sexta-feira, junho 30, 2017
FILHOS E AMANTES
Confesso que meu principal interesse em rever FILHOS E AMANTES (1981) era ter a chance de novamente apreciar a beleza de Lúcia Veríssimo, que tão pouco cinema fez. Na época da realização deste filme de Francisco Ramalho Jr. ela não era tão conhecida e por isso seu nome aparece apenas como terceiro nos créditos, logo após o título e logo após os nomes de Denise Dumont e Nicole Puzzi. A Nicole, por mais brilhante que seja, inclusive, nem tem um papel tão marcante, mas justamente por ter fama maior foi a única que apareceu no cartaz. Lembrando que foi em um filme com Nicole Puzzi, o ótimo ARIELLA, de John Herbert, que Lúcia primeiro apareceu no cinema, creditada com outro nome. (Corrijam-me, por favor, se a informação não proceder.)
Curiosamente, as três atrizes, principalmente Nicole Puzzi, abrilhantaram filmes de Walter Hugo Khouri. Denise Dumont esteve na obra-prima EROS – O DEUS DO AMOR (1981) e Lúcia apareceu em cena muito especial de AS FERAS (1995/2001). Quanto a Nicole Puzzi, ela teve a honra de estar em quatro trabalhos do nosso maior cineasta, começando por O PRISIONEIRO DO SEXO (1978). Mas qual é o sentido de falar tanto assim de Khouri, senão o amor que temos por ele? Creio que o fato de FILHOS E AMANTES possuir muitas das características vistas no cinema mais psicológico de Khouri, embora mostre o sexo como algo muito mais livre e sem estar tão ancorado em angústias.
As angústias são sentidas por Silvia (Veríssimo), que está grávida do namorado Roberto (André de Biasi) e que teme contar a ele a notícia, para que isso não estrague as férias que eles passarão em uma casa de campo em Itatiaia, no sul do Rio de Janeiro. É inverno e quase sentimos o frio também, principalmente na cena em que os personagens vão tomar banho nus em uma cachoeira, e acabam por mexer com ciúmes, desejos e situações complicadas, o que é natural para pessoas tão jovens, belas e cheias de vida, mas ao mesmo tempo tão griladas.
As anfitriãs da casa são a simpática Marta (Denise Dumont) e a reservada Bebel (Nicole Puzzi). A casa acaba também recebendo outro casal em uma visita surpresa, um ex-namorado de Marta, Dinho (Hugo DellaSanta), e sua atual namorada Carminha (Rosina Malbouisson). Diria que por mais que a presença desses dois seja importante para tornar ainda mais interessante a ciranda amorosa que circulará ao longo do filme, é nas subtramas dos dois que o filme se perde um pouco. Principalmente quando tenta emular o estado de espírito lisérgico de Dinho, viciado em drogas injetáveis.
Essas situações perigosas e dolorosas da vida (inclua-se aí a questão do aborto, que é debatida sem tomar partido) contribui para o aprofundamento dos personagens. E nisso é muito bem-vinda a cena em que Silvia e Dinho conhecem um casal mais velho, vivido por Walmor Chagas e Renée de Vielmond. Ele está com câncer terminal e abraça os instantes de vida que lhe restam com muito prazer. O encontro com esse casal e os momentos especiais desse encontro trazem algo de muito positivo para nosso espírito, tornando os demais problemas até banais, e o gosto pela vida e pelos pequenos prazeres de fundamental importância.
Daí a cena de sexo entre Marta e Roberto ser tão bonita e tão representativa desse desapego com as coisas que não importam. A própria Denise Dumont está muito bem nesse papel de mulher disposta a se libertar das amarras que a sociedade às vezes impõe. "Não vamos misturar as coisas" e "eu tenho um carinho muito grande por você" são coisas que ela diz sorrindo para o encantado Roberto.
FILHOS E AMANTES pode até não ser um filme perfeito, mas cada vez que penso nele, mais fico encantado com algumas memórias que ele traz. Claro que a admiração pela beleza próxima à perfeição de Lúcia Veríssimo contribui bastante para o nosso constante interesse, mas sabemos que não é só isso, que Francisco Ramalho Jr. e seu belo elenco conseguiram fazer um trabalho que merece ser visto e revisto com prazer.
quinta-feira, junho 29, 2017
BETTER CALL SAUL – 3ª TEMPORADA (Better Call Saul – Season Three)
Finalmente uma série, dentre as mais recentes, que não teve curva descendente neste ano de 2017. Ao contrário, a terceira temporada de BETTER CALL SAUL (2017) chega a se equiparar, muitas vezes, aos melhores momentos de sua "série mãe", BREAKING BAD (2008-2013). Até porque, cada vez mais, o destino de seus personagens se encaminha para onde os conhecemos na cultuada série de Vince Gilligan.
E, se no começo, acreditava-se que os únicos personagens já conhecidos a serem explorados com profundidade no spin-off seriam apenas Jimmy/Saul (Bob Odenkirk) e Mike (Jonathan Banks), na terceira temporada, temos a alegria de ver também a entrada em cena de Gus (Giancarlo Esposito) e Nacho (Michael Mando), ambos do bloco mais ligado à vida perigosa do tráfico de drogas e do rastro de mortes que esse mundo traz. Sem esquecer, claro, do velho Hector Salamanca (Mark Margollis), antes de aparecer imobilizado em BREAKING BAD. Deste modo, o aspecto mais criminoso da série caminha em paralelo com as intrigas entre advogados.
Com tanta gente boa entrando novamente em cena, é até natural que as subtramas envolvendo Mike tenham sofrido um pouco, embora o personagem continue despertando admiração e tenha ganhado alguns ótimos momentos. Os criadores e roteiristas, porém, tomaram o devido cuidado para que o protagonista da série não fosse eclipsado pelas novidades, como de fato não foi. A trajetória de Jimmy continua empolgante de acompanhar. Ainda mais agora que vamos conhecendo mais do lado mais sombrio de sua personalidade, quase o aproximando de Walter White, mais ainda dotado de uma bondade de coração que compensa sua tendência a fazer com que as pessoas caiam em ciladas, para benefício próprio.
No caso do irmão, o arrogante Chuck (Michael McKean), o que Jimmy faz com ele no tribunal chega a ser perturbador. O que deveria trazer um bom gosto de vingança sai como um tiro pela culatra. Ao menos no espectador. E também em Kim (Rhea Seahorn), que não fica tão animada assim com o fato de ter vencido um homem doente no tribunal, por mais que esse homem doente não tenha se mostrado nada amoroso com o irmão. Quanto a Kim, é uma personagem cada vez mais adorável em sua seriedade e delicadeza.
A terceira temporada potencializa os problemas de Chuck com eletricidade, tornando-o um personagem até capaz de despertar empatia no espectador. O que não quer dizer que deixemos de torcer por Jimmy. As cenas dele prestando serviço comunitário recolhendo lixo e tentando conseguir dinheiro para pagar o aluguel da firma de advocacia são exemplos disso. Assim como a admiração que temos por alguém que consegue resolver de maneira inteligente tantos problemas que a vida lhe reserva, por mais que a saída não seja de natureza tão ética.
Vale dizer que muito da força de BETTER CALL SAUL vem da elegância das filmagens, do excelente trabalho de direção de arte, e também dos bem cuidados diálogos e da vontade de aprofundar a psicologia de seus personagens. A série está bem longe de ser uma qualquer dentro da atual safra. Em vez disso, o que esperamos é que a evolução continue.
Melhores episódios: "Chicanery", com uma emocionante e tensa disputa entre Jimmy e Chuck no tribunal; "Expenses", com Jimmy suando muito para quitar suas dívidas das maneiras mais criativas; "Fall", com Kim enfrentando desafios no trabalho; e "Lantern", com o colapso de Chuck.
sábado, junho 24, 2017
AO CAIR DA NOITE (It Comes at Night)
E temos um belo e fresco filme sobre o fim do mundo como o conhecemos, um mundo devastado por uma doença contagiosa e mortal. Não é novidade o tema, mas é novidade o modo como a história é contada. Na trama, só o que conhecemos é uma pequena família. Depois um outro personagem adentra a casa e uma nova família é apresentada. Novamente o diretor Trey Edward Shults, de KRISHA (2015), trata de estruturas familiares.
AO CAIR DA NOITE (2017) se distancia do que normalmente se vê de mais vulgar no gênero. Há muito pouco gore e os sustos são bem discretos. É um filme que não se apoia em sustos, aposta na atmosfera, no medo do desconhecido, no que está escondido na floresta, no que está invisível aos nossos olhos, mas visível aos olhos dos personagens, como é o caso de algo que Travis (Kelvin Harrison) vê e a câmera nos nega a visão. Os pesadelos de Travis, sua natureza, são baseados naquilo que lhe impressiona: os medos, os desejos, os traumas.
Uma das primeiras cenas é extremamente cruel. O avô moribundo, pai de Sarah (Carmen Ejogo), é levado em um carro de mão para ser abatido e enterrado longe, na floresta. O neto Travis está junto com o pai, Paul (Joel Edgerton), o chefe da família que toma medidas desesperadas para manter a si e os seus vivos diante naquele cenário de fim de mundo.
Esse tom mórbido e apocalíptico contrasta com a beleza das imagens (seja dos exteriores, seja de interiores), tão bem enquadrados pela câmera de Shults. Mesmo quando não há nada no fundo, apenas a escuridão, como na cena do primeiro jantar sem a presença do avô, até a escuridão funciona como um trabalho de direção de arte admirável. Mais adiante, de dia, teremos vislumbres da casa, que possui uma intrigante porta vermelha, que se destaca do restante da mobília.
Há uma cena exterior digna de nota: Paul leva Will (Christopher Abott) à bordo da caminhonete para buscar a mulher e o filho pequeno para morarem juntos com sua família. Mas o clima de tensão faz com que Paul fique constantemente olhando para Will no retrovisor da caminhonete. O que se segue a seguir é quase esperado, mas é adicionado a algo mais, que serve para mostrar um pouco daquele mundo sem amigos e com racionamento de água e alimentos. Quase um THE WALKING DEAD, mas sem zumbis.
Cada cena de AO CAIR DA NOITE tem a sua importância, em um filme em que pouca coisa de fato acontece: não há monstros ou coisas do tipo. Mas é justamente por isso que o segundo filme de Shults é cheio de tanta classe, já que tem um pé no arthouse, embora já distante do drama tenso KRISHA. É cinema de gente grande, desses que restabelece a fé na renovação do gênero horror.
Quanto às últimas cenas, um spoiler, quem prestar atenção nas mudanças de janela vai perceber que são semelhantes às janelas usadas nos pesadelos de Travis. O que pode significar que aquilo tudo, aquela série de cenas mais movimentadas, é um pesadelo do rapaz que tomou conta da realidade (uma ideia interessante). Porém, há algo que desmonta ou perturba essa teoria, o que também eleva AO CAIR DA NOITE a forte candidato a melhor filme de horror do ano. E em um ano que já teve CORRA!, de Jordan Peele.
sábado, junho 17, 2017
A MÚMIA (The Mummy)
E a Universal tenta mais uma vez trazer seus monstros clássicos de volta. Foram um sucesso gigantesco nas décadas de 1930-40 e tiveram uma revitalização pelos estúdios Hammer nos anos 1960-70. A tentativa de fazer filmes mais sérios e supostamente mais fieis a suas origens literárias na década de 1990, com DRÁCULA DE BRAM STOKER, de Francis Ford Coppola, e FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY, de Kenneth Branagh, foram da rival Columbia e o segundo filme acabou não agradando muito. Por isso, este novo A MÚMIA (2017), estranhamente estrelado por Tom Cruise, tem mais em comum mesmo com outra produção da Universal: justamente a aventura bem-humorada A MÚMIA (1999), de Stephen Sommers.
Daí vem a justificativa de ter um ator de filmes de ação como Tom Cruise encabeçando o elenco desta superprodução com sabor de filme B. Ou seja, encarando o filme como mera diversão escapista e nada mais, é possível gostar um pouco de A MÚMIA, de Alex Kurtzman, que brinca, inclusive, com a inclusão de outro monstro clássico na trama, ainda que isso conte mais pontos negativos do que positivos à produção.
O curioso é essa necessidade de encher o filme de efeitos especiais e de gente correndo o tempo todo. Isso acaba tornando, paradoxalmente, o filme com visual falso e andamento por vezes maçante. E pensar que é bom o A MÚMIA (1932), o original de Karl Freund, que não precisava disso. De todo modo, não devemos nos prender a propostas antigas, mas às novas, aceitando o novo filme como ele é, ou seja, uma brincadeira inofensiva com os gêneros terror, aventura e comédia e que contam com um ator que, apesar de estar em baixa, ainda é considerado do primeiro time de Hollywood. Sem falar na participação de Russell Crowe em um papel que deve render novas aventuras futuras, caso ele tenha se comprometido com o personagem em contrato.
Há pelo menos uma cena digna de nota em A MÚMIA: depois que os personagens de Tom Cruise, Jake Johnson e Annabelle Wallis (do horror ANNABELLE) conseguem descobrir um sarcófago egípcio em pleno Iraque, o plano deles é levá-lo para investigação. Acontece que a múmia que ficou presa por milhares de anos agora tem o poder de fazer um avião cair e trazê-los até onde estão outros objetos necessários para a finalização da maldição da múmia (Sofia Boutella). E a tal cena do avião é quase tão empolgante quanto as ótimas cenas de avião de filmes dos anos 1930. Pelo menos para alguma coisa o orçamento milionário serviu, além de pagar o salário de Cruise e de apostar em efeitos visuais genéricos.
Aliás, vale destacar que A MÚMIA, ao contrário de quase todas os filmes recentes protagonizados por Cruise, não foi produzido por ele. O astro foi convidado a interpretar o tipo que ele já está acostumado a fazer em seus filmes de aventura e ação e não um personagem mais desafiador, como o vampiro Lestat, no hoje cultuado drama de horror ENTREVISTA COM O VAMPIRO, de Neil Jordan.
De todo modo, mesmo com a recepção crítica ruim de A MÚMIA, já estão engatilhados pela Universal novos filmes com outros personagens clássicos do meio, como o Lobisomem, o Médico e o Monstro, Van Helsing, Frankenstein, o Homem Invisível etc. Se a moda agora é trabalhar com universos compartilhados, que o digam os sucessos da Marvel, da DC e até de Star Wars, então, o tal Dark Universe pode ser uma nova galinha dos ovos de ouro nascendo.
Daí vem a justificativa de ter um ator de filmes de ação como Tom Cruise encabeçando o elenco desta superprodução com sabor de filme B. Ou seja, encarando o filme como mera diversão escapista e nada mais, é possível gostar um pouco de A MÚMIA, de Alex Kurtzman, que brinca, inclusive, com a inclusão de outro monstro clássico na trama, ainda que isso conte mais pontos negativos do que positivos à produção.
O curioso é essa necessidade de encher o filme de efeitos especiais e de gente correndo o tempo todo. Isso acaba tornando, paradoxalmente, o filme com visual falso e andamento por vezes maçante. E pensar que é bom o A MÚMIA (1932), o original de Karl Freund, que não precisava disso. De todo modo, não devemos nos prender a propostas antigas, mas às novas, aceitando o novo filme como ele é, ou seja, uma brincadeira inofensiva com os gêneros terror, aventura e comédia e que contam com um ator que, apesar de estar em baixa, ainda é considerado do primeiro time de Hollywood. Sem falar na participação de Russell Crowe em um papel que deve render novas aventuras futuras, caso ele tenha se comprometido com o personagem em contrato.
Há pelo menos uma cena digna de nota em A MÚMIA: depois que os personagens de Tom Cruise, Jake Johnson e Annabelle Wallis (do horror ANNABELLE) conseguem descobrir um sarcófago egípcio em pleno Iraque, o plano deles é levá-lo para investigação. Acontece que a múmia que ficou presa por milhares de anos agora tem o poder de fazer um avião cair e trazê-los até onde estão outros objetos necessários para a finalização da maldição da múmia (Sofia Boutella). E a tal cena do avião é quase tão empolgante quanto as ótimas cenas de avião de filmes dos anos 1930. Pelo menos para alguma coisa o orçamento milionário serviu, além de pagar o salário de Cruise e de apostar em efeitos visuais genéricos.
Aliás, vale destacar que A MÚMIA, ao contrário de quase todas os filmes recentes protagonizados por Cruise, não foi produzido por ele. O astro foi convidado a interpretar o tipo que ele já está acostumado a fazer em seus filmes de aventura e ação e não um personagem mais desafiador, como o vampiro Lestat, no hoje cultuado drama de horror ENTREVISTA COM O VAMPIRO, de Neil Jordan.
De todo modo, mesmo com a recepção crítica ruim de A MÚMIA, já estão engatilhados pela Universal novos filmes com outros personagens clássicos do meio, como o Lobisomem, o Médico e o Monstro, Van Helsing, Frankenstein, o Homem Invisível etc. Se a moda agora é trabalhar com universos compartilhados, que o digam os sucessos da Marvel, da DC e até de Star Wars, então, o tal Dark Universe pode ser uma nova galinha dos ovos de ouro nascendo.
sexta-feira, junho 16, 2017
FRANTZ
Às vezes achamos que ver uma adaptação de certa obra que será refilmada pode atrapalhar um pouco sua apreciação, diminuir bastante suas surpresas, por exemplo. Felizmente, não é o que acontece com FRANTZ (2016), do prolífico François Ozon. Isso porque, mesmo depois de se ter visto recentemente NÃO MATARÁS (1932), de Ernst Lubitsch, as surpresas não param de saltar em inúmeros plot twists, ora feitos para nossa diversão, ora feito para machucar ainda mais os personagens e também a nós, espectadores.
No filme de Lubitsch, sabemos desde o início quem é o francês que está naquela cidadezinha alemã que está em luto logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Sabemos que ele está ali para conhecer e pedir perdão à família de Frantz, o rapaz que ele matou no front, durante a guerra. No drama de Ozon, porém, as motivações do jovem francês se constituem um mistério durante boa parte da narrativa.
Ozon, muito habilmente, manipula as expectativas do espectador, ao mesmo tempo que também brinca com subtextos homoeróticos, uma vez que há claramente uma tendência a se acreditar que Adrien (Pierre Liney) tinha algo mais do que uma amizade com Frantz, a partir de imagens em cores que surgem como possíveis flashbacks que mostram alguns bons momentos que os supostos amigos de países inimigos tiveram na França. O jogo de cores, aliás, é muito bonito, e geralmente elas surgem quando há algum momento de paz na trama.
E se não temos um patriarca tão amoroso quanto Lionel Barrymore em NÃO MATARÁS, é porque o cineasta francês opta por enfatizar ainda mais a relação dos jovens: o atormentado Adrien e a moça que casaria com Frantz, Anna (Paula Beer). Há uma cena que traz uma carga gay que torna mais complexa a relação entre Adrien e Anna: Adrien tem a ideia de tirar a roupa para nadar em um lago ali perto, durante uma caminhada com Anna. Sendo Ozon um cineasta que costuma integrar elementos queer em seus filmes com certa frequência, esse não seria o único momento em que poderíamos pensar em Adrien como um rapaz apaixonado não por Anna, mas pelo falecido Frantz.
