segunda-feira, janeiro 30, 2017

RESIDENT EVIL 6 – O CAPÍTULO FINAL (Resident Evil – The Final Chapter)























Uma das vantagens de RESIDENT EVIL 6 – O CAPÍTULO FINAL (2016) é o fato de ser o último filme da série. Chega a ser um alívio na verdade. Interessante como filmes ruins se tornam imensamente piores quando vistos numa tela gigante IMAX. É como se todos os seus defeitos ficassem ainda maiores, mais nítidos, mais incômodos. Foi assim no ano passado com coisas como INDEPENDENCE DAY – O RESSURGIMENTO, INFERNO – O FILME e ESQUADRÃO SUICIDA. Mas falemos desta franquia, que, graças aos céus, está se despedindo.

Um dos atrativos da cinessérie e um dos motivos de ela ter rendido tantas sequências não vem apenas dos lucros e da insistência de seu criador, diretor e roteirista, Paul W.S. Anderson, mas também de um fetiche que esteve na moda nos últimos anos (ou talvez ainda esteja, mesmo com o patrulhamento dando em cima): o fetiche das mulheres bonitas em trajes colantes segurando armas e lutando lindamente contra monstros ou zumbis. Isso é algo que já vem de muitos anos, tanto no cinema quanto dos quadrinhos. A série Resident Evil, oriunda dos games de sucesso, soube aproveitar bem isso, apesar de ser bastante irregular.

Mas, mesmo com essa irregularidade, todos os filmes anteriores tinham um ou outro componente interessante que compensava a ida aos cinemas. O primeiro filme, RESIDENT EVIL – O HÓSPEDE MALDITO (2002), introduziu os personagens e a trama de maneira muito feliz, trazendo elementos de horror e ação empolgantes. Foi a primeira vez que vimos os cães bizarros e foi a sua utilização mais eficiente.

Os filmes seguintes apostaram em outras mulheres bonitas. Além da onipresente Milla Jovovich, como Alice, atrizes muito interessantes passaram pela franquia: Michelle Rodriguez, no primeiro e quinto filmes; Sienna Guillory, de RESIDENT EVIL 2 – APOCALIPSE (2004) e também no quinto filme; Ali Larter em RESIDENT EVIL 3 – A EXTINÇÃO (2007) e em outras sequências, inclusive no capítulo final.

Além da beleza das atrizes e de seu protagonismo, podemos lembrar de alguns momentos felizes da cinessérie, como a homenagem a OS PÁSSAROS, de Hitchcock, no terceiro filme; ou a excelente utilização de efeitos 3D digitais em RESIDENT EVIL 4 – O RECOMEÇO (2010), até hoje visto por muitos como um dos melhores usos dessa tecnologia no cinema. Sem falar que todos os outros filmes conseguem manter-se bem como entretenimento puro e simples, embora esquecíveis.

Infelizmente nada disso acontece em RESIDENT EVIL 6 – O CAPÍTULO FINAL. Os cenários não passam o mínimo senso de realismo ou beleza, a areia do deserto não parece areia, o roteiro, que nunca foi algo forte na cinessérie, aqui se mostra como um elemento ainda mais desleixado. Trata-se apenas da revanche de Alice contra a corporação Umbrella Corporation, agora com a ajudinha de um cérebro eletrônico.

Cenas que poderiam ser impactantes de alguma maneira, como a cena do tanque, em que Alice é arrastada e amarrada com as mãos e perseguida de perto por uma multidão de zumbis, não conseguem despertar a mínima empolgação. A apatia, que já se manifestava em alguns outros filmes da franquia, agora é o sentimento que toma conta do filme como um todo. Tudo é ruim: diálogos, cenas de ação, cenários, fotografia escura, efeitos 3D vagabundos, personagens desinteressantes e conclusão apressada e nada criativa. A única sensação boa, enquanto o filme se arrastava por suas quase duas horas de duração, era de que se tratava do fim da franquia. Mas que pena que tenha terminado de maneira tão infeliz.

domingo, janeiro 29, 2017























Federico Fellini já havia mostrado que a Europa estava muito à frente dos Estados Unidos na condição de mostrar a contracultura no cinema com A DOCE VIDA (1960), este que é um dos melhores filmes do mundo. Foi um filme tão marcante que meio que secou a criatividade de seu criador, que teve que apelar para uma história sobre crise criativa, novamente trazendo Marcello Mastroianni como seu alter-ego, para seguir em frente.

