segunda-feira, dezembro 14, 2015

QUATRO FILMES COM TEMÁTICA HOMOAFETIVA



Peço desculpas àqueles que acompanham o blog pela falta de postagens, mas é que eu ando passando por umas dificuldades na vida, tanto de saúde quanto profissional. Portanto, textos mais elaborados e que requerem um pensar mais afiado, ainda que dentro daquilo que satisfaz minimamente a mim mesmo estão fora de cogitação esses dias. Hoje, como não consegui cabeça para escrever um texto acadêmico, lá vamos nós para breves parágrafos sobre filmes. O tema aqui é a relação homoafetiva, que está cada vez mais comum no cinema contemporâneo, que é reflexo de uma maior liberdade conquistada pela sociedade ocidental.

THE NORMAL HEART

O nome de Ryan Murphy nem sempre é associado a coisas boas, mas com THE NORMAL HEART (2014, foto), que ele dirigiu para a HBO, baseado em uma peça de Larry Kramer, houve um resultado até que bastante positivo, muito por causa do ótimo elenco. O filme se passa durante o início dos anos 1980, quando a então chamada “praga gay” chegou para aterrorizar. THE NORMAL HEART apresenta os esforços de um grupo de pessoas, a maioria delas gay, vítima direta ou indiretamente do vírus HIV, em buscar ajuda e compreensão da sociedade americana, que costumava rotular e ter muito preconceito com essas pessoas. O ótimo elenco conta com Mark Ruffalo, Taylor Kitsch, Jim Parson, Julia Roberts e o premiado com o Globo de Ouro Matt Bomer.

O AMOR É ESTRANHO (Love Is Strange)

Ira Sachs já havia ganhado notoriedade com um trabalho bem independente, mas que chamou a atenção dos críticos franceses, DEIXE A LUZ ACESA (2012). Com O AMOR É ESTRANHO (2014) ele alcança o mainstream deixando de lado algumas cenas mais físicas do trabalho anterior e centrando no amor entre dois homens na terceira idade passando pela difícil situação de ter que viverem separados um do outro por circunstâncias financeiras, que por sua vez foram causadas por um problema de preconceito. John Lithgow e Alfred Molina são dois namorados que moram juntos e decidem se casar. O problema é que, devido à situação de desemprego de um deles, os dois precisam morar em casas diferentes de familiares, gerando transtornos para eles e para as famílias que os abrigam. O final é particularmente belo.

ENQUANTO VOCÊ NÃO VIA (While You Weren’t Looking)

O filme que abriu o festival For Rainbow deste ano foi o sul-africano ENQUANTO VOCÊ NÃO VIA (2015), de Catherine Stewart, que aborda duas relações entre mulheres enquanto também lida com a questão da desigualdade social do país. O filme é irregular justamente por acertar em algo e errar em outro: enquanto o relacionamento das duas mulheres mais velhas é contado de maneira morosa e pouco interessante, há fogo no modo como lida-se com o caso da menina rica com a moça que mora na favela e gosta de se vestir como homem. Entre altos e baixos, o filme ganha também importância como retrato de um país pouco visto em nosso circuito.

BEIRA-MAR

O filme que encerrou o festival foi o brasileiro BEIRA-MAR (2015), da dupla de então curta-metragistas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Trata-se de um belo trabalho, feito com delicadeza no trato com a câmera e com o sentimento de seus personagens jovens. Em alguns momentos, BEIRA-MAR lembra o trabalho dos irmãos Dardenne, mas tem estilo todo próprio e não deixa de ser admirável para um longa-metragem de estreia. A beleza da fotografia em scope, que captura os personagens muitas vezes muito de pertinho, é algo de dar gosto e faz com que o filme seja uma beleza de acompanhar, mesmo para quem não esteja muito interessado na história dos amigos.

sábado, dezembro 12, 2015

CALIFÓRNIA



Vontade de dar um abraço na Marina Person ao sair da sessão de CALIFÓRNIA (2015), sua estreia na direção de longas-metragens de ficção. O filme sintetiza muito bem os anos 1980, essa década que foi um misto de alegria e muita cor com algo de soturno e bem depressivo (inclusive com a chegada da AIDS). Por isso, a banda mais representativa do filme é The Cure, que além de comparecer com duas faixas na trilha sonora (em momentos bem especiais!), ainda conta com um personagem muito importante (e querido) que se veste um pouco como o seu ídolo Robert Smith e é o esquisitão da escola. The Cure se caracterizava por alternar canções depressivas com outras extremamente alegres em seus discos.

Do lado brasileiro temos os Titãs, que comparecem também com esses dois lados da moeda: toca a alegre “Sonífera ilha” e a versão acústica e noventista de “Não vou me adaptar”. E tem o Paulo Miklos lá, no papel de pai da protagonista Estela (Clara Gallo), uma moça cujo sonho maior é viajar para a Califórnia, lugar onde seu tio Carlos (Caio Blat) mora. Ele trabalha escrevendo sobre música pop, outra das paixões de Estela, que ainda novinha, descobrindo a vida, é fã de David Bowie.

O filme abre com uma cena bem importante para ela: o dia de sua primeira menstruação. A sexualidade, como é natural, é algo muito importante para ela e para as amigas, que falam sobre os romances com os meninos. Assim, enquanto a viagem para a Califórnia não chega, Estela tem uma queda por um rapaz da escola e vê nele o sujeito ideal para tirar a sua virgindade. As coisas não saem muito bem como ela quer, assim como a viagem para a Califórnia é adiada com a chegada-surpresa do tio Carlos, visivelmente abatido e sem expectativa de retornar para os Estados Unidos. Sim, o filme também trata da AIDS e de como ela trouxe consigo inúmeras tragédias familiares.

A aproximação e o amor de Estela pelo tio são bastante evidenciados e há um momento em especial que é bem emocionante: a cena do restaurante, quando os dois estão sós. Estela nada sabe do grave problema do tio e assim somos nós, espectadores, os convidados a sermos cúmplices daquele momento de nó na garganta, de preferir não trazer, afinal, mais tristeza ou preocupação para a cabeça daquela garota, cuja idade já é tão fácil de potencializar os sentimentos.

E que bom que o filme consegue potencializá-los, pois assim ganhamos com isso, com a paixão que aqueles personagens têm pela música, em especial pelo rock daquela época. Assim, há cenas em loja de discos, na casa cheia de discos (e livros e quadrinhos) de JM (Caio Horowicz), personagem que apresentaria a Estela livros e discos que considerava importantes. Fazia isso com muito carinho e talvez até sem saber o quanto estava ajudando na formação de uma pessoa. Ao mesmo tempo, acaba surgindo algo além da amizade entre os dois, o que já é algo aguardado pela estrutura da narrativa.

O que não quer dizer que não tenhamos uma sucessão de pequenas surpresas ao longo da jornada de autoconhecimento de Estela. Uma jornada que contará com corações partidos, um parente querido muito doente e a arte como forma não apenas de válvula de escape, mas também como identificação e razão de viver.

Embora Marina Person tenha dito que não se trata de um filme autobiográfico, sentimos como se ela estivesse ali, transportada numa espécie de túnel do tempo que, ora olhamos com certo distanciamento, ora experimentamos como se tivéssemos voltado aos 17 anos. Como já passamos por isso, sabemos o quanto é perturbador ter tanta energia, ter o mundo inteiro pela frente e não ter a menor ideia de como agir, seja na vida amorosa, seja na construção de seu futuro.

A vida é cheia de coisas lindas como a arte e o amor que convivem ao lado de tragédias e tristezas. Essa é a graça da coisa, na verdade, e por isso às vezes é necessário que um filme como CALIFÓRNIA nos ajude a lembrar disso. E ainda somos presenteados com uma seleção de canções de primeira escolhidas a dedo por Marina.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

SEIS FILMES BRASILEIROS MEDIANOS



Quem me conhece sabe o quanto eu sou entusiasta do cinema brasileiro. Mesmo os filmes que já chegam queimados pela crítica ou por boa parte dos amigos eu prefiro dá-los uma chance e acreditar que terão algo que me agradarão. E de fato têm. Eu tenho muito mais prazer em ver um filme mediano ou mesmo ruim produzido no Brasil do que um filme apenas razoavelmente bom produzido por nossos hermanos, por exemplo, por mais que isso possa parecer preconceito da minha parte. Por isso, vamos aos filmes medianos, mas que têm algo a oferecer.

O ÚLTIMO CINE DRIVE-IN

Vendido como o nosso CINEMA PARADISO, O ÚLTIMO CINE DRIVE-IN (2015), de Iberê Carvalho, é uma sucessão de tentativas. Não sabe nem mesmo aproveitar um gigante como Othon Bastos no elenco. No mais, não deixa de ser simpático, se não esperarmos muito. Na trama, jovem de nome Marlonbrando (Breno Nina) retorna a Brasília para acompanhar a mãe que está com câncer. Acaba visitando o pai (Bastos), que ainda mantém um caquético e abandonado cine drive-in (o último do Brasil). A ideia de Marlonbrando é de reformar o lugar e trazer a mãe para reviver os bons momentos do passado. Pena que o filme não seja suficientemente emotivo, embora a gente perceba que ele intenciona ser.

OBRA

Caso de filme mais interessante do que realmente bom, OBRA (2014), de Gregorio Graziosi, se destaca pela bela fotografia em preto e branco e pela interpretação sempre bem-vinda de Irandhir Santos. Ele interpreta um arquiteto que está prestes a ter o seu primeiro filho. Ele fica incomodado ao encontrar uma ossada na obra que está prestes a iniciar em São Paulo. Quer saber de quem são aqueles ossos, procura saber do pai, e é perturbado por um mestre de obras. Cada vez mais a tensão que ele sente na nuca aumenta e o filme segue rumos confusos e arrastados. Esse andamento acaba prejudicando um pouco, mas o filme tem o seu encanto.

ENTRANDO NUMA ROUBADA

André Moraes é um músico que estreia na direção de longas-metragens com ENTRANDO NUMA ROUBADA (2015), que até que começa bem, mas para seguir a cartilha dos filmes com câmera na mão estilo found footage é preciso pelo menos esconder a picaretagem. No caso deste suspense estrelado por Deborah Secco e Júlio Andrade, entre outros, ficamos sem entender quem está filmando o quê. Passa a impressão de que eles esquecem esse detalhe e adotam um narrador onisciente. Na trama, jovem ator ganha prêmio e chama antigo grupo para participar de um filme envolvendo assaltos a postos de gasolina. A diferença é que os assaltos e as perseguições são de verdade, ainda que boa parte do elenco não saiba disso.

OPERAÇÕES ESPECIAIS

Como atualmente temos poucos filmes policiais decentes no Brasil, até que OPERAÇÕES ESPECIAIS (2015), de Tomás Portella, é um exemplar bem-vindo. O filme aborda os primeiros dias de uma moça recém-aprovada em concurso da polícia civil (Cléo Pires) e que já tem que trabalhar em ação em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, logo após os conflitos no Complexo do Alemão, em 2010. Lá chegando, ela tem que enfrentar o medo da morte no dia a dia, o preconceito dos colegas com uma mulher como policial e também a questão da corrupção na instituição. É bastante coisa, mas até que Portella se sai bem e o resultado é pelo menos agradável e divertido de acompanhar, com algumas cenas de ação empolgantes.

