domingo, junho 19, 2016

EPITAFIO



Segundo longa-metragem exibido na edição 2016 do Cine Ceará, EPITAFIO (2015), dos realizadores Yulene Olaizola e Rubén Imaz, carrega em si um sentimento forte de grandiosidade épica, embora se perceba ser um trabalho de baixo orçamento e que se propõe minimalista em sua narrativa, que mostra basicamente homens subindo uma montanha.

O filme acompanha a jornada de três conquistadores espanhóis do século XVI subindo a segunda maior montanha do México, a fim de provarem sua superioridade frente ao povo dominado. Na verdade, segundo as palavras do capitão Diego de Ordaz (Xabier Coronado), ele não quer voltar e fazer com que os homens que não tiveram a coragem de subir aquela montanha deixem de acreditar que eles são deuses.

EPITAFIO não é um filme fácil, apesar da duração curta (82 minutos). Trata-se de uma obra que adota um ritmo lento e nem sempre feliz na construção de uma atmosfera intrigante, o que dificulta um pouco para o espectador embarcar na viagem. Em compensação, as imagens são de uma beleza extraordinária, feitas por uma equipe que subiu justamente não a segunda, mas a primeira maior montanha do México, porém, uma que não possui um vulcão tão perigoso em seu cume. Essa informação ajuda a valorizar ainda mais os esforços de toda a equipe técnica e também dos atores. Além do mais, toda aquela beleza mostrada na tela foi filmada com luz natural.

A luta do homem diante da natureza selvagem, com o ar rarefeito, o frio intenso e o poder próximo do espiritual de uma montanha considerada sagrada e habitada por inumanos, pôde ser vista recentemente em um filme de apelo mais comercial, EVERESTE (2015), de Baltasar Kormákur, para lembrar de uma geografia parecida e situações-limite semelhantes. No cinema recente, também podemos lembrar do colombiano O ABRAÇO DA SERPENTE (2015), de Ciro Guerra, mas este se passa na Selva Amazônica.

Mas o filme que tem sido mais alvo de comparações com Epitáfio é AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES (1972), de Werner Herzog, por razões óbvias, já que é um trabalho que também trata de uma busca insana: no caso, a jornada de Don Lope de Aguirre liderando uma expedição espanhola em busca da lendária cidade de El Dorado. Há, também, outro filme bem menos conhecido que dialoga bastante com Epitáfio, a produção espanhola HONRA DOS CAVALEIROS (2006), de Albert Serra, um retrato econômico e também minimalista do clássico romance Dom Quixote de La Mancha.

É possível comparar a obsessão de Diego de Ordaz à loucura de Dom Quixote e o quanto ele faz sofrer seu companheiro de viagem Gonzalo (seu Sancho Pança) na jornada. Ordaz, inclusive, possui componentes até bem complexos, como seu fanatismo religioso, como podemos conferir perto do final do filme, misturado à sua crença em ser alguém superior àqueles a quem eles mataram e esquartejaram, a fim de provar poder e dominação. Tudo isso sendo devidamente abonado por Deus e a Santa Igreja Católica.

O filme acaba causando certa dubiedade entre mostrar esse aspecto doentio do protagonista, a forma desumana com que ele trata seus companheiros que não têm força para seguir adiante, e a sua perseverança ao enfrentar com coragem a jornada, com tão poucos recursos. A natureza é mostrada como algo aterrador, e isso é auxiliado por uma mixagem de som admirável, que une o uivo dos ventos à música em tom épico de Alejandro Otaola e Pascual Reyes.

Para completar, os letreiros finais, ao mostrar a importância de Ordaz para a continuação da dominação espanhola em território latino-americano, acabam o elevando a uma espécie de lenda deste processo de transição violenta de destruição de uma cultura para a entrada de outra, como ocorreu em toda a América, tanto pelos espanhóis, como pelos ingleses, portugueses e franceses.

Texto publicado originalmente no site da Aceccine – Associação Cearense dos Críticos de Cinema

sábado, junho 18, 2016

LOLO – O FILHO DA MINHA NAMORADA (Lolo)



Julie Delpy tem uma carreira bastante sólida como atriz, tendo estreado como intérprete de longa-metragem justamente em um filme de Jean-Luc Godard, DÉTÉCTIVE (1985). No entanto, foi graças à sua parceria com o diretor Richard Linklater, com quem ela, juntamente com Ethan Hawke, dividiu os créditos de roteiro em ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004) e ANTES DA MEIA-NOITE (2013), que ela parece ter encontrado a sua naturalidade com a direção.

Assim como em um de seus trabalhos como diretora, O VERÃO DE SKYLAB (2011), leva seus interesses para a família, embora aqui a família seja apresentada de maneira bem mais resumida: apenas uma mãe, Violette (a própria Delpy), e um filho, o Lolo do título, vivido por Vincent Lacoste, que pôde ser visto no cinema em outra edição do Festival Varilux do Cinema Francês, em HIPÓCRATES, de Thomas Lilti.

A diretora resolve apostar aqui em uma comédia ao mesmo tempo física e psicológica, ao mostrar um relacionamento entre duas pessoas na casa dos 40 sendo perturbado pelas sabotagens do filho ciumento e que acredita estar fazendo um bem para a mãe, ao livrá-la de mais um otário. Na verdade, as traquinagens de Lolo seguem num crescendo de absurdos tão grandes que acabam por fazer com que muitos espectadores o odeiem.

O filme, no entanto, é diversão pura, e todas as situações pelas quais Jean-René (Dany Boon) passa por causa do filho de sua namorada podem ser vistas como algo próximo das screwball comedies dos anos 1930, como nas cenas em que Jean-René fica excessivamente bêbado, ou quando ele sente o corpo inteiro coçar, tudo por obra de Lolo.

LOLO é também um filme que lida com uma situação bastante comum e que certamente vai encontrar identificação em muitos espectadores solteiros ou separados que tentam um relacionamento em que há uma terceira pessoa envolvida, no caso, um filho. Há também brincadeiras saudáveis sobre as dificuldades próprias da idade e um momento especialmente de fácil de identificação, desta vez para todas as idades, quando Violette se sente rejeitada pelo novo namorado e passa infinitas mensagens e telefonemas para ele, em um ataque de paranoia.

No mais, como não gostar do filme estrelado pela eterna Celine? Julie Delpy, apesar de fazer uma personagem diferente, carrega em si muito do que vimos em seus trabalhos com Linklater, talvez porque todos esses trabalhos tragam muito de sua personalidade na construção dos personagens. A adorável Delpy, agora mais madura, segue encantando a todos que têm a chance de conferir mais este seu trabalho como diretora e atriz. E mostrando que está, sim, bastante afinada com a comédia.

quinta-feira, junho 16, 2016

MEU REI (Mon Roi)



O amor, a paixão, o desejo, a sensação de estar perdendo ou sendo deixado de lado, aguentar todas as oscilações de humor e de interesse (ou falta de) da outra pessoa, tudo isso e mais um pouco é posto no liquidificador de emoções que é MEU REI (2015), quarto longa-metragem dirigido por Maïwenn. Depois do sucesso do drama POLISSIA (2011), a atriz e diretora foca nas alegrias e principalmente nas dores geradas por um relacionamento complicado.

O filme começa com o acidente e o posterior internamento para tratamento do joelho de uma mulher chamada Tony (Emmanuelle Bercot, prêmio de melhor atriz em Cannes-2015), que passa a lembrar de sua vida a partir do envolvimento que teve com Georgio (Vincent Cassel), um homem que tinha o hábito de se relacionar com modelos e ter um padrão de vida bem alto, mas que por algum motivo parece se interessar por ela, uma pessoa de vida “normal”. No envolvimento, ele quis e consegue ter um filho com ela.

O trabalho de Maïwenn é admirável, no quanto consegue em pouco mais de duas horas mostrar anos do envolvimento afetivo do casal, a partir dos momentos felizes do início da relação, passando pelas crises e pela quase perda da sanidade por parte da mulher. O mais interessante é que MEU REI é o tipo de filme que acaba trazendo à tona muitas lembranças pessoais a vários espectadores que vivenciaram situações semelhantes e que não demoram a se colocar nos sapatos de Tony. Um pouco menos nos de Georgio, já que ele é a peça misteriosa e responsável pelo sofrimento da mulher nas crises.

Mas o mais bonito de tudo é que a diretora não o pinta como um vilão, e na verdade ele não é. Os personagens têm tonalidades de cinza que acentuam tanto seus defeitos quanto suas qualidades. Georgio é, por exemplo, um sujeito fácil de ser admirado pelas mulheres, pela sua autoconfiança natural , pelo seu charme, enquanto Tony, com seu aspecto de mulher normal e sem atributos físicos de modelos, é mais fácil de causar identificação no espectador ao longo da trama.

No duelo de interpretações quem sai ganhando é Bercot, cuja personagem muda ao longo dos anos, com o desgaste do relacionamento e de suas emoções, enquanto Cassel vive praticamente o mesmo homem do começo ao fim, apesar de ter um ou outro momento de mudança. Mesmo quando ele confessa que é viciado em drogas, por exemplo, o espectador, assim como a própria Tony, duvida dele. É um dos momentos mais interessantes do filme justamente por isso, já que Cassel encarna um típico cafajeste com muita facilidade, e por isso é tão difícil acreditar que o seu choro é sincero.

As cenas alternadas de Tony na clínica de reabilitação funcionam como momentos de triste paz para um filme que se caracteriza pelos atritos e pela perturbação emocional. Maïwenn, inclusive, faz tudo isso com muita crueza, evitando fazer um filme feito para chorar e ser esquecido. Ao contrário, enquanto o choro fica preso na garganta, o filme vai crescendo na memória. A belíssima cena final é uma prova da grandeza de MEU REI entre as produções francesas recentes e da capacidade da cineasta em falar de amor e desilusão como poucos.

segunda-feira, junho 13, 2016

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The Conjuring 2)



Em 2013, James Wan estava muito inspirado, ao presentear o espectador fã de filmes de horror com dois dos dos mais belos e assustadores exemplares da década: o clássico e cristão INVOCAÇÃO DO MAL e o engenhoso SOBRENATURAL - CAPÍTULO 2. São dois filmes que, junto a outros trabalhos vigorosos do cineasta, o colocam como o nome mais importante do horror contemporâneo, ao menos no cenário mainstream. INVOCAÇÃO DO MAL 2 (2016) era um filme muito aguardado justamente por isso.

E o fato de Wan estar tão afiado na condução de sua direção elegante faz do novo filme uma obra no mínimo obrigatória para os fãs do cineasta, embora represente uma curva descendente, em comparação com seus filmes de horror recentes. Também pode desagradar um pouco aqueles que conhecem a história da família Hodgson, atormentada por um espírito maligno em uma cidadezinha da Inglaterra na década de 1970. Para uma visão mais próxima do que é documentado e que virou livro, recomendamos a minissérie britânica THE ENFIELD HAUNTING (2015), com três episódios, todos dirigidos por Kristoffer Nyholm.