Resultado: com 8½ (1963), Fellini se reinventou, criando uma obra barroca que representaria a virada de sua carreira, o filme cujo adjetivo "felliniano" ganharia não apenas sentido, mas ganharia o mundo. Sair de uma obra como A DOCE VIDA e imaginar que jamais conseguirá fazer algo tão bom é mais do que natural. A grande sacada foi usar a própria angústia e extravasar, criando um trabalho ainda mais moderno do que o seu longa anterior.

Confesso que nesta segunda vez que vi o filme ainda não entrei totalmente em sua viagem (talvez estivesse com o pensamento muito focado nos problemas pessoais), mas gostei bem mais do que da primeira vez que vi em VHS, quando não entendi nada. A longa duração também não ajudou na época. Desta vez, ainda que não conheça todas as atrizes que aparecem no filme como mulheres importantes na vida do cineasta mulherengo Guido Anselmi (Mastroianni), já dá para perceber o quanto elas se destacam pelas suas funções e características especiais.

Claro que fiquei mais encantado com Claudia Cardinale, tão maravilhosamente bela nesta época, mesmo ano de O LEOPARDO, de Luchino Visconti. Por mim, o filme seria só dela. Dela e de Mastroianni. Mas há que se dar também o devido crédito às outras atrizes que brilham no filme, como Anouk Aimée, que já havia aparecido em A DOCE VIDA, e a beleza estranha e toda especial de Barbara Steele, que ainda é mais lembrada por A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, lindo clássico do horror de Mario Bava.

Se Fellini iria fazer ainda um filme que remontasse à sua infância, o tão querido AMARCORD (1973), já em 8½ essas lembranças apareceriam de maneira forte, seja pela lembrança da mãe, seja pela lembrança de uma mulher louca que marcou sua juventude. De cabelos grisalhos, Mastroianni ainda aparece como um homem bastante querido pelas mulheres. E ele gosta muito disso. A fantasia de estar numa banheira, cercado por várias mulheres cuidando de si é bem representativa disso.

Como o seu primeiro filme com uma forte atmosfera de sonho – na verdade, vários sonhos dentro de um filme que já parece um sonho -, 8½ é uma espécie de labirinto em que devemos nos perder e nos encontrar em diversos momentos. Há também muito espaço para o humor. Na verdade, o filme é uma comédia, ainda que uma comédia barroca, cheia de excessos na forma como mostra seus personagens e suas situações.

Ainda devo vê-lo mais uma ou duas vezes, talvez mais, para definitivamente entrar com prazer em sua viagem. Eu chego lá. Não tem pressa. O importante é que filmes como este estão encontrando e reencontrando seu público em cópias remasterizadas e muito bem cuidadas. Parabéns a todos os envolvidos.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

APESAR DA NOITE (Malgré la Nuit)























Entrar em uma sessão sem saber absolutamente nada sobre o filme pode ser frustrante caso o espectador não esteja preparado para uma experiência mais hermética ou muito distinta do que se esperaria minimamente. Às vezes, porém, certos filmes têm uma força tão grande, uma aura tão especial, que é preciso que sua apreciação seja próxima à de uma adoração, de estar vendo algo sagrado em um templo. No caso, a sala de cinema vira esse templo. E é até bom que as pessoas que não estejam sintonizadas com o filme saiam mesmo, para que aquele momento sublime, ainda que de difícil absorção seja contemplado por poucos, mas que estejam mais ou menos na mesma sintonia.

É o caso de APESAR DA NOITE (2015), de Philippe Grandrieux, cineasta francês ainda pouco conhecido do grande público, mas que vem encantando algumas audiências, principalmente aquelas que apreciam o trabalho de David Lynch, o nome que mais nos vem à lembrança ao experienciarmos esse trabalho, já que há cenas que remetem a várias obras do cineasta americano. Há, inclusive, o uso de uma moça cantando, como em um sonho. E esses filmes que transformam a sala de cinema em casas de sonho merecem todo o nosso respeito.

Escrever sobre APESAR DA NOITE é uma tarefa ingrata, pois cada cena tem uma força tão imensa que mereceria uma análise à parte, citando trechos de diálogos que invocam as paixões de seus personagens e o modo como essas cenas são dispostas. Essas paixões se manifestam muitas vezes de maneira bastante mórbida ou totalmente despida de esperança, como é o caso das cenas envolvendo Hélêne, vivida por Ariane Labed, atriz de rosto expressivo e familiar, que aparece em papéis pequenos em filmes como ANTES DA MEIA-NOITE, de Richard Linklater, e O LAGOSTA, de Yorgos Lanthimos, mas que pôde ser vista como protagonista em um filme recente, A ODISSEIA DE ALICE, de Lucie Borleteau.

