumados a ver em outros filmes de Romero.
Há também uma série de possibilidades que MARTIN oferece ao espectador, como o fato de o garoto ser ou não um vampiro, e de haver um tratamento em relação à sua personalidade que varia da ternura (vinda de sua expressão de quase inocência no olhar) à imagem de alguém digno de ser de fato encarado como um mal a ser extirpado, como crê o primo que o abriga, mesmo contra sua vontade, em sua casa.
O que deixa o espectador um pouco encucado com o filme talvez seja justamente essa estranheza. É um filme de horror que se passa boa parte do tempo durante o dia, e que muito se assemelha a um drama sobre a falta de pertencimento de um jovem na sociedade. Mas não deixa de fazer falta mais cenas de tensão em que Martin se vê preocupado em ser pego quando tenta executar um de seus atos.
sexta-feira, agosto 25, 2017
BINGO - O REI DAS MANHÃS
Daniel Rezende é pé quente. Seu primeiro filme como montador foi CIDADE DE DEUS (2002). Já chegou com muita força, recebendo até indicação ao Oscar e um reconhecimento internacional que o levou a trabalhar com Terrence Malick, em A ÁRVORE DA VIDA (2011). Sem falar em colaborações memoráveis em outros filmes marcantes de diretores brasileiros como Walter Salles, José Padilha, Laís Bodansky e novamente com Fernando Meirelles.
Ser um editor de filmes de sucesso de público deve ter lhe dado uma sábia compreensão do que se deve fazer para que um filme flua bem. Em BINGO - O REI DAS MANHÃS (2017), sua estreia na direção de longas-metragens, não parece haver nenhuma gordura. Tudo no filme está ali muito bem amarradinho. Difícil perder o interesse em algum momento. E não só porque é uma obra que fala de assuntos que interessam a quem viveu os anos 1980 e assistia o programa do Bozo, embora tenha um sabor especial para aqueles que testemunharam aqueles anos de exageros.
Provavelmente vão dizer que BINGO é pouco "brasileiro", mas, puxa, que baita filme. Sem falar que há sim muita coisa de brasileiro nele. Se não na estrutura, que é mais clássica e que lembra bastante o cinema americano, mas na história em si, que é toda nossa, na incrível adaptação do palhaço gringo Bozo em terras tupiniquins. E por mais que tenham mudado o nome do palhaço para Bingo por problemas com direitos, foi muito positivo o diretor Daniel Rezende ter mudado o nome do palhaço e também o do ator que o interpreta, que aqui não se chama Arlindo Barreto, mas Augusto Mendes, e é vivido de maneira inspirada por Vladimir Brichta, de modo que possa estar mais livre para construir uma obra de ficção sem obrigações com a verdade.
O fato de BINGO trafegar por caminhos sombrios é outro aspecto atraente. Até dá pra entender o fato de ter sido a Warner a distribuidora do filme aqui, já que é uma empresa que tem raízes nos filmes de gângster e nunca se desvencilhou totalmente dessa linha mais dark. Como o palhaço é uma figura que também desperta medo em algumas pessoas, há pelo menos um momento em que é explorada essa questão com intensidade. E é uma cena tão forte que é fácil questionar se aquilo aconteceu de verdade com o Arlindo no SBT.
Na trama, Augusto Mendes é um ator de pornochanchada que está separado da esposa e que tem uma relação muito próxima com o filho. Logo no começo do filme, o menino até chega a flagrar um pouco o trabalho do pai dentro daquele universo em que o cinema brasileiro parecia uma versão nua, crua e desbocada do que era representado de forma mais limpa nas telenovelas da Globo. Inclusive, era possível ver algumas das atrizes globais nuas em determinados filmes. Isso fazia parte da graça da época e é representado no filme na figura da ex-esposa de Augusto.
As coisas ficam mais interessantes para o protagonista quando ele, depois de se sentir humilhado com uma ponta em uma novela da Rede Globo (no filme, Mundial), vai parar, sem querer, no teste para ser o palhaço Bingo, em uma das mais caras apostas do SBT, que aqui aparece com outro nome também. E é com sua inteligência e astúcia que ele consegue não só tirar sarro do produtor gringo, como mostrar, à sua maneira, que era preciso adaptar as piadas para o Brasil, se quisesse arrancar o riso e conquistar as crianças.
Mas o que mais encanta no filme é o quanto esse universo de programa infantil é tratado como sendo mais uma fachada para a vida louca de Augusto, que bebia e cheirava muito nos bastidores, além de se envolver em orgias e desfrutar das loucuras que o dinheiro podia comprar. Talvez o ponto fraco do filme seja ter quase que uma obrigação de fazer um arco dramático para redimir o personagem, embora isso seja perfeitamente coerente com um tipo de cinema mais comercial - sem querer colocar nenhuma carga pejorativa no termo.
Outras coisas que divertem e emocionam são as inúmeras referências pop dos anos 1980. Não apenas a televisão, mas o comportamento e as canções escolhidas, com muita new wave brasileira, mas também duas lindas faixas do Echo and the Bunnymen. O que não quer dizer que também não haja uma trilha sonora original ótima, que se destaca principalmente nos momentos mais dramáticos e sombrios do filme. Claro que é possível encontrar alguns problemas nas interpretações e no roteiro, mas são coisas que podem ser relevadas diante de um todo brilhante.
Embora o maior mérito seja de Rezende, o cineasta está rodeado de técnicos ilustres: Lula Carvalho como diretor de fotografia, Luiz Bolognesi como roteirista, Marcio Hashimoto como montador, Cassio Amarante na direção de arte, além de um elenco de apoio muito bom - como esquecer de uma cena do Brichta com a Leandra Leal em um restaurante? Aliás, como esquecer tantas cenas memoráveis de BINGO? É o tipo de filme que merece ser revisto, até para prestarmos mais atenção nos detalhes que em uma primeira vez pode passar.
Ser um editor de filmes de sucesso de público deve ter lhe dado uma sábia compreensão do que se deve fazer para que um filme flua bem. Em BINGO - O REI DAS MANHÃS (2017), sua estreia na direção de longas-metragens, não parece haver nenhuma gordura. Tudo no filme está ali muito bem amarradinho. Difícil perder o interesse em algum momento. E não só porque é uma obra que fala de assuntos que interessam a quem viveu os anos 1980 e assistia o programa do Bozo, embora tenha um sabor especial para aqueles que testemunharam aqueles anos de exageros.
Provavelmente vão dizer que BINGO é pouco "brasileiro", mas, puxa, que baita filme. Sem falar que há sim muita coisa de brasileiro nele. Se não na estrutura, que é mais clássica e que lembra bastante o cinema americano, mas na história em si, que é toda nossa, na incrível adaptação do palhaço gringo Bozo em terras tupiniquins. E por mais que tenham mudado o nome do palhaço para Bingo por problemas com direitos, foi muito positivo o diretor Daniel Rezende ter mudado o nome do palhaço e também o do ator que o interpreta, que aqui não se chama Arlindo Barreto, mas Augusto Mendes, e é vivido de maneira inspirada por Vladimir Brichta, de modo que possa estar mais livre para construir uma obra de ficção sem obrigações com a verdade.
O fato de BINGO trafegar por caminhos sombrios é outro aspecto atraente. Até dá pra entender o fato de ter sido a Warner a distribuidora do filme aqui, já que é uma empresa que tem raízes nos filmes de gângster e nunca se desvencilhou totalmente dessa linha mais dark. Como o palhaço é uma figura que também desperta medo em algumas pessoas, há pelo menos um momento em que é explorada essa questão com intensidade. E é uma cena tão forte que é fácil questionar se aquilo aconteceu de verdade com o Arlindo no SBT.
Na trama, Augusto Mendes é um ator de pornochanchada que está separado da esposa e que tem uma relação muito próxima com o filho. Logo no começo do filme, o menino até chega a flagrar um pouco o trabalho do pai dentro daquele universo em que o cinema brasileiro parecia uma versão nua, crua e desbocada do que era representado de forma mais limpa nas telenovelas da Globo. Inclusive, era possível ver algumas das atrizes globais nuas em determinados filmes. Isso fazia parte da graça da época e é representado no filme na figura da ex-esposa de Augusto.
As coisas ficam mais interessantes para o protagonista quando ele, depois de se sentir humilhado com uma ponta em uma novela da Rede Globo (no filme, Mundial), vai parar, sem querer, no teste para ser o palhaço Bingo, em uma das mais caras apostas do SBT, que aqui aparece com outro nome também. E é com sua inteligência e astúcia que ele consegue não só tirar sarro do produtor gringo, como mostrar, à sua maneira, que era preciso adaptar as piadas para o Brasil, se quisesse arrancar o riso e conquistar as crianças.
Mas o que mais encanta no filme é o quanto esse universo de programa infantil é tratado como sendo mais uma fachada para a vida louca de Augusto, que bebia e cheirava muito nos bastidores, além de se envolver em orgias e desfrutar das loucuras que o dinheiro podia comprar. Talvez o ponto fraco do filme seja ter quase que uma obrigação de fazer um arco dramático para redimir o personagem, embora isso seja perfeitamente coerente com um tipo de cinema mais comercial - sem querer colocar nenhuma carga pejorativa no termo.
Outras coisas que divertem e emocionam são as inúmeras referências pop dos anos 1980. Não apenas a televisão, mas o comportamento e as canções escolhidas, com muita new wave brasileira, mas também duas lindas faixas do Echo and the Bunnymen. O que não quer dizer que também não haja uma trilha sonora original ótima, que se destaca principalmente nos momentos mais dramáticos e sombrios do filme. Claro que é possível encontrar alguns problemas nas interpretações e no roteiro, mas são coisas que podem ser relevadas diante de um todo brilhante.
Embora o maior mérito seja de Rezende, o cineasta está rodeado de técnicos ilustres: Lula Carvalho como diretor de fotografia, Luiz Bolognesi como roteirista, Marcio Hashimoto como montador, Cassio Amarante na direção de arte, além de um elenco de apoio muito bom - como esquecer de uma cena do Brichta com a Leandra Leal em um restaurante? Aliás, como esquecer tantas cenas memoráveis de BINGO? É o tipo de filme que merece ser revisto, até para prestarmos mais atenção nos detalhes que em uma primeira vez pode passar.
quinta-feira, agosto 24, 2017
VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS (Valerian and the City of a Thousand Planets)
Luc Besson não é o melhor dos diretores quando o assunto é roteiro, diálogos e dramaticidade. Talvez ele já tenha descoberto que nasceu para um cinema mais pop, mesmo quando faz filmes históricos, como foi o caso de JOANA D’ARC (1999). Seu novo filme, VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS (2017), porém, guarda maior parentesco com um de seus trabalhos mais marcantes, a aventura sci-fi O QUINTO ELEMENTO (1997).
Vinte anos separam os dois filmes, mas há muito em comum neles, principalmente a ambição e o capricho na direção de arte de espaços inventados e incrivelmente belos e coloridos. E podemos dizer isso levando em consideração que chegamos a um momento dos efeitos em CGI que raramente nos impressionam. Felizmente, o filme de Besson tem imagens tão espetaculares que nem mesmo os óculos escuros do 3D conseguem atrapalhar. Ao contrário, é um dos raros exemplares em que a tecnologia soma pontos ao filme.
A produção mais cara da história do cinema francês, ainda que seja uma coprodução com vários outros países, VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é uma adaptação dos quadrinhos franceses nascidos em 1967, o ano mais lisérgico do século. Até por isso, se pensarmos no filme como uma espécie de viagem de ácido, estamos diante de uma das mais bonitas e interessantes experiências visuais e sensoriais dos últimos anos.
O problema é a dificuldade que Besson tem em transformar seus filmes em algo um pouco mais profundo, no que diz respeito à construção dos personagens, aos diálogos (algumas vezes constrangedores) e à narrativa em si, que é bem problemática. Por isso a necessidade de se permitir perder na viagem, a fim de relevar os problemas, que já começam com a própria escolha pouco feliz de trazer Dane DeHann para o papel-título. Por outro lado, a modelo e jovem atriz Cara Delevingne está muito bem no filme, chegando a eclipsar o protagonista com o charme, beleza e inteligência da personagem. Falta química à dupla. Por mais que DeHann seja um dos melhores jovens atores da atualidade, a persona do ator parece não ter combinado com o personagem.
Uma das coisas que mais chama a atenção em VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é a semelhança com o universo e com a trama de STAR WARS. Depois ficamos sabendo que Valérian, os quadrinhos de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, foi uma das maiores influências para a franquia de George Lucas. Há até mesmo um vilão parecidíssimo com Jabba the Hutt. Quanto às apontadas semelhanças dos Pearls de VALERIAN com os Na’vi de AVATAR, talvez isso tenha sido puramente acidental.
Outra coisa que chama a atenção é a ação non-stop, que pode vir tanto desse gosto do próprio Besson pelo cinema de aventura hollywoodiano, como nos próprios quadrinhos de aventura da época, que se caracterizavam por dar pouco espaço para um respiro – no filme, os poucos momentos de tranquilidade são aqueles em que Valerian tenta convencer sua parceira Laureline (Delevigne) a casar com ele. Se por um lado VALERIAN é um filme carente de ordem e de mais liga na construção narrativa, a falta de um roteiro elaborado é compensada por essa bagunça de certa forma divertida. O problema se dá quando a narrativa se aproxima das duas horas de duração e o cansaço é mais do que compreensível.
Ainda assim, é uma pena que VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS tenha tido uma aceitação tão pequena do público, estando já saindo de cartaz rapidamente. Infelizmente, quem não viu vai deixar passar uma oportunidade de ouro de ver um dos mais brilhantes trabalhos de direção de arte e efeitos visuais do cinema contemporâneo na telona. Sem falar nos vários momentos felizes em que o filme efetivamente funciona bem.
Vinte anos separam os dois filmes, mas há muito em comum neles, principalmente a ambição e o capricho na direção de arte de espaços inventados e incrivelmente belos e coloridos. E podemos dizer isso levando em consideração que chegamos a um momento dos efeitos em CGI que raramente nos impressionam. Felizmente, o filme de Besson tem imagens tão espetaculares que nem mesmo os óculos escuros do 3D conseguem atrapalhar. Ao contrário, é um dos raros exemplares em que a tecnologia soma pontos ao filme.
A produção mais cara da história do cinema francês, ainda que seja uma coprodução com vários outros países, VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é uma adaptação dos quadrinhos franceses nascidos em 1967, o ano mais lisérgico do século. Até por isso, se pensarmos no filme como uma espécie de viagem de ácido, estamos diante de uma das mais bonitas e interessantes experiências visuais e sensoriais dos últimos anos.
O problema é a dificuldade que Besson tem em transformar seus filmes em algo um pouco mais profundo, no que diz respeito à construção dos personagens, aos diálogos (algumas vezes constrangedores) e à narrativa em si, que é bem problemática. Por isso a necessidade de se permitir perder na viagem, a fim de relevar os problemas, que já começam com a própria escolha pouco feliz de trazer Dane DeHann para o papel-título. Por outro lado, a modelo e jovem atriz Cara Delevingne está muito bem no filme, chegando a eclipsar o protagonista com o charme, beleza e inteligência da personagem. Falta química à dupla. Por mais que DeHann seja um dos melhores jovens atores da atualidade, a persona do ator parece não ter combinado com o personagem.
Uma das coisas que mais chama a atenção em VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é a semelhança com o universo e com a trama de STAR WARS. Depois ficamos sabendo que Valérian, os quadrinhos de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, foi uma das maiores influências para a franquia de George Lucas. Há até mesmo um vilão parecidíssimo com Jabba the Hutt. Quanto às apontadas semelhanças dos Pearls de VALERIAN com os Na’vi de AVATAR, talvez isso tenha sido puramente acidental.
