sábado, abril 18, 2015

RITA LEE MORA AO LADO



Não vou negar que meu maior interesse pelo espetáculo RITA LEE MORA AO LADO foi a presença de Mel Lisboa interpretando a nossa Rainha do Rock nacional. Desde que soube dessa peça, que esteve em cartaz em São Paulo por um bom tempo, fiquei muito a fim de ver. Sei bem que Mel Lisboa não é mais a mesma ninfeta de PRESENÇA DE ANITA (2001) que fez a cabeça de tantos homens, mas recordações batem forte, assim como o encanto pela bela e corajosa artista que ela se tornou.

Quanto à Rita Lee, claro que sua vida e suas canções também são ótimos chamarizes para os espectadores. E a peça, além de ser extremamente bem elaborada, com uma equipe de artistas talentosos que ajuda bastante Mel nas suas mais de duas horas de duração, também tem a vantagem de contar a história de Rita desde a sua infância, mostrando de maneira divertida ícones da música brasileira que passaram por sua vida, como Ronnie Von, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tim Maia, Elis Regina, Ney Matogrosso, Gal Costa, João Gilberto, e ainda tem uma cena divertidíssima dos Mutantes sendo entrevistados em um programa de televisão dos anos 60 por Hebe Camargo. É talvez a cena mais engraçada da peça.

A sua história é entrecortada pelas canções, ao mesmo tempo em que acompanha a história de uma garota anônima chamada Bárbara, que esteve sempre presente na vida de Rita desde sempre. Há outras canções que não da Rita ou dos Mutantes, como uma dos Rolling Stones ("Fool to cry"), dos Beatles ("Happiness is a warm gun"), de Jimmy Hendrix ("Hey Joe"), mas o que arrepia mesmo são duas interpretações de membros da equipe que incorporaram mesmo dois artistas brasileiros: "Sangue latino" (com um ator muito bom interpretando Ney) e "Baby" (com uma atriz parecidíssima com a Gal cantando). Coisa linda de ver mesmo.

E como esse pessoal canta melhor do que a Mel, ajuda a dar uma balanceada no que parece o aspecto mais frágil da peça, que é a voz da atriz. Mas isso é bem fácil de relevar, levando em consideração o fato de que ela é uma atriz e não uma cantora, e de que ela convence mesmo como Rita Lee no palco. Às vezes, até parece que estamos diante da própria Rita.

Alguns momentos são especialmente bons, inclusive, do ponto de vista da interpretação de Mel, como quando ela canta "Menino Bonito" numa cena que emula a Santa Ceia de Jesus. Ela canta para Roberto de Carvalho, sua alma gêmea, que fica do outro lado da mesa, enquanto visualizamos, como num jogo de tênis, os outros atores em momentos de prazer gerados pela entrega ao sexo e às drogas típico da época. É o momento mais transgressor da peça, e certamente um dos mais lindos.

Sem dúvida, a memória dessa peça, com suas cerca de 40 canções interpretadas, ficará guardada com carinho comigo por muito tempo. Abaixo, foto de qualidade, inferior, mas que, pelo menos, foi tirada por mim durante o espetáculo.

sexta-feira, abril 17, 2015

CINCO CURTAS


Curtas-metragens são, comparando com a literatura, como contos, no sentido de que são mais condensados em sua narrativa. E, em geral, por não terem tanta necessidade de agradar a um público grande, de não serem vendáveis e distribuídos em salas de cinema como os longas, mas exibidos a um público mais seletivo, o de festivais, podem se dar ao luxo de experimentarem mais a linguagem cinematográfica. Segue mais uma remessa de interessantes objetos culturais e de invenção produzidos no Brasil e também no exterior, dessa vez.

TREMOR

O filme de Ricardo Alves Jr., TREMOR (2013), é daqueles que se a gente piscar perde. Há no início um interessante e enigmático plano seguindo um cavalo, em seguida acompanhamos os passos de um homem que se dirige a um necrotério, onde terá que reconhecer um corpo. A câmera (na mão?) segue o homem com lentidão, como num filme dos irmãos Dardenne, de modo que ficamos um tanto anestesiados com esse andamento. Por isso é interessante revê-lo, a fim de captarmos o instante final, que é enigmático, mas pode ser mais ainda pra alguém que desviou o olhar por um segundo. TREMOR foi exibido primeiramente no Festival de Locarno, mas ganhou muitos prêmios em Brasília. O primeiro longa do diretor, derivado desse curta, ganhou nome e até distribuidora, antes mesmo de começar a ser feito. Chama-se ELON RABIN NÃO ACREDITA NA MORTE. Pra ficar de olho.

TIGRE

Provoca certo fascínio o modo como João Borges narra a história de seu tio-avô Arnaldo Tigre, depois de seu falecimento. Coisas do passado sempre me deixam interessado e com TIGRE (2013) não foi diferente. O jovem cineasta optou narrar sua história através de fotografias e cartas deixadas como arquivo a fim de reconstituir uma parte da vida desse homem que ele conheceu já no fim da vida. A narração em voice-over do diretor passa uma sensação agradável, enquanto vamos conhecendo um pouco mais da vida de Tigre, um boêmio viciado em jogo do bicho do Rio de Janeiro, que conheceu a mulher de sua vida já depois dos 40 anos, mas as coisas não terminaram muito bem. Contar mais pode estragar o filme. Ainda mais por ter apenas 15 minutos e deixar um gostinho de quero mais.

DIA BRANCO

Embora no final eu não tenha captado o que o filme quis dizer, não deixa de ser uma experiência gratificante ver DIA BRANCO (2014), de Thiago Ricarti, mais um bom exemplar do cinema produzido em Minas Gerais. O interessante deste filme é que só aos poucos as informações são nos dadas, como quantas pessoas estão em cena, por exemplo. O fato de haver a morte de um dos familiares dos garotos não deixa de ser uma informação de destaque, mas que acaba não sendo tão importante assim no clima, que parece meio descontraído, meio vazio, com os personagens brincando, tirando fotos com o celular ou olhando para o céu nublado. Sempre fico cismado com o último plano, por isso acho que DIA BRANCO se beneficiaria de uma revisão.

LIGHTS OUT

A duração do sueco LIGHTS OUT (2013), de David F. Sandberg, é de apenas três minutos, mas é o suficiente para assustar muita gente. Até mesmo quem já o viu diversas vezes. Tudo bem que ele segue as convenções e os clichês do gênero para conseguir o efeito desejado, mas não deixa de ser bastante eficiente. Há também a velha história do medo do escuro e da exploração do medo daquilo que está debaixo da cama, que tanto assalta praticamente todas as crianças. A história é muito simples e acompanha uma mulher que descobre que uma criatura assustadora aparece durante o apagar das luzes, quando ela está sozinha, em casa.

KICK THE COCK

Tinto Brass está velho. Reconheçamos que o bom velhinho tarado está praticamente aposentado. Seu último longa foi MONAMOUR (2006), e lá se vão quase 10 anos. Mas eis que temos dois curtas dele, e um deles é este KICK THE COCK (2008), que é dividido em duas partes. Ele segue brincando de usar pênis artificiais, que já havia aparecido em outros de seus longas mais recentes, mas o que conta mesmo é o modo bem sem-vergonha (no bom sentido) como ele lida com uma empregada doméstica (Angelita Franco, belíssima) que aparece com trajes sumários mostrando seus dotes e valorizando inclusive as partes mais íntimas e aproximando KICK THE COCK de um vídeo de sexo explícito. É um filme que elogia a beleza, o prazer e a sacanagem, mas acaba funciona mais como aperitivo para ver um hardcore de verdade, em seguida.

quinta-feira, abril 16, 2015

NÃO OLHE PARA TRÁS (Danny Collins)



O cinema, assim como a vida, é uma caixinha de surpresas. De vez em quando surge um filme assim, meio de mansinho, como este NÃO OLHE PARA TRÁS (2015), que nem deve ficar mais de uma semana em cartaz neste circuito ingrato, para nos surpreender e nos emocionar. Mas que bom que o filme pelo menos teve a chance de chegar à telona. Sorte dos poucos felizardos que se disporão a ir ao cinema nesta semana para conferir uma das melhores performances de Al Pacino, num momento particularmente muito bom para ele, depois de tanto se repetir nos últimos anos. (Falam muito bem de O ÚLTIMO ATO, de Barry Levinson, lançado em poucas cópias recentemente nos cinemas brasileiros.)

Em NÃO OLHE PARA TRÁS, Pacino é o Danny Collins do título original, um velho astro veterano do rock que continua fazendo sucesso, mas apenas com as velhas canções. Não consegue compor nada novo há décadas. Mesmo assim, apesar da idade, vai seguindo uma vida de sexo, drogas e rock’n’roll, com direito a cocaína, uma mulher bem jovem e mansões e carros luxuosos, além de turnês milionárias. Mas há uma coisa que muda a vida de Danny: ele descobre que John Lennon escreveu uma carta para ele em 1971. E essa carta nunca chegou em suas mãos até então. É a partir dessa carta ele passa a reavaliar sua vida.

O filme pode até parecer piegas para alguns e a história não se furta de momentos especialmente lacrimosos, mas muito bem-vindos. Ao longo da narrativa, várias canções de Lennon são ouvidas e compõem um mosaico muito bonito deste momento da história de Danny, principalmente a partir de quando ele decide conhecer seu filho crescido, fruto de uma noite de farra.

E aí entra em cena o personagem de Bobby Cannavale, um jovem homem que guarda mágoa do pai ausente, e que precisa ser cuidadosamente reconquistado. Junto dele Danny conhece a nora grávida de seis meses, vivida por uma iluminada Jennifer Garner, e sua netinha cheia de energia de sete anos. Finalmente ele tem uma família e com ela vêm problemas e revelações, mas também algo novo, que Danny não quer deixar passar, não importa quantas vezes ele seja enxotado.

O filme é enxuto, embora os diálogos não pareçam ser ditos com pressa em nenhum momento. No tom certo, o estreante na direção Dan Fogelman vai construindo uma pequena e tocante história sobre insegurança, generosidade, amor e dor, que também apresenta um interesse amoroso do famoso, ilustre e decadente cantor, a gerente do hotel onde ele fica hospedado, interpretada por Annette Bening. Mas o mais importante é que o filme consegue superar a velha fórmula de melodramas sobre redenção de velhos heróis e tem um dos finais mais belos e sensíveis do cinema recente.

quarta-feira, abril 15, 2015

JACKIE BROWN



Já fazia mais de 16 anos da primeira e única vez que havia visto JACKIE BROWN (1997) no cinema numa das salas do extinto Art Iguatemi. As impressões na época não foram de muito entusiasmo, levando em consideração que eu havia saído da sessão de PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994) em êxtase. Assim, Quentin Tarantino pegou muita gente de surpresa com seu novo trabalho, uma adaptação de um romance de Elmore Leonard e talvez por isso seja um de seus trabalhos menos tarantinescos.

Aliás, engraçado como na época, só com dois longas no currículo e uns poucos roteiros, o cineasta já havia ganhado um adjetivo para si, o que não deixa de ser um tanto limitador, ainda mais para quem ainda estava só começando. Por outro lado, isso também provava a imensa popularidade do diretor. Mas se JACKIE BROWN era um tanto diferente, até por não se passar no universo de Tarantino, mas num mundo à parte, o cineasta também trata de homenagear outro dos subgêneros marginais que ele tanto aprecia, o blaxsploitation, ou seja, os filmes produzidos e protagonizados por negros que foram tão populares nos Estados Unidos dos anos 1970. O próprio título remete diretamente a FOXY BROWN (1974), estrelado pela musa Pam Grier, que aqui ele trata de trazer aos holofotes, como protagonista.

Na trama, Jackie (Grier) é uma comissária de bordo de uma companhia de segunda categoria que é pega pelos policiais federais (Michael Keaton é um deles) portando uma boa quantidade de dinheiro e um pouco de cocaína. É o suficiente para ela ficar encrencada, mas consegue logo ficar livre graças à intervenção do contrabandista Ordell (Samuel L. Jackson), que contrata os serviços de Max Cherry (Robert Forster) para tirá-la da prisão. Logo no primeiro encontro, Jackie e Max se gostaram e uma relação se inicia. Uma relação que também se estende às ligações perigosas de Jackie com o perigoso Ordell.

Completam o elenco de apoio dois personagens bem interessantes: o ex-presidiário vivido por Robert De Niro e a surfista maconheira e preguiçosa vivida por Bridget Fonda, que parece nunca ter aparecido tão bela antes ou depois. Há uma cena de sexo entre esses dois personagens que é um tanto quanto desconfortável. Pelo menos, a tara de Tarantino por pés se justifica nas várias vezes em que vemos Bridget fazendo as unhas na sala de Ordell. Os dois personagens têm importância na trama, especialmente no último ato, mas valem mais pela ótima construção de suas características.

Um dos diálogos mais bonitos do filme é entre Max e Jackie, quando ela pergunta a ele sobre como ele se sente ao envelhecer. É um diálogo curto, mas que é bem representativo do respeito com que o jovem Tarantino tinha com essas duas figuras icônicas do cinema. E esse diálogo sintetiza o próprio ritmo do filme, muito mais pausado que PULP FICTION.

A empolgação juvenil que pega o espectador de jeito acaba vindo da inteligência da trama e do modo como ela é contada, de diferentes pontos de vista, na sequência climática envolvendo uma troca de sacolas em uma loja de roupas de um shopping center. É então que lembramos das brincadeiras temporais e de montagem de PULP FICTION e dos demais trabalhos de Tarantino que viriam.

terça-feira, abril 14, 2015

CINCO CURTAS BRASILEIROS



Alguns vistos no ano passado, outros vistos neste ano. O fato é que eu andei vendo curtas demais em 2014 e não tive o devido cuidado de escrever minhas impressões sobre eles. Assim, tive que rever estes cinco para poder escrever pelo menos um pequeno parágrafo sobre cada uma dessas pequenas e belas obras de nossa cinematografia.

ESTÁTUA!

Gabriela Amaral Almeida conquistou seu espaço no cinema fantástico brasileiro com seu ótimo curta A MÃO QUE AFAGA (2012), que flertava com o horror, mas não tanto quanto este ESTÁTUA! (2014, foto), um autêntico filme do gênero, que lida com o medo, a maternidade e quão más as crianças podem ser (pelo menos na cabeça da protagonista). Neste novo filme, Maeve Jinkings é uma mulher grávida de três meses que aceita a tarefa de ficar cuidando por alguns dias de uma menina de comportamento esquisito. O que parecia ser apenas algo estranho começa a se transformar em terror na vida da mulher. Muito da força do filme está nos enquadramentos, no modo como a diretora brinca com o campo e o extracampo, de modo a mostrar ou esconder a menina.

SE ESSA LUA FOSSE MINHA

Interessante o modo recorrente como alguns novos cineastas têm misturado a ficção científica com o documentário. No campo dos longas-metragens mais recentes, o melhor exemplo disso é BRANCO SAI, PRETO FICA, de Adirley Queirós, mas em SE ESSA LUA FOSSE MINHA (2013), Larissa Lewandoski faz algo simples e também bem interessante, ao brincar com a escassez de recursos, usando papel alumínio para confeccionar capacetes de astronautas, mas principalmente ao fazer perguntas a pessoas simples da rua, algumas delas um pouco alteradas pelo álcool, outras um tanto mais sóbrias no sentido amplo do termo. As respostas nem sempre precisam ser do jeito que a diretora quer, mas do jeito que sai, o que torna o seu trabalho mais poético e estranho.

BATCHAN

Dá pra sentir o carinho com que Gabriel Carneiro fez seu BATCHAN (2013), explicitamente uma homenagem ao cinema de Yasujiro Ozu, com direito a discussões familiares que muito lembram a situação de ERA UMA VEZ EM TÓQUIO. Na breve história, Noriko é uma senhora idosa que mora sozinha e recebe a família um tanto numerosa para almoçar. Vemos as distâncias entre as gerações através de comportamentos e conversas, mas há também todo um cuidado com os enquadramentos, de modo a emular Ozu. Excepcionalmente lindo o plano final, um dos poucos em que há de fato uma movimentação da câmera.

LA LLAMADA

Eis um filme que melhora bastante na revisão. LA LLAMADA (2014), de Gustavo Vinagre, nos pega pela estranheza. Não dá de mãos beijadas as informações para o espectador, que inicialmente fica sem saber que país é aquele, qual a situação do protagonista Lázaro, um vendedor de frutas e legumes, com o filho, que ele afirma no início da entrevista não ter. Essa situação com o filho e a questão de um telefone que será instalado em seu estabelecimento será de fundamental importância para a cena mais emocionante. Há também um jogo muito bonito entre documentário e ficção, já que o diretor conduz a situação e a montagem de modo que até mesmo aquilo que acontece ao acaso se torne parte do enredo. É também um filme muitíssimo agradável de ver, em seus quase 20 minutos de duração.

A ERA DE OURO

Mais um filme que melhora bastante na revisão. E é admirável o crescimento na direção do jovem Leonardo Mouramateus, de FUI À GUERRA E NÃO TE CHAMEI (2011), MAURO EM CAIENA (2012) e LIÇÃO DE ESQUI (2013). A ERA DE OURO (2014), feito em parceria com Miguel Antunes Ramos, representa uma nova etapa na carreira de Mouramateus, e funciona também como uma transição, já que seus protagonistas são dois cearenses em São Paulo. Ela (Ana Luiza Rios) trabalha já há dois anos em uma empresa de investimentos; ele (Arthur Abe) é o sujeito que quer levá-la de volta, que quer reatar o relacionamento que tiveram no passado. As coisas ficam um tanto tensas durante uma festa na empresa em que ela trabalha. O impressionante de A ERA DE OURO é a maturidade na direção de Ramos e Mouramateus, no modo como os diálogos são recitados (seja de maneira naturalista, seja mais performáticos) e as diferentes posições da câmera em uma simples conversa numa mesa entre quatro pessoas.

segunda-feira, abril 13, 2015

PASOLINI



Na falta de uma distribuidora que resolva lançar PASOLINI (2014) nos cinemas, temos mesmo que apelar para meios alternativos a fim de ver o mais recente trabalho de Abel Ferrara, que homenageia respeitosamente o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, nos apresentando ao que seria o seu último dia de vida. E como sabemos que o diretor italiano foi brutalmente assassinado, já é de se esperar que o final apresente alguma cena chocante ou algo do tipo.

Não que isso não apareça em PASOLINI, mas Ferrara prefere não exagerar na violência da cena. Poderia parecer de mau gosto, ainda mais se a intenção é prestar uma homenagem ao diretor de SALÓ OU OS 120 DIAS DE SODOMA. Assim, embora a cena de sua morte seja dramática, não esperemos um torture porn. O que é mostrado já é suficientemente doloroso de ver.

PASOLINI foi lançado no mesmo ano de BEM-VINDO A NOVA YORK (2014), que também trata de uma pessoa real. Mas são filmes bem distintos, embora seja possível encontrar pontos em comum, se assim quisermos. Ambos os filmes tratam de sexo, de alguma forma, de personagens que têm que lidar com seus desejos proibidos. Seja o viciado em sexo de Gerard Depardieu, seja o homossexual em busca de um parceiro de Willem Dafoe. Ambos, por mais distintos que possam ser seus caráteres, são tratados com respeito por Ferrara.

Em PASOLINI, acompanhamos o cineasta italiano em companhia de sua família (inclusive, quem interpreta sua mãe é Adriana Asti, atriz de ACCATONE – DESAJUSTE SOCIAL, o primeiro trabalho de Pasolini); vemos sua relação com amigos próximos (destaque para a personagem de Maria de Medeiros); com a imprensa, já que seu filme, até então ainda não lançado e baseado na obra do Marquês de Sade, já provocava um burburinho bem intenso; e com aquele que seria o último garoto com quem ele sairia, Pino Pelosi, que seria condenado pelo crime.

Mas o filme de Ferrara também procura reconstituir, pelo menos em parte, o trabalho que Pasolini deixou por fazer, "Porno-Teo-Kolossal", que lida tanto com aspectos religiosos – um homem e seu amigo jovem seguem a estrela de Belém do Messias – quanto com profanos, como na cena do bacanal. A ideia de uma cidade regida por gays e lésbicas que devotam um dia no ano para que homens e mulheres possam transar em público e assim continuar a se multiplicar não deixa de ser bem interessante, e mostra o quanto o diretor italiano ainda escandalizaria, por mais que sua intenção fosse lutar por tudo que é belo e humano.

domingo, abril 12, 2015

CORPO DEVASSO



Uma belíssima surpresa este CORPO DEVASSO (1980), que já posso colocar entre os três melhores trabalhos de Alfredo Sternheim, ao lado de ANJO LOIRO (1973) e VIOLÊNCIA NA CARNE (1981). Pode-se notar a habilidade do diretor em lidar tanto com histórias mais sofisticadas, quanto com com filmes mais populares, cujo termo "pornochanchada" lhes cabem melhor. Ainda assim, acho que ele não se saiu tão bem assim em tentar fazer algo parecido com o que Walter Hugo Khouri fazia, em seu filme anterior, A HERANÇA DOS DEVASSOS (1979).

Os anos 80, principalmente a primeira metade, foram bem interessantes para a Boca do Lixo, já que começou uma abertura maior na busca por um erotismo mais gráfico. Muitos dos filmes desse período ainda são mais excitantes do que muito filme pornô que se faz hoje, tanto pela boa condução na narração, quanto por saber lidar com o erotismo com maestria.

No caso de CORPO DEVASSO, isso se deve tanto à participação de Ody Fraga no roteiro, quanto à produção e presença de David Cardoso, o principal nome masculino no elenco dos filmes da Boca do Lixo, o grande galã do cinema paulista da época, e que adorava ficar pelado na frente das câmeras, o que acabava sendo um chamariz também para as espectadoras do sexo feminino.

Tanto é que o tal corpo devasso do título se refere ao dele e não ao de uma mulher, como era de se esperar. Nesse sentido, o filme de Sternheim foi quase revolucionário, ao trazer o tema da homossexualidade com respeito (até pelo fato de o diretor ser gay) e sem as tradicionais visões preconceituosas e afetadas. O cineasta também demonstra o seu amor pelos livros em diversas cenas em que o protagonista (David Cardoso) elogia as bibliotecas pessoais e a cultura das pessoas que ele encontra pelo caminho.

A trama é pra lá de divertida, com Cardoso aparecendo como Beto, um caipira (com cabelo de Jeca Tatu e tudo) tentando aplacar a fome de sexo em uma bezerrinha, quando a filha do seu patrão o pega no flagra e se insinua para ele. Isso acaba lhe prejudicando quando os pais o pegam com ela na cama. Resultado: ele precisa fugir para São Paulo, a megalópole que o maltrata, mas que também traz muitas coisas boas. Lá ele se relaciona com mulheres e também com homens, quando, ao precisar de dinheiro, apela para a prostituição.

Mas, embora as cenas com Raul (Arlindo Barreto) sejam muito boas, as minhas preferidas são as com Neide Ribeiro, que interpreta uma fotógrafa que adora usar os homens como objetos sexuais e depois descartá-los. As cenas com ela são as mais excitantes do filme, tanto pela beleza de seu corpo quanto pelo modo como elas foram filmadas. É também o momento em que o personagem se vê em uma sociedade estranha à que ele estava acostumado, com direito a festas com orgias e tudo.

Pelo menos mais outras duas mulheres passam pelo caminho de Beto, em situações bem distintas. Uma se revelando bastante romântica; outra o querendo como um caseiro e amante. É nesse momento, já perto do final, que o filme perde um pouco o rumo. Poderia ser lembrado como um exemplar quase perfeito do gênero, ao lado de GISELLE, de Victor di Mello, realizado no mesmo ano, e que também contém cenas de sexo homossexual. Além do mais, CORPO DEVASSO trouxe temas que surpreendentemente passaram pela censura sem problemas, como a discussão sobre o socialismo e a difícil luta pelos direitos trabalhistas através da greve.

sábado, abril 11, 2015

QUATRO FILMES PROTAGONIZADOS POR CRIANÇAS



Vamos a uma nova série de pequenos textos para adiantar o que for possível o atraso em relação aos filmes vistos e os comentados. E que se tornou ainda maior durante o mês de março, quando eu não tive tempo pra nada e o blog também foi prejudicado. Então, segue uma temática de filmes protagonizados por crianças, ainda que de gêneros distintos. Vamos a eles, então, em ordem cronológica de lançamento.

A MALDIÇÃO DO SANGUE DE PANTERA (The Curse of the Cat People)

Muitas vezes expectativas podem atrapalhar muito uma apreciação fílmica. Ou de qualquer outra forma de arte. Não que eu achasse que essa continuação de SANGUE DE PANTERA (1942) fosse superior ao original, mas há o selo Val Lewton de qualidade, que me fez descobrir obras-primas como A MORTA-VIVA (1943) e A SÉTIMA VÍTIMA (1943). E por mais que A MALDIÇÃO DO SANGUE DE PANTERA (1944, foto) não fosse tão bom quanto os demais, pelo menos eu estava preparado para ver um filme de terror. E não um filme infantil com temática sobrenatural, que é o que Gunther von Fristch e Robert Wise fizeram. Por outro lado, esse aspecto desconcertante não deixa de ser interessante. O problema é que senti falta do veneninho habitual do gênero. Na trama, menina que costuma ser vista como estranha na escolha passa a ver o fantasma de uma mulher (Simone Simon, do filme anterior), que se torna a amiga "imaginária" dela. Confesso que é uma das continuações mais estranhas que já vi, pela total mudança de tom. Mas não deixa de ter o seu charme justamente por isso.

O PEQUENO FUGITIVO (Little Fugitive)

Considerado hoje um filme que influenciou OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, O PEQUENO FUGITIVO (1953), assinado a seis mãos por Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin, tem sido redescoberto ultimamente e com direito, inclusive, a uma cópia novinha em DCP da restauração, que pude ver em um festival promovido pelo Cinema do Dragão, no início do ano. Na trama, o pequeno Lennie é enganado pelo irmão mais velho e seus amigos, e acredita que matou acidentalmente o próprio irmão, e que por isso precisa fugir da polícia para não ser preso. E isso acontece no intervalo de tempo em que a mãe deles teve que viajar. Assim, o pequeno Lennie segue sem rumo com alguns poucos trocados na mão e sem que o irmão soubesse até certo ponto, indo parar num parque de diversões de outra cidade. Lá ele vai aprendendo sozinho as relações de troca e a sobrevivência, que ainda é muito atrelada à vontade de brincar. O ator que interpreta Lennie, Richard Brewster, é um achado. Ele ganha o filme e o espectador. Foi seu único papel no cinema.

O ESPÍRITO DA COLMEIA (El Espíritu de la Colmena)

Na época do lançamento de O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo Del Toro, muito se falava de O ESPÍRITO DA COLMEIA (1973), de Victor Erice. E eu fiquei curioso pra conhecer este cultuado filme espanhol que tem um lirismo muito bonito. Até pensei em revê-lo, pois não entrei muito no clima quando o vi (acho que é preciso ver em outra ocasião, com o corpo mais aceso e com mais atenção), mas demorei tanto pra escrever a respeito, que achei melhor deixar minhas impressões logo aqui antes que esqueça o pouco que lembro. O filme se passa na década de 1940, quando uma garotinha de sete anos (Ana Torrent) fica impressionada com uma exibição de FRANKENSTEIN, de James Whale, e passa a viver dentro de seu próprio mundo de fantasia. A história acontece logo após o fim da Guerra Civil Espanhola, quando o país está ainda tentando juntar os cacos, e esse contexto político é também interessante, embora não tanto quanto o universo interior e poético da garotinha. Se bem que há quem diga que a trama-base é uma alegoria para esse contexto político.

TRASH – A ESPERANÇA VEM DO LIXO (Trash)

Deixando o mais fraco para o final, TRASH – A ESPERANÇA VEM DO LIXO (2014), de Stephen Daldry, não deixa de ser uma obra interessante para que o brasileiro veja a visão do estrangeiro em relação a ele. Até porque Daldry já havia provado ter boa mão para dirigir filmes com crianças, como foi o caso de BILLY ELIOT (2000) e TÃO FORTE E TÃO PERTO (2011). Ainda que TRASH conte com as participações de Wagner Moura e Selton Mello (que está ótimo como um policial malvadão), o filme é mesmo dos três garotos desconhecidos que descobrem algo no lixo que podem mudar suas vidas. Aliás, já muda de imediato, pois eles passam a ser procurados pela polícia corrupta, para tentar fazer algo que eles julgam ser certo. Não deixa de ser um interessante conto moral contado à maneira estrangeira e com um bom andamento e belíssima fotografia. Do elenco internacional, destaque para Rooney Mara e Martin Sheen.

quinta-feira, abril 09, 2015

CADA UM NA SUA CASA (Home)



Perto da Disney e da Pixar, a Dreamworks Animation ainda é uma concorrente pequena. Mas ao ver filmes como COMO TREINAR O SEU DRAGÃO (2010) e sua continuação (2014), comecei a acreditar que o estúdio está evoluindo bem, além de continuar trazendo astros famosos para dublarem os personagens e servirem de chamarizes para a audiência, embora isso não se reflita no mercado brasileiro, já que praticamente todas as cópias chegam dubladas. Aqui em Fortaleza, uma única sala (VIP), numa única sessão, oferece a oportunidade de ver CADA UM NA SUA CASA (2015), o novo filme do estúdio, legendado com áudio original. Mas aí é ter que desembolsar uma grana preta pra isso.

Mesmo vendo o filme em sua versão dublada, porém, apesar dos traços simples do extraterrestre Oh, é possível muito bem perceber o quanto copiaram o sorriso do dublador Jim Parsons (o Sheldon de THE BIG BANG THEORY), emprestando um pouco da persona que criou para a popular série de tevê neste simpático personagem que também tem problemas em entender os códigos sociais. No caso de sua raça alienígena, Oh é sociável até demais para sua turma, o que faz com que ele se torne rejeitado pelos demais, ainda que ele seja muito ingênuo para perceber isso.

Na trama, Oh faz parte de uma raça de alienígenas chamados Boovs que resolvem invadir o planeta Terra. Para eles, os humanos são seres bem inferiores e basta que eles sejam abduzidos e colocados todos num mesmo lugar que o planeta se torna livre para os novos habitantes. Graças às tentativas de Oh de socializar com seus colegas, ele acaba causando um alarme quando possibilita, supostamente, que os principais inimigos de sua raça descubram onde os Boovs estão. Resultado: Oh se torna persona non grata entre seus pares. Ou melhor: ele acaba sendo procurado como criminoso.

No meio da fuga, ele encontra uma adolescente que por acidente conseguiu não ser abduzida e que quer encontrar sua mãe. Tip, dublada por Rihanna, é uma bela jovem negra e de cabelos encaracolados, e que só por esse aspecto já merece um crédito da produção, já que, além de tudo, a personagem é adorável e emocionalmente rica, passando por momentos de raiva, tristeza, alegria, coragem etc. Essa questão das emoções é algo novo para Oh, que descobre também os efeitos da música sobre o corpo e o espírito, além de também passar a entender e valorizar os afetos.

Trata-se de uma mensagem bastante simples, mas que funciona num filme dedicado a crianças de todas as idades. Há até alguns momentos genuinamente emocionantes dentro de uma trama que gira em torno principalmente na construção do relacionamento entre Oh e Tip, embora a missão dos dois e as aventuras no meio do caminho também contribuam para a boa fluidez da narrativa.

CADA UM NA SUA CASA, mesmo em sua versão 2D, tem efeitos interessantes que passam uma imagem de terceira dimensão. Sem falar que evita as possíveis dores de cabeça e o desconforto dos tais óculos. Entre os outros astros famosos que dublam personagens do filme estão Steve Martin, como o Capitão Smek, e Jennifer Lopez, como a mãe de Tip.

quarta-feira, abril 08, 2015

BETTER CALL SAUL – 1ª TEMPORADA (Better Call Saul – Season One)



É provável que nem mesmo os criadores soubessem o quanto daria certo este spin-off de BREAKING BAD (2008-2013), trazendo o advogado de roupas coloridas Saul Goodman (Bob Odenkirk) antes de se tornar famoso em Albuquerque como defensor das causas dos indefensáveis. Certamente, já havia uma boa expectativa quanto à recepção do público, mas o próprio público – e talvez os seus roteiristas também – não tinha ideia da ótima qualidade da produção.

BETTER CALL SAUL (2015) começa com a expressão triste de um envelhecido Saul Goodman relembrando o seu passado, quando ainda usava o seu verdadeiro nome, Jimmy McGill, e conseguiu o seu diploma de advogado por correspondência, em uma universidade de pouco prestígio, mas que não deixou de ser uma surpresa para muitos, inclusivo para o seu irmão Chuck (Michael McKean), um personagem interessante, que na maior parte do tempo se vê enclausurado em sua própria casa, com medo de qualquer objeto elétrico ou eletrônico e da própria luz do sol.

Quem também aparece e é muito bem-vindo na série é Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), o ex-policial que aprendemos a gostar em BREAKING BAD. Há um episódio especial dedicado ao Mike, quando sabemos os motivos pelos quais sua carreira foi por água abaixo e ele teve que passar a viver em subempregos ou aceitar trabalhos perigosos, até porque coragem não lhe faltava. O personagem Mike é muito querido por juntar dois aspectos opostos: a dureza do espírito e o lado amoroso e humano.

Mas a menina dos olhos de BETTER CALL SAUL (pelo menos pra mim) é mesmo a encantadora advogada Kim Wexler (Rhea Seehorn), amor platônico de Jimmy e que nutre por ele um carinho especial. As cenas envolvendo os dois são sempre cheias de tensão e dor escondidas sob uma tentativa de disfarçar os desejos e as frustrações.

E é de frustrações que Saul Goodman/Jimmy McGill vai sendo moldado ao longo desta primeira temporada. Experimentando um mundo em que ser honesto, na medida do possível, não lhe traz boas recompensas e traições são comuns, a queda para o “lado negro da força” já é esperada. Ainda assim, BETTER CALL SAUL não torna tão simples um possível maniqueísmo. Como o velho Mike diz em determinada cena: há bons e maus criminosos, assim como há bons e maus policiais. E é nesse estreito fio que Jimmy trafega ou é tentado a trafegar.

terça-feira, abril 07, 2015

THE SLAP



Tem dado muito certo para a televisão americana "tomar emprestado" ideias de outras séries e minisséries de outros países para compor sua própria versão, com seu ritmo próprio, com uma maior possibilidade de distribuição internacional e com mais rostos conhecidos no elenco. E nesse último quesito THE SLAP (2015) não deixa a desejar, mantendo apenas, da série original australiana (2011), Melissa George.

THE SLAP conta a história, através de oito diferentes perspectivas em oito episódios, das consequências de um tapa dado por um adulto em uma criança durante um churrasco familiar. O adulto é Harry, vivido por Zachary Quinto, um homem de sangue quente e com tendências irascíveis que toma o bastão de beisebol de um garoto com tendências hiperativas. A mãe, Rosie (Melissa George), faz questão de criar uma confusão em torno do incidente, que vai se agravando e deixando as pessoas que lá estavam presentes em posições desconfortáveis.

Mas o interessante de THE SLAP é que o drama individual de cada personagem, principalmente quando não muito relacionado à briga entre Harry e Rosie, é que torna a minissérie mais envolvente. Pelo menos é assim que a gente sente ao ver os episódios centrados em Aisha (Thandie Newton), Anouk (Uma Thurman) e Connie (Mackenzie Leigh), não por acaso três mulheres.

Como a minissérie tem essa pegada mais feminina, isso acaba contribuindo para que esses episódios (que levam os nomes das personagens) sejam mais interessantes. E como não dá pra ficar o tempo todo discutindo a questão do tapa, as vidas particulares dessas personagens, que vão se descortinando pra gente, tornam-se mais atraentes, como pequenos filmes. O episódio de Aisha talvez seja o mais surpreendente, até por tirá-la da situação de mulher traída e passiva e colocá-la numa situação mais ativa.

THE SLAP também consegue fluir bem em seu estilo melodramático, com recurso de pianinho constante ao fundo, e chegar a uma conclusão satisfatória para ambos os lados da discussão. A minissérie é sólida no que se refere à construção dos personagens e isso é o que mais importa. Mais do que as histórias em si, embora elas sejam também necessárias. Curiosamente, há um narrador em apenas quatro episódios. A que se deve o sumiço dessa voz narrativa nos demais?

segunda-feira, abril 06, 2015

FRANCISCA



Não devia ser fácil viver em meados do século XIX, quando as tintas lúgubres do Romantismo perturbavam os espíritos de homens e mulheres. Vendo FRANCISCA (1981), de Manoel de Oliveira, fica-se com a impressão de que esse tenha sido um período ainda mais difícil para as mulheres, que só serviam para os homens de espírito romântico se colocadas num pedestal ou se exemplos de amor impossível ou platônicos. Esse é um dos dramas de Fanny/Francisca (Teresa Menezes), personagem-título desta obra-prima de Manoel de Oliveira, grande homem e cineasta que nos deixou aos 106 anos de idade, no último dia 2 de abril.

FRANCISCA (1981) não foi a única adaptação de uma obra de Agustina Bessa-Luís feita por Manoel de Oliveira. Foi apenas a primeira. Seguiram-se em seguida: VALE ABRAÃO (1993), INQUIETUDE (1998), O PRINCÍPIO DA INCERTEZA (2002) e ESPELHO MÁGICO (2005). FRANCISCA é adaptação do romance Fanny Owen, de 1979, que trata de um caso envolvendo José Augusto, um amigo do escritor Camilo Castelo Branco, e seu objeto de seu desejo, Fanny, uma jovem inglesa que vivia em Portugal.

Vale destacar que ver o filme na cópia existente atualmente na web não é tarefa fácil. Seja por causa da própria fotografia, que tende para a escuridão, seja pela qualidade do DVD original, isso acaba sendo um obstáculo para quem quer ver um filme de cerca de 2h40 minutos de duração. Logo, é preciso um pouco de paciência. Até porque o filme fica mais interessante mesmo quando Fanny se faz mais presente na trama.

Antes disso, vemos muitas conversas entre Camilo e José Augusto. Embora Camilo acolha José Augusto em sua casa, para que ele não morra de depressão, o escritor costuma falar do amigo pelas costas, tanto para outros amigos, quanto para a própria Fanny, que sente logo um interesse por aquela figura esquálida e depressiva. Segundo Camilo, é melhor que ela se afaste de José Augusto, pois se trata de um homem sem alma, que costuma envenenar o espírito das pessoas e do ambiente em que circunda. E de certa forma, ele tinha razão.

O momento da fuga de Fanny com José Augusto é a primeira vez em que a trilha sonora se mostra não apenas solene, mas próxima da de um filme de horror, acentuada ainda mais pela negritude da noite e da floresta que os acolhe. Quanto à moça, não é difícil afeiçoar-se a ela e também se solidarizar por seu amor por um homem cujos sentimentos por ela são confusos.

Daí entramos na questão levantada no primeiro parágrafo, sobre o quanto as mulheres, criaturas mais amorosas e também mais práticas, se veem reféns de homens perturbados, cujo espírito romântico servia mais para atrapalhar do que para ajudar no relacionamento. No caso, entram também uma questão envolvendo uma carta, o passado de Fanny e o orgulho e o ego feridos de José Augusto.

Manoel de Oliveira narra essa tragédia em tons performáticos, com os atores encenando como num teatro, com ar grave e pausas dramáticas. Há um delicado cuidado com os enquadramentos, sendo a grande maioria dos planos estáticos, parecendo pinturas em movimento, pinturas cujo teor de preto é predominante. É também mais um exemplar de obra cuja palavra falada é extremamente valorizada. E isso acrescenta ainda mais poesia ao todo.

domingo, abril 05, 2015

VÍCIO INERENTE (Inherent Vice)



Ver VÍCIO INERENTE (2014) e presenciar a coragem de Paul Thomas Anderson em apresentar um filme tão pouco acessível a grandes audiências como esse faz a gente pensar que talvez estejamos vivendo num momento especial do cinema americano, em que a questão do autor, que se mostrou explícita durante o nascimento da chamada Nova Hollywood, parece estar voltando com força com esta nova geração de cineastas independentes, dispostos a romper com algumas convenções, e tendo um senso de autoconfiança impressionante.

A trajetória de Anderson já é, por si só, das mais interessantes e curiosas. Tendo apenas sete longas-metragens no currículo, alguns filmes são mais acessíveis, ainda que bastante admiráveis, como BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997) e SANGUE NEGRO (2007), dois filmes que têm algo de grandiloquentes, ainda que não tanto quanto MAGNÓLIA (1999). Mas são trabalhos que conseguem dialogar com um público maior, ao contrário de O MESTRE (2012) e este novo VÍCIO INERENTE, cujo maior problema é ser quase impalpável.

Mas o que pode ser um problema para alguns, pode ser uma qualidade e o grande charme do filme para outros. Levando em consideração que ele levou para as telas uma adaptação de um romance de um escritor tido como inadaptável (Thomas Pynchon), até que ele se saiu muito bem. Há tantas cenas memoráveis e um senso de humor tão próprio em VÍCIO INERENTE, que é difícil encontrar paralelos no cinema recente. Talvez a comparação maior seja com À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, que também faz questão de ser um filme com uma trama quase incompreensível, de tão intrincada.

Em VÍCIO INERENTE, é entrar ou não na viagem. De repente, os efeitos da maconha do personagem de Joaquin Phoenix podem funcionar para alguns e para outros causar uma bad trip. Difícil é lidar com esse convite ao relaxamento no que concerne à história, ao mesmo tempo que também temos um convite à reflexão sobre as mudanças que passou a sociedade americana, da década de 1970 para os dias atuais. Se isso for mesmo uma das intenções de Anderson.

Na complicada trama cheia de personagens de VÍCIO INERENTE, Phoenix é Larry "Doc" Sportello, uma espécie de detetive particular maconheiro que tem sua vida virada do avesso com o aparecimento de uma ex-namorada por quem ele ainda nutre muito amor, vivida por Katharine Waterston, nunca vista tão sexy. A cena em que ela aparece na casa de Doc parece uma ilusão e ela se mostra também impalpável nesse momento.

A partir daí começa a jornada de Doc para encontrá-la, ao mesmo tempo que surgem novas e confusas subtramas, envolvendo um policial violento (Josh Brolin), um homem negro que vem contratar seus serviços (Michael Kenneth Williams), uma atendente de uma casa de massagem especializada em sexo oral (Hong Chau), uma policial-amante (Reese Witherspoon) e um sujeito dado como desaparecido, mas que reaparece em vários ambientes só para complicar ainda mais a história (Owen Wilson).

É mais ou menos nesse saco de gato que nos vemos envolvidos. E isso não é nem a metade da quantidade de personagens que surge ou é citado ao longo deste filme surreal, que acompanha o ponto de vista confuso de seu protagonista com a coragem de quem quer dar a cara a bater.

Conforme algumas análises, VÍCIO INERENTE seria mais um filme do diretor sobre o fracasso do sonho americano e o fim das utopias, com direito a citações a Charles Mason e a Santa Ceia, transformada em uma mesa com um grupo de hippies comendo pizza. É Anderson mais uma vez fazendo uma viagem aos anos do amor livre, mas sem deixar de se conectar com os dias atuais.

sábado, abril 04, 2015

VELOZES & FURIOSOS 7 (Furious 7)



Uma diferença e tanto quando sai um diretor de segunda categoria como Justin Lin, que vinha com a franquia Velozes e Furiosos desde o terceiro filme da série, e entra um cineasta mais habilidoso, ainda que venha de outro tipo de filme de gênero, no caso os filmes de horror, James Wan. E o curioso disso é que Lin, mesmo não sendo tão bom, tem cada vez ganhado mais prestígio, desde assumir a direção de episódios da segunda temporada da conceituada série TRUE DETECTIVE até a ser contratado para dirigir o próximo filme da franquia STAR TREK.

Mas voltemos a Wan, cineasta que veio de filmes de horror de baixo orçamento, sendo o melhor deles INVOCAÇÃO DO MAL (2013), e sua incrível habilidade em tornar algo que era uma espécie de cinessérie B de orçamento inchado (por ter excelente retorno financeiro) e fazer um filme de qualidade, cujo orçamento alto, chegando perto dos 200 milhões de dólares, segundo algumas fontes, dá mesmo a impressão de que todo esse dinheiro foi bem empregado.

As cenas de ação são orgânicas, o impacto dos carros parece quase sempre real, o uso de CGI é disfarçado e há um interesse em tornar essas cenas "realistas", por mais absurdas que elas sejam. Mas eis a graça do filme: o seu exagero no modo como lida com os excessos e com a própria inverossimilhança. Afinal, não é divertido ver um carro atravessando dois prédios? Carros não voam, como diz determinado personagem. Sem falar no quanto os personagens são duros na queda em enfrentar as mais violentas batidas e sobreviver.

Falando em sobreviver, não dá pra falar de VELOZES & FURIOSOS 7 (2015) e não citar o caso da morte de Paul Walker durante as filmagens, e no quanto isso acabou funcionando tanto como uma maneira de a série ser mais levada a sério por um público maior, quanto como uma forma de gerar curiosidade por parte desse público maior em relação ao modo como resolveram modificar o roteiro do filme de modo a ajustar e a homenagear Walker, que esteve em quase todos os filmes da franquia como protagonista, junto com Vin Diesel.

Um dos pontos fracos da série ainda continua, porém, que é o uso do sentimentalismo, que parece inspirado em uma novela mexicana. Interessante Wan não ter se importado em atenuar isso. Ao contrário, os dramas dos personagens são amplificados. Não apenas por causa do personagem de Walker, mas há também o caso de Letty (Michelle Rodriguez), que havia perdido a memória no filme anterior e vive nessa situação de não conseguir lembrar mais o passado que teve com Toretto (Vin Diesel). Felizmente ou infelizmente, depende de cada um, esses momentos não chegam a ser elementos que perturbam o que mais interessa no filme, que é a ação.

E a ação, desde alguns filmes atrás, deixou de ser apenas relacionada às corridas de automóveis. Os personagens se tornaram uma equipe especializada em lidar com situações difíceis, quase como super-heróis. E nisso, Wan faz questão de tornar o papel de cada um deles bastante claro, através da fala de uma nova personagem, a hacker Ramsey, vivida pela bela Nathalie Emmanuel, de GAME OF THRONES. Ela apresenta, de maneira didática, o papel de cada elemento do grupo, o que acaba sendo de ajuda para quem nunca viu nenhum dos outros seis filmes.

Quanto à ação, a primeira a deixar o espectador rindo consigo mesmo é a dos carros saindo de dentro de um avião, com paraquedas, com o objetivo de resgatar Ramsey de um grupo terrorista. Em paralelo à missão do grupo, há o ataque constante do grande vilão do filme, vivido por Jason Stathan, que, aliás, começa muito bem, atacando o policial Hobbs (Dwayne Johnson), e fazendo com que sua vitória sobre o montanhoso ator pareça até aceitável. Statham é o sujeito que matou, por vingança, um dos membros do grupo de Toretto no final de VELOZES & FURIOSOS 6, tornando-se, portanto, inimigo número 1 da “família”.

Muito bom também o modo como o diretor (e seu montador) costura as cenas de ação, tornando-as fáceis e agradáveis de serem acompanhadas. O humor também está no ponto, graças, principalmente, ao personagem Roman, de Tyrese Gibson, mas também por causa das situações inusitadas que acontecem, como nas cenas nos Emirados Árabes Unidos, país que fornece uma locação lindíssima, aliás.

Assim, VELOZES & FURIOSOS 7 acaba sendo o filme dos sonhos de muito fã, com ação e barulho a dar com pau, personagens carismáticos e bem tratados, uma homenagem um pouco cafona mas merecida a Walker, e um trabalho com cara de produção classe A, finalmente.

sexta-feira, abril 03, 2015

O ANJO AZUL (Der Blaue Engel)



O ANJO AZUL (1930) foi o primeiro dos sete filmes que Josef von Sternberg fez com Marlene Dietrich. Minha intenção é ver todos esses trabalhos e, quem sabe, ver os demais também do cineasta, se porventura eu me encantar com sua obra. O ANJO AZUL foi realizado excepcionalmente na Alemanha (o diretor já tinha uma carreira estabelecida em Hollywood), a convite do grande astro alemão Emil Jannings, que pretendia fazer uma boa transição do cinema mudo para o falado e Sternberg lhe parecia um ótimo nome.

A fim de ampliar o mercado, O ANJO AZUL teve duas versões: uma em inglês e outra em alemão, algo que era comum no início dessa década, que ainda não acreditava no poder de expansão do cinema falado em territórios de língua estrangeira. Creio que é mais válido ver a versão em alemão, levando em consideração a nacionalidade de Jannings e Dietrich. Curiosamente, a versão em inglês, dada como perdida durante algum tempo, conta com o áudio dos próprios astros.

Havia visto um filme que parecia uma espécie de variação deste, o brasileiro ANJO LOIRO, de Alfredo Sterheim. E confesso que ainda prefiro o brasileiro. Ainda assim, foi muito bom entrar em contato com este trabalho de Sternberg, cujas tonalidades ainda trazem influências do expressionismo alemão, principalmente quando mostra o velho professor (Jannings) caminhando pelas ruelas até chegar ao clube onde Lola Lola (Dietrich) está dando seu espetáculo.

Na trama, o professor Immanuel Rath é um senhor que costuma ser alvo de chacota pelos seus alunos, embora seja um homem respeitado pela comunidade de sua pequena cidade. Certo dia, ele descobre, através de pequenos postais com a foto de Lola Lola, que ela está se apresentando como cantora (e usando roupas muito sensuais) em um clube noturno lá perto. Ele não resiste à tentação e vai visitá-la. Inclusive no camarim, onde é visto com respeito pelos membros do grupo itinerante, e também pela estrela. Não demora para que ele decida jogar tudo pra cima e se aventurar como marido dela.

Este ato de paixão cega acaba por tornar a vida do velho professor o início de uma jornada aos infernos. Mas o curioso é que O ANJO AZUL transcende o mero jogo moral de ver a cantora sensual como uma espécie de anjo do mal ou responsável pela queda de um bom homem da sociedade. O filme nunca a coloca como demoníaca ou algo do tipo. O desejo, aliado à falta de bom senso de Immanuel, é que é o seu próprio inimigo. A questão da moral também se mostra no posicionamento da câmera, no extracampo, que prefere não mostrar Immanuel em situação ainda mais decadente do que já está.

Há também um interessante trabalho de som, que, para as produções daquele período, é bastante criativo, como nas vezes em que o professor está dentro do camarim e a porta se abre e ouvimos o barulho do clube, com os artistas se apresentando e os espectadores fazendo barulho.

O ANJO AZUL ajuda bastante a entendermos o fenômeno Marlene Dietrich, ao flagrarmos a atriz ainda na casa dos vinte anos, e, portanto, sem a expressão mais grave que apareceria nas produções hollywoodianas. Destaque também para as belas pernas da moça. Apesar de as vestimentas parecerem hoje estranhas, não dá para negar o quanto deveriam ser ousadas naquela época.

quarta-feira, abril 01, 2015

CINDERELA (Cinderella)



Um dos maiores temores desta versão em live action de CINDERELA (2015) seria ser careta demais para os novos tempos. Porém, a Disney tem uma equipe de produção admirável e o resultado não deixa de ser agradável, apesar de a narrativa ser já bem conhecida de quase todas as plateias. Além do mais, é importante que novos espectadores entrem em contato com histórias em que o bem e o mal são facilmente percebidos, algo pouco comum em tempos em que os contos de fadas procuram não exagerar mais no maniqueísmo, até mesmo colocando uma vilã como anti-heroína, como foi o caso de MALÉVOLA.

Algo que salta aos olhos nesta produção dirigida por Kenneth Branagh é a requintada fotografia de cores vivas e a direção de arte primorosa. Sem falar no figurino da vilã, a malvada madrasta vivida por Cate Blanchett. Ainda nos aspectos técnicos, mas já entrando no território da gramática cinematográfica, há um uso destacado de belos travellings de distanciamento em momentos de tristeza e solidão das personagens, um recurso bem antigo do cinema, mas que ainda continua bastante válido na construção das narrativas.

Antigo, aliás, é uma palavra que se aplica bem a CINDERELA. Não há a menor intenção de fazer algo moderno nesta adaptação. Há, na verdade, uma intenção de resgatar velhos valores. Ella (Lily James, da série DOWNTON ABBEY) é uma moça doce demais, que acredita na bondade, na gentileza e na coragem, e o Príncipe (Richard Madden, de GAME OF THRONES) é um romântico que quer casar por amor com a jovem simples e bela que ele encontrou na floresta.

Como alguns momentos da história já estão bastante presentes até mesmo no nosso inconsciente coletivo, como a busca pela dona do sapatinho de cristal, o que acaba funcionando como algo verdadeiramente tocante acontece no início, isto é, momentos antes de Bella se tornar uma espécie de empregada para a Madrasta e suas duas filhas.

No mais, o filme funciona muito bem para manter viva a tradicional grife Disney, que apesar das tendências modernas que se tornaram urgentes com o surgimento da Pixar e sua compra pela empresa do Mickey, há sempre uma necessidade de se voltar para o passado dourado da produtora, quando o material mais utilizado era o dos contos de fadas.

Uma bem-vinda surpresa na sessão de CINDERELA é o curta-metragem de oito minutos FEBRE CONGELANTE, dos mesmos diretores de FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE. No curta, Elsa procura fazer uma festa surpresa de aniversário para sua amada irmã Anna, utilizando seus poderes de frio. Acontece que ela pega um resfriado. Há uma canção de aniversário tão contagiante que se fosse bastante divulgada até poderia substituir o tradicional "Parabéns pra você". O curta acaba sendo mais agradável de ver do que o longa. Apesar de algumas poucas mancadas, a Disney continua com tudo no que se refere à qualidade de suas produções. Especialmente as animações.

terça-feira, março 31, 2015

PONTE AÉREA



Muito bom ver o cinema brasileiro que circula fora do circuito alternativo trabalhando com o gênero drama de vez em quando, ao invés das já tradicionais e manjadas globochanchadas. E não há mal nenhum em colocar no elenco dois atores globais. Isso é chamariz para a bilheteria, embora a distribuidora, no fim das contas, tenha colocado o filme com poucas cópias cartaz, talvez porque a resposta do público para filmes brasileiros tem sido um tanto preconceituosa. E isso, levando em consideração um público crescente que cada vez mais tem dado preferência para filmes dublados. O que é uma pena, mas isso ao menos seria uma boa desculpa para que esse mesmo público arriscasse mais no cinema brasileiro, já que não querem ler as legendas.

Quanto a PONTE AÉREA (2015), por mais que esteja longe de ser um primor de história de amor, não faz feio diante da maior parte dos dramas românticos produzidos em Hollywood. E embora a temática possa lembrar um pouco AMOR À DISTÂNCIA, com Drew Barrymore e Justin Long, por causa da questão do relacionamento à distância do casal de protagonistas, Julia Rezende faz algo bem diferente.

Na trama, durante um transtorno causado por mau tempo em São Paulo, um voo comercial precisa fazer uma parada no aeroporto de Belo Horizonte. E é no hotel próximo ao aeroporto que Bruno (Caio Blat) e Amanda (Letícia Colin) se conhecem e têm logo um momento de intimidade. A construção dos personagens no início incomoda, como estereótipos da figura de um carioca, o sujeito que vive a vida com mais tranquilidade, e da paulistana, que vive sempre tensa com os compromissos do trabalho, mas depois a própria questão do estereótipo dos dois é, de certa forma, discutida.

Tanto as locações na Av. Paulista quanto em Copacabana encantam, cada uma à sua maneira, nos momentos em que o casal vive nesse lá e cá, provocado tanto pelo trabalho de campo de Amanda (uma publicitária), mas principalmente pelo fato de o pai de Bruno estar na UTI, em São Paulo.

Julia Rezende trabalha bem a questão das diferenças entre o casal, mas difícil não achar Bruno um tremendo de um bobão diante de uma moça tão linda e tão amável como Amanda, personificada por uma Letícia Colin no auge da beleza. Nem parece a mesma mocinha, ainda verde, da mais recente versão de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA. Além do mais, sua personagem é mais centrada, enquanto Bruno representa, de certa forma, a covardia masculina, ainda que atenuada por sua simpatia e a convincente situação de querer, ele mesmo, levar as rédeas de sua vida.

A trilha sonora contribui com algumas belas canções que costuram a narrativa com elegância e um pouco de nostalgia, mas como resistir a "Whiter Shade of Pale", do Procul Harum? É até covardia tocarem-na em determinada cena, que acaba culminando em lágrimas por parte da plateia.

Em entrevista à revista Preview, a diretora afirma que em alguns momentos Letícia Colin chorava nas filmagens e Julia Rezende tinha que pedir para ela segurar o choro até o momento certo. E essa entrega ao papel é percebida, principalmente nos momentos de crise do casal. Ou numa cena de reencontro. Quem já passou por algo parecido na vida certamente vai se identificar ou até sentir um pouco de déjà vu. Por isso, não seria exagero afirmar que a mesma diretora da comédia MEU PASSADO ME CONDENA – O FILME (2013) acertou a mão neste registro mais dramático e mais afetivo das relações humanas.

segunda-feira, março 30, 2015

THE WALKING DEAD – 5ª TEMPORADA COMPLETA (The Walking Dead – The Complete Fifth Season)



Nada como um grande episódio de abertura de temporada para que uma série volte a causar entusiasmo em seus fiéis apreciadores. É o caso do excelente “No Sanctuary”, o melhor episódio da série até então. A boa notícia é que melhores viriam nesta temporada que representa o ponto alto da mais famosa série de zumbis da televisão.

Para completar a festa, a Fox brasileira resolveu exibir a season finale da quinta temporada de THE WALKING DEAD (2014-2015) simultaneamente com os Estados Unidos. Na verdade, deveriam fazer isso sempre. Isso diminuiria a caça aos downloads e aumentaria, consequentemente, a audiência da televisão por assinatura. Espera-se que eles tenham aprendido com essa experiência. (Antes de começarem a ler os parágrafos seguintes, um aviso: o texto contém vários spoilers.)

Quem achava que a procura pelo Santuário na temporada anterior e seu consequente encontro seria o tom de praticamente toda a temporada teve uma baita surpresa já no primeiro episódio, que se encerra com sangue e violência nunca vistos antes na série e deixa espaço para que o grupo de Rick fique no meio do nada novamente, sujeitos a novas aventuras e novos perigos.

Outro episódio antológico viria mais adiante, o do massacre na igreja, que faz o sangue da gente ficar intoxicado. E o que dizer do grupo de canibais que comem a perna de um dos membros do grupo? Aquilo ali revirou o estômago de muita gente. E THE WALKING DEAD não perdeu a sua tradição de matar alguns de seus heróis, ainda que o núcleo-base permaneça vivo. Se bem que o núcleo-base já foi outro temporadas atrás. Por isso, todo cuidado é pouco. Por isso temos que ter cuidado para não perdermos Glenn ou, principalmente, Maggie. A dor de perder Beth já foi intensa.

Os episódios de 2014, que podemos chamar de lado A, oferecem bem mais ação que os do lado B, de 2015, mais centrados na zona segura de Alexandria, um novo local que o grupo encontra, mas que representa também muitos conflitos internos entre o grupo do Rick e o grupo de lá. E isso acaba rendendo momentos bem excitantes, como quando Rick briga com o marido de uma mulher por quem se interessa.

Essa química entre os dois grupos mostra o quanto os nossos heróis ficaram fortes e preparados para enfrentar praticamente qualquer ameaça. É um grupo que cresceu um bocado e que tem agora alguns personagens de pouca expressividade, mas eles devem funcionar bem como bucha de canhão para os zumbis na próxima temporada.

A quinta temporada também apresenta o episódio mais depressivo de toda a série, que lida com a morte de dois personagens queridos. Chama-se “Them” e funciona como uma espécie de respiro misturado com angústia para um novo lote de aventuras e perigos que viriam. E apesar de personagens como Carol, Daryl, Michone e Glenn continuarem fortes, ninguém consegue tirar o brilho do líder Rick, o grande herói problemático da série.

sábado, março 28, 2015

A SÉRIE DIVERGENTE – INSURGENTE (Insurgent)



Das atuais cinesséries destinadas ao público juvenil, a franquia Divergente é uma das mais respeitadas e rentáveis. Não chega a ser nem tão boa nem tão rentável quanto Jogos Vorazes, embora tenha o seu charme. Principalmente nesta segunda parte, em que há vários momentos que se assemelham a animes/mangás, como no momento em que Trisha (Shailene Woodley) tem o seu corpo preso a fios e é obrigada a passar por determinados estágios mentais para provar certa teoria da maquiavélica diretora da Audácia, Jeanine, vivida por Kate Winslet.

Falando em Kate Winslet, um dos aspectos positivos desta segunda parte, INSURGENTE (2015) é não pintar a sua personagem excessivamente vilanesca como no primeiro filme. Nisso pelo menos o diretor Robert Schwentke soube melhorar. E outra atriz de renome que traz mais tons de cinza ao enredo é Evelyn, a líder dos Sem-Facção, vivida por Naomi Watts. Só a presença dessas duas respeitadas atrizes já passa certo ar de prestígio à franquia, embora isso não seja nenhuma garantia de qualidade.

Fazendo uma rápida retrospectiva, o primeiro filme, DIVERGENTE (2014), nos apresentou a uma cidade sobrevivente de uma suposta grande guerra que vive sob o domínio de regras nas quais as pessoas são divididas em cinco categorias. E para isso foram criados cinco grupos responsáveis em manter aquele ambiente em harmonia. São eles: Erudição, Audácia, Amizade, Abnegação e Franqueza. (No segundo filme, o trabalho desses cinco grupos fica mais claro para quem não leu os livros e apenas acompanha pelos filmes.)

E é neste ambiente que conhecemos Trisha, que descobre ser uma divergente, isto é, tem dentro de si elementos de mais de uma facção, o que significa perigo para aquela sociedade. Mesmo assim, alguém a salva de ser presa durante o exame médico e ela escolhe fazer parte da comunidade da Audácia, deixando o lar de seus pais, pertencentes à Abnegação. Depois de uma série de incidentes que não vale a pena contar aqui, no final do primeiro filme ela e mais três outros fogem das garras dos soldados de Jeanine.

Infelizmente, o que predomina em INSURGENTE é o andamento um tanto arrastado e pouco interessante para uma produção do tipo. O que dá uma ideia do que pode vir por aí no terceiro e no quarto filmes, que mais uma vez serão adaptações de um só livro divididos em parte 1 e parte 2. Herança dos efeitos nocivos da série Harry Potter, que acabou revelando uma saída espertíssima para ganhar mais dinheiro dos espectadores. Se INSURGENTE já é problemático em questão de ritmo, o que dizer do que virá em CONVERGENTE, em suas duas partes? O gancho deixado abre espaço para uma série infinita de possibilidades, mas será que conseguirão fazer algo digno com a mesma equipe criativa?

Ao menos a entrada da personagem de Naomi Watts deu uma refrescada na trama. Além do mais, não dá pra acusar a série de ser maniqueísta, já que há personagens que se revelam diferentes do esperado na trama, em especial os vividos por Miles Teller (que está muito bem, ainda mais depois que ganhou grande visibilidade por causa de WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO) e em menor grau Ansel Elgort (A CULPA É DAS ESTRELAS). Já Theo James, como o Quatro, é o típico herói bonito e sem defeitos que funciona mais para agradar as meninas, além de ter também função de salvador em algumas cenas de ação e interesse romântico da heroína.

P.S.: Sou só eu que acho ridículo esses títulos brasileiros, que colocam o nome do primeiro filme como se o público deixasse de conhecer se não estivesse lá? Seguindo o rastro de A Saga Crepúsculo, agora temos que aguentar A Série Divergente... Coisas do mercado medroso.

quarta-feira, março 25, 2015

GIRLS – A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Girls – The Complete Fourth Season)



Começa a temporada de primeiras séries encerrando seus trabalhos neste ano de 2015. E é justamente uma das séries mais queridas que acaba logo, com seus curtos episódios de 30 minutos (alguns até menos) e só 10 por temporada. Mas se é para o bem da qualidade do produto de Lena Dunham (a criadora e protagonista) e do produtor executivo Judd Apatow, que assim seja.

A quarta temporada de GIRLS (2015) começou não tão animadora quanto as demais. Aliás, o primeiro episódio foi até bem interessante. É aquele em que Hannah (Dunham) se despede de seus amigos para estudar numa universidade em Iowa, lugar tão calmo e com pessoas tão diferentes de uma nova-iorquina que obviamente ela se sente como um peixe fora d'água. Sem falar que está longe do namorado Adam (Adam Driver) e de suas três melhores amigas, que se mostram cada vez mais distantes, vivendo suas próprias vidas e batalhando por seu próprio espaço.

Pouco sabemos de Adam durante este período e Hannah também fica meio perdida por causa disso. Ao mesmo tempo, acompanhamos a jornada tortuosa da adorável Jessa (Jemima Kirke) e da piradinha Shoshanna (Zozia Mamet). Quem está vivendo uma vida profissional mais ou menos certa é Marnie (Alison Williams), como cantora. Inclusive, logo no primeiro episódio somos brindados com uma cena de beijo grego envolvendo ela e o namorado cantor e parceiro que deu o que falar.

Mas isso não faz de Marnie a mais adorável das meninas. Ao contrário: com o relacionamento que tem com esse sujeito, ela segue sendo a menina mais irritante das quatro. Por outro lado, cada vez gostamos mais de Hannah, cheia de frases espirituosas e tão carente de afeto que dá vontade de abraçá-la.

Outra marca desta ótima quarta temporada é que testemunhamos o episódio mais engraçado da série: o que tem a tal cena do piercing. E GIRLS nem é série pra você ficar gargalhando, mas dessa vez eles conseguiram isso sem fazer muito esforço.

E a coisa vai ficando também divertida com a história da orientação sexual do pai de Hannah. Os pais dela me fazem lembrar os pais dos personagens de SEINFELD. Seria uma versão para os anos 2010 da melhor sitcom ever. Teria GIRLS mais a ver com SEINFELD do que com SEX AND THE CITY? Começo a achar que sim, apesar de tantas diferenças.

No mais, Jessa continua ainda mais adorável com seu jeito "não mexe comigo, vão tomar no %$!", enquanto Adam e Alex (Ray Ploshansky) seguem suas trajetórias ascendentes na série. Dois novos personagens (que talvez nem voltem na quinta temporada) surgem e são muito bem-vindos, enquanto dois outros conhecidos da série retornam para a emocionante season finale, "Home Birth". Outros episódios memoráveis: "Ask My Name" e "Daddy Isues".

sexta-feira, março 20, 2015

MAPAS PARA AS ESTRELAS (Maps to the Stars)



Há diretores que, mesmo tendo perdido uma legião de fãs devido a suas escolhas, continuam ainda fiéis a si mesmos, ao seu cinema autoral. David Cronenberg é um desses casos. Desde MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) que o diretor tem trazido para a vida real aquilo que antes era ficção científica e horror. A tão anunciada "nova carne" de VIDEODROME – A SÍNDROME DO VÍDEO (1983) chegou. O futuro é hoje. E isso nunca se manifestou de maneira tão forte quanto em MAPAS PARA AS ESTRELAS (2014).

O mundo estranho da filmografia de Cronenberg se fundiu com o mundo estranho da nossa contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade doente, e que está se acostumando ainda com esse fato. Mas Cronenberg parece bem à vontade com esse novo momento. Em uma das cenas de MAPAS PARA AS ESTRELAS, o personagem de Robert Pattinson, um chofer que sonha em ser ator em Hollywood, fala para a personagem de Mia Wasikowska, uma jovem piromaníaca com o rosto marcado por queimaduras e pelo fato de ter causado mal à sua família no passado, que ela é muito louca. Ela diz algo como "e daí?".

As fronteiras entre a loucura e a sanidade nunca estiveram tão borradas quanto nos dias de hoje e Cronenberg faz de uma família rica de Hollywood a representação da atualidade. John Cusack é o patriarca, um sujeito que ganha dinheiro como uma espécie de guru de autoajuda, enquanto a esposa (Olivia Williams) vive preocupada com o filho adolescente (Evan Bird), que, apesar da idade, já é veterano em clínicas de reabilitação e sofre o mal de quem é mimado e idolatrado desde pequeno.

A filha expulsa de casa da família, que adora tocar fogo nas coisas e toma várias caixas de comprimidos para evitar ter uma recaída novamente, está de volta a Los Angeles. Consegue com Carrie Fisher (interpretando ela mesma) um cargo de assistente de uma atriz famosa mas atormentada (Julianne Moore) por visões da jovem mãe, que morreu em um incêndio. Seu sonho atual é interpretar uma nova versão de um filme que a mãe fizera na década de 1960, mas não é fácil lidar com o mundo tortuoso das negociações de Hollywood.

Outro cineasta talvez tornasse MAPAS PARA AS ESTRELAS em algo mais fantasmagórico, menos cientificista. Mas estamos falando de Cronenberg e muito provavelmente sua intenção é se encaminhar mais para o campo da ciência ao lidar com as alucinações de seus personagens, reflexo do cada vez mais crescente aumento de casos de problemas psíquicos graves e perturbadores.

O gosto pela violência e pelo gore presentes desde alguns dos primeiros trabalhos do diretor marca presença também em MAPAS, embora aqui seja necessário um pouco mais de paciência por parte do espectador, tendo em vista a semelhança de andamento com seu trabalho anterior, COSMÓPOLIS (2012), que chegou a enxotar muitos incautos da sala de cinema. Porém, pode-se dizer que MAPAS é mais acessível e aparentemente menos complexo, embora ofereça uma abertura imensa de possibilidades de discussão, tanto no que concerne ao cinema do próprio diretor quanto no diálogo com o mundo atual.

quarta-feira, março 18, 2015

INSUBORDINADOS



INSUBORDINADOS (2013), de Edu Felistoque, trata do vazio da vida e a fuga através das memórias de infância e principalmente por meio da ficção, que funciona não somente para diminuir o tédio, mas também como forma de se “outrar”, de deixar de ser, nem que seja pela via da imaginação, uma pessoa com uma vida comum para ser alguém com uma vida cheia de emoções, uma delegada de polícia, no caso.

No filme, Sílvia Lourenço é Janete, uma jovem mulher que acompanha o pai em estado de coma em um hospital. Vivendo sozinha e praticamente sem sair daquele ambiente, ela passa as horas vagas escrevendo um romance policial. Nesse romance, acontecem as aventuras de Diana, delegada de polícia, sua alter-ego, e também de seus parceiros Bete, Carlão e Latrina. Aos poucos, a ficção vai se tornando mais presente tanto no filme quanto na vida de Janete.

A entrevista que abre o filme, de Janete, personagem de Sílvia Lourenço, com uma senhora que gosta de filmes de horror, dialoga com o tom geral da narrativa, com sua atmosfera, que parece mostrar a personagem numa espécie de purgatório. Lembremos que a mulher da entrevista afirma que quando morrer desejaria ficar aqui na Terra mesmo, ajudando sempre que possível àqueles que ela ama.

A cena da entrevista, inclusive, é a que mais acena para um tom documental, ao mesmo tempo em que se passa dentro do hospital. Sabemos que a primeira cena de um filme diz muito de suas intenções. Portanto, seria algo importante a se considerar neste trabalho.

Um trabalho em que a realidade e a ficção oferecem diferentes tons de interpretação também. Enquanto a vida no hospital traz uma interpretação mais naturalista, a narrativa do livro de Janete lembra alguns filmes noir, com uma voice-over que remete a romances policiais baratos e que nos apresenta ao seu alter-ego, a policial Diana, além dos demais personagens que fazem parte da série BIPOLAR (2010), exibida no Canal Brasil e na Warner, e cujas cenas foram costuradas de modo a formar SUBORDINADOS.

A solidão de Janete, no início do filme, é acentuada pelo movimento de câmera que nos distancia dela e nos apresenta à cidade de São Paulo, à noite. Por isso o vazio da vida de Janete requer essas fugas. O curioso (e ao mesmo tempo triste) é quando ela encontra uma fagulha de esperança de melhorar sua vida, como quando ela paquera com o rapaz no hospital e depois festeja a troca de olhares ao marcar um encontro de sua personagem (Diana) com uma representação desse rapaz na ficção. “A vida finalmente tava mudando de cor”, ela celebra.

Porém, o desencanto, que já havia sido antecipado pela possibilidade de o rapaz ser um procurado pela polícia, mostra o quanto ela tinha perdido as esperanças na vida. Esse, aliás, é o momento em que podemos louvar o belo trabalho de edição, uma tão difícil costura das novas cenas no hospital com cenas gravadas cinco anos atrás.

No filme, a solidão invade as personagens da ficção de Janete (Diana, Carlão e Latrina), como se ela não conseguisse fugir dela nem mesmo através da arte. Só as memórias, essas sim, garantidas, aparecem em cores, como se a felicidade estivesse apenas no passado, ao contrário do presente cinza e asséptico do hospital e da presença do pai em coma.

Repara-se que aos poucos a ficção criada por Janete vai se tornando mais interessante ao longo do filme. No início, o artificialismo parece atrapalhar um pouco o envolvimento. Depois, a narrativa policial se torna mais envolvente, ao mostrar mais a vida dos personagens em separado do que as investigações.

INSUBORDINADOS pode ser visto como o retrato do homem pós-moderno, esse ser fragmentado e solitário que busca formas de atingir um pouco de paz de espírito. O título do filme talvez remeta a esse homem pós-moderno, representado por uma jovem mulher e sua necessidade de não estar subordinada à realidade. Uma realidade que ela mesma questiona em certo momento. Seria a realidade uma coisa inventada por nós mesmos? Não deixa de ser uma pergunta interessante.

P.S.: Tive o prazer de participar de um debate após a sessão do filme, no Cinema do Dragão, com a atriz e roteirista Sílvia Lourenço, uma simpatia de pessoa.

domingo, março 15, 2015

GOLPE DUPLO (Focus)



O mundo se tornou um lugar melhor quando Martin Scorsese nos revelou o talento e a beleza de Margot Robbie, australiana nascida sob o signo de Câncer que encantou meio mundo em O LOBO DE WALL STREET e passou direto para a primeira divisão de Hollywood, protagonizando com Will Smith esta comédia com toques de drama e suspense dirigida pela dupla Glenn Ficarra e John Requa, os mesmos de O GOLPISTA DO ANO (2009) e AMOR A TODA PROVA (2011), filmes que também equilibravam suas características de comédia com situações dramáticas. E Margot foi tão bem em GOLPE DUPLO (2015), que já está na agenda dos mesmos diretores para um novo filme, FUN HOUSE, a estrear no ano que vem.

Em GOLPE DUPLO, ela é Jess, uma moça que se beneficia de sua beleza e sensualidade para aplicar golpes. Acontece que ela dá de cara com um dos maiores golpistas dos Estados Unidos, Nicky, vivido por Will Smith. Na primeira tentativa de enganá-lo, o experiente golpista já saca a brincadeira e desmascara os amadores. Ela procura, então, pedir que ele a ensine a se tornar também uma profissional do ramo. E depois de hesitar um pouco, ou pelo menos fazer um pouco de charme, Nicky a aceita no grupo. Aliás, a aceita como namorada. Se bem que aceitar não é bem o verbo certo em se tratando de Margot Robbie/Jess. Ela é tão adorável e linda que é difícil demais não ficar apaixonado.

GOLPE DUPLO é dividido em duas partes. A primeira parte é certamente a mais divertida, a que mostra o início do relacionamento dos dois e os primeiros golpes. No cinema, é impressionante como nos solidarizamos com essas criaturas detestáveis, que são os ladrões. No cinema está liberado. Afinal, o que eles roubam é apenas dinheiro. Ou coisas que possam ser trocadas por dinheiro. E o tom leve que o filme adota também ajuda.

Não dá pra dizer que é um filme sem falhas. Há alguns buracos na trama, mas isso é tão fácil de relevar quando o resultado final é de deixar você sair com um sorriso de orelha a orelha. Sem falar nos momentos dramáticos e de tensão. O que dizer da cena do "chinês" no jogo de futebol americano? Certamente é um dos pontos altos do filme. Talvez o ponto mais alto. Mas que também culmina com o fim do "lado A" de GOLPE DUPLO e um salto no tempo em três anos, que traz à tona, em Buenos Aires, o personagem de Rodrigo Santoro. Que não está exatamente bem. Na verdade, ele quase estraga o filme nas cenas em que aparece, mas provavelmente porque seu personagem não é bem escrito.

No lado B, Ficarra e Requa utilizam tintas um pouco mais dramáticas, incluindo aí uma possível mudança de intenções de Nicky, ao ver novamente Jess, agora em aparente situação mais confortável. Palavras como "possível" e "aparente" cabem muito bem num filme que tenta enganar, muitas vezes com sucesso, o espectador. E é como um bom show de mágica: nós gostamos de ser enganados, nesse caso. Pagamos pra isso, inclusive.

GOLPE DUPLO representa então dois fatos importantes: o retorno definitivo (espera-se) de Will Smith como protagonista de um bom filme e a definição de Margot Robbie como uma das estrelas mais importantes de Hollywood atualmente, com chances de aumentar ainda mais os holofotes em torno dela nos próximos anos, além da possibilidade de descobrirmos os seus trabalhos anteriores, nas produções australianas.

No mais, por mais que nos atentemos para os belos e inteligentes recursos narrativos, que ainda por cima não se importam de serem deliciosamente inverossímeis, tentativas de procurar uma maior profundidade no filme, como a questão paterna de Nicky, resultam um pouco frustradas. O que importa mesmo é a ótima fluidez da trama e a química de um dos casais de protagonistas mais divertidos da telona em 2015.

sexta-feira, março 13, 2015

A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie’s Choice)



Acho que nunca passei tanto tempo sem postar no blog. Em outros tempos, muita gente estaria preocupada, perguntando do meu paradeiro, mas esses tempos se foram. E a maioria das pessoas só liga mesmo para as redes sociais, anyway. Esta é a segunda postagem do mês e eu já sinto que estou mais do que enferrujado. Não recomendo para ninguém deixar de escrever por tantos dias. E como estou atrasado mesmo com todos os filmes novos, vamos de um filme "antigo" visto recentemente, A ESCOLHA DE SOFIA (1982), de Alan J. Pakula. Por ironia do destino, inclusive, acabei vendo por ocasião do mesmo trabalho que tem consumido meu tempo e minhas energias.

A primeira impressão que tive foi que eu teria gostado bem mais se o visse no cinema, na época. Esses filmes longos, mesmo os de Hollywood, se beneficiam bem mais em um estado de imersão maior. Também pensei bastante nas chamadas do SBT para o filme, e da cena que o canal destacava, que mostrava justamente o momento mais doloroso do filme, um flashback do passado da personagem de Meryl Streep. E dos poucos filmes que vi de Alan J. Pakula, tenho um carinho enorme por ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA (1990), visto no cinema.

A ESCOLHA DE SOFIA rendeu o segundo dos três Oscar de Meryl. O primeiro foi como atriz coadjuvante em KRAMER VS. KRAMER. O terceiro seria vários anos depois, com A DAMA DE FERRO. E falar de A ESCOLHA DE SOFIA sem mencionar a performance extraordinária de Meryl seria no mínimo injusto. Eu não entendo nada de polonês, mas ela convence que é uma beleza no sotaque e até na aparência de uma imigrante polonesa. Não só por isso: há toda uma relação muito especial e bonita que ela tem com o homem com quem vive junto, vivido por Kevin Kline.

Kline interpreta um sujeito de forte instabilidade mental e emocional. Passa do psicótico para o amigo pra toda hora em questão de segundos. Ele foi o homem que acolheu a imigrante que havia passado uma temporada infernal em um campo de concentração e que estava nos Estados Unidos havia pouco tempo, com a saúde debilitada por falta de alimentação adequada. Todas essas sequências que vão descortinando o passado dos personagens são especiais. E por mais que o narrador-personagem vivido por Peter MacNicol seja simpático, os personagens de Meryl e Kline são tão interessantes que MacNicol fica praticamente apagado e esquecido ao final.

Fiquei com a impressão de que o filme não envelheceu muito bem, mas ainda assim é uma obra a se ver com carinho e interesse até o fim, apesar de suas quase três horas de duração. Quer dizer, não é muito diferente de alguns desses filmes recentes do Oscar. Hollywood não mudou tanto assim.

quarta-feira, março 04, 2015

ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects)



Lembro que no início dos anos 2000 – puxa, isso já faz um tempão, hein – o Carlão Reichenbach, em suas saudosas colunas, costumava com frequência destacar alguns filmes que ele considerava merecedores de serem conhecidos. Um desses títulos recorrentes era o ESPECIAIS EFEITOS (1984), do Larry Cohen. Era uma lenda encontrar um VHS desse filme por aqui. Simplesmente não tinha. Acho que até procurei no tal sebo do Messias, em São Paulo, na vez que fui lá. E nunca foi lançado em DVD.

Hoje vivemos tempos melhores, pelo menos em termos de podermos encontrar com facilidade certos filmes. As comunidades secretas de filmes e sites de compartilhamento ajudam demais a vida dos cinéfilos, trazendo aquilo que antes custaria uma pequena fortuna. E olha que ainda não contaria com umas legendas nem mesmo em inglês, caso fosse comprar um DVD americano em um site gringo.

Meu interesse também pelo filme vem da admiração pelo Larry Cohen, esse que talvez seja o maior dos diretores de filmes B da década de 1980. Pena que ele, aparentemente, se aposentou como cineasta. A última coisa que ele dirigiu foi o excelente PICK ME UP, episódio/filmete da antologia MASTERS OF HORROR.

ESPECIAIS EFEITOS tem bem cara de produção oitentista, desde o visual até a trilha sonora com sintetizador. Hoje isso acaba sendo um aspecto charmoso na composição, ainda mais quando se trata de uma obra que envelheceu bem. Na trama, temos um cineasta (Eric Bogosian) que faz um filme baseado em um assassinato que ele mesmo cometeu. E ainda tem a cara de pau de chamar o namorado da vítima para protagonista e convidar um policial para consultor de roteiro.

O filme tem um quê de UM CORPO QUE CAI, já que a Zoë Lund interpreta dois papéis: um da mulher morta e outro da atriz convidada para interpretá-la. A citação ao filme de Hitch só pode ter sido proposital, embora a transformação física aconteça num salão de beleza – ou num lugar do tipo.

O curioso deste trabalho de Cohen é que a narrativa tem a agilidade tradicional dos bons filmes B, mas há um trabalho todo especial de interpretação de Bogosian, que depois faria o ótimo TALK RADIO – VERDADES QUE MATAM, de Oliver Stone, que já pode ser considerado uma produção classe A. Ainda assim, seu excelente desempenho não faz com que haja uma disparidade entre os outros atores. Todos parecem estar no tom. Enfim, uma delícia de filme. Sinal de que eu preciso ver mais Cohen.