quarta-feira, abril 01, 2015

CINDERELA (Cinderella)



Um dos maiores temores desta versão em live action de CINDERELA (2015) seria ser careta demais para os novos tempos. Porém, a Disney tem uma equipe de produção admirável e o resultado não deixa de ser agradável, apesar de a narrativa ser já bem conhecida de quase todas as plateias. Além do mais, é importante que novos espectadores entrem em contato com histórias em que o bem e o mal são facilmente percebidos, algo pouco comum em tempos em que os contos de fadas procuram não exagerar mais no maniqueísmo, até mesmo colocando uma vilã como anti-heroína, como foi o caso de MALÉVOLA.

Algo que salta aos olhos nesta produção dirigida por Kenneth Branagh é a requintada fotografia de cores vivas e a direção de arte primorosa. Sem falar no figurino da vilã, a malvada madrasta vivida por Cate Blanchett. Ainda nos aspectos técnicos, mas já entrando no território da gramática cinematográfica, há um uso destacado de belos travellings de distanciamento em momentos de tristeza e solidão das personagens, um recurso bem antigo do cinema, mas que ainda continua bastante válido na construção das narrativas.

Antigo, aliás, é uma palavra que se aplica bem a CINDERELA. Não há a menor intenção de fazer algo moderno nesta adaptação. Há, na verdade, uma intenção de resgatar velhos valores. Ella (Lily James, da série DOWNTON ABBEY) é uma moça doce demais, que acredita na bondade, na gentileza e na coragem, e o Príncipe (Richard Madden, de GAME OF THRONES) é um romântico que quer casar por amor com a jovem simples e bela que ele encontrou na floresta.

Como alguns momentos da história já estão bastante presentes até mesmo no nosso inconsciente coletivo, como a busca pela dona do sapatinho de cristal, o que acaba funcionando como algo verdadeiramente tocante acontece no início, isto é, momentos antes de Bella se tornar uma espécie de empregada para a Madrasta e suas duas filhas.

No mais, o filme funciona muito bem para manter viva a tradicional grife Disney, que apesar das tendências modernas que se tornaram urgentes com o surgimento da Pixar e sua compra pela empresa do Mickey, há sempre uma necessidade de se voltar para o passado dourado da produtora, quando o material mais utilizado era o dos contos de fadas.

Uma bem-vinda surpresa na sessão de CINDERELA é o curta-metragem de oito minutos FEBRE CONGELANTE, dos mesmos diretores de FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE. No curta, Elsa procura fazer uma festa surpresa de aniversário para sua amada irmã Anna, utilizando seus poderes de frio. Acontece que ela pega um resfriado. Há uma canção de aniversário tão contagiante que se fosse bastante divulgada até poderia substituir o tradicional "Parabéns pra você". O curta acaba sendo mais agradável de ver do que o longa. Apesar de algumas poucas mancadas, a Disney continua com tudo no que se refere à qualidade de suas produções. Especialmente as animações.

terça-feira, março 31, 2015

PONTE AÉREA



Muito bom ver o cinema brasileiro que circula fora do circuito alternativo trabalhando com o gênero drama de vez em quando, ao invés das já tradicionais e manjadas globochanchadas. E não há mal nenhum em colocar no elenco dois atores globais. Isso é chamariz para a bilheteria, embora a distribuidora, no fim das contas, tenha colocado o filme com poucas cópias cartaz, talvez porque a resposta do público para filmes brasileiros tem sido um tanto preconceituosa. E isso, levando em consideração um público crescente que cada vez mais tem dado preferência para filmes dublados. O que é uma pena, mas isso ao menos seria uma boa desculpa para que esse mesmo público arriscasse mais no cinema brasileiro, já que não querem ler as legendas.

Quanto a PONTE AÉREA (2015), por mais que esteja longe de ser um primor de história de amor, não faz feio diante da maior parte dos dramas românticos produzidos em Hollywood. E embora a temática possa lembrar um pouco AMOR À DISTÂNCIA, com Drew Barrymore e Justin Long, por causa da questão do relacionamento à distância do casal de protagonistas, Julia Rezende faz algo bem diferente.

Na trama, durante um transtorno causado por mau tempo em São Paulo, um voo comercial precisa fazer uma parada no aeroporto de Belo Horizonte. E é no hotel próximo ao aeroporto que Bruno (Caio Blat) e Amanda (Letícia Colin) se conhecem e têm logo um momento de intimidade. A construção dos personagens no início incomoda, como estereótipos da figura de um carioca, o sujeito que vive a vida com mais tranquilidade, e da paulistana, que vive sempre tensa com os compromissos do trabalho, mas depois a própria questão do estereótipo dos dois é, de certa forma, discutida.

Tanto as locações na Av. Paulista quanto em Copacabana encantam, cada uma à sua maneira, nos momentos em que o casal vive nesse lá e cá, provocado tanto pelo trabalho de campo de Amanda (uma publicitária), mas principalmente pelo fato de o pai de Bruno estar na UTI, em São Paulo.

Julia Rezende trabalha bem a questão das diferenças entre o casal, mas difícil não achar Bruno um tremendo de um bobão diante de uma moça tão linda e tão amável como Amanda, personificada por uma Letícia Colin no auge da beleza. Nem parece a mesma mocinha, ainda verde, da mais recente versão de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA. Além do mais, sua personagem é mais centrada, enquanto Bruno representa, de certa forma, a covardia masculina, ainda que atenuada por sua simpatia e a convincente situação de querer, ele mesmo, levar as rédeas de sua vida.

A trilha sonora contribui com algumas belas canções que costuram a narrativa com elegância e um pouco de nostalgia, mas como resistir a "Whiter Shade of Pale", do Procul Harum? É até covardia tocarem-na em determinada cena, que acaba culminando em lágrimas por parte da plateia.

Em entrevista à revista Preview, a diretora afirma que em alguns momentos Letícia Colin chorava nas filmagens e Julia Rezende tinha que pedir para ela segurar o choro até o momento certo. E essa entrega ao papel é percebida, principalmente nos momentos de crise do casal. Ou numa cena de reencontro. Quem já passou por algo parecido na vida certamente vai se identificar ou até sentir um pouco de déjà vu. Por isso, não seria exagero afirmar que a mesma diretora da comédia MEU PASSADO ME CONDENA – O FILME (2013) acertou a mão neste registro mais dramático e mais afetivo das relações humanas.

segunda-feira, março 30, 2015

THE WALKING DEAD – 5ª TEMPORADA COMPLETA (The Walking Dead – The Complete Fifth Season)



Nada como um grande episódio de abertura de temporada para que uma série volte a causar entusiasmo em seus fiéis apreciadores. É o caso do excelente “No Sanctuary”, o melhor episódio da série até então. A boa notícia é que melhores viriam nesta temporada que representa o ponto alto da mais famosa série de zumbis da televisão.

Para completar a festa, a Fox brasileira resolveu exibir a season finale da quinta temporada de THE WALKING DEAD (2014-2015) simultaneamente com os Estados Unidos. Na verdade, deveriam fazer isso sempre. Isso diminuiria a caça aos downloads e aumentaria, consequentemente, a audiência da televisão por assinatura. Espera-se que eles tenham aprendido com essa experiência. (Antes de começarem a ler os parágrafos seguintes, um aviso: o texto contém vários spoilers.)

Quem achava que a procura pelo Santuário na temporada anterior e seu consequente encontro seria o tom de praticamente toda a temporada teve uma baita surpresa já no primeiro episódio, que se encerra com sangue e violência nunca vistos antes na série e deixa espaço para que o grupo de Rick fique no meio do nada novamente, sujeitos a novas aventuras e novos perigos.

Outro episódio antológico viria mais adiante, o do massacre na igreja, que faz o sangue da gente ficar intoxicado. E o que dizer do grupo de canibais que comem a perna de um dos membros do grupo? Aquilo ali revirou o estômago de muita gente. E THE WALKING DEAD não perdeu a sua tradição de matar alguns de seus heróis, ainda que o núcleo-base permaneça vivo. Se bem que o núcleo-base já foi outro temporadas atrás. Por isso, todo cuidado é pouco. Por isso temos que ter cuidado para não perdermos Glenn ou, principalmente, Maggie. A dor de perder Beth já foi intensa.