Outra coisa que chama a atenção é a ação non-stop, que pode vir tanto desse gosto do próprio Besson pelo cinema de aventura hollywoodiano, como nos próprios quadrinhos de aventura da época, que se caracterizavam por dar pouco espaço para um respiro – no filme, os poucos momentos de tranquilidade são aqueles em que Valerian tenta convencer sua parceira Laureline (Delevigne) a casar com ele. Se por um lado VALERIAN é um filme carente de ordem e de mais liga na construção narrativa, a falta de um roteiro elaborado é compensada por essa bagunça de certa forma divertida. O problema se dá quando a narrativa se aproxima das duas horas de duração e o cansaço é mais do que compreensível.
Ainda assim, é uma pena que VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS tenha tido uma aceitação tão pequena do público, estando já saindo de cartaz rapidamente. Infelizmente, quem não viu vai deixar passar uma oportunidade de ouro de ver um dos mais brilhantes trabalhos de direção de arte e efeitos visuais do cinema contemporâneo na telona. Sem falar nos vários momentos felizes em que o filme efetivamente funciona bem.
terça-feira, agosto 22, 2017
CINCO FILMES VISTOS NO CINE CEARÁ 2017
Curiosa a escolha dos filmes da mostra competitiva de longas-metragens da 27ª edição do Cine Ceará. Terá sido uma coincidência ou foi mesmo proposital a escolha de títulos que abordam, seja de maneira mais aprofundada ou apenas tangencial, a questão das relações homoafetivas e das complexidades da diversidade sexual na sociedade? Dos sete filmes que concorreram à categoria de longa-metragem, apenas os dois brasileiros não abordaram o tema: MALASARTES E O DUELO COM A MORTE, de Paulo Morelli, e PEDRO SOB A CAMA, de Paulo Pons. São dois filmes totalmente distintos em tamanho e em intenção que ficarão de fora desta discussão, por não se afinarem com a característica central dos demais títulos. Então, falemos dos outros cinco filmes, vindos de países como Chile, Argentina, Cuba e República Dominicana.
UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica)
UMA MULHER FANTÁSTICA (2017, foto), de Sebastián Lelio, diretor de GLORIA (2013), é desses filmes que tem como principal mérito a capacidade de deixar o espectador muito interessado em acompanhar a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual, em seu calvário, após perder o amante/companheiro, vítima de um aneurisma. Como aquele homem que se foi representava para ela o mais próximo que conseguira chegar de uma aceitação como mulher pela sociedade, o que vem a seguir é uma série de situações de humilhação e agressão, vindas principalmente da família do ex-companheiro. A busca de dignidade é o que move a personagem e a principal bandeira que o filme levanta. Apesar de nem sempre acertar e de utilizar algumas metáforas óbvias em certos momentos, o vigor de UMA MULHER FANTÁSTICA o destaca como uma obra que tende a alcançar um público maior do que os seus concorrentes.
NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (Nadie Nos Mira)
Ao contrário de UMA MULHER FANTÁSTICA, que é um filme que lida com as emoções de maneira bem pouco moderada, NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (2017), da diretora Julia Solomonoff (O ÚLTIMO VERÃO DE LA BOYITA, 2009), é um exemplo de sobriedade na construção narrativa, ao lidar com as questões do êxito e do fracasso a partir de expectativas criadas principalmente pelo seu protagonista. Diferente do filme anteriormente citado, Ninguém Está Olhando não mostra uma sociedade que se incomoda com o indivíduo; é exatamente o oposto que acontece: vemos o personagem invisível, um latino que não tem o estereótipo do latino, vivendo em uma metrópole, Nova York, que já se caracteriza por sua pluralidade de indivíduos. Na trama, Nico (Guillermo Pfening), ator bem-sucedido na Argentina, tenta a sorte nos Estados Unidos, passando por uma série de frustrações que o levam a um sentimento de desalento. Em NINGUÉM ESTÁ OLHANDO, a questão das relações homoafetivas se dá de maneira mais sutil, já que o protagonista gasta pouco de seu tempo em aventuras com outros homens e lida muito mais com suas angústias e necessidades profissionais. O que mais pesa, positivamente, no filme é o seu teor universal. NINGUÉM ESTÁ OLHANDO foi o grande vencedor do Cine Ceará 2017, tendo sido premiado nas categorias de melhor longa-metragem pelo júri oficial e pelo júri da crítica e de melhor ator.,
SANTA E ANDRÉS (Santa y Andrés)
Duas produções de Cuba chegam com a intenção de questionar certas condutas hediondas do governo de Fidel relacionadas aos homossexuais. O primeiro deles, SANTA E ANDRÉS (2016), de Carlos Lechuga, é mais enfático, tanto que o filme, apesar de realizado com o aval do Estado, teve exibição proibida em Cuba, mesmo com sua história ambientada no início dos anos 1980, quando, provavelmente, a intolerância era maior. Na trama, Santa (Lola Amores, vencedora do prêmio de melhor atriz no festival) é uma camponesa revolucionária que tem como missão vigiar Andrés, um escritor homossexual que mora pelos arredores e que pode atrapalhar um evento oficial importante, fazendo reclamações à imprensa sobre os maus tratos sofridos e a censura que lhe é imposta. Mas o mais importante do filme nem são as questões políticas, mas a relação que se constrói aos poucos e com muita habilidade por parte do diretor entre esse dois personagens com diferentes pontos de vista. Esse mérito, de saber construir no tempo certo o relacionamento dos dois, junto com diálogos bem construídos e silêncios bem pautados, é louvável.
ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA (Últimos Días en la Habana)
A segunda produção cubana do festival, ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA, de Fernando Pérez, é mais uma que não pega leve com o regime de Fidel, embora não seja tão enfática quanto Santa e Andrés do ponto de vista político. Há também um personagem homossexual em condições de vida bem sofridas. Diego, vivido por Jorge Martinez, está acamado e em situação grave ocasionada pela AIDS. Mesmo sem poder sair do quarto, ele conserva seu senso de humor e sua vontade de ter uma relação sexual com algum rapaz. Diego divide o apartamento com o amigo Miguel (Patricio Wood), um homem sério e sisudo que sonha em largar o país e ir embora para os Estados Unidos. Últimos Dias em Havana é um filme que se balança entre a leveza de seu bom humor e o melodrama, que surge especialmente perto do final. Contam pontos a favor do filme a ambientação, em um condomínio pobre e sem água encanada, e a dinâmica dos personagens, sejam os protagonistas, seja o elenco de apoio.
O HOMEM QUE CUIDA (El Hombre Que Cuida)
Quanto a O HOMEM QUE CUIDA (2017), de Alejandro Andújar, o representante da República Dominicana, ele apenas tangencia a questão do desejo, na pessoa de um dos personagens jovens, o filho do dono da casa, que se diz bastante interessado na bela e jovem vizinha, mas cuja pouca iniciativa e comportamento estranho (e às vezes violento) faz com que percebamos quase uma tendência à negação da sexualidade. Um dos destaques do filme é a bela fotografia em cores vivas, junto com uma direção de arte bem trabalhada em um ambiente tão simples, uma casa de praia. Trata-se de um filme que lida com uma situação bastante familiar a nós, brasileiros: a exploração das classes trabalhadoras pela elite econômica. Talvez falte ao filme uma maior força na construção do protagonista, o que resulta em uma dificuldade de empatia com o público, mas isso é compensado no modo como são apresentados os jovens que chegam à casa de praia para se divertir às escondidas do dono do lugar.
A presença de vários filmes sobre a temática LGBT, numa amostragem tão pequena como a da competição do Cine Ceará, talvez se deva aos debates atualmente mais intensos sobre o assunto, bem como à resistência dos grupos mais progressistas frente à insurgência cada vez maior de uma ala mais conservadora da sociedade. Neste cenário, há até mesmo espaço para um filme protagonizado por uma atriz trans (UMA MULHER FANTÁSTICA), e não um ator ou atriz representando o papel. Isso representa um avanço e tanto. Como diria Bob Dylan, “os tempos, eles estão mudando”.
Texto originalmente publicado no site da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema
UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica)
UMA MULHER FANTÁSTICA (2017, foto), de Sebastián Lelio, diretor de GLORIA (2013), é desses filmes que tem como principal mérito a capacidade de deixar o espectador muito interessado em acompanhar a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual, em seu calvário, após perder o amante/companheiro, vítima de um aneurisma. Como aquele homem que se foi representava para ela o mais próximo que conseguira chegar de uma aceitação como mulher pela sociedade, o que vem a seguir é uma série de situações de humilhação e agressão, vindas principalmente da família do ex-companheiro. A busca de dignidade é o que move a personagem e a principal bandeira que o filme levanta. Apesar de nem sempre acertar e de utilizar algumas metáforas óbvias em certos momentos, o vigor de UMA MULHER FANTÁSTICA o destaca como uma obra que tende a alcançar um público maior do que os seus concorrentes.
NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (Nadie Nos Mira)
Ao contrário de UMA MULHER FANTÁSTICA, que é um filme que lida com as emoções de maneira bem pouco moderada, NINGUÉM ESTÁ OLHANDO (2017), da diretora Julia Solomonoff (O ÚLTIMO VERÃO DE LA BOYITA, 2009), é um exemplo de sobriedade na construção narrativa, ao lidar com as questões do êxito e do fracasso a partir de expectativas criadas principalmente pelo seu protagonista. Diferente do filme anteriormente citado, Ninguém Está Olhando não mostra uma sociedade que se incomoda com o indivíduo; é exatamente o oposto que acontece: vemos o personagem invisível, um latino que não tem o estereótipo do latino, vivendo em uma metrópole, Nova York, que já se caracteriza por sua pluralidade de indivíduos. Na trama, Nico (Guillermo Pfening), ator bem-sucedido na Argentina, tenta a sorte nos Estados Unidos, passando por uma série de frustrações que o levam a um sentimento de desalento. Em NINGUÉM ESTÁ OLHANDO, a questão das relações homoafetivas se dá de maneira mais sutil, já que o protagonista gasta pouco de seu tempo em aventuras com outros homens e lida muito mais com suas angústias e necessidades profissionais. O que mais pesa, positivamente, no filme é o seu teor universal. NINGUÉM ESTÁ OLHANDO foi o grande vencedor do Cine Ceará 2017, tendo sido premiado nas categorias de melhor longa-metragem pelo júri oficial e pelo júri da crítica e de melhor ator.,
SANTA E ANDRÉS (Santa y Andrés)
Duas produções de Cuba chegam com a intenção de questionar certas condutas hediondas do governo de Fidel relacionadas aos homossexuais. O primeiro deles, SANTA E ANDRÉS (2016), de Carlos Lechuga, é mais enfático, tanto que o filme, apesar de realizado com o aval do Estado, teve exibição proibida em Cuba, mesmo com sua história ambientada no início dos anos 1980, quando, provavelmente, a intolerância era maior. Na trama, Santa (Lola Amores, vencedora do prêmio de melhor atriz no festival) é uma camponesa revolucionária que tem como missão vigiar Andrés, um escritor homossexual que mora pelos arredores e que pode atrapalhar um evento oficial importante, fazendo reclamações à imprensa sobre os maus tratos sofridos e a censura que lhe é imposta. Mas o mais importante do filme nem são as questões políticas, mas a relação que se constrói aos poucos e com muita habilidade por parte do diretor entre esse dois personagens com diferentes pontos de vista. Esse mérito, de saber construir no tempo certo o relacionamento dos dois, junto com diálogos bem construídos e silêncios bem pautados, é louvável.
ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA (Últimos Días en la Habana)
A segunda produção cubana do festival, ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA, de Fernando Pérez, é mais uma que não pega leve com o regime de Fidel, embora não seja tão enfática quanto Santa e Andrés do ponto de vista político. Há também um personagem homossexual em condições de vida bem sofridas. Diego, vivido por Jorge Martinez, está acamado e em situação grave ocasionada pela AIDS. Mesmo sem poder sair do quarto, ele conserva seu senso de humor e sua vontade de ter uma relação sexual com algum rapaz. Diego divide o apartamento com o amigo Miguel (Patricio Wood), um homem sério e sisudo que sonha em largar o país e ir embora para os Estados Unidos. Últimos Dias em Havana é um filme que se balança entre a leveza de seu bom humor e o melodrama, que surge especialmente perto do final. Contam pontos a favor do filme a ambientação, em um condomínio pobre e sem água encanada, e a dinâmica dos personagens, sejam os protagonistas, seja o elenco de apoio.
O HOMEM QUE CUIDA (El Hombre Que Cuida)
Quanto a O HOMEM QUE CUIDA (2017), de Alejandro Andújar, o representante da República Dominicana, ele apenas tangencia a questão do desejo, na pessoa de um dos personagens jovens, o filho do dono da casa, que se diz bastante interessado na bela e jovem vizinha, mas cuja pouca iniciativa e comportamento estranho (e às vezes violento) faz com que percebamos quase uma tendência à negação da sexualidade. Um dos destaques do filme é a bela fotografia em cores vivas, junto com uma direção de arte bem trabalhada em um ambiente tão simples, uma casa de praia. Trata-se de um filme que lida com uma situação bastante familiar a nós, brasileiros: a exploração das classes trabalhadoras pela elite econômica. Talvez falte ao filme uma maior força na construção do protagonista, o que resulta em uma dificuldade de empatia com o público, mas isso é compensado no modo como são apresentados os jovens que chegam à casa de praia para se divertir às escondidas do dono do lugar.
A presença de vários filmes sobre a temática LGBT, numa amostragem tão pequena como a da competição do Cine Ceará, talvez se deva aos debates atualmente mais intensos sobre o assunto, bem como à resistência dos grupos mais progressistas frente à insurgência cada vez maior de uma ala mais conservadora da sociedade. Neste cenário, há até mesmo espaço para um filme protagonizado por uma atriz trans (UMA MULHER FANTÁSTICA), e não um ator ou atriz representando o papel. Isso representa um avanço e tanto. Como diria Bob Dylan, “os tempos, eles estão mudando”.
Texto originalmente publicado no site da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema
domingo, agosto 20, 2017
ANNABELLE 2 - A CRIAÇÃO DO MAL (Annabelle - Creation)
Em tempos de discussão sobre o pós-terror, ver um filme que dialoga com o terror tradicional como ANNABELLE 2 - A CRIAÇÃO DO MAL (2017) quase passa a impressão de estarmos vendo uma obra ultrapassada. Mas será que é mesmo verdade? De todo modo, não deixa de ser admirável o quanto o diretor David F. Sandberg conseguiu transformar um roteiro banal em algo elegante na construção formal e que sabe equilibrar a sutileza de mostrar o mal aos poucos, no começo do filme, até ter que mostrá-lo de forma explícita em seu terceiro ato.
Sabemos que o primeiro filme sobre a boneca Annabelle já havia sido feito para explorar o sucesso que a criatura teve em INVOCAÇÃO DO MAL (2013). Mas os produtores, entre eles o cineasta James Wan, um dos grandes diretores do gênero na atualidade, souberam fazer de ANNABELLE (2014), dirigido por John R. Leonetti, uma obra bem decente e com seus encantos, embora pouco memorável.
Com um cineasta melhor, como é o caso de Sandberg, de QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016), a tendência seria mesmo uma obra melhor, mais caprichada, pelo menos na condução narrativa. E assim ocorreu, por mais que saibamos que o teor caça-níquel seja ainda maior ao buscar um novo prequel, já que o primeiro ANNABELLE já era uma apresentação de fatos que antecederam o filme de Wan. Aqui voltamos à verdadeira origem da boneca.
Felizmente, o modo como o diretor Sandberg e o roteirista Gary Dauberman resolvem contar essa história é bem satisfatória. Somos apresentados inicialmente a uma família composta por um pai (Anthony LaPaglia), uma mãe (Miranda Otto) e uma garotinha, filha deles (Samara Lee). O modo como eles a perdem é brutal e funciona como um prólogo muito bom para a verdadeira história que viria a seguir, passando-se 12 anos após o trágico evento.