Ozon, tendo já transitado por diversos gêneros e sabendo lidar tão bem com sentimentos e personagens mais profundos em títulos como O AMOR EM 5 TEMPOS (2004), O TEMPO QUE RESTA (2005) e O REFÚGIO (2009), mais uma vez nos coloca no lugar de uma personagem especialmente atraente. E não é Adrien, mas Anna. Afinal, é pelos olhos dela, principalmente, que vemos o filme. E é pelos olhos dela apenas que o ato final coloca este trabalho como um dos mais brilhantes e mais tocantes da carreira do cineasta francês.
O caminho que a heroína percorre na meia hora final diferencia o trabalho de Ozon completamente do filme de Lubitsch, que até se torna muito mais alegre e simples na comparação com a nova adaptação da peça de Maurice Rostand. No mais, vale deixar registrado: ouvir "A Marselhesa" cantada pelos franceses com sangue nos olhos é de arrepiar. Assim como o destino final dos atormentados personagens. Grande filme.
quinta-feira, junho 15, 2017
ROCK'N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (Rock'n Roll)
A grande surpresa da edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês talvez seja a comédia ROCK’N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (2017), de Guillaume Canet. No filme, Guillaume Canet é Guillaume Canet e Marion Cotillard é Marion Cotillard. Pra não mencionar os tantos outros atores e atrizes que interpretam a si mesmos. Pelo menos supostamente. Só por isso, o filme já se torna bastante atraente. Além de se tornar um produto convidativo para que conheçamos mais do cinema francês contemporâneo, já que há várias piadas que só quem conhece as pessoas citadas vão entender melhor.
ROCK’N ROLL é desses filmes que acaba se encaminhando para algo totalmente diferente do que imaginaríamos, o que de certa forma é muito bom. O efeito surpresa é fundamental para que o filme seja apreciado ou até mesmo odiado. A primeira parte do filme nos apresenta a Guillaume Canet, um ator na faixa dos 40 anos que percebe que já não está mais na turma dos jovens astros em ascensão. Isso acontece principalmente em uma entrevista que ele dá com a sua colega de filme vivida por Camille Rowe, belíssima jovem modelo e atriz que interpreta sua filha no filme dentro do filme.
Indignado, Canet não acha nada legal estar fazendo o papel do pai daquela garota. E mais indignado ainda quando sabe de uma lista de atores “pegáveis” do cinema francês e que ele está lá no fim da relação. Quer dizer, não adianta ser um cara estabelecido e ainda por cima casado com Marion Cotillard, a juventude acaba se tornando uma obsessão para ele.
Marion Cotillard parece estar se divertindo muito no papel de uma atriz que tem mania de usar o método de imersão para dar força a seus papéis. É assim que, depois de convidada para atuar em um filme de Xavier Dolan (o não citado É APENAS O FIM DO MUNDO), cisma que precisa estudar e ficar falando no francês de Quebec. E isso não é nada bom para o marido que queria ao menos desfrutar de uma noite de sexo com a esposa.
E aí começam as mudanças de comportamento: se ele não é do tipo que bebe e usa drogas, passa a querer provar para os outros que pode sim entrar nessa vida desregrada, o que acaba rendendo algumas situações engraçadíssimas, como a cena da paralisia facial. Aos poucos, vamos percebendo que o próprio Canet aparece mais envelhecido de propósito para compor esse personagem decadente. Mais a frente, os trabalhos de maquiagem se tornarão fundamentais para a segunda e mais ousada parte do filme.
ROCK’N ROLL é um filme que faz uma crítica a esse modelo de comportamento de querer ser "forever young", mas o faz de maneira muito espirituosa, divertida e sem parecer estar dando uma lição de moral ou coisa parecida. Os excessos são abraçados pelos personagens e a sensação de estranheza acaba sendo mais do que bem-vinda. E se antes não tínhamos tanto motivo para acompanhar a carreira de Guillaume Canet, em detrimento da carreira de sua muito mais famosa esposa, eis o cartão de visita ideal.
segunda-feira, junho 12, 2017
PARIS PODE ESPERAR (Paris Can Wait)
Curiosa a trajetória de Diane Lane. Embora tenha aparecido e se destacado em filmes importantes quando jovem (seu primeiro filme é de 1979), foi com INFIDELIDADE, de Adrian Lyne, já com as pequenas rugas aparecendo, que ela de fato chamou a atenção como protagonista. Em seguida, pôde ser vista em duas comédias leves e agradáveis, SOB O SOL DE TOSCANA e PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS. Tudo isso dentro do curto espaço de 2002-2005. O melodrama NOITES DE TORMENTA, de 2008, em que ela reencontra Richard Gere, talvez tenha sido seu último trabalho de destaque. Na verdade, nem são grandes filmes, mas que se tornam dignos de atenção por causa de Diane.
PARIS PODE ESPERAR (2016) é o seu retorno ao mundo das viagens na Europa e também a uma possível infidelidade, a uma tentação, durante uma viagem de carro de Cannes a Paris. Na trama, ela é Anne, esposa de um produtor de Hollywood (Alec Baldwin) que o acompanha no Festival de Cannes (edição de 2015). Acontece que ela está sofrendo de dores no ouvido e alguém sugere que ela não viaje de avião - o marido está indo a Budapeste antes de ir a Paris. A solução seria encontrar o marido em Paris e um francês amigo do marido, Jacques (Arnaud Viard), se oferece para levá-la à capital.
Há quem vá achar que PARIS PODE ESPERAR é só mais um filme sobre turismo, mas pode ser uma experiência maior e melhor do que se espera. A matriarca Eleanor Coppola se aventura na direção de seu primeiro filme de ficção e sabe acentuar bem não apenas as diferenças entre americanos e franceses, mas também suas afeições mútuas. Vem de muito longe o namoro entre Estados Unidos e França e da mesma forma que tantos cineastas franceses homenagearam obras e diretores americanos, os franceses são apreciados em muitos aspectos pelos americanos, por sua maior sofisticação cultural e culinária.
Enquanto Jacques é o homem que crê que a vida deve ser muito bem vivida a cada momento e cada sabor, Anne é uma mulher essencialmente visual. Ela está sempre tirando fotos de tudo que encontra pelo caminho, da comida, inclusive. Não que isso seja uma simplificação do que hoje se vê nas redes sociais. Suas fotos são mesmo obras de arte, como bem destaca Jacques, sempre elevando o astral de Anne e fazendo-a perceber o quanto ela é uma mulher especial.
Esse francês galanteador tornará a viagem de Anne memorável, embora não se saiba o futuro dos dois. De todo modo, PARIS PODE ESPERAR não é exatamente sobre a relação desse casal e uma possível infidelidade, mas como esse percurso é importante para ambos, como, aliás, é tarefa de todo road movie de vergonha. E também como deve ou deveria ser toda viagem que fazemos, enriquecendo nossa alma através do contato com novas pessoas, novos lugares e novos sabores. Nós, espectadores, ganhamos em um filme como esse um passeio baratinho pela França, além de um olhar de cumplicidade para aqueles personagens. Que o diga o olhar final de Diane Lane para a câmera-espectador.
quinta-feira, junho 08, 2017
BEIJO NA BOCA
Um dos maiores méritos desses filmes brasileiros produzidos no início da década de 1980 é que eles estão mais inundados de uma voltagem erótica e uma maior nudez gráfica que permitem que sejam até hoje muito mais excitantes do que a grande maioria dos filmes pornográficos e com a vantagem de que isso não atrapalhe o andamento e o interesse da trama. É possível dizer isso pegando como exemplo um filme apenas mediano como BEIJO NA BOCA (1982), de Paulo Sérgio de Almeida.
Essas produções realizadas no Rio de Janeiro ainda tinham a vantagem de contarem com grandes nomes da teledramaturgia brasileira, como é o caso aqui do casal vivido por Cláudia Ohana e Mário Gomes, para citar apenas os protagonistas. Ambos funcionam muito bem nos papéis de dois jovens que querem viver uma vida fácil e dedicada principalmente ao prazer, mais especificamente ao sexo, sem qualquer preocupação com trabalho ou coisa do tipo. No entanto, há um preço a se pagar por isso e o filme mostra isso sem parecer moralista. De qualquer maneira, nem é preciso sair por aí dizendo que não se deve matar os ex-namorados da mulher que ama.
Aliás, o interessante do filme está mais em sua primeira metade, que explora a relação dos dois, que, principalmente na primeira cena, no motel, traz uma cena erótica bastante convincente e cheia de sensualidade. O modo como Cláudio Ohana se despe para subir tirando a roupa em cima do corpo de Mário Gomes passa uma vontade, um desejo, que transpira sexo. As demais cenas sensuais não serão tão boas ou convincentes, mas essa compensa as demais.
"Você não sabe o que passa pela cabeça de uma mulher com 21 anos de idade", diz Joana Fomm, no papel da mãe de Celeste, personagem de Ohana, ao marido, um militar linha-dura vivido por Milton Moraes. Esta frase, junto com a apresentação da personagem logo no início, tomando banho em casa depois de um quentíssimo sol de verão na praia, ajudam a dar o tom do calor da personagem e do modo como ela está disposta a entrar de cabeça nas relações físicas.
E é quando ela conhece um sujeito meio malandro em um planetário. Mário, personagem de Mário Gomes, não precisa se esforçar muito para ganhar uma nova namorada. E o modo como ele ama Celeste é de natureza bem carnal. Mário não diz que está apaixonado por ela, ele diz que está completamente tarado por ela. A paixão sobe à cabeça, assim como o ciúme, e Celeste acaba entregando algumas coisas do seu passado, sem saber do potencial de psicopata de Mário.