DEPOIS DE TUDO

Alternando entre a década de 1980 e os dias atuais, DEPOIS DE TUDO (2015), de João Araújo, aborda a amizade desfeita entre Ney e Marcos (Marcelo Cerrado e Otávio Müller, nas versões maduras). Eles eram melhores amigos no passado, quando Marcos namorava Bebel (Maria Casadevall), mas certo dia um acidente os separa. Entre esse vácuo temporal, ficamos sabendo os destinos futuros dos personagens, enquanto a montagem alterna o passado e vamos descobrindo aos poucos o que realmente aconteceu. Mesmo quem não gosta do filme, mas gosta da Legião Urbana, vale ver a defesa apaixonada da sensacional “Soldados”, e principalmente ficar até os créditos finais e poder ouvir, no cinema, a canção integralmente.

A FLORESTA QUE SE MOVE

No intervalo aproximado de um mês dois filmes de Vinícius Coimbra chegaram aos cinemas. O novo A FLORESTA QUE SE MOVE (2015) e outro que há anos estava com problemas de liberação, A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA (2011), um trabalho superior e que deixaremos para comentar outra hora. Quanto ao thriller baseado na peça Macbeth, de William Shakespeare, é uma obra cheia de problemas, mas é agradável de ver, mesmo assim. Sem falar que todo o aspecto sangrento da tragédia está presente nesta versão, estrelada por Gabriel Braga Nunes e Ana Paula Arósio. Ele é um alto executivo de um banco que recebe uma promoção no emprego, uma promoção que havia sido prevista por uma mulher misteriosa. Arósio é a esposa ambiciosa que acredita que é possível até mesmo matar para conseguir aquilo que tanto almeja. Como era de se esperar, as coisas não poderiam sair piores para ambos.

domingo, dezembro 06, 2015

O PRESENTE (The Gift)



Quando muitos já estão fechando suas listas de melhores do ano de 2015, ainda é possível encontrar surpresas inimagináveis entrando no circuito, como este O PRESENTE (2015), estreia na direção em longa-metragem do ator Joel Edgerton, que recentemente se destacou como o policial corrupto de ALIANÇA DO CRIME. Seu primeiro longa é um trabalho aparentemente muito simples no conteúdo, embora mais à frente vejamos se tratar de uma obra mais ambiciosa. Mas o importante é o cuidado com que Edgerton tece a história e conduz a tensão.

Na trama, Rebecca Hall e Jason Bateman são Robyn e Simon, um jovem casal de mudança para uma cidade nova que é cumprimentado por um estranho, Gordon (Edgerton), um sujeito que já foi colega de escola de Simon, que demora a reconhecê-lo neste encontro. Gordon, ou Gordo, como era conhecido na escola, descobre facilmente onde o casal mora e passa a dar-lhes presentes e a visitá-los, embora fique no ar sempre uma sensação de desconforto com sua presença.

A primeira metade de O PRESENTE lembra PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock, por apresentar um personagem estranho e que ameaça a paz do casal. Mas nem tudo é preto no branco, como veremos mais adiante, já que a Robyn sofreu recentemente algo parecido com um colapso nervoso, e Simon não é esse exemplo de homem íntegro e bondoso.

Na verdade, sem querer entregar muito da trama e já entregando um pouco, um dos grandes méritos de O PRESENTE é também lidar com um assunto que vem sendo discutido bastante atualmente, a questão do bullying, e no quanto isto é capaz de mexer com a cabeça de alguém. Isso faz com que o trabalho de Edgerton transcenda o tradicional filme de psicopata, trazendo tons de cinza para os personagens.

Por outro lado, esse detalhe não seria tão significante se O PRESENTE não nos deixasse tensos, assustados e nos segurando na cadeira em vários momentos, tal a beleza de construção atmosférica que faz do filme um dos melhores exemplares do gênero da atualidade. E o que é impressionante é que o medo é construído apenas por causa de um único homem.

A escolha do elenco também foi muito acertada: tanto Jason Bateman, que tem cara de sujeito de pouca confiança, quanto Rebecca Hall, como mulher bela, adorável e psicologicamente frágil, combinam perfeitamente nos papéis. Edgerton também dá conta do homem estranho, loser e traumatizado.

Poder ver O PRESENTE, com sua linda fotografia em scope, em uma sala de cinema bem decente, com áudio original e som de qualidade, para potencializar os momentos de medo, é uma experiência que nos passa uma sensação de gratidão enorme pelo seu realizador e por todos aqueles que o ajudaram e o influenciaram. Neste caso, nem é preciso fazer trocadilho besta com o título do filme, não é?

sábado, dezembro 05, 2015

CHATÔ – O REI DO BRASIL



E depois de 20 anos de espera, CHATÔ – O REI DO BRASIL (2015) finalmente entra em cartaz nos cinemas brasileiros. Foi uma trajetória que daria certamente um grande documentário de bastidores, equivalente a O APOCALIPSE DE UM CINEASTA, sobre as filmagens de APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola, que, aliás, foi um dos homens que chegaram a fazer parte da parceria com Guilherme Fontes na criação deste suposto épico sobre o maior magnata das comunicações do Brasil. Coppola caiu fora do projeto, mas seu nome e de sua produtora aparecem nos créditos, até por ter contribuído em parte.

CHATÔ é filme irmão de CARLOTA JOAQUINA – PRINCESA DO BRASIL (1995), de Carla Camurati, considerado o filme-marco do início da chamada retomada do cinema brasileiro. Ambos são filmes de época contados com um toque de humor típico até de algumas bandas de rock dos anos 1990, embora Carla tenha sido bem mais feliz em sua empreitada. Além do mais, ambos os filmes são estreias de atores na direção. Ambos, principalmente CHATÔ, ao adotarem o tom de farsa, procuram se desviar da dificuldade que é tratar o tema com seriedade e maior competência. No caso de CHATÔ, o aspecto fragmentário da narrativa também tenta disfarçar as deficiências da narrativa, que se esconde na edição picotada.

O filme é narrado como um delírio de Assis Chateaubriand (Marco Ricca), depois de ter sofrido um AVC e começar a lembrar de momentos de seu passado e até de situações que nunca existiram, como o tal julgamento a que ele é submetido, quando ele reencontra as várias mulheres que ele chegou a ter alguma relação (e vários filhos), além do falecido Presidente Getúlio Vargas (Paulo Betti) em um programa de televisão nos moldes do Chacrinha.

Inclusive, a vontade de emular esse ar anárquico do "Velho Guerreiro" faz lembrar TERRA EM TRANSE, de Glauber Rocha, o que para muitos pode ser um bom motivo para agradar ou ser motivo de elogios, mas que no fim das contas só serve para aumentar ainda mais o histerismo que domina todo o filme. Se o corte final fosse mesmo de mais de três horas de duração seria uma obra insuportável, mas do jeito que ficou dá pra assistir principalmente como curiosidade, como um filme que veio do túnel do tempo, com todo mundo envelhecido 20 anos, e até atores que já morreram, como José Lewgoy e Walmor Chagas, embora suas participações neste corte final tenham sido apenas como pontas.

Na época, Marco Ricca não era ainda o grande intérprete que iria se tornar, nem Leandra Leal, que na época só tinha cerca de 13 anos de idade, e já fazendo o papel de uma das esposas de Chatô, esse que é um dos personagens mais odiosos da história de nosso país, e que em nenhum momento Fontes parece dar-lhe trégua ou torná-lo agradável aos olhos do espectador, ainda que não haja dúvida em admitir sua inteligência e tino comercial, na construção de uma imprensa escrita mais atraente e vendável. Seu papel no rádio e na televisão também é destaque. Como a televisão na época era filmada ao vivo, ele chega a interromper uma cena de uma telenovela a fim de deixar recados a seus desafetos.

Embora o filme destaque bastante a relação de Chatô e Getúlio, há algo que parece ser mais forte do que isso e até do que os fatos, que nem são levados tão a sério por causa do tom adotado: trata-se da personagem Vivi, interpretada por uma Andrea Beltrão que parece não envelhecer nunca (comparada com a atriz nos dias de hoje). Vivi é uma mulher que parece saída dos sonhos do protagonista, o amor inalcansável, quase como a Conchita de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel.

Como se vê, há toda uma tentativa de Fontes de se aproximar de grandes cineastas: Welles, Glauber, Coppola, Buñuel, Fellini, mas todas as tentativas resultam em uma obra que só vale mesmo a conferida pelo aspecto de curiosidade, de uma obra que vê a luz do dia já velha e moribunda, como o protagonista, no início e no final. Aliás, o filme vale pelo final também, mais uma vez, graças à participação de Andrea Beltrão.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

SEIS CURTAS DA MOSTRA PERCURSOS



Fui convidado para ser mediador do primeiro debate da Mostra Percursos, que reúne vários curtas-metragens cearenses produzidos neste ano. Foi uma oportunidade de conhecer e entrar em contato com jovens realizadores que futuramente ouvirei falar, quando de seus futuros trabalhos. Foi também uma oportunidade de exercitar o meu enfrentamento ao medo de falar em público, que continua me amedrontando. Felizmente, acredito que não me saí ruim. Se bem que nem tive muita chance de falar mesmo. Foi tudo muito rápido por causa do atraso para a exibição da segunda leva de títulos. Falemos um pouquinho dos filmes.

TODOS OS SENTIDOS

Curioso que durante a apresentação do diretor Fabrício Alves sobre TODOS OS SENTIDOS (2015) ele comentou sobre a ênfase que ele teria dado aos cinco sentidos para assinalar os depoimentos de seus entrevistados, entre eles nomes como Fausto Nilo e Eugênio Leandro. Eu não percebi esta ênfase, por descuido meu. Pra mim, o filme trata mais da questão da composição e do modo como esses homens constroem sua poesia em forma de música. Ou como letrista de música, como é o caso de "Cavalo Ferro", com letra de Fausto Nilo e música de Fagner. Interessante quando dois dos entrevistados falam desse aspecto misterioso da inspiração, como se fosse algo que vem de uma fonte desconhecida. Um bom trabalho, cujas falas são todas relevantes e interessantes.

VERMELHO

Em tom de fábula, usando inicialmente a força da palavra, matéria-prima deste gênero nascido da literatura, VERMELHO (2015, foto), de Camilla Osório, utiliza uma velocidade de ação que se assemelha a de VINIL VERDE, de Kleber Mendonça Filho, que a diretora afirmou ser mesmo uma influência. O filme de Camilla recebeu também um belo tratamento em cores vivas, principalmente nos momentos em que aparece o palhaço. Como o filme retrata também a melancolia do desaparecimento deste ser, que aqui é visto como mágico, muito dessa cor vai embora, quando o hiato nos mostra a pequena Alice crescida e “aparentando ser humana”. O uso do acordeão ajuda a compor a atmosfera de magia que o filme requer. Filme bonito em seu tom misterioso.