No entanto, ver a série pode trazer um pouco de decepção ao ver a história condensada e bastante alterada na adaptação de Wan. Enquanto a minissérie mostra os esforços de Maurice Grosse, que foi quem realmente teve uma posição de protagonismo em ajudar a família na batalha contra forças espirituais malignas, em INVOCAÇÃO DO MAL 2, o personagem aparece, mas em um papel muito mais curto, quase insignificante, para dar lugar ao casal de investigadores do paranormal Ed e Lorraine Warren, vividos por Patrick Wilson e Vera Farmiga, que são enviados a pedido da Igreja.

Uma vez aceita a condição de quase total reinvenção da história e de total independência do filme em relação aos eventos documentados, em prol de um estilo que se distancia um pouco de certo classicismo que predominou um pouco mais no primeiro INVOCAÇÃO DO MAL, e que remetia mais fortemente ao horror sobrenatural realizado na década de 1970 nos Estados Unidos, o segundo filme abre o leque e utiliza até alguns efeitos especiais em CGI que causam uma sensação de contraste, como é o caso da aparição do "homem torto", que assombra um dos garotinhos da família.

O filme sofre com tentativas de assustar, nem sempre de maneira eficiente. Embora isso não tire o prazer de vê-lo, acaba demonstrando certa carência de algo mais próximo da originalidade e que existia nos trabalhos anteriores de Wan. Em compensação, o trabalho do diretor malaio se mostra cada vez mais vigorosa em sua construção visual, com ângulos de câmera belos e pouco usuais (o que são aquelas tomadas vistas de cima de algumas cenas finais?), uma direção de arte caprichada e um trabalho de mostrar e esconder muito criativo (caso da cena da conversa entre Ed e o espírito que possui o corpo da jovem Janet, que utiliza o recurso de desfocar a imagem em segundo plano).

Mas, curiosamente, uma das melhores cenas do filme não é de terror, mas a que mostra Ed tentando alegrar a família atormentada, tocando ao violão "I can't help falling in love", conhecida na voz de Elvis Presley. Trata-se de uma cena tão bela e tocante, tão cheia de amor, que parece saída de um melodrama da velha Hollywood. Isso ajuda a compensar um pouco o foco no carinho existente entre Maurice Grosse e a família, especialmente Janet, que existe na série de televisão e que no filme fica ausente, em prol de uma busca por uma história que tenha a marca de seu diretor e que também seja redondinha para explicar os eventos.

domingo, junho 12, 2016

LEGIÃO URBANA XXX ANOS NO CENTRO DE EVENTOS – FORTALEZA, 11 DE JUNHO DE 2016























O meu amor pela banda e o fato de ter perdido a última apresentação da Legião Urbana em Fortaleza, em 1990, fizeram com que eu desejasse uma experiência ao menos similar, mesmo sabendo que as coisas estão longe de serem parecidas, com uma falta imensa do Renato Russo. Mas é também uma maneira de apoiar Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, os dois remanescentes do grupo que agora estão fazendo uma turnê de comemoração dos 30 anos de lançamento do primeiro disco, Legião Urbana (1985).

Não vou dizer que foi uma noite tão prazerosa. O DJ que colocaram lá para entreter o público até meia-noite era péssimo, só tocando canções manjadas. E eu ando bem chato com essas coisas. Ando querendo algo com um pouco de frescor e não algo que nem para saudosismo me serve. Mas o principal problema era a qualidade do som que esse sujeito tirava, além de intervenções terríveis nas faixas escolhidas.

As coisas melhoram quando a banda entra no palco, com vocal de André Frateschi, um cantor e ator que eu tive a oportunidade de conhecer em uma série da HBO, MAGNÍFICA 70, em que ele interpreta um ator picareta e de pouca confiança da Boca do Lixo. Nem sei se ele foi a melhor escolha, mas ao menos consegue cantar, enquanto que Dado e Bonfá só arranham de vez em quando.

Na primeira parte do show eles tocam o primeiro disco na íntegra, de "Será" a "Por enquanto", na mesma ordem do álbum. E foi justamente deste conjunto de canções que saiu a minha favorita do show, "Soldados". Incrível o poder desta canção, que, diferente das demais, que tem uma simplicidade mais punk nas letras, possui uma complexidade e uma inquietação muito próprias. E a bateria marcial que acompanha a música é um achado. De arrepiar mesmo. A que eu mais cantei em plenos pulmões, esquecendo a minha labirintite, que no começo do show eu achei que fosse me fazer apagar no meio da multidão. O que não seria nada bom.

A segunda parte do show traz faixas de todos os discos, exceto do póstumo Uma Outra Estação (1997). Começa animando com "Tempo perdido", cantada por Dado e Bonfá. Infelizmente quando o Dado canta, muito da música se perde por suas limitações. O Bonfá também, embora consiga atingir alguns agudos que o outro não consegue. Aí isso prejudica um pouco o show. Neste segundo momento, o som também estava um pouco mais misturado, mais alto e mais distorcido. Não sei a que culpar: se a uma mixagem de som ruim ou à acústica da casa mesmo.

Um frescor de novidade aparece no momento que os convidados especiais chegam para abrilhantar o show. Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, canta e toca guitarra em duas faixas escolhidas por ele, "Andrea Doria" e "Se fiquei esperando meu amor passar", curiosamente duas faixas que precisariam de um som menos barulhento para que funcionassem. Mal dava para ouvir a voz do Catatau. Por outro lado, ele brilhou nos solos de guitarra, e mostrou que é um dos grandes do rock brasileiro na atualidade.

Já Jonnata Doll (do Jonnata Doll & Os Garotos Solventes) mandou bem demais, tanto no vocal, quanto na performance louca no palco, cheio de energia. Eis o frescor que eu gostaria de ver e que finalmente estava ali. Jonnata pegou logo duas faixas pedradas da Legião, "Fábrica" e "1965 (Duas tribos)". Na última, ele se meteu no meio do público, deixando os seguranças preocupados. Enquanto isso, uma parede de guitarras ensurdecedora – Catatau ainda estava no palco, junto com o restante dos músicos – fazia jus àquela celebração punk. Antes de "1965", aliás, Doll começa dizendo em tom de deboche: "O Brasil é o país do futuro! Rá!". A terceira e última convidada da noite foi Marina Franco, que mandou bem com "Dezesseis" e "Meninos e meninas".

No restante do show, Frateschi volta com uma canção dessas que já nasceu perfeita, "Eu sei" (quem duvida basta procurar o primeiro demo desta faixa, disponível em um disco solo póstumo do Renato Russo). Em seguida, Bonfá surpreende cantando bem "Pais e filhos". Por outro lado, canções que mereceriam um pouco mais de calmaria no som foram prejudicadas, como "Angra dos Reis" e "Teatro dos Vampiros" (que Dado tratou de estragar – mais uma). Ao menos ele lembrou da situação política horrível em que estamos vivendo, bastante representativa da faixa de 1991, única do excelente álbum V tocada. O show "encerra" com "Índios", com vocais alternados de Dado, Frateschi e Bonfá.

O bis vem com "Faroeste Caboclo", com todo mundo cantando junto e animado os nove minutos de duração da canção épica; e mais duas canções de protesto, uma com um ar de ironia, "Perfeição"; e outra direta, simples, e com uma guitarra deliciosamente poderosa, "Que país é este?". A faixa, mesmo tendo sido escrita em 1978, continua atual. Infelizmente. Saímos do show com um gosto amargo de desgosto pelo nosso país e "sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões", mas ao menos sabendo que o trabalho do Renato Russo segue tocante e que novos representantes do rock brasileiro estão trazendo novas energias e um espírito contestador que podem fazer a diferença.

quarta-feira, junho 08, 2016

HITCHCOCK/TRUFFAUT























A ideia de Kent Jones, diretor de A LETTER TO ELIA (2010), junto com Martin Scorsese, foi sensacional. Fazer um filme sobre o espetacular livro de entrevistas que o apaixonado François Truffaut idealizou e concretizou junto com o mestre do suspense Alfred Hitchcock. HITCHCOCK/TRUFFAUT (2015) ganha o mesmo título que o livro-referência, considerado por muitos o mais importante livro sobre cinema já escrito. E o legal de tudo é que ele não foi exatamente escrito, mas transcrito, embora muitas das perguntas tenham sido prévia e cuidadosamente preparadas por Truffaut.

O cineasta francês e um dos pais da nouvelle vague estava apenas em seu terceiro longa-metragem quando enviou uma carta para Hitchcock com o convite, e lhe dizendo que o considerava o maior de todos os diretores de cinema. Hitchcock ficou emocionado e topou disponibilizar oito dias para a realização dessa sessão de entrevistas sobre os filmes de sua carreira, analisados em ordem cronológica. Além dos dois, havia uma intérprete e também houve uma ótima sessão de fotos, que pode ser melhor apreciada no livro em questão.

Quem já leu o livro sabe como é saboroso, principalmente se lido logo após a apreciação de cada filme. E poder ouvir um pouco das gravações originais chega a ser emocionante. Há partes do livro que eu havia esquecido, como a descrição de Hitchcock do momento do beijo entre Cary Grant e Ingrid Bergman em INTERLÚDIO (1946), quando Hitch comenta que estava dando ao público o grande privilégio de participar de um ménage à trois com os dois astros na cena em que eles estavam se beijando e a câmera os acompanhando.

Esse erotismo hitchcockiano, tão cheio de fetiches e ousadias, poderia facilmente servir de base para outro documentário, já que pouco se fala da força erótica de JANELA INDISCRETA (1954) e LADRÃO DE CASACA (1955). Mas, em compensação, temos a honra de ver e ouvir Martin Scorsese dissecando cenas de PSICOSE (1960), aos moldes do que ele fez naqueles outros dois documentários, o sobre o cinema americano e o sobre o cinema italiano, e assinalando a importância de PSICOSE para a virada da década, para um novo momento que estava por vir. Bogdanovich completa lembrando os gritos do público na cena do chuveiro quando o filme estreou comercialmente. E a gente fica com um pouco de inveja de quem pôde apreciar essa surpresa sem saber com antecedência nada sobre Norman Bates, antes de esta cena em particular entrar definitivamente no inconsciente coletivo.

UM CORPO QUE CAI (1958) também é outro filme que ganha destaque e uma breve análise, enfatizando a questão da metáfora da nudez e do desejo sexual quando a personagem de Kim Novak chega com o cabelo pintado de loiro em um dos momentos mais mágicos da história do cinema.