Hélène é uma mulher que procura sensações que a façam desesperadamente se sentir viva, mesmo que isso signifique afligir o próprio corpo. Ao menos estaria sentindo alguma coisa. O caso de Hélène, porém, é muito mais delicado do que imaginamos, muito mais depressivo, a ponto de ela envolver-se com um grupo de pessoas extremamente perigosas que produzem snuff movies. Hélène mora com um homem que é tão devotado a ela que não se importa que ela volte para a casa cheia de hematomas, contanto que não o abandone.

As paixões em APESAR DA NOITE têm essa força avassaladora. Hélène está envolvida com um rapaz que é usuário de drogas, Lenz (Kristian Marr). As palavras que os dois trocam entre si, as juras de amor sussurradas e ditas como se estivessem próximos a morrer no próximo instante, são tão poeticamente belas que parecem saídas, às vezes, de uma peça de teatro trágica, com a diferença que no teatro os personagens não possam se dar ao luxo de sussurrar, como nos filmes. Eis o cinema, mais uma vez, em situação de vantagem em relação às outras formas de arte.

Escrever sobre APESAR DA NOITE é uma tarefa ingrata, pois certamente não conseguimos passar em palavras o impacto do filme, que é feito de cenas relativamente longas, algumas em plano-sequência, outras mostradas de forma desconcertante, como é o caso da famosa cena do peixe gigante. Na tal cena, vemos/ouvimos o monólogo de uma espécie de vilão demoníaco, Vitali (Johan Leysen), um homem velho que parece sentir desejo pela própria filha, a bela Lena (Roxane Mesquida). Lena, por sua vez, é apaixonada por Lenz, e tem como namorado Louis (Paul Hamy, de O ORNITÓLOGO), protegido do pai da moça.

O filme é também uma obra que fala da busca por uma mulher que desapareceu misteriosamente e cujo nome é citado várias vezes ao longo da narrativa. Seu nome, Madeleine, até remete, não sei se por coincidência ou por intenção, à outra famosa morta-viva do cinema, a Madeleine de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. A diferença é que a também misteriosa Madeleine do filme de Grandrieux parece estar mesmo morta.

No entanto, falar da trama de APESAR DA NOITE talvez diminua um pouco a impressão da natureza do filme, de sua forma única, ainda que remeta às vezes a Lynch e a Claire Denis, de narrar, de compor com mistério os planos e as sequências. Trata-se também de um filme que nos faz sentir dor. Muitas vezes uma dor física mesmo pelos atores/personagens em circunstâncias desagradáveis. Inclusive, o filme de Grandrieux tem uma estreita relação com o gênero horror. E aqui temos um horror que passa longe de provocar uma sensação de segurança e bem-estar familiar como geralmente sentimos com o gênero. O que temos é cinema de gente grande. Poético, desesperador, apaixonado, assustador, intenso.

quinta-feira, janeiro 26, 2017

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge)























Finalmente, depois de uma década de espera, Mel Gibson retorna à função de diretor, depois de amargar momentos de rejeição do público, por causa de sua vida pessoal um tanto controversa. ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (2016) é um trabalho muito coerente com sua obra, embora não tenha o mesmo peso de obras-primas como CORAÇÃO VALENTE (1995) e A PAIXÃO DE CRISTO (2004). Mas o que mais se esperava neste novo trabalho, sabendo que se trata de um drama de guerra, é podermos ter a chance de ver mais uma vez cenas de batalha bem coreografadas e extremamente gráficas e viscerais.

E Mel Gibson cumpre sim o que esperamos, mas até chegar este momento, que é o grande momento do filme, sem dúvida, temos que encarar um trabalho bem tradicional que emula as produções da Velha Hollywood, quando o mundo parecia mais ingênuo. Inclusive, as cenas do namoro do protagonista (Andrew Garfield) com a enfermeira por quem ele se apaixona (Teresa Palmer) são até um pouco cafonas, mas tudo isso não só é perdoado, como visto como algo muito belo.