CORTINA A PAR

A poesia entra em CORTINA A PAR (2015), de Anio Tales Carin, na voz solitária do rapaz que trabalha de vigia noturno de um teatro. A solidão e a magia daquele lugar são um convite para que o protagonista dê asas à sua imaginação, finja-se de ator e entre numa disputa consigo mesmo em um curioso solilóquio. O filme capta o tédio da rotina do personagem e também sua luta para fugir da mediocridade. Uma de suas falas mais repetidas é “talvez nossa missão seja nascer, reproduzir e morrer”. Algo muito pouco para o que uma vida é capaz.

VÍSCERA

Creio ser o mais bem-sucedido dos seis curtas exibidos nesta sessão. VÍSCERA (2015), de Mateüs Bandeira, é de uma simplicidade e de uma beleza admiráveis. Tanto o poder da palavra (em lindo poema de Cecília Meirelles) quanto a beleza das imagens em preto e branco de uma mulher flagrada em close-ups de diversas partes do corpo e chorando bastante, tudo isso contribui para que este curta seja um dos mais interessantes da safra recente. A gente demora a aceitar que foi um homem que dirigiu, mas a voz de uma mulher, o corpo de uma mulher e o poema de uma mulher fazem a diferença. Mas Bandeira teve a sensibilidade para ir em busca da alma feminina.

CARTA À AURORA

A poesia está presente em CARTA À AURORA (2015), de Rafael de Jesus, principalmente ao lermos as fichas com uma carta japonesa do que parece ser a perda de um grande amor. Enquanto isso, somos apresentados a imagens de voos ou da geografia do que parece ser o Japão. A música nipônica também aparece de maneira discreta. Curiosamente, o cineasta contou que o seu filme só seria entendido por quem já viu o anterior, o que causou risos durante o debate. Mesmo não entendendo tudo, difícil não perceber a beleza deste trabalho.

ENTRETEMPOS

As primeiras imagens de ENTRETEMPOS (2015), de Lorie, já saltam aos olhos. Há um interessante jogo de espelhos que corta ao meio a imagem e a repete do outro lado. Temos a história de um cientista que acredita que há uma Terra paralela e ele está prestes a entrar em contato com o seu outro eu desta Terra. Enquanto isso, também acompanhamos o outro eu, travestido, de frente para um espelho, e também ciente disso. Há um pouco de gordura a partir da metade da narrativa, mas nada que tire o mérito da inventividade desta ficção científica que lida com a necessidade de transformação e descoberta.

domingo, novembro 29, 2015

STRAIGHT OUTTA COMPTON – A HISTÓRIA DO N.W.A. (Straight Outta Compton)



Um dos grandes sucessos nos cinemas americanos este ano foi STRAIGHT OUTTA COMPTON – A HISTÓRIA DO N.W.A. (2015), cinebiografia do maior grupo de rap dos Estados Unidos, e que teve uma importância muito grande na luta pela liberdade de expressão e também pelo crescimento do poder aquisitivo de vários artistas negros do país, que passaram de jovens pobres da periferia de Los Angeles, para milionários em um intervalo de tempo até que bem pequeno.

Dos cinco nomes do N.W.A., os nomes mais famosos, até por depois trilharem carreira solo, foram Ice Cube, Dr. Dre e Eazy-E. E justamente por isso os três são mais iluminados na narrativa que mostra os primórdios da formação do grupo, quando Eazy-E se inspirou em gângsteres de verdade da região onde morava para construir letras sobre situações violentas, e muitas vezes assumindo o papel de bandidos no eu lírico das músicas. Com a ajuda dos demais e também o talento de Dr. Dre para construir a musicalidade do grupo, a história de glória, decadência, separação, retorno e algumas tragédias é contada de maneira acertada por F. Gary Gray, cineasta afro-amereicano que estava um pouco de molho nos últimos anos, mas que voltou a ser um nome quente em 2015.

STRAIGHT OUTTA COMPTON funciona como uma espécie de aula de história do gangsta rap e do hip hop californiano dos anos 1980 e 90, embora uma ou outra coisa possa não ser vista como verdadeira, já que se trata, no fim das contas de uma obra de ficção. Dizem, por exemplo, que Dr. Dre não era essa pessoa tão simpática e afetuosa como foi pintada no filme, que talvez tenha escondido os seus defeitos. Em compensação, Ice Cube é visto de maneira bem mais violenta, embora seja uma pessoa que aprendemos a gostar muito também. A turma que os interpreta é outro acerto do filme, sendo que um deles, O’Shea Jackson Jr., é filho de Ice Cube. A cara do pai.

Como o rap é um estilo musical que depende muito das letras – é talvez o maior exemplo do retorno da valorização das rimas no mundo contemporâneo – é fácil entender que esses artistas não tenham feito o mesmo sucesso no Brasil, já que nós temos os nossos próprios rappers cantando em português brasileiro, falando de realidades diferentes, embora possamos enxergar no trabalho de alguns deles traços em comum com o dos americanos. Ver o filme legendado e acompanhar o significado de algumas das letras é bem recompensador.

Gary Gray é um excelente narrador e o filme flui muito bem em suas quase duas horas e meia, que passam voando. E olha que muita coisa foi vista de maneira muito rápida e poderia ser melhor explorada. Mas o corte final foi muito feliz e não há muito do que reclamar do resultado final, como narrativa, principalmente para quem não conhece a fundo a história dos rappers. Há as tretas com os empresários, a dissolução do grupo, as festas, as drogas, a ligação com o tráfico, a violência, a censura, a luta de classes etc. Tudo isso narrado ao som de um batidão de primeira e letras cuspidas como balas de uma metralhadora.

sexta-feira, novembro 27, 2015

A VISITA (The Visit)



Quem aprecia o cinema de M. Night Shyamalan certamente torce por sua volta por cima, depois de ter aceitado participar de um projeto de encomenda como o massacrado DEPOIS DA TERRA (2013). O ÚLTIMO MESTRE DO AR (2010) também foi bastante criticado, mas trata-se de um belíssimo filme, um colírio para os olhos. É só aceitá-lo como é: uma bela fantasia infanto-juvenil estrelada por uma criança, com influências da cultura oriental e uma agradável atmosfera zen.

Lembrando desses dois filmes, até podemos entender que o novo A VISITA (2015) não é apenas o retorno de Shyamalan ao gênero que o consagrou: é também o final de uma espécie de trilogia de filmes com o ponto de vista de crianças e que tratam, em sua construção narrativa, da questão do apego e desapego e da necessidade impositiva de crescer diante das adversidades e de relacionamentos já muito cedo. Portanto, é interessante ver que os trabalhos do diretor são coerentes, por mais que algumas pessoas só enxerguem desvios. Coisa, portanto, de um verdadeiro autor.

A VISITA tem dividido opiniões e é até fácil entender o porquê. Shyamalan utiliza o já manjado recurso do found footage para contar essa história de dois irmãos que são enviados pela mãe para passar uns dias na casa dos avós que eles não conheciam. Aos poucos, eles vão percebendo um comportamento muito estranho no casal de idosos. Acontece que, apesar de haver um ou dois momentos que remetem à franquia ATIVIDADE PARANORMAL, o cineasta vai por um caminho estranho e diferente, evitando sustos gratuitos e usando seu tradicional cuidado com os enquadramentos, dentro do que se pode usar em um filme que utiliza muita câmera na mão.

Quem lembra dos requintados trabalhos de construção visual que o diretor fez em filmes como SEXTO SENTIDO (1999), A VILA (2004) e A DAMA NA ÁGUA (2006), para citar os mais plasticamente caprichados, percebe que ele filma como um pintor, além de usar o cinema de gênero para tratar de assuntos recorrentes, suas obsessões pessoais. Não é muito diferente em A VISITA, com o problema que esse seu perfeccionismo visual atrapalha um pouco o clima de horror.

No entanto, sendo A VISITA uma obra híbrida, algumas vezes não sabemos se estamos vendo uma comédia ou um filme que se leva a sério. Noutras vezes, há uma busca em tratar dos problemas pessoais dos personagens jovens com uma seriedade dramática que soa deslocada da narrativa, por mais que isso contribua, até positivamente, para a estranheza pretendida. O que dizer da beleza de uma das cenas finais, envolvendo as crianças e a mãe? Nesse momento, A VISITA alcança uma beleza catártica de arrepiar, isso depois das sequências que encerram a questão deles com seus velhinhos sinistros, que nem deve ser contada aqui, sob o risco de estragar as surpresas para quem ainda não viu o filme.

E que bom sair do cinema com um sorriso nos lábios, depois da divertida cena final, de uma simpatia impressionante. É Shyamalan voltando ao terror, em uma produção de baixo orçamento, e se reafirmando como grande autor que é. Só esperamos que esse seja apenas um ensaio para o que há de vir no futuro. Os fãs agradecem.

quinta-feira, novembro 26, 2015

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS



Na melhor tradição do chamado "filme de professor", que já nos deu exemplares comoventes como SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, O QUE TRAZ BOAS NOVAS, O SUBSTITUTO, MR. HOLLAND - ADORÁVEL PROFESSOR, entre outros, entra em cartaz nos próximos dias um exemplar brasileiro que dignifica o subgênero: TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS (2015), que conta a história real da formação da Orquestra Sinfônica Heliópolis, bem-sucedido trabalho de jovens da periferia de São Paulo que contou com a ajuda de um músico exigente.

Dirigido por Sérgio Machado (CIDADE BAIXA, 2005), o filme enfatiza o drama de Laerte (Lázaro Ramos), um jovem e dedicado violinista baiano que está em na capital paulista com fins mais ambiciosos, como entrar para a Osesp - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Logo no começo do filme, vemos o seu estado de completo nervosismo e travamento na hora de se apresentar em uma audição.

Vencido pelo medo e frustrado por também não estar conseguindo dinheiro para se manter adequadamente e ainda ajudar a família na Bahia, Laerte aceita trabalhar como professor de uma pequena orquestra bem desafinada de uma escola da periferia. Demora um pouco para ele perceber as dificuldades e os dramas daqueles jovens, bem como habituar-se ao encontro nada agradável com os traficantes do local, mas aos poucos aquela missão passa a se tornar tão nobre para ele do que o seu sonho de entrar na Osesp.

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS carrega um bocado no melodrama, e isso pode ser visto tanto como um defeito quanto como uma qualidade. Depende de quem o vê. Como a intenção do filme é de natureza mais popular, acaba sendo necessário que ele dialogue com um público maior e se afaste mais de hermetismos. Não que CIDADE BAIXA seja hermético, se formos comparar com outro trabalho de Machado, mas certamente se trata de uma obra mais sofisticada em sua dramaturgia e direção. Por outro lado, há um registro quase documental da briga de duas alunas no primeiro dia de aula com Laerte. Quem é professor de escola pública certamente vai se sentir tristemente familiarizado com aquela cena.

O filme protagonizado por Lázaro Ramos bebe na fonte da cartilha tradicional do melodrama americano de histórias de superação e relacionamento de amizade e respeito entre professor e aluno, mas de maneira bem eficiente. A música, especialmente a erudita, de Bach e Vivaldi, ajuda bastante a tornar a experiência de ver o filme em algo tocante. Vale destacar também o trabalho de Lázaro Ramos, ainda que apenas correto, mas principalmente de alguns jovens atores que compõem a orquestra da escola, seja o rapaz que tem uma sensibilidade especial para a música, seja o garoto-problema que alcança a superação depois de uma tragédia. E é nele que o filme mais ganha em emoção.

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS teve sua primeira exibição no Festival de Locarno, na Suíça, e teve uma exibição bem especial e calorosa no Festival do Rio. Agora é a vez de encarar o nosso circuito. Como se trata de um filme do bem, torcemos pelo seu sucesso.

terça-feira, novembro 24, 2015

A IMPERATRIZ GALANTE / A IMPERATRIZ VERMELHA (The Scarlett Empress)



Dentre os filmes dirigidos por Josef von Sternberg protagonizados por Marlene Dietrich, o que eu mais tinha altas expectativas era este A IMPERATRIZ GALANTE (1934), já que ele foi citado por Martin Scorsese em seu livro Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano. E embora eu tenha me decepcionado, trata-se, no mínimo, de uma obra bem especial.

Já no início dá para entender o porquê de Scorsese ter gostado tanto do filme: há uma cena de nudez e violência no primeiro ato, ainda que seja visto em um cenário nebuloso, como uma visão dos infernos pela pequena protagonista. Mas o cineasta americano destaca o estilismo barroco, o mundo onírico, voluptuoso, carinhosamente construído nos estúdios da Paramount. E cita outra sequência, ainda que também seja uma cena embebida em desejo sexual e atitude venenosa.

E de fato o filme é bastante carregado no barroquismo, tanto no que se refere à direção de arte espetacular do castelo da Rússia, onde se passa a maior parte da história, quanto no sentimento exacerbado dos personagens. No caso de Catarina, vivida por Marlene Dietrich, trata-se de uma personagem inocente que aprende as maquinações da política e do sexo para atingir o seu objetivo.

O problema, pra mim, é que desde o início eu não consegui comprar a interpretação de Dietrich como garotinha inocente. Como inocente, se fosse uma mulher crescida tudo bem, mas como uma garotinha, chega a ser incômodo de ver. E a atriz nem era velha: tinha 30 e poucos anos. Mas é que suas feições já são de mulher madura desde O ANJO AZUL. Por isso interpretar mulheres amargas e de passado doloroso lhe cai melhor.

Claro que admiro uma cena como a do banquete do casamento de Catarina com o rei louco, com imagens grotescas ajudando a embelezar o quadro em movimento e uma câmera que atua de maneira fantástica neste momento, em especial. No todo, porém, confesso que prefiro trabalhos mais simples, menos estilizados, mas muito mais efetivos na construção das emoções, como foi o caso do filme anterior de Sternberg, A VÊNUS LOURA (1932), até o momento o meu favorito da dupla.

A IMPERATRIZ GALANTE (ou A IMPERATRIZ VERMELHA, como passou a ser chamado quando lançado em DVD) conta a história de Catarina II, a Grande, desde a sua infância, quando era uma pequena princesa alemã, passando pela adolescência na corte russa, até a ascensão como rainha, depois de cornear e destronar o rei louco. Trata-se do penúltimo trabalho de Dietrich com Sternberg.

domingo, novembro 22, 2015

MISTRESS AMERICA



O novo filme de Noah Baumbach é mais um exemplar do quanto ele parece deixar nas mãos de Greta Gerwig o peso (ou seria a leveza?) de seu trabalho. Os dois fizeram juntos o roteiro de MISTRESS AMERICA (2015) com um fiapo de enredo que se constrói no que parece ser tudo improvisado, embora toda a parte em que a turma está na casa de Mamie-Claire (Heather Lind) pareça ser uma excelente adaptação de uma peça teatral maluca.

Em certo momento do filme, Tracy, a jovem de 18 anos interpretada por Lola Kirke, reclama ao telefone com a mãe, dizendo que estar em Nova York, lugar onde está iniciando os estudos na faculdade, é como estar em uma festa o tempo inteiro. Com a diferença que é uma festa em que você está o tempo todo se sentindo sozinho, deslocado. E é fácil compreender esse sentimento. Muitas pessoas, tímidas ou não, já passaram por isso.

A situação muda para Tracy quando ela entra em contato com uma moça que será a sua meia-irmã, ou seja, o pai dela irá se casar com sua mãe. O nome dela é Brooke (Greta Gerwig) e ela tem cerca de 30 anos. Acontece que Tracy ama Brooke, acha-a a mulher mais divertida que ela já conheceu e, dentro de sua curta vida até então, passou a a mais divertida das noites com ela em uma festa. Brooke sabe se divertir como ninguém, tem uma atitude prática (não parece ligar para faculdade ou coisa do tipo) e está planejando montar um restaurante com o namorado.

Tracy acaba aproveitando bastante dessa personalidade sem igual de Brooke para se inspirar e escrever um conto que seria enviado para um clube de leitura e ter a possibilidade de ser publicado em um livro com outros vários jovens escritores. A vida real, afinal, é tantas vezes objeto de inspiração para a construção de obras fantásticas, não é mesmo?

MISTRESS AMERICA tem um estilo despojado de narrar a sua história, importando-se mais em tecer as personalidades de suas protagonistas. Brooke e Tracy não chegam a ser opostas. Brooke contém traços de personalidade que Tracy gostaria de ter para si, mas ao mesmo tempo Tracy se sente bastante confiante no que ela é e no que é capaz de construir para sua vida, tendo 12 anos a menos que Brooke. Já Brooke esconde muito de suas inseguranças em uma personalidade aparentemente forte, mas as fragilidades começam a vir à tona e a amiga e quase irmã faz questão de estar ali para lhe dar apoio moral.

Se MISTRESS AMERICA é melhor ou não que FRANCES HA (2012), isso talvez não seja tão importante. São filmes com propostas diferentes – o anterior tem uma pegada europeia maior –, mas a verdade é que ambos se beneficiam bastante da presença de Greta Gerwig, tão encantadora que não chega a ser exatamente eclipsada por Lola Kirke, que também é linda e brilhante. Um achado. O fato é que ambas as personagens se tornam ainda mais adoráveis quando expõem os seus defeitos e suas fragilidades, como se nos convidassem para um abraço, embora vivendo em um mundo que parece frio demais para carinhos desse tipo.

P.S.: Como neste ano eu pude conhecer Nova York e subi aquela escada da iluminada Times Square, senti uma pontada de alegria e saudade ao ver Greta Gerwig descendo maravilhada os degraus daquele lugar tão singular.

sexta-feira, novembro 20, 2015

NINGUÉM AMA NINGUÉM... POR MAIS DE DOIS ANOS



Nelson Rodrigues é um dramaturgo e contista tão interessante que adaptá-lo para as telas (ou para os palcos) é quase sinônimo de sucesso certo. Então, por que diminuíram a quantidade de obras dele adaptadas para o cinema? A última havia sido a segunda versão de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA, de Moacyr Góes, que contém uma sucessão de equívocos que só mesmo um diretor como o Góes era capaz de perpetrar. Pelo menos trouxe à luz a beleza de Letícia Colin, ainda que bem verde. Além de Leandra Leal, claro. Mas é um trabalho que passa longe da antológica versão de Braz Chediak (1981).

NINGUÉM AMA NINGUÉM... POR MAIS DE DOIS ANOS (2015), de Clovis Mello, já é cheio de acertos, embora esteja longe de ser perfeito. A começar pelos belos e provocadores cartazes, que emulam o estilo dos desenhos da virada das décadas de 1950 e 60, que é justamente o tempo em que se passam as histórias presentes no longa.

Como se trata de uma adaptação de várias pequenas histórias numa tentativa de amarrá-las numa única narrativa, difícil não lembrar de A VIDA COMO ELA É..., a série de pequenos e deliciosos episódios produzidos por Daniel Filho e exibidos no Fantástico. Perceber que aqueles episódios são ainda muito mais ousados e picantes que o novo filme não deixa de ser um pouco desanimador, mas pelo menos é recompensador ir ao cinema para rir novamente desse universo rodrigueano, de mulheres safadas (no bom sentido) ou mandonas e de homens cornos ou cafajestes.

Nesse universo atrevido, algumas histórias se destacam e ficam mais vivas na memória, enquanto outras se resolvem de maneira tão rápida que caberiam num curta de dez minutos, como o caso da mulher que tem o desejo de transar com o melhor amigo do marido. Aliás, há duas situações desse tipo. Só que uma termina em tragédia, enquanto a outra é levada para o território do humor. Trata-se da história interpretada por Gabriela Duarte, que aparece aqui bem ousada e cheia de sex appeal.

Mas a melhor história é mesmo a estrelada por Marcelo Faria, que interpreta um sujeito pobre que casa com uma garota rica, mas que com o tempo passa a mandar demais na vida dele. Há dois momentos em especial que provocam boas gargalhadas, justamente os momentos em que o personagem chuta o balde. No meio disso tudo, há um caso com a bela empregada doméstica. Aliás, o filme tem uma generosidade em relação à sensualidade feminina e à beleza anatômica de seus corpos que é de deixar a gente feliz. Afinal, o cinema brasileiro anda muito bem comportado quando não faz muito tempo era o cinema mais sensual do mundo.

O que houve de lá pra cá? Perdemos a ginga? Ficamos mais hipócritas? Copiamos demais o modelo americano? Ou o sexo passou a ser aquele defeito que muitos diziam do nosso cinema? De todo modo, sopros de sensualidade e sem-vergonhice como esses, ainda que tímidos em comparação com os de nosso passado glorioso, são bem-vindos.

quinta-feira, novembro 19, 2015

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – O FINAL (The Hunger Games: Mockingjay – Part 2)



Antes de mais nada, preciso deixar um desabafo aqui: trata-se da ditadura dos filmes 3D em grandes produções. Os filmes exibidos nesse formato, por melhor que seja a sala, perdem muito da cor, do contraste, da beleza da fotografia em geral, que fica horrendamente escura. E paga-se mais para ver neste formato. Agora que chegamos a um momento em que o 3D deixou de ser uma novidade, ele passou a ser uma imposição da indústria.

No caso específico de JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – O FINAL (2015), o filme não será exibido neste formato na América do Norte, já que o público prefere que ele se mantenha do mesmo modo que foi exibido desde o começo, com o diferencial de ter também a opção de ver em salas IMAX. Enquanto isso, a Paris Filmes, além de não ter conseguido viabilizar cópias para as salas IMAX, infestou os cinemas do país de cópias 3D para vender antecipado e faturar mais com isso.

Em minha pequena aventura para ver o filme, escolhi uma sala que considero boa, o Cine Aldeota, uma das poucas que estavam oferecendo a opção de 2D. Comprei o ingresso mais cedo pensando que iria enfrentar filas monstruosas no dia da estreia, só para saber à noite que o ingresso que eu tinha comprado não valia, tinham cancelado a exibição em 2D para esse dia de pré-lançamento. Para não dar viagem perdida, aceitei – talvez erroneamente – ver na tal sala 3D de lá, só para ficar ainda mais raivoso: quanta escuridão, quantas imagens belas perdidas pela ganância do mercado. Sem falar na dor de cabeça, no incômodo dos óculos etc. Isso pode ter afetado um pouco (ou muito?) meu julgamento do filme, que considero, de longe, o pior da série, embora mesmo racionalmente pensando, eu veja muito mais problemas do que qualidades.

Pra começar, o vocabulário utilizado na trama parece tão estranho em alguns momentos que parece feito exclusivamente para os leitores do livro. E isso não deve acontecer. Uma adaptação tem que se bastar por si mesma, ser independente, por mais que tenha a intenção de agradar os leitores. No caso deste final da franquia, o fato de terem dividido em duas partes, assim como aconteceu com Harry Potter e Crepúsculo, só pode fazer bem para a adaptação se o roteiro e a direção ajudarem. Um respiro nas cenas e uma construção mais dramática dos diálogos é, geralmente, uma solução encontrada e que até funciona em alguns momentos de A ESPERANÇA – O FINAL. O problema se dá mesmo na linha geral, na base do enredo, que se mostra extremamente frágil. Os personagens mal delineados também não ajudam, embora alguns deles tenham se mostrado até interessantes nos filmes anteriores, ainda que em breves aparições.

O personagem Peeta (Josh Hutcherson), por exemplo, que é o rapaz que participou junto com Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) dos dois jogos vorazes e que com ela teve uma aproximação sentimental durante esse processo, desde o episódio anterior se mostrou um estorvo para a trama, não fazendo jus à personagem forte de Katniss. O possível romance dos dois – há um triângulo amoroso envolvendo Gale (Liam Hemsworth) – não é torcido ou comemorado pelo público. As mortes de personagens ao longo do filme também não são sentidas. Tudo acaba gerando indiferença. E isso é mortal para um trabalho desse tipo, que requer envolvimento da audiência.

Sim, Jennifer Lawrence é maravilhosa e há um elenco de apoio admirável, com nomes como Woody Harrelson, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Jeffrey Right, Stanley Tucci etc, mas destes, apenas Sutherland, no papel do Presidente Snow, inimigo número um de Katniss e de todo o grupo dos rebeldes por suas atrocidades, tem algum tratamento digno. Muito pela excelência do ator, mas também pelo fato de que há um respeito dele por sua jovem adversária. A cena do encontro final dos dois, inclusive, corrobora a simpatia que criamos pelo vilão, mas é também uma alternativa um tanto covarde do roteiro para as intenções vingativas da heroína.

Como dizem que o terceiro livro é o pior da trilogia, há que se dar um desconto para Francis Lawrence, que provavelmente ficou engessado, sem poder fazer milagre usando um roteiro ruim, que privilegia a tentativa de chegada do grupo dos rebeldes à Capital em estilo de estratégia militar, mas não sem deixar de parecer videogame de quinta categoria, com direito até a monstros como obstáculos a serem vencidos.

É lamentável, portanto, que uma série que começou com dois episódios tão bem amarrados tenha acabado assim dessa maneira, embora isso faça parte do jogo. Mas sabemos que os jogos, principalmente os mostrados neste filme, nunca têm final feliz. Mesmo quando a gente torce pelos protagonistas. No entanto, se pensarmos nos quatro filmes, podemos dizer que tivemos um empate. Ou até que saímos ganhando, se lembrarmos no quanto é recompensador, mesmo em filmes medianos, ver Jennifer Lawrence em ação, essa que é uma das jovens atrizes mais brilhantes e belas do novo milênio.

segunda-feira, novembro 16, 2015

COMO SOBREVIVER A UM ATAQUE ZUMBI (Scouts Guide to the Zombie Apocalypse)



Com a moda de filmes, séries, games, quadrinhos e até passeatas de zumbis, COMO SOBREVIVER A UM ATAQUE ZUMBI (2015) se apresenta como mais um exemplar, dessa vez cômico, à luz da criação de George Romero. Depois de TODO MUNDO QUASE MORTO, ZUMBILÂNDIA e MEU NAMORADO É UM ZUMBI, para citar as comédias com zumbis mais famosas, chega a vez deste, que é bem divertido.

Na trama, três garotos que se conheceram ainda crianças num grupo de escoteiros e que hoje não são muito levados a sério pelas meninas da sua idade se envolvem numa situação inusitada: a cidade deles está tomada por zumbis. Eles descobrem isso depois que dois deles decidem abandonar o terceiro no acampamento para ir a uma festa secreta do pessoal do terceiro ano. A sorte é que o que eles aprenderam como escoteiros pode fazer a diferença.

Pode até ser apenas uma diversão meramente escapista, mas COMO SOBREVIVER A ATAQUE ZUMBI cumpre bem a sua função e ainda oferece momentos bem memoráveis, com sua mistura de comédia de zumbi com comédia adolescente herdeira dos anos 1980, estilo PORKY'S. Afinal, o que os rapazes querem mesmo é perder a virgindade e passar a ser mais respeitados pelos mais velhos da escola.

Pelo menos dois deles, inclusive, já achavam que estava mais do que na hora de abandonarem essa vida. O empecilho era o terceiro da turma, o gordinho (sempre tem um gordinho em filmes de adolescentes dos anos 80, não é?), está prestes a receber uma medalha do líder e a dupla não quer estragar a alegria dele. Não naquele momento.

O filme mostra o planeta contaminado por um vírus que transforma pessoas em zumbis – a ideia de um vírus de laboratório faz lembrar o clássico A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS, que tem um senso de humor todo especial. E há aqui toda aquela coisa que estamos acostumados a ver no gênero que já serviu tanto para filmes dramáticos quanto para comédias mais escrachadas.

Portanto, encontrar uma novidade nesse filão é difícil, e por isso devemos reconhecer os méritos deste trabalho de Christopher Landon, de ATIVIDADE PARANORMAL – MARCADOS PARA O MAL (2014). Ele não chega a inventar a roda, mas constrói uma narrativa redondinha, com personagens carismáticos (o jovem Tye Sheridan ainda deve se tornar um grande astro) e sem medo de usar piadas escatológicas e gore para compor o seu quadro de horrores.

Mas o horror ganha contornos suaves com a presença de Sarah Dumont, moça bela e de voz rouca como a Jennifer Lawrence, que trabalha em uma boate de strip-tease e que representa um exemplo de mulher ao mesmo tempo amiga e capaz de despertar o desejo dos rapazes, que não são de ferro. A cena do beijo, apesar de curta, não deixa de ser bem gratificante de ver.

Mas o filme será mesmo lembrado por certas cenas envolvendo órgãos genitais, sexo oral, pessoas defecando, peitos enormes e coisas do tipo, coisas que casam muito bem com a ação e o sangue que pintam a tela de vermelho diversas vezes.

domingo, novembro 15, 2015

FOGO CONTRA FOGO (Heat)



Quando FOGO CONTRA FOGO (1995) estreou nos cinemas, Michael Mann ainda era um cineasta pouco vinculado ao primeiro escalão de Hollywood, ainda que fosse já cultuado por uma boa parcela de apreciadores de cinema ou por fãs da série MIAMI VICE (1984-1990). Com atores bem populares mesmo ele só tinha feito O ÚLTIMO DOS MOICANOS (1992), recebido com frieza por muitos, inclusive por fãs do diretor. Eu até hoje não vi, talvez por causa disso.

Mesmo FOGO CONTRA FOGO, quando eu vi no cinema, no saudoso Cine Diogo, não gostei muito. Talvez por causa de sua longa duração ou por não estar preparado para um tipo de andamento narrativo mais lento, embora frequentemente compensado com cenas de ação e tiroteio de tirar o fôlego. Por isso era preciso uma revisão, ainda que na tela pequena, desta obra tão louvada.

Em FOGO CONTRA FOGO Mann junta o ponto de vista do detetive de polícia, como já havíamos visto em CAÇADOR DE ASSASSINOS (1986), com o de um criminoso, como vimos em PROFISSÃO: LADRÃO (1981). A obsessão de Mann por filmar esta história era tão grande que ele já havia feito um telefilme antes, lançado no Brasil em VHS com o título de OS TIRAS DE LOS ANGELES (1989). Poder refazer de maneira mais ambiciosa e com Robert De Niro e Al Pacino nos papéis principais seria um sonho. Até porque seria a primeira vez que os dois astros contracenariam juntos – em O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II eles aparecem em tempos distintos da narrativa.

E se é para fazer uma obra especial, Mann fez tudo com muito esmero, dando espaço para que pudéssemos ser testemunhas das vidas particulares de cada um desses homens, tendo respeito por ambos, inclusive. O detetive de polícia Vincent Hanna (Al Pacino) é descrito como um homem cujo casamento está em frangalhos, devido ao seu envolvimento intenso e obsessivo com o trabalho, enquanto o ladrão profissional Neil McCauley (Robert De Niro) é um sujeito solitário e focado no que faz, mas começa a ver outro sentido na vida mesmo quando se apaixona por uma mulher (Amy Brenneman). As cenas dos dois são belas e tocantes.

Nos extras da edição especial em DVD, Amy conta que odiou o roteiro de FOGO CONTRA FOGO e falou que não estava interessada em fazer parte daquilo. Michael Mann conversou com ela em seguida e procurou saber os motivos – ela achava aquilo tudo muito sangrento e violento, algo do tipo. E foi justamente por esse posicionamento que Mann achou que ela seria a atriz ideal pra interpretar Eady. E ela acabou aceitando a proposta.

A paleta de cores, dando ênfase ao azul e ao cinza, ajuda a acentuar o ar de melancolia daquela história que se encaminhava para a tragédia entre dois homens opostos e complementares. E o grande diferencial dessa obra de Mann para outras que privilegiam o estilo, como DRIVE, de Nicolas Winding Refn, por exemplo, é que Mann sabe dosar o estilo, visível na fotografia e na direção de arte, com a profundidade da trama, presente no drama dos personagens. FOGO CONTRA FOGO é um exemplo perfeito dessa aliança.

A famosa cena do primeiro encontro dos dois protagonistas, em um café, é tensa e ao mesmo tempo comovente. Sabemos que o próximo encontro dos dois, que estão, naquele momento, em atitude de respeito com o outro, não será nada agradável. A cena foi filmada com várias câmeras, sendo as principais as que mostravam os closes de Pacino e De Niro, com uso do tradicional campo e contracampo, filmados simultaneamente.

Mesmo no DVD é possível ouvir o alto som dos tiros reverberando nas caixas de som nas sequências de tiroteio. Vale dizer que, para dar um ar de mais verdade às cenas, Michael Mann fez com que os atores treinassem com artilharia de verdade em outro lugar, antes de usar balas de festim nas locações, sempre aos domingos, em Los Angeles. Esse tipo de tratamento tão cuidadoso mostra por que o cinema de ação produzido em Hollywood ainda é difícil de ser superado por outra cinematografia.

Outros extras do DVD mostram a história real que inspirou OS TIRAS DE LOS ANGELES e FOGO CONTRA FOGO, a busca por um elenco enquanto as filmagens já estavam rolando, depoimentos de atores e atrizes importantes, de Mann e dos produtores, entre outras coisas que ajudam a potencializar o valor do filme.

sábado, novembro 14, 2015

ALIANÇA DO CRIME (Black Mass)



É até fácil encontrar alguns problemas em ALIANÇA DO CRIME (2015), mas muitos deles vêm das escolhas de Scott Cooper, seu realizador. Não vemos, por exemplo, o desenrolar de uma transação mafiosa no grupo do gângster James 'Whitey' Bulger, vivido com intensidade por Johnny Depp, nessa que talvez seja a sua melhor atuação em pelo menos 20 anos, depois de tantas vezes se repetindo ou atuando no piloto automático.

Trata-se do terceiro longa-metragem dirigido por Cooper, que antes tinha realizado o belo CORAÇÃO LOUCO (2009), que rendeu a Jeff Bridges um Oscar, e TUDO POR JUSTIÇA (2013), que também é focado nas interpretações (desta vez de Christian Bale e Casey Affleck). Nos três filmes podemos notar também uma tendência do cineasta em contar uma espécie de crônica americana, com histórias tristes ou trágicas.

No caso de ALIANÇA DO CRIME, o logo da Warner abrindo os créditos não parece em vão, já que foi esta produtora que se firmou como a que mais lidou com histórias de homens maus na década de 1930. Whitey Bulger é um sujeito que poderia muito bem ser um desses bandidos daquela época, mas calhou de nascer mais tarde e de aterrorizar sua cidade na década de 1980, com uma pequena ajuda dos amigos do FBI. Em especial de seu amigo de infância John Connolly (Joel Edgerton), um lobo em pele de cordeiro dentro da corporação.

O filme destaca bastante o relacionamento entre Bulger e Connolly e o quanto isso repercute na vida de muitos ao redor, e no crescimento do monstro Bulger, um psicopata que a princípio era tido como necessário para ajudar na prisão de mafiosos italianos. Acontece que enquanto ele ganhava apoio dos federais, a quantidade de mortes que muitas vezes ele mesmo fazia questão de executar com as próprias mãos só crescia.

Como o filme traça um espaçamento de vários anos na narrativa, a sensação de que estamos vendo uma obra bem fragmentada fica o tempo todo no ar. E nesse recorte há tempo para o estudo desse personagem que se revela um psicopata justamente por também demonstrar preocupação e carinho pelo filho pequeno, depois de ter chegado de um assassinato brutal, que para ele eram apenas negócios.

E tempo também para algumas cenas bem memoráveis, como uma envolvendo o personagem de Peter Saarsgard, que aparece bem magro, no papel de um viciado em cocaína, que acaba por cair numa armadilha de Bulger. Há pouco espaço para as personagens femininas (como as interpretadas por Dakota Johnson e Julianne Nicholson), mas há momentos de brilho das duas atrizes quando contracenam com Depp em duas cenas, pelo menos.

Como, desde o trailer, se cogita muito a indicação de Depp ao Oscar, vale dizer que ALIANÇA DO CRIME se destaca mais por ser um filme de ator do que um filme de diretor. E podemos dizer isso sem diminuir o trabalho de Cooper, mas valorizando a sua capacidade em tirar dos atores o seu melhor. Inclusive, a construção do personagem de Depp só não foi mais acurada pois nem ele nem o diretor conseguiram conversar com o hoje presidiário Bulger, o que não quer dizer que o resultado não tenha sido fantástico, numa transformação física e psicologicamente assustadora.

quarta-feira, novembro 11, 2015

18 CURTAS VISTOS NO 14º NOIA – FESTIVAL BRASILEIRO DE CINEMA UNIVERSITÁRIO



Na semana passada, tive o prazer de fazer parte do júri da crítica do 14º NOIA – Festival Brasileiro de Cinema Universário, que, mantendo a tradição de alguns anos, continua sendo exibido na Casa Amarela Eusélio Oliveira. O espaço precisaria de melhores reparos, mas conseguiu ser ideal para o evento, tanto pela localização, que é um convite para os universitários das imediações do Campus do Benfica, quanto pela capacidade - lotou em todos os dias da Mostra Competitiva. Vamos aos filmes.

QUIM:ERA

Fazer animação no Brasil não é fácil, mesmo que a duração seja de apenas três minutos, como QUIM:ERA (2015), de Taíla Soliman. O simpático filme acompanha uma adorável velhinha que se vê abalada quando recebe uma informação que mexe com sua cabeça. O filme brinca com efeitos visuais bem criativos e tem um senso de humor muito próprio. Difícil não se divertir. Prêmio de melhor direção de arte.

TIRAREI AS MEDIDAS DO TEU CAIXÃO

O segundo filme da mostra foi o cearense TIRAREI AS MEDIDAS DO TEU CAIXÃO (2015), de Diego Camelo, que é, praticamente, uma homenagem, realmente, ao nosso querido Zé do Caixão. Gosto particularmente da primeira parte do filme, a que mostra o personagem quando criança, descobrindo o maior ícone do horror brasileiro em uma fita VHS de À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA. Dá uma caída quando pula para a idade adulta do personagem, mas ainda assim merece uma espiada. Principalmente por quem é fã do Mojica.

MURO

O mais provocador documentário do festival, MURO (2014), de Eliane Scardovelli, nos apresenta a uma comunidade pobre que se mantém firme entre dois condomínios de luxo. O filme brinca com a hipocrisia dos ricos e a diretora teve a interessante ideia de colocar crianças da comunidade pedindo ao síndico para tomarem banho na piscina do condomínio. A cena chega a ser hilária de tão desconfortável que é. Há também imagens aéreas que se destacam. Um belo trabalho.

ENCANTÁRIA

Dos documentários exibidos no festival, ENCANTÁRIA (2015), de Fernando Brasileiro, talvez seja o que mais parece amador em sua realização. Há momentos em que mal dá para entender o que os personagens falam. Umas legendas seriam bem-vindas nesse caso. Mas há também algo que incomoda um pouco, que é o andamento um tanto arrastado, fazendo com que pareça ter mais de 20 minutos de duração. O filme acompanha a vida de uma comunidade indígena que mora próximo da região metropolitana de Fortaleza, suas crenças, seus valores e o modo como eles veem o mundo exterior.

TEMPO

Primeiro filme com temática homoafetiva do festival, TEMPO (2014), de Clara Bastos e Renan Ramiro, tem em seu favor a utilização de efeitos visuais de congelamento de imagem, que contribuem para a ideia de que o amor entre os dois rapazes é tanto que o tempo para, como numa música do Roberto. Pena que a ideia e algumas cenas boas são apenas pontuais dentro de um todo pouco inspirado.

BIQUINI PARAÍSO

Melhor filme do primeiro dia de festival, BIQUÍNI PARAÍSO (2015), de Samuel Brasileiro, faz parte da produtora Praia à Noite, a mesma que tem trazido alguns ótimos trabalhos de Leonardo Mouramateus. Samuel Brasileiro, aliás, foi parceiro na direção de Mouramateus em alguns filmes e aqui ele aparece em filme solo em uma história que se passa em uma cidade litorânea do Ceará, durante o Carnaval. Inclusive, nunca tinha visto o carnaval cearense retratado como ele realmente é em filme algum, o que torna BIQUÍNI PARAÍSO uma obra no mínimo interessante. Há uma cena que eu considero mágica, que é quando um casal está na praia (à noite) e sentimos aquela sensação que só grandes filmes são capazes de trazer: um misto de sonho e realidade para dentro da tela. Prêmios de direção e fotografia.

NAVY

Eis o caso de filme que é muito bom de ser visto, apesar de percebermos suas falhas de maneira gritante. Tanto que não sabemos se se trata de uma comédia involuntária ou uma comédia de fato. NAVY (2015), de Delano Soares, conta as aventuras de uma jovem que sai de um bar no Benfica e é assaltada. No meio do caminho, encontra dois sujeitos e, apesar de tudo, começa a curtir a noite até o amanhecer. Há problemas nas interpretações, mas é tudo tão divertido que certamente foi um prazer para o público poder vê-lo. Até para ver alguns pontos bem conhecidos de Fortaleza.

O SILÊNCIO NÃO ESTÁ MORTO, QUERIDA VÓ HELENA

Em alguns momentos de O SILÊNCIO NÃO ESTÁ MORTO, QUERIDA VÓ HELENA (2015), de William Costa, sentimos a impressão de estar vendo algum programa de tele-ensino, por causa do tipo de interpretação adotado. Ainda assim, a personagem da Vó Helena (Iná de Carvalho) rouba a cena e tem pelo menos um momento bem especial, que é a conversa com o garoto skatista. Já as cenas com a neta se destacam pelo ar de afetividade. Prêmios de melhor atriz (Iná de Carvalho) e trilha sonora.

FIO-TERRA

O melhor filme do festival, FIO-TERRA (2015, foto), de Ian Capillé, é de uma simplicidade impressionante se pensarmos no quanto nos envolvemos com a história de amor à distância entre um rapaz e uma moça. E no quanto o desenvolvimento da narrativa nos leva para um momento de arrebatamento, o que é sensacional para um curta de menos de 20 minutos. Capillé conta a história, basicamente, utilizando imagens de smartphones, o principal meio de comunicação do casal. Fiquei muito feliz ao saber que todos do júri também caíram de amores pelo filme. Prêmios de melhor filme (júri oficial), melhor filme (júri da crítica) e roteiro.

VERDE CHORUME

Trabalho experimental admirável, VERDE CHORUME (2015), de Roberta Bonoldi, mostra apenas em sons e imagens a trajetória do lixo em uma grande cidade e no quanto isso pode ser assustador, com um crescente aumento na quantidade de lixo no mundo. Destaque, além da montagem, para a trilha sonora diversificada, que combina muito bem com o ritmo das imagens. O filme teve a ingrata tarefa de ser exibido depois de FIO-TERRA. Certamente em outro dia e sendo exibido antes seria melhor recebido. Prêmio de montagem.

QUANDO VOCÊ CRESCER

Com certeza QUANDO VOCÊ CRESCER (2015), de Paulo Matheus, foi o filme que mais arrancou gargalhadas do público no festival. E não foi involuntariamente. Embora seja uma comédia apenas mediana, funciona que é uma beleza com a entrada em cena de um personagem que é uma espécie de consciência do protagonista, um garoto que não gosta de estudar e sofre com a pressão dos pais e dos professores. É pensando no que ele poderia ser quando crescer que o filme cresce e fica mais engraçado. Não à toa ganhou o prêmio de melhor filme pelo júri popular.

TABA

O primeiro filme do dia seguinte foi também uma comédia. TABA (2015), de Júlio Pereira, Matheus Beltrão e Nuno Aymar, é um sarro. Um pseudodocumentário que emula o estilo de cinedocs dos anos 1950 sobre os efeitos e as características dos usuários da maconha. Humor inteligente e visto por um público que certamente é íntimo da erva natural. Um dos melhores filmes do festival.

MURIEL

Mais um exemplar do cinema cearense de ficção, MURIEL (2015), de Vanessa Cavalcante, é também um exemplo do quanto nós, cearenses, somos bons na comédia. O filme conta a história de um rapaz tímido cujo maior sonho é encontrar uma namorada. A narrativa começa com um de seus encontros frustrados e apresenta o seu jeito desajeitado de lidar com os relacionamentos. Mas o melhor estaria por vir, quando ele resolve participar de um programa de namoro na tevê. Prêmios de melhor ator para Jamenes Prata e de melhor intérprete coadjuvante para Tatiane Albuquerque. 