Os episódios de 2014, que podemos chamar de lado A, oferecem bem mais ação que os do lado B, de 2015, mais centrados na zona segura de Alexandria, um novo local que o grupo encontra, mas que representa também muitos conflitos internos entre o grupo do Rick e o grupo de lá. E isso acaba rendendo momentos bem excitantes, como quando Rick briga com o marido de uma mulher por quem se interessa.

Essa química entre os dois grupos mostra o quanto os nossos heróis ficaram fortes e preparados para enfrentar praticamente qualquer ameaça. É um grupo que cresceu um bocado e que tem agora alguns personagens de pouca expressividade, mas eles devem funcionar bem como bucha de canhão para os zumbis na próxima temporada.

A quinta temporada também apresenta o episódio mais depressivo de toda a série, que lida com a morte de dois personagens queridos. Chama-se “Them” e funciona como uma espécie de respiro misturado com angústia para um novo lote de aventuras e perigos que viriam. E apesar de personagens como Carol, Daryl, Michone e Glenn continuarem fortes, ninguém consegue tirar o brilho do líder Rick, o grande herói problemático da série.

sábado, março 28, 2015

A SÉRIE DIVERGENTE – INSURGENTE (Insurgent)



Das atuais cinesséries destinadas ao público juvenil, a franquia Divergente é uma das mais respeitadas e rentáveis. Não chega a ser nem tão boa nem tão rentável quanto Jogos Vorazes, embora tenha o seu charme. Principalmente nesta segunda parte, em que há vários momentos que se assemelham a animes/mangás, como no momento em que Trisha (Shailene Woodley) tem o seu corpo preso a fios e é obrigada a passar por determinados estágios mentais para provar certa teoria da maquiavélica diretora da Audácia, Jeanine, vivida por Kate Winslet.

Falando em Kate Winslet, um dos aspectos positivos desta segunda parte, INSURGENTE (2015) é não pintar a sua personagem excessivamente vilanesca como no primeiro filme. Nisso pelo menos o diretor Robert Schwentke soube melhorar. E outra atriz de renome que traz mais tons de cinza ao enredo é Evelyn, a líder dos Sem-Facção, vivida por Naomi Watts. Só a presença dessas duas respeitadas atrizes já passa certo ar de prestígio à franquia, embora isso não seja nenhuma garantia de qualidade.

Fazendo uma rápida retrospectiva, o primeiro filme, DIVERGENTE (2014), nos apresentou a uma cidade sobrevivente de uma suposta grande guerra que vive sob o domínio de regras nas quais as pessoas são divididas em cinco categorias. E para isso foram criados cinco grupos responsáveis em manter aquele ambiente em harmonia. São eles: Erudição, Audácia, Amizade, Abnegação e Franqueza. (No segundo filme, o trabalho desses cinco grupos fica mais claro para quem não leu os livros e apenas acompanha pelos filmes.)

E é neste ambiente que conhecemos Trisha, que descobre ser uma divergente, isto é, tem dentro de si elementos de mais de uma facção, o que significa perigo para aquela sociedade. Mesmo assim, alguém a salva de ser presa durante o exame médico e ela escolhe fazer parte da comunidade da Audácia, deixando o lar de seus pais, pertencentes à Abnegação. Depois de uma série de incidentes que não vale a pena contar aqui, no final do primeiro filme ela e mais três outros fogem das garras dos soldados de Jeanine.

Infelizmente, o que predomina em INSURGENTE é o andamento um tanto arrastado e pouco interessante para uma produção do tipo. O que dá uma ideia do que pode vir por aí no terceiro e no quarto filmes, que mais uma vez serão adaptações de um só livro divididos em parte 1 e parte 2. Herança dos efeitos nocivos da série Harry Potter, que acabou revelando uma saída espertíssima para ganhar mais dinheiro dos espectadores. Se INSURGENTE já é problemático em questão de ritmo, o que dizer do que virá em CONVERGENTE, em suas duas partes? O gancho deixado abre espaço para uma série infinita de possibilidades, mas será que conseguirão fazer algo digno com a mesma equipe criativa?

Ao menos a entrada da personagem de Naomi Watts deu uma refrescada na trama. Além do mais, não dá pra acusar a série de ser maniqueísta, já que há personagens que se revelam diferentes do esperado na trama, em especial os vividos por Miles Teller (que está muito bem, ainda mais depois que ganhou grande visibilidade por causa de WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO) e em menor grau Ansel Elgort (A CULPA É DAS ESTRELAS). Já Theo James, como o Quatro, é o típico herói bonito e sem defeitos que funciona mais para agradar as meninas, além de ter também função de salvador em algumas cenas de ação e interesse romântico da heroína.

P.S.: Sou só eu que acho ridículo esses títulos brasileiros, que colocam o nome do primeiro filme como se o público deixasse de conhecer se não estivesse lá? Seguindo o rastro de A Saga Crepúsculo, agora temos que aguentar A Série Divergente... Coisas do mercado medroso.

quarta-feira, março 25, 2015

GIRLS – A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Girls – The Complete Fourth Season)



Começa a temporada de primeiras séries encerrando seus trabalhos neste ano de 2015. E é justamente uma das séries mais queridas que acaba logo, com seus curtos episódios de 30 minutos (alguns até menos) e só 10 por temporada. Mas se é para o bem da qualidade do produto de Lena Dunham (a criadora e protagonista) e do produtor executivo Judd Apatow, que assim seja.

A quarta temporada de GIRLS (2015) começou não tão animadora quanto as demais. Aliás, o primeiro episódio foi até bem interessante. É aquele em que Hannah (Dunham) se despede de seus amigos para estudar numa universidade em Iowa, lugar tão calmo e com pessoas tão diferentes de uma nova-iorquina que obviamente ela se sente como um peixe fora d'água. Sem falar que está longe do namorado Adam (Adam Driver) e de suas três melhores amigas, que se mostram cada vez mais distantes, vivendo suas próprias vidas e batalhando por seu próprio espaço.

Pouco sabemos de Adam durante este período e Hannah também fica meio perdida por causa disso. Ao mesmo tempo, acompanhamos a jornada tortuosa da adorável Jessa (Jemima Kirke) e da piradinha Shoshanna (Zozia Mamet). Quem está vivendo uma vida profissional mais ou menos certa é Marnie (Alison Williams), como cantora. Inclusive, logo no primeiro episódio somos brindados com uma cena de beijo grego envolvendo ela e o namorado cantor e parceiro que deu o que falar.

Mas isso não faz de Marnie a mais adorável das meninas. Ao contrário: com o relacionamento que tem com esse sujeito, ela segue sendo a menina mais irritante das quatro. Por outro lado, cada vez gostamos mais de Hannah, cheia de frases espirituosas e tão carente de afeto que dá vontade de abraçá-la.

Outra marca desta ótima quarta temporada é que testemunhamos o episódio mais engraçado da série: o que tem a tal cena do piercing. E GIRLS nem é série pra você ficar gargalhando, mas dessa vez eles conseguiram isso sem fazer muito esforço.

E a coisa vai ficando também divertida com a história da orientação sexual do pai de Hannah. Os pais dela me fazem lembrar os pais dos personagens de SEINFELD. Seria uma versão para os anos 2010 da melhor sitcom ever. Teria GIRLS mais a ver com SEINFELD do que com SEX AND THE CITY? Começo a achar que sim, apesar de tantas diferenças.

No mais, Jessa continua ainda mais adorável com seu jeito "não mexe comigo, vão tomar no %$!", enquanto Adam e Alex (Ray Ploshansky) seguem suas trajetórias ascendentes na série. Dois novos personagens (que talvez nem voltem na quinta temporada) surgem e são muito bem-vindos, enquanto dois outros conhecidos da série retornam para a emocionante season finale, "Home Birth". Outros episódios memoráveis: "Ask My Name" e "Daddy Isues".

sexta-feira, março 20, 2015

MAPAS PARA AS ESTRELAS (Maps to the Stars)



Há diretores que, mesmo tendo perdido uma legião de fãs devido a suas escolhas, continuam ainda fiéis a si mesmos, ao seu cinema autoral. David Cronenberg é um desses casos. Desde MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) que o diretor tem trazido para a vida real aquilo que antes era ficção científica e horror. A tão anunciada "nova carne" de VIDEODROME – A SÍNDROME DO VÍDEO (1983) chegou. O futuro é hoje. E isso nunca se manifestou de maneira tão forte quanto em MAPAS PARA AS ESTRELAS (2014).

O mundo estranho da filmografia de Cronenberg se fundiu com o mundo estranho da nossa contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade doente, e que está se acostumando ainda com esse fato. Mas Cronenberg parece bem à vontade com esse novo momento. Em uma das cenas de MAPAS PARA AS ESTRELAS, o personagem de Robert Pattinson, um chofer que sonha em ser ator em Hollywood, fala para a personagem de Mia Wasikowska, uma jovem piromaníaca com o rosto marcado por queimaduras e pelo fato de ter causado mal à sua família no passado, que ela é muito louca. Ela diz algo como "e daí?".

As fronteiras entre a loucura e a sanidade nunca estiveram tão borradas quanto nos dias de hoje e Cronenberg faz de uma família rica de Hollywood a representação da atualidade. John Cusack é o patriarca, um sujeito que ganha dinheiro como uma espécie de guru de autoajuda, enquanto a esposa (Olivia Williams) vive preocupada com o filho adolescente (Evan Bird), que, apesar da idade, já é veterano em clínicas de reabilitação e sofre o mal de quem é mimado e idolatrado desde pequeno.

A filha expulsa de casa da família, que adora tocar fogo nas coisas e toma várias caixas de comprimidos para evitar ter uma recaída novamente, está de volta a Los Angeles. Consegue com Carrie Fisher (interpretando ela mesma) um cargo de assistente de uma atriz famosa mas atormentada (Julianne Moore) por visões da jovem mãe, que morreu em um incêndio. Seu sonho atual é interpretar uma nova versão de um filme que a mãe fizera na década de 1960, mas não é fácil lidar com o mundo tortuoso das negociações de Hollywood.

Outro cineasta talvez tornasse MAPAS PARA AS ESTRELAS em algo mais fantasmagórico, menos cientificista. Mas estamos falando de Cronenberg e muito provavelmente sua intenção é se encaminhar mais para o campo da ciência ao lidar com as alucinações de seus personagens, reflexo do cada vez mais crescente aumento de casos de problemas psíquicos graves e perturbadores.

O gosto pela violência e pelo gore presentes desde alguns dos primeiros trabalhos do diretor marca presença também em MAPAS, embora aqui seja necessário um pouco mais de paciência por parte do espectador, tendo em vista a semelhança de andamento com seu trabalho anterior, COSMÓPOLIS (2012), que chegou a enxotar muitos incautos da sala de cinema. Porém, pode-se dizer que MAPAS é mais acessível e aparentemente menos complexo, embora ofereça uma abertura imensa de possibilidades de discussão, tanto no que concerne ao cinema do próprio diretor quanto no diálogo com o mundo atual.

quarta-feira, março 18, 2015

INSUBORDINADOS



INSUBORDINADOS (2013), de Edu Felistoque, trata do vazio da vida e a fuga através das memórias de infância e principalmente por meio da ficção, que funciona não somente para diminuir o tédio, mas também como forma de se “outrar”, de deixar de ser, nem que seja pela via da imaginação, uma pessoa com uma vida comum para ser alguém com uma vida cheia de emoções, uma delegada de polícia, no caso.

No filme, Sílvia Lourenço é Janete, uma jovem mulher que acompanha o pai em estado de coma em um hospital. Vivendo sozinha e praticamente sem sair daquele ambiente, ela passa as horas vagas escrevendo um romance policial. Nesse romance, acontecem as aventuras de Diana, delegada de polícia, sua alter-ego, e também de seus parceiros Bete, Carlão e Latrina. Aos poucos, a ficção vai se tornando mais presente tanto no filme quanto na vida de Janete.

A entrevista que abre o filme, de Janete, personagem de Sílvia Lourenço, com uma senhora que gosta de filmes de horror, dialoga com o tom geral da narrativa, com sua atmosfera, que parece mostrar a personagem numa espécie de purgatório. Lembremos que a mulher da entrevista afirma que quando morrer desejaria ficar aqui na Terra mesmo, ajudando sempre que possível àqueles que ela ama.

A cena da entrevista, inclusive, é a que mais acena para um tom documental, ao mesmo tempo em que se passa dentro do hospital. Sabemos que a primeira cena de um filme diz muito de suas intenções. Portanto, seria algo importante a se considerar neste trabalho.

Um trabalho em que a realidade e a ficção oferecem diferentes tons de interpretação também. Enquanto a vida no hospital traz uma interpretação mais naturalista, a narrativa do livro de Janete lembra alguns filmes noir, com uma voice-over que remete a romances policiais baratos e que nos apresenta ao seu alter-ego, a policial Diana, além dos demais personagens que fazem parte da série BIPOLAR (2010), exibida no Canal Brasil e na Warner, e cujas cenas foram costuradas de modo a formar SUBORDINADOS.

A solidão de Janete, no início do filme, é acentuada pelo movimento de câmera que nos distancia dela e nos apresenta à cidade de São Paulo, à noite. Por isso o vazio da vida de Janete requer essas fugas. O curioso (e ao mesmo tempo triste) é quando ela encontra uma fagulha de esperança de melhorar sua vida, como quando ela paquera com o rapaz no hospital e depois festeja a troca de olhares ao marcar um encontro de sua personagem (Diana) com uma representação desse rapaz na ficção. “A vida finalmente tava mudando de cor”, ela celebra.

Porém, o desencanto, que já havia sido antecipado pela possibilidade de o rapaz ser um procurado pela polícia, mostra o quanto ela tinha perdido as esperanças na vida. Esse, aliás, é o momento em que podemos louvar o belo trabalho de edição, uma tão difícil costura das novas cenas no hospital com cenas gravadas cinco anos atrás.

No filme, a solidão invade as personagens da ficção de Janete (Diana, Carlão e Latrina), como se ela não conseguisse fugir dela nem mesmo através da arte. Só as memórias, essas sim, garantidas, aparecem em cores, como se a felicidade estivesse apenas no passado, ao contrário do presente cinza e asséptico do hospital e da presença do pai em coma.

Repara-se que aos poucos a ficção criada por Janete vai se tornando mais interessante ao longo do filme. No início, o artificialismo parece atrapalhar um pouco o envolvimento. Depois, a narrativa policial se torna mais envolvente, ao mostrar mais a vida dos personagens em separado do que as investigações.

INSUBORDINADOS pode ser visto como o retrato do homem pós-moderno, esse ser fragmentado e solitário que busca formas de atingir um pouco de paz de espírito. O título do filme talvez remeta a esse homem pós-moderno, representado por uma jovem mulher e sua necessidade de não estar subordinada à realidade. Uma realidade que ela mesma questiona em certo momento. Seria a realidade uma coisa inventada por nós mesmos? Não deixa de ser uma pergunta interessante.

P.S.: Tive o prazer de participar de um debate após a sessão do filme, no Cinema do Dragão, com a atriz e roteirista Sílvia Lourenço, uma simpatia de pessoa.

domingo, março 15, 2015

GOLPE DUPLO (Focus)



O mundo se tornou um lugar melhor quando Martin Scorsese nos revelou o talento e a beleza de Margot Robbie, australiana nascida sob o signo de Câncer que encantou meio mundo em O LOBO DE WALL STREET e passou direto para a primeira divisão de Hollywood, protagonizando com Will Smith esta comédia com toques de drama e suspense dirigida pela dupla Glenn Ficarra e John Requa, os mesmos de O GOLPISTA DO ANO (2009) e AMOR A TODA PROVA (2011), filmes que também equilibravam suas características de comédia com situações dramáticas. E Margot foi tão bem em GOLPE DUPLO (2015), que já está na agenda dos mesmos diretores para um novo filme, FUN HOUSE, a estrear no ano que vem.