A trama de ATÉ O ÚLTIMO HOMEM nos apresenta a Desmond Ross (Garfield), um rapaz que se alistou no exército para salvar vidas e se recusou a sequer pegar numa arma. Isso ia contra os seus princípios éticos e cristãos e por isso ele sofreu bullying de seus colegas durante o treinamento e quase foi para a corte marcial por desobedecer ordens de seus superiores.

No elenco, destaque para Vince Vaughn no papel do Sargento Howell, clássico sargento duração que arranca de seus soldados o máximo de suas capacidades, mas também representa, ao menos em um par de cenas, os momentos de maior alívio cômico do filme. Interessante que durante a sua primeira aparição, quando os demais soldados ficam todos tensos, só quem ri da situação é Desmond, o único que tem consciência daquele momento e do papel de ator do sargento. É um momento de aproximação do personagem com o público.

Gibson apresenta mais um filme que trata da culpa e da redenção, temas recorrentes em sua filmografia. Inclusive, não apenas de filmes que ele dirige, mas em outros em que ele "apenas" atua, como é o caso de obras tão diferentes entre si, como MÁQUINA MORTÍFERA (1987), O PATRIOTA (2000), SINAIS (2002) e O FIM DA ESCURIDÃO (2010). Ator-autor, Gibson empresta muito de suas crenças e obsessões a seus personagens. A culpa em ATÉ O ÚLTIMO HOMEM aparece principalmente quando Ross vê seu pai batendo na mãe e reage com uma arma. Naquele momento, diz ele, é como se ele tivesse matado o pai, mesmo não tendo feito. A culpa, assim, funcionou como catalisador das ações pacifistas do herói.

Sobre o ato de heroísmo de Ross, é algo tão impressionante que, se não tivesse acontecido na vida real, jamais acreditaríamos em um roteiro original contando tal história. Não se trata de um simples militar pacifista que age bravamente, como o Sargento York, do filme homônimo de Howard Hawks, mas de alguém que não apenas entra no inferno de uma guerra que desmonta e destrói os corpos dos jovens soldados, mas que prefere salvar vidas a ter que tirar.

A primeira cena do primeiro embate dos soldados com os japoneses é chocante. Não porque se trata de algo inédito em termos de carnificina (não é algo que já não tenha sido visto em O RESGATE DO SOLDADO RYAN, por exemplo), mas choca diante do que o filme vinha mostrando até então. É a total quebra da inocência, a saída do paraíso terreno e o encontro cara a cara com o inferno de corpos mutilados, dor e medo da morte, que chega de maneira tão rápida e assustadora.

O trabalho de edição do filme, que até então vinha se mostrando muito discreto, nessas cenas se apresentam admiráveis. Depois, há uma quebra desses instantes intensos do filme, mas que servem para mostrar os atos seguintes de Ross, os seus grandes atos de heroísmo e fé.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM foi indicado a seis Oscar: filme, direção, ator (Garfield), montagem, edição de som e mixagem de som.

domingo, janeiro 22, 2017

BEDUÍNO























Histórias são, por natureza, fascinantes. As Mil e Uma Noites, o clássico literário de autor desconhecido (ou de inúmeros autores), é uma prova disso: do quanto uma boa história é capaz até de salvar vidas. E o cinema tem cumprido muito bem este papel ao longo deste último século, como dando continuidade à literatura. Mas é sempre muito bom lembrar que, assim como existe literatura em poesia e em prosa, bem como também ensaística, há também cinema-poesia, um tipo de cinema que não necessariamente tem um compromisso em contar uma história. Assim, ver um filme do Júlio Bressane, além de ser um grande privilégio, é ver uma mostra desse tipo de cinema-poesia.

BEDUÍNO (2016), o novo filme do cineasta, é uma prova de que esse tipo de cinema está muito vivo e pulsante. É até mais radical do que EDUCAÇÃO SENTIMENTAL (2013), o último dele exibido comercialmente, embora seja muito mais agradável de ver pela forma com que mostra, quase em forma de esquetes, as belas imagens e os diálogos fascinantes sobre temas eruditos.

Basta dar uma rápida olhada na filmografia de Bressane para perceber que ele é um autor obcecado pela História. Já fez filmes sobre Oswald de Andrade e Lamartine Babo (que tem uma de suas canções usada nos créditos finais de BEDUÍNO, inclusive), sobre Padre Antônio Vieira, Mário Reis, São Jerônimo, Nietzsche e Cleópatra, além de usar vários textos literários e filosóficos para ilustrar muito do que quer dizer em suas obras, embora muitas vezes – ou na maioria das vezes – essa inclusão não fique muito clara. Mas nem tudo é feito para ser compreendido integralmente. Do mesmo jeito que não é necessário captar todas as referências de um filme de Jean-Luc Godard, por exemplo.