Assim, conhecemos um grupo de meninas que serão abrigadas em uma casa que funcionará como orfanato. As meninas que mais contarão para o espectador são as mais jovens, Linda (Lulu Wilson) e Janice (Thalita Bateman). Esta segunda convive com uma sequela da poliomielite e tem dificuldade de locomoção. As duas são muito amigas e sonham em ser adotadas pela mesma família, para que sejam, oficialmente, irmãs. Há a personagem de uma amável freira que cuida das meninas (Stephanie Sigman) e as demais meninas mais velhas, que já pensam em garotos e namoros, mesmo estando em um ambiente totalmente distante desse tipo de tentação.
E o filme prefere não adicionar personagens masculinos, o que acaba por ser uma boa escolha, já que isso dá mais mais força às várias personagens, mesmo à misteriosa Sra. Mullins (Miranda Otto), que vive o tempo todo trancada em um quarto, sem ser vista pelos demais habitantes do novo orfanato.
Há um cuidado especial na apresentação da casa, no quanto ela é grande e composta por lugares proibidos, como o quarto dos Mullins e, principalmente, o quarto onde habitava a garotinha morta Bee. O horror propriamente dito já começa no silêncio, ou melhor, no ainda não-dito, mas já sabido pelos espectadores, que é o fato de que aquela casa tem uma energia negativa. Aos poucos, pequenos eventos como janelas que se abrem sozinhas ou coisas do tipo vão ajudando a compor a narrativa de horror.
As explicações sobre o porquê de haver um mal naquela boneca são rápidas, mas funcionam, embora o mais importante seja o quanto a direção sabe lidar com os ataques que as forças malignas impõem às crianças, aproveitando-se de sua inocência e curiosidade. Há uma opção por evitar sustos fáceis, o que fornece mais dignidade à obra, embora estejamos diante de uma série de convenções que os filmes de horror trataram de usar como códigos ao longo dos anos. Os próprios movimentos de câmera já antecipam que o que veremos a seguir é algo assustador.
Para o bem e para o mal, isso funciona, levando em consideração que estamos diante de um filme que oferece ao público aquilo que ele espera encontrar. O espectador até mesmo já sabe que, mais cedo ou mais tarde, verá a figura de uma freira maligna, que foi apresentada em INVOCAÇÃO DO MAL 2 (2016), e que até ganhará também um filme spin-off, THE NUN (2018), a ser dirigido por Corin Hardy (A MALDIÇÃO DA FLORESTA, 2015). Ou seja, estamos diante de uma franquia que não se diferencia muito dos filmes de super-heróis da Marvel, havendo até mesmo uma cena pós-créditos. Ao menos é uma franquia que tem sido tratada com carinho por seus realizadores. Que continue assim.
Sabemos que o primeiro filme sobre a boneca Annabelle já havia sido feito para explorar o sucesso que a criatura teve em INVOCAÇÃO DO MAL (2013). Mas os produtores, entre eles o cineasta James Wan, um dos grandes diretores do gênero na atualidade, souberam fazer de ANNABELLE (2014), dirigido por John R. Leonetti, uma obra bem decente e com seus encantos, embora pouco memorável.
Com um cineasta melhor, como é o caso de Sandberg, de QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016), a tendência seria mesmo uma obra melhor, mais caprichada, pelo menos na condução narrativa. E assim ocorreu, por mais que saibamos que o teor caça-níquel seja ainda maior ao buscar um novo prequel, já que o primeiro ANNABELLE já era uma apresentação de fatos que antecederam o filme de Wan. Aqui voltamos à verdadeira origem da boneca.
Felizmente, o modo como o diretor Sandberg e o roteirista Gary Dauberman resolvem contar essa história é bem satisfatória. Somos apresentados inicialmente a uma família composta por um pai (Anthony LaPaglia), uma mãe (Miranda Otto) e uma garotinha, filha deles (Samara Lee). O modo como eles a perdem é brutal e funciona como um prólogo muito bom para a verdadeira história que viria a seguir, passando-se 12 anos após o trágico evento.
Assim, conhecemos um grupo de meninas que serão abrigadas em uma casa que funcionará como orfanato. As meninas que mais contarão para o espectador são as mais jovens, Linda (Lulu Wilson) e Janice (Thalita Bateman). Esta segunda convive com uma sequela da poliomielite e tem dificuldade de locomoção. As duas são muito amigas e sonham em ser adotadas pela mesma família, para que sejam, oficialmente, irmãs. Há a personagem de uma amável freira que cuida das meninas (Stephanie Sigman) e as demais meninas mais velhas, que já pensam em garotos e namoros, mesmo estando em um ambiente totalmente distante desse tipo de tentação.
E o filme prefere não adicionar personagens masculinos, o que acaba por ser uma boa escolha, já que isso dá mais mais força às várias personagens, mesmo à misteriosa Sra. Mullins (Miranda Otto), que vive o tempo todo trancada em um quarto, sem ser vista pelos demais habitantes do novo orfanato.
Há um cuidado especial na apresentação da casa, no quanto ela é grande e composta por lugares proibidos, como o quarto dos Mullins e, principalmente, o quarto onde habitava a garotinha morta Bee. O horror propriamente dito já começa no silêncio, ou melhor, no ainda não-dito, mas já sabido pelos espectadores, que é o fato de que aquela casa tem uma energia negativa. Aos poucos, pequenos eventos como janelas que se abrem sozinhas ou coisas do tipo vão ajudando a compor a narrativa de horror.
As explicações sobre o porquê de haver um mal naquela boneca são rápidas, mas funcionam, embora o mais importante seja o quanto a direção sabe lidar com os ataques que as forças malignas impõem às crianças, aproveitando-se de sua inocência e curiosidade. Há uma opção por evitar sustos fáceis, o que fornece mais dignidade à obra, embora estejamos diante de uma série de convenções que os filmes de horror trataram de usar como códigos ao longo dos anos. Os próprios movimentos de câmera já antecipam que o que veremos a seguir é algo assustador.
Para o bem e para o mal, isso funciona, levando em consideração que estamos diante de um filme que oferece ao público aquilo que ele espera encontrar. O espectador até mesmo já sabe que, mais cedo ou mais tarde, verá a figura de uma freira maligna, que foi apresentada em INVOCAÇÃO DO MAL 2 (2016), e que até ganhará também um filme spin-off, THE NUN (2018), a ser dirigido por Corin Hardy (A MALDIÇÃO DA FLORESTA, 2015). Ou seja, estamos diante de uma franquia que não se diferencia muito dos filmes de super-heróis da Marvel, havendo até mesmo uma cena pós-créditos. Ao menos é uma franquia que tem sido tratada com carinho por seus realizadores. Que continue assim.
sexta-feira, agosto 18, 2017
AS IRMÃS DE GION (Gion No Shimai)
Ter visto apenas cinco filmes de Kenji Mizoguchi é muito pouco, se pensarmos em uma carreira longa, que inclui vários filmes da época do cinema mudo, provavelmente alguns perdidos, mas se pensar que em 2016 pude ver quatro filmes deste fantástico cineasta, já é motivo para comemorar. Até porque cada filme visto é uma descoberta de uma nova joia. Pela amostragem até então feita por mim, todos os filmes vistos eram todos dos anos 1950, sua última década de vida e a década com mais filmes cultuados.
E como neste período sua tendência era a criação de filmes que explorassem a tragédia de uma maneira mais intensa e exacerbada, não deixa de ser feliz e mais suave poder ver AS IRMÃS DE GION (1936), que tem um registro mais leve, embora seja mais uma obra que lida com sensibilidade com o drama das mulheres na sociedade japonesa. Em especial o drama das gueixas, que seria visto com muito mais tristeza e desencanto em A VIDA DE O'HARU (1952). Como meu conhecimento da obra de Mizoguchi é ainda muito restrito, acredito que ainda vou topar com outros filmes que abordam a situação da gueixa.
Mas uma coisa já podemos dizer: em 1936 Mizoguchi já era o cara! Em AS IRMÃS DE GION (1936), a trama até lembra um pouco os romances de Jane Austen, só que transposta para o mundo das gueixas. E a personagem mais fascinante é justamente a gueixa manipuladora, a irmã mais jovem das duas, a mais bonita. A outra, um pouco mais apagada e triste, se deixa levar pelo amor que sente por um velho homem falido. A trama é contada de maneira breve e é impressionante. Há também umas tomadas bem ousadas, um pouco longas e cheias de força e significado. Por isso, desde o começo há sempre a impressão de que estamos vendo algo muito especial. E de fato estamos.
A marcante fala final da personagem mais jovem, Omocha (Usuzu Yamada), sobre o absurdo de existir a profissão de gueixa, depois de ela passar por uma situação terrível, é certamente a expressão de uma indignação do próprio cineasta, que nunca se conformou com o fato de terem vendido sua irmã para uma casa de gueixas quando a família estava passando por uma situação financeira muito delicada. O tratamento brutal de seu pai com sua mãe e sua irmã também foram fundamentais para que ele defendesse sempre as mulheres em seus filmes. Sentimos esse amor e esse cuidado em cada um de seus filmes, mesmo aqueles em que os protagonistas são principalmente os homens.
Em AS IRMÃS DE GION há espaço para o amor para as duas irmãs retratadas. Por mais que a mais velha, Umekichi (Yôko Umemura), possa seja julgada como boba por boa parte da plateia pelo seu total desapego ao dinheiro e total amor por um homem que nada tem a lhe dar de conforto, já que está falido financeiramente, não é assim que Mizoguchi a apresenta, embora sua melancolia diminua bastante sua luz e a personagem da irmã mais nova, cheia de truques para ser esperta em um mundo de homens, seja muito mais fascinante. Devia já ser nos anos 1930, continua sendo nos dias de hoje. Quanta beleza esse cineasta foi capaz de extrair em forma de arte de seu sofrimento pessoal e de sua empatia com as mulheres.
E como neste período sua tendência era a criação de filmes que explorassem a tragédia de uma maneira mais intensa e exacerbada, não deixa de ser feliz e mais suave poder ver AS IRMÃS DE GION (1936), que tem um registro mais leve, embora seja mais uma obra que lida com sensibilidade com o drama das mulheres na sociedade japonesa. Em especial o drama das gueixas, que seria visto com muito mais tristeza e desencanto em A VIDA DE O'HARU (1952). Como meu conhecimento da obra de Mizoguchi é ainda muito restrito, acredito que ainda vou topar com outros filmes que abordam a situação da gueixa.
Mas uma coisa já podemos dizer: em 1936 Mizoguchi já era o cara! Em AS IRMÃS DE GION (1936), a trama até lembra um pouco os romances de Jane Austen, só que transposta para o mundo das gueixas. E a personagem mais fascinante é justamente a gueixa manipuladora, a irmã mais jovem das duas, a mais bonita. A outra, um pouco mais apagada e triste, se deixa levar pelo amor que sente por um velho homem falido. A trama é contada de maneira breve e é impressionante. Há também umas tomadas bem ousadas, um pouco longas e cheias de força e significado. Por isso, desde o começo há sempre a impressão de que estamos vendo algo muito especial. E de fato estamos.
A marcante fala final da personagem mais jovem, Omocha (Usuzu Yamada), sobre o absurdo de existir a profissão de gueixa, depois de ela passar por uma situação terrível, é certamente a expressão de uma indignação do próprio cineasta, que nunca se conformou com o fato de terem vendido sua irmã para uma casa de gueixas quando a família estava passando por uma situação financeira muito delicada. O tratamento brutal de seu pai com sua mãe e sua irmã também foram fundamentais para que ele defendesse sempre as mulheres em seus filmes. Sentimos esse amor e esse cuidado em cada um de seus filmes, mesmo aqueles em que os protagonistas são principalmente os homens.
Em AS IRMÃS DE GION há espaço para o amor para as duas irmãs retratadas. Por mais que a mais velha, Umekichi (Yôko Umemura), possa seja julgada como boba por boa parte da plateia pelo seu total desapego ao dinheiro e total amor por um homem que nada tem a lhe dar de conforto, já que está falido financeiramente, não é assim que Mizoguchi a apresenta, embora sua melancolia diminua bastante sua luz e a personagem da irmã mais nova, cheia de truques para ser esperta em um mundo de homens, seja muito mais fascinante. Devia já ser nos anos 1930, continua sendo nos dias de hoje. Quanta beleza esse cineasta foi capaz de extrair em forma de arte de seu sofrimento pessoal e de sua empatia com as mulheres.
segunda-feira, agosto 14, 2017
O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (The Beguiled)
Embora possamos dizer que O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (2017), de Sofia Coppola, é uma nova releitura do romance pouco conhecido de Thomas Cullinan, o mesmo que deu origem ao filme homônimo de Don Siegel de 1971, é muito difícil acreditar que as intenções de Sofia não fossem a de colocar seu trabalho junto ao longa estrelado por Clint Eastwood, trazendo questões pertinentes ligadas à força da mulher na sociedade machista construída ao longo dos séculos.
Assim, parece complicado se desligar da versão de Siegel, até pelo impacto, como thriller, que a produção setentista tem até hoje, embora quem não viu o filme de Siegel até possa ver a versão de Coppola como algo à parte, único, independente. A intenção da diretora parece ser provocar, mudar o ponto de vista da trama. Não vemos mais a história pelos olhos do soldado ianque ferido que é desejado por mulheres de todas as idades de um internato de garotas na Virginia, na época da Guerra Civil Americana. No filme de Siegel, ele consegue tirar proveito dessa situação, como se estivesse numa loja de doces. Ao mesmo tempo, o que acontece a seguir com ele é um pesadelo terrível.
O trailer da nova versão, ganhadora do prêmio de melhor direção em Cannes, infelizmente não soube esconder a parte trágica do que acontece com o tal soldado quando ele adentra aquele território de mulheres que se veem mudadas e excitadas com sua presença. Em entrevista, Sofia Coppola disse que fez seu filme para as mulheres e para seus amigos gays. Faz sentido, principalmente na cena em que Nicole Kidman, a dona do internato, banha o corpo nu e inconsciente do soldado (Colin Farrell) e sente o calor do desejo.
Três gerações de atrizes - Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning - se comportam de maneira diferente diante daquele homem. Mas todas elas se sentem bastante atraídas por ele. A mais velha parece ter uma reputação a zelar, mas tenta se aproveitar do fato de mandar naquele lugar; a do meio vê naquele homem uma passagem para a felicidade do amor romântico; já a mais jovem é impulsiva o suficiente para jogar o seu charme e avançar o sinal sem a menor culpa.
Por mais que estejamos diante de um filme que trata do desejo de diferentes mulheres por um homem, O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS é também um filme sobre o corpo objetificado de um homem, de como a aparente fragilidade feminina pode esconder uma força - e até uma maldade - que o homem não imagina que terá que sofrer. Trata-se de uma obra feminista, como já era o primeiro trabalho da diretora, AS VIRGENS SUICIDAS (1999), mas é também um filme que procura sua própria beleza nas imagens através da luz natural da fotografia de Philippe Le Sourd, dos figurinos sóbrios das moças do internato, em um colorido "feminino" que também sabe lidar muito bem com o vermelho vivo. O que é natural. Afinal, a mulher não sangra todo mês?
Assim, parece complicado se desligar da versão de Siegel, até pelo impacto, como thriller, que a produção setentista tem até hoje, embora quem não viu o filme de Siegel até possa ver a versão de Coppola como algo à parte, único, independente. A intenção da diretora parece ser provocar, mudar o ponto de vista da trama. Não vemos mais a história pelos olhos do soldado ianque ferido que é desejado por mulheres de todas as idades de um internato de garotas na Virginia, na época da Guerra Civil Americana. No filme de Siegel, ele consegue tirar proveito dessa situação, como se estivesse numa loja de doces. Ao mesmo tempo, o que acontece a seguir com ele é um pesadelo terrível.
O trailer da nova versão, ganhadora do prêmio de melhor direção em Cannes, infelizmente não soube esconder a parte trágica do que acontece com o tal soldado quando ele adentra aquele território de mulheres que se veem mudadas e excitadas com sua presença. Em entrevista, Sofia Coppola disse que fez seu filme para as mulheres e para seus amigos gays. Faz sentido, principalmente na cena em que Nicole Kidman, a dona do internato, banha o corpo nu e inconsciente do soldado (Colin Farrell) e sente o calor do desejo.