Em GOLPE DUPLO, ela é Jess, uma moça que se beneficia de sua beleza e sensualidade para aplicar golpes. Acontece que ela dá de cara com um dos maiores golpistas dos Estados Unidos, Nicky, vivido por Will Smith. Na primeira tentativa de enganá-lo, o experiente golpista já saca a brincadeira e desmascara os amadores. Ela procura, então, pedir que ele a ensine a se tornar também uma profissional do ramo. E depois de hesitar um pouco, ou pelo menos fazer um pouco de charme, Nicky a aceita no grupo. Aliás, a aceita como namorada. Se bem que aceitar não é bem o verbo certo em se tratando de Margot Robbie/Jess. Ela é tão adorável e linda que é difícil demais não ficar apaixonado.

GOLPE DUPLO é dividido em duas partes. A primeira parte é certamente a mais divertida, a que mostra o início do relacionamento dos dois e os primeiros golpes. No cinema, é impressionante como nos solidarizamos com essas criaturas detestáveis, que são os ladrões. No cinema está liberado. Afinal, o que eles roubam é apenas dinheiro. Ou coisas que possam ser trocadas por dinheiro. E o tom leve que o filme adota também ajuda.

Não dá pra dizer que é um filme sem falhas. Há alguns buracos na trama, mas isso é tão fácil de relevar quando o resultado final é de deixar você sair com um sorriso de orelha a orelha. Sem falar nos momentos dramáticos e de tensão. O que dizer da cena do "chinês" no jogo de futebol americano? Certamente é um dos pontos altos do filme. Talvez o ponto mais alto. Mas que também culmina com o fim do "lado A" de GOLPE DUPLO e um salto no tempo em três anos, que traz à tona, em Buenos Aires, o personagem de Rodrigo Santoro. Que não está exatamente bem. Na verdade, ele quase estraga o filme nas cenas em que aparece, mas provavelmente porque seu personagem não é bem escrito.

No lado B, Ficarra e Requa utilizam tintas um pouco mais dramáticas, incluindo aí uma possível mudança de intenções de Nicky, ao ver novamente Jess, agora em aparente situação mais confortável. Palavras como "possível" e "aparente" cabem muito bem num filme que tenta enganar, muitas vezes com sucesso, o espectador. E é como um bom show de mágica: nós gostamos de ser enganados, nesse caso. Pagamos pra isso, inclusive.

GOLPE DUPLO representa então dois fatos importantes: o retorno definitivo (espera-se) de Will Smith como protagonista de um bom filme e a definição de Margot Robbie como uma das estrelas mais importantes de Hollywood atualmente, com chances de aumentar ainda mais os holofotes em torno dela nos próximos anos, além da possibilidade de descobrirmos os seus trabalhos anteriores, nas produções australianas.

No mais, por mais que nos atentemos para os belos e inteligentes recursos narrativos, que ainda por cima não se importam de serem deliciosamente inverossímeis, tentativas de procurar uma maior profundidade no filme, como a questão paterna de Nicky, resultam um pouco frustradas. O que importa mesmo é a ótima fluidez da trama e a química de um dos casais de protagonistas mais divertidos da telona em 2015.

sexta-feira, março 13, 2015

A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie’s Choice)



Acho que nunca passei tanto tempo sem postar no blog. Em outros tempos, muita gente estaria preocupada, perguntando do meu paradeiro, mas esses tempos se foram. E a maioria das pessoas só liga mesmo para as redes sociais, anyway. Esta é a segunda postagem do mês e eu já sinto que estou mais do que enferrujado. Não recomendo para ninguém deixar de escrever por tantos dias. E como estou atrasado mesmo com todos os filmes novos, vamos de um filme "antigo" visto recentemente, A ESCOLHA DE SOFIA (1982), de Alan J. Pakula. Por ironia do destino, inclusive, acabei vendo por ocasião do mesmo trabalho que tem consumido meu tempo e minhas energias.

A primeira impressão que tive foi que eu teria gostado bem mais se o visse no cinema, na época. Esses filmes longos, mesmo os de Hollywood, se beneficiam bem mais em um estado de imersão maior. Também pensei bastante nas chamadas do SBT para o filme, e da cena que o canal destacava, que mostrava justamente o momento mais doloroso do filme, um flashback do passado da personagem de Meryl Streep. E dos poucos filmes que vi de Alan J. Pakula, tenho um carinho enorme por ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA (1990), visto no cinema.

A ESCOLHA DE SOFIA rendeu o segundo dos três Oscar de Meryl. O primeiro foi como atriz coadjuvante em KRAMER VS. KRAMER. O terceiro seria vários anos depois, com A DAMA DE FERRO. E falar de A ESCOLHA DE SOFIA sem mencionar a performance extraordinária de Meryl seria no mínimo injusto. Eu não entendo nada de polonês, mas ela convence que é uma beleza no sotaque e até na aparência de uma imigrante polonesa. Não só por isso: há toda uma relação muito especial e bonita que ela tem com o homem com quem vive junto, vivido por Kevin Kline.

Kline interpreta um sujeito de forte instabilidade mental e emocional. Passa do psicótico para o amigo pra toda hora em questão de segundos. Ele foi o homem que acolheu a imigrante que havia passado uma temporada infernal em um campo de concentração e que estava nos Estados Unidos havia pouco tempo, com a saúde debilitada por falta de alimentação adequada. Todas essas sequências que vão descortinando o passado dos personagens são especiais. E por mais que o narrador-personagem vivido por Peter MacNicol seja simpático, os personagens de Meryl e Kline são tão interessantes que MacNicol fica praticamente apagado e esquecido ao final.

Fiquei com a impressão de que o filme não envelheceu muito bem, mas ainda assim é uma obra a se ver com carinho e interesse até o fim, apesar de suas quase três horas de duração. Quer dizer, não é muito diferente de alguns desses filmes recentes do Oscar. Hollywood não mudou tanto assim.

quarta-feira, março 04, 2015

ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects)



Lembro que no início dos anos 2000 – puxa, isso já faz um tempão, hein – o Carlão Reichenbach, em suas saudosas colunas, costumava com frequência destacar alguns filmes que ele considerava merecedores de serem conhecidos. Um desses títulos recorrentes era o ESPECIAIS EFEITOS (1984), do Larry Cohen. Era uma lenda encontrar um VHS desse filme por aqui. Simplesmente não tinha. Acho que até procurei no tal sebo do Messias, em São Paulo, na vez que fui lá. E nunca foi lançado em DVD.

Hoje vivemos tempos melhores, pelo menos em termos de podermos encontrar com facilidade certos filmes. As comunidades secretas de filmes e sites de compartilhamento ajudam demais a vida dos cinéfilos, trazendo aquilo que antes custaria uma pequena fortuna. E olha que ainda não contaria com umas legendas nem mesmo em inglês, caso fosse comprar um DVD americano em um site gringo.

Meu interesse também pelo filme vem da admiração pelo Larry Cohen, esse que talvez seja o maior dos diretores de filmes B da década de 1980. Pena que ele, aparentemente, se aposentou como cineasta. A última coisa que ele dirigiu foi o excelente PICK ME UP, episódio/filmete da antologia MASTERS OF HORROR.

ESPECIAIS EFEITOS tem bem cara de produção oitentista, desde o visual até a trilha sonora com sintetizador. Hoje isso acaba sendo um aspecto charmoso na composição, ainda mais quando se trata de uma obra que envelheceu bem. Na trama, temos um cineasta (Eric Bogosian) que faz um filme baseado em um assassinato que ele mesmo cometeu. E ainda tem a cara de pau de chamar o namorado da vítima para protagonista e convidar um policial para consultor de roteiro.

O filme tem um quê de UM CORPO QUE CAI, já que a Zoë Lund interpreta dois papéis: um da mulher morta e outro da atriz convidada para interpretá-la. A citação ao filme de Hitch só pode ter sido proposital, embora a transformação física aconteça num salão de beleza – ou num lugar do tipo.

O curioso deste trabalho de Cohen é que a narrativa tem a agilidade tradicional dos bons filmes B, mas há um trabalho todo especial de interpretação de Bogosian, que depois faria o ótimo TALK RADIO – VERDADES QUE MATAM, de Oliver Stone, que já pode ser considerado uma produção classe A. Ainda assim, seu excelente desempenho não faz com que haja uma disparidade entre os outros atores. Todos parecem estar no tom. Enfim, uma delícia de filme. Sinal de que eu preciso ver mais Cohen.

sábado, fevereiro 28, 2015

LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA



Sou totalmente contrário a analisar um filme sob a perspectiva de sua "fidelidade" à obra literária. Mas não resisto quando sei que um filme é baseado em um conto que posso muito bem ler em alguns minutos para em seguida apreciar a adaptação. Acredito que pode até "atrapalhar" um pouco a apreciação fílmica em si, já que torna o ato de ver o filme mais divertido.

Peguemos o caso de LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA (1971), de David Neves. Fiz questão de ler o conto "Lúcia McCartney", de Rubem Fonseca, antes de ver o filme. E me deliciei até metade do filme, pois não sabia que a obra cinematográfica também havia traduzido "O Caso de F.A.", outro conto do escritor. Resultado: enquanto gostei bastante da primeira parte do filme, tendo lido o conto e percebendo as escolhas do diretor na adaptação, a segunda parte saiu prejudicada, pois “O Caso de F.A.” é um conto maior e mais dinâmico.

Enquanto a adaptação de "Lúcia McCartney" ainda teve a incrível possibilidade de inserir canções dos Beatles na trilha sonora (uma delícia), dando um respiro adorável à história de uma jovem prostituta que se apaixona por um cliente e se sente incompreendida, a parte dedicada a "O Caso de F.A.", com outros atores e personagens, acabou por se mostrar bastante atabalhoada e muitas vezes confusa. Creio que se eu tivesse lido o conto antes teria até gostado. E é aí que eu vejo a fragilidade da obra de Neves, embora também veja suas qualidades.

Adriana Prieto, como a Lúcia McCartney do título, está adorável no papel. Infelizmente foi uma atriz que se foi cedo demais (morreu com apenas 24 anos), mas deixou uma filmografia bem legal, tendo trabalhado, inclusive, com o Khouri (em O PALÁCIO DOS ANJOS). Como o conto tem alguns aspectos modernosos, não deixa de ser interessante o que Neves preparou para diferenciar aquilo que não acontece (ou só acontece na cabeça de Lúcia) daquilo que acontece de fato.

Quanto à outra história, Paulo Villaça está muito bem como o advogado cafajeste e mulherengo que procura ajudar um amigo cliente que se apaixona por uma jovem prostituta, que estaria sendo refém de uma cafetina francesa (Odete Lara) em um bordel. Villaça já era um tipo famoso desde O BANDIDO DA LUZ VERMELHA e o personagem se adequou muito bem a ele. Pena que a história tenha ficado um tanto confusa na montagem final. Sem falar que a cena de ação é tão convincente quanto a de um filme dos Trapalhões.

No quesito erotismo, no início dos anos 1970, a nudez gráfica ainda era um pouco tímida. Só do final da década para o início dos anos 1980 é que se intensificaria enormemente, principalmente nas produções da Boca do Lixo. Mesmo assim, LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA não deixa de também ser um objeto de apelo erótico.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

SUPERPAI



Costumam dizer que um dos grandes problemas do cinema brasileiro são os maus roteiros. Nunca concordei com isso, mas com SUPERPAI (2015) temos a oportunidade de ver como um roteiro americano vai parar nas mãos de um diretor brasileiro e não sai exatamente uma maravilha da comédia. E olha que tem gente bastante simpática envolvida, como o Danton Mello, que tinha se saído muito bem em VAI QUE DÁ CERTO, Dani Calabresa (ex-CQC) e Antonio Pedro Tabet (PORTA DOS FUNDOS).

Dá para perceber um pouco dos costumes americanos na história do sujeito (Mello) que quer se encontrar com sua turma do colegial depois de 20 anos. Aqui no Brasil, pelo menos nos filmes, isso não é uma tradição. Mas funciona bem em SUPERPAI e os momentos que se passam na tal festa da turma até lembram um pouco SUPERBAD – É HOJE, de Gregg Mottola. Não é difícil imaginar o personagem Cueca sendo interpretado pelo Christopher Mitz-Plasse. Vestiram o ator como se isso fosse proposital, até.

Quem tem mais de 30 anos vai se divertir com o saudosismo de algumas das músicas que rolavam nas festas no início dos anos 1990, embora o que mais anima mesmo é ver a turma de velhos amigos cantando "Inútil", do Ultraje a Rigor, em plenos pulmões dentro do carro. Canção considerada hino de uma geração, dentro do contexto do filme se adequou muito bem. "Bichos escrotos", dos Titãs, também é bem executada.

Na trama, Danton Mello é Diogo, um sujeito que não nasceu pra ganhar na vida. Vive fazendo entrevistas de emprego, mas não consegue nada. Por isso sair com essa turma do tempo do colégio é uma maneira de mostrar que ele está inteiro e pronto para resolver uma pendência daqueles anos, quando ele queria transar com a menina mais bonita da escola e acabou estragando tudo. Ela estaria lá. 

O problema é que a mãe de sua esposa caiu e quebrou a perna. Logo, Diogo precisa arranjar um jeito de deixar o seu filho pequeno com alguém. Consegue deixar o menino por algumas horas numa creche noturna, que fecha às 22 horas. A brincadeira fica melhor quando ele, sem querer, pega o filho errado (por causa de uma máscara de cachorro). A noite divertida conta com sequestradores de crianças, invasão de domicílio para roubo de drogas de farmácia e um bocado de humor físico.

De todo modo, o filme de Pedro Amorim pelo menos não se parece com as globochanchadas. Parece mais com filme americano, dada sua origem. E também aproveita a presença de gente que vem da comédia. Pena que não consegue chegar lá e atingir pelo menos um status de boa comédia. Ainda assim, vale a conferida.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

TRÊS FILMES FRACOS



Assistir só filmes bons é para os fracos. É preciso também ter força e disposição para encarar as tranqueiras. E alguns desses filmes a gente até encara com certo entusiasmo inicial. Ou pelo menos esperando mais do mesmo, no caso de uma continuação ou um filme de gênero convencional. Falemos um pouco destes três filmes, todos produções de 2015 e vistos no cinema.

BUSCA IMPLACÁVEL 3 (Taken 3)


Não resta dúvida de que Liam Neeson se saiu muito bem como um action hero desde o primeiro BUSCA IMPLACÁVEL (2008), tendo feito em seguida outros trabalhos de ação bem dignos, inclusive. Neste terceiro exemplar da franquia não há mais um sequestro, como nos filmes anteriores, mas a esposa e a filha aparecem e são parte essencial da trama. Agora ele luta para provar sua inocência, ao ser acusado de um terrível assassinato. Quase um ninja, o ex-agente Bryan Mills consegue se desviar da patética polícia (liderada pelo personagem de Forrest Whitaker) para descobrir os verdadeiros autores do crime. Seria até um bom feijão com arroz do gênero se as cenas de ação não fossem tão mal filmadas e editadas. Cortesia de Megaton, o pior discípulo de Luc Besson, aqui mais uma vez na posição de produtor de mais um filme francês com cara de americano.

O DESTINO DE JÚPITER (Jupiter Ascending)


Acho que ver O DESTINO DE JÚPITER foi uma espécie de castigo por não ter visto há anos nenhum desfile de escola de samba no Carnaval, já que é mais ou menos isso o que os irmãos Wachowski nos oferecem em sua colorida aventura sci-fi. Pelo trailer já dava para prever que não vinha coisa boa daí, e saber que foi adiado para o ano seguinte por causa de má recepção em exibições-teste não deixa de ser mais um possível indicador. Mas O DESTINO DE JÚPITER é daqueles filmes que é preciso ver para crer. A trama, boba e chata, trata de uma jovem (Mila Kunis) que é uma espécie de reencarnação de uma grande deusa do universo (ou algo do tipo). Ela é salva dos raptores alienígenas por um pau pra toda obra interestelar, vivido por Channing Tatum, que tem algo de lobo e de selvagem em sua essência (embora nada disso seja realmente mostrado). Ruim mesmo é o oscarizado Eddie Redmayne, o oscarizado de A TEORIA DE TUDO. Seu personagem é um desses vilões bem afetados que só funcionaria se o filme conseguisse se assumir e se resolver como comédia (mesmo involuntária). Mas o humor é um desastre. Difícil entender como Hollywood arrisca gastar tantos milhões com mais uma extravagância dos diretores.

A CASA DOS MORTOS (Demonic)

Não há muito a reclamar de A CASA DOS MORTOS. Isso se a pessoa vai ao cinema esperando ver um genericão de casa assombrada com todos os clichês usados exaustivamente e sem a menor criatividade. O único incentivo para que se veja o filme é por ser produzido por James Wan. Como ANNABELLE foi um trabalho simples, mas bem realizado, poderia se esperar o mesmo deste aqui, dirigido pelo pouco experiente Will Canon. Na trama, policial vivido por Frank Grillo tem sua noite de namoro estragada por um caso sinistro: numa casa abandonada por causa de um assassinato ocorrido anos atrás são encontrados os corpos de alguns jovens. Apenas um está presente, mas um tanto alterado para que a polícia consiga arrancar dele pistas do que ocorreu. Em flashback de seu depoimento ou através de vídeos encontrados (mais uma desculpa para usar a câmera na mão e o found footage, ainda que em menor grau), vamos acompanhando o que ocorreu. O resultado é pouco satisfatório, alguns sustos são bem gratuitos e pouco assustadores e eu até já me esqueci do filme, mesmo tendo visto há poucos dias.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

OS DOCES BÁRBAROS



Um dos momentos mais arrasadores (no melhor dos sentidos) ocorridos durante a mostra ocorrida no Dragão do Mar no mês de janeiro foi poder ver em gloriosa película este documentário que trata da turnê feita pelo grupo então recém-formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, quatro dos maiores artistas musicais de sua época – e da atualidade, ainda.

OS DOCES BÁRBAROS (1977) acompanha os ensaios, as entrevistas, ouve os artistas em sua intimidade nos bastidores e, o mais importante, nos oferece apresentações maravilhosas dos quatro, passando por diversas cidades do Brasil. Agora, claro que o diretor Jom Tob Azulay não ia prever que seu documentário acompanhando o grupo na turnê seria brindado por um acontecimento que tornaria seu filme ainda mais divertido: a prisão de Gilberto Gil por porte de maconha em Florianópolis.

Não que isso seja a melhor coisa do filme, mas é o que faz o público gargalhar a valer. A sessão em que eu estive (era a única da mostra) estava com a casa cheia e sentir todo mundo ali respondendo ao filme, rindo da seriedade das autoridades e da imprensa e da reação do próprio Gil foi uma experiência impagável.

Mas nada disso importaria se a música não fosse tão boa. Confesso que não conhecia o trabalho dos Doces Bárbaros. Sabia que eles haviam se reunido, mas nunca havia me interessado em ouvir os discos. Até ver o filme. A primeira canção que ouvimos é a alegríssima “Os mais doces bárbaros”, que costumava abrir os shows já elevando o espírito da plateia. Misturando Jesus com a mitologia do Candomblé, discos voadores, a natureza e a arte de cantar, essa canção sintetiza um pouco o som do grupo.

E o mais bonito de tudo é que cada artista tem uma força toda especial no cantar, embora eu tenha uma queda especial pela voz de Gal Costa. Quando ela entra em sua parte de "Atiraste uma pedra", difícil não ficar arrepiado. Até porque esse é o tipo de canção que se destaca das demais por ser de dor de cotovelo, de fossa. E eu tenho um apreço por esse tipo de canção, especialmente quando é bem composta e bem executada. E o arranjo que fazem para esta música é excepcional.

Destaque também para "Fé cega, faca amolada", "O seu amor" e "São João, Xangô menino". Vale também lembrar uma que homenageia o rock'n'roll, chamada "Chuck Berry Fields forever", que é explicada por Caetano como sendo fruto de sua época, da contracultura. Desde os discos de Caetano de fins da década de 1960 que a aproximação bem-vinda da música brasileira com o rock faz com que essa rixa boba entre MPBistas e rockers se torne obsoleta, embora costumeiramente volte sempre a ser objeto de discussão. 

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

OSCAR 2015



Não foi das melhores noites do Oscar. Imperou o luxo e isso causou uma boa impressão no início, com um capricho maior numa canção interpretada pelo apresentador da noite e mais duas participações especiais. Também gostei bastante das homenagens que fizeram a alguns filmes no cenário. Mas o problema é que foi mais uma daquelas noites com muita música chata, incluindo aí uma homenagem aos 50 anos de A NOVIÇA REBELDE, cantada por Lady Gaga. Isso a gente não merecia.

A noite ter sido de BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) também deixou um gosto um pouco amargo, mas também não é de se lamentar tanto. Eu até estava torcendo pelo Michael Keaton. Em vez disso resolveram premiar um rapaz que fez vergonha recentemente em outro filme (O DESTINO DE JÚPITER). Mas de qualquer maneira, Eddie Redmayne estava entre os mais cotados ao prêmio por sua interpretação de Stephen Hawking em A TEORIA DE TUDO.

Curiosamente, numa noite que não teve a graça do ano passado, que contou com uma apresentadora bem mais carismática, tivemos pelo menos um grande momento de emoção: a da comovente apresentação de "Gloria", canção de SELMA – UMA LUTA PELA IGUALDADE. O único prêmio de um filme que foi bem pouco valorizado. E para remediar isso a Academia convidou vários atores negros para a apresentação dos prêmios. Foi também uma noite em que as mulheres mostraram sua insatisfação com os baixos salários, representada principalmente pelo discurso de Patricia Arquette. Muito justo.

Ainda com relação à música, impressionante como a Academia além de escolher mal uma canção de MESMO SE NADA DER CERTO, ainda não convida Keira Knightley para interpretar uma das versões melhores de "Lost stars". A interpretação do rapaz do Maroon 5 foi totalmente sem graça. Para uma noite em que a música desempenha um papel importante, ouvir canções ruins ou chatas torna a cerimônia quase que um suplício.

Pelo menos dá pra dizer que o número de bons e ótimos filmes entre os indicados estava entre os melhores há muito tempo. Nenhum dos filmes é ruim, embora possa se reclamar de dramas convencionais como A TEORIA DE TUDO ou mesmo odiarem os mais cotados, como BIRDMAN ou BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE. Mas há uma obra-prima lá, que pelo menos ganhou prêmio de edição de som. Quem viu SNIPER AMERICANO numa sala IMAX sabe o quanto o som deste filme é sensacional. O mais do que simpático WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO também teve a sua boa dose de prêmios.

No mais, o que comentar desta premiação? Talvez a quantidade de mulheres bonitas presentes em seus vestidos lindos. Jessica Chastain. Jennifer Lopez. Dakota Johnson. Scarlett Johansson. Keira Knightley. Zoe Saldana. Margot Robbie. Marion Cotillard. Felicity Jones. Rosamund Pike. A beleza é efêmera, mas a vida também é. Então, não custa louvar aquilo que satisfaz os olhos e o coração no presente.



Os premiados

Melhor Filme – BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
Direção – Alejandro G. Iñárritu (BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA))
Ator – Eddie Redmayne (A TEORIA DE TUDO)
Atriz – Julianne Moore (PARA SEMPRE ALICE)
Ator Coadjuvante – J.K. Simmons (WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO)
Atriz Coadjuvante – Patricia Arquette (BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE)
Roteiro Original – BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
Roteiro Adaptado – O JOGO DA IMITAÇÃO
Fotografia – BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
Montagem – WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO
Trilha Sonora Original – O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
Canção Original - "Glory", de SELMA – UMA LUTA PELA IGUALDADE
Mixagem de Som – WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO
Edição de Som – SNIPER AMERICANO
Efeitos Visuais – INTERESTELAR
Design de produção – O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
Figurino – O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
Maquiagem e cabelos – O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
Filme Estrangeiro – IDA (Polônia)
Longa de Animação – OPERAÇÃO BIG HERO
Curta de Animação – O BANQUETE
Curta-metragem – THE PHONE CALL
Documentário – CITIZENFOUR
Curta Documentário – CRISIS HOTLINE: VETERANS PRESS 1

domingo, fevereiro 22, 2015

LIVRE (Wild)



Não vou negar: o que mais me chamou a atenção em LIVRE (2014) foi a trilha sonora. Não a original, mas os trechos das canções que surgem ao longo do filme. Ao longo da jornada de Cheryl (Reese Witherspoon), podemos ouvir "El condor pasa (If I could)", por Simon & Garfunkel; "Let'em in", por Paul McCartney"; "Suzanne", de Leonard Cohen; "Glory box", do Portishead; "The air that I breathe", do The Hollies; entre outras tantas que eu não sou tão íntimo, mas que compõem um painel sonoro que ajuda a tornar a apreciação do filme de Jean-Marc Vallée ainda mais agradável.

Não é como NA NATUREZA SELVAGEM, de Sean Penn, que é muito extremo, e também não é tão incômodo quanto 127 HORAS, de Danny Boyle. E comparar com HISTÓRIA REAL, de David Lynch, então, seria um sacrilégio. Sim, Cheryl passou por maus bocados, mas se não sentimos tanto o peso do seu passado não é necessariamente um problema do filme, que talvez tenha optado mesmo pela busca de uma leveza espiritual, que a personagem vai obtendo ao sacrificar o corpo, ao pensar no passado, ao ter um contato com a natureza de maneira exponencial.

Depois do sucesso de CLUBE DE COMPRAS DALLAS, que conferiu Oscar a dois astros do elenco, Jean-Marc Vallée volta a conseguir novamente indicações para dois de seus intérpretes. Embora o papel de Laura Dern seja bem fraco, ainda assim, ela e Reese estão juntas na competição, mesmo que com poucas chances. Então, só a indicação já está valendo, ainda que o filme em si tenha passado quase batido nos cinemas quando foi exibido.

Na trama, Cheryl é uma jovem mulher que pretende fazer uma jornada a pé pela costa oeste americana, num percurso de 1.100 milhas (transformar em quilômetros daria número quebrado). Isso, como uma forma de se penitenciar pelo tempo em que passou viciada em heroína e vivendo uma vida sexual irresponsável, depois de passar por maus bocados com a morte da mãe e o divórcio. Uma penitência e ao mesmo tempo uma busca de si mesma. A enorme mochila que ela carrega nas costas, inclusive, pode ser vista como um simbolismo daquilo que ela carrega na mente e no coração.

LIVRE é baseado em um livro de memórias de Cheryl Strayed, que alguns amigos leram e gostaram bastante. É mais um exemplar do quanto o cinema tem se apropriado de histórias reais ultimamente. Talvez porque a vida se tornou mais espetacular do que a arte, talvez por falta de criatividade mesmo. Ou talvez seja um momento de mais apego à vida real, por mais ficcionalizada que ela seja quanto transposta para as telas.

sábado, fevereiro 21, 2015

FOXCATCHER – UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO (Foxcatcher)



Antes de mais nada, fica a pergunta: o que a Academia vê tanto em Bennett Miller a ponto de indicá-lo ao Oscar de direção pelos seus três longas de ficção realizados? Foi assim com sua estreia com o ótimo CAPOTE (2005), com o segundo longa, o bom O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (2011), e agora com o novo FOXCATCHER – UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO (2014), uma obra incômoda, é verdade. E digo isso como um elogio. Mas mesmo assim, acaba decepcionando um pouco, não apenas por não chocar tanto quanto o título brasileiro quer vender, como porque, talvez, haja um excesso de confiança por parte do diretor, ao optar por um andamento narrativo mais lento.

Não que isso seja um defeito. Para provocar o efeito desejado em FOXCATCHER esse tipo de andamento talvez seja mesmo necessário. Outra coisa que talvez possa incomodar nos aspectos técnicos é a trilha sonora, que funciona bem para construir uma atmosfera de tensão e suspense, mas que ao final acaba não causando lá grande comoção. E dá a impressão de que sem ela o filme não se sustentaria.

Ainda assim, FOXCATCHER é o tipo de filme que vai com a gente pra casa. Levamos conosco John Du Pont, o personagem de Steve Carell, um velho narigudo e com gosto por luta grego-romana e por corpos masculinos que ao mesmo tempo que é repugnante é também patético, especialmente quando finge ser o que não é. É o tipo de personagem digno de pena, por sua solidão e sua tentativa de mostrar autoridade e poder por causa do dinheiro, mas ao mesmo tempo é distante o suficiente para não ser digno de nossa solidariedade.

Também encaramos com distanciamento outro personagem solitário, o campeão olímpico de luta greco-romana Mark Schultz. Escolherem Channing Tatum para interpretá-lo não deixa de ser um acerto e tanto de casting, por sua fama de ser mau ator ou de estar no showbizz pelos músculos. Mark Schultz caminha feito um chimpanzé, e não se sabe até que ponto houve um exagero na construção do personagem nesse aspecto ou se o verdadeiro Mark era assim mesmo. Mas isso é irrelevante para a obra, trata-se apenas de uma curiosidade.

Chegamos, então, ao terceiro personagem, o irmão de Mark, David (Mark Ruffalo), um sujeito bem diferente do irmão. Na verdade, o único amigo dele, embora durante a narrativa mostrada ele não tenha encontrado tempo para se dedicar ao irmão solitário, por causa de compromissos profissionais e principalmente familiares – esposa e filhos. Mark é o único personagem centrado nesse trio.

Com personagens tão bem construídos, ainda que vistos à distância, FOXCATCHER se firma mais como uma obra de personagens do que de enredo. Ainda assim, há um enredo também bem tecido, que se inicia de verdade quando John Du Pont convida Mark a treinar em sua mansão. Lá ele receberia todo o suporte financeiro que um atleta olímpico merece. No início até que as coisas funcionam bem, mas aos poucos a relação de Mark com Du Pont vai ficando no mínimo muito incômoda. Um mal estar que contagia a plateia até os seus momentos finais.

Talvez haja espaço para alguns risos amarelos, ao vermos as roupas um tanto datadas e até um tanto eróticas que os atletas da década de 1980 vestiam. Principalmente quando vemos Steve Carell vestido com uma delas. O que vemos ali é um homem ridículo, mas não um homem ridículo como o chefe Michael Scott, da série cômica THE OFFICE, mas algo diferente. E embora não seja o primeiro papel dramático de Carell (lembremos do suicida de PEQUENA MISS SUNSHINE), é o que mais se aproxima do trágico. Não deixa de ser um mérito e tanto para o ator e para o filme de Miller.

FOXCATCHER – UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO concorre ao Oscar nas categorias de direção, ator (Carell), ator coadjuvante (Ruffalo), roteiro original e maquiagem e cabelo.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

O JOGO DA IMITAÇÃO (The Imitation Game)



A história certamente é melhor do que o filme. Mas que bom que resolveram nos apresentar a esse homem tão especial que foi Alan Turing, hoje considerado o inventor do computador moderno. Mas não apenas isso, este sujeito antissocial, ingênuo e homossexual muito provavelmente salvou a vida de milhões de pessoas, ao abreviar a Segunda Guerra Mundial por causa do aparelho que inventou para descobrir as informações secretas dos nazistas. E quase ninguém sabia nada dele até os anos 1970. E nada como o cinema para ampliar essa apresentação para o mundo.

O JOGO DA IMITAÇÃO (2014) é sobre Turing e sobre sua busca desesperada por essa máquina capaz de reconhecer qualquer mensagem enviada todos os dias através de códigos que eram modificados diariamente, o que se tornava uma missão impossível para os mais inteligentes mortais daquela época. O trabalho de Turing e de seus companheiros foi mantido em sigilo e o sujeito teve um fim muito ingrato, para usar de eufemismo, por causa de sua orientação sexual.

É uma história tão comovente que fica difícil falar do filme em si. E talvez isso deponha contra a obra audiovisual, ao mesmo tempo em que não deixa de ser inegável o quanto este drama com toques de thriller, romance e espionagem é capaz de envolver o espectador. E de emocionar em diversos momentos, inclusive no final, que nos deixa tão desapontados e revoltados com a humanidade.

No papel de Turing, Benedict Cumberbatch, que em alguns momentos parece uma versão mais séria do Sheldon, da sitcom THE BIG BANG THEORY. Mas talvez Turing fosse um pouco assim, isto é, não tinha noção de certas convenções sociais, e acabava saindo como arrogante. É a partir do contato com a personagem de Keira Knightley que ele descobre que fazer amigos e juntar forças é melhor do que ficar trabalhando sozinho.

O diretor, Morten Tyldum, é um desses cineastas desconhecidos que aparecem em filmes de língua inglesa e nos deixam curiosos para conhecer suas obras pregressas em seus países natais. No caso de Tyldum, a Noruega, onde ele fez o thriller HEADHUNTERS (2011), com Nicolaj Coster-Waldau (GAME OF THRONES). Sua estreia na Inglaterra não deixa de ser um feito admirável, e já lhe abriu as portas para Hollywood, onde adaptará um romance de William Gibson.

O JOGO DA IMITAÇÃO foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, direção, ator (Cumberbatch), atriz coadjuvante (Knightley), roteiro adaptado, edição, design de produção e trilha sonora.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash)



A safra deste ano do Oscar tem prestigiado os filmes indies. E se por um lado isso é bom para escolher obras mais comprometidas com a arte e menos interessadas na bilheteria, por outro isso é ruim justamente porque a maioria dos indicados não tem apelo comercial suficiente para que a velha teoria de que o Oscar abre portas para o sucesso popular dos filmes cai por terra. Dos oito indicados a melhor filme este ano, por exemplo, o único campeão de bilheteria, por assim dizer, é SNIPER AMERICANO, de Clint Eastwood – A TEORIA DE TUDO é um caso à parte. Os demais são produções pequenas com repercussão maior nos festivais.

É o caso de WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (2014), de Damien Chazelle, que tem faturado prêmios de melhor filme em alguns festivais em que participou (Sundance, duplamente, com prêmio do júri e do público, Calgary e Deauville), além de direção, em Santa Barbara e Valladolid. Mas quem mais tem ganhado prêmios mesmo é J.K. Simmons (excelente), que faz o papel de Fletcher, o professor carrasco de uma banda de jazz de uma conceituada universidade americana. Fletcher é impiedoso e humilha não apenas os medíocres, mas também aqueles que são muito bons, mas que não conseguem ser perfeitos para suas exigências. Ele é capaz, por exemplo, de jogar uma cadeira numa de suas vítimas.

E uma de suas vítimas, até por vontade própria, na verdade por obsessão, é o jovem Andrew (Miles Teller), sujeito solitário, que até consegue uma bela namorada, mas abdica desse relacionamento, pois acredita que ela seria para ele uma distração, poderia fazer com que ele perdesse o foco do seu principal objetivo de vida: ser um dos maiores bateristas de jazz do país, um artista a ser lembrado para sempre.

Até daria para traçar um paralelo entre essa obsessão pela perfeição mostrada em WHIPLASH com a de CISNE NEGRO, de Darren Aronofsky, embora os registros sejam bem diferentes. Enquanto o primeiro é um drama de relacionamento entre professor-aluno, o segundo aposta no clima de pesadelo. Ambos, porém, são retratos sofridos de pessoas não necessariamente felizes em busca de um ideal.

No caso de Andrew, o filme faz questão de mostrar o quanto ele sangra, literalmente, para atingir os seus fins. Para ser o melhor é preciso experimentar a dor, é preciso renegar alguns dos prazeres da vida. Isso deve valer para praticamente qualquer coisa na vida.

Mas o que conta mesmo no filme é a relação de amor (ou admiração) e ódio que se estabelece entre professor e pupilo. Não deixa de ser ao mesmo tempo enervante e engraçada essa relação. E quanto às várias cenas memoráveis ao longo da narrativa? Como esquecer a cena em que Miles chega atrasado a um ensaio? Ou a sua última apresentação no filme, com o jogo de olhares entre os dois. Tudo isso ao som de muita bateria. Talvez, mais até do que em BIRDMAN. Ver WHIPLASH em uma sala equipada com uma excelente aparelhagem de som faz a diferença.

WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, direção, ator coadjuvante (Simmons), edição e mixagem de som.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

DOIS DIAS, UMA NOITE (Deux Jours, une Nuit)



O sorriso triste de Marion Cotillard expressa bem o seu drama: estar ainda em luta contra uma depressão e ter que reagir por causa de um emprego que está prestes a perder, numa Bélgica assolada pela recessão. De certa forma, DOIS DIAS, UMA NOITE (2014) parece um daqueles filmes iranianos simples e delicados, como ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO?, de Abbas Kiarostami, em que um menino precisa devolver o caderno de seu colega de sala, sob pena de o menino ser expulso da escola.

Na trama, Marion Cotillard é Sandra, uma mulher que depois de passar uma um tempo de licença médica por causa de uma depressão, precisa encontrar forças para reaver o emprego, agora que ela foi trocada por bônus de 1.000 euros, oferecidos a cada um dos 16 funcionários da empresa, numa votação. Deste modo, num jogo perverso e desumano, percebeu-se que a companhia pode se virar muito bem com esse número reduzido de empregados, não precisando, portanto, dela. Sua missão é encontrar, em dois dias de um fim de semana, cada um desses funcionários para fazê-los mudar de ideia e conseguir, assim, o emprego de volta.

Esse fiapo de história seria um desastre completo se estivesse nas mãos de diretores convencionais, dentro de uma estrutura convencional de melodrama. Mas os condutores são os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que em pleno domínio de seu ofício perseguem situações em que a natureza humana é posta em xeque. Vê-se tanto o aspecto mais bondoso do espírito humano, como no rapaz que está jogando futebol e se emociona ao ver a amiga pedindo o emprego de volta; quanto insensível, como no sujeito que é capaz de bater no amigo por não aceitar abrir mão de seus mil euros.

Sem utilização de uma trilha sonora, algo já comum nos trabalhos dos Dardennes, DOIS DIAS, UMA NOITE só tem assim a interpretação de Cotillard, a força da direção dos irmãos, com uso da câmera na mão, e uma decupagem acertada e dinâmica. Esse cinema um tanto bressoniano, já conhecido de quem tem acompanhado os filmes anteriores dos cineastas, aposta na simplicidade para atingir o seu objetivo. Não vai agradar a todos e certamente não é melhor que O GAROTO DE BICICLETA (2011), A CRIANÇA (2005) e ROSETTA (1999), para citar os mais louvados trabalhos dos diretores, mas é uma obra e tanto.

O que pode incomodar é justamente termos uma atriz que já vem de dois papéis bem tristes – ERA UMA VEZ EM NOVA YORK, de James Gray, e FERRUGEM E OSSO, de Jacques Audiard –, em vez dos tradicionais atores pouco conhecidos dos outros filmes dos Dardennes. Há também o fato de que nós, brasileiros, estamos acostumados com uma miséria muito maior, situações de desespero e desesperança muito maior, e por isso a dor de Sandra pode não ser tão fácil de comprar assim. Além do mais, o dia está sempre muito bonito e ensolarado no filme, o que é uma escolha muito interessante para se fugir do óbvio.

Embora o filme também tenha a intenção de tratar do mundo cruel das empresas e de uma situação arquitetada justamente para compor uma busca, como num jogo, o drama de Sandra faz mais sentido pelo viés da depressão, que tira a força das pessoas e as faz ver o mundo através de um pesado véu. E, nisso, o sorriso triste da protagonista, sua magreza, seus atos desesperados, seu andar hesitante e cansado, tudo isso dá credibilidade à obra. Além do mais, cantar "Gloria", de Van Morrisson, quando se está deprimido, não é fácil.

DOIS DIAS, UMA NOITE foi indicado ao Oscar na categoria de melhor atriz (Cotillard).