É quando o filme começa a desandar, embora seja bastante incômoda a cena na praia, em que Mário encontra um ex de Celeste. A cena é violenta e um tanto perturbadora. Nesse sentido, por mais chulo que a obra pareça no desenvolvimento dessa parte criminal, tem como mérito esse sentimento de mal estar provocado por essa cena em particular.
Pode-se dizer que o principal autor do filme é Euclydes Marinho, o roteirista que assinou a minissérie A VIDA COMO ELA É... (1996) e os longas para cinema PRIMO BASÍLIO (2007) e SE EU FOSSE VOCÊ 2 (2009), todas obras dirigidas por Daniel Filho. Enquanto isso, o diretor Paulo Sérgio de Almeida amargaria um fim de carreira triste com alguns horrorosos filmes da Xuxa.
segunda-feira, junho 05, 2017
TWIN PEAKS – O MISTÉRIO (Twin Peaks – The Entire Mistery)
TWIN PEAKS (1990-1991), a série original de David Lynch, nunca deixou de ser vista e revista ao longo de todos esses anos. Tanto por ser cultuada e querida quanto por ser criação (ou co-criação, já que não podemos deixar Mark Frost de fora) de um dos mais admiráveis cineastas de todos os tempos. Mas desde àquela época que nunca se falou tanto em Twin Peaks.
Isso se deve, claro, ao chamado TWIN PEAKS – O RETORNO (2017), um dos maiores eventos cinematográficos do ano. Mesmo sendo feito para a televisão, os dois primeiros episódios foram exibidos em Cannes e foram o maior sucesso do festival, superando em recepção todos os demais filmes, seja os da mostra competitiva, seja os da Un Certain Regard.
Não podia deixar de me preparar para o grande e enigmático retorno de TWIN PEAKS sem rever tudo o que fosse possível da série. Ou seja, as duas temporadas completas, o filme TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) e a grande pérola do box em BluRay, TWIN PEAKS – THE MISSING PIECES (2014), as cenas deletadas do filme e que estavam, até então, inéditas. A surpresa é constatar que se trata de material de primeiríssima qualidade, talvez superando até mesmo o filme, por mais que isso possa parecer um exagero vindo de algo que depende de outras duas obras – filme e também série – para se compor.
Mas há algo em tudo que Lynch faz – ou quase tudo, pelo menos – que dá impressão de que cada cena dirigida por ele é como um presente para os amantes do grande cinema. E é assim que nos sentimos, mesmo tendo que passar por momentos tediosos e fora dos trilhos da segunda temporada da série, justamente por ter sido abandonada por ele durante um tempo.
TWIN PEAKS – A SÉRIE ORIGINAL
Rever a série original, além de se apaixonar de novo por Audrey, claro, é como visitar um lugar que você ama muito e que não cansa de revisitar. Principalmente o piloto, que eu já havia assistido várias vezes em uma cópia em VHS, e depois em cópias em DVD. È um trabalho que consegue unir ao mesmo tempo diversos gêneros – melodrama, história de detetive, suspense, terror, comédia etc. – e conseguir ser bem-sucedido em todos os aspectos. Foi uma revolução na época, algo que mudou para sempre a televisão, mas disso todo mundo já sabe.
O que teria, então, para acrescentar a uma série de que eu mesmo já falei aqui? Talvez apenas reforçar o quanto o piloto continua sendo a produção feita para a televisão mais impressionante de todos os tempos. Tantas cenas e tantos sentimentos e sensações ficam gravadas em nossa mente e nosso coração. A música maravilhosa de Angelo Badalamenti, o adorável e divertido Agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan), o modo como aquela cidadezinha é introduzida aos poucos, com todo o mistério e toda a graça. As mulheres lindas da série (Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Mädchen Amick, Lara Flynn Boyle, Peggy Lipton), o mistério (que infelizmente teve que ser solucionado antes do tempo por causa da pressão da emissora), a ideia de um mundo alternativo que abriga entidades um tanto assustadoras, as inúmeras referências a vários clássicos do cinema. Tudo isso e muito mais fazem parte do encantamento da série.
David Lynch só dirigiu seis episódios para a série original, sendo que dois deles são o piloto e a series finale. E embora seja complicado deixar muita coisa nas mãos de diversos diretores claramente menos brilhantes, acompanhar a série, principalmente até o momento da revelação e do consequente fim do assassino de Laura Palmer, é muito bom. Por esses dias, graças à leitura de um livro sobre a série, acabei sabendo de detalhes de bastidores que me ajudaram a entender muita coisa que aconteceu ali, como as intervenções dos próprios atores para o andamento da trama, com o fato de Kyle MacLachlan não ter aceitado ser par de Audrey (Sherilyn Fenn) por achar que ela era uma colegial e isso não ia cair bem para ele. Ou que Sherilyn Fenn recusou usar fazer parte do concurso de Miss Twin Peaks por achar ridículo ficar ali de maiô, junto com as outras. São pequenas coisas que a gente percebe que vão modificando uma obra em aberto.
TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (Twin Peaks – Fire Walk with Me)
Rever o filme desta vez, imediatamente após ver a série, me deu uma estranha sensação, pela primeira vez, de que se trata de uma obra quase redundante, algumas vezes. De todo modo, é possível ver de outra maneira, a cada vez que vemos certas cenas que já havíamos criado em nossa mente, através da série, materializadas ali, quando o tempo volta e somos convidados a adentrar novamente naquele universo. E dessa vez Lynch podia ser mais ousados na violência e incluir algumas cenas de nudez, inclusive de sua estrela Laura Palmer (Sheryl Lee).
Mas o que mais dá para admirar em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é a construção visual. Fico exatamente triste de não ter tido a chance de ver esta obra no cinema e ver agora em BluRay não muda essa falta. Acho que não chegou a passar nos cinemas da cidade, pois lembro de ter visto CORAÇÃO SELVAGEM (1990) no cinema e já nessa época era fã de Lynch. Deve ter tido uma distribuição pequena, não sei.
Há pelo menos duas cenas bem assustadoras, envolvendo o assassino Bob na casa dos Palmer. E uma delas surge para tornar aquilo que já havíamos achando extremamente perturbador na série ainda mais intenso: o fato de que estamos diante de uma história de abuso sexual envolvendo pai e filha. Isso é terrível. É quando o horror do sobrenatural perde espaço para o horror da vida real.
Mas o filme é também uma espécie de tentativa de Lynch de trazer paz para o espírito de Laura, levando-a para uma espécie de paraíso, com direito a um anjo protetor. Assim, é mais um filme sobre redenção de uma alma sofrida, como O HOMEM ELEFANTE (1980) também foi.
TWIN PEAKS – THE MISSING PIECES
Ter acesso ao material não incluso na versão para cinema de TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é ter acesso a uma joia escondida. Embora seja uma obra incompleta, ela se torna completa à medida que a somamos com o que já conhecemos. Assim, a edição, feita na mesma ordem da narrativa do filme, faz dessas cenas deletadas uma obra à parte, com brilho próprio.
Algumas cenas são extremamente tocantes, como uma sequência simples de Norma (Peggy Lipton) e Big Ed (Everett McGill) na caminhonete. Naquele momento, ambos estavam procurando paz em um mundo que lhes negava, ou ao menos dificultava o amor. Também gosto muito da cena de Laura no porão da casa de Bobby (Dana Ashbrook), pedindo um pouco de cocaína. Ele percebe que ela não gosta de verdade dele, que está com ele por causa das drogas. É uma das mais bonitas humanizações do personagem. No filme, a cena é mostrada de maneira bem curta e pouco impactante.
THE MISSING PIECES é também a chance de rever alguns personagens que não tinham tanta relação com a história de Laura, mas que tinham bastante importância na série. Em separado, essas cenas são uma delícia de ver. Há, também, mais de David Bowie, o enigmático agente especial Phillip Jeffries. Aliás, é importante destacar que as cenas com Jeffries são o elo perdido entre a série e a nova revolução de Mr. Lynch. Sem falar que é também um trabalho que tem um compromisso maior em fazer conexão com o fim da série em 1991.
OS EXTRAS
São poucos os extras que merecem menção especial, e alguns deles já podiam ser vistos na edição em DVD de TWIN PEAKS. Vale destacar a descrição de Angelo Badalamenti do processo criativo de "Laura Palmer's Theme". Cheguei a ver algumas vezes e me peguei chorando de emoção com aquilo. No mínimo, arrepiante. Assim como também é arrepiante ouvir de Julee Cruise falando do quanto lhe era difícil cantar "Falling", como ficava sem energia, dada a carga intensa de emoção. Ah, dos depoimentos de atores, vale destacar o testemunho de Al Strobel de quando ele perdeu o braço. È no mínimo impressionante. O ator interpreta o misterioso Mike, o homem de um só braço que também habita o Black Lodge.
Do material inédito, o que vale destacar mesmo são duas entrevistas que o próprio Lynch faz com os Palmer: primeiro com os três reaparecendo envelhecidos e contando como estão no mundo dos vivos ou dos mortos. Em seguida, há a entrevista de fato com os atores, que se mostram extremamente gratos e ansiosos em trabalhar novamente com Lynch. Talvez naquele momento a ideia de um retorno já estivesse na mente do mestre.
sábado, junho 03, 2017
MULHER-MARAVILHA (Wonder Woman)
Como começar a falar sobre MULHER-MARAVILHA (2017)? Pelos seus acertos ou pelas suas falhas? Comecemos pelos acertos. E o maior deles é a escolha de Gal Gadot para interpretar a mais icônica das super-heroínas já criadas. Ela dá luz tão bem à princesa amazona que deixamos de imaginar outra atriz para o papel. É como se a atriz e modelo israelense tivesse nascido para ser a Mulher-Maravilha.
Outra coisa que funciona relativamente bem é o modo como a princesa é apresentada, na Ilha Paraíso. O problema da origem da personagem é que não há maiores explicações sobre como ela recebeu seus poderes ou detalhes sobre a relação das amazonas com os deuses gregos. A história é contada em um longo flashback a partir de uma foto enviada pelo Batman à Mulher-Maravilha no final de BATMAN VS SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA, de Zack Snyder. A foto, que mostra Diana com um grupo de homens durante a Segunda Guerra Mundial, será o catalisador não só das lembranças de Diana e sua relação com um desses homens, vivido por Chris Pine, como da própria introdução da princesa amazona no mundo do patriarcado.
E é de se imaginar o impacto que é adentrar o mundo dos homens justo quando o mundo parece estar ruindo, devido a uma guerra que levou à morte milhões de pessoas. Para Diana, sua missão é encontrar Ares, o deus da Guerra, o grande responsável pelo que está acontecendo naquele momento. Vale lembrar que, do ponto de vista da astrologia, essa ideia não é de todo infundada, já que, no período de 1909 a 1944, o grande regente foi Marte.
Esse aspecto da busca de Diana é tratado com certa ambiguidade no início. Afinal, existe mesmo esse tal deus Ares ou aquilo é só mais um dos elementos que fazem parte das características inocentes e, justamente por isso, igualmente adoráveis da personagem? Enquanto a resposta não vem, embora quem conheça os quadrinhos já possa antecipar, é muito gostoso poder ver esses momentos de descoberta de Diana junto ao primeiro homem que ela encontra na vida, Steve Trevor (Pine).
Cada momento de Diana com Steve eleva o filme a pontos altos. A cena em que ela o encontra no banho; a conversa no barco; o momento de comprar novas roupas; a cena da dança (“É isso que os homens fazem quando não estão guerreando?”); a dramática cena do avião. Que, aliás, poderia ser mais dramática, mais eficiente nesse sentido, já que acompanhamos aqueles personagens desde o momento em que se conheceram.
Acontece que aquilo que é uma das coisas mais esperadas no filme, as cenas de ação com a heroína, acabam não sendo tão boas assim, muito por culpa do excesso de efeitos especiais, efeitos que não são tão bons, na verdade. Em alguns momentos, até é possível imaginar que algumas cenas, como as dos aviões no ar, foram feitas com a intenção de imitarem as antigas cenas de batalhas no céu em filmes das décadas de 1930 e 40, sem, no entanto, conseguirem ter o mesmo impacto de fazer com que sintamos que estamos no céu e em perigo, a bordo de um daqueles teco-tecos.
Mas o que incomoda mesmo é a conclusão, com a grande disputa épica da princesa com o deus Ares, que é mais um daqueles vilões excessivamente chatos e grandiloquentes que já cansaram há tempos, embora não seja muito diferente do Ares apresentado nos quadrinhos na série de histórias escritas por George Pérez, por exemplo, para citar um dos autores mais importantes na história dos quadrinhos da Mulher-Maravilha.
Como filme sobre a Segunda Guerra Mundial que apresenta um super-herói, MULHER-MARAVILHA é equivalente a CAPITÃO AMÉRICA – O PRIMEIRO VINGADOR, da Marvel, que é um trabalho muito melhor e que consegue nos fazer acreditar que o Capitão é mais do que um sujeito com um escudo na mão. Acreditar na Mulher-Maravilha e em seus poderes é um ato mais de aceitação do que de convencimento por parte da direção de Patty Jenkins e do roteiro Allen Heinberg.
E muito dessa aceitação se dá mais pela beleza divina e encantadora de Gal Gadot e por seu carisma do que pelo roteiro. Há, inclusive, um excesso de metragem que faz com que o filme se prolongue e se torne, muitas vezes, maçante. Não é o tipo de obra que queiramos ver novamente tão cedo, diferente do tão malhado BATMAN VS SUPERMAN, cujas falhas são bastante visíveis, mas que possui uma fluidez narrativa muito mais eficiente e atraente.
Pesando prós e contras, o filme da Mulher-Maravilha pode ser considerado um sucesso e um alívio para a DC/Warner, que, depois de ter amargado dois filmes considerados ruins pela crítica e por boa parte dos próprios decenautas, alcança redenção e esperança no futuro através de um filme que ainda tem o mérito de ser visto à parte dos demais, por se passar em outra época e ter uma cara própria.
quinta-feira, junho 01, 2017
A GAROTA DESCONHECIDA (La Fille Inconnue)
Embora A GAROTA DESCONHECIDA (2016) tenha sido recebido com alguma frieza e seja encarado como uma obra menor ou mesmo um deslize na filmografia dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, não há como negar que se trata de uma obra que carrega explicitamente o DNA dos criativos irmãos, e um filme que dialoga bastante com seus trabalhos anteriores, especialmente o imediatamente anterior, DOIS DIAS, UMA NOITE (2014), inclusive pela estrutura semelhante.
Troca-se a busca desesperada pelo emprego perdido em um mundo cruel em que o capital está acima dos valores humanos pelo mesmo mundo cruel, mas um mundo cruel que, dessa vez, trata imigrantes pobres como lixo. Por mais que saibamos que não tenha sido essa a intenção de Jenny Davin, a personagem de Adèle Haenel (FACES DE UMA MULHER), tratar como lixo a mulher que aparece em seu consultório médico após o horário de encerramento do expediente, há toda uma questão social que vem à tona e Jenny se transforma numa espécie de representação do que seria a culpa de toda uma sociedade rica europeia frente aos imigrantes pobres, que só estão ali porque seus locais de origem foram saqueados e destruídos por essas pessoas que agora vivem em situação mais abastada.
Não abrir a porta para aquela garota desconhecida resultou em seu assassinato. Ela estava fugindo de alguma pessoa e agora Jenny se sente culpada e quer ao menos descobrir a identidade dessa mulher para que a família seja notificada e e jovem falecida não seja enterrada como indigente. A busca de Jenny é de natureza exagerada até, chegando até mesmo a correr risco de ser morta, caso dê de cara com o responsável pelo assassino em sua caminhada, que vai ficando muito mais importante do que sua rotina de trabalho como médica.
A trajetória de Jenny lembra um pouco também a do menino Cyrill, de O GAROTO DA BICICLETA (2011), na busca pelo pai. Tão próximos um dos outro, os três filmes até formariam uma espécie de trilogia da busca dos cineastas belgas. E, assim como esses e os demais trabalhos dos realizadores, A GAROTA DESCONHECIDA também opta por um registro muito simples na direção de arte e no uso bastante econômico da música. Aliás, o fato de quase não haver música nessas obras contribui bastante para que elas conquistem o interesse do espectador através do desconforto e da tensão gerada por esses silêncios. Não há também um interesse, por parte dos Dardennes, em criar falas memoráveis. As falas são próximas da vida real, sem floreios, mas tão contundentes quanto uma pedrada.
A GAROTA DESCONHECIDA foi mais um dos títulos da excelente safra apresentada no Festival de Cannes do ano passado.
quarta-feira, maio 31, 2017
MELHORES AMIGOS (Little Men)
Ira Sachs, que anda conquistando boa parte da crítica desde pelo menos DEIXE A LUZ ACESA (2012), anda trilhando um caminho curioso em sua busca por chamar um público cada vez maior aos seus filmes de temática homoafetiva. Do seu primeiro filme de grande repercussão ao seguinte, O AMOR É ESTRANHO (2014), já se notava uma tendência do cineasta a se aproximar do mainstream, embora isso não seja exatamente um problema se a intenção é contar uma história em que o sexo não é um elemento tão importante. No caso, o mais importante é o amor entre os dois protagonistas.
E o mesmo acontece em MELHORES AMIGOS (2016), embora aqui não haja efetivamente uma relação de contato físico entre os dois meninos de 13 anos. Quase pode ser visto como um filme sobre amizade na adolescência sem a intenção de ver a história como sendo a do surgimento do primeiro amor, ou algo do tipo. Até porque o filme é muito sutil ao abordar essa amizade dos dois garotos.
Assim como em O AMOR É ESTRANHO, são questões de ordem socioeconômicas que fazem com que os protagonistas tenham seu relacionamento afetado. A trama nos apresenta primeiramente a Jake (Thoe Taplitz), um garoto que está se mudando para o Brooklyn com seus pais, vividos por Greg Kinnear e Jennifer Ehle. Os pais mudaram-se para essa nova casa, que foi deixada pelo patriarca, recém-falecido.
O velho alugava a preço barato um pedaço do edifício para uma mulher chilena (Paulina García) e seu filho Tony (Michael Barbieri, ótimo) cuidarem de uma pequena loja de roupas. A chegada dos filhos, que querem aproveitar mais o espaço e o potencial de lucro daquele lugar, acaba prejudicando a vida daquela família simples.
Os dois meninos, porém, sem saber o que acontece e vivendo suas vidas como pessoas daquela idade, sem as preocupações de adultos, acabam por se tornarem melhores amigos. E é justamente o modo delicado como o filme trata essa amizade que está o grande desafio e o grande mérito de MELHORES AMIGOS. No fim das contas, por mais que a história seja importante, é o que acontece no meio dos espaços entre os diálogos que torna o filme um dos mais bonitos trabalhos sobre a amizade na adolescência, esse espaço difícil em que a vida adulta começa a bater à porta.