Três gerações de atrizes - Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning - se comportam de maneira diferente diante daquele homem. Mas todas elas se sentem bastante atraídas por ele. A mais velha parece ter uma reputação a zelar, mas tenta se aproveitar do fato de mandar naquele lugar; a do meio vê naquele homem uma passagem para a felicidade do amor romântico; já a mais jovem é impulsiva o suficiente para jogar o seu charme e avançar o sinal sem a menor culpa.
Por mais que estejamos diante de um filme que trata do desejo de diferentes mulheres por um homem, O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS é também um filme sobre o corpo objetificado de um homem, de como a aparente fragilidade feminina pode esconder uma força - e até uma maldade - que o homem não imagina que terá que sofrer. Trata-se de uma obra feminista, como já era o primeiro trabalho da diretora, AS VIRGENS SUICIDAS (1999), mas é também um filme que procura sua própria beleza nas imagens através da luz natural da fotografia de Philippe Le Sourd, dos figurinos sóbrios das moças do internato, em um colorido "feminino" que também sabe lidar muito bem com o vermelho vivo. O que é natural. Afinal, a mulher não sangra todo mês?
sexta-feira, agosto 11, 2017
CORPO ELÉTRICO
E a primeira sessão organizada pela Aceccine (Associação Cearense de Críticos de Cinema) foi um sucesso. O filme escolhido, e exibido no último domingo, dia 6, foi CORPO ELÉTRICO (2017), de Marcelo Caetano. A sessão, lotada e com muita gente que ficou de fora, sem poder assistir a essa première, contou com a presença do diretor para um debate muito enriquecedor sobre a obra e sobre as questões que ela levanta.
Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor, que já trabalhou como assistente de direção de cineastas como Kiko Goifman, Hilton Lacerda, Gabriel Mascaro e Anna Muylaert. Logo, ele faz parte dessa nova geração de ótimos realizadores que trazem uma saudável inquietação para a tela e, em consequência, para a audiência.
O diretor, no debate, comentou que assistiu bastante FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach, como um exemplo de trabalho que dialoga bastante com o seu filme – Caetano afirmou que seu filme-farol é ANJOS DO ARRABALDE, também do Carlão. Assim, no que se refere ao trabalho em uma fábrica e à busca urgente do prazer no pouco tempo livre que resta a esses personagens, há, sim, uma conversa com esses dois cinemas que demonstram amor pelos menos favorecidos pela sociedade e que trabalham por muitas e muitas horas diariamente.
Diferente do cinema de Carlão, no entanto, o trabalho de Caetano tem uma preocupação (ou interesse natural) por um tipo de cinema-verdade, que flerta com o documentário e de diálogos mais realistas. A primeira cena, em que vemos o protagonista Elias (Kelner Macêdo) contando um sonho que teve envolvendo o mar traz uma intimidade que conquista e fascina o espectador logo no início, e que demarca o território de aproximação de corpos que será uma constante em todo o filme, a partir da relação que Elias estabelece com o universo ao redor.
Há quem vá estranhar no filme o modo como os personagens se aproximam uns dos outros de maneira tão intensa, ainda mais levando em consideração que há uma intenção de dar voz aos grupos gays mais marginalizados, como é o caso, principalmente, do núcleo familiar de Wellington (Lucas Andrade), constituído de pessoas que trabalham no entretenimento da noite, nas boates. O filme, inclusive, traz nomes como Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada e outras conhecidas de quem acompanha o trabalho de transformistas da noite paulistana.
O filme frustra algumas expectativas, o que sinaliza um flerte com a vida real. Há, por exemplo, o caso do migrante africano que chega até a fábrica e que desperta o desejo de Elias mas que é algo que acaba não se concretizando. Há uma fuga do amor romântico em todo o filme, tipo de amor que seria opressor, segundo o diretor.
No entanto, a alegria de viver e a liberdade de estar com quem quiser de Elias acabam, eventualmente, trombando com uma melancolia que nasce dessa necessidade (e dessa facilidade) que o personagem tem de estar sempre perto de alguém – não necessariamente em busca de sexo fácil - e isso funciona como uma mola para que a conclusão seja carregada de uma espécie de medo de Elias de não querer ficar só. Mas isso só torna a obra ainda mais rica e complexamente interessante.
Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor, que já trabalhou como assistente de direção de cineastas como Kiko Goifman, Hilton Lacerda, Gabriel Mascaro e Anna Muylaert. Logo, ele faz parte dessa nova geração de ótimos realizadores que trazem uma saudável inquietação para a tela e, em consequência, para a audiência.
O diretor, no debate, comentou que assistiu bastante FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach, como um exemplo de trabalho que dialoga bastante com o seu filme – Caetano afirmou que seu filme-farol é ANJOS DO ARRABALDE, também do Carlão. Assim, no que se refere ao trabalho em uma fábrica e à busca urgente do prazer no pouco tempo livre que resta a esses personagens, há, sim, uma conversa com esses dois cinemas que demonstram amor pelos menos favorecidos pela sociedade e que trabalham por muitas e muitas horas diariamente.
Diferente do cinema de Carlão, no entanto, o trabalho de Caetano tem uma preocupação (ou interesse natural) por um tipo de cinema-verdade, que flerta com o documentário e de diálogos mais realistas. A primeira cena, em que vemos o protagonista Elias (Kelner Macêdo) contando um sonho que teve envolvendo o mar traz uma intimidade que conquista e fascina o espectador logo no início, e que demarca o território de aproximação de corpos que será uma constante em todo o filme, a partir da relação que Elias estabelece com o universo ao redor.
Há quem vá estranhar no filme o modo como os personagens se aproximam uns dos outros de maneira tão intensa, ainda mais levando em consideração que há uma intenção de dar voz aos grupos gays mais marginalizados, como é o caso, principalmente, do núcleo familiar de Wellington (Lucas Andrade), constituído de pessoas que trabalham no entretenimento da noite, nas boates. O filme, inclusive, traz nomes como Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada e outras conhecidas de quem acompanha o trabalho de transformistas da noite paulistana.
O filme frustra algumas expectativas, o que sinaliza um flerte com a vida real. Há, por exemplo, o caso do migrante africano que chega até a fábrica e que desperta o desejo de Elias mas que é algo que acaba não se concretizando. Há uma fuga do amor romântico em todo o filme, tipo de amor que seria opressor, segundo o diretor.
No entanto, a alegria de viver e a liberdade de estar com quem quiser de Elias acabam, eventualmente, trombando com uma melancolia que nasce dessa necessidade (e dessa facilidade) que o personagem tem de estar sempre perto de alguém – não necessariamente em busca de sexo fácil - e isso funciona como uma mola para que a conclusão seja carregada de uma espécie de medo de Elias de não querer ficar só. Mas isso só torna a obra ainda mais rica e complexamente interessante.
sexta-feira, agosto 04, 2017
GRAVE
Há vários filmes sobre a chegada da maturidade na juventude, principalmente trabalhando no registro mais realista, seja usando o drama ou a comédia. Mas usar o cinema de horror para tratar o tema, e de maneira inteligente, pode ser muito recompensador. É o caso de GRAVE (2016), da cineasta francesa Julia Docournau, que também funciona como um ótimo drama de horror sobre canibalismo. Quando a narrativa e a atmosfera conseguem sustentar muito bem o filme, sem que seja preciso explicar metáforas ou coisas do tipo, já podemos dizer que a obra merece o nosso respeito.
Na trama de GRAVE, Justine (Garance Marillier) é uma jovem recém-ingressa na faculdade de Veterinária, onde sua irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), também estuda. Logo na primeira noite, ela é vítima dos trotes aplicados aos calouros pelos demais universitários. Trata-se de uma maratona de situações incômodas, como ser banhado com sangue de animais e ter que comer carne crua. Isso para quem é vegetariano é bem perturbador. Para Justine, que vem de uma família de veterinários e também de vegetarianos, não é nada fácil.
O problema é que Justine descobre, a partir desse primeiro contato com um tipo de alimento que não lhe era familiar, uma compulsão pela carne, especialmente a carne crua. Assim, ter que atacar a geladeira de seu quarto, com quem divide com um rapaz gay, não é nada perto do que virá a seguir. Como o filme também lida com a questão do desejo sexual, Docournau junta a fome com a vontade de comer.
E, nisso, temos algumas cenas bem memoráveis, como a tentativa de Justine de perder a virgindade, ou a cena em que a irmã quer ajudá-la a fazer uma depilação com cera para se preparar para uma noite de sexo com algum rapaz. O que se sucede depois dessa tentativa de depilação é um dos pontos altos do filme. Assim como a cena de sexo em que Justine tenta se esforçar para não comer, literalmente, o parceiro sexual. Trata-se, aliás, de uma das mais sensuais cenas de sexo do cinema mainstream recente, contaminando o público com essa vontade de morder e arrancar pedaço.
Há quem vá achar que o filme se encaminha para uma conclusão um pouco exagerada no sangue e no gore, mas o que eu vejo ali é mais uma sutileza dentro do chamado cinema extremo. Há uma beleza nos enquadramentos, nas cores, principalmente no vermelho, que faz com que GRAVE seja desses filmes que marcam. Como o filme já está dando muito o que falar pela internet e sendo bastante visto pelos fãs do cinema de horror desde sua boa repercussão em Cannes, se há uma distribuidora que o comprou é bom que arranje logo uma data para exibição. Até porque as pessoas que gostaram do filme em casa vão querer rever no cinema para experienciar e também para ver a reação de uma audiência, de preferência lotada.
Porém, um dos possíveis agentes complicadores da distribuição do filme no Brasil, infelizmente, é o fato de ser falado em língua francesa. São raros os filmes de horror franceses que chegam ao circuito em uma quantidade de cópias que alcance um público amplo, o público dos shoppings. Por isso, ao que parece, o destino do filme de Julia Docournau será mesmo a telinha.
Na trama de GRAVE, Justine (Garance Marillier) é uma jovem recém-ingressa na faculdade de Veterinária, onde sua irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), também estuda. Logo na primeira noite, ela é vítima dos trotes aplicados aos calouros pelos demais universitários. Trata-se de uma maratona de situações incômodas, como ser banhado com sangue de animais e ter que comer carne crua. Isso para quem é vegetariano é bem perturbador. Para Justine, que vem de uma família de veterinários e também de vegetarianos, não é nada fácil.
O problema é que Justine descobre, a partir desse primeiro contato com um tipo de alimento que não lhe era familiar, uma compulsão pela carne, especialmente a carne crua. Assim, ter que atacar a geladeira de seu quarto, com quem divide com um rapaz gay, não é nada perto do que virá a seguir. Como o filme também lida com a questão do desejo sexual, Docournau junta a fome com a vontade de comer.
E, nisso, temos algumas cenas bem memoráveis, como a tentativa de Justine de perder a virgindade, ou a cena em que a irmã quer ajudá-la a fazer uma depilação com cera para se preparar para uma noite de sexo com algum rapaz. O que se sucede depois dessa tentativa de depilação é um dos pontos altos do filme. Assim como a cena de sexo em que Justine tenta se esforçar para não comer, literalmente, o parceiro sexual. Trata-se, aliás, de uma das mais sensuais cenas de sexo do cinema mainstream recente, contaminando o público com essa vontade de morder e arrancar pedaço.
Há quem vá achar que o filme se encaminha para uma conclusão um pouco exagerada no sangue e no gore, mas o que eu vejo ali é mais uma sutileza dentro do chamado cinema extremo. Há uma beleza nos enquadramentos, nas cores, principalmente no vermelho, que faz com que GRAVE seja desses filmes que marcam. Como o filme já está dando muito o que falar pela internet e sendo bastante visto pelos fãs do cinema de horror desde sua boa repercussão em Cannes, se há uma distribuidora que o comprou é bom que arranje logo uma data para exibição. Até porque as pessoas que gostaram do filme em casa vão querer rever no cinema para experienciar e também para ver a reação de uma audiência, de preferência lotada.
Porém, um dos possíveis agentes complicadores da distribuição do filme no Brasil, infelizmente, é o fato de ser falado em língua francesa. São raros os filmes de horror franceses que chegam ao circuito em uma quantidade de cópias que alcance um público amplo, o público dos shoppings. Por isso, ao que parece, o destino do filme de Julia Docournau será mesmo a telinha.
quinta-feira, agosto 03, 2017
MULHER SATÂNICA (The Devil Is a Woman)
Não sei o que mais me deixou irritado neste filme: a personagem de Marlene Dietrich, Concha Perez, que faz gato e sapato de um homem (de bem mais de um homem, na verdade), ou se do infeliz que não consegue virar a página, o Capitão Don Pasqual Costelar, vivido por Lionel Atwill. Pensando bem, quem mais merece mesmo o nosso desprezo é o tal homem, que não consegue dominar seu coração.
O problema é que em MULHER SATÂNICA (1935) Marlene Dietrich já nem estava tão bela quanto nos trabalhos anteriores de Josef Von Sternberg. Se fosse uma femme fatale mais bela talvez nós entendêssemos um pouco mais a obsessão de Pasqualito (como Concha costuma chama o homem, meio que carinhosamente, meio que tirando sarro do coitado, que fica mendigando seus beijos e só recebe traições ou enganações em troca.
O drama de Don Pasqual é narrado, em parte, em um longo flashback, a outro homem, Don Paquito (Edward Everett Horton), que seria supostamente mais uma vítima dos feitiços de Concha, nesta trama que se passa durante a revolução na Espanha, no século XIX. Na verdade, a intenção de Don Pasqual era espantar o novo rival, mais jovem e belo do que ele.
Como se trata de um filme de Sternberg, já se espera todo um trabalho de direção de arte bem cuidada, como foi o caso, principalmente, do anterior, A IMPERATRIZ VERMELHA (1934), o mais barroco de todos os trabalho do diretor. Em MULHER SATÂNICA os cenários são bem menores e econômicos, mas o diretor consegue nos deixar dentro da ação com poucos recursos. Vemos poucos lugares: a casa onde mora Concha, o local do carnaval do começo do filme ou a estação de trem, tudo mostrado numa espécie de filtro. Gostei particularmente de uma cena de chuva.
Mas, no geral, parece que o cineasta já se cansava de trabalhar com Dietrich e vice-versa. Por outro lado, ela tem uma representação tão forte no cinema do diretor que imaginá-lo sem sua musa é até difícil, por mais que muitos elogiem seu trabalho seguinte, o ambicioso CRIME E CASTIGO (1935), adaptação do famoso romance de Dostoiévski.
A despedida da parceria Sternberg-Dietrich representa um fechamento de um ciclo bem interessante, em que a mulher é mostrada muitas vezes em situação de poder. Já começou assim no primeiro filme que fizeram juntos, O ANJO AZUL (1930), mas a versatilidade de Dietrich se mostrou bem mais atraente quando ela encarnou mulheres mais sensíveis e apaixonadas, como foi o caso de seus papéis em MARROCOS (1930) e DESONRADA (1931), não por acaso filmes em que ela aparece com uma beleza bem mais digna de nota.
MULHER SATÂNICA é também mais um exemplo do interesse do cineasta por locais exóticos. Por mais que percebamos uma visão bem estereotipada do povo espanhol, não dá para negar que há também um fascínio do diretor pelo estrangeiro, que funciona mais uma vez aqui para oferecer combustível para a construção de mais uma extravagância visual na obra de Sternberg.
O problema é que em MULHER SATÂNICA (1935) Marlene Dietrich já nem estava tão bela quanto nos trabalhos anteriores de Josef Von Sternberg. Se fosse uma femme fatale mais bela talvez nós entendêssemos um pouco mais a obsessão de Pasqualito (como Concha costuma chama o homem, meio que carinhosamente, meio que tirando sarro do coitado, que fica mendigando seus beijos e só recebe traições ou enganações em troca.
O drama de Don Pasqual é narrado, em parte, em um longo flashback, a outro homem, Don Paquito (Edward Everett Horton), que seria supostamente mais uma vítima dos feitiços de Concha, nesta trama que se passa durante a revolução na Espanha, no século XIX. Na verdade, a intenção de Don Pasqual era espantar o novo rival, mais jovem e belo do que ele.
Como se trata de um filme de Sternberg, já se espera todo um trabalho de direção de arte bem cuidada, como foi o caso, principalmente, do anterior, A IMPERATRIZ VERMELHA (1934), o mais barroco de todos os trabalho do diretor. Em MULHER SATÂNICA os cenários são bem menores e econômicos, mas o diretor consegue nos deixar dentro da ação com poucos recursos. Vemos poucos lugares: a casa onde mora Concha, o local do carnaval do começo do filme ou a estação de trem, tudo mostrado numa espécie de filtro. Gostei particularmente de uma cena de chuva.
Mas, no geral, parece que o cineasta já se cansava de trabalhar com Dietrich e vice-versa. Por outro lado, ela tem uma representação tão forte no cinema do diretor que imaginá-lo sem sua musa é até difícil, por mais que muitos elogiem seu trabalho seguinte, o ambicioso CRIME E CASTIGO (1935), adaptação do famoso romance de Dostoiévski.
A despedida da parceria Sternberg-Dietrich representa um fechamento de um ciclo bem interessante, em que a mulher é mostrada muitas vezes em situação de poder. Já começou assim no primeiro filme que fizeram juntos, O ANJO AZUL (1930), mas a versatilidade de Dietrich se mostrou bem mais atraente quando ela encarnou mulheres mais sensíveis e apaixonadas, como foi o caso de seus papéis em MARROCOS (1930) e DESONRADA (1931), não por acaso filmes em que ela aparece com uma beleza bem mais digna de nota.
MULHER SATÂNICA é também mais um exemplo do interesse do cineasta por locais exóticos. Por mais que percebamos uma visão bem estereotipada do povo espanhol, não dá para negar que há também um fascínio do diretor pelo estrangeiro, que funciona mais uma vez aqui para oferecer combustível para a construção de mais uma extravagância visual na obra de Sternberg.
terça-feira, agosto 01, 2017
PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA (War for the Planet of the Apes)
O terceiro filme da trilogia dos macacos (se é que não haverá um quarto) traz mais luz e também mais sombras para explicar os acontecimentos que trouxeram a extinção do homem como ele é conhecido e a evolução dos macacos como seres inteligentes e governadores da Terra, como mostrado no clássico O PLANETA DOS MACACOS (1968), de Franklin J. Schaffner. A ideia de criar uma série de filmes que levasse a contar a história que levou a essa situação, afinal, foi muito feliz.
O sucesso de PLANETA DOS MACACOS - A ORIGEM (2011) e principalmente do ótimo PLANETA DOS MACACOS - O CONFRONTO (2014) nos trouxe a este inevitável terceiro filme. Aliás, O CONFRONTO pode ser visto como um dos grandes marcos recentes do uso do CGI. O modo como foram construídos de maneira tão realista os símios é de tirar o chapéu. Sem falar que havia um tom muito sombrio naquela história em que torcemos pelos macacos e admiramos o grande líder César (Andy Serkis).
Por isso, quando chegamos em PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA (2017), novamente dirigido por Matt Reeves, já estamos até acostumados com esses efeitos visuais perfeitos que se confundem e se misturam com naturalidade às figuras dos humanos, dessa vez bem poucos. Afinal, a humanidade está cada vez mais entrando em extinção. Algumas surpresas acontecem, embora sejam surpresas que já pudessem ser esperadas pelo andar da carruagem. Uma delas é explicar o processo dos macacos se tornando cada vez mais eloquentes (que bela sacada o personagem do Bad Ape!) e os humanos perdendo a capacidade de falar e de raciocinar.
E temos o representante da resistência humana, vivido por um Woody Harrelson com pinta de Coronel Kurtz, o personagem de Marlon Brando em APOCALYPSE NOW. A semelhança é proposital, bem como a alegoria com a figura do próprio Deus bíblico. Harrelson matou o único filho para que a humanidade fosse salva. Pelo menos é assim que ele se vê. Isso porque ele percebe que o contato entre os humanos doentes poderia ser fatal.
E por isso ele compra guerra com o maior dos líderes dos grupos símios, o honrado César, que quis viver em paz com sua família e sua tribo até ter sua paz totalmente perturbada pelo inimigo. E assim César alimenta um ódio que o torna semelhante ao seu inimigo no segundo filme, o enraivecido Koba. Por isso César deseja enfrentar o assassino de sua mulher e de seu filho sozinho, como se fosse a última coisa a fazer na vida. A trajetória do herói atormentado não é fácil, mas talvez falte ao filme um pouco mais de capacidade de nos colocar no lugar de César e dos demais macacos, inclusive dos que estão presos. A trilha sonora de Michael Giacchino tem a sua eficiência, mas às vezes passa a impressão de querer forçar o sentimentalismo e o tom de tragédia.
De todo modo, PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA tem inúmeras qualidades e encerra de maneira muito digna essa nova visão de um clássico que foi contado pelo ponto de vista dos humanos e que agora pode ser visto como uma metáfora dos Estados Unidos da era Trump, com o muro de proteção militar e o preconceito gigantesco. Mas o contexto político do filme só funciona bem porque a direção de Matt Reeves é mais uma vez bem-sucedida.
O sucesso de PLANETA DOS MACACOS - A ORIGEM (2011) e principalmente do ótimo PLANETA DOS MACACOS - O CONFRONTO (2014) nos trouxe a este inevitável terceiro filme. Aliás, O CONFRONTO pode ser visto como um dos grandes marcos recentes do uso do CGI. O modo como foram construídos de maneira tão realista os símios é de tirar o chapéu. Sem falar que havia um tom muito sombrio naquela história em que torcemos pelos macacos e admiramos o grande líder César (Andy Serkis).
Por isso, quando chegamos em PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA (2017), novamente dirigido por Matt Reeves, já estamos até acostumados com esses efeitos visuais perfeitos que se confundem e se misturam com naturalidade às figuras dos humanos, dessa vez bem poucos. Afinal, a humanidade está cada vez mais entrando em extinção. Algumas surpresas acontecem, embora sejam surpresas que já pudessem ser esperadas pelo andar da carruagem. Uma delas é explicar o processo dos macacos se tornando cada vez mais eloquentes (que bela sacada o personagem do Bad Ape!) e os humanos perdendo a capacidade de falar e de raciocinar.
E temos o representante da resistência humana, vivido por um Woody Harrelson com pinta de Coronel Kurtz, o personagem de Marlon Brando em APOCALYPSE NOW. A semelhança é proposital, bem como a alegoria com a figura do próprio Deus bíblico. Harrelson matou o único filho para que a humanidade fosse salva. Pelo menos é assim que ele se vê. Isso porque ele percebe que o contato entre os humanos doentes poderia ser fatal.
E por isso ele compra guerra com o maior dos líderes dos grupos símios, o honrado César, que quis viver em paz com sua família e sua tribo até ter sua paz totalmente perturbada pelo inimigo. E assim César alimenta um ódio que o torna semelhante ao seu inimigo no segundo filme, o enraivecido Koba. Por isso César deseja enfrentar o assassino de sua mulher e de seu filho sozinho, como se fosse a última coisa a fazer na vida. A trajetória do herói atormentado não é fácil, mas talvez falte ao filme um pouco mais de capacidade de nos colocar no lugar de César e dos demais macacos, inclusive dos que estão presos. A trilha sonora de Michael Giacchino tem a sua eficiência, mas às vezes passa a impressão de querer forçar o sentimentalismo e o tom de tragédia.
De todo modo, PLANETA DOS MACACOS - A GUERRA tem inúmeras qualidades e encerra de maneira muito digna essa nova visão de um clássico que foi contado pelo ponto de vista dos humanos e que agora pode ser visto como uma metáfora dos Estados Unidos da era Trump, com o muro de proteção militar e o preconceito gigantesco. Mas o contexto político do filme só funciona bem porque a direção de Matt Reeves é mais uma vez bem-sucedida.
sábado, julho 29, 2017
OS DEMÔNIOS (The Devils)
Há filmes que são feitos para que reconquistemos a nossa fé; há outros que nos fazem não acreditar nos nossos próprios olhos, além de também, como é o caso de OS DEMÔNIOS (1971), fazer-nos completamente desacreditados da natureza humana, em sua capacidade de tornar tudo o que deveria ser limpo e sagrado em sujo e podre. Felizmente o cinema, como uma soma de todas as artes, nos eleva e consegue fazer com que o que é feio se torne sublime através do admirável e inconcebível que passeia pelos nossos olhos.
Ken Russell sempre foi um cineasta interessado em coisas profanas mas também em saber lidar com o aspecto humano e digno de pessoas que são vistas pela sociedade como dignas do desprezo. O mesmo admirador do universo da prostituição de filmes como CRIMES DE PAIXÃO (1984) e A PROSTITUTA (1991) tem em OS DEMÔNIOS (1971) sua obra mais polêmica. A intenção era mesmo chocar, já que o julgamento do Padre Grandier (Oliver Reed, excepcional) e a história impressionante da histeria (suposto caso de possessão demoníaca) no convento da Madre Superiora Joana dos Anjos são de cair o queixo.
A história desta Madre Superiora já havia sido contada de maneira mais livre e diferente em MADRE JOANA DOS ANJOS, de Jerzy Kawalerowicz, uma década antes. Mas o filme de Russell vai além, ao transformar uma obra de não-ficção escrita por Aldous Huxley, que por sua vez rendeu uma peça de teatro, em uma espécie de inferno na Terra em que podemos assistir de camarote. Não sem termos respingos de um pouco de fogo, claro. Mas isso é o preço pelo privilégio.
Desde os letreiros que antecipam o filme, OS DEMÔNIOS quer nos fazer acreditar que o registro que veremos a seguir aconteceu de verdade na cidade de Loudon, na França, em 1643. Na época, a cidade estava em paz depois de tantas batalhas entre católicos e protestantes que repercutiram por toda a França. A cidade era então a única a ter autonomia para lidar com seus próprios problemas. E o jovem Padre Grandier é uma espécie de Don Juan local. Se é que o termo é apropriado para um padre.
De todo modo, Grandier é desejado pelas mulheres e não deixa passar as oportunidades de transar com quem quiser em local sagrado. Numa das primeiras cenas, somos apresentados a seu lado mais canalha ao vermos o sujeito responder que não é culpa dele que uma de suas amantes engravidou. Enquanto isso, outra mulher também está apaixonada pelo padre (Gemma Jones). Esta, porém, o padre deseja de todo o coração. E isso é algo que torna a figura de Grandier digna de afeição pelo espectador.
A coisa fica feia para ele quando a Madre Joana dos Anjos (Vanessa Redgrave, excelente!), uma mulher atormentada com sua corcunda, passa a querer se vingar do padre, tornando-o alvo de um grupo de caçadores de bruxas que o levam para um julgamento parecido com o que fizeram com Joana d'Arc. Só que muito mais cruel e doloroso de ver. Impossível não ficar com o sangue intoxicado com as cenas de violência e tortura.
Mas o filme não é só isso. Muito de sua polêmica vem das cenas blasfemas envolvendo os atos de delírio ou de histeria das freiras em torno de símbolos sagrados da Igreja. Há o sonho da Madre Joana com o Padre Grandier descendo de uma cruz e tendo suas feridas lambidas por ela; mas o que mais incomodou os censores na época, a ponto de boa parte do filme ter sido quase perdida ao longo dos anos, foram as cenas dentro do convento, com freiras se masturbando com um crucifixo gigante, por exemplo. A cena de exorcismo de Madre Joana é outra coisa completamente absurda.
Aliás, é tanta coisa inacreditável que se vê em OS DEMÔNIOS que é quase um milagre ter finalmente surgido uma versão supostamente uncut, que traz de volta algumas cenas proibidas, e que, por ter sido remasterizada, tem uma imagem que valoriza a linda fotografia em cores e em scope e a direção de arte espetacular, a cargo de Derek Jarman.
E os demônios? Os demônios são os próprios homens. Ken Russell fez um filma totalmente laico e a culpa de todo o mal está no sistema político - a Igreja pode muito bem ser uma alegoria de qualquer sistema de governo que é capaz de fazer coisas inomináveis e extremamente terríveis. É um filme, inclusive, que deveria ser visto pelas novas gerações. Afinal, vivemos em um momento muito perigoso no que se refere a uma nova ascensão da direita e dos valores "religiosos". Tenhamos muito cuidado com os demônios, portanto.
Ken Russell sempre foi um cineasta interessado em coisas profanas mas também em saber lidar com o aspecto humano e digno de pessoas que são vistas pela sociedade como dignas do desprezo. O mesmo admirador do universo da prostituição de filmes como CRIMES DE PAIXÃO (1984) e A PROSTITUTA (1991) tem em OS DEMÔNIOS (1971) sua obra mais polêmica. A intenção era mesmo chocar, já que o julgamento do Padre Grandier (Oliver Reed, excepcional) e a história impressionante da histeria (suposto caso de possessão demoníaca) no convento da Madre Superiora Joana dos Anjos são de cair o queixo.
A história desta Madre Superiora já havia sido contada de maneira mais livre e diferente em MADRE JOANA DOS ANJOS, de Jerzy Kawalerowicz, uma década antes. Mas o filme de Russell vai além, ao transformar uma obra de não-ficção escrita por Aldous Huxley, que por sua vez rendeu uma peça de teatro, em uma espécie de inferno na Terra em que podemos assistir de camarote. Não sem termos respingos de um pouco de fogo, claro. Mas isso é o preço pelo privilégio.
Desde os letreiros que antecipam o filme, OS DEMÔNIOS quer nos fazer acreditar que o registro que veremos a seguir aconteceu de verdade na cidade de Loudon, na França, em 1643. Na época, a cidade estava em paz depois de tantas batalhas entre católicos e protestantes que repercutiram por toda a França. A cidade era então a única a ter autonomia para lidar com seus próprios problemas. E o jovem Padre Grandier é uma espécie de Don Juan local. Se é que o termo é apropriado para um padre.
De todo modo, Grandier é desejado pelas mulheres e não deixa passar as oportunidades de transar com quem quiser em local sagrado. Numa das primeiras cenas, somos apresentados a seu lado mais canalha ao vermos o sujeito responder que não é culpa dele que uma de suas amantes engravidou. Enquanto isso, outra mulher também está apaixonada pelo padre (Gemma Jones). Esta, porém, o padre deseja de todo o coração. E isso é algo que torna a figura de Grandier digna de afeição pelo espectador.
A coisa fica feia para ele quando a Madre Joana dos Anjos (Vanessa Redgrave, excelente!), uma mulher atormentada com sua corcunda, passa a querer se vingar do padre, tornando-o alvo de um grupo de caçadores de bruxas que o levam para um julgamento parecido com o que fizeram com Joana d'Arc. Só que muito mais cruel e doloroso de ver. Impossível não ficar com o sangue intoxicado com as cenas de violência e tortura.
Mas o filme não é só isso. Muito de sua polêmica vem das cenas blasfemas envolvendo os atos de delírio ou de histeria das freiras em torno de símbolos sagrados da Igreja. Há o sonho da Madre Joana com o Padre Grandier descendo de uma cruz e tendo suas feridas lambidas por ela; mas o que mais incomodou os censores na época, a ponto de boa parte do filme ter sido quase perdida ao longo dos anos, foram as cenas dentro do convento, com freiras se masturbando com um crucifixo gigante, por exemplo. A cena de exorcismo de Madre Joana é outra coisa completamente absurda.
Aliás, é tanta coisa inacreditável que se vê em OS DEMÔNIOS que é quase um milagre ter finalmente surgido uma versão supostamente uncut, que traz de volta algumas cenas proibidas, e que, por ter sido remasterizada, tem uma imagem que valoriza a linda fotografia em cores e em scope e a direção de arte espetacular, a cargo de Derek Jarman.
E os demônios? Os demônios são os próprios homens. Ken Russell fez um filma totalmente laico e a culpa de todo o mal está no sistema político - a Igreja pode muito bem ser uma alegoria de qualquer sistema de governo que é capaz de fazer coisas inomináveis e extremamente terríveis. É um filme, inclusive, que deveria ser visto pelas novas gerações. Afinal, vivemos em um momento muito perigoso no que se refere a uma nova ascensão da direita e dos valores "religiosos". Tenhamos muito cuidado com os demônios, portanto.
sexta-feira, julho 28, 2017
TODAS AS MULHERES DO MUNDO
Que bom seria se a gente pudesse voltar ao passado e consertar algo que julgamos ter sido um erro, e assim poder moldar a realidade conforme a nossa vontade. Pelo menos uma única vez. Como se fosse um gesto de bondade dos deuses. Pois bem. TODAS AS MULHERES DO MUNDO (1966) é uma tentativa de fazer na arte o que não é possível na vida. E também de seu diretor, Domingos de Oliveira, conseguir reconquistar a ex-namorada Leila Diniz de volta, ao convidá-la para ser uma das protagonistas de seu longa-metragem de estreia na direção.
E esse amor por Leila Diniz, que aqui faz uma moça adorável e de gestos contidos de nome Maria Alice, se vê nos vários close-ups de seu rosto, a câmera a namorando o tempo inteiro. Há até uma declaração de amor linda na cena em que ela está nua - embora a cena não explore graficamente seu corpo - quando Paulo (Paulo José), o alter-ego de Domingos, diz "teu sexo: um rio onde navega meu barco ao vento de sete paixões".
Há em TODAS AS MULHERES DO MUNDO o uso de uma liberdade narrativa leve herdada do pessoal da nouvelle vague francesa, principalmente dos primeiros trabalhos de Godard e Truffaut, e isso é muito agradável de acompanhar até hoje. Não envelheceu. Ou ao menos envelheceu de maneira muito bonita. O próprio Domingos sentiu necessidade de recontar esta história, ou a história mais próxima da realidade, no belíssimo BR 716 (2016), em que a personagem de Leila agora é vivida por Sophie Charlotte e Caio Blat aparece no papel do diretor e roteirista.
Essa é uma das belezas da arte quando ela se alimenta da vida, em especial quando determinados momentos da vida foram tão importantes para o artista. Neste caso, a invasão da vida real ao território da ficção se torna não apenas necessária como muito bem-vinda. E quando ficamos sabendo um pouco dos bastidores, da situação em si, parece até que o filme ganha ainda mais força.
Na trama, Paulo é um sujeito que encontra o amigo Edu (Flávio Migliaccio) e lhe conta o que andou fazendo durante todo o tempo em que não se viam. E isso se resumiu basicamente ao aparecimento de Maria Alice em seu apartamento, em uma de suas festas. Depois disso, ele teve a cara de pau de tomar a moça de seu namorado, conquista-a com seu bom humor e sua persistência, e, mesmo depois de um vacilo dele, enquanto a mulher faz uma viagem rápida, ele consegue reconquistá-la; ela o perdoa. As cenas de escapada dele são bem divertidas, assim como a curta aventura dela sozinha, em São Paulo. São cenas que são mostradas em ótima montagem que evidenciam pontos de vista diferentes com relação aos relacionamentos, já que para Paulo as mulheres sempre foram para ele como uma loja de doces.
Há os momentos em que os personagens ficam tristes, mas TODAS AS MULHERES DO MUNDO procura nunca querer deixar a tristeza contagiar a leveza e a alegria do filme, por mais que o final feliz pareça até um tanto romantizado demais para se acreditar. Mas o final feliz com a mulher amada é justamente a vontade de modificar o destino, nem que seja só na arte. Nem que continue parecendo só um sonho.
Curiosamente, antes de ver este filme eu era um desses sujeitos que dizia que Domingos de Oliveira era o Woody Allen brasileiro. Mas não há sentido em dizer isso, já que o Allen que conta é o de NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA, de 1977, ou seja, mais de dez anos depois da exibição no Festival de Brasília do filme de Domingos. Talvez seja o nosso complexo de inferioridade em relação aos americanos, ou talvez Allen tenha demarcado território de maneira mais ferrenha enquanto o nosso cronista dos relacionamentos entre homens e mulheres teve maior dificuldade de ser conhecido do grande público. Mas ainda há tempo de conhecer.
E esse amor por Leila Diniz, que aqui faz uma moça adorável e de gestos contidos de nome Maria Alice, se vê nos vários close-ups de seu rosto, a câmera a namorando o tempo inteiro. Há até uma declaração de amor linda na cena em que ela está nua - embora a cena não explore graficamente seu corpo - quando Paulo (Paulo José), o alter-ego de Domingos, diz "teu sexo: um rio onde navega meu barco ao vento de sete paixões".
Há em TODAS AS MULHERES DO MUNDO o uso de uma liberdade narrativa leve herdada do pessoal da nouvelle vague francesa, principalmente dos primeiros trabalhos de Godard e Truffaut, e isso é muito agradável de acompanhar até hoje. Não envelheceu. Ou ao menos envelheceu de maneira muito bonita. O próprio Domingos sentiu necessidade de recontar esta história, ou a história mais próxima da realidade, no belíssimo BR 716 (2016), em que a personagem de Leila agora é vivida por Sophie Charlotte e Caio Blat aparece no papel do diretor e roteirista.
Essa é uma das belezas da arte quando ela se alimenta da vida, em especial quando determinados momentos da vida foram tão importantes para o artista. Neste caso, a invasão da vida real ao território da ficção se torna não apenas necessária como muito bem-vinda. E quando ficamos sabendo um pouco dos bastidores, da situação em si, parece até que o filme ganha ainda mais força.
Na trama, Paulo é um sujeito que encontra o amigo Edu (Flávio Migliaccio) e lhe conta o que andou fazendo durante todo o tempo em que não se viam. E isso se resumiu basicamente ao aparecimento de Maria Alice em seu apartamento, em uma de suas festas. Depois disso, ele teve a cara de pau de tomar a moça de seu namorado, conquista-a com seu bom humor e sua persistência, e, mesmo depois de um vacilo dele, enquanto a mulher faz uma viagem rápida, ele consegue reconquistá-la; ela o perdoa. As cenas de escapada dele são bem divertidas, assim como a curta aventura dela sozinha, em São Paulo. São cenas que são mostradas em ótima montagem que evidenciam pontos de vista diferentes com relação aos relacionamentos, já que para Paulo as mulheres sempre foram para ele como uma loja de doces.
Há os momentos em que os personagens ficam tristes, mas TODAS AS MULHERES DO MUNDO procura nunca querer deixar a tristeza contagiar a leveza e a alegria do filme, por mais que o final feliz pareça até um tanto romantizado demais para se acreditar. Mas o final feliz com a mulher amada é justamente a vontade de modificar o destino, nem que seja só na arte. Nem que continue parecendo só um sonho.
Curiosamente, antes de ver este filme eu era um desses sujeitos que dizia que Domingos de Oliveira era o Woody Allen brasileiro. Mas não há sentido em dizer isso, já que o Allen que conta é o de NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA, de 1977, ou seja, mais de dez anos depois da exibição no Festival de Brasília do filme de Domingos. Talvez seja o nosso complexo de inferioridade em relação aos americanos, ou talvez Allen tenha demarcado território de maneira mais ferrenha enquanto o nosso cronista dos relacionamentos entre homens e mulheres teve maior dificuldade de ser conhecido do grande público. Mas ainda há tempo de conhecer.
quinta-feira, julho 27, 2017
DUNKIRK
Não deixa de ser um baita banho de água fria ver que o tão insensado DUNKIRK (2017), de Christopher Nolan, é mais uma de suas picaretagens. E a comparação absurda que foi feita recentemente no The Guardian de Nolan com Stanley Kubrick? Em GLÓRIA FEITA DE SANGUE, Kubrick leva o espectador para o meio de um fogo cruzado dentro de uma grande guerra, e sem precisar do recurso IMAX pra isso. Infelizmente é difícil imaginar DUNKIRK brilhando fora de uma sala com as dimensões de uma tela gigante.
Claro que as imagens são belíssimas, de encher os olhos, e que também é digno de louvor a intenção de fazer o seu filme quase que inteiramente em película 70 mm, como também o fez Quentin Tarantino quando rodou OS OITO ODIADOS. Mas se as qualidades de um filme se evidenciam e crescem quando vistas em IMAX, seus problemas também ficam ainda mais visíveis. No caso, o que vemos é um trabalho raso, sem emoção genuína, sem impacto, que privilegia as imagens e possui alguns diálogos e falas de gosto duvidoso, como na cena em que um garoto está prestes a morrer e diz que nunca foi bom na escola e morrer na guerra seria uma boa, seria uma honra para a família. Talvez ele não tenha dito exatamente isso, mas é essa a mensagem.
O que há de interessante para quem acompanha a obra de Nolan, não necessariamente gostando de tudo que ele faz, é perceber novamente a obsessão por um jogo temporal. Há três ações temporais que acontecem durante a narrativa: uma com um intervalo de uma semana, no Molhe, com um grupo de soldados britânicos esperando serem resgatados dos ataques; outra ação com um intervalo de um dia em um barco capitaneado pelo civil vivido por Mark Rylance, que tem a intenção de salvar o máximo possível de soldados britânicos naquele barco de passeio; e a terceira ação acontecendo em um intervalo de uma hora, quando vemos três pilotos britânicos tentando se defender e também atacando aviões alemães próximo ao local onde acontece a história.
Esse jogo temporal já foi explorado por Nolan em filmes tão distintos quanto AMNÉSIA (2000), A ORIGEM (2010) e INTERESTELAR (2014). Este terceiro talvez seja o exemplo mais bem acabado de todos os seus trabalhos como um todo. Esses e os demais são exemplos de filmes que trazem uma forte ambição artística, sendo que em boa parte das vezes nem sempre suas intenções são bem-sucedidas, embora possa sempre se encontrar também um conteúdo político curioso, inclusive nos filmes da trilogia Batman.
No caso de DUNKIRK, há quem veja no filme uma visão pró-Brexit, no sentido de que o que mais interessa para aqueles homens é salvar a pele dos britânicos. Que se danem os franceses. Há sim uma generosidade e um interesse em ajudar o próximo e nada mais explícito do que o barco comandado pelo personagem de Rylance, mas o próximo que interessa são os soldados ingleses que estão acuados e sendo chacinados pelos nazistas naquele lugar bonito, na fronteira da Bélgica com a França.
E falando em lugar bonito, as imagens do céu azul de um belo dia de sol também ajudam a tornar tudo muito agradável de ver. Pelo menos até o momento em que o azul e o branco do céu cansam, bem como as repetições das ações e das situações, seja no céu, no ar ou na terra. Pode-se sentir também mais um fascínio pela guerra do que um sentimento de horror, coisa que poderia se perceber em obras como O RESGATE DO SOLDADO RYAN e o já mencionado GLÓRIA FEITA DE SANGUE, para citar esses que talvez sejam os filmes que mais levam o espectador para dentro da ação.
DUNKIRK não consegue isso. Talvez porque os personagens são pouco interessantes, rasos, ou o tom de heroísmo com aquela música do Hans Zimmer meio genérica seja um convite ao sono. Nada contra esse tipo de cinema que exalta o heroísmo e até mesmo o nacionalismo, ainda mais em se tratando de uma guerra contra os nazistas, mas importar-se com aqueles rapazes sem nome não faria mal algum.
Claro que as imagens são belíssimas, de encher os olhos, e que também é digno de louvor a intenção de fazer o seu filme quase que inteiramente em película 70 mm, como também o fez Quentin Tarantino quando rodou OS OITO ODIADOS. Mas se as qualidades de um filme se evidenciam e crescem quando vistas em IMAX, seus problemas também ficam ainda mais visíveis. No caso, o que vemos é um trabalho raso, sem emoção genuína, sem impacto, que privilegia as imagens e possui alguns diálogos e falas de gosto duvidoso, como na cena em que um garoto está prestes a morrer e diz que nunca foi bom na escola e morrer na guerra seria uma boa, seria uma honra para a família. Talvez ele não tenha dito exatamente isso, mas é essa a mensagem.
O que há de interessante para quem acompanha a obra de Nolan, não necessariamente gostando de tudo que ele faz, é perceber novamente a obsessão por um jogo temporal. Há três ações temporais que acontecem durante a narrativa: uma com um intervalo de uma semana, no Molhe, com um grupo de soldados britânicos esperando serem resgatados dos ataques; outra ação com um intervalo de um dia em um barco capitaneado pelo civil vivido por Mark Rylance, que tem a intenção de salvar o máximo possível de soldados britânicos naquele barco de passeio; e a terceira ação acontecendo em um intervalo de uma hora, quando vemos três pilotos britânicos tentando se defender e também atacando aviões alemães próximo ao local onde acontece a história.
Esse jogo temporal já foi explorado por Nolan em filmes tão distintos quanto AMNÉSIA (2000), A ORIGEM (2010) e INTERESTELAR (2014). Este terceiro talvez seja o exemplo mais bem acabado de todos os seus trabalhos como um todo. Esses e os demais são exemplos de filmes que trazem uma forte ambição artística, sendo que em boa parte das vezes nem sempre suas intenções são bem-sucedidas, embora possa sempre se encontrar também um conteúdo político curioso, inclusive nos filmes da trilogia Batman.
No caso de DUNKIRK, há quem veja no filme uma visão pró-Brexit, no sentido de que o que mais interessa para aqueles homens é salvar a pele dos britânicos. Que se danem os franceses. Há sim uma generosidade e um interesse em ajudar o próximo e nada mais explícito do que o barco comandado pelo personagem de Rylance, mas o próximo que interessa são os soldados ingleses que estão acuados e sendo chacinados pelos nazistas naquele lugar bonito, na fronteira da Bélgica com a França.
E falando em lugar bonito, as imagens do céu azul de um belo dia de sol também ajudam a tornar tudo muito agradável de ver. Pelo menos até o momento em que o azul e o branco do céu cansam, bem como as repetições das ações e das situações, seja no céu, no ar ou na terra. Pode-se sentir também mais um fascínio pela guerra do que um sentimento de horror, coisa que poderia se perceber em obras como O RESGATE DO SOLDADO RYAN e o já mencionado GLÓRIA FEITA DE SANGUE, para citar esses que talvez sejam os filmes que mais levam o espectador para dentro da ação.
DUNKIRK não consegue isso. Talvez porque os personagens são pouco interessantes, rasos, ou o tom de heroísmo com aquela música do Hans Zimmer meio genérica seja um convite ao sono. Nada contra esse tipo de cinema que exalta o heroísmo e até mesmo o nacionalismo, ainda mais em se tratando de uma guerra contra os nazistas, mas importar-se com aqueles rapazes sem nome não faria mal algum.
terça-feira, julho 25, 2017
EU MATEI LÚCIO FLÁVIO
Quem achou LÚCIO FLÁVIO - O PASSAGEIRO DA AGONIA, de Hector Babenco, um filme sangrento, precisa pensar duas vezes ao ver esta espécie de espelho quebrado chamado EU MATEI LÚCIO FLÁVIO (1979), dirigido por Antônio Calmon e estrelado e produzido por um dos sujeitos mais importantes do cinema brasileiro, Jece Valadão, aqui brincando com sua persona de homem viril, conquistador, malandro e pronto pra briga.
Mariel Mariscott de Matos, o lendário personagem protagonizado por Valadão é um homem que acredita estar do lado da lei. Desde o início, ele aparece como salva-vidas em uma praia. O filme faz questão de mostrar não só seus feitos heroicos, como também de pintá-lo como alguém merecedor de todas as glórias, alguém que se olha no espelho e se acha o tal. Se não o filme em si, mas a narrativa.
Há uma cena em que vemos Mariel fazendo sexo com a mãe de um menino que ele salva (Maria Lúcia Dahl), ao som de "Divina comédia humana", de Belchior. A cena, por mais que pareça deslocada ou em tom de sonho, não é nada perto das tantas situações inacreditáveis que vemos ao longo da narrativa por vezes truncada de EU MATEI LÚCIO FLÁVIO.