Por isso fazer uma sinopse de BEDUÍNO chega a ser uma tarefa até ingrata. Até porque sinopses são feitas para filmes que contam histórias. Pelo menos, histórias no sentido mais linear e mais tradicional do termo. O que temos em BEDUÍNO é uma sucessão de pequenos segmentos que possuem, sim, uma coesão e uma narração, mas a ligação entre as cenas se faz mais pelas imagens e pelos temas abordados ou citações.

Alessandra Negrini protagoniza pela terceira vez um filme do diretor: os anteriores foram os ótimos CLEÓPATRA (2007) e A ERVA DO RATO (2008). Seu retorno à filmografia de Bressane é mais do que bem-vindo, tanto pela beleza de seu corpo, lindamente fotografado, quanto pela interpretação brilhante que ela confere a cada declamação, com as palavras saindo de sua boca como mel, como se cada palavra fosse extremamente importante. Essa valorização da palavra vem do grande número de leituras e traduções que Bressane fez ao longo de dez anos para a realização desta obra.

Quanto a Fernando Eiras, o ator também já é um colaborador do cineasta, tendo trabalhado com ele em obras como O MANDARIM (1995), DIAS DE NIETZSCHE EM TURIM (2001) e FILME DE AMOR (2003). Seu trabalho no filme é também importante, e ajuda a compor o casal intrigante da "trama". Se é que intrigante é a palavra certa nesse caso. O que importa é que BEDUÍNO nos impressiona pela beleza da forma, mas também pelo passado que evoca, pelo sonho, que é tão importante na própria história.

Sobre essa questão da História e de como a obsessão pelo antigo dialoga com o novo, há uma cena que ilustra muito bem isso. Fernando Eiras diz que adora coisas antigas, ao olhar para o retrato de uma pirâmide usada para fazer sacrifícios; em seguida, Alessandra Negrini coloca óculos escuros e diz que gosta de coisas modernas. E é bem isso que é o cinema de Bressane: um cinema moderno mas que evoca com paixão obras e temas clássicos.

sábado, janeiro 21, 2017

A MORTE DE LUÍS XIV (La Mort de Louis XIV)























Um filme que cheira à morte. Assim pode ser descrito o novo filme de Albert Serra, A MORTE DE LUÍS XIV (2016), que apesar de ser ou parecer um desafio para um público mais amplo, é tão fascinantemente mórbido que nos faz ficar até o doloroso fim, que já sabemos se tratar da morte do rei, que desde o começo da narrativa já aparece extremamente debilitado, reclamando de uma dor na perna.

Quem teve a paciência de ver até o final o primeiro filme de Serra, HONRA DOS CAVALEIROS (2006), certamente vai considerar A MORTE DE LUÍS XIV extremamente acessível. E de fato, o público fica até o final, apesar do andamento narrativo lento e da sensação de claustrofobia – a história se passa quase que inteiramente dentro do quarto de Sua Majestade.

E quem diria que Jean-Pierre Léaud, que será eternamente lembrado por seu papel como o inquieto e enérgico Antoine Doinel dos filmes de Truffaut interpretaria agora um homem velho em estado de lenta agonia. Além do mais, o fato de o rei ter um tratamento privilegiado torna sua decadência física ainda mais incômoda e escancaradamente visível. Ainda assim, vemos um pouco do orgulho do rei, em querer participar de uma missa ou de uma reunião importante, mas depois ele mesmo percebe que não tem condições de fazer alguma coisa a não ser ficar deitado em seu leito.

A MORTE DE LUÍS XIV é também um filme que se constrói com muitos silêncios e muitos sussurros. Léaud, como o rei, pouco fala, até porque não tem forças. Mas aqueles que estão monitorando e tentando salvá-lo da doença conversam o tempo todo sobre as possibilidades de cura, de tentar salvar a perna doente, de pensar na alimentação como possível inimiga da saúde etc.

E a linguagem narrativa de Serra em seu filme é tão impressionantemente realista que é quase como se estivéssemos ali pertinho do rei moribundo, aguardando como urubus o momento de sua partida final. E até recebemos um castigo, ao final, por isso, é bom lembrar. Mas, ao mesmo tempo que é realista na condução da dramaturgia, há todo um cuidado formal com a disposição da câmera, das cores (com destaque para o vermelho) na fotografia, e outros aspectos que valorizam a construção da imagem.