É trazendo essa questão, a da iminência do futuro, que a cena mais bonita do filme é a de um diálogo entre Jake e seu pai, lá perto do final. MELHORES AMIGOS já nos havia ganhado forte àquela altura. E é difícil não ficar com os olhos marejados e o coração triste naquele momento. Só por isso filmes assim já merecem o nosso respeito. E esse ainda ajuda a elevar e trazer mais luz e interesse na filmografia passada e futura de Ira Sachs.
segunda-feira, maio 29, 2017
FACES DE UMA MULHER (Orpheline)
Eis um filme que cresce à medida que pensamos nele. FACES DE UMA MULHER (2016), de Arnaud des Pallières, apresenta quatro estágios da vida de uma mesma mulher, mas de maneira desconcertante e um tanto confusa a princípio. Até que o espectador perceba que determinada atriz representa a mesma pessoa demora um pouco, embora essa estranheza e esse desconforto sejam bem-vindos e provoquem no espectador um interesse em unir as pontas.
A confusão se dá muitas vezes pelo fato de as personagens aparecerem com diferentes nomes, embora o filme, logo no início, desmascare uma delas com um nome falso. Trata-se de Renée (Adèle Haenel, de A GAROTA DESCONHECIDA), que tem sua rotina de vida (como professora de crianças) perturbada pela chegada de uma mulher recém-saída da prisão (Gemma Arterton). A chegada daquela mulher representa o fim de seu sossego.
Do ponto de vista formal, percebe-se, logo de cara, a fotografia que destaca os rostos com seus detalhes ressaltados: as olheiras nos olhos de Haenel; as sardas de Arterton; mais à frente os hematomas, feridas e uma maquiagem com um exagero no uso do vermelho dos lábios, como na tentativa de restaurar a beleza dessas mulheres maltratadas. E haja maus tratos. As mulheres do filme de des Pallières recebem porrada a todo instante. E isso dói também no espectador ver tais atos de violência, sempre praticados quase sempre por homens mais velhos.
Logo em seguida, somos apresentados a Sandra (Adèle Exarchopoulos, de AZUL É A COR MAIS QUENTE), uma jovem em seus 18-20 anos que está em busca de dinheiro, seja através de um emprego normal, seja através da "adoção" por um homem mais velho. Essa oferta, ela recebe de um senhor viciado em jogos e corridas de cavalos. A vida de Sandra cruzará com Tara (Arterton) também. Quem não perceber de início, mais à frente perceberá que estamos diante de um flashback da personagem anteriormente apresentada.
Mas o filme vai mais longe e nos apresenta a outras duas interessantes atrizes/personagens: Karine, a garota de 13 anos rebelde e que sai em festas noturnas para adultos e é violentada/castigada pelo pai; e a garotinha de 6 anos Kiki (Veja Cuzytek), que tem uma vida normal até que um evento envolvendo seus amiguinhos de infância muda sua forma de ver o mundo. Ou parece ser essa a intenção de o filme procurar dar motivo para o comportamento posterior da personagem, em suas diferentes encarnações.
Algumas situações ficam pouco claras, mas isso não chega a ser um grande problema. Ao contrário: só dá ao filme um charme todo especial. Os personagens masculinos, em sua maioria, são egoístas, violentos ou pouco compreensivos, mas dois deles fogem a essa regra, os personagens de Sergi Lopez e Jali Lespert. Este último é parte fundamental de um dos momentos mais especiais do filme, envolvendo a gravidez da protagonista.
Às vezes parece faltar em FACES DE UMA MULHER um pouco mais de coesão nas histórias dessas personagens, mas esse aspecto fragmentado pode ser visto como um ponto positivo em um filme que valoriza não apenas a narrativa, mas também a construção de climas tensos e sensuais e de um visual que sabe lidar muito bem com a vida sofrida dessa mulher múltipla, quebrada e fugidia.
domingo, maio 28, 2017
SETE FILMES VISTOS NO FESTIVAL VARILUX DE 2016
A edição do ano passado Festival Varilux de Cinema Francês foi uma das melhores, se não a melhor em termos de quantidade de ótimos filmes vistos. E o curioso é que boa parte desses filmes não são de cineastas cultuados ou renomados. São nomes relativamente novos e de menor expressão. Se em 2016 estava assim, este ano promete ser ainda melhor. Veremos. Enquanto isso, falemos um pouco destes sete filmes que deveriam ter tido mais espaço ao longo do ano no blog, mas que acabaram, por um motivo ou outro, ficando de fora.
CHOCOLATE (Chocolat)
O filme que abriu o festival, CHOCOLATE (2016), quarto longa-metragem de Roschdy Zem, tem como principal força a presença e o carisma de Omar Sy, como o primeiro artista de circo negro da França. A história de Rafael Padilla, que ficou conhecido como o palhaço Chocolat nos últimos anos do século XIX, é bem comovente. Descoberto por um artista de circo britânico, George Footit (James Thiérrée), ele e Footit tiveram dias de glória e sucesso como uma dupla na Paris da Belle Epoque. Mas a questão racial vem à tona, assim como o fato de que Chocolat sempre interpretava o sujeito que apanhava nos espetáculos, o que acabou o incomodando, assim como também sua vontade de alçar vôos maiores e provar que podia ser também um grande ator. A história de decadência, amizade, fortuna acaba com um gosto bem amargo, mas isso só torna o filme ainda mais forte.
MARGUERITE
Catherine Frot ganhou o César de melhor atriz em 2016 por seu papel em MARGUERITE (2015). Na verdade, a personagem Marguerite Dumont é uma construção fictícia em cima da britânica Florence Foster Jenkins, que ganharia um filme próprio quase na mesma época, dirigido por Stephen Frears: FLORENCE – QUEM É ESTA MULHER?. Mas o sexto longa-metragem de Xavier Giannoli tem o seu brilho todo próprio, até por ser menos cômico e mais trágico do que a versão de Frears da história, embora ambos tenham em comum sua parcela de tragicidade. A personagem é convencida de que é uma boa cantora, mas as pessoas só querem tirar proveito de seu dinheiro, e ainda por cima escarnecer de sua voz e do ridículo da situação. Há um cuidado com a direção de arte que chama a atenção no trabalho de Giannoli.
UM HOMEM, UMA MULHER (Un Homme et un Femme)
O clássico do festival do ano passado foi UM HOMEM, UMA MULHER (1966), de Claude Lelouch, Eu, particularmente, fiquei um tanto decepcionado com o filme, embora admita que se trata de uma obra que tem sim o seu charme. Gosto principalmente das cenas que não economizam diálogos entre os dois amantes. É quando o filme mais dialoga com o cinema contemporâneo. Mas o excesso de vezes em que a canção-tema toca e mais algumas cenas que parecem pouco expressivas para a construção do romance do casal acabam prejudicando um pouco. De todo modo, foi muito bom poder ver este filme, em cópia restaurada, no cinema.
VIVA A FRANÇA! (En Mai, Fais Ce Qu'il Te Plaît)
Quarto longa-metragem de Christian Carion, VIVA A FRANÇA! (2015) é mais um bom drama de guerra que fala sobre a resistência francesa nos tempos terríveis da Segunda Guerra Mundial. Neste filme, vemos o começo da invasão alemã no território francês e a imagem dos aviões avançando pelos céus talvez seja um dos momentos mais memoráveis, embora o drama mesmo aconteça nos momentos seguintes, quando inocentes são assassinados por soldados nazistas. O filme se passa em espaços rurais e se concentra em personagens que resolvem contrariar as ordens do governo francês e fugir para outros lugares, abandonando seu vilarejo. O personagem principal, porém, é o de um alemão refugiado na França, e que justamente por isso acaba correndo perigo. O fato de ele se perder de seu filho pequeno contribui para a força do drama. Há trilha do mestre Ennio Morriccone, produção caprichada, mas parece faltar algo para que seja o grande filme que almeja.
AGNUS DEI (Les Innocentes)
A diretora Anne Fontaine já havia comparecido ao Festival Varilux com alguns bons filmes, COCO ANTES DE CHANEL (2009) e GEMMA BOVERY – A VIDA IMITA A ARTE (2014). O novo trabalho, AGNUS DEI (2016, foto), é mais ambicioso. E talvez até mesmo seja o seu melhor filme, embora não tenha visto os demais. O próprio ponto de partida já é bastante curioso: dezenas de freiras polonesas aparecem grávidas em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra. Ficamos logo sabendo que todas elas foram vítimas de estupro por parte de soldados do exército russo. O filme faz uma investigação cuidadosa do estado psicológico delicado, já que, além de terem passado por uma situação obviamente traumática, ainda há questões relativas à religião, à dificuldade de exposição do corpo, até mesmo para a enfermeira da Cruz Vermelha, muito bem interpretada por Lou de Laâge, que é chamada para atender àquelas mulheres religiosas. Há um momento especialmente bem emocionante.
LA VANITÉ
Provavelmente o filme que mais foge do convencional dentre os exibidos no Festival, LA VANITÉ (2015), de Lionel Baier, nos apresenta a um microcosmo habitado por um homem que deseja pôr fim à própria vida (Patrick Lapp), uma mulher destinada a executar o serviço (Carmen Maura) e um garoto de programa (Ivan Georgiev). O minimalismo do local contrasta com a complexidade da psicologia dos personagens e o modo criativo com que a história evolui. Sem falar no cuidado no uso das cores nos ambientes internos e até mesmo externos, claramente artificiais, feitos em estúdio. Embora seja um filme que lide com a questão da valorização da vida vs. desencanto, isso nunca é simplificado ou banalizado, o que só eleva o filme cada vez que pensamos nele.
A VIAGEM DE MEU PAI (Floride)
Na época de sua exibição no festival, A VIAGEM DE MEU PAI (2015), de Philippe Le Guay, foi exibido com o título de “Flórida”, tradução direta do título original. Trata-se de um dos belos exemplares do quanto o cinema francês sabe equilibrar a comédia do drama como poucas cinematografias conseguem. Ou seja, ver A VIAGEM DE MEU PAI, ao mesmo tempo que é um exercício muito gostoso, é também um estudo de personagem admirável, especialmente pela presença brilhante do veterano Jean Rochefort, um homem de 80 anos de idade que é cuidado pela filha (Sandrine Kiberlaine) e que tem o hábito de enxotar as enfermeiras e mulheres contratas para cuidar dele. Claramente com problemas de memória e outros que surgem com a idade, esse senhor tem a ideia fixa de visitar a filha ausente na Flórida. De certa forma, acaba conseguindo viajar. Belo filme do diretor de PEDALANDO COM MOLIÈRE (2013).
sábado, maio 27, 2017
NÃO MATARÁS (Broken Lullaby)
A cinefilia, como, aliás, qualquer forma de arte ou conhecimento, acaba abrindo portas para novas e novas portas. Soube que o novo e elogiado trabalho de François Ozon, FRANTZ, é remake de um filme de Ernst Lubitsch que recebeu o título no Brasil de NÃO MATARÁS (1932). Fiquei imediatamente curioso e um título que nem estava nos planos de ser visto, de uma hora pra outra, acaba furando essa fila infindável e caótica que é a de ver filmes em casa.
NÃO MATARÁS, mesmo tendo os mesmos problemas da grande maioria das obras do início dos anos 1930, quando o cinema falado estava se instalando, ou seja, ainda um pouco engessado, há uma fluidez narrativa muito boa, que nos fisga desde o começo, mas que é preciso esperar até perto de sua meia hora de duração inicial para finalmente ficar encantado com a história e seus personagens.
No começo, somos apresentados a um homem atormentado, o francês Paul (Phillips Holmes), que está em uma igreja para se confessar para um padre sobre algo que o incomoda bastante: o fato de ter matado um homem durante a Primeira Guerra Mundial, um alemão, a quem ele chega, inclusive, a ler a última carta endereçada à noiva. Por mais que o padre lhe diga que ele estava apenas cumprindo seu dever e lhe dê absolvição do seu pecado, o inconformado homem resolve viajar e conhecer a família do homem que teima em aparecer em seus sonhos.
Assim, o filme se transfere de Paris para uma pequena cidade da Alemanha, onde mora um simpático e atencioso médico, o Dr. Holderlin, vivido pelo amável Lionel Barrymore. Aliás, o que seria do filme se não fosse Barrymore, este homem que parece transferir o sentimento de amor para a tela e para o espectador? Ele é o pai do rapaz morto na guerra por Paul. E, assim como todos em sua vila, nutre um ódio enorme pelos franceses, que venceram a guerra e tiraram as vidas dos jovens habitantes.
Na mesma casa também vive Elsa (Nancy Carroll), a jovem ex-noiva de Walter, o soldado falecido, que trata o sogro como pai. E já se imagina que o destino vai colocar Paul e Elsa juntos, tendo este segredo tão difícil de ser contado pelo rapaz francês no meio do caminho. Afinal, quem em sã consciência chegaria à casa de um soldado morto para dizer que ele mesmo fora responsável pela morte de um membro querido de uma família? Por mais que a história seja envolvente, acredito que falta ao filme um pouco mais de interesse em ingressar nas profundezas das dores de seus personagens. Tudo parece até leve para as circunstâncias, e depende um bocado da colaboração do próprio espectador para ligar os pontos que parecem faltar.
Mas há o mérito da economia narrativa. É tudo contado de maneira muito rápida e simples, com uma elegância na condução da câmera que não deixa de ser admirável para aqueles tempos de equipamentos pesados e de retrocesso na arte de contar histórias por meio de filmes. Quando percebemos já estamos no belo final. Além do mais, NÃO MATARÁS é um filme que levanta uma mais do que justa bandeira antibelicista. Ninguém sabia que aquele momento de paz era só uma trégua para algo pior que viria.
quinta-feira, maio 25, 2017
REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA
Os filmes, por mais que tentem retratar uma época, acabam sendo reflexo da época em que foram realizados. Com REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA (2017) não é diferente. É possível perceber que a rixa existente entre esquerdistas e neoliberais que abre o filme é muito mais rancorosa hoje do que era naqueles tempos em que Lula ainda não tinha conseguido vencer uma eleição. É também um filme que acabou chegando em um momento particularmente infeliz para o PSDB, que quis usar o filme como propaganda dos tucanos.
Se bem que é bem possível ver o filme sem esse viés. Até porque, no fim das contas, Fernando Henrique Cardoso não aparece no filme como o criador da ideia do Plano Real. Ele apenas, espertamente, juntou uma equipe que trouxe uma ideia pré-existente em um trabalho de faculdade para a realidade brasileira. Foi um projeto arriscado, mas até hoje se elogia a criação de uma moeda forte, por mais que isso tenha custado bastante ao povo brasileiro, que sofreu um desemprego gigante, além de taxas de juros absurdos, tudo para manter a estabilidade da moeda.
E, por mais que vejamos claramente os problemas do filme, principalmente os de interpretação, escalação de atores e de diálogos, trata-se de uma narrativa até bem envolvente, muito por tratar de um assunto que interessa ao brasileiro médio, especialmente o que viveu os anos 1990. Não dava para esperar grande coisa de Rodrigo Bittencourt, o diretor da tenebrosa comédia TOTALMENTE INOCENTES (2012).
O filme foca na história de Gustavo Franco, que é mostrado como principal responsável pela existência do Plano Real, como também uma pessoa que tentou de tudo para que a moeda persistisse estável, mesmo com uma crise mundial e nacional que pedia que o Brasil cedesse. Não dá também para dizer que ele é exatamente um herói. E nisso o filme tem como mérito a boa interpretação de Emílio Orciollo Netto, no papel do egocêntrico e arrogante Gustavo Franco.
Por outro lado, tirando Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, todos os demais personagens soam ridículos, seja Norival Rizzo, como FHC, seja Bemvindo Sequeira como o Presidente Itamar Franco. Paolla Oliveira mais uma vez só serve para trazer beleza para a tela, pois sua interpretação nunca esteve tão constrangedora. Se nas telenovelas já é assim, nos filmes, suas limitações se agigantam. Assim, como Orciollo Netto acaba aparecendo bem mais na tela, os problemas de interpretação do filme são menores do que se esperava, pelo trailer. Ainda assim, não deixa de ser ridículo quando ele grita "Eu não vou desvalorizar a minha moeda!".
Quanto ao atual momento brasileiro de polaridades extremas entre esquerdistas, costumeiramente chamados de comunistas (como se isso fosse uma ofensa), e neoliberais, ela transparece desde o começo, mesmo que nas entrelinhas, embora nada seja tão forte quanto a sequência da discussão no restaurante entre Franco e um amigo que votou no Lula. Não se sabe até quando o país vai se unir novamente para o próprio bem do país, mas a impressão que dá é de que esse cenário vai permanecer por mais um bom tempo. Ainda mais em tempos de governo ilegítimo e uma podridão generalizada, que dessa vez está tão feia como uma ferida exposta.
quarta-feira, maio 24, 2017
CÃES SELVAGENS (Dog Eat Dog)
Curioso o título brasileiro ter usado o adjetivo “selvagem”. Afinal, foi em CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch, lá em 1990, que Nicolas Cage e Willem Dafoe fizeram sua parceria anterior, pra lá de memorável. Mas Dafoe era então um coadjuvante. Em CÃES SELVAGENS (2016), novo trabalho de Paul Schrader, ele está de igual pra igual com Cage, tão protagonista quanto ele. E enquanto Cage continua no piloto automático, mesmo que com um ótimo papel, Dafoe está brilhante.
Um dos aspectos mais admiráveis de CÃES SELVAGENS é o fato de nenhum dos três personagens, os ex-presidiários vividos por Cage, Dafoe e Christopher Matthew Cook, ser merecedor de nossa piedade. Também pudera, o que Dafoe faz com uma mulher logo no prólogo é algo tão brutal que não dá pra pensar nele em algo menos do que um monstro. O que acontece é que tudo é mostrado com muito humor, ainda que esse humor seja bem pesado.
Mas o que dá impressão é que seria necessário mesmo um cineasta da Nova Hollywood para fazer uma brincadeira tão pesada e sair no lucro. Schrader, brilhante roteirista, tem uma carreira como cineasta marcada por altos e baixos, e até uma aura de maldito. Fazia tempo que um filme do cineasta não pintava no circuito e desde o incidente envolvendo o prelúdio de O EXORCISTA, negado pelos produtores e lançado posteriormente em vídeo com o título de DOMINION – PREQUELA DO EXORCISTA (2005), que Schrader andava meio apagado dos holofotes, por mais que não tenha deixado de fazer e lançar filmes com uma boa regularidade.
Filme que se assiste com um sorriso de orelha a orelha (isso se você não ficar muito chocado com os personagens e as cenas), CÃES SELVAGENS também desperta umas boas gargalhadas, como na cena em que os três amigos resolvem sair, cada um, com uma mulher. E cada um em uma situação diferente. Todos eles, além de muito brutos e violentos, estavam desacostumados com o mundo exterior e acabam não sabendo aproveitar o prazer e a graça que o sexo oposto oferece.
Há quem vá achar tudo uma brincadeira de muito mau gosto, especialmente o duplo homicídio que abre o filme, mas a ideia talvez seja mesmo fazer uma obra em que o grotesco predomina, cujos exageros formais e narrativos andam de mãos dadas com seus personagens grosseiros, violentos e sem nenhuma esperança de conseguir um lugar naquele mundo estranho, depois de passarem tanto tempo atrás das grades. Se lembrarmos que Schrader é o roteirista de TAXI DRIVER (1976), podemos facilmente colocar esses novos personagens junto com o taxista psicopata do filme de Scorsese. Lembremos de sua cena levando a namorada para um cinema pornô. Mas, curiosamente, o roteiro é baseado em uma obra literária. Agora, cá pra nós, o que é aquele final, hein?
domingo, maio 21, 2017
CORRA! (Get Out)
2016 foi um ano muito especial para os filmes que traziam temática racial. Tanto que no Oscar deste ano foi MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR, de Barry Jenkins, o grande vencedor na categoria principal e O.J. – MADE IN AMERICA, de Ezra Edelman, na categoria de documentário, sendo que ambos já concorriam com pesos pesados da temática: UM LIMITE ENTRE NÓS, de Denzel Washington, e EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck. Os quatro são obras que trouxeram uma rica e dura reflexão sobre o negro na sociedade americana.
Mas os filmes de horror, que muitas vezes são menosprezados, costumam ser excelentes análises políticas e sociais sobre a sociedade. Um dos exemplos mais claros disso é A NOITE DOS MORTOS VIVOS, de George A. Romero, que, aliás, possui um protagonista negro em plena década de 1960. Este e as demais sequências dos filmes que influenciaram definitivamente o que hoje se chama de filme de zumbi foram exemplares como representações do mundo.
Eis que este ano um filme de horror dirigido por um cineasta negro e que trata a questão do abismo existente entre brancos e negros nos Estados Unidos pegou muita gente de surpresa: CORRA! (2017), de Jordan Peele, que a princípio parece apenas a história de um rapaz negro, Chris (Daniel Kaluuya), que se vê aterrorizado com a expectativa de conhecer a família branca, ainda que liberal, de sua namorada Rose (Allison Williams, a Marnie da série GIRLS).
A aproximação com o horror vai acontecendo de maneira paulatina, com Peele tendo um domínio narrativo admirável, e ainda colocando um senso de humor original que envolve a plateia e faz rir, mesmo que seja de nervoso, em alguns momentos. O que deixa Chris mais cismado, logo que ele chega na casa da família dos pais da namorada são os criados: uma mulher e um homem negros, que mais parecem zumbis retirados dos filmes sobre zumbis haitianos, como A MORTA-VIVA, de Jacques Tourneur.
Sua tentativa de conversar com eles só mostra o quanto sua ideia de que há alguma coisa terrivelmente errada naquela casa e naquela comunidade fazia sentido e não se tratava de paranoia – há uma cena em que a empregada negra chora e ri ao mesmo tempo, enquanto conversa com ele e outra em que ele leva um baita susto quando sai pra fumar um cigarro ao ar livre. São cenas de certa forma sutis, mas que antecipam, o cenário de horror e medo que vai sendo construído e que, no final apoteótico, eleva o filme à posição de um dos mais interessantes exemplares do gênero atualmente.
Assim, CORRA!, ao mesmo tempo em que funciona de maneira admirável como um filme de medo (os momentos mais eletrizantes não foram sequer mencionados aqui), o que já seria louvável, traz também um questionamento tanto da história de sofrimento do povo negro americano, que remonta à escravidão, quanto da questão do roubo, por parte dos brancos, da riqueza cultural afro-americana, o qual vem sendo feito explicitamente na música há muitas décadas e continua sendo.
sexta-feira, maio 19, 2017
A AUTÓPSIA (The Autopsy of Jane Doe)
Provavelmente estou dando um spoiler de um outro filme, mas fique à vontade para deixar de ler. Em A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra, há uma cena perturbadora para pessoas desacostumadas com imagens reais de partes do corpo humano dissecadas, como fígado, baço etc. No filme de Serra, certamente por ser tão realista, isso chega a incomodar mesmo, embora contribua ainda mais para a grandeza do trabalho do cineasta espanhol.
Pulemos então para este terror A AUTÓPSIA (2016), primeiro trabalho em língua inglesa do diretor norueguês André Øvredal. Imagina-se que o efeito do filme de Serra se estenderia por boa parte de um filme que lida com pessoas que retiram para análise partes do corpo de pessoas mortas. Mas não é bem isso que acontece: todas as cenas de autópsia do corpo da desconhecida que aparece são artificiais. Jane Doll parece uma boneca de borracha. E talvez seja mesmo, embora o ideal era que fosse mais real.
De todo modo, A AUTÓPSIA funciona justamente em sua primeira metade, quando acompanhamos pai e filho (Brian Cox e Emile Hirsh) se mostram felizes com seu trabalho de investigar a causa da morte dos cadáveres que chegam ao necrotério. E nós, do lado de cá da tela, também ficamos bastante intrigados com essa mulher desconhecida, que vai se revelando cada vez mais misteriosa a cada vez que eles cortam seu corpo.
O problema do filme está justamente quando ele se assume explicitamente de horror e todos os clichês já vistos em tantos outros trabalhos sobre casas assombradas e fantasmas ou outro tipo de ameaça sobrenatural acaba tornando tudo muito sem graça. Há poucas cenas de susto – e isso é até bom, torna o trabalho mais honesto –, mas os poucos que têm são frágeis.
A transformação do suspense de base criminal, ainda que saibamos que seria só o ponto de partida, em terror puro e simples, mas sem nada a acrescentar ao gênero, nem mesmo eficiência, acaba tornando a experiência de A AUTÓPSIA bem frustrante. Ficam as boas atuações de Cox e Hirsch, que dominam as cenas durante boa parte da narrativa, além do bom trabalho de direção de arte. Não deixa de ser um filme curioso e que merece a espiada.
sábado, maio 13, 2017
ALIEN - COVENANT
Ridley Scott com o tempo vem demonstrando, cada vez mais, tanto seu poder de criar imagens poderosas quanto suas fragilidades, quando mostra sua dificuldade em construir cenas de ação rápidas e eficientes. Essa fragilidade comparece com força em vários momentos de ALIEN – COVENANT (2017), sequência quase direta de PROMETHEUS (2012), na ordem cronológica da mitologia do universo Alien.
Mesmo não sendo o sucesso gigante esperado pela Fox, PROMETHEUS conquistou uma discreta geração de fãs. Além do mais, dessa vez, o nome “Alien” no título certamente surtirá um efeito maior nas bilheterias, agora que as intenções de Scott em voltar ao universo que ele deu início em 1979, com ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, se tornaram bem mais claras. É quase como se ele dissesse: outra pessoa vai fazer uma continuação de BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES (1982), mas serei eu quem vai retomar as rédeas de uma franquia de sucesso iniciada por mim. E, assim, é possível que novas sequências de ALIEN venham no futuro, pelas mãos do próprio Scott.
Um dos pontos bem positivos de ALIEN – COVENANT é o cuidado com a construção das imagens que se manifesta desde o início, quando vemos o andróide Michael Fassbender despertando e mostrando sua perfeição como criatura sintética para seu criador. Ele se autodenomina David, em homenagem a uma escultura de Davi, o segundo rei de Israel, que vê na sala. Corta para uma imagem da nave Covenant, também com Fassbender, dessa vez supervisionando a espaçonave, enquanto a tripulação e um grande grupo de pessoas colonizadoras outro planeta dormem em suas câmeras criogênicas.
Porém, um acidente sério faz com que a nave seja abatida e danificada e muitos da tripulação acabem sido afetados. O próprio capitão é uma baixa. Billy Crudup, como Oram, acaba assumindo o posto, já que era o segundo em comando. O ego de estar no comando mexe com a cabeça de Oram, que fica até mesmo insensível à morte do capitão, companheiro de Daniels, vivida com relativo brilho pela inglesa Katherine Waterston, que foi destaque em ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM, David Yates, e VÍCIO INERENTE, de Paul Thomas Anderson.
O fascínio pelo visual das criaturas criadas pelo artista plástico H.R. Giger se mantém em ALIEN – COVENANT. Elas novamente surgem a partir do contato com o corpo humano, assimilando a organicidade dos corpos e os usando como fonte de materialização e efetivo nascimento, como sementes esperando um solo fértil para nascer e se desenvolver. Algumas das criaturas são menores e mais claras, e saem de dentro dos órgãos das vítimas em cenas gore bem interessantes; e uma delas é assustadoramente maior e de cor preta.
Elas acabam sendo o grande trunfo do filme, junto com a elegância da direção de Scott, mesmo com todos os problemas do roteiro fraco. Além do mais, algumas cenas são carentes de um maior cuidado, principalmente levando em consideração que, por mais que pudessem ter feito um filme B honesto com essa história, sabemos que não é o caso aqui. Afinal, estamos diante de uma superprodução, com todos os recursos necessários para fazer tudo no capricho. No entanto, na cena em que Daniels fica dependurada numa nave enquanto atira em uma das criaturas, tudo parece tão rápido e insípido e parecido com um videogame de geração ultrapassada, que se esta cena fosse deletada, seria para o bem do filme.
Scott é um excelente arquiteto de dramas também, embora nunca (ou raramente) tenha dirigido filmes feitos para chorar – o que não é um problema, de modo algum. No entanto, como gosta também de dirigir filmes caros e grandiosos, acaba derrapando com certa frequência, como foi o caso recente de EXÔDO – DEUSES E REIS (2014). Felizmente, sua volta ao espaço sideral com o ótimo PERDIDO EM MARTE (2015) fez com que ele tomasse novamente gosto por aventuras espaciais.
Mas, se por um lado, PERDIDO EM MARTE conseguia nos solidarizar com as angústias de seu protagonista, ALIEN – COVENANT. além de quase se assumir como um horror/sci-fi genérico, de tão desleixado que parece em certos momentos - as questões filosóficas de PROMETHEUS são quase que totalmente deixadas de lado ou mostradas de maneira muito rasas - seus personagens são rasos e desinteressantes. Por isso, a sorte é que quando Scott acerta, mesmo em um filme irregular como este, ele acerta bonito. O que acaba compensando.
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