Não demora para que Mariel fique famoso e seja convidado para integrar a polícia. E naquele momento de ditadura militar, o lema "bandido bom é bandido morto" era mesmo levado a sério. Tanto que não há problema nenhum quando o protagonista elimina qualquer criminoso, como na antológica cena da farmácia, que conta com uma cena em que uma mulher, uma jovem Maria Zilda, é estuprada com um revólver.
Esse cinema de direita estava na moda nos anos 1970. Clint Eastwood fazia sucesso como o detetive Dirty Harry em PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL e suas continuações e Charles Bronson personificava a figura do vigilante como ninguém em DESEJO DE MATAR e suas demais continuações, consideradas por alguns como espetáculo trash.
O que vemos em EU MATEI LÚCIO FLÁVIO não é muito diferente do que fizeram esses astros e/ou diretores americanos. Apenas há uma consciência mais explícita do tipo de dramaturgia menos realista, do senso de humor todo especial, da violência que explode por todos os lados e das condições bem menos privilegiadas de fazer cinema no Brasil, e de viver no Brasil também. Percebe-se a influência dos filmes e das séries americanas, mas àquela altura o cinema brasileiro podia fazer muito bem o seu próprio exploitation de crime.
Incomoda um bocado as cenas de Valadão com várias mulheres, de vez em quando. Elas parecem não ter outra função a não ser enfatizar a masculinidade de Mariel. Na trama, fica confuso saber quem é quem. A personagem feminina que interessa é a prostituta e viciada em drogas vivida por Monique Lafond. Aliás, algumas das melhores cenas do filme envolvem o encontro dos dois. Talvez por isso Calmon tenha optado por deixar as demais personagens femininas sempre à margem, quase insignificantes.
E até agora nem falamos de Lúcio Flávio, embora sua participação seja importante para dar uma conclusão à história. Diferente de MATEI JESSE JAMES, de Samuel Fuller, se é que é possível comparar os dois, o filme de Calmon não apresenta uma morte covarde. O que temos aqui é um jogo aberto, uma guerra entre dois adversários que estão, inclusive, na mesma prisão. E o impressionante é o quanto, a essa altura, o filme já tenha incomodado bastante no quesito violência. O que EU MATEI LÚCIO FLÁVIO faz com "Lady Laura", de Roberto Carlos, no modo como ele a contextualiza na história, é quase um pecado. Se bem que Júlio Bressane já havia feito algo até mais perturbador ao som de uma canção do Rei em MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA dez anos antes. Viva a liberdade!
Mariel Mariscott de Matos, o lendário personagem protagonizado por Valadão é um homem que acredita estar do lado da lei. Desde o início, ele aparece como salva-vidas em uma praia. O filme faz questão de mostrar não só seus feitos heroicos, como também de pintá-lo como alguém merecedor de todas as glórias, alguém que se olha no espelho e se acha o tal. Se não o filme em si, mas a narrativa.
Há uma cena em que vemos Mariel fazendo sexo com a mãe de um menino que ele salva (Maria Lúcia Dahl), ao som de "Divina comédia humana", de Belchior. A cena, por mais que pareça deslocada ou em tom de sonho, não é nada perto das tantas situações inacreditáveis que vemos ao longo da narrativa por vezes truncada de EU MATEI LÚCIO FLÁVIO.
Não demora para que Mariel fique famoso e seja convidado para integrar a polícia. E naquele momento de ditadura militar, o lema "bandido bom é bandido morto" era mesmo levado a sério. Tanto que não há problema nenhum quando o protagonista elimina qualquer criminoso, como na antológica cena da farmácia, que conta com uma cena em que uma mulher, uma jovem Maria Zilda, é estuprada com um revólver.
Esse cinema de direita estava na moda nos anos 1970. Clint Eastwood fazia sucesso como o detetive Dirty Harry em PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL e suas continuações e Charles Bronson personificava a figura do vigilante como ninguém em DESEJO DE MATAR e suas demais continuações, consideradas por alguns como espetáculo trash.
O que vemos em EU MATEI LÚCIO FLÁVIO não é muito diferente do que fizeram esses astros e/ou diretores americanos. Apenas há uma consciência mais explícita do tipo de dramaturgia menos realista, do senso de humor todo especial, da violência que explode por todos os lados e das condições bem menos privilegiadas de fazer cinema no Brasil, e de viver no Brasil também. Percebe-se a influência dos filmes e das séries americanas, mas àquela altura o cinema brasileiro podia fazer muito bem o seu próprio exploitation de crime.
Incomoda um bocado as cenas de Valadão com várias mulheres, de vez em quando. Elas parecem não ter outra função a não ser enfatizar a masculinidade de Mariel. Na trama, fica confuso saber quem é quem. A personagem feminina que interessa é a prostituta e viciada em drogas vivida por Monique Lafond. Aliás, algumas das melhores cenas do filme envolvem o encontro dos dois. Talvez por isso Calmon tenha optado por deixar as demais personagens femininas sempre à margem, quase insignificantes.
E até agora nem falamos de Lúcio Flávio, embora sua participação seja importante para dar uma conclusão à história. Diferente de MATEI JESSE JAMES, de Samuel Fuller, se é que é possível comparar os dois, o filme de Calmon não apresenta uma morte covarde. O que temos aqui é um jogo aberto, uma guerra entre dois adversários que estão, inclusive, na mesma prisão. E o impressionante é o quanto, a essa altura, o filme já tenha incomodado bastante no quesito violência. O que EU MATEI LÚCIO FLÁVIO faz com "Lady Laura", de Roberto Carlos, no modo como ele a contextualiza na história, é quase um pecado. Se bem que Júlio Bressane já havia feito algo até mais perturbador ao som de uma canção do Rei em MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA dez anos antes. Viva a liberdade!
segunda-feira, julho 24, 2017
O FILME DA MINHA VIDA
O terceiro trabalho na direção de Selton Mello talvez tenha como principal calcanhar de Aquiles a sua intenção de ser grandioso em lirismo, mesmo abordando a vida de uma pessoa comum. Assim como MULHER DO PAI, de Cristiane Oliveira, O FILME DA MINHA VIDA (2017) é sobre a dificuldade de crescer e lidar com a ausência de algo ou alguém e ambos os filmes se passam em pequenas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Mas, diferente de Oliveira, que fez um filme deliberadamente pequeno, Selton quis algo mais ambicioso. E a produção é realmente admirável, com uma fotografia linda de Walter Carvalho, uma atenção especial com o desenho de som e algumas canções matadoras.
O FILME DA MINHA VIDA também tem o mérito de transbordar vontade de viver por todos os poros. Mesmo que viver seja algo muito doloroso, diante das ausências sentidas. Há a principal delas, que é a ausência do pai de Tony (Johnny Massaro, ótima revelação). O pai do rapaz, , vivido por Vincent Cassel, aparece principalmente nas memórias da infância do garoto, antes de desaparecer sem maiores explicações.
Mas há mais ausências também. A ausência dele para a sofrida mãe de Tony (Ondina Clais Castillo), a ausência de alguém na vida do melhor amigo de Tony, um sujeito que cria porcos chamado Paco (Selton Mello), a ausência de um amor na vida de Tony, que é sentida mais no desejo que ele nutre por duas lindas irmãs, Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes). Há uma sequência em particular que mostra a confusão no desejo do rapaz, quando ele as imagina fazendo uma espécie de número musical.
Tony não sabe lidar ainda com esse desejo e talvez por isso, por ele não ser exatamente obcecado (e nem apaixonado) por Luna, essa questão mais romântica acaba um pouco diluída, ainda que o diretor saiba colocar canções e imagens plenas de lirismo para emoldurar esse sentimento de excitação (no sentido mais amplo da palavra) por parte do jovem protagonista.
O personagem de Selton Mello, Paco, é o que oferece mais riso para o espectador. Como não rir quando o garçom oferece vinho branco e ele diz que vinho branco só serve para lavar os pés? Ao mesmo tempo, há algo de amargo no jeito como Paco vê a si mesmo, como quando ele pergunta a uma prostituta se ele se parece com um porco. No fim, a gente entende um pouco mais o porquê disso, mas mesmo naquele momento, é compreensível esse tipo de pergunta, levando em consideração que ele está sozinho e sente desejos pela mãe de Tony.
Há, perto do final, um momento em que o filme ganha uma barriga, perde um pouco da magia de recordação juvenil que até então prevalecia, mas é possível que isso tenha sido proposital, já que é o momento em que a realidade entra com força na porta de Tony, quando ele descobre alguns segredos importantes sobre ele e as pessoas que lhe são caras.
Adaptado do romance Um Padre de Película, do escritor chileno Antonio Skármeta (o mesmo de O Carteiro e o Poeta), O FILME DA MINHA VIDA tem um quê de CINEMA PARADISO, até pela fotografia em tom onírico, e a história, embora se passe em 1963, parece se passar nos anos 1950, uma década que ainda tem algo de inocência em torno de sua aura. Essa confusão temporal ajuda a nos transportar para esse universo todo próprio do filme.
Há inúmeros detalhes que fazem com que este terceiro longa-metragem de Selton Mello seja tão ou mais importante que seus trabalhos anteriores - FELIZ NATAL (2008) e O PALHAÇO (2011). Além do que já foi citado, como não ficar impressionado com as marcas de expressão de Rolando Boldrin, vivendo aqui um maquinista? Ou as várias canções que emolduram as cenas, como "Coração de papel", por Sérgio Reis, "I put a spell on you", por Nina Simone, e principalmente "Hier encore", de Charles Aznavour? Essas canções mexem com as emoções do espectador de forma exponencial dentro da sala escura. Nem sempre Selton Mello consegue domar tantas emoções juntas, mas é melhor assim.
O FILME DA MINHA VIDA também tem o mérito de transbordar vontade de viver por todos os poros. Mesmo que viver seja algo muito doloroso, diante das ausências sentidas. Há a principal delas, que é a ausência do pai de Tony (Johnny Massaro, ótima revelação). O pai do rapaz, , vivido por Vincent Cassel, aparece principalmente nas memórias da infância do garoto, antes de desaparecer sem maiores explicações.
Mas há mais ausências também. A ausência dele para a sofrida mãe de Tony (Ondina Clais Castillo), a ausência de alguém na vida do melhor amigo de Tony, um sujeito que cria porcos chamado Paco (Selton Mello), a ausência de um amor na vida de Tony, que é sentida mais no desejo que ele nutre por duas lindas irmãs, Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes). Há uma sequência em particular que mostra a confusão no desejo do rapaz, quando ele as imagina fazendo uma espécie de número musical.
Tony não sabe lidar ainda com esse desejo e talvez por isso, por ele não ser exatamente obcecado (e nem apaixonado) por Luna, essa questão mais romântica acaba um pouco diluída, ainda que o diretor saiba colocar canções e imagens plenas de lirismo para emoldurar esse sentimento de excitação (no sentido mais amplo da palavra) por parte do jovem protagonista.
O personagem de Selton Mello, Paco, é o que oferece mais riso para o espectador. Como não rir quando o garçom oferece vinho branco e ele diz que vinho branco só serve para lavar os pés? Ao mesmo tempo, há algo de amargo no jeito como Paco vê a si mesmo, como quando ele pergunta a uma prostituta se ele se parece com um porco. No fim, a gente entende um pouco mais o porquê disso, mas mesmo naquele momento, é compreensível esse tipo de pergunta, levando em consideração que ele está sozinho e sente desejos pela mãe de Tony.
Há, perto do final, um momento em que o filme ganha uma barriga, perde um pouco da magia de recordação juvenil que até então prevalecia, mas é possível que isso tenha sido proposital, já que é o momento em que a realidade entra com força na porta de Tony, quando ele descobre alguns segredos importantes sobre ele e as pessoas que lhe são caras.
Adaptado do romance Um Padre de Película, do escritor chileno Antonio Skármeta (o mesmo de O Carteiro e o Poeta), O FILME DA MINHA VIDA tem um quê de CINEMA PARADISO, até pela fotografia em tom onírico, e a história, embora se passe em 1963, parece se passar nos anos 1950, uma década que ainda tem algo de inocência em torno de sua aura. Essa confusão temporal ajuda a nos transportar para esse universo todo próprio do filme.
Há inúmeros detalhes que fazem com que este terceiro longa-metragem de Selton Mello seja tão ou mais importante que seus trabalhos anteriores - FELIZ NATAL (2008) e O PALHAÇO (2011). Além do que já foi citado, como não ficar impressionado com as marcas de expressão de Rolando Boldrin, vivendo aqui um maquinista? Ou as várias canções que emolduram as cenas, como "Coração de papel", por Sérgio Reis, "I put a spell on you", por Nina Simone, e principalmente "Hier encore", de Charles Aznavour? Essas canções mexem com as emoções do espectador de forma exponencial dentro da sala escura. Nem sempre Selton Mello consegue domar tantas emoções juntas, mas é melhor assim.
domingo, julho 23, 2017
EM RITMO DE FUGA (Baby Driver)
Talvez nem os fãs mais entusiastas de Edgar Wright prevessem a delícia que é EM RITMO DE FUGA (2017), este thriller de ação com muita música e muito amor, que aquece o coração e deixa o espectador com a adrenalina a mil, com suas sequências de perseguição e outras situações de perigo. A força de Wright na direção já se mostra no prólogo, que nos apresenta a um dos trabalhos do grupo de que faz parte o motorista de fuga Baby, vivido por Ansel Elgort.
Na sequência inicial, ao som de "Belbottoms", da Jon Spencer Blues Explosion, sem nenhum diálogo, o coração já bate mais forte, ao ritmo da canção devidamente escolhida por aquele sujeito com cara de bom rapaz. É cinema com C maiúsculo, com a habilidade que principalmente o gênero "ação" da melhor categoria é capaz de criar. Claro que há o débito com a música, que está sempre ali atuando como adjuvante na criação das cenas empolgantes, mas que mal há nisso, não é verdade?
Até porque o uso da música no filme é muito inteligente e nada óbvio. Mesmo quando ouvimos uma canção mais famosa, como "Easy", dos Commodores, ela é tão bem encaixada, dentro do estado de espírito do personagem, além de a canção por si só ser de uma beleza que enche os nossos corações, que a tal dívida que o filme tem com a música se torna peça essencial e não uma muleta. Aliás, mais perto do fim de EM RITMO DE FUGA, vamos ver o quanto esse prazer pela canção é também compartilhado por nós, espectadores.
E que beleza que é o diálogo (minimalista) de Baby com a garçonete encantadora vivida por Lily James, de nome Debora, hein? Eles conversam sobre ter uma canção com seus nomes. Há pelo menos duas com o nome dela, enquanto que, para ele, há infinitas possibilidades. E eis que estamos também entregues ao encanto da paixão que surge entre aquele belo e jovem casal nos momentos em que eles estão juntos. Nem em CINDERELA Lily James esteve tão encantadora.
E temos também o humor característico da obra de Edgar Wright. Ele comparece em diversos momentos, seja nos diálogos espertos dos diversos personagens, inclusive daqueles caras barra-pesada que ingressam na gangue dos assaltos (caso dos personagens de Jamie Foxx, de Jon Hamm e do chefão vivido por Kevin Spacey).
Porém, do mesmo modo com que Wright sabe nos deixar a maior parte do tempo com um sorriso de orelha a orelha e dar umas boas risadas de vez em quando, ele também sabe lidar com os momentos mais sombrios. Afinal, estamos diante de um filme de assalto com tensão, como FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann, ou MORTALMENTE PERIGOSA, de Joseph H. Lewis, e não um filme de assalto leve, tipo ONZE HOMENS E UM SEGREDO, de Steven Soderbergh. Por isso sabemos que o perigo está sempre por perto.
O fato de Baby ser um refém das chantagens do chefão Doc (Spacey) é um elemento que faz com que nos coloquemos em seu lugar. Ele está prestes a deixar aquele mundo do crime. E o seu sonho ganha forma na conversa com Debra, sobre querer sair daquele lugar e ganhar a estrada, ouvindo música. E para que melhor sonho do que encontrar a felicidade pegando a estrada com a pessoa amada? Mas sabemos que esse sonho não vai ser tão fácil de ser concretizado.
Tudo isso, incluindo as dificuldades dos nossos heróis e as várias cenas de perseguição, sendo uma delas a pé, fazem parte do prazer que sentimos em ver EM RITMO DE FUGA, um filme que traz uma injeção de ânimo tão grande em nosso espírito que, ao sair da sessão, dá vontade de dançar, ouvir música, correr (com o carro ou com as pernas mesmo), enfim, viver. E viver inclusive para poder ter o privilégio de rever EM RITMO DE FUGA. De preferência no cinema, novamente.
Na sequência inicial, ao som de "Belbottoms", da Jon Spencer Blues Explosion, sem nenhum diálogo, o coração já bate mais forte, ao ritmo da canção devidamente escolhida por aquele sujeito com cara de bom rapaz. É cinema com C maiúsculo, com a habilidade que principalmente o gênero "ação" da melhor categoria é capaz de criar. Claro que há o débito com a música, que está sempre ali atuando como adjuvante na criação das cenas empolgantes, mas que mal há nisso, não é verdade?
Até porque o uso da música no filme é muito inteligente e nada óbvio. Mesmo quando ouvimos uma canção mais famosa, como "Easy", dos Commodores, ela é tão bem encaixada, dentro do estado de espírito do personagem, além de a canção por si só ser de uma beleza que enche os nossos corações, que a tal dívida que o filme tem com a música se torna peça essencial e não uma muleta. Aliás, mais perto do fim de EM RITMO DE FUGA, vamos ver o quanto esse prazer pela canção é também compartilhado por nós, espectadores.
E que beleza que é o diálogo (minimalista) de Baby com a garçonete encantadora vivida por Lily James, de nome Debora, hein? Eles conversam sobre ter uma canção com seus nomes. Há pelo menos duas com o nome dela, enquanto que, para ele, há infinitas possibilidades. E eis que estamos também entregues ao encanto da paixão que surge entre aquele belo e jovem casal nos momentos em que eles estão juntos. Nem em CINDERELA Lily James esteve tão encantadora.
E temos também o humor característico da obra de Edgar Wright. Ele comparece em diversos momentos, seja nos diálogos espertos dos diversos personagens, inclusive daqueles caras barra-pesada que ingressam na gangue dos assaltos (caso dos personagens de Jamie Foxx, de Jon Hamm e do chefão vivido por Kevin Spacey).
Porém, do mesmo modo com que Wright sabe nos deixar a maior parte do tempo com um sorriso de orelha a orelha e dar umas boas risadas de vez em quando, ele também sabe lidar com os momentos mais sombrios. Afinal, estamos diante de um filme de assalto com tensão, como FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann, ou MORTALMENTE PERIGOSA, de Joseph H. Lewis, e não um filme de assalto leve, tipo ONZE HOMENS E UM SEGREDO, de Steven Soderbergh. Por isso sabemos que o perigo está sempre por perto.
O fato de Baby ser um refém das chantagens do chefão Doc (Spacey) é um elemento que faz com que nos coloquemos em seu lugar. Ele está prestes a deixar aquele mundo do crime. E o seu sonho ganha forma na conversa com Debra, sobre querer sair daquele lugar e ganhar a estrada, ouvindo música. E para que melhor sonho do que encontrar a felicidade pegando a estrada com a pessoa amada? Mas sabemos que esse sonho não vai ser tão fácil de ser concretizado.
Tudo isso, incluindo as dificuldades dos nossos heróis e as várias cenas de perseguição, sendo uma delas a pé, fazem parte do prazer que sentimos em ver EM RITMO DE FUGA, um filme que traz uma injeção de ânimo tão grande em nosso espírito que, ao sair da sessão, dá vontade de dançar, ouvir música, correr (com o carro ou com as pernas mesmo), enfim, viver. E viver inclusive para poder ter o privilégio de rever EM RITMO DE FUGA. De preferência no cinema, novamente.
sexta-feira, julho 21, 2017
DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song)
Talvez o problema de Terrence Malick foi ter acertado a mão em A ÁRVORE DA VIDA (2011), em que ele usou talvez pela primeira vez o uso da câmera-chicote, que trabalha a aproximação e a rejeição ao mesmo tempo. É um tipo de efeito muito interessante, mas imagina só ver uma obra inteira feita dessa maneira, e com cortes rápidos, que impedem que quase nunca possamos ver imagens estáticas, a não ser quando a câmera está dentro de um barco, por exemplo, como na cena com Cate Blanchett.
O que a gente pode perceber também em DE CANÇÃO EM CANÇÃO (2017) é o quanto Malick passou de cineasta existencialista e religioso para um homem interessado nas coisas, digamos, mais mundanas. Ele aborda o amor, algo transcendental em qualquer forma que ele seja apresentado, mas o diretor está muito interessado em filmar rostos bonitos. Se em A ÁRVORE DA VIDA e também em AMOR PLENO (2012) Jessica Chastain e Olga Kurylenko parecem figuras angelicais, esse sentimento é deixado de lado no novo filme.
Ou ao menos, é diminuído consideravelmente, já que a personagem de Rooney Mara parece estar vivendo uma crise de consciência tremenda, ao estar com dois homens ao mesmo tempo, traindo o namorado vivido por Ryan Gosling pela personificação do cafajeste conquistador vivido por Michael Fassbender. Os dois atores, é bom dizer, funcionam muito bem dentro desses papéis. Não é uma má escolha no casting. Mas o excesso de voice over e de tentativa de dar profundidade às suas angústias acaba por tirar-lhes a voz.
Por causa disso é que uma cena que deveria ser impactante, envolvendo Natalie Portman, acaba não tendo força. Seria por culpa da edição, que tirou muito de sua personagem no enredo? Quem sabe. Mas o fato é que assistir a DE CANÇÃO EM CANÇÃO é até um desafio. Não é todo mundo que entra na sala e fica até o final. Muitos espectadores vão embora, coisa que aconteceu com A ÁRVORE DA VIDA também. Assim, é preciso entrar na sala esperando ver um filme de Terrence Malick. O Malick dos anos 2010, mais disposto a contar uma história de maneira fragmentada e com esse estilo que ficou mais parecendo um cacoete.
Há também frustração na questão da música, que é anunciada no título. Algumas das canções são muito boas, mas quando elas começam a tocar e o filme fica parecendo um belo trailer (como são belos os trailers dos filmes do Malick, hein?), essas mesmas canções são interrompidas, causando mais irritação. Tudo em prol de manter o mesmo flutuar em vai-vens da câmera do mexicano Emmanuel Lubeski. Aliás, uma das melhores coisas do filme e o que mais segura o espectador é a beleza das imagens que Lubeski capta. Mais do que o interesse pelos músicos (Patti Smith, Iggy Pop, Red Hot Chilli Peppers).
E aí temos a beleza do elenco. Cate Blanchett aparece pouco, mas poucas vezes ela apareceu de maneira tão deslumbrante como em DE CANÇÃO EM CANÇÃO. É até perdoável que Malick tenha se deixado inebriar pela beleza de seu elenco. Fazer cinema é muitas vezes registrar a beleza dos corpos jovens da melhor maneira possível, a fim de eternizá-los. Em alguns momentos, Malick quase se deixa levar pelo lado mais sensual, com personagens, principalmente as femininas, tocando ou tendo tocado o seu sexo com volúpia. E, nisso, vale destacar também uma cena de amor entre duas mulheres, o que só aumenta o sentimento de fascínio do diretor pela beleza sensual, ainda que seja uma beleza sempre branca, emoldura por filtros e por uma arquitetura sempre de riqueza material e envolta pelas coisas que o dinheiro pode comprar.
O que a gente pode perceber também em DE CANÇÃO EM CANÇÃO (2017) é o quanto Malick passou de cineasta existencialista e religioso para um homem interessado nas coisas, digamos, mais mundanas. Ele aborda o amor, algo transcendental em qualquer forma que ele seja apresentado, mas o diretor está muito interessado em filmar rostos bonitos. Se em A ÁRVORE DA VIDA e também em AMOR PLENO (2012) Jessica Chastain e Olga Kurylenko parecem figuras angelicais, esse sentimento é deixado de lado no novo filme.
Ou ao menos, é diminuído consideravelmente, já que a personagem de Rooney Mara parece estar vivendo uma crise de consciência tremenda, ao estar com dois homens ao mesmo tempo, traindo o namorado vivido por Ryan Gosling pela personificação do cafajeste conquistador vivido por Michael Fassbender. Os dois atores, é bom dizer, funcionam muito bem dentro desses papéis. Não é uma má escolha no casting. Mas o excesso de voice over e de tentativa de dar profundidade às suas angústias acaba por tirar-lhes a voz.
Por causa disso é que uma cena que deveria ser impactante, envolvendo Natalie Portman, acaba não tendo força. Seria por culpa da edição, que tirou muito de sua personagem no enredo? Quem sabe. Mas o fato é que assistir a DE CANÇÃO EM CANÇÃO é até um desafio. Não é todo mundo que entra na sala e fica até o final. Muitos espectadores vão embora, coisa que aconteceu com A ÁRVORE DA VIDA também. Assim, é preciso entrar na sala esperando ver um filme de Terrence Malick. O Malick dos anos 2010, mais disposto a contar uma história de maneira fragmentada e com esse estilo que ficou mais parecendo um cacoete.
Há também frustração na questão da música, que é anunciada no título. Algumas das canções são muito boas, mas quando elas começam a tocar e o filme fica parecendo um belo trailer (como são belos os trailers dos filmes do Malick, hein?), essas mesmas canções são interrompidas, causando mais irritação. Tudo em prol de manter o mesmo flutuar em vai-vens da câmera do mexicano Emmanuel Lubeski. Aliás, uma das melhores coisas do filme e o que mais segura o espectador é a beleza das imagens que Lubeski capta. Mais do que o interesse pelos músicos (Patti Smith, Iggy Pop, Red Hot Chilli Peppers).
E aí temos a beleza do elenco. Cate Blanchett aparece pouco, mas poucas vezes ela apareceu de maneira tão deslumbrante como em DE CANÇÃO EM CANÇÃO. É até perdoável que Malick tenha se deixado inebriar pela beleza de seu elenco. Fazer cinema é muitas vezes registrar a beleza dos corpos jovens da melhor maneira possível, a fim de eternizá-los. Em alguns momentos, Malick quase se deixa levar pelo lado mais sensual, com personagens, principalmente as femininas, tocando ou tendo tocado o seu sexo com volúpia. E, nisso, vale destacar também uma cena de amor entre duas mulheres, o que só aumenta o sentimento de fascínio do diretor pela beleza sensual, ainda que seja uma beleza sempre branca, emoldura por filtros e por uma arquitetura sempre de riqueza material e envolta pelas coisas que o dinheiro pode comprar.
quarta-feira, julho 19, 2017
MEMÓRIAS SECRETAS (Remember)
Outra perda noticiada e lamentada nesse último domingo (a morte foi no sábado) foi a do prolífico ator Martin Landau, que teve como um de seus últimos papéis marcantes o de MEMÓRIAS SECRETAS (2015), de Atom Egoyan. Vi-o em maio do ano passado e é curioso eu justamente estar falando dele com a memória fraca, dada a distância de tempo, e sendo um filme sobre um personagem com Alzheimer.
Com 177 títulos no currículo como ator, Martin Landau começou sua carreira na televisão na década de 1950 e já na mesma década teve a honra de estar em um filme de Alfred Hitchcock, INTRIGA INTERNACIONAL. Mas ele acabou se notabilizando pelos trabalhos na televisão e brilhou na série MISSÃO: IMPOSSÍVEL nos anos 1960. No cinema dos anos 1970-80 se dedicou a alguns filmes B de terror e ficção científica.
As coisas melhoraram para Landau quando surgiram papéis importantes, como os de TUCKER - UM HOMEM E SEU SONHO, de Francis Ford Coppola, e seu desempenho excepcional em CRIMES E PECADOS, de Woody Allen. Mas sua coroação veio com ED WOOD, de Tim Burton, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, interpretando de maneira comovente e engraçada um Bela Lugosi decadente.
Em MEMÓRIAS SECRETAS, Landau é um nonagenário sobrevivente de Auschwitz que prepara uma vingança contra o nazista responsável por matar sua família nos campos de concentração. O problema é que ele não tem como fazer isso estando em uma cadeira de rodas. A não ser que ele peça ajuda a seu melhor amigo, vivido por Christopher Plummer, vítima dos mesmos carrascos.
Acontece que o personagem de Plummer, de nome Zed, tem um outro problema sério: o mal de Alzheimer. Assim, sua tarefa para fugir da casa de repouso e procurar a casa do tal nazista para, enfim, executá-lo, não é nada fácil. E isso acaba se tornando algo divertido e ao mesmo tempo angustiante para o espectador. O veterano Plummer, quase um nonagenário também, está ótimo em seu personagem desmemoriado, mas com disposição para executar o ato.
Talvez o filme fosse mais memorável se estivesse nas mãos de outro cineasta, já que Atom Egoyan anda fazendo uns filmes bem mais ou menos já faz algum tempo. Se bem que o último trabalho dele que vi foi O PREÇO DA TRAIÇÃO (2009), mas a maior parte dos críticos não tem gostado muitos de seus filmes, não. Principalmente levando em consideração que ele começou muito bem nos anos 1990, com EXÓTICA (1994) e depois ganhando a Palma de Ouro em Cannes com O DOCE AMANHÃ (1997). Seria o caso de diretor que perdeu a mão ou de um picareta que enganou a todos? De todo modo, MEMÓRIAS SECRETAS não é um filme que se deve deixar de lado.
Com 177 títulos no currículo como ator, Martin Landau começou sua carreira na televisão na década de 1950 e já na mesma década teve a honra de estar em um filme de Alfred Hitchcock, INTRIGA INTERNACIONAL. Mas ele acabou se notabilizando pelos trabalhos na televisão e brilhou na série MISSÃO: IMPOSSÍVEL nos anos 1960. No cinema dos anos 1970-80 se dedicou a alguns filmes B de terror e ficção científica.
As coisas melhoraram para Landau quando surgiram papéis importantes, como os de TUCKER - UM HOMEM E SEU SONHO, de Francis Ford Coppola, e seu desempenho excepcional em CRIMES E PECADOS, de Woody Allen. Mas sua coroação veio com ED WOOD, de Tim Burton, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, interpretando de maneira comovente e engraçada um Bela Lugosi decadente.
Em MEMÓRIAS SECRETAS, Landau é um nonagenário sobrevivente de Auschwitz que prepara uma vingança contra o nazista responsável por matar sua família nos campos de concentração. O problema é que ele não tem como fazer isso estando em uma cadeira de rodas. A não ser que ele peça ajuda a seu melhor amigo, vivido por Christopher Plummer, vítima dos mesmos carrascos.
Acontece que o personagem de Plummer, de nome Zed, tem um outro problema sério: o mal de Alzheimer. Assim, sua tarefa para fugir da casa de repouso e procurar a casa do tal nazista para, enfim, executá-lo, não é nada fácil. E isso acaba se tornando algo divertido e ao mesmo tempo angustiante para o espectador. O veterano Plummer, quase um nonagenário também, está ótimo em seu personagem desmemoriado, mas com disposição para executar o ato.
Talvez o filme fosse mais memorável se estivesse nas mãos de outro cineasta, já que Atom Egoyan anda fazendo uns filmes bem mais ou menos já faz algum tempo. Se bem que o último trabalho dele que vi foi O PREÇO DA TRAIÇÃO (2009), mas a maior parte dos críticos não tem gostado muitos de seus filmes, não. Principalmente levando em consideração que ele começou muito bem nos anos 1990, com EXÓTICA (1994) e depois ganhando a Palma de Ouro em Cannes com O DOCE AMANHÃ (1997). Seria o caso de diretor que perdeu a mão ou de um picareta que enganou a todos? De todo modo, MEMÓRIAS SECRETAS não é um filme que se deve deixar de lado.
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