MADREPÉROLA

Documentário elegante e ativista sobre a questão do preconceito contra mulheres gordas em uma sociedade em que prevalece a ditadura da magreza, MADREPÉROLA (2014), de Deise Hauenstein, traz depoimentos de meia dúzia de belas moças com um cuidado muito especial com a montagem, os enquadramentos e outros aspectos técnicos que fazem do filme uma obra nada vulgar. E que foi recebido com muitos aplausos e comentários animados da audiência. Prêmios de figurino e maquiagem.

NUNCA FOMOS EMBORA

O problema de NUNCA FOMOS EMBORA (2014), de Samuel Carvalho, é talvez não saber cortar os excessos. São 25 minutos de conversa e muita repetição entre dois amigos de escola. Um deles esteve em outro país e agora que volta para Fortaleza está apaixonado pela cidade. Há um destaque à Fortaleza noturna que ajuda a compor um clima interessante, especialmente nos silêncios. Talvez com um conjunto de falas melhor ele funcionasse lindamente.

VLADO

O filme mais ambicioso do festival é um drama de época que conta em 20 minutos parte da história do jornalista Vladimir Herzog, que foi preso, torturado e morto pela ditadura militar nos anos 1970. VLADO (2014), de Felipe Mucci, tem jeito de produção estrangeira, algumas interpretações pouco convincentes, mas é melhor do que muita coisa que se faz na televisão profissional hoje em dia. Prêmio de edição de som.

MIÚDO

Segundo filme de temática homoafetiva do festival, MIÚDO (2014), de Maurício Ferreira, também acaba deixando um pouco a desejar. Ainda assim, há boas cenas de conversas do casal que ajudam a torná-lo interessante. Há também o uso de imagens paradas e voice-over no início que contam pontos positivos. Pena que o final não seja dos mais felizes.

DE TERÇA PRA QUARTA

Encerrando o festival, DE TERÇA PRA QUARTA (2015), de Victor Costa Lopes, é um belo exemplar de um cinema que se confunde com um documentário em sua narrativa ficcional, tal o grau de naturalidade com que os atores desempenham suas funções. É outro filme que explora a geografia fortalezense e também lida com sentimentos dos personagens. Na história, um rapaz vai pegar ônibus e conhece outro rapaz que está colando cartazes de uma peça teatral. Acaba se juntando a ele e ao seu grupo numa noite excitante. Mereceria melhor atenção na premiação, mas creio que disse a que veio e foi bem elogiado por muitos.

terça-feira, novembro 10, 2015

GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE (A Girl Walks Home Alone at Night)



Em que outra circunstância poderíamos ver um filme de terror falado em persa e com atores iranianos? Daí a singularidade de GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE (2014), que além de tudo ainda é dirigido por uma mulher, Ana Lily Armipour, e é fotografado em belíssimo preto e branco. Só isso já é suficiente para gerar uma curiosidade para ver o tal filme. Mesmo que na verdade ele tenha sido produzido, com baixo orçamento, nos Estados Unidos.

Mas o que importa é o espírito estrangeiro e estranho que impregna esta obra tão agradável de ver e também tão irregular em seu andamento narrativo, que peca em não saber a hora de cortar algumas gorduras, mas não quanto ao desenvolvimento final, que é bastante satisfatório, dentro de uma história que é muito simples.

Isso porque GAROTA SOMBRIA é um filme de mais forma e menos conteúdo. Interessa aqui menos a história do que a atmosfera e a beleza das imagens. E nesse sentido, trata-se de uma obra cheia de acertos. A moça que interpreta a vampira que ronda pela pequena cidade de Bad City é, além de atraente, muito boa no papel.

Na trama simples, acompanhamos alguns personagens que vivem uma vida um tanto desolada naquela cidade que contém um imenso buraco onde as pessoas despejam cadáveres humanos. É de lá que um dos personagens pega um gato e leva para sua casa. Nesta casa, vive com ele o seu pai, viciado em droga e sofrendo com uma abstinência gerada pela tentativa do filho em livrá-lo do vício.

O maior traficante da cidade é o sujeito que representa o que há de mais malvado no filme. Tanto é que ele faz falta quando deixa de aparecer na trama. A vampira, apesar de fazer suas vítimas, tem uma moral toda própria, dando preferência àqueles que merecem ter seu sangue sugado por ela. E o traficante canalha é um deles. Por isso a cena do encontro dos dois é um dos pontos altos do filme.

Vale destacar também a beleza na construção da personagem da vampira, que usa, por debaixo de roupas civis simples, uma camiseta listrada e calças esportivas, um véu que encobre o corpo e a coloca na posição de uma mulçumana tradicional. Interessante como esses trajes tradicionais são colocados como o traje que ela usa para atacar as vítimas. Como se a diretora quisesse mostrar a religião como algo maligno, ainda que necessário, dentro de uma sociedade doente. E há espaço para o amor também nesse mundo ruim, como veremos ao longo da narrativa. Eis mais um ponto positivo para esse filme único, cuja beleza vai além do mero gostar ou não gostar, do bom ou do ruim.

domingo, novembro 08, 2015

TOP GIRL OU A DEFORMAÇÃO PROFISSIONAL (Top Girl oder La Déformation Professionnelle)



Não deixa de ser curioso como o sexo vem sendo mostrado nos cinemas atualmente. Deixando de ser elemento de satisfação e libertação dos anos 1960-80, os novos filmes estão cada vez mais problematizando o sexo, mostrando-o como algo pouco ou nada excitante, além de questionar de maneira moralizante ou de um ponto de vista quase doentio a tara de certos personagens. A comparação ou citação de CINQUENTA TONS DE CINZA não é em vão, nesse caso, já que ele pode ser incluído facilmente nessa classificação.

Em TOP GIRL OU A DEFORMAÇÃO PROFISSIONAL (2014), de Tatjana Turanskyj, somos apresentados a Helena (Julia Hummer), uma garota de programa de 29 anos que já fez relativo sucesso como atriz de televisão quando adolescente. Agora, para manter a própria vida e a da filha de 11 anos, ela recorre ao submundo do sexo pago.

Seu maior cliente é um homem que até tem vontade de manter uma relação mais próxima com ela, mas Helena prefere manter distância. Nesse caso, há algo em comum com outro filme abordando esse universo, BRUNA SURFISTINHA, de Marcus Baldini, que é um trabalho bem mais palatável que este filme de Tatjana Turanskyj, o segundo de uma prometida trilogia sobre a mulher e o trabalho e o único a chegar em circuito comercial no Brasil.

A primeira cena de TOP GIRL é até bastante animadora: a imagem de quatro mulheres nuas correndo pela floresta. A cena bucólica também pode ser uma promessa de algo mais sombrio, levando em consideração o tom e o andamento do filme, que se mostra amargo como a protagonista. As cenas de sexo são poucas e relativamente discretas. Uma delas, porém, foi capaz de expulsar da sala duas senhoras. A tal cena mostra a protagonista com uma cinta com dildo acoplado prestes a penetrar um de seus clientes fiéis.

No mais, há muita cena que é um verdadeiro banho de água fria para quem espera algo mais excitante do filme, como os momentos da protagonista se exercitando ou conversando com a mãe, as cenas envolvendo as aulas de piano com a mãe, a conversa com as colegas de trabalho ou com os clientes, em um registro pouco envolvente, ainda que deixe espaço para reflexão.

Principalmente a sequência final, que retoma à promessa da cena inicial, apenas para apresentar os homens como criaturas doentias e sádicas. Seja entre o sadismo ou o masoquismo, Helena está disposta a entrar no jogo, ainda que isso a frustre ou cause dor física. Mas nada é mais incômodo do que o vazio espiritual que fica explícito em seu olhar.

sexta-feira, novembro 06, 2015

007 CONTRA SPECTRE (Spectre)



Boa notícia para quem estava com saudade dos filmes de James Bond tradicionais: 007 CONTRA SPECTRE (2015) respeita e retorna ao velho estilo leve, aventuresco e cheio de clichês criados ao longo dos anos pela franquia. Mas é uma má notícia para quem considerava um grande acerto filmes tão sérios, dramáticos e trágicos como 007 – CASSINO ROYALE (2006) e 007 – OPERAÇÃO SKYFALL (2012), que traziam algo de novo para uma série que parecia destinada à repetição.

Assim, não deixa de ser frustrante este quarto filme com Daniel Craig como James Bond, um Bond mais humano, mais sofrido, mas também mais forte e intenso nas cenas de ação. Nesse aspecto, pelo menos, o novo filme mantém o diferencial e Craig continua muito bem, mas o roteiro é cheio de problemas. Ele ter que dizer que o nome dele é “Bond, James Bond” é uma repetição que, na boca do ator, fica parecendo uma incômoda obrigação contratual, já que a ideia dos novos tempos seria fugir do aspecto satírico da franquia.

No novo filme, ele continua exageradamente irresistível às mulheres. Dentro de poucos segundos, Monica Bellucci já está entregando o ouro pra ele para, logo em seguida, desaparecer da história. E só demora um pouquinho para que Léa Seydoux já esteja dizendo que o ama, sem que sintamos qualquer aprofundamento no envolvimento afetivo dos dois, que se desenrola muito rápido dentro de uma situação de busca de um mistério envolvendo o pai de sua personagem e uma organização terrorista.

Talvez com medo de descaracterizar o personagem antes de passar adiante, os produtores sentiram a necessidade de uma volta às origens, de trazer de volta a Spectre, que tanto sucesso fez nos filmes estrelados por Sean Connery e Roger Moore, assim como o retorno de um certo vilão clássico. Com a diferença que aqui o vilão aparece bem menos caricato, por mais que Christoph Waltz seja quase que um ator de um papel só. Se a gente pensar no mal que ele fez ao herói, deveríamos ter raiva do vilão, mas não é isso que ocorre. O que sentimos é mesmo indiferença.

A produção do novo filme começou bem com um prólogo na Cidade do México, com uma boa ambientação no Dia dos Mortos e uma situação divertida envolvendo um avião. Até daria para traçar um paralelo com o prólogo de MISSÃO: IMPOSSÍVEL – NAÇÃO SECRETA. E eis que entra em cena os tão esperados créditos de abertura, que trazem algo de brega dessa vez. Sem falar que a canção-tema, “Writing’s on the wall”, de Sam Smith, é bem pouco expressiva.

Um dos aspectos positivos de SPECTRE é esse se deixar perder do personagem, ao investigar algo relacionado ao seu passado e sem se preocupar muito em querer ser verossímil, apesar de tratar tudo com muita seriedade. Quando há um senso de humor no filme, ele é muito sutil, até pela essência desse novo Bond traumatizado pela morte de pessoas queridas.

Algumas cenas de ação se destacam, como uma perseguição de automóveis e principalmente a luta do herói com o brutamontes vivido por Dave Bautista. Somando com a cena do prólogo, podemos contar essas três como as mais empolgantes, por assim dizer. A cena envolvendo uma bomba-relógio seria mais associada a uma atmosfera de sonho, devido ao lugar e à situação. Se bem que fico agora me perguntando se isso se deve ao fato de eu ter visto o filme com um pouco de sono. É possível.

quarta-feira, novembro 04, 2015

NARCOS – PRIMEIRA TEMPORADA (Narcos – Season One)



Por culpa de MR. ROBOT e sua excelência acabei interrompendo a apreciação de NARCOS (2015), a série sobre Pablo Escobar produzida pelo Netflix. Talvez tenha sido ruim ter visto assim a conta-gotas, mas uma coisa deu pra notar: é que da metade para o final a série vai melhorando consideravelmente. É como se os roteiristas percebessem que o ideal seria concentrar mais a história na luta dos colombianos contra Escobar do que das intervenções americanas. Isso, inclusive, dá um ar de muito mais legitimidade ao povo colombiano, que é visto com muito carinho, apesar de tanto sangue derramado e tanta corrupção.

Os próprios créditos de abertura, com a bela canção “Tuyo”, de Rodrigo Amarante, ao mesmo tempo em que mostra imagens de arquivo de Escobar e do conturbado cenário político mundial, mostra também as belezas naturais, como uma foto de uma linda concorrente a um concurso de beleza. Aliás, aproveitando a deixa do nome de Amarante no parágrafo, vale dizer o quanto o Brasil meteu o dedo nesta produção, e no quanto isso talvez não tenha agradado a alguns espectadores de países falantes do espanhol. Além de José Padilha, que é produtor executivo e dirige os dois primeiros episódios, a fotografia é de Lula Carvalho.

Mas o que incomodou mesmo muito gente foi a escolha de um ator brasileiro que nem sabia falar espanhol e que não conseguiu falar como os nativos, conforme dizem. Não sei o quanto isso incomoda do lado de lá da fronteira, mas do lado de cá e acredito também do lado dos americanos, o que vemos é uma performance monstruosa de Wagner Moura como Pablo Escobar. É, provavelmente, o papel da vida dele. E olha que ele é o cara que já foi o Capitão Nascimento.

Mas é que a gente esquece disso. O ator baiano está transformado fisicamente com os pesos a mais para viver o chefe do tráfico. Além do mais, à medida que vamos nos acostumando com aquele homem ali na tela, vamos acompanhando também a sua transformação cada vez maior em um ser capaz de exercitar qualquer ato, por pior que seja, para atingir os seus objetivos. Ora age de maneira extremamente inteligente, como quando tem a ideia de construir uma prisão-castelo de luxo só para ele e seus sicários, ora quando mata os seus inimigos sem pensar nas consequências.

O ator americano que interpreta o agente de polícia Steve Murphy, responsável por se infiltrar na polícia colombiana, Boyd Holbrook, não é suficientemente bom. Chega a ficar eclipsado por seu parceiro, o ótimo Javier Peña (Pedro Pascal), embora ganhe mais força perto do final, quando se deixa contaminar pela crueldade que ali impera e que mexe mesmo com quem tem a melhor das intenções. Ele é o narrador da série, que no começo lembra bastante OS BONS COMPANHEIROS, de Martin Scorsese, inclusive pela utilização da tela congelada aliada à violência.

Felizmente, a voz narrativa não funciona como uma muleta. Ao contrário, ajuda a tornar a série até mais agradável de acompanhar, além de servir também de ponte para o espectador americano, que não vai ter que ouvir só a língua espanhola o tempo inteiro, embora essa seja a língua predominante da série – outro acerto, aliás, para uma produção dos Estados Unidos.

Alguns personagens/atores são admiráveis, como é o caso de Maurice Compte, que interpreta o policial Horacio Carillo, que odeia Escobar com todas as suas forças, assim como Raúl Méndez, que interpreta o corajoso Presidente César Gaviria. É mais uma série de homens do que de mulheres, mesmo com os desempenhos de Paulina García, como a mãe de Escobar, e de Stephanie Sigman, como a repórter de televisão e amante do criminoso.

Por ser uma série do Netflix, que já ganhou a fama de não economizar na nudez e na violência gráfica, nada disso fica de fora dos episódios, o que contribui para o necessário ar de crueza da narrativa, ainda que uma crueza com beleza plástica. Mas nada disso adiantaria se não ficássemos envolvidos com os acontecimentos, especialmente quando a trama vai se encaminhando para o final, que na verdade nem é o final, já que a história continuará numa segunda temporada.

Mas a sensação de que estamos vendo um episódio melhor a cada vez que nos aproximamos do décimo é muito boa. Isso é muito importante para que nos interessemos pela próxima temporada. Nem consigo acreditar que ainda há muito a se contar de barbaridades e histórias incríveis cometidas por Escobar, que bota qualquer gângster de filme americano saído da ficção no bolso.

segunda-feira, novembro 02, 2015

UM AMOR A CADA ESQUINA (She's Funny That Way)



De um dos nomes mais importantes da chamada Nova Hollywood, tendo iniciado com filmes como NA MIRA DA MORTE (1968) e A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (1971), Peter Bogdanovich foi se transformando num homem de televisão nos últimos anos. Depois de UM SONHO, DOIS AMORES (1993), o cineasta só chegou a fazer um filme para cinema, O MIADO DO GATO (2001), e desde então, só vemos produções para a televisão, de telefilmes a direção de episódios de séries, o que não quer dizer que isso seja uma decadência, levando em consideração a atual qualidade da TV americana, mas não deixa de passar uma impressão de afastamento pouco voluntário.

UM AMOR A CADA ESQUINA (2014) é o seu retorno aos cinemas. Pode até não ser um retorno glorioso, mas é muito difícil ver o filme e não dar umas boas gargalhadas ou ficar sorrindo com as situações, que parecem mesmo tiradas de comédias antigas, feitas nas décadas de 1930, por exemplo. O começo do filme ao som de jazz dessa época contribui com essa impressão. Embora se passe nos dias de hoje, o sabor de seu novo trabalho é de filme velho, embora muita gente o compare com o tipo de humor que Woody Allen faz, embora seja uma comparação válida.

A personagem central da trama é uma moça chamada Isabella, interpretada por Imogen Poots, que tem um tipo físico que parece agradar Bogdanovich, semelhante ao de Samantha Mathis, de UM SONHO DOIS AMORES, e Kirsten Dunst em O MIADO DO GATO, justamente os dois últimos filmes para cinema do diretor. Isabella é uma moça de família humilde que sonha em ser atriz de cinema, mas que, enquanto isso não é possível, vai ganhando a vida como garota de programa. Um dia ela topa com um diretor de teatro da Broadway (Owen Wilson), que lhe paga uma boa quantia em dinheiro para que ela largue aquela vida.

Como o jogo de coincidências é o combustível desta comédia, Isabella vai parar justamente numa audição para uma peça do tal diretor, para interpretar justamente uma prostituta. Ela encanta a todos da equipe. Até a esposa do diretor (Kathryn Hahn) a vê como a atriz perfeita para o papel. Aquela situação também seria ideal para que o ator principal da peça, vivido por Rhys Ifans, pudesse dar em cima da esposa do diretor.

Nessa ciranda de amores e confusões, muita coisa acontece, e há uma participação bem interessante de Jennifer Aniston como uma psicóloga meio maluca. Engraçado como a atriz tem se especializado nesse tipo de papel (lembra, por exemplo, a dentista de QUERO MATAR MEU CHEFE). Aniston não deixa de ser boa no que faz, mas o papel passa uma sensação de que já vimos isso antes. No mais, é um filme tão despretensioso que poderia ser facilmente esquecido se não tivesse a assinatura de Bogdanovich e um bom elenco.

domingo, novembro 01, 2015

AMY



Lembro que na virada dos anos 1990 para o novo século eu costumava dizer que jamais queria deixar de ficar antenado com a música que estava rolando pelo mundo. Os anos 90 foram deliciosos e intensos pra mim, mas eu não sabia que tinha algo chamado de envelhecimento ou falta de sintonia com uma nova geração que acabaria por fazer com que eu ficasse ou com pouco interesse por certos artistas novos ou começasse a questionar se a culpa era da falta de qualidade da nova música. Assim, no meio desse processo e em meio também a uma série de coisas chatas que ocorreram na década passada, eu comecei a me desinteressar por artistas daquela década, com exceção de alguns poucos, mas brasileiros.

Nesse ínterim, estava aflorando uma artista que hoje, para muitos, é considerada a maior do século atual, até o momento: a inglesa Amy Winehouse. Mesmo tendo lançado tão poucos discos. Sua trajetória até lembra um pouco a de Kurt Cobain, que surgiu como um meteoro, ou como uma bomba-relógio, com data iminente para explodir, devido, tanto à dificuldade de lidar com a fama quanto ao consumo desmedido de álcool e drogas aliado à saúde física e mental frágil. As más companhias também contribuíram bastante pra isso, principalmente o namorado de Amy, um sujeito que é pintado no documentário como um dos piores vilões já vistos.

AMY (2015), documentário dirigido pelo mesmo Asif Kapadia que dirigiu SENNA (2010), aborda de maneira ao mesmo tempo dura e delicada a trajetória dessa cantora sensacional, que se tornou mundialmente famosa quando estourou o álbum Back to Black (2006), o seu segundo, nascido da dor de ter sido abandonada pelo namorado Blake Fielder-Civil. Seria o equivalente ao Jagged-Little Pill, da Alanis Morissette, que também nasceu da dor do abandono, mas a cantora canadense soube canalizar isso tudo e ainda veio com um álbum seguinte em completo restabelecimento emocional e com uma bonita espiritualidade.

Infelizmente Amy preferiu se afundar nas drogas. Ou não teve forças para resistir por causa do vício. E as apresentações dela em shows começaram a ficar cada vez mais aquém do que o que o mundo conheceu. Assim, AMY traz tanto a evolução da cantora e compositora a partir de imagens de arquivo da adolescência quanto sua decadência física até a morte, em 2011. Algumas cenas são tão dolorosas de ver que a gente fica até pensando se é ético da parte do diretor mostrar aquilo, o quanto uma pessoa é capaz de ir ao fundo do poço, como quando ela é flagrada na rua com o namorado, depois de terem usado drogas e de terem se cortado com uma garrafa. Ou nas vezes em que ela estava completamente fora de si para dar uma entrevista. Até que ponto esse tipo de coisa é aceitável?

O documentário pinta como vilões (ou quase isso) pelo menos duas pessoas: o namorado/marido e o pai de Amy, que é visto como um sujeito que não apenas não soube tratar da filha como deveria, como também a explorou. Tanto que há uma ação jurídica dos familiares quanto aos responsáveis pelo filme.

Uma cena é particularmente digna de nota e causa arrepios, mesmo em quem não acompanhou de perto tudo isso na época em que estava se desenrolando, que é o nascimento no estúdio de "Back to black", a faixa-título do segundo álbum, uma das melhores canções de sentimento de abandono pela pessoa amada já feitas. E não é apenas pelo significado, pela letra, pela situação, mas como isso é traduzido em música e pela voz de Amy. Dessa mesma lavra veio também "Love is a losing game", outro lindo exemplar do amor como objeto cortante.