Não custa lembrar que Luís XIV é considerado o maior rei da França. Recebeu a alcunha de "Rei Sol" e reinou longos 72 anos, sendo que foi durante o seu reinado que o país chegou à liderança das potências europeias. Saber esses e outros detalhes é importante para situar a comoção que a morte do rei pode ter causado na época. Mas, mesmo não sabendo nada a respeito da história do rei, o filme de Serra tem uma força impressionante, com sua atmosfera lúgubre.

quinta-feira, janeiro 19, 2017

OS PENETRAS 2 – QUEM DÁ MAIS?























Curioso como há vários filmes brasileiros da safra recente que lidam com a questão da obtenção de dinheiro de maneira fácil ou, pelo menos, de forma não ligada ao trabalho legal. Seja ganhando uma fortuna, como no caso de TÔ RYCA e dos três ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE, seja através de algum crime ou contravenção, como no caso de O ROUBO DA TAÇA e dos dois VAI QUE DÁ CERTO. OS PENETRAS (2012), de Andrucha Waddington, já seguia essa linha, mas trazendo também a figura dos malandros, de gente que quer ganhar dinheiro enganando alguém, em especial pessoas ricas.

Se o primeiro filme já não era tão bom ou mesmo engraçado, pouco se justifica a existência da sequência, OS PENETRAS 2 – QUEM DÁ MAIS? (2017), novamente sob direção de Waddington. Que é um bom diretor para filmes sérios e até consegue fazer um entretenimento interessante e que lembra algumas comédias americanas da Velha Hollywood, ou mesmo filmes brasileiros da época das chanchadas, mas que não consegue arrancar risos. Diferente de TÔ RYCA, nem o Adnet ajudou, mesmo com seu talento reconhecido ao longo dos anos.

Na verdade, a solução que deram para o seu personagem, o grande líder da turma de trapaceiros, chega a ser uma alternativa pouco interessante: ele morre e só aparece como um fantasma visto apenas pelo personagem de Eduardo Sterblitch, que se esforça para ser engraçado com seu personagem meio maluco e que lembra um pouco alguns tipos feitos por Jerry Lewis, mas infelizmente seus gritos e caras e bocas só conseguem, no mínimo, a simpatia da plateia, já que se trata do único personagem de alma pura da história.

Logo no começo do filme, ele é traído pelo amigo (Adnet) e acaba indo para o hospício para se tratar. Sai de lá devido a uma notícia que o perturba e encontra pelo caminho um rapaz que julga ser um bom amigo, vivido por Danton Mello, que seria uma ótima escalação, já que ele está muito bem junto com a turma de VAI QUE DÁ CERTO. Aqui, porém, há o problema de um diretor que não sabe lidar com o timing cômico.

O roteiro até fornece algumas situações que poderiam fazer de OS PENETRAS 2 um filme bem divertido, como a história do casamento gay do protagonista com o milionário russo, mas infelizmente as piadas não funcionam e um elenco bom é desperdiçado, inclusive Mariana Ximenes, que é uma atriz bem versátil e que costuma funcionar bem em comédias. Com outro diretor e com a mesma turma, o resultado poderia ser outro.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

MOZART IN THE JUNGLE – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Mozart in the Jungle – The Complete Third Season)























Às vezes é preciso arriscar, sair da zona de conforto, até para não se repetir, mesmo que isso signifique mexer em time que está ganhando. As duas primeiras temporadas de MOZART IN THE JUNGLE são pequenos bálsamos para nosso espírito. Cada episódio nos enchia de amor por aqueles personagens, em especial Hailey (Lola Kirke) e Rodrigo (Gael García Bernal), que formam uma espécie de casal destinado a ter um filho juntos um dia, segundo leu na borra de café a avó de Rodrigo.

Mas histórias de amor funcionam bem quando esses dois elementos são distanciados. E a série sabe fazer isso muito bem, muito embora a relação dos dois dê uma esfriada até demais na primeira parte dessa terceira temporada (2016), que se passa em Veneza, quando Rodrigo viaja com o objetivo de conduzir uma apresentação de uma famosa soprano que esteve afastada dos palcos por uma série de motivos de ordem psicológica. Essa mulher é Alessandra, vivida por Monica Bellucci.

A escalação de Bellucci não deixou de ser animadora, mas infelizmente isso acