segunda-feira, setembro 14, 2015

MR. ROBOT – TEMPORADA 1 (Mr. Robot – Season 1)



Dizer que MR. ROBOT (2015) é a melhor série do verão americano é pouco: trata-se da melhor estreia na televisão em 2015, superando, até mesmo, DEMOLIDOR. Isso porque seus dez episódios têm uma unidade impressionante, além de trazerem aquele elemento transgressor que torna o que seria uma obra boa em algo especial. Se há algo que poderia depor contra a série de Sam Esmail, diretor do pouco conhecido COMET (2014), é lembrar demais Clube da Luta (o livro de Chuck Palahniuk e, consequentemente, a adaptação de David Fincher).

Mas Esmail não trata em nenhum momento de esconder sua principal referência. Ao contrário, há várias sequências que não só remetem como também prestam homenagem à controversa obra. A semelhança inicial está no afã de tentar destruir o sistema. A própria organização "terrorista" que o hacker Elliot Alderson (Rami Malek) trabalha nas horas vagas se chama fsociety. Aliás, curioso como a palavra “fuck” é dita, mas é também censurada no áudio e quando escrita também, embora ela esteja lá como forma de rebeldia ao sistema.

Elliot, nosso herói, é avesso a pessoas e viciado em morfina. É isso que diminui a sua tristeza de viver. Em um dos diálogos mais bonitos e ao mesmo tempo mais tristes da série, ele conversa com sua vizinha, Shayla (Frankie Shaw), ao som de "Pictures of You" (The Cure), sobre ele não gostar de ir a shows por causa das pessoas. Por isso prefere ouvir música sozinho, com seus fones de ouvido. Essa conversa só não é um respiro para a trama porque as circunstâncias que a envolvem são bem melancólicas.

O que MR. ROBOT passa principalmente para o espectador é um sentimento de paranoia (já que a série é narrada pelo ponto de vista de Elliot, embora haja alguns momentos que se volte para outros personagens) e de quase perda da sanidade. Exato: por pouco, eu quase piro em determinado momento, não exatamente pelas revelações em si, mas pelo modo como elas são postas. Em determinado momento, por exemplo, Darlene (Carly Chaikin), membro ativo da fsociety, ao contar algo a Elliot, me deixou tão perturbado, que sensação parecida eu só senti em INCÊNDIOS, de Dennis Villeneuve.

Ao contrário de algumas séries que vão conquistando o espectador aos poucos, é logo no piloto que MR. ROBOT pega a audiência de cheio. Tanto que há quem diga que eles não conseguem superar o piloto nos episódios seguintes, algo que eu discordo, até pela forma criativa com que são construídas as narrativas para cada episódio, fazendo-nos lembrar de outra série excepcional: BREAKING BAD.

Inclusive, o hype em torno de MR. ROBOT tem colocado a série em comparação com a cultuada criação de Vince Gilligan, embora ainda seja muito cedo para isso. Só temos uma temporada por hora e sabemos o quanto tantas séries caem de qualidade a partir do segundo ano. Por isso, é bom torcer para que o que vem por aí em 2016 mantenha o alto nível do show.

Com relação à participação bem especial de Christian Slater, trata-se, de fato, do melhor papel dele em anos, mas talvez seja um exagero elogiar tanto assim a sua performance. Ainda assim, há um episódio especial cuja atuação dele se destaca bastante. Até por darem mais espaço a ele. Embora Slater seja o cara que se autodenomina "Mr. Robot" e que convida Elliot para ingressar na fsociety, sua participação é geralmente pequena ao longo da trama principal e das subtramas.

Falando em boas atuações, vale destacar Martin Wallström, que interpreta o executivo psicopata da Evil Corp, em cenas antológicas. Também merecem ser citadas, e com muito carinho, as três moças que rondam a vida de Elliot, as já mencionadas Shayla e Darlene, e também a sua colega de trabalho no seu emprego diurno, Angela (Portia Doubleday), que conhece Elliot desde criança e tem por ele uma atenção especial, embora não saiba de seus segredos.

No mais, outro grande trunfo da série está em não enrolar o espectador, ao entregar aquilo que nós queremos ver acrescido de um bônus. Em um momento em que o capitalismo é visto por muitos como chegando ao fim e que a sociedade como um todo está passando por uma crise violenta, ser simpatizante de grupos como o Anonymous e assemelhados não chega a ser nenhuma novidade. É preciso dar lugar ao novo. E torçamos para que o novo seja algo tão bom quanto MR. ROBOT.

domingo, setembro 13, 2015

LOVE



Sexo sempre foi um chamariz para o público desde os primórdios do cinema. Passou por objeto proibido diversas vezes, mas o curioso é o quanto a nossa sociedade atual se tornou hipócrita no que se refere a exibições de filmes com conteúdo erótico (ou pornográfico, vá lá), mesmo com uma classificação 18 anos. LOVE (2015) é um filme que tem sentido muita dificuldade em penetrar no circuito exibidor. Foi rejeitado pelo Cinemark e no grupo Cinépolis passa em sessões pra lá de tarde. Enquadram-no como um pornô, quando não é exatamente o caso.

Na sessão em que estava, logo que começou, uma moça começou a rir nervosamente. A primeira cena mostra, graficamente, um homem e uma mulher masturbando um ao outro. Demora um pouco, assim como demoraram os risos da moça. Só pararam quando o sujeito, enfim, ejaculou. Ao menos, nesse sentido, Gaspar Noé, mostra logo na primeira cena que o seu filme apresentará esse tipo de material ao longo de sua metragem. Quem quiser ir embora, fique à vontade.

Mas, infelizamente, as cenas de sexo raramente são excitantes. Aliás, até mesmo na pornografia hardcore encontrar algo verdadeiramente excitante tem sido uma aventura muitas vezes frustrante. No caso de LOVE, dá até saudade de NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier, que era mais divertido e excitante à sua maneira. Mas principalmente lembramos do infelizmente pouco visto NA CARNE E NA ALMA, de Alberto Salvá, esse sim um filme que consegue aquilo que o alter-ego de Gaspar Noé não consegue, que é saber encontrar no sexo o sentimento de amor, que sabemos que existe nos relacionamentos, e passar isso através de seu trabalho.

Quando Murphy, o protagonista masculino, fala que sua intenção como cineasta é chegar a esse ponto, sabemos a essa altura que aquilo era também a intenção de Noé. E como o filme trata também de frustração e da perda do amor, entendemos que o filme, direta ou indiretamente, acaba dialogando também com as frustrações do próprio cineasta.

De positivo, há o paralelo com IRREVERSÍVEL (2002), tanto no uso da montagem que brinca com o tempo cronológico (acrescente-se o uso da tela preta um pouco mais demorada que o usual nos cortes), quanto na obsessão pelo vermelho na fotografia, e na questão da busca por aquele momento mágico que é o início de tudo, de quando o tempo ainda não tratou de destruir. Aliás, dessa vez ele não culpa o tempo, mas as ações dos indivíduos. Somos o produto de nossas ações, de nossas escolhas. Talvez dizer isso seja simplista demais, mas pelo menos é um pouco melhor que a antiga frase.

LOVE conta a história de Murphy, um estudante de cinema que tem um casamento monótono com Omi e que recebe uma ligação da mãe de sua ex-namorada, a artista plástica Electra. Ela está desaparecida e a mãe teme que ela possa ter cometido suicídio. Preocupado com Electra e sem conseguir encontrá-la, Murphy passa a pensar no tempo em que estavam juntos, em alguns de seus melhores e também piores momentos. E do quanto aquele amor era muito mais verdadeiro do que o que ele nutre por Omi. Curiosamente os nomes dos personagens já trazem algo de pessimista ou de trágico: Murphy e Electra.

Curioso como o filme também acaba trazendo, meio que sem querer, um discurso até moralista, já que as crises de ciúme e as brigas surgem logo depois que eles encaram alguma novidade no terreno sexual, seja ir para um clube de orgia, seja fazendo sexo com outra pessoa às escondidas, seja entrando num threesome com um travesti, seja no uso de drogas. É como se eles estivessem fazendo sempre algo errado, cruzando uma fronteira que não deveriam, embora, na memória de Murphy tudo seja filtrado como parte de um ótimo momento que ele não soube aproveitar.

Uma pena que isso não seja explorado da maneira que causaria algum sentimento de solidariedade no espectador. Ou de proximidade. As cenas de sexo também não ajudam, embora sejam, em alguns momentos, graficamente belas, quando Noé enquadra certas posições de maneira criativa, dentro da janela scope. Mas isso é pouco para um filme em que o sexo é despido de tesão. Talvez a exceção seja o momento do ménage Murphy-Electra-Omi. Mas só nas preliminares. O sexo entre eles fica parecendo um monstro de seis pernas e seis braços que não tem função erótica ou de exalar beleza. A bela música, ao menos, ajuda a tornar a cena elegante. Nessa e em outra sequência, a boa música surge como um elemento quase salvador. Mas, no final, a sensação que surge é a de que LOVE é só uma jogada de marketing que não deu tão certo, e que pode significar uma nova retração na produção de filmes eróticos para o cinema.

sábado, setembro 12, 2015

TRÊS FILMES FRACOS



O corpo dói e confesso estar um tanto ranzinza. Mas não vamos deixar o blog parado por causa disso. Vamos usar esse mal estar para falar de filmes ruins. Despejar a raiva neles pode fazer bem. Ou não: pode gerar bad karma. Tanto faz. Vamos rapidinho que o tempo urge. Todos os filmes foram lançados em 2015.

TOMORROWLAND - UM LUGAR ONDE NADA É IMPOSSÍVEL (Tomorrowland)

A Disney costuma pisar na bola quando pretende fazer uma diversão infantil ou infanto-juvenil em live action. Não foge a regra com TOMORROWLAND – UM LUGAR ONDE NADA É IMPOSSÍVEL, o primeiro filme a sujar a imagem de Brad Bird, que veio de um desenho ótimo como O GIGANTE DE FERRO (1999), passou para desenhos milionários para a Pixar (OS INCRÍVEIS, 2004; RATATOUILLE, 2007), e depois para um excelente episódio da franquia de Tom Cruise, MISSÃO: IMPOSSÍVEL – PROTOCOLO FANTASMA (2011). Mas como todo mundo tem direito de errar, a gente dá um perdão para ele. TOMORROWLAND foi muito ambicioso e quebrou a cara feio nas bilheterias, que não conseguiram superar o seu orçamento de quase 200 milhões de dólares. Na história, Britt Robertson é uma jovem rebelde que encontra um objeto que a leva a descobrir um universo alternativo. Fazendo as devidas investigações, acaba encontrando um sujeito cujo passado está estreitamente ligado a esse lugar, o cientista recluso vivido por George Clooney. Caçados por andróides, eles entram em várias aventuras, confusões, mas chega um momento que o filme vai ficando muito chato e nada mais importa a não ser ir embora e esquecer aquilo.

PIXELS

Outra superprodução, PIXELS, de Chris Columbus, é uma comédia de ficção científica que tenta homenagear os videogames clássicos da década de 1980, inventando uma história em que extraterrestres atacam a Terra com “encarnações” de personagens de games clássicos. O filme tem a intenção de agradar crianças e adultos (até os com 40 ou 50 anos que tiveram acesso a esse tipo de game que se acessava fora de casa) e também os fãs de Adam Sandler, que no Brasil até que são muitos, embora nos EUA esse número esteja diminuindo cada vez mais. Sandler é um sujeito normal que acaba se tornando, junto a outros caras, em heróis nacionais, só por terem sido campeões nos tais games quando crianças. A bela Michelle Monaghan aparece como interesse amoroso de Sandler e ajuda a deixar o filme mais simpático. No mais, é uma grande bobagem que até que funciona bem no começo, mas depois é preciso ter muita paciência pra aguentar. Sem falar no sentimento de constrangimento que alguns momentos reservam.

LINDA DE MORRER

Falando em sentimento de constrangimento, o que dizer desse LINDA DE MORRER? Há tempos não via um exemplar tão ruim de nossa cinematografia. E olha que até que temos bastante, embora eu seja bastante generoso com os nossos filmes. E Glória Pires costuma ser uma boa atriz, mas é preciso que haja um bom roteiro e uma boa direção. Senão, não adianta nada. Na trama, ela é uma mulher que supostamente descobriu a cura para a celulite. Por causa disso, ela se torna uma mulher extremamente famosa. O que ela não sabe é que os tais comprimidos trazem efeitos colaterais, como irritabilidade e até mesmo a morte. E é isso que acontece com ela: morre e seu espírito fica preso na Terra, tentando buscar um meio de avisar a todos sobre os riscos do remédio. Topa com um homem que se descobre um médium, que a ajuda a fazer as pazes com a filha e a desmascarar os culpados. As referências a GHOST – DO OUTRO LADO DA VIDA são óbvias, mas nem é isso que incomoda. É que o filme não tem a menor graça e suas piadas só servem mesmo para atestar a incapacidade da diretora Cris D’Amato em fazer algo decente para o cinema.

sexta-feira, setembro 11, 2015

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E.)



Interessante quando alguns filmes se tornam melhores e maiores à medida que pensamos neles. É o caso de O AGENTE DA U.N.C.L.E. (2015), de Guy Ritchie, um cineasta que não é exatamente um exemplo de maestria, mas que aqui consegue obter um resultado tão elegante e bonito que não tem como não gostar, mesmo considerando que se trata de uma obra irregular em sua condução narrativa. Ou talvez o problema seja mesmo entrar em sintonia com aquele estilo peculiar de aventura de espionagem bem humorada.

Por isso acredito que o filme de Ritchie se beneficiaria de uma revisão, agora que já entendemos o flerte com o cinema de ação europeu, em contraste com o cinema de ação americano, que parece mais redondo e bem resolvido, mas também mais convencional em sua abordagem. E digo isso como um elogio ao charmoso O AGENTE DA U.N.C.L.E., adaptação de uma série de televisão que durou quatro temporadas nos anos 1960 e que teve alguns episódios duplos exibidos nos cinemas como longas-metragens.

O filme apresenta a união de dois agentes inimigos, o agente americano Solo, da CIA, vivido por Henry Cavill (de O HOMEM DE AÇO), e o agente soviético Ilya, da KGB, vivido por Armie Hammer (de O CAVALEIRO SOLITÁRIO). Depois de um interessante e divertido jogo de gato e rato inicial, os dois descobrem que precisam se aliar contra uma poderosa organização criminal de origens nazistas, que tem o interesse de obter armas nucleares.

No meio disso tudo há a presença crucial da alemã Gaby, vivida pela sueca Alicia Vikander (de O AMANTE DA RAINHA). Impressionante como Alicia consegue se sobressair em graça, simpatia, presença de cena, beleza e elegância naquelas roupas estilosas da primeira metade dos 60s. E isso a gente fala de um ponto de vista dos homens (ou de mulheres que gostam de mulheres), já que é perfeitamente natural boa parte do público se encantar por Cavill e Hammer, que estão, além de bonitos, muito à vontade nos papéis (Hammer, inclusive, convence muito bem como um russo).

A trama é um tanto confusa, mas isso é normal em se tratando de filmes de espionagem, ainda mais quando são filmes que não tentam se levar tão a sério no que se refere ao enredo – mais uma característica bem europeia, aliás. Nisso, o que temos é um conjunto de cenas memoráveis e saborosas, somadas a uma trilha sonora igualmente de dar água na boca.

O que dizer da cena em que a câmera se afasta do quarto de Gaby ao som de “Jimmy renda-se”, do Tom Zé? E que maravilha que é ouvir essa música dentro daquele contexto e em uma sala IMAX! E aí lembramos também da cena da perseguição em um lago enquanto o personagem de Cavill entra um caminhão, ao som de "Che vuole questa musica stasera", de Peppino Gagliardi. A cena é impressionante e a junção com esta bela canção é especialmente feliz. Outro momento feliz inclui “Cry to me”, de Solomon Burke, quando Gaby tenta seduzir, no quarto de hotel, o agente da KGB que está lá para fingir que é seu noivo.

Ah, e o filme ainda traz o querido e sumido Hugh Grant no papel de um homem que age nos bastidores, mas que é fundamental para a história. Enfim, O AGENTE DA U.N.C.L.E. acabou crescendo tanto em minha memória afetiva nesses últimos dias que, eu que tinha birra com o Guy Ritchie, vou passar a cogitar ver outros trabalhos dele que não vi, e talvez até perdoe um dia aquele seu SHERLOCK HOLMES (2009), cuja sequência de 2011 eu nem tive coragem de ver, na verdade. Pra que redenção melhor para um artista do que ganhar a simpatia dos desafetos?

quarta-feira, setembro 09, 2015

QUE HORAS ELA VOLTA?



E Anna Muylaert, mais do que nunca, se mostra ainda melhor em lidar com os tons de drama e comédia, que marcaram também seus outros dois trabalhos mais famosos, DURVAL DISCOS (2002) e É PROIBIDO FUMAR (2009). A diretora tem um talento especial para contrabalançar esses dois pólos, que em se tratando especificamente de QUE HORAS ELA VOLTA? (2015) é bastante delicado. Ainda assim, o filme sofre com parte da audiência rindo em determinados momentos que talvez não sejam tão adequados, ou talvez essa adequação varie mesmo de pessoa para pessoa.

O que vemos aqui é um trabalho sensível sobre o ato de ser mãe, o estar presente e o estar ausente. E, nisso, o título do filme é bastante feliz, aparecendo em dois momentos distintos e ao mesmo tempo muito parecidos da narrativa. O fato de Regina Casé estar mais associada à comédia do que ao drama contribui positivamente para o filme, e para o modo como nos afeiçoamos à sua personagem. Quem cresceu, por exemplo, vendo-a em um programa como TV PIRATA, ou em exibições na televisão de OS SETE GATINHOS, de Neville D'Almeida, já criou em torno da atriz uma persona associada ao escracho.

Em QUE HORAS ELA VOLTA? ela é Val, uma empregada doméstica que dorme no trabalho. Ela veio do Nordeste e lá deixou uma filha, que não vê há dez anos. Compensando a dor de não estar com a filha, ela cuida com muito carinho do filho da patroa, Fabinho (Michel Joelsas). Ele nutre muito mais amor por Val do que pela própria mãe, Bárbara (Karine Teles), que está quase sempre ausente, por causa do trabalho.

A rotina de Val muda quando ela recebe o telefonema da filha Jéssica (Camila Márdia), que vai prestar vestibular em São Paulo. Sem ter onde alocá-la, Val acha por bem trazê-la para a casa dos patrões e cria-se, desde a sua chegada, um sentimento de desconforto, que é automaticamente sentido pelo espectador também.

Está ali uma jovem que não se conforma com o jeito extremamente subserviente da mãe e que, deliberadamente, age de maneira a questionar a cultura herdeira do tempo da escravidão, que deixa a empregada em um quartinho propositalmente minúsculo e desconfortável, próximo de vassouras e outros apetrechos de limpeza. Quando Jéssica propõe dormir no luxuoso quarto de hóspedes, isso acaba gerando uma espécie de discórdia entre o marido, Carlos (Lourenço Mutarelli), e a mulher. Ele tenta tratá-la da melhor maneira possível (depois entendemos o porquê), enquanto a mulher fica incomodada com aquela moça tão segura de si, mesmo não tendo dinheiro, nem lugar pra ficar.

Desse modo, QUE HORAS ELA VOLTA? funciona muito bem em suas duas funções: a de tratar da questão da maternidade e também dos embates de classes da sociedade contemporânea, que já havia sido vista em outros trabalhos de destaque, O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho, e CASA GRANDE, de Fellipe Barbosa. Os três filmes dialogam entre si e trazem uma discussão muito saudável sobre um novo estado das coisas.

O filme de Mulayert tem se saído muito bem em exibições no exterior, principalmente na França, depois de conquistar vários prêmios internacionais, como os de melhor atriz para a dupla Regina Casé e Camila Márdia, no Festival de Sundance. Tem-se falado muito, também, de o trabalho ser indicado ao Oscar 2016.

As premiações e o sucesso de crítica têm atraído também um público mais específico, o que é uma pena, pois o filme tem tudo para agradar tanto as classes mais favorecidas quanto as menos favorecidas da sociedade brasileira, dado o seu discurso de esquerda que toca na ferida de uma forma muito sensível.

Como se trata de um filme especial, QUE HORAS ELA VOLTA? é o caso de obra cujo conjunto de cenas parece perfeito, embora seja fácil enumerar algumas sequências antológicas, como o momento da chegada de Jéssica na casa, as cenas que mostram o carinho de Val com Fabinho, a cena do almoço de Jéssica com o patrão da mãe, e, principalmente, a cena de Val na piscina, que é de deixar os olhos marejados. É um filme que nos deixa com um sentimento de alegria agridoce muito bem-vindo.

segunda-feira, setembro 07, 2015

RICKI AND THE FLASH – DE VOLTA PARA CASA (Ricki and the Flash)



Tenho um especial carinho pelos filmes de Jonathan Demme. Acho que por ter sido apresentado a dois deles no início da minha cinefilia: TOTALMENTE SELVAGEM (1986) na televisão e DE CASO COM A MÁFIA (1988) no cinema. Depois é que fui saber que ele é um cineasta muito ligado à música, tendo feito documentários e vídeos para artistas como Talking Heads, Bruce Springsteen, Neil Young e New Order (seu próximo projeto é um documentário sobre Justin Timberlake).

Desde O CASAMENTO DE RACHEL (2008) que Demme não realizava um longa de ficção para o cinema. É muito tempo para um cineasta oscarizado. Mas talvez isso tenha ocorrido porque ele veio dos filmes B e depois passou para trabalhos mais intimistas ou menores. RICKI AND THE FLASH – DE VOLTA PARA CASA (2015), apesar de ser protagonizado por Meryl Streep, é um filme menor. A gente percebe isso. Assim como também percebe o diálogo deste trabalho com o anterior (e bem melhor).

Assim como em O CASAMENTO DE RACHEL, o novo filme lida com problemas familiares e situações desconfortáveis. Uma pena que a escalação de Meryl Streep para viver a roqueira que abandonou a família pelo amor à música não tenha sido tão acertada. Provavelmente acreditaram que ela podia interpretar qualquer personagem e convencer – Kevin Kline, por exemplo, está numa chave muito mais discreta e confortável, combinando bem com o papel. Há uma cena com eles dois e a filha depressiva que é destaque: quando eles estão calmos depois de terem fumado maconha.

Na trama, Meryl Streep é Linda/Ricki, uma cantora de rock decadente de uma banda de veteranos que toca em um bar em uma pequena cidade da Califórnia. Em toda sua vida só gravou um disco e hoje vive de alegrar velhos e jovens com clássicos do rock ou hits contemporâneos, como canções famosas de Lady Gaga e Pink. Sua rotina é interrompida quando recebe uma chamada do ex-marido, informando que sua filha acabou de ser abandonada pelo marido e que está passando por uma depressão. Mesmo desconfortável, ela aparece na casa e tenta, à sua maneira, ajudar na recuperação da filha.

Ao mesmo tempo, percebe o quanto também esteve ausente da vida de seus outros dois filhos: o que está prestes a casar e o que é gay. A questão do desconforto nos relacionamentos também aparece nas apresentações da banda, já que ela não se sente à vontade para assumir publicamente o namoro com o guitarrista. É também durante uma dessas apresentações que ela faz um discurso que pode ser visto como feminista, falando do quanto para o homem estar ausente em uma família é normal, enquanto que para a mulher é algo imperdoável.

Apesar disso, RICKI AND THE FLASH não chega a ser suficientemente desconfortável, nem toca na ferida a fundo. Ao contrário, é um filme feel good, sem muita vergonha de sê-lo. De todo modo, mesmo com todos os defeitos, é um trabalho de personalidade e com a cara de seu diretor.

domingo, setembro 06, 2015

SETE CURTAS E MÉDIAS-METRAGENS



Como o tempo urge e a quantidade de títulos para escrever para o blog anda se multiplicando feito preás, de vez em quando é preciso escrever sobre alguns filmes de maneira mais apressada. Se não fizer isso corro o risco de não escrever nada sobre eles. Resolvi selecionar, então, um grupo de curtas e médias-metragens vistos em tempos diferentes e de épocas diferentes para que possa tecer algumas rápidas considerações. Vamos lá.

BLACK MIRROR - WHITE CHRISTMAS

A série/antologia britânica BLACK MIRROR já é considerada uma das melhores da televisão de todos os tempos. Cada episódio de cerca de uma hora traz ideias tão fascinantes quanto perturbadoras, unindo ficção científica com horror. WHITE CHRISTMAS (2014, foto) foi um episódio especial que a emissora exibiu, como um presente para os fãs, no final do ano passado, mas eles bem que poderiam tê-lo incluído na terceira e próxima temporada vindora (esperamos que realmente venha). Há uma interessante ideia inspirada nos bloqueios que as pessoas fazem de seus desafetos no Facebook: no caso, uma mulher tem um equipamento que bloqueia o marido da sua vida e o que ele vê dela é só um borrão e o que ouve são só ruídos ininteligíveis. O homem fica desesperado. Há outra história igualmente perturbadora envolvendo uma mulher que acorda e descobre que é um clone preso nas mãos de um sujeito sádico (Jon Hamm). A coisa é muito pior do que eu conseguiria descrever, na verdade. É o tipo de episódio para se mostrar aos amigos e rever com frequência. Mantém o alto nível da série e resolvi incluí-lo no post pois o vejo como um média-metragem independente, embora no IMDB ele apareça numa suposta terceira temporada.

O BANQUETE (Feast)

Exibido antes da animação OPERAÇÃO BIG HERO, O BANQUETE (2014), de Patrick Osborne, até ganhou o Oscar de melhor curta em animação este ano, mas a Disney já fez curtas melhores. De todo modo, é um bonito filminho que mostra um cãozinho que adora comer e acaba se esbaldando com isso, por causa da alimentação desregrada do seu dono. Porém, certo dia o seu dono passa a namorar uma moça vegetariana e se assume também como vegetariano, dando ao pobre cão também só vegetais. O animal fica bastante aborrecido. O bonito do filme está no modo como é mostrado o quanto o cão ama o seu dono. Melhor não falar muito para não estragar a surpresa de quem ainda não viu. Acho que tem pra ver no youtube.

SUPEROUTRO

Tive o prazer de ver o média SUPEROUTRO (1989) na mostra Outros Cinemas deste ano, com a presença do diretor Edgar Navarro, que é uma figura e tanto, e estava tão disposto a conversar após a sessão que se recusou a encerrar a conversa no tempo sugerido. Estava curtindo muito estar ali e dizendo o quanto tem orgulho de seu filme. De fato, é um filme e tanto, que ganha nas revisões e possui algumas cenas que certamente ainda hoje escandalizam famílias, como o famoso close-up do protagonista defecando. É o tipo de estética que lembra o que o pessoal do cinema marginal fazia, só que feito num período mais comportado de nossa cinematografia. Com um discurso político mais do que interessante, antecipa e muito o desencanto que seria a nossa primeira experiência com um Presidente da República eleito com a redemocratização. E Navarro fez isso sem saber, como se tivesse antenas que captassem também o futuro. Bertrand Duarte, o protagonista, o mendigo que incorpora o tal SuperOutro, depois faria ALMA CORSÁRIA, de Carlos Reichenbach, também realizado em um período atípico de realizações cinematográficas no Brasil.

JORNADA AO OESTE (Xi You)

Mais um média especial, mas que curiosamente, ao contrário dos demais, ganhou exibição paga no circuito, apesar da duração inferior aos 60 minutos. JORNADA AO OESTE (2014), de Tsai Ming-Liang, é mais um exercício de paciência para o espectador, depois da experiência radical de CÃES ERRANTES (2013). O filme apresenta mais uma vez Kang-sheng Lee no papel de um monge que anda vagarosamente, na contramão da sociedade de consumo que corre nas ruas como se fosse tirar o pai da forca. Assim, em "câmera lenta", ele é seguido pacientemente por um discípulo, vivido por Denis Lavant. O segredo para gostar de JORNADA AO OESTE é estar com predisposição a ver um filme que o desafia constantemente. E tentar a todo instante acalmar o espírito. Pode fazer muito bem, inclusive.

KUNG FURY

Este filme é tão inacreditável que mal contemos o entusiasmo. KUNG FURY (2015) é uma homenagem à década de 1980, tanto aos videogamos quanto ao próprio espírito da época – os filmes de ação, as roupas, a tecnologia, as séries de TV etc. Na história, Kung Fury, vivido pelo próprio diretor David Sandberg, é o mais invocado lutador de artes marciais de Miami, e a ele é entregue o serviço de voltar no tempo para matar o maior criminoso de todos os tempos, Kung Fuhrer Hitler. Impossível não rir em diversos momentos, seja pela graça da trama, seja pelos absurdos. Acabou virando coqueluche na internet, depois de uma exibição em Cannes. Sensacional.

ZERO DE CONDUTA (Zéro de Conduite - Jeunes Diables au Collège)

Jean Vigo é um dos cineastas franceses mais cultuados de todos os tempos, mesmo tendo pouquíssimos filmes no currículo. Este média (de 41 minutos), ZERO DE CONDUTA (1933), é um deles. Serviu de inspiração para muitos diretores que viriam a trabalhar com crianças. Os meninos no filme são especialmente anárquicos, o que combina com o próprio registro de ZERO DE CONDUTA, que parece uma obra que se recusa a obedecer a regras narrativas, embora não seja exatamente classificado como experimental ou algo do tipo. Mas a conduta dos meninos e o modo como o diretor e o espectador os apoia parece ser bastante representativo de um posicionamento político que só deve ser plenamente entendido uma vez que saibamos mais da vida e da obra de Vigo. Um dia pretendo revisar esta obra, bem como os outros trabalhos dele, mas de posse de mais conhecimento.

NE PAS PROJETER

Ver o trabalho de um amigo não é sempre fácil, principalmente quando vamos escrever a respeito, mas não dá para negar que o curta NE PAS PROJETER (2015), de Cristian Verardi, é um trabalho bastante inventivo, que, ao mesmo tempo que homenageia filmes de horror que utilizam o gore (difícil não lembrar de Lucio Fulci), é também cinema sobre o amor ao cinema, sobre a influência dos filmes sobre a gente, sobre ser tragado por eles e amá-los acima de tudo. Na história, um projecionista encontra um misterioso rolo de filmes no cinema em que trabalha. O filme, apesar de ter sido apresentado em "carreira solo" no Festival de Gramado, compõe o longa em segmentos 13 HISTÓRIAS ESTRANHAS, que espero poder ver integralmente em breve.

sábado, setembro 05, 2015

JIA ZHANG-KE, UM HOMEM DE FENYANG



Excelente a iniciativa dos dois curadores da programação do Cinema do Dragão em fazer de vez em quando um debate após a sessão de determinados filmes. Já ficaram célebres os debates com os realizadores e por isso fiquei especialmente curioso com o debate após a sessão de JIA ZHANG-KE, UM HOMEM DE FENYANG (2014), que não iria contar com a presença ilustre de Walter Salles, mas os dois curadores promoveram uma conversa muito rica e interessante sobre o documentário, sobre as obras de Salles e Jia e também sobre a própria história do Brasil e da China retratada em suas obras.

Para que um cineasta chegue a fazer um filme em homenagem a um colega seu é necessário primeiramente que haja uma profunda admiração. Aconteceu com Wim Wenders duas vezes: com TOKYO GA (que homenageia Yasujiro Ozu) e com UM FILME PARA NICK (que homenageia Nicholas Ray); com Abel Ferrara e seu PASOLINI; com Eugenio Puppo e seu OZUALDO CANDEIAS E O CINEMA; com Tim Burton e ED WOOD; com Martin Scorsese e A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (que homenageia Georges Méliès). JIA ZHANG-KE, UM HOMEM DE FENYANG é um filme dessa linha.

Trata-se primeiramente de um filme sobre o referido cineasta chinês, feito com muito carinho por alguém que veio dos documentários antes de se aventurar e de se tornar mundialmente famoso através da ficção. Walter Salles sequer aparece no documentário, dando voz apenas a Jia e seus colaboradores e sua história de vida, que falam das locações que serviram de cenário para algumas das obras mais importantes, da dificuldade e também da sua necessidade de fazer cinema num país fechado como a China.

O que diferencia o documentário de Salles de um extra de DVD – já que há também um passeio pelos principais filmes do realizador – é que há espaço para um retrato para íntimo do homem Jia Zhang-ke, não apenas do cineasta. Assim, ficamos sabendo de detalhes da sua vida, como o quanto um fato ocorrido em 2006 ainda o deixa extremamente comovido.

Ao vermos trechos de filmes como XIAO WU (1997), PLATAFORMA (2000), PRAZERES DESCONHECIDOS (2002), O MUNDO (2004), EM BUSCA DA VIDA (2006), 24 CITY (2008) e UM TOQUE DE PECADO (2013), observamos o interesse do cineasta no ser humano enfrentando as dificuldades de estar em um universo em constante transformação, e nisso ele parece ser crítico tanto da situação política nascida da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, quanto da globalização recente.

Quanto à aproximação dos dois cineastas, muito disso se dá tanto devido ao fato de ambos fazerem também documentários, quanto em serem particularmente preocupados com a história recente de seus países. Como não lembrar de TERRA ESTRANGEIRA (1996), que tratou do impacto da Era Collor na sociedade brasileira? E de filmes que adentram o Brasil profundo, como CENTRAL DO BRASIL (1998) e ABRIL DESPEDAÇADO (2001)? O distanciamento se dá ao fato de Salles ter feito filmes no exterior também, mas sempre interessado no aspecto humano dentro de um contexto histórico, ou pelo menos dentro de uma história, caso do renegado ÁGUA NEGRA (2005).

sexta-feira, setembro 04, 2015

A ENTIDADE 2 (Sinister 2)



Uma boa surpresa este A ENTIDADE 2 (2015), de Ciarán Foy, que tem imagens e cenas fortes o suficiente para ficarem gravadas na memória, diferente do primeiro, de 2012, que era mais convencional e por isso esquecível. Nesta sequência, algumas coisas do primeiro filme são usadas como elo de ligação, como a figura demoníaca que aparece de vez em quando, as citações às casas amaldiçoadas e cercadas de morte e o personagem de Ethan Hawke. O único personagem remanescente neste novo filme é o agora ex-delegado de polícia vivido por James Ransone.

Trata-se de um personagem que ganha a simpatia da audiência já na primeira cena, quando entra em uma igreja para conversar com um padre em um confessionário, e depois quando começa a manter contato com uma mãe de dois garotos que tem fugido do marido violento e acaba se escondendo em uma dessas casas amaldiçoadas e palco de fantasmas e morte. Uma vez que as pessoas entram numa dessas casas, elas serão perseguidas e mortas por este demônio.

Quem interpreta a desesperada mãe é a belíssima Shannyn Sossamon, que vem sendo descoberta para um público maior graças à minissérie WAYWARD PINES, embora ela tenha aparecido também no excelente (e pouco visto) CAMINHO PARA O NADA, de Monte Hellmann. Aqui ela contribui novamente para abrilhantar a história, elevando o que poderia ser um filme de horror de segunda categoria e o tornando bem mais interessante.

Quando o horror da vida real, representado pela crueldade do marido e também de um dos filhos, aflora, ele passa a se tornar ainda mais assustador que o horror das crianças fantasmas que afligem o garoto mais sensível – as crianças fantasmas o forçam a ver filmes de mortes cruéis e violentas. Assim se inicia um processo de crescimento do filme, inclusive como exemplar do gênero, graças, principalmente a uma cena ao mesmo tempo extremamente cruel e delirante.

Sem querer presentear o leitor com um spoiler, mas já o fazendo, refiro-me à cena das três cruzes, que é tão inacreditável, até mesmo dentro da própria lógica da narrativa e da montagem do filme, que parece algo saído de um de nossos piores pesadelos e invade a sala de cinema.

Nesse sentido, toda a questão que o filme (a própria franquia, na verdade) apenas ensaiava no início, sobre a força do cinema, e em sua extensão, da arte, como também um elemento voltado para o mal se torna muito mais pungente quando vemos o ato daquela criança empunhando uma câmera e prestes a fazer cometer barbárie.

Assim, A ENTIDADE 2 ganha ao apostar na construção psicológica de seus personagens, e aos fazê-los mais interessantes do que a suposta trama principal, para, em seguida, se autoafirmar como uma obra que se fincará na memória afetiva de certas audiências.

quinta-feira, setembro 03, 2015

BÊNÇÃO MORTAL (Deadly Blessing)



Nunca houve uma geração de cineastas especialistas em filmes de horror tão boa quando a da década de 70. George Romero, John Carpenter, John Landis, David Cronenberg, Larry Cohen, David Lynch, Dario Argento, Tobe Hooper, sem falar em outros mestres que transitavam por outros gêneros, como Steven Spielberg, Brian De Palma e William Friedkin, que deram sua valiosa contribuição.

Dessa geração também saiu Wes Craven, o homem por trás de sucessos como QUADRILHA DE SÁDICOS (1977), A HORA DO PESADELO (1984) e PÂNICO (1996). O mesmo Craven que partiu neste domingo passado para um outro plano, depois de uma longa batalha contra um tumor cerebral.

BÊNÇÃO MORTAL (1981), que eu vi como forma de homenageá-lo, é um de seus trabalhos menos lembrados, embora seja cultuado por uma geração de fãs, muitos deles tendo entrado em contato com o filme pelas exibições na televisão ou via VHS. O filme conta com o primeiro papel de destaque de Sharon Stone, que ainda levaria alguns anos para se tornar uma rainha em Hollywood.

A trama se passa em uma aldeia amish, que é palco de confronto familiar entre o líder da comunidade, vivido por Ernest Borgnine, e seu filho, que se afastou dos hábitos e costumes dos religiosos, preferindo viver em paz com sua carinhosa esposa. Mas o que mais interessa mesmo, já que se trata de um filme de terror, é a chegada de um misterioso assassino serial, que começa uma série de mortes, vitimando logo um personagem com quem já tínhamos nos apegado logo no início. Vemos, com isso, o quanto Craven aprecia enfatizar as personagens femininas, como também faria em outros de seus trabalhos mais famosos.

Interessante notar que uma das cenas mais antológicas de A HORA DO PESADELO (a cena da banheira) nasceu justamente em BÊNÇÃO MORTAL. Craven fez uma autocitação. O filme que apresentou Freddie Krueger para o mundo utilizou até o mesmo enquadramento e a mesma posição de sentar na banheira da atriz.

É também curioso perceber que as várias convenções do gênero, que seriam tratadas com humor negro e metalinguagem em PÂNICO, aparecem com vigor neste trabalho de Craven, que também conta com a presença de Michael Barryman, o vilão icônico de QUADRILHA DE SÁDICOS, com seu rosto expressivo e estranho.

Usando recursos dos tradicionais whodunits para pontuar a narrativa e uma câmera subjetiva do ponto de vista do assassino, BÊNÇÃO MORTAL reserva ainda algumas boas surpresas em seu final. É um pequeno belo filme que ajuda a atestar a maestria de seu autor.

quarta-feira, setembro 02, 2015

CORRENTE DO MAL (It Follows)



Eis o filme que livra a maldição dos filmes fracos de horror em nosso circuito. Não só isso: CORRENTE DO MAL (2014) é um dos mais inteligentes filmes do gênero a aportar por aqui há um bom tempo. Ao mesmo tempo em que é aberto a variadas interpretações, trata-se de uma obra que se basta mesmo analisando-se "apenas" sua capacidade de envolver e de causar suspense com a expectativa constante de que algo de ruim está prestes a aparecer num giro de 360 graus.

CORRENTE DO MAL nos apresenta ao drama de Jay (Maika Monroe), uma jovem feliz que passa a ser atormentada depois que faz sexo com um rapaz que lhe passa, através da relação sexual, uma espécie de maldição. A partir de então, ela passará a ver a morte iminente na figura de pessoas das mais variadas formas, prontas para lhe pegar. Uma vez que ela morra, a morte voltará a dar prioridade ao seu hospedeiro anterior. O que ela faz é correr feito uma desesperada.

A sorte dela é encontrar um grupo de bons amigos que acreditam nesse absurdo e a ajudam a combater ou ao menos conter esse mal. O que não significa que ela tenha finalmente encontrado a paz. Ao contrário, já que boa parte da metragem do filme contém aparições dessas figuras fantasmagóricas, muitas delas realmente assustadoras, e a fuga desesperada de Jay de algo que só ela vê.

Curiosamente, o tom mais sério do filme dá espaço a alguns momentos de alívio cômico, como o uso de um efeito especial bem antigo, na cena da praia, ou na famosa cena da piscina. Essa tentativa de também encontrar graça em meio à desgraça pode ser uma maneira de o filme entrar em sintonia com as produções de horror e ficção científica que são vistas na televisão em preto e branco da sala de estar da casa onde moram – o filme se passa, provavelmente, nos anos 1960, pela ambientação e pela exibição nos cinemas de CHARADA, de Stanley Donen.

Essa ambientação, inclusive, é um dos destaques visuais do filme de David Robert Mitchell, que destaca a época nos carros, nas decorações, na lingerie, num modo de pensar mais ingênuo. Ao mesmo tempo, a questão de um mal que surge a partir de uma relação sexual pode ser visto como algo retrógrado, como também como uma forma de homenagear tantos outros filmes de horror que têm esse posicionamento mais conservador em condenar aqueles que praticam sexo com a liberdade que eles ou elas merecem. Principalmente levando em consideração que o mundo mostrado no filme é um mundo movido a um grande tédio.

Pensar em CORRENTE DO MAL apenas ligando ao sexo talvez seja um tanto limitador. Mas, ainda que eu não tenha conseguindo encontrar outras interpretações para o filme, embora saiba que existam, a questão do sexo não deve ser deixada de lado, até porque o ato sexual não é mostrado como algo prazeroso ao longo do filme. Para sobreviver, por exemplo, Jay precisa fazer sexo por obrigação, enfrentando questões morais sobre passar ou não adiante aquele mal para pessoas inocentes. E nesse sentido a sequência final é uma das mais belas, terríveis e melancólicas, e ao mesmo tempo cruelmente libertadoras, do cinema jovem recente.

Quem puder ver CORRENTE DO MAL no cinema, não perca essa oportunidade de ouro. A imagem belíssima e o brilhante trabalho de som ajudam bastante a criar um clima maior de imersão e de prazer em estar vendo algo realmente especial.

segunda-feira, agosto 31, 2015

UM SONHO, DOIS AMORES (The Thing Called Love)



Dos cineastas oriundos da Nova Hollywood, Peter Bogdanovich talvez seja um dos mais subestimados. Responsável por filmes memoráveis no início de sua carreira e mesmo na década de 1980, e ainda sendo também um dos responsáveis por tornar o cinema americano mais próximo da Nouvelle Vague francesa, com sua vontade de estudar cinema de maneira mais aprofundada e sua paixão por filmes. E também pelas mulheres de seus filmes, o que o aproxima de François Truffaut.

Em UM SONHO, DOIS AMORES (1993), um filme quase esquecido dele, ele traz uma atriz que hoje também é pouco lembrada, mas que brilha acima de todos no filme, a adorável Samantha Mathis. E isso não é pouco, levando em consideração que se trata de um dos trabalhos de despedida do jovem astro River Phoenix e que ainda conta com a simpatia dos então novatos Sandra Bullock e Dermot Mulroney. Os quatro formam um quadrado amoroso bem interessante na meca da música country americana, Nashville.

É de lá que chega de Nova York a jovem e decidida Miranda Presley, a fim de ganhar a vida como uma estrela nesse competitivo universo. Ela chega atrasada para a primeira sessão de divulgação de seu trabalho, no mesmo dia que o jovem e um tanto abusado James Wright (Phoenix) também chega. Os dois não se bicam no primeiro dia, mas a tensão gera sentimentos positivos, por assim dizer, e eles terão a chance de se ver novamente, já que ambos estão ali para realizar os seus sonhos. No mesmo dia conhecem Kyle (Mulroney) e Linda (Bullock) e a nova vida de Miranda fica excitante aos nossos olhos.

É ela quem mais se aproxima do espectador, que também é um estranho naquele ambiente e que compartilha com ela de seus desejos e de suas frustrações. E interessante como Nashville se torna mais uma cidade interessante dentro da vasta geografia americana, com suas canções simples de amor e espírito de cidadezinha.

E o bacana é que nem é preciso ser um fã de country music para curtir o filme. Além do mais, música boa a gente reconhece fácil e vamos acompanhando aos poucos a evolução musical dos personagens. Curiosamente, a música não é exatamente o foco de atenção do filme, mas a ciranda de amores entre os personagens. A gente sente que, apesar de sofrerem, eles também estão vivendo o melhor momento de suas vidas. Bogdanovich foi muito feliz em passar esse sentimento de estar vivo na juventude, quando tudo é tão mais urgente e confuso em nossas cabeças.

quinta-feira, agosto 27, 2015

MAGNÍFICA 70 – PRIMEIRA TEMPORADA



Para curtir MAGNÍFICA 70 (2015), mais nova série brasileira do canal HBO, é preciso relevar algumas liberdades poéticas que os criadores tomam para contar sua história, como o fato de os filmes de 1973 não apresentarem tanta nudez ou mostrar Mojica filmando um dos primeiros filmes do Zé do Caixão em um cemitério, passados vários anos da introdução do personagem, ou mesmo a questão da criação de um Departamento de Censura Federal. Dizem que não era bem assim. Sem falar no modo como são pintados um velho general e a chefe do tal departamento. Mas pensar nesses detalhes é bobagem quando temos tantos outros motivos para nos divertir e nos empolgar.

A estrutura de episódios de MAGNÍFICA 70 já mereceria um bom crédito, com títulos como "O roteiro", "A produção", "O elenco", "O primeiro dia" etc. Assim vamos acompanhando as diversas etapas pelo que passa uma produção de baixo orçamento. E o fato de ter como pano de fundo o cenário de uma ditadura militar obcecada por comunistas e uma produção cinematográfica que sobrevive graças, principalmente, a mulher pelada e sexo não deixa de ser também interessante.

Se bem que depois do primeiro episódio, que é o que talvez mais mostre cenas de nudez, ficamos tão envolvidos no drama dos personagens que esses elementos que até hoje são motivo para chamar a atenção do público ficam em segundo plano. O que mais importa é a relação perigosa entre uma ladra, Dora/Vera (Simone Spoladore), que se finge de atriz iniciante para roubar a produtora, um funcionário do Departamento de Censura que se envolve com a Boca do Lixo, Vicente (Marcos Winter), e um ex-caminhoneiro que ficou sexualmente impotente por causa de uma maldição de uma bruxa e agora é produtor de cinema (Adriano Garib). A participação de Maria Luísa Mendonça como Isabel, esposa de Vicente e filha de um general vivido por Paulo César Pereio, também é destaque.

Tudo é muito bem amarrado ao longo dos 13 episódios, que são tão agradáveis de ver que até dá pena quando chega ao final, ainda que seja um final satisfatório e que fecha bem o enredo. Há uma interessante aposta no suspense, no modo como cada personagem age perigosamente dentro daquele ambiente proibido, especialmente Vicente, que tem que esconder do departamento, do general e da esposa o seu envolvimento com o cinema da Boca, ainda mais quando ele passa a escrever também um roteiro sobre sua vida e também a dirigir o filme.

Há também a questão dos relacionamentos com os personagens, como quando Vicente passa a ter um caso com Dora, enquanto sua esposa procura fugir de suas frustrações em uma espécie de retiro dedicado a liberar as energias sexuais. Isso, inclusive, tira bastante a personagem da sombra e a torna mais interessante. Sem falar que lembramos mais uma vez que Maria Luíza Mendonça é um furacão em cenas de sexo. Só basta uma para comprovar.

Um dos problemas da série é o excesso de rememorações de episódios e eventos passados, o que passa a impressão de se estar subestimando a inteligência do espectador. Talvez a intenção fosse fisgar também a audiência de eventuais espectadores de telenovelas, mais acostumados a esse tipo de coisa. Se for por isso, não deixa de ser válido. Afinal, nossa produção local de televisão paga precisa mesmo ter maior visibilidade.

Curiosamente, um dos melhores episódios é "O lançamento", que utiliza uma narrativa um pouco mais complexa, de idas e vindas no tempo. Aos poucos vamos entendendo o que aconteceu para que ocorressem determinadas mudanças no comportamento de certos personagens. Apesar de revezar o preto e branco e o colorido para facilitar o entendimento dos dois tempos narrativos e mais uma vez tornar a série um tanto didática, não deixa de ser um episódio brilhante na construção do suspense. No mais, algumas ideias absurdas, como o filme comunista, são tão interessantes que parecem saídos do cinema americano.

Todos os episódios de MAGNÍFICA 70 foram dirigidos por Carolina Jabor (BOA SORTE, 2014) e roteirizados por Cláudio Torres (O HOMEM DO FUTURO, 2011), que também é cocriador e diretor geral da série. MAGNÍFICA 70 foi renovada para uma segunda temporada, que deve começar a ir ao ar em agosto de 2016.

quarta-feira, agosto 26, 2015

HOMEM IRRACIONAL (Irrational Man)



Na minha passagem por Nova York, uma das coisas mais marcantes pra mim foi poder ver um filme de Woody Allen na terra que ele ajudou a desenhar em nosso inconsciente coletivo em vários de seus trabalhos em que a cidade é também uma personagem. E ver um filme de Allen, para quem já acompanha sua carreira e aprecia mesmo aqueles que não recebem as melhores críticas, é sempre um prazer, por acrescentar algo a mais ao seu rico conjunto da obra.

HOMEM IRRACIONAL (2015), se não é tão espiritualmente elevador quanto o irmão feliz MAGIA AO LUAR (2014), acaba encontrando companhia com outros trabalhos da linha dostoievskiana de Allen, como CRIMES E PECADOS (1989), PONTO FINAL – MATCH POINT (2005) e O SONHO DE CASSANDRA (2007), sem falar que se trata de um filme que flerta com PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock, embora o registro aqui seja bem mais leve.

Na trama, Joaquin Phoenix é Abe, um professor de Filosofia que não encontra mais sentido na vida. Pessimista e amargo, ele não tem amor nem mesmo pela disciplina que leciona e vive num processo de autodestruição com o álcool. Apesar de exibir uma barriga de cerveja bem evidente, seu pessimismo e sua acidez acabam atraindo a atenção de uma aluna, Jill (Emma Stone), que se apaixona por ele. Acontece o mesmo com uma professora vivida por Parker Posey.

Apesar de duas mulheres interessantes em sua vida, o que passa a dar sentido à vida de Abe de verdade é a possibilidade de matar um homem que fez algo inaceitável a uma mulher que ele desconhece. Abe ser um estranho na vida daquele homem pode diminuir as possibilidades de culpa no caso de o assassinato de fato ocorrer.

Curiosamente, apesar de o tema ser pesado, há uma leveza que Allen parece trazer de outros filmes, especialmente de MAGIA AO LUAR. Isso pode ser visto tanto como um problema quanto como um trunfo. Um problema quando a leveza torna o suspense menos impactante; um trunfo quando gera um produto estranho, o que quase sempre é algo muito bom, passa um ar de frescor, mesmo se analisarmos o parentesco com outros trabalhos do cineasta.

Assim, ao mesmo tempo em que estamos vendo uma tragédia, estamos vendo uma comédia. HOMEM IRRACIONAL é tudo isso junto e traz também aquela impressão de que foi influenciado fortemente pelo cinema europeu, embora isso não seja nenhuma novidade para alguém que já homenageou Bergman e Fellini em trabalhos bem anteriores. Agora é a vez de Hitchcock. E Allen faz isso com brilhantismo, livrando dessa vez o seu protagonista da pecha de se parecer mais uma vez explicitamente com um alter-ego seu, graças também ao trabalho mais sutil de interpretação de Phoenix.

segunda-feira, agosto 24, 2015

TRUE DETECTIVE – A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (True Detective – The Complete Second Season)



Se a primeira temporada de TRUE DETECTIVE (2014) não tivesse sido tão boa e tão marcante, muito provavelmente as pessoas teriam desistido da série/antologia por causa dos deslizes desta segunda temporada (2015), que traz o mesmo roteirista em todos os episódios, o criador Nic Pizzolatto, mas que muda de parceiro na direção – os primeiros episódios são dirigidos por Justin Lin, responsável por vários filmes da franquia VELOZES E FURIOSOS.

O que animou desde o início foi o elenco, formado por Colin Farrell, Rachel McAdams, Vince Vaughn, Taylor Kitsch e Kelly Reilly. Tanta gente boa numa série que havia se destacado por trazer uma trama cheia de mistério não podia dar errado. Acontece que deu. Pelo menos em boa parte. Ainda assim, há muitas qualidades nesta segunda temporada, que não conta mais com diálogos tão marcantes quanto os de Rust Cohle (Matthew McConaughey) nem elementos sobrenaturais, ainda que Pizzolatto tenha optado por um registro lynchiano, com espaçamento entre os diálogos para dar um ar de estranhamento.

Isso acaba deixando a série um tanto pesada e é um elemento que cansa quando vai chegando perto do final da temporada. O que mais conta mesmo é a construção dos personagens, principalmente o do Detetive Ray Velcoro (Farrell), um homem atormentado por uma tragédia do passado: sua esposa foi violentamente estuprada e agredida, ele supostamente matou o responsável e ela engravidou nove meses depois do ocorrido. Agora ele é um homem de comportamento violento e errático, capaz de dar uma surra no pai do garoto que praticou bullying em seu filho, enquanto se embebeda frequentemente.

Sua trajetória se une à de outros dois oficiais da lei, a detetive Ani Bezzerides (McAdams) e um policial rodoviário, Paul Woodrugh (Kitsch), enquanto encontra-se com frequência com um homem com ligações com a máfia, Frank Semyon (Vaughn). Isso acontece por causa da morte de um poderoso homem de negócios, Caspere, cujo corpo é encontrado com os olhos vazados por ácido. O mistério envolvendo a morte de Caspere e o número absurdo de personagens secundários que a gente acaba esquecendo quem são no meio de tanta confusão faz dessa segunda temporada de TRUE DETECTIVE um jogo tão confuso quanto À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, o que seria um elogio se não percebêssemos no final que a trama era confusa assim para esconder suas próprias fragilidades.

Ainda assim, alguns momentos são particularmente empolgantes, como a cena em que os três detetives invadem um clube de luxo em que playboys fazem a festa com jovens mulheres que se prostituem e são obrigadas a se drogarem. Ani se infiltra no grupo enquanto os outros dois abordam o local, do lado de fora da mansão. Pode-se dizer que este é o grande momento da série. O episódio é intitulado "Church in Ruins".

A história também da trata de vidas esfaceladas e nisso há uma falha na falta de aprofundamento dos personagens Ani (queria saber mais sobre o seu passado, sua relação com a família e com o pai) e Woodrugh, um rapaz que tenta esconder o seu passado, em que manteve relações homossexuais. Ele daria um interessante personagem atormentado se houvesse tempo e intenção para tal. Mas o próprio Kitsch está um pouco apagado no papel. Quanto a Semyon, é um personagem que vai crescendo ao longo da temporada. É bem chato no começo, mas vai se tornando mais interessante à medida que a trama se encaminha para o final.

Resta saber se tudo não seria melhor se Pizzolatto não tivesse brigado com o diretor da primeira temporada, Cary Joji Fukunaga, ou se os problemas são mesmo mais relativos a falhas no roteiro. De um modo ou de outro, saber que uma terceira temporada trará uma história totalmente nova faz com que ainda tenhamos esperança no futuro desta antologia.

domingo, agosto 23, 2015

VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS



Há tempos em que não sabemos nem mesmo o que ocorrerá nos próximos minutos, quanto mais daqui a alguns dias ou meses. Por mais que tenha sido cogitada e debatida várias vezes essa viagem para os Estados Unidos, ela estava fadada a não ocorrer devido a uma série de contratempos em nossas vidas. Quando falo nossas, me refiro à minha, à da minha irmã Adaila e a do meu cunhado Wandré. Mas eis que, depois de muito pensar e discutir, e até desistir em alguns momentos, resolvemos ir.

Como a Adaila e o Wandré já haviam ido para Nova York, eles não tinham tanta vontade assim de voltar. Já eu fazia questão de ir e não queria tanto ir para a Flórida, já que não consigo me visualizar me divertindo tanto em parques de diversão, embora provavelmente fosse me divertir. Mas apenas não era minha prioridade, levando em consideração que Nova York há muito tempo era a cidade que eu mais gostaria de conhecer no mundo. Bobeira minha ter levado tanto tempo para ir lá. Inclusive, quero um dia voltar sozinho para uma viagem dedicada apenas à cidade, quando me restabelecer financeiramente dos gastos.

San Francisco, apesar de estar localizada do outro lado do país, surgiu como uma cidade que a Adaila queria muito conhecer. Algo novo pra ela. E claro que pra mim também, que nunca tinha ido sequer ao Paraguai. E a ideia de sair de lá e também conhecer outros lugares da Califórnia num passeio de carro me deixou bastante entusiasmado, principalmente levando em consideração que teria a oportunidade de conhecer Los Angeles. Sem pretender me alongar muito, vamos, enfim, ao relato.

If I can make it there, I'll make it anywhere

Chegamos a Nova York pelo Aeroporto de Newark, que fica situado em New Jersey. Só de pensar que estava na terra de Tony Soprano, de Bruce Springsteeen e de Bon Jovi já foi interessante. Ao chegar lá, rola um pouco de tensão, mas até que foi tranquilo. O pessoal que recebe os estrangeiros que aportam nos EUA, apesar da cara fechada, não vi fazerem nenhuma restrição.

Mas pra mim a ficha só caiu mesmo quando chegamos definitivamente em Nova York, quando colocamos nossas malas no hotel e fomos às ruas. Ficamos em um hotel pertinho da Times Square, o que muito nos ajudou a nos locomover para outras partes da cidade. Qual não foi minha alegria quando, ao passar por uma das ruas, eu vejo o pequeno restaurante Soup Kitchen International, que serviu de inspiração para o antológico episódio "The Soup Nazi", de SEINFELD. Fiquei mais feliz que pinto no lixo quando vi. Tinha que comprar uma daquelas sopas que se come na rua.

O lugar é bem diferente do que é mostrado na série e eu fiquei um tempão para me decidir o que pedir sem perceber que uma longa fila estava se formando. Se não fosse a Adaila para me avisar ficaria mais tempo lá ainda, na dúvida. A sopa é boa, mas dizer que é a melhor dos EUA talvez seja um pouco de exagero. Vem com um pedaço de pão e uma banana. Essa foi uma das boas surpresas que vi por acaso lá e tenho certeza de que quem gosta da série iria ficar feliz em poder experimentar também.

Andamos um pouco pelas ruas da Broadway até chegar à entrada da parte sul do Central Park, na loja da Apple, a fim de resolver um problema do celular de minha outra irmã. Acabamos perdendo um bom tempo lá, mas era algo que precisávamos fazer – embora só tenhamos de fato resolvido na loja de San Francisco. A passagem pela Macy’s me deixou impaciente, tendo Nova York para conhecer e o tempo voando. Mas tudo bem. Havia os próximos dois dias, que foram bem mais produtivos.

No segundo dia na Big Apple, passamos na Best Buy para comprar máquinas fotográficas boas e pegamos o metrô para o Tom’s Restaurant, a minha dica pessoal de almoço que não podia faltar na minha ida à cidade. Trata-se do restaurante que é cenário de quase todo episódio de SEINFELD (olha ele aí de novo!) e, pra minha surpresa, o lugar, além de servir uma comida deliciosa, recebe a gente com muito carinho. Até tirei foto com a garçonete simpática de lá. O lugar conta com várias fotos da série e também de pessoas famosas que por lá passaram. Fiquei feliz também pois tanto a Adaila quanto o Wandré gostaram da comida e do lugar. Maravilha.

A próxima passagem seria partir para o Harlem em busca de uma igreja gospel black, dessas que aparecem nos filmes e que tanto formaram os mais diversos cantores negros americanos. Um grande amigo meu, o Michel, mesmo não tendo ligação com igrejas evangélicas, já esteve por lá duas vezes e me disse que gostou bastante. Pena que os lugares estavam todos fechados. Pelo menos deu para conhecer o bairro, muito bacana, de ruas e calçadas largas e gente atenciosa.

Próxima parada: ir ao Central Park, dessa vez para conhecer os principais pontos turísticos do lugar, e assim que lá chegamos fomos abordados por um desses caras que fazem passeios de bicicletas que carregam até três pessoas. O sujeito era uma simpatia, veio do Mali, país do norte da África, ralou bastante para se estabelecer nos EUA e brincava o tempo todo com a gente e com os colegas dele. Ele nos mostrou a casa do Woody Allen, a casa de propriedade da Madonna, lugares que serviram de locação para diversos filmes, e fez paradas em lugares importantes, como o memorial em homenagem a John Lennon, que fica próximo ao Edifício Dakota, onde ele foi assassinado, e a fonte que aparece na abertura de FRIENDS, onde tiramos fotos pulando – isso foi sugestão dele, mas foi divertido para caramba. Ao final desse delicioso passeio, ficamos um tempinho sentados na grama do Central Park, apreciando a paisagem.

Não sabíamos direito para onde ir, mas como eu tinha passado em frente a um cinema que exibia HOMEM IRRACIONAL, o novo filme do Woody Allen, achei que seria interessante dar uma passada por lá, enquanto a Adaila e o Wandré davam uma volta pelas lojas daquela área. Estava um tanto cheio de lojas e queria muito aproveitar a oportunidade mais do que simbólica de ver um filme de um dos cineastas mais representativos de Manhattan. O novo filme, se não me agradou tanto quanto o anterior, MAGIA AO LUAR, dialoga tanto com outras obras do diretor que é difícil não gostar. E fiquei feliz em poder entender mais de 95% dos diálogos. Gostei também da projeção da sala do Lincoln Plaza, lugar especializado em filmes alternativos, ou seja, estrangeiros e filmes americanos independentes. A essa altura do campeonato já tínhamos mais ou menos entendido a lógica um pouco complexa do metrô da cidade.

No terceiro dia em Nova York, a ideia era chegar pertinho da Estátua da Liberdade, através de um barco que levaria de graça pessoas que moram em Staten Island. Mas como os estrangeiros que lá moram são espertos e também simpáticos na abordagem, um deles conseguiu convencer a gente que seria muito melhor fazer um passeio de barco, por um preço até simpático, chegando bem mais perto da estátua. O passeio foi uma maravilha, apesar de o calor estar bem grande naquele momento. Deu pra ver também muita coisa bonita da geografia do sul de Manhattan, especialmente os prédios mais comerciais, como o primeiro prédio do soerguido World Trade Center.

Depois de comer na rua uma iguaria bem gostosa, fomos em direção ao Marco Zero, onde há um memorial para pessoas que foram vítimas do atentado de 11 de setembro e também o majestoso One World Trade Center, o prédio gigante da área, construído nos últimos anos. O curioso de nossa passagem por essa área foi quando um sujeito chegou na minha frente e me ameaçou com um punho, encostando-o em meu pescoço, como se eu tivesse feito algo a ele. Fiquei muito desorientado, sem saber o que tinha acontecido. Ele tinha ódio nos olhos e depois, quando viu que eu estava confuso e não ia reagir em nada, foi embora. Bizarro.

Quando vimos que lá perto havia uma loja da Century 21, acabamos sucumbindo às tentações do capitalismo e passando um tempinho lá. De fato, o lugar é a maior loja de preços baratos de roupas boas do lugar. Compramos umas peças de roupas e fomos, em seguida, em busca da igreja da Times Square, indicada pelo pastor da igreja da minha irmã, a Comunidade do Amor. Acontece que encontramos alguns obstáculos ao chegar lá. Havia duas reuniões: uma direcionada a jovens, que ficava na igreja grande, e outra dobrando a esquina. Como queria ir a Broadway ver algum espetáculo, e o culto só começaria às 7 da noite, acabei dando uma escapulida para ver sozinho Hedwig and the Angry Inch, que quis ver graças às boas recordações que tenho do filme, dirigido por John Cameron Mitchell.

Não gostei tanto assim da peça, tanto por estar me sentindo mal por ter exagerado nos cafés da Starbucks (só nesse dia, passei lá três vezes para tomar um delicioso mocca), quanto por não entender direito as piadas. Pelo menos, a banda fazia um som porrada e as canções continuam muito boas. Sentei perto de uma moça que me disse que era a terceira vez que havia assistido à peça. Valeu mais por ter experimentado um pouco da Broadway por um preço razoável em comparação com os demais, mas depois fiquei pensando se não seria bem mais interessante ver THE JERSEY BOYS, que também estava em cartaz.

If you're going to San Francisco/ Be sure to wear some flowers in your hair

O dia seguinte já era de ir a San Francisco. Fomos aos Fisherman's Wharf, um lugar muito bonito, mas que, devido ao calor infernal daquele dia, só foi ficando mais agradável mesmo quando o sol estava perto de se por, coisa de oito da noite mais ou menos. Vimos os leões marinhos, uma espécie de museu de diversões do início do século XX e tomamos um sorvete bem bom no Ben & Jerry’s. Tomei um sorvete que tinha o nome do Jimmy Fallon.

San Francisco é uma cidade bem diferente. O bairro onde a gente ficou era um tanto estranho, com vários mendigos nas ruas. Quando a gente parou para comer algo à noite num dos vários restaurantes de comida fast food, havia um homem com as roupas esfarrapadas e todo sujo, mas com óculos de grau e estudando. Parecia lutar para sair daquela situação. Provavelmente tinha muita coisa na vida e quebrou, tendo perdido tudo, até a casa.

San Francisco também me deixou feliz em pelo menos mais duas ocasiões: uma vez, quando passamos pela Union Square, um homem tocava no saxofone o tema de O PODEROSO CHEFÃO. Não tive como não ficar arrepiado ao ouvir aquele belíssimo tema de Nino Rota. Quase chorei. A noite estava gelada, ao contrário do dia. Temperatura de deserto.

No segundo dia em San Francisco comemos um delicioso almoço no John's Grill, lugar dedicado à memória de Raymond Chandler, que comia todos os dias lá e escreveu o romance O Falcão Maltês todinho no lugar. Até há, perto do restaurante, uma estátua do falcão. Não sei se é a mesma utilizada no filme de John Huston. Provável que seja. Comi um peixe delicioso, a melhor refeição que tive o prazer de comer nos Estados Unidos, inclusive. No lugar, também passei por uma excelente loja de discos, a Raspuntin, indicada pelo amigo Zezão. Saí de lá com 17 CDs! :)

Não daria para passar por San Francisco sem chegar mais perto da Golden Gate, o cartão postal da cidade. Pena que a neblina tenha atrapalhado a nitidez das fotos. Ainda assim, é uma visão e tanto. Minha irmã ficou bastante emocionada. Chegamos perto da ponte à noite e de dia também. Quanto a Alcatraz, pela pouca grana, optamos por não aderir ao passeio até o antigo presídio. Em compensação, fomos ao Crissy Field, uma área belíssima, talvez a mais bela paisagem natural de lá, dando para ver a parte de baixo da ponte e lembrando uma cena clássica de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock.

A saída de San Francisco via carro foi um tanto longa, mas deu tempo de chegar a tempo para almoçar em Monterey e conhecer o que deve ser um dos maiores aquários do mundo. Destaque para a apresentação dos pinguins sul-africanos. O restante do dia foi também de carro, em busca de um hotel em Camarillo, próximo a um outlet, antes da chegada a Los Angeles. Ficamos hospedados em uma cidadezinha bem bonita e simpática chamada Duarte, uma das várias que fica dentro do condado de Los Angeles.

Ói nós aqui...

O curioso de Los Angeles é que é uma cidade que funciona praticamente de dia. À noite, as pessoas vão para suas casas dormir. Bem diferente da rotina louca de Nova York. Assim, tivemos que dormir cedo mesmo para aproveitar o passeio por L.A. no dia seguinte.

Começamos pela Calçada da Fama, que é menos glamorosa do que imaginávamos, mas que não deixa de ser bem interessante. Infelizmente o Chinese Theater estava fechado por causa de uma première, mas aproveitamos e fizemos um passeio de duas horas que incluiu uma passagem por Beverly Hills. O sujeito que vendeu o pacote, por cerca de 20 dólares, enganou a gente. Falou que iríamos parar no melhor spot para tirar foto com o letreiro de Hollywood. Mentiu. Tivemos que fazer o trajeto de carro e um pouco a pé. Sem falar que o tal motorista que apresenta a cidade com um microfone tinha um sotaque estrangeiro bem carregado e mal dava para entender o que ele dizia. E ainda mostrava as coisas quando elas já haviam saído de nossa visão.

Mas em compensação, a caminhada de cerca de meia hora até os letreiros de Hollywood foi um dos momentos mais emocionantes da viagem. Estava felicíssimo e cantando "Pescador de ilusões", dO Rappa, com a Adaila. Tivemos um contratempo na hora de voltar de lá, mas não foi nada de mais. Em seguida, saímos de lá para conhecer os estúdios da Universal. Acontece que o preço para conhecer o parque e o horário que chegamos não compensava gastar tanto e tive a ideia de irmos ao centro de Los Angeles, onde pude conhecer (e gastar alguns dólares) na livraria Barnes & Noble, dentro do shopping ao ar livre The Grove. Belíssimo. Queria ter tido mais tempo de conhecer o centro de Los Angeles.

O resto da viagem foi de volta para casa, com direito a passagem por Tijuana rapidinho e zarpando para o Brasil pelo aeroporto de San Diego. Enfim, uma das melhores viagens da minha vida, certamente. Além do mais, o Wandré é um cara muito divertido e ri muito de suas presepadas. Claro que havia muito para escrever a respeito, mas acho que já exagerei bastante no tamanho do relato.

sábado, agosto 08, 2015

A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA



O bacana da ascensão do horror no cinema brasileiro é quando ele começa a chegar também pertinho da gente. A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA (2014), de Guto Parente, é uma produção cearense que tem conquistado a crítica e boa parte do público por onde tem passado, com seu exercício de estilo no subgênero "casa assombrada" (embora não seja só isso). Por enquanto só tem passado em festivais e mostras especiais; portanto, não dá pra dizer se terá um bom apelo popular  quando lançado comercialmente.

Dividido em dois capítulos, o longa apresenta dois pontos de vista: o da moça do título e em seguida o de um homem. A primeira parte até lembra alguns filmes que lidam com a tensão de uma casa sendo vigiada por alguém misterioso ou algo sobrenatural, embora haja algo que diferencie bastante o estilo de Parente com o das produções estrangeiras. Principalmente o andamento lento e a estranheza e beleza que se revelam tanto nos exteriores da casa e na fotografia iluminada (nos dois sentidos da palavra) dos próprios realizadores/atores (Guto Parente e Ticiana Augusto Lima).

No filme, Ticiana é uma jovem brasileira que se muda para a França para estudar arte. No belo mas antigo e sombrio apartamento em que ela se aloja, as paredes e os quadros parecem ter olhos para lhe vigiar. E o medo e a solidão pairam no ar. Aos poucos, sua sanidade passa a ser questionada quando ela começa a confundir realidade de fantasia. Essa sensação é transferida para o espectador, embora seja possível não embarcar na viagem de Parente.

No meu caso, por algum motivo (não sei se o tamanho gigante do Cine São Luiz e o número pequeno de espectadores), mas acabei ficando disperso algumas vezes e até atribuí isso a uma possível falha da realização, que fez com que o andamento lento acabasse por permitir que minha mente divagasse para outro lugar que não o filme ou algo relacionado a ele. Até cheguei a pensar que a duração de 62 minutos foi uma maneira de forçar uma exibição comercial do trabalho, tornando o que seria um belo média-metragem em um longa esticado.

Assim, o que eu mais valorizei foi o cuidado que os realizadores tiveram com a direção de arte e a fotografia, a diversidade nos pontos de vista da câmera, o uso do som (de ruídos) para acentuar uma atmosfera de medo etc. E há também uma intenção de criar um filme de horror atípico, mais próximo de um filme de arte. Ou seja, a beleza plástica de A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA acaba por torná-lo um trabalho bem longe do vulgar. Sem falar que a segunda parte torna o trabalho até que bastante intrigante e as referências a OS OLHOS SEM ROSTO, de Franju, e A ESTRADA PERDIDA, de Lynch, funcionam como piscadelas de olho interessantes para os fãs do gênero.

O legal é que a grande maioria das críticas que eu tenho lido sobre o filme na internet são bem positivas, e não de jornais locais ou de críticos locais, o que poderia ser um indicativo de puxa-saquismo ou de bairrismo, mas de pessoas de outras partes do país, que se empolgaram de verdade com o trabalho do casal Ticiana e Parente.

sexta-feira, agosto 07, 2015

QUARTETO FANTÁSTICO (Fantastic Four)



É bem triste quando um filme que a gente torce muito para que dê minimamente certo frustre as expectativas mais realistas. É o caso de QUARTETO FANTÁSTICO (2015), de Josh Trank, lançado dez anos após a versão mais alegrinha dirigida por Tim Story, que fez relativo sucesso comercial e até rendeu uma continuação. Porém, a ideia de um reboot é justamente uma tentativa de deixar para trás algo que não é muito bem aceito pelos fãs dos heróis e nem é considerado um bom trabalho.

E eis que Josh Trank, um jovem diretor que tem no currículo um filme de super-poderes bem interessante, PODER SEM LIMITES (2012), entra no projeto de reformar a família mais querida da Marvel para o cinema, nesse momento de rivalidade bem feia entre os estúdios Marvel/Disney e a Fox, que não entra em acordo (como a Sony entrou), nem quer perder os direitos sobre os personagens do Quarteto (e dos X-Men).

Nesse cenário, acontece também outra briga interna que pôde ser acompanhada nas notícias sobre as filmagens de QUARTETO FANTÁSTICO. Diretor e produtores não se entenderam. Trank afirma que tinha um filme ótimo se não houvesse intervenção do estúdio, que o teria demitido no meio das filmagens para colocar cenas com mais ação e explosões – Trank, como dá para notar pelo menos na primeira metade do filme, preferia abordar mais os conflitos dos personagens de uma maneira mais sombria.

Provavelmente nunca saberemos como teria sido o resultado com o cineasta com o controle completo da situação. O resultado que chega até nós é um dos mais fracos filmes de super-heróis já feitos, embora seja possível perceber algumas qualidades, especialmente em sua primeira metade, quando vemos o relacionamento do arrogante Victor Von Doom com os Reed Richards, Susan Storm e Johnny Storm antes de ele se transformar no Dr. Destino.

Toda a parte que faz de QUARTETO FANTÁSTICO mais um filme de ficção científica com alguns toques de horror do que uma aventura de super-heróis é pelo menos interessante. Ficamos intrigados com a ida dos heróis a uma outra dimensão (aqui não são os "raios cósmicos" de uma viagem de foguete, como nos quadrinhos) e isso gera um curioso suspense, embora saibamos quais serão os resultados.

O problema é que, depois da transformação, o filme parece não saber que destino tomar. Se a interferência do estúdio foi em trazer um pouco de ação para a produção, tratou-se, então, de uma interferência bem feia – a luta final dos quatro com o Dr. Destino é rápida e muito ruim, inclusive levando em consideração os efeitos especiais, que parecem saídos de uma produtora de baixo orçamento.

Com isso, o que parecia promissor, como a abordagem mais realista e a presença de bons atores jovens nos papéis principais – destaque para Miles Teller e Kate Mara – acaba indo para o ralo quando o que sobra é uma colcha de retalhos, que até tenta incluir um pouco de humor, mas que soa bastante forçado. Com isso, é bem pouco provável que haja uma continuação. Talvez a Fox tente um novo reboot até conseguir um resultado de respeito para heróis tão queridos do Universo Marvel, e que têm sofrido injustamente até nos quadrinhos, em virtude dessa briga de estúdios.

quarta-feira, agosto 05, 2015

O EXPRESSO DE SHANGAI (Shanghai Express)



Não chega a ser dos meus favoritos dentre os filmes dirigidos por Josef von Sternberg e estrelados por sua musa Marlene Dietrich, mas O EXPRESSO DE SHANGAI (1932) não deixa de ser mais um belo exemplar do barroco do cineasta austríaco que teve o seu momento de glória na década de 1930, em Hollywood. Lá ele podia brincar com liberdade com os jogos de luz e sombras e com cenários tão suntuosos (ou sujos) que parecem reais. Pelo menos a impressão que dá é que o cineasta filmou na China ou pelo menos em qualquer lugar próximo. Mas não. Foi tudo em estúdio.

Assim como aconteceu em MARROCOS (1930) e DESONRADA (1931), filmes anteriores da dupla, há em O EXPRESSO DE SHANGAI não apenas um gosto pelo exótico e pelas paixões arrebatadoras, mas algo de fatalismo, embora nem o amor seja levado às últimas consequências como em MARROCOS, nem o fatalismo seja tão forte quanto em DESONRADA.

Nesse meio termo que traz também sequências de alívio cômico, vemos a história de um grupo de pessoas que viaja em um trem que sai de Pequim com destino a Xangai durante um período de guerra civil na China, sem que saibamos quem é o vilão e o mocinho da história: o Governo ou os revolucionários. Mas isso pouco importa, na verdade.

Marlene Dietrich faz o papel de uma prostituta famosa chamada Shanghai Lilly, cuja presença no trem mexe com a tripulação, seja um pastor protestante que acha aviltante a sua presença, seja uma senhora dona de um estabelecimento para pessoas decentes, seja, principalmente, um oficial que já esteve prestes a casar com Lilly no passado, mas algo se perdeu.

Os dois, apesar de tentarem disfarçar ou posarem de indiferentes, são ainda apaixonados um pelo outro, e o modo como eles são colocados como reféns do grupo revolucionário só faz com que o perigo aumente ou torne mais explícito esse amor. Tanto é que na cena em que Lilly está rezando pelo homem que ama, Sternberg faz questão de tornar esse momento quase sacrossanto: uma prostituta em sinal de desespero e buscando o pouco de fé que lhe resta. Em algum momento, cheguei a lembrar de Marion Cotillard chorando na igreja em ERA UMA VEZ EM NOVA YORK, de James Gray.

O gosto por personagens femininas marginais prossegue nessa parceria Sternberg-Dietrich e a construção dos personagens de apoio é interessante, assim como a fotografia de Lee Garmes, em sua última colaboração com Sternberg, linda como nunca. Porém, falta ao filme algo que torne o amor do casal suficientemente convincente ou tocante. É como se o diretor estivesse interessado demais nos aspectos plásticos de seu trabalho e tivesse perdido um pouco a mão no que se refere ao apelo dramático e romântico.

terça-feira, agosto 04, 2015

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (Saturday Night Fever)



Visto no ano passado em uma mostra especial no Cinema do Dragão, só agora parei para escrever algumas linhas sobre OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (1977), de John Badham, o mais emblemático filme da era disco. O filme fazia parte daquela série de longas exibidos na televisão e que eu não dava tanta bola assim durante os meus anos pré-cinefilia. Mesmo posteriormente não cheguei a ficar tão interessado assim em vê-lo. A minha geração tem mais relação com a figura gorda de John Travolta, quando de seu "retorno" triunfal em PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA, de Quentin Tarantino.

É bom lembrar que OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE fez de Travolta um dos maiores símbolos da era disco, tendo realizado, logo em seguida, outros filmes musicais e com coreografias, como GREASE – NOS TEMPOS DA BRILHANTINA, OS EMBALOS DE SÁBADO CONTINUAM, EMBALOS A DOIS e PERFEIÇÃO.

Quanto a gostar ou não de OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE, saí do cinema sem saber ao certo. Mas não há como negar o seu caráter quase documental (Badham encorajou o improviso por parte dos atores) de um momento em que as pessoas voltaram a dançar juntas e em caráter de celebração, depois de um período em que o rock dos anos 1960 e 1970 não promovia muito essa experiência corporal, nem explorava tanto a sensualidade e a sexualidade de forma tão gráfica.

Mas é sempre bom lembrar que a disco music, embora tenha influenciado alguns artistas de rock, como os Rolling Stones, também foi alvo de artilharia dos punks, seus contemporâneos, como mostrado em filmes como O VERÃO DE SAM, de Spike Lee, e SOMOS TÃO JOVENS, de Antônio Carlos da Fontoura. Em comum, tanto a disco music quanto o punk rock mostravam-se cansados do cenário musical da década de 1970.

O filme apresenta a figura de Tony Manero (Travolta), um rapaz cujo mais importante momento da vida é quando se diverte nos clubes noturnos aos sábados, fazendo muito sucesso com suas coreografias ensaiadas e participando de competições acirradas. Mas, se por um lado, nas pistas ele é rei, em casa não é visto com bons olhos pela família. O pai admira mesmo é o seu irmão, que é padre. Assim, ao mesmo tempo em que sabe que a vida nas pistas é uma espécie de fuga da dura realidade, o sentimento de vazio também está no ar, devido à falta de perspectivas de sair da periferia (Brooklyn) e ir morar no grande centro (Manhattan).

O filme também serviu de vitrine para os Bee Gees, que já eram artistas de sucesso, embora estivessem passando por uma fase de altos e baixos. Mas com OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE, o grupo de irmãos estourou de vez, e até hoje Saturday Night Fever é a trilha sonora de um filme mais vendida de todos os tempos.

segunda-feira, agosto 03, 2015

ALIEN, O 8º PASSAGEIRO (Alien)



Se hoje, visto em casa, ALIEN, O 8º PASSAGEIRO (1979) segue sendo uma experiência horripilante e claustrofóbica, é de se imaginar como foi na época de sua estreia. No documentário que vem junto com o box com os quatro filmes da tetralogia, o último capítulo fala justamente desse efeito perante à audiência, que foi de muito medo, gente desmaiando ou vomitando e coisas do tipo, que, claro, são exageradas a fim de causar mais propaganda para o filme.

Quando ALIEN começa, já ficamos animados vendo os créditos iniciais, dada a quantidade de pessoas talentosas na equipe. No elenco, além da belíssima estreante como protagonista Sigourney Weaver, há grandes nomes como John Hurt, Harry Dean Stanton e Ian Holm, que desempenham papéis importantíssimos pelo menos dois dos momentos mais memoráveis e aterrorizantes do filme. Sem falar que a direção é do mestre Ridley Scott, o roteiro é do sensacional Dan O'Bannon e o monstro foi criado pelo genial H.R. Giger, só pra citar os nomes mais importantes.

E pensar que o filme foi pensado inicialmente por O'Bannon como uma comédia espacial que ele e o amigo Ronald Shusett queriam fazer depois de ficarem frustrados com o resultado de DARK STAR (1974), de John Carpenter. A ideia era fazer um filme B produzido por Roger Corman. Mas o roteiro foi passando de mão em mão e foi parar na mão dos executivos da 20th Century Fox, que só aceitaram priorizar as filmagens mesmo depois do estouro de GUERRA NAS ESTRELAS, de George Lucas. A partir daí, a ficção científica voltou a ser moda novamente em Hollywood.

Mas o curioso é que ninguém queria dirigir ALIEN. Alguém sugeriu o nome de um novato, Ridley Scott, que só havia dirigido OS DUELISTAS (1977), uns comerciais para a televisão e episódios de séries inglesas. Scott topou e se mostrou o homem perfeito para a realização do filme, com força, inclusive, para driblar as restrições dos produtores e para pedir mais e mais dinheiro para mais e mais sets e detalhes.

Não se tinha colocado tanto dinheiro em um filme de nave espacial desde 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick, que, aliás, é uma das principais influências na história. Há muita coisa em comum, como o sono em câmeras criogênicas e a matança de cada membro da tripulação por um inimigo. Aqui, não um cérebro eletrônico, mas uma criatura do espaço de aspecto bem assustador.

Ver o making of faz com que apreciemos ainda mais o produto já visto, não apenas pelas inúmeras dificuldades e pela longa trajetória até a estreia, mas também por cada detalhe que passa desapercebido enquanto estamos ocupados vendo o filme. Quem diria que uma pessoa aparentemente tão durona quanto Sigourney Weaver, que faz a capitã da nave no filme, tenha sofrido tanto nos bastidores, a ponto de chorar algumas vezes, inclusive por terrorismo do diretor, que tinha as suas técnicas de deixar o elenco desconfortável em prol do resultado do filme.

Falar da história de ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, um filme tão popular e visto por tanta gente, é desnecessário. Mas podemos lembrar de certas cenas marcantes, como o monstro saindo pela barriga de John Hurt, o momento em que se descobre que um dos tripulantes é um robô e a espetacular tentativa de fuga de Ripley da nave, a fim de escapar viva do ataque da criatura, com direito a parada para pegar o gato.

Nunca se usou tanto terror e suspense numa nave espacial com tanta intensidade. Alguém poderia lembrar de O PLANETA DOS VAMPIROS, de Mario Bava, que tem uma pegada bem parecida e é dos anos 1960, mas, por mais que seja um belo trabalho, há que se dar o braço a torcer e ver o quão ALIEN é mais eficiente.

domingo, agosto 02, 2015

OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (Les Parapluies de Cherbourg)



E foi na tarde desta quarta-feira que eu tive o prazer imenso de assistir um dos melhores filmes da minha vida. Dizer isso, passados já vários anos de meu período de formação como cinéfilo, chega a ser surpreendente até pra mim, mas sei o quanto isso é verdadeiro a cada vez que volto a pensar nesta obra-prima de Jacques Demy, OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (1964), ganhador da Palma de Ouro em Cannes.

E pensar no quanto eu tive preconceito em pegar este filme para ver, só de saber que era inteiramente cantado. Que bobagem. Mas, por outro lado, ter adiado tanto esse meu encontro com o filme fez com que eu tivesse a oportunidade de vê-lo em uma cópia gloriosa em DCP 2K, numa versão remasterizada, com seu technicolor vivo e nítido.

Quanto ao fato de ser cantado o tempo inteiro, chega uma hora que isso se incorpora à narrativa, à história de amor entre Geneviève (Catherine Deneuve) e Guy (Nino Castelnuovo), que é como se fosse uma história falada. A música de Michel Legrand, a história envolvente e os aspectos visuais ajudam a compor, no conjunto, um amálgama de elementos que contribuem para um sentimento de arrebatamento emocional.

O romantismo de OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR, porém, possui algo de realista também, levando em consideração o seu desenvolvimento e a conclusão, e isso torna a obra máxima de Demy ainda mais admirável. Não se trata apenas de trazer desilusão para os personagens, mas de mostrar também as possibilidades de se encontrar a felicidade (ou algo próximo disso) no cotidiano pouco floreado do dia a dia.

O filme é narrado em três atos. O primeiro é dedicado ao casal perfeito incorporado por Deneuve (mais linda do que nunca em seus 21 aninhos, mas inicialmente interpretando uma moça de 16) e o italiano Castelnuovo. Eles se amam muito e planejam se casar e ter filhos e dizem juras de amor um ao outro. Ele é apenas um mecânico de automóveis, ela trabalha com a mãe numa loja de guarda-chuvas, mas isso não tem muita importância diante do amor maior. Até que um dia Guy precisa lutar na Argélia, deixar o país por uns dois anos.

O segundo ato, dedicado à ausência de Guy, faz com que nos apeguemos ainda mais à Geneviève, à sua condição, às poucas cartas recebidas do amado, à questão do novo pretendente que representa uma estabilidade financeira futura, além da forma amável com que ele a aceita. Mesmo assim, difícil não torcermos pelo reencontro do casal inicial, embora isso acontecer se torne cada vez mais difícil. O terceiro ato é dedicado a Guy e a sua frustração em voltar para casa e ver tudo mudado e o amor de sua vida inacessível.

Alguns momentos são particularmente especiais, dentro de um conjunto que por si só já é todo especial. Muito disso se deve à música de Michel Legrand, em especial o tema "Non, je ne pourrai jamais vivre sans toi", cuja instrumentação orquestrada é recorrente ao longo do filme, causando muita emoção, especialmente quando transposta para a cena da despedida na estação, com aquele detalhe arrasador do travelling para trás, indicando a separação do casal. Posteriormente, a agridoce canção-tema de Guy e Madeleine (Ellen Farner) também é destaque e de uma beleza impressionante.

E, pra completar, o filme ainda tem aquele final para nos deixar extremamente devastados, com lágrimas nos olhos. OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR é filme para se guardar no fundo do coração, com o maior carinho do mundo.