Vez ou outra HITCHCOCK/TRUFFFAUT tenta fazer um paralelo entre a carreira de Hitchcock e a de Truffaut, mas nem sempre isso é possível, já que um estava começando e outro estava em um período derradeiro da carreira. Mas, por exemplo, é bom quando o documentário cita a história lendária de quando o pequeno Hitch foi preso a mando do pai, em uma espécie de pegadinha, enquanto o próprio Truffaut foi preso, mas de verdade, também pelo pai, em um instituto correcional, fato utilizado no autobiográfico (ou quase) OS INCOMPREENDIDOS (1959), longa-metragem de estreia do diretor francês.

Também há uma comparação entre os dois com relação ao rigor formal, que existe de maneira bem forte no cinema do Hitchcock, enquanto Truffaut aceitava filmar de maneira mais espontânea, com direito a improvisação, caso de uma cena de JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (1962). O rigor de Hitchcock se mostrava tão forte que ele pouco se importava se os atores e atrizes estavam se sentindo desconfortáveis durante a filmagem, como foi o caso da citada cena de beijo de INTERLÚDIO.

No mais, o documentário traz vários nomes excelentes do cinema contemporâneo falando sobre Hitchcock, sobre o livro, sobre sua relação com o autor e sobre sua história com ele. Além de Scorsese, vemos depoimentos dos diretores Wes Anderson, Paul Schrader, Kiyoshi Kurosawa, Arnaud Despleschin, Richard Linklater, Peter Bogdanovich, David Fincher, Olivier Assayas e James Gray, convidados de luxo deste documentário especial, que mereceria uma exibição nos cinemas.

terça-feira, junho 07, 2016

UMA LOUCURA DE MULHER



Há filmes que parecem não ter razão de existir. Ou não se sabe ao certo o motivo de terem sido concebidos. É o caso de UMA LOUCURA DE MULHER (2016), que até remete um pouco às screwball comedies da velha Hollywood, mas também à tradição de comédias brasileiras que têm predominado há décadas em nosso cinema. O que incomoda é que, ao remeter a um tipo de comédia feita nos anos 1950 ou 60, o filme também fica preso no tempo no que se refere à tradição preconceituosa e machista de tratar a mulher como uma desequilibrada ou totalmente subjugada à vontade do homem.

A mulher do título, Lúcia, vivida por Mariana Ximenes, é uma ex-bailarina que abandonou a carreira para se dedicar à vida de esposa de político, o deputado e candidato a governador Gero, vivido por Bruno Garcia. As coisas mudam para Lúcia quando ela percebe que um político muito importante para a ascensão do marido tem mais interesse em levá-la para a cama do que exatamente apenas dançar com ela. O tal político é vivido pelo saudoso Luís Carlos Miéle, em seu último papel nas telas.

Mas mesmo com esse cheiro de naftalina até que o filme poderia ter alguma graça se o diretor Marcus Ligocki Jr. soubesse tirar algo de engraçado dessa história toda. Lembrando que um bom exemplo desse tipo de cinema que já nasce velho é NINGUÉM AMA NINGUÉM... POR MAIS DE DOIS ANOS, de Clovis Mello, que no entanto conseguiu resultados interessantes e satisfatórios em vários momentos. Aqui, Ligocki Jr. não consegue fazer rir e nem sabe (ou não quer) usar o filme como uma boa pornochanchada, aproveitando a beleza de Ximenes e também de Miá Mello. As duas, aliás, já se mostraram muito bem em comédias e não dá para atribuir a elas o fracasso do filme.

Ainda assim, UMA LOUCURA DE MULHER não é de todo ruim. É daqueles filmes que se assiste até o final sem ficar (muito) constrangido e também sem se cansar, o que pode não ser muita coisa, mas ao menos não saímos dizendo que o odiamos ao fim da sessão. Outra coisa: como é raro hoje em dia os filmes começarem com os créditos iniciais e trazendo uma abertura nos créditos com animação retro, já podemos vê-lo com alguma simpatia.

O fato de a história ser bastante movimentada também ajuda a tornar a diversão leve e relativamente fluida. Principalmente quando a personagem foge para o Rio de Janeiro e lá conhece a fauna do prédio, como a vizinha que tudo vê e o porteiro simpático. E ainda há o reencontro com o primeiro namorado, o que quase torna o filme interessante. O problema é que o diretor e suas duas roteiristas põem tudo a perder quando as situações parecem se encaminhar para algo razoavelmente satisfatório.

domingo, junho 05, 2016

O PEQUENO QUINQUIN (P'tit Quinquin)



Ver uma comédia dirigida por Bruno Dumont já é por si só algo muito estranho, ou pelo menos bem pouco usual, até pela duração: três horas e vinte minutos. Cineasta mais famoso por dramas intensos, tensos e às vezes ligados à religião, Dumont experimenta a leveza em O PEQUENO QUINQUIN (2014), que nasceu como uma minissérie de quatro episódios, mas que depois do sucesso no Festival de Cannes ganhou os cinemas de vários países, tendo sido eleito entre os melhores do ano por vários críticos de todo o mundo. Em São Paulo e outras praças o filme chegou a passar no ano passado, mas aqui em Fortaleza só tivemos uma única e preciosa chance de apreciá-lo: na mostra Retrospectiva do Cinema do Dragão.

A história de O PEQUENO QUINQUIN se passa em uma região agrária e costeira da França, uma cidadezinha pequena ainda bem pouco acostumada com estrangeiros ou qualquer coisa diferente, ainda que seja uma cidade formada basicamente por pessoas com defeitos de nascença, como o personagem título, o menino Quinquin, com defeito facial e problema de audição, o inspetor de polícia cheio de tiques nervosos e o tio de Quinquin que roda em círculos e é cuidado pela família depois de ter voltado de um hospício, entre outros tipos fora do usual que compõem a fauna da cidade.

Na trama, estranhos crimes passam a ocorrer naquela pequena cidade: pedaços de corpos são encontrados dentro de cadáveres de vacas. Não se sabe como as vacas foram parar naquele lugar ou quem cometeu os crimes, ou mesmo por que motivo isso está acontecendo. O filme conserva a divisão em quatro episódios, adotando o nome do capítulo para cada parte que se inicia, e vai se mostrando cada vez mais sombrio à medida que se aproxima de sua conclusão. É característico do cinema de Dumont o ar de mistério e mesmo em uma comédia que oferece vários momentos de riso esse elemento permanece presente.

Dumont se preocupa menos com a investigação e sua resolução e mais com o estudo daquela sociedade tão estranha quanto comum. Além dos momentos de riso e de mistério tangenciando o terreno do horror, há também pelo menos uma cena bem dramática, envolvendo a morte de um personagem. Isso acaba lembrando um pouco o cinema de David Lynch, que também se atém em vasculhar as profundezas de seu país e em estudar tipos exóticos.

O fato de boa parte do enredo mostrar a história pelo ponto de vista das crianças, principalmente de Quinquin e de sua namoradinha Eve, dá ao filme um ar de inocência que vai aos poucos sendo perdida, à medida que os eventos vão se desenrolando. Trata-se de um filme que se constrói em torno de estranhezas, de afetos, do mistério e de um ar pessimista diante da vida, coisa que já se podia notar e sentir em outras obras do realizador, como O PECADO DE HADEWIJCH (2009) e CAMILLE CLAUDEL 1915 (2013).

sábado, junho 04, 2016

TRUMAN



Histórias sobre amizades masculinas existem no cinema desde muito tempo. Talvez as mais famosas da primeira fase de Hollywood sejam as contadas por Howard Hawks, especialista nisso. Depois outros diretores e outras gerações viriam a lidar com o assunto também com muito carinho. No caso de TRUMAN (2015), a história de amizade entre Julián (Ricardo Darín) e Tomás (Javier Cámara) tem como principal rival a temática da morte iminente e a consequente despedida.

E certamente por isso é que se trata de um filme que fez tanto sucesso de público, crítica e em festivais e premiações. Só no Goya, o Oscar espanhol, o novo trabalho de Cesc Gay ganhou cinco prêmios, incluindo filme, diretor, ator e ator coadjuvante, apesar de Cámara ser tão protagonista quanto Darín. O que talvez diminua um pouco o seu protagonismo seja a atuação de Darín, um gigante que eclipsa a todos sem fazer o menor esforço. Cámara funciona como o escada das cenas. O que não quer dizer que ele também não esteja muito bem.

Na trama, Tomás é um espanhol que mora no Canadá e que está em Madrid por alguns dias para visitar o amigo Julián, que se encontra muito doente. O motivo da visita é revelada aos poucos, mas logo nos minutos iniciais: Julián rejeitou continuar o tratamento de quimioterapia, já que lhe resultaria inútil, levando em consideração que o mal já havia se espalhado por todo o seu corpo. Assim, mesmo contra o que dizem os amigos e familiares, seus últimos dias serão para aproveitar o pouco que lhe resta da vida e fazer alguns preparativos para a morte, entre eles conseguir alguém para adotar o seu cão de nome Truman.

O amor de Julián pelo cachorro é comovente e há pelo menos três cenas envolvendo o animalzinho que justificam o título do filme. Mas é mesmo a relação com o melhor amigo Tomás que faz toda a diferença. Como Julián está sem dinheiro, ele acaba explorando bastante o amigo, que aceita sem fazer muita questão. É como se o filme estivesse ali nos dizendo o tempo todo que o dinheiro não tem importância diante da falta da saúde e da posterior ausência definitiva de alguém.

Um dos aspectos positivos de TRUMAN é o quanto o filme não se esforça para arrancar as lágrimas do espectador nessa temática um tanto pesada. Não que o trabalho de direção não abrace o melodrama. Mas há uma diferença muito grande entre criar uma história usando tintas mais carregadas a preferir a suave e serena despedida de Julián, com algumas cenas, certamente, com maiores intenções de causar lágrimas, como a do abraço entre pai e filho. E o diretor ainda guarda algumas cartas de grande emoção para o final, o que faz de TRUMAN um presente para muitos.

Claro que o filme só se tornou realmente grande por causa de Ricardo Darín. Mas o trabalho de direção de Gay e sua equipe técnica é também louvável. Em nenhum momento sentimos a hora passar. É como se tudo estivesse no lugar certo, na hora certa, sem nenhum excesso. Como vemos o filme pela ótima de Tomás, é como se nos tornássemos também melhores amigos desse sujeito especial que é Julián, e o seguíssemos nesse processo doloroso de encerrar a existência terrena e dar adeus às pessoas que mais importam. Não é pouco.

quarta-feira, junho 01, 2016

A ASSASSINA (Nie Yin Niang)



Não é um filme fácil, no sentido de quem quer estar seguro em acompanhar o enredo tão intrincado e as motivações dos personagens. A ASSASSINA (2015), no entanto, é um dos filmes mais belos dos últimos anos, e cuja oportunidade de ver no cinema é um presente para cinéfilos, especialmente quem já acompanha ao menos um pouco a carreira do talentoso cineasta chinês Hou Hsiao-Hsien. Seu último longa-metragem e primeiro lançado comercialmente no Brasil havia sido A VIAGEM DO BALÃO VERMELHO (2007).

Como Hsiao-Hsien é um cineasta que privilegia a encenação e o movimento dos atores no quadro, há todo um cuidado em tratar com ainda mais delicadeza o gênero wuxia, que já havia sido apropriado de maneira bem bonita por cineastas distintos e talentosos como Wong Kar-Wai, Ang Lee e Zhang Yimou. O problema é quando se tenta comparar o trabalho de Hsiao-Hsien com o dos outros, já que quase sempre as lutas são interrompidas bruscamente, não dando tempo para que o aficionado por artes marciais vá se empolgar.

Por isso A ASSASSINA deve ser aceito como é: um drama que prestigia muito a direção de arte, a fotografia e os figurinos, e que deixa o espectador tão encantado com o que vê ou deixa de ver que mal dá tempo de reclamar do comportamento dos personagens e de seus dilemas morais ou sentimentais. No caso, o grande dilema é o da personagem título, Yinniang, interpretada por Shu Qi, uma assassina habilidosa mas com um coração que a impede de matar um homem por ele estar na presença de seu filho pequeno.

Como forma de puni-la, sua mestra a envia para o lugar onde Yinniang nasceu, a distante província de Weibo, a fim de matar o governador local, primo dela, que deveria ser o homem com quem ela teria se casado. O filme não facilita na hora de explicar os detalhes do passado da assassina e desse homem, embora faça isso à sua maneira. Talvez uma maneira um pouco complicada para a mente ocidental, mas acostumada a uma narrativa quase didática.

Há quem vá achar, inclusive, o filme vazio em sentimento, embora o mais adequado seja revê-lo para tentar captar mais sua essência e os valores desses personagens. Há também que atentar para o quanto o cineasta evita sequências de morte e violência, com cenas de luta interrompidas sem entendermos bem o porquê. Yinniang perscruta do jeito que quer, como um fantasma cujas paredes não são obstáculo, a mansão do governador e de sua família, e nesses momentos há muitas cenas com um véu cobrindo a tela, mostrando o olhar da protagonista em câmera subjetiva.

O filme também carrega uma característica bem comum do wuxia, que é a harmonia do homem com a natureza, que aqui aparece com uma beleza estupenda. Mas Hou Hsiao-Hsien prefere contar uma história longe da grandiloquência dos demais filmes do gênero. Chamar de simplicidade o que ele faz também seria um erro, até pelo esmero com que o diretor opera suas imagens. Por isso a experiência de ver A ASSASSINA é algo um tanto difícil de ser externado em palavras.

segunda-feira, maio 30, 2016

TRÊS FILMES ITALIANOS



Já faz algum tempo que o cinema italiano vem passando por uma crise criativa, principalmente entre seus novos realizadores. Com a morte dos grandes (Ettore Scola se foi não faz muito tempo), poucos estão conseguindo fazer alguma coisa que chegue perto da sombra que foi essa cinematografia nas décadas de 1960 e 1970, quando era uma das melhores e mais ricas do mundo. Falemos, então, muito rapidamente, de três obras mais ou menos recentes do país da bota.

ANOS FELIZES (Anni Felici)

Já faz um tempão que vi este, portanto é um exercício de memória. Lembro de ter gostado bastante de ANOS FELIZES (2013, foto), de Daniele Luchetti, e demorei demais a escrever a respeito. Passou no Cinema de Arte, na época do Iguatemi, ainda. Gostei muito de como o filme trabalha duas necessidades: a de fazer arte e a de se envolver amorosamente, ainda que o amor sofra algum desgaste ao longo dos anos. No pouco que me lembro de ANOS FELIZES, há uma viagem que o protagonista faz para exibir sua arte pouco ortodoxa e a esposa, suspeitando de traição, acaba indo vê-lo, contra sua vontade. A cena da mulher se despindo entre os espectadores é certamente a mais memorável. Mas há um sentimento geral muito bonito que o filme transmite com eficiência e carinho.

O VINHO PERFEITO (Vinodentro)

Um dos grandes chamarizes de O VINHO PERFEITO (2013), de Ferdinando Vincentini Orgnani, é a presença de Giovanna Mezzogiorno, ainda que num papel relativamente pequeno. Quem se apaixonou pela atriz em O ÚLTIMO BEIJO e se encantou ainda mais com sua performance em VINCERE espera sempre mais dela. Mas o personagem principal é um degustador de vinhos vivido por Vincenzo Amato. Na verdade, ele é um ex-funcionário de banco que se tornou o maior especialista em vinhos da Itália. Há uma trama de crime e suspense que não prende, só aborrece e faz referência a alguns outros filmes, mas que não se sustenta por si só. É um filme que nem merecia ser lançado em circuito, levando em consideração a possibilidade de haver outros mais interessantes que permanecerão inéditos.

FOGO NO MAR (Fuocoammare)

Uma pena que o Urso de Ouro em Berlim tenha ido para uma obra que perde o foco e não sabe direito para que lado atirar. Sem falar no quanto ele parece se importar por um dos temas principais, que é a questão das centenas de milhares de migrantes que desembarcam na ilha de Lampedusa. FOGO NO MAR (2016) acaba tratando essas pessoas como corpos, sem muita importância, sem individualidade. Há um garotinho morador da ilha que é acompanhado pelo diretor Gianfranco Rosi na história. Ele tem que usar um tapa-olho para ficar bom do olho preguiçoso. Acaba sendo um personagem curioso, mas nada além disso. Não muita coisa, além das questões política e social, que justifique o prêmio principal para este filme em Berlim.

domingo, maio 29, 2016

GRITOS E SUSSURROS (Viskningar och Rop)



Uma das cenas mais impactantes de GRITOS E SUSSURROS (1972) é a que mostra um padre rezando pela alma da falecida Agnes (Harriet Andersson). Ele "a recomenda a Deus para nos liberar de nossa angústia nessa terra sombria e suja debaixo de um céu vazio e cruel". Fugindo dos padrões frios que costumamos ver em cenas do tipo, o padre chora. Chora não só pela morte daquela moça possuidora de fé, mas pelo estado infeliz de quem permanece neste plano.

É como se Deus estivesse ausente e a morte implacável oferecesse apenas um pouco de tempo para que a dor e a agonia tomassem de conta dos personagens do universo bergmaniano. Como é o caso do homem que joga xadrez com a própria morte em O SÉTIMO SELO (1957) ou da mulher condenada à morte por bruxaria, no mesmo filme. A todos eles lhe são concedidos apenas mais alguns momentos de inquietude espiritual.

Como se não bastasse, mais adiante, em GRITOS E SUSSURROS, Bergman vai ainda mais fundo, na cena do "pesadelo coletivo", em que a dura Karin (Ingrid Thulin) e a insegura Maria (Liv Ullmann) são chamadas para travar um diálogo com a falecida numa cena que tangencia o gênero horror tão ou mais fortemente quanto a cena de outro pesadelo em outra obra cultuada de Bergman, MORANGOS SILVESTRES (1957). Na cena de GRITOS E SUSSURROS, Agnes confessa estar em um vazio terrível no pós-vida.

O que acalenta a dor e a aflição de Agnes durante seus últimos dias na terra são justamente os momentos em que a governanta Anna (Kari Sylwan) transmite a ela um carinho maternal, oferecendo-lhe até mesmo o seio. A carência do toque está presente em toda a obra, e em Agnes ela se manifesta neste momento e no desejo que ela sente, mesmo doente, do toque do médico que a visita.

Os homens, no entanto, são todos frios, covardes e principalmente ausentes. Quando surgem naquele universo povoado por mulheres de personalidade forte, ainda que muito frágeis emocionalmente, eles são dignos de desprezo. Principalmente os maridos de Karin e Maria. Uma cena do flashback de Karin, inclusive, é bastante forte, ao mostrar a vingança da mulher perante o marido dominador. Mesmo que seja uma vingança que envolva automutilação.

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em GRITOS E SUSSURROS é a direção de arte, com tons fortes de vermelho que predominam na mobília e nas paredes daquela casa. O vermelho contrasta ora com o branco, ora com o preto das roupas das mulheres que se revezam cuidando da moribunda irmã. E esse mesmo vermelho cresce ainda mais na tela quando somos levados para as memórias de cada uma delas.

O curioso deste drama impactante de Bergman é que o único momento de alegria destoa tanto dos demais que parece um sonho, uma mentira que o filme se permite contar na trama. Trata-se da sequência em que as duas irmãs que não se entendem, Karin e Maria, começam a dialogar com alegria, depois de tantos anos de afastamento, ao som de um violoncelo que só aparece de maneira pontual. Por outro lado, a cena final, narrada pela falecida Agnes, é tão triste e ao mesmo tempo tão genuinamente pura que o que sentimos é algo próximo de um sentimento de ternura. No entanto, o gosto amargo da existência que permeia todo o filme e contagia o espectador não permite algo além disso.

sábado, maio 28, 2016

BATES MOTEL – QUARTA TEMPORADA (Bates Motel – Season 4)



Depois de uma terceira temporada morna, os produtores e roteiristas de BATES MOTEL entregam uma quarta temporada (2016) muito mais interessante. Fecham algumas pontas soltas de tramas paralelas que não servem para muita coisa e se centram naquilo que é mais importante: o perturbado Norman (Freddie Highmore) e sua protetora mas temerosa mãe Norma (Vera Farmiga). O xerife Alex Romero (Nestor Carbonell), como também tem fundamental importância para este momento da trama, ganhou ainda mais destaque. Ainda bem que o ator tem carisma o suficiente para que a gente se afeiçoe ao personagem.

Outra coisa que contribuiu para o melhoramento da série foi o crescimento paulatino da performance de Freddie Highmore, que estava chegando a irritar nas temporadas anteriores com muita afetação e pouco impacto. Talvez por causa da necessidade de uma maior dramaticidade e da chegada de um momento tão esperado ao longo desses quatro anos de série, o ator tenha se agigantado neste quarto ano. Até então a série estava praticamente nas costas de Vera Farmiga.

Apesar de já sabermos que a história iria se encaminhar para algo trágico, no que se refere ao destino de determinada personagem, que até já podemos escancarar aqui, Norma Bates, custamos a acreditar que aquele final está de fato acontecendo. Mas, para o bem e para o mal, a história toma esse rumo. E o episódio final da temporada, chamado "Norman", é tão poderoso que poderia muito bem ser o fim da série.

Se desde o início a relação entre Norma e Norman já se manifestava em algo bem doentio, principalmente levando em consideração o estado mental de Norman, a acentuação do problema do rapaz e sua internação, bem como o atrito de Norman com o xerife Romero, que se casa com sua mãe, a mulher de sua vida, tudo isso contribui para que a panela de pressão estoure e se encaminhe para a tragédia anunciada desde o início da série.

O estado de negação de Norman diante da morte da mãe chega a ser comovente, ao mesmo tempo em que a série abraça o ato abominável que é mexer com um cadáver. Outra cena de grande destaque é a da briga de Norman com Romero durante o funeral da mãe. Esse tipo de comportamento perturbador em uma cerimônia dessas acaba rendendo sempre momentos de impacto. Basta lembrar a cena do enterro de Laura Palmer na primeira temporada de TWIN PEAKS. Deixando claro que não há a menor intenção em comparar qualitativamente as duas séries. Agora é esperar que eles não estraguem tudo na quinta e última temporada.

sexta-feira, maio 27, 2016

PAIS & FILHAS (Fathers & Daughters)



Faz falta nos dias de hoje um bom diretor de melodramas, desses que não tem vergonha de meter o pé na jaca e fazer filmes com intenção de fazer a plateia chorar, como era comum na velha Hollywood ou mesmo no cinema italiano. Mas vez ou outra filmes desse tipo aparecem e Gabriele Muccino é um dos cineastas contemporâneos que mais perseguem isso.

Basta lembrar de seu filme-vitrine para o mundo, o ótimo O ÚLTIMO BEIJO (2001), e de seus dois dramas estrelados por Will Smith, À PROCURA DA FELICIDADE (2006) e SETE VIDAS (2008). Não são unanimidades entre a crítica, mas fizeram a alegria do público apreciador do gênero. Depois de voltar para a Itália para realizar BEIJE-ME OUTRA VEZ (2010), que não teve uma repercussão muito boa, e de um outro filme hollywoodiano pouco interessante, ainda que simpático e leve, UM BOM PARTIDO (2012), Muccino está de volta com mais força em PAIS & FILHAS (2015), em que ele trabalha novamente a questão do afeto entre familiares, bem como a dificuldade dos relacionamentos.

PAIS & FILHAS é bem sucedido em seus dois arcos dramáticos, com uma diferença de mais de vinte anos entre um e outro. Há também uma boa montagem que vai revelando aos poucos o drama do personagem de Russell Crowe, um escritor vencedor do prêmio Pulitzer que agora está às voltas com sérios problemas neurológicos. Ele sente espasmos no braço que depois se transformam em convulsões. Pra completar, ele não escreve um bom livro há um bom tempo, está passando por dificuldades financeiras, e precisa cuidar da filha pequena sozinho, depois que a esposa morre em um acidente automobilístico.

Pois é. Não é fácil. Com a alternância cronológica, vemos que também não é fácil para a garotinha agora crescida, vivida por Amanda Seyfried. Ela é uma estudante de psicologia que gosta de lidar com crianças com problemas de conexão com as pessoas e com o mundo. Ela mesma tem dificuldade em estabelecer uma relação mais aprofundada com alguma figura masculina. Por isso, prefere relações de uma noite apenas. Isso muda quando ela conhece o rapaz vivido por Aaron Paul, em um de seus melhores papéis depois de BREAKING BAD.

Uma das belezas do filme está também na fotografia de Shane Hurlbut, que nem tem um currículo assim tão respeitado, mas que, sob o comando de Muccino, faz um belo trabalho de composição visual, especialmente no modo como os corpos são colocados, sejam na horizontal, seja quando estão separados, como numa das primeiras cenas, com o personagem de Crowe e sua filha chorando no sofá, depois de voltarem do funeral da esposa/mãe.

Russel Crowe, aliás, dá um show de interpretação, especialmente quando está tendo suas crises. Dói ver aquilo tudo, assim como dói ver a luta dele pela filha, mesmo diante de tantas dificuldades. E o que dizer de uma cena linda de Amanda Seyfried com uma de suas pacientes (Quvenzhané Wallis) em um parque? A menina não fala com ninguém e aquele é o primeiro momento de resposta dela. Bem emocionante. Há quem vá dizer que é um filme cafona e exagerado em sua construção dramática, mas nem todo filme precisa ser sofisticado, classudo e sutil, não é mesmo?

terça-feira, maio 24, 2016

DEMON



O fato de DEMON (2015) ser um filme dirigido por um cineasta que cometeu suicídio sete dias antes de sua estreia na Polônia faz com que esse triste evento jogue uma luz (negra) para esta obra sobre uma festa estranha com gente esquisita. A carreira de Marcin Wrona poderia ser gloriosa, se ele não tivesse cometido suicídio tão jovem, aos 42 anos, e com muito potencial para grandes filmes – o cinema polonês de horror tem ótimos exemplares, mas anda um tanto sumido do circuito.

O desaparecimento de Wrona, aliás, acaba encontrando paralelo com o destino do protagonista no terceiro ato do filme, que é o que mais deixa o espectador sem chão. Até lá, principalmente durante toda a sequência da festa de casamento, que representa mais da metade da duração do filme, haja loucura. DEMON, inclusive, pode ser visto como um dos mais divertidos filmes de casamento já feitos. Com o diferencial que entram em cena aqui elementos do cinema de horror, ainda que numa chave vez ou outra cômica.

Na trama, Piotr é um inglês que sai de sua terra natal, a Inglaterra, para se casar com a bela polonesa Zaneta. Ele parece ser um rapaz bastante simpático e interessado em abraçar aquela nova cultura, a cultura judaica de sua noiva. Ao chegar ao local, ele descobre uma ossada de restos humanos, o que o deixa bastante intrigado. Principalmente quando esta ossada desaparece quando ele tenta mostrá-la para outras pessoas.

Piotr também é assombrado pelo fantasma de uma mulher que aparece no casamento, somente para seus olhos. Não demora para que ele passe da inquietude para a possessão, quando seu corpo se debate pelo salão da festa. O pai da noiva, a essa altura, já quer cancelar o casamento, pois um noivo defeituoso daqueles, com epilepsia (que é inicialmente o que julgam ser o problema), não seria nada bom para sua filha.

Um dos pontos positivos de DEMON é o fato de ser um filme que foge às estruturas convencionais do gênero horror, ainda que não negue ao espectador alguns elementos familiares e até alívios cômicos bem-vindos, embora isso contribua ainda mais para sua estranheza, que é, na verdade, uma característica do cinema de horror produzido naquele país.

Em vários momentos, em especial no final, a trama parece um tanto confusa, mas é até bastante fácil se deixar levar pelo andamento louco que Wrona deseja conduzir, passando a impressão de que o filme quer perder-se e fazer com que o espectador o acompanhe. Quem está acostumado com o cinema de horror europeu, porém, que tem menor preocupação com enredo, pode aceitar o jogo imposto pelo diretor numa boa.

Já quem espera um filme de sustos, pode se decepcionar um pouco, assim como também pode achar no mínimo estranha a cena em que um homem conversa com o espírito da mulher que possuiu o corpo do protagonista, embora seja um dos momentos mais importantes. O fato de o filme ter um senso de humor todo próprio acaba fazendo com que o que seria ridículo torne-se bem-vindo, interessante, divertido, intrigante. Faz muito bem para o circuito receber obras tão singulares como esta de vez em quando.

domingo, maio 22, 2016

X-MEN – APOCALIPSE (X-Men – Apocalypse)



E a segunda trilogia – se é que dá pra chamar assim, pois haverá sequência(s) – dos X-Men no cinema não acabou tão bem. Revitalizados pelo ótimo X-MEN – PRIMEIRA CLASSE (2011), de Matthew Vaugh, e também pelo bacana X-MEN – DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (2014), que marcou o retorno de Bryan Singer ao grupo que alavancou as adaptações de quadrinhos de super-heróis para o cinema, com X-MEN (2000), o novo X-MEN – APOCALIPSE (2016) procura fechar o ciclo, trazendo de volta versões mais jovens dos heróis mostrados naquele filme de 16 anos atrás, ao mesmo tempo em que dá seguimento aos eventos contados nos dois filmes anteriores.

A história se passa exatamente em 1983 e por isso há várias referências a esse período, como o lançamento nos cinemas de O RETORNO DE JEDI, o visual da época (o penteado e as roupas de Jennifer Lawrence, reprisando o papel de Mística, são destaque), e algumas canções daquele momento, como "Sweet dreams (are made of this)", do Eurythmics, e "The Four Horsemen", do Metallica, para citar as mais marcantes. A primeira, inclusive, serve de trilha sonora para o segundo grande momento do Mercúrio (Evan Peters) na franquia, depois do sucesso que foi sua participação em DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO. E quanto ao clássico do álbum Kill'em All, difícil não se empolgar com esta faixa saindo dos alto falantes de uma sala de cinema, especialmente se for uma sala IMAX.

Um dos problemas do filme, porém, é seu vilão. Apocalipse é desses vilões exagerados e chatos, com seu excesso de vilania. Se ele funciona nos quadrinhos, acaba ficando tedioso no cinema, ainda que tenham mexido com seu tamanho, aqui nas mesmas dimensões dos outros personagens, exceto quando trava um duelo mental com o Professor Xavier (James McAvoy), momento em que ele aparece como um gigante.

Por outro lado, nos poucos momentos em que Olivia Munn aparece como Pyslocke (Olivia Munn), ainda que bela e num traje bem parecido com o dos quadrinhos, sua participação é infeliz – nem tudo que funciona nos quadrinhos vai funcionar no cinema, daí a esperteza em mexerem com os trajes dos X-Men no primeiro filme da franquia.

Em X-MEN – APOCALIPSE, Singer pesa a mão e muitas vezes o filme parece um desfile de escola de samba, de tão colorido que é. Tudo bem que é um trabalho que tem os seus momentos, mas, para cada positivo como o da sequência mais dramática de Magneto (em momento excepcional de Michael Fassbender), há outros dez ruins, como a cena do desespero do jovem Ciclope (Tye Sheridan) em relação à possível morte do irmão. A solução também para trazer o poder da Fênix para a jovem Jean Grey (Sophie Turner) também parece, além de precipitada, um tanto incoerente com o andamento futuro da história, mostrada na primeira trilogia.

Nessa tempestade de CGIs que traz mais uma briga entre super-seres (a terceira do ano, se contarmos BATMAN VS SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA e CAPITÃO AMÉRICA – GUERRA CIVIL), os motivos são os mais bobos possíveis. Em nenhum momento, a convocação dos Cavaleiros do Apocalipse pelo vilão parece convincente ou feita com o menor cuidado. Nem mesmo com o indignado Magneto. Aliás, beira ao ridículo.

Apostando no colorido, na ação desenfreada, Singer perde a mão e também a chance de manter a boa reputação, já que essa foi a sua primeira derrapada feia na franquia, o que é uma pena, pois alguns personagens de X-MEN – PRIMEIRA CLASSE, principalmente, haviam sido muito bem desenvolvidos. Além do mais, não ficou nada bem colocar a Mística como líder do grupo. Jennifer Lawrence no piloto automático ficou parecendo novamente Katniss Everdeen, da franquia JOGOS VORAZES, ou seja, um exemplo de líder.

No mais, a participação rápida de Wolverine (Hugh Jackman) funciona mais como uma boa referência/homenagem aos fãs dos quadrinhos a Arma X, a graphic novel clássica de Barry Windsor-Smith, do que como algo importante para a trama. De todo modo, pode-se incluir a sua participação como um dos poucos pontos altos deste filme torto, exagerado e que ainda se vende como melhor que o subestimado X-MEN – O CONFRONTO FINAL (2006), de Brett Ratner. Pode ser que o tempo faça justiça ao trabalho de Ratner.

quarta-feira, maio 18, 2016

BIG BANG: A TEORIA – A NONA TEMPORADA COMPLETA (The Big Bang Theory – The Complete Ninth Season)



Não sei o quanto ainda séries com mais de 20 episódios são interessantes nos dias de hoje, em que se encontra mais qualidade em séries de menor duração, de canais fechados ou de serviços de streaming. Nisso, a nona temporada de THE BIG BANG THEORY (2015/2016), se foi melhor em comparação com a anterior, o ponto baixo de toda a série até o momento, ainda manteve essa inquietação ruim no ar, com raros episódios engraçados. O que acaba justificando a insistência na série é mais um acostumar-se com os personagens ao longo de vários anos de "convivência" do que amor a eles, especialmente com uma equipe criativa de roteiristas tão pouco inspirada.

A nona temporada começou e terminou com ganchos bem fracos e pouco memoráveis. Como se nada pudesse ser feito para o avanço dos personagens, talvez com medo de irem longe demais. Os personagens, que no começo lidavam com problemas de socialização hoje levam uma vida mais normal e feliz do que muito espectador da série. Se bem que isso não é exatamente um problema, já que TBBT não é baseada em enredos grandes, mas em ideias felizes que podem gerar riso e diversão.

Às vezes, porém, ao centrar demais a série em seu público-alvo, a série pode até provocar a raiva de alguns, como no episódio "The Viewing Party Combustion", que é até um dos melhores da temporada, mas que por ter muitas referências e ser totalmente centrado em uma preparação da turma para a nova temporada de GAME OF THRONES pode justamente desagradar a quem não veja a série baseada nos livros de George R.R. Martin. E é curioso que muito da diversão vem de um personagem que é frequentemente usado como uma carta na manga, Stuart, o infeliz proprietário de uma comic store.

Stuart, com seu ar de cachorro com fome e desamparado, é uma espécie de palhaço clássico, sempre recebendo bordoadas e que é alvo de bullying até mesmo por aqueles que já sofreram na pele o bullying dos outros no passado, a turma de quatro amigos que faz questão de deixá-lo de fora de certos eventos. Mal comparando, Stuart é quase como o Newman de SEINFELD, com a diferença que Stuart é um amor de pessoa e TBBT não é uma série sobre a investigação do lado mesquinho e egoísta do ser humano, como é a série de Jerry Seinfeld e Larry David.

Outros momentos marcantes desta nona temporada: Sheldon e Leonard conversando sobre seus problemas com suas respectivas esposas/namoradas quando estão em crise – Sheldon fazendo uma versão solitária de Fun with Flags, seu vídeo especial para a internet, é bem interessante. Isso acontece no episódio "The Separation Oscillation".

"The Helium Insufficiency" é outro destaque, mostrando os rapazes tentando encontrar um novo namorado para Amy através de um aplicativo de celular. Essa série de episódios envolvendo os novos pretendentes de Amy acaba por tornar a personagem mais atraente. Tanto é que a reaproximação dela com o Sheldon acaba sendo interessante do ponto de vista amoroso, ainda que nem sempre os episódios como um todo sejam bons.

Como a questão dos casais tem pesado bastante na série, nada como um bom episódio de Dia dos Namorados, "The Valentino Submergence", que mostra evoluções principalmente na relação de Howard e Bernadette e de Sheldon e Amy. Enquanto isso, Raj se sente perdido sem saber que namorada escolher: Emily ou Claire. Parece mais uma tentativa de a série tentar colocar mais uma vez de escanteio a personagem Emily, que é bela e interessante mas parece não entrar em sintonia com o grupo, por algum motivo.

O episódio final da temporada, "The Fermentation Bifurcation", embora pareça tão comum e pouco marcante, ao menos é um dos mais divertidos. Mostra a maior parte da turma em uma degustação de vinho, e isso envolve um momento particularmente desconfortável para Raj. Apesar de simpática, a season finale acaba funcionando para enfatizar o quanto os produtores e roteiristas estão desinteressados e preguiçosos com sua criação.

sábado, maio 14, 2016

ELES NÃO USAM BLACK-TIE



A primeira vez que vi ELES NÃO USAM BLACK-TIE (1981) não foi tão impactante. Vi na televisão e não me sensibilizei, não sei bem o motivo, com o drama daqueles personagens. Foi preciso vários anos, talvez mais de vinte, para que eu pudesse rever e ter a noção da grandeza desta obra de Leon Hirszman, que havia trabalhado antes no documentário ABC DA GREVE (1979/1990), a fim de entrar em contato com trabalhadores de fábricas de automóveis da região do ABC paulista que fizeram história com uma greve sem precedentes que mexeu com o país.

ELES NÃO USAM BLACK-TIE foi baseado na peça de cunho político-social escrita por Gianfrancesco Guarnieri na década de 1950. O ator e dramaturgo, no filme, aparece como o pai amoroso de uma família humilde. Mas a primeira cena do filme já chama a atenção pela sensibilidade com que Hirszman lida com o amor entre dois personagens mais jovens, Tião (Carlos Alberto Riccelli) e Maria (Bete Mendes).

A câmera os acompanha da saída do cinema até a ida, durante uma chuva forte, com uma parada na casa de Tião, quando vemos um belo trabalho de aproximação do rosto dos personagens e depois um uso lindo e simples do campo e contracampo, tudo muito bem delicado, já que se está lidando com uma situação complicada dos dois, o anúncio da gravidez de Maria para o namorado.

Aos poucos, o filme vai nos apresentando à família de Tião, e, mais à frente, um pouco também à família de Maria. Já nesse instante, a questão da greve e dos riscos que ela traz para os trabalhadores e suas famílias é posta em discussão. Otávio (Guarnieri) e sua esposa Romana (Fernanda Montenegro, gigante) demonstram sabedoria, mas também força, no que se refere a essa situação, que era bem mais grave naqueles anos de ditadura, com a polícia reprimindo e prendendo os manifestantes e os maiores agentes da greve.

Há uma cena, em particular, que é de partir o coração, que é quando Maria é atingida. O fato de ela estar grávida, informação apresentada com ênfase logo no primeiro momento do filme, já nos coloca numa situação de preocupação com os personagens. Essa cumplicidade não é muito fácil de conseguir em qualquer filme, e Hirszman deixar o espectador com o coração na mão, tal o grau de interesse e empatia que criamos com os personagens. Ele já havia feito uma obra de ficção grandiosa e que também dava força a uma personagem feminina, que é S. BERNARDO (1971), mas aqui o diretor parece mais livre das amarras da literatura e o resultado é mais realista, ainda que o rigor formal esteja lá, mas um pouco mais disfarçado.

O filme de Hirszman também lida com a questão da traição, ao abordar o fato de Tião furar a greve por acreditar que aquilo lhe beneficiará – ele vai precisar de dinheiro, se quiser casar e dar um pouco mais de conforto para sua mulher. O problema é que entra uma questão ética da classe trabalhadora que torna a sua decisão um ato egoísta tão feio que acaba funcionando como um meio de o personagem acabar sendo punido na história, em um momento especialmente doloroso. Aliás, como não chorar em diversas sequências do filme, hein? E que coisa linda que é o plano final.

quinta-feira, maio 12, 2016

PROVA DE CORAGEM



Alguns filmes brasileiros, ainda que não tenham conseguido atingir um grau de eficiência e satisfação, são motivo de alegria somente pelo fato de conseguirem um espaço considerável em nosso circuito, tão pressionado pela força dos blockbusters americanos e pela falta de uma mínima campanha de marketing para que o público saiba sequer da existência de tais filmes.

PROVA DE CORAGEM (2015) é desses títulos bem pequenos que, ainda que contando com um nome famoso no elenco, o de Mariana Ximenes, tem como seu maior trunfo o fato de ser diferente, de se passar em uma região fronteiriça do Rio Grande do Sul – em alguns momentos, inclusive, é difícil entender trechos dos diálogos.

Na trama, Hermano (Armando Babaioff) é um médico que mantém um relacionamento estável com Adri (Mariana Ximenes), uma artista plástica. A vida dos dois dá uma sacudida com a notícia da gravidez de Adri. Como o filho não era esperado, as reações de ambos são inesperadas. Ela, por não respeitar uma gravidez de risco; ele, por manifestar um desejo de interromper a gestação.

Como Hermano é o principal protagonista, o filme é narrado por seu ponto de vista, que também volta no tempo, a fim de remontar à sua adolescência, à amizade que começou conflituosa com um rapaz da cidade, e a uma tragédia que o abalou. As cenas de flashback são as mais frágeis, talvez pela falta de uma melhor preparação dos atores, e isso compromete o impacto emocional que o filme poderia trazer. A ambientação nos anos 1980, com canções dos Engenheiros do Hawai, também é comprometida, principalmente se compararmos com uma obra tão bem acabada como CALIFÓRNIA, de Marina Person.

O filme de Roberto Gervitz pode ser encarado como uma obra assumidamente pequena, ainda que tenha a intenção – frustrada – de explorar e aprofundar não apenas os traumas de Hermano e sua vontade de vencer o medo, mas também a crise no relacionamento do casal. Em alguns momentos, o diretor até consegue; em outros, passa longe. Mas pelo menos procura uma solução relativamente satisfatória para sua conclusão, já que as cenas de preparação para escalar uma montanha com um amigo estão entre as menos interessantes do filme.

quarta-feira, maio 11, 2016

A VIDA DE O'HARU / OHARU: VIDA DE UMA CORTESÃ (Saikaku Ichidai Onna)



No mesmo ano que Chaplin lançava seu filme mais triste (LUZES DA RIBALTA), um dos maiores gênios do cinema mundial, Kenji Mizoguchi, conta também uma das história mais tristes já contadas sobre a vida de uma mulher, A VIDA DE O'HARU (1952), que pode ser encontrado no box lançado pela Versátil que traz também a obra-prima CONTOS DA LUA VAGA (1953). Ainda que sua história sobrenatural seja mais famosa e apareça até hoje em tantas listas de melhores filmes de todos os tempos, o filme sobre a vida atormentada de Oharu é tido como o favorito do próprio diretor.

O filme segue uma estrutura bem clássica, começando em um momento de decadência da personagem, quando ela, já na faixa dos 50 anos, tenta disfarçar a idade para sobreviver, junto com outras prostitutas veteranas. O que ela ganha, quase sempre, é escárnio por parte dos homens. Em seguida, somos apresentados a sua vida pregressa, quando mais jovem, e apaixonada por um homem que não fazia parte da nobreza. Seu relacionamento com esse homem (vivido por Toshiro Mifune) acaba por fazer com que sua família fosse expulsa do vilarejo e o destino do seu amado é bem trágico.

A série de desventuras da protagonista é tão grande que chega a parecer um grande exagero, mas em nenhum momento Mizoguchi trata seu filme como um dramalhão. É tudo narrado de maneira muito seca. E se o cinema de Yasujiro Ozu costuma mostrar sempre o teto das casas e a câmera baixa, A VIDA DE O'HARU opta por mostrar a personagem do ponto de vista de cima, quase como um objeto desprezível, que é assim como ela é tratada pela vida e pela sociedade machista do Japão.

Mizoguchi tem um especial interesse pela vida das prostitutas. Além de frequentar bordeis para socializar e entrar em contato com aquelas mulheres, ele ainda teve um caso em sua família de uma irmã que foi vendida pelo seu pai para ser gueixa. Certamente ele se sentia solidário dessas mulheres que acabavam sendo jogadas com força por uma sociedade desumana para o lugar que lhe fosse mais conveniente.

Banida de vários lugares por onde passa (seja como concubina, cortesã, empregada em uma casa, ou mesmo abandonando tudo, inclusive a casa de seus pais, para ser freira), Oharu enfrenta a miséria e a fome, e a cada agressão que recebe, mais ela parece resistir, ainda que com o espírito cada vez mais quebrado. E não é para menos. O drama de não poder ver o próprio filho é um dos mais dolorosos do filme e meio que sintetiza, se é que isso é possível, a dor da personagem. A VIDA DE O'HARU é hoje visto como uma obra feminista e à frente de seu tempo, ainda mais saindo de um país com fama de ser tão opressivo com as mulheres.

segunda-feira, maio 09, 2016

MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER



O encontro de dois artistas é o mote de MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER (2015), segundo longa-metragem de Allan Ribeiro, e que é aparentemente mais simples em sua estrutura do que ESSE AMOR QUE NOS CONSOME (2012), seu trabalho anterior que conquistou muitos espectadores, misturando documentário e ficção de maneira muito sensível e delicada. Em comum também entre os dois filmes está uma residência.

No caso de MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER, somos apresentados à casa grande em que habita sozinho o artista plástico Darel Valença Lins, que pinta uns quadros bem interessantes e cheios de mistério, mas que o filme de Allan acaba tornando quase secundários, em comparação com os trabalhos em vídeo que o artista faz só para si mesmo, e, como ele próprio diz, tem como aspecto recorrente a solidão. Nesses pequenos filmes, em geral, vemos apenas os pés e/ou as mãos do próprio realizador, algumas vezes parecendo estar flutuando num abismo.

Uma vez que vamos acompanhando essa visita e esse interesse de Allan pelo trabalho e pela rotina de Darel, vamos percebendo o quão solitário de fato é estar naquele lugar. Além de a casa ser grande, Darel fala dos amigos que já morreram em uma fotografia, das festas que fez no passado naquela casa com familiares e amigos, e de como ele se contenta em acordar a cada dia para trabalhar em sua arte.

A arte dá sentido à vida, embora esse apego não se manifeste de maneira assim tão grande por parte de Darel, que após o instante em que filma Allan, enquanto Allan também o filma, logo no início, deleta o arquivo de vídeo. Mas talvez por, como o próprio Darel diz, não gostar de vídeos com pessoas falando, como os que Allan faz. Aliás, interessante como o artista plástico gosta de ficar comparando o seu trabalho com o do jovem realizador.

A junção dos vídeos de Darel com o filme de Allan acaba funcionando como um encontro inusitado de dois artistas de estilos e gerações bem distintas. Esse encontro dos dois, que nasce por meio do gosto pela imagem, vai se afinando, até parecer uma obra única e orgânica, ainda que continue sendo um objeto estranho. Mas, por isso mesmo, dotada de uma beleza toda especial.

MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER foi escolhido como o melhor filme pelo júri da crítica na Mostra de Cinema de Tiradentes de 2015 e teve exibição em Fortaleza na abertura da Mostra Outros Cinemas de 2016.

domingo, maio 08, 2016

O MAIOR AMOR DO MUNDO (Mother's Day)



Bem que Garry Marshall podia ficar quietinho em seu lugar em vez de sujar o seu nome com esses filminhos bobos recentes. O diretor dos pequenos clássicos UMA LINDA MULHER (1990) e FRANKIE & JOHNNY (1991) agora virou especialista em filmes-coral superficiais com temáticas de datas comemorativas. Depois de "homenagear" o Dia dos Namorados com IDAS E VINDAS DO AMOR (2010) e o réveillon com NOITE DE ANO NOVO (2011), ele agora fala sobre o Dia das Mães em O MAIOR AMOR DO MUNDO (2016).

Vale lembrar que a estrutura do filme-coral não necessariamente precisa ser superficial, só por não ter muito tempo para dar profundidade a seus personagens. Lembremos de obras-primas como SHORT CUTS – CENAS DA VIDA, de Robert Altman, TODOS DIZEM EU TE AMO, de Woody Allen, ou mesmo o nosso O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho. E até podemos entrar no território das comédias românticas aparentemente mais bobas, como o delicioso e marcante SIMPLESMENTE AMOR, de Richard Curtis.

Portanto, não há justificativa para tentar disfarçar a falta de substância neste O MAIOR AMOR DO MUNDO, que aqui no Brasil ganhou o título de um filme de Cacá Diegues. Como são vários núcleos, algum tinha que funcionar, mas os que mais se aproximam disso, são: a história do casal de velhinhos que viaja para fazer uma surpresa às suas duas filhas, que escondem segredos deles, justamente por eles serem muito tradicionais e preconceituosos; e a história do jovem casal que vive junto, mas que por algum motivo ela não quer casar formalmente, mesmo já tendo um filho da união. O primeiro vale por ter algum momento de riso, o segundo por conseguir, pelo menos a princípio, causar simpatia no espectador.

Já as histórias que demandam mais tempo são justamente as mais frágeis, como a da mulher (Jennifer Aniston) que agora precisa dividir o filho com a nova esposa do ex-marido (Timothy Olyphant); ou a do viúvo (Jason Sudeikis) que acaba desempenhando o papel de pai e mãe de duas filhas depois da morte da esposa (Jennifer Garner); ou a história de uma celebridade de programas de propaganda (Julia Roberts) que tem uma filha biológica e não a assume.

Todas essas histórias teriam um potencial para emocionar, mas é uma pobreza tão grande no modo como elas são desenhadas, que só despertam mesmo tédio no espectador. O que justifica essa gama de atores famosos todos juntos (e aí incluímos também Kate Hudson, a jovem Britt Robertson e o veterano Hector Elizondo) é provavelmente o senso de companheirismo conquistado junto a trabalhos anteriores com o diretor ou com alguém do elenco – Britt Robertson trabalhou com Aniston em CAKE – UMA RAZÃO PARA VIVER, enquanto Aniston, por sua vez, trabalhou com Sudeikis em QUERO MATAR MEU CHEFE e sua continuação.

Assim, tudo acaba funcionando como um grande churrasco na piscina cuja diversão se restringe ao elenco e equipe técnica. Mesmo assim, como é um filme descompromissado e despretensioso, pode funcionar como uma diversão leve quando bem acompanhado.

sábado, maio 07, 2016

CERTO AGORA, ERRADO ANTES (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da)



Dizem que se você viu um filme de Hong Sang-soo, você viu todos. Tem um pouco de lógica, mas, por outro lado, se você viu apenas um filme deste genial cineasta sul-coreano, certamente estará perdendo muita coisa boa de sua já generosa filmografia, que atualmente reúne 21 títulos, entre longas, curtas e segmentos. Esse tipo de lógica errônea também valeria, aliás, para outros cineastas de características obsessivas.

Um dos aspectos presentes em boa parte de seus filmes é a repetição. E Sang-soo gosta muito de brincar com isso, como pode ser visto em A VISITANTE FRANCESA (2012), em que percebemos outro elemento bastante comum em sua filmografia: a figura do homem bobalhão em frente a uma mulher linda que desperta sua paixão ou que, por isso mesmo, possa também tornar uma aproximação um bocado atrapalhada. Outro elemento bastante comum é o uso de zooms desconcertantes, que podem ser conferidos também no belíssimo drama FILHA DE NINGUÉM (2013).

Em CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015), um retorno à comédia, o exercício da repetição de Sang-soo se estende em duas histórias que ocorrem em uma espécie de universo paralelo da mente de seu criador. A primeira metade do filme nos apresenta a um cineasta que, usando de vaidade e de seu status, e também aproveitando que está sozinho na cidade, procura se aproximar de uma jovem que encontra. Não demora muito para que ele a convide para um café e depois isso se estenda para outros programas durante o dia. Acontece que o jeito atrapalhado e um tanto bobão desse homem acaba fazendo com que ele cometa alguns deslizes e a história dos dois acaba não saindo um final feliz.

O segundo segmento do filme é uma espécie de repetição de alguns eventos da primeira parte, mas com a vantagem que este homem agora aparece com trejeitos bogardianos, como se tivesse ganhado o poder do charme e do sucesso com as mulheres, ainda que junto disso venha também um certo ar esnobe.

Como a vida não é feita de ensaios ou segundas chances, tudo o que vivemos é ganho ou perda. Ou um pouco de tudo. O filme de Sang-soo carrega um ar agridoce justamente por apresentar esse tipo de visão da vida, de como ela está longe de ser como nas comédias românticas de Hollywood, embora o diretor acabe restringindo essa sua visão ao seu universo particular, provavelmente muito voltado a si mesmo, ao modo como ele encara a sorte nos relacionamentos.

Comparações com obras de cineastas como Eric Rohmer, Woody Allen (que já chegou a fazer um projeto duplo como esse, MELINDA E MELINDA) e Richard Linklater podem surgir, mas isso só atesta a qualidade que o filme tem de agradar aos espectadores que apreciam o modo como o tema dos relacionamentos é trabalhado, de preferência com longos diálogos que flagram momentos tanto de falta de tato por parte de seus protagonistas, como de pequenos sucessos. Mas Sang-soo tem um estilo bem próprio e certamente pode ser encarado como um dos cineastas mais importantes da contemporaneidade.

sexta-feira, maio 06, 2016

TRÊS TÍTULOS MUSICAIS



Três das bandas de rock mais importantes do mundo, em registros bem distintos. Os dois primeiros, em DVD, e o segundo visto no cinema bem recentemente, embora seja muito parecido com um DVD também. Metallica e Beatles são bandas do coração e que conheço com mais profundidade. Queen, eu reconheço que preciso conhecer melhor. Ficar apenas em coletâneas e um único álbum (A Night at the Opera) é  muito pouco mesmo pra uma banda tão importante.

METALLICA: ORGULHO, PAIXÃO E GLÓRIA – TRÊS NOITES NA CIDADE DO MÉXICO (Metallica: Orgullo, Pasión y Glória – Tres Noches en la Ciudad de México)

Este DVD do Metallica tem uma importância interessante no atual momento da banda. Foi o retorno deles ao México depois de vários anos sem fazer show no país. É também a terra-natal do novo baixista, Robert Trujillo, o único que não está com a banda desde a formação original. O box METALLICA – ORGULHO, PAIXÃO E GLÓRIA (2009, foto) traz um DVD e mais dois CDs com faixas retiradas do show. No DVD, há faixas extras, que foram tocadas nas três noites que eles estiveram na Cidade do México. Como já se conhece (até também pela vinda do Metallica recentemente, duas vezes no Rock in Rio), o repertório privilegia canções do excepcional álbum Ride the Lightning (1984) e também outros clássicos da fase thrash metal e também do milionário "Album Preto" de 1991, que funcionou como um divisor de águas para a banda, tirando-a do gueto das bandas de metal. Alguns momentos de grande destaque: "Creeping death", "For whom the bell tolls", "Sad but true", "One", "Enter Sandman", "Seek & destroy”. É muita energia junta.

THE BEATLES – 1

Este DVD/CD (que também vem em formato alternativo de blu-ray) foi um presente que eu me dei no Natal do ano passado. THE BEATLES – 1 (2015) traz as faixas que chegaram em primeiro lugar no mercado americano e inglês do Fab Four, possivelmente a banda mais importante e influente do mundo. São 27 faixas que trazem desde a fase inicial, com a alegre "Love me do", até a fase tardia, com a melancólica "The long and winding road". Curiosamente, até as canções mais alegres dos Beatles eu encaro com certa tristeza, como se eu já estivesse prenunciando o tempo todo o fim iminente da banda. Alguns clipes foram criados especialmente para o DVD, como o de "Come together", outros são versões ao vivo de apresentações da banda, e, portanto, o que vale mesmo é a energia e menos a qualidade do som, como é o caso de "From me to you". Mas excelentes mesmo são os ousados clipes feitos na época e que até hoje são muito legais de ver, como o de "Penny Lane", "All you need is love" e "Paperback writer", mas principalmente o maravilhoso clipe de "Hey Jude", um dos últimos registros de alegria imensa da banda, em uma faixa de perfeição e beleza únicas.

QUEEN – A NIGHT IN BOHEMIA

Exibido em sessões bem limitadas dos cinemas UCI em várias cidades do Brasil, QUEEN – A NIGHT IN BOHEMIA (2016) flagra a banda momentos antes de se lançar em turnês com o histórico álbum A Night at the Opera (1975). O registro é de 1975, mas quase não tem faixas do disco, embora apareça lá a primeira apresentação ao vivo de “Bohemian Rhapsody”, ainda que dentro de um medley, misturada a outras canções. E embora seja uma banda com um som mais sujo, essa que vemos no palco, já se percebe algumas variações, não apenas pelo piano de Freddie Mercury, mas também pelo banjo de Brian May em determinado momento. O show se encerra com a belíssima “In the lap of the gods…”, do disco anterior, Sheer Heart Attack (1974). No bis, eles voltam com uma espécie de apanhado de canções de rock clássicas dos anos 1950, mas usando o som pesado e sujo daquele período. Acaba funcionando como uma representação da evolução do rock ao longo de vinte anos. E com um cantor excepcional ali no palco, com uma voz singular e forte presença. Só me cansei um pouco com o andamento um pouco lento, mal acostumado que sou com o rock mais básico dos anos 1980 e 1990. Mas fazia parte do espírito da época. Antes do show, há um documentário de cerca de meia hora sobre aquele momento da banda.

quarta-feira, maio 04, 2016

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? (Une Heure de Tranquillité)



O cartaz francês de O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? (2014) apresenta uma foto dos personagens do filme, com destaque para o protagonista Michel Leproux, vivido com graça por Christian Clavier. No cartaz há os dizeres: "Eu? Egoísta?". Mas o engraçado é que é muito fácil se colocar nos sapatos de Michel, principalmente se você gosta muito de alguma forma de arte e valoriza o que pessoas mais pragmáticas consideram de pouca importância.

Michel é um sujeito de meia-idade, fã de jazz, e que por acaso encontrou em uma loja um disco raro de um artista de que ele gosta muito. Tudo que ele queria era um momento de tranquilidade, para poder escutar com calma e com prazer aquela gema. No caminho, encontra um cliente chato e a lista de pessoas que o interrompem só aumenta em proporção geométrica assim que ele adentra o prédio onde mora. A própria mulher, vivida pela ainda bela Carole Bouquet (quem não lembra dela em ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel?), traz um assunto delicado à tona. Que ele, claro, quer adiar em pelo menos uma hora.

A direção de O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? é de Patrice Leconte, conhecido realizador que anos atrás chegou a ser considerado um dos expoentes do novo cinema francês, graças a filmes como UM HOMEM MEIO ESQUISITO (1989) e O MARIDO DA CABELEIREIRA (1990). Não que ele tenha deixado de fazer filmes, mas suas obras não têm chegado com frequência em nosso circuito. De todo modo, a distribuidora está de parabéns por trazer esta gostosa comédia.

E é curioso como há várias subtramas que também enriquecem o filme, embora a questão básica seja a principal, quase como numa obra de Buñuel, abordando a incapacidade ou impotência de um homem frente a uma situação – lembrando novamente de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, mas também de O ANJO EXTERMINADOR.

Nas tais subtramas, temos a questão da infidelidade dele com a mulher e da mulher com relação a ele e outras coisas que vão se somando e personagens de apoio que se agigantam mesmo em papéis pequenos, como a almodovariana Rossy de Palma, no papel da empregada da casa; ou um dos bombeiros que está trabalhando na reforma de um quarto do apartamento; ou o vizinho chato que quer saber mais da vida do protagonista; ou o filho com quem ele não consegue ter uma sintonia.

É comédia leve, é filme pequeno, mas feita com esmero, e que se torna mais e mais interesssante à medida que a trama evolui, e também à medida que pensamos nele. Curiosamente, Leconte vem fazendo comédias como essas há bastante tempo, desde os anos 1970, na verdade. No entanto, o que acabou chegando ao nosso circuito foram seus dramas com um ar mais característico de filme de arte.

domingo, maio 01, 2016

LUZES DA RIBALTA (Limelight)



Cerca de vinte anos atrás eu vi LUZES DA RIBALTA (1952) pela primeira vez na televisão. Foi num especial do Charles Chaplin que a Globo estava exibindo – um filme a cada domingo. Lembro que eu chorei como se tivesse perdido um parente ou amigo querido, ou algo do tipo, especialmente no final, embora não lembrasse mais muito bem desse final. Só sei que o impacto desta obra tardia de Chaplin em mim foi grande naquela época. Resolvi revê-lo finalmente este ano, no dia de aniversário de nascimento do grande diretor.

Trata-se de uma obra assumidamente melodramática. Os olhos tristes de Carlitos nas comédias mudas já se percebiam fortemente em obras anteriores e por isso que para muitos, era mais fácil chorar do que rir em algumas de suas comédias. Quantas vezes eu não chorei em O GAROTO (1921), um dos filmes que eu mais vi na vida e que ainda considero a sua obra-prima mais bem-acabada?

E há pontos em comum entre os dois filmes, por mais distantes que possam parecer. Em ambos temos a figura de um homem que salva a vida de alguém. Aqui não é mais um bebê indefeso, mas uma mulher que havia tentado o suicídio. Chaplin interpreta Calvero, um comediante decadente, que procura viver das glórias do passado, mas que não consegue mais obter sucesso de público. Por isso se acostumou a afogar as mágoas na bebida. Em um de seus retornos para casa, percebe o cheiro de gás que vem de um dos apartamentos. Ele precisa arrombar a porta para salvar aquela jovem mulher, que acaba por levar a sua casa, por falta de outro lugar.

A mulher se chama Thereza (Claire Bloom, linda) e tem um passado de bailarina. Acontece que ela percebeu que não consegue se levantar, não consegue mais andar. Ainda que os médicos digam que isso é um mal de natureza psicológica e não física, ainda assim, demora para ela conseguir dar os primeiros passos. E tudo que ela obtém é graças a Calvero, com seu carinho e suas palavras encorajadoras. Ele encontra nela também uma solução para o seu problema com a bebida.

Os sentimentos de gratidão se misturam com os de amor romântico na cabeça de Thereza, que deseja casar com Calvero. Ele, por sua vez, acredita que ela está confusa, que ele é muito velho para ela, que não pode lhe oferecer o tanto de amor que ela precisa, em sua idade. Até por que há um terceiro elemento na equação: o sujeito por quem ela era apaixonada antes do incidente do suicídio, agora um músico de sucesso. A trama evolui a partir do progresso físico e profissional de ambos. Ou regresso, dependendo do caso.

Como se já não bastasse toda essa situação, que por si só já constitui elemento suficiente para construir uma obra cheia de melancolia, especialmente quando vemos a decadência de Calvero no palco, o filme se encerra de maneira grandiosa, com uma espécie de espetáculo de despedida orquestrado para o famoso comediante. E com direito a presença em cena de Buster Keaton, o grande rival de Chaplin na era muda, com sua tradicional cara de estátua.

LUZES DA RIBALTA é o trabalho mais pessoal e mais revelador de Chaplin, que naquela época estava passando por uma crise profissional, sendo acusado de comunista e amargando fracassos de bilheteria. É também considerado o seu filme-testamento, pelo caráter de despedida, embora o cineasta tenha ainda realizado outros dois filmes na Inglaterra. Não é exatamente uma unanimidade na carreira do grande mestre, talvez por carregar um bocado no sentimentalismo, mas quem ama o filme, ama com todo o coração. E é muito fácil entender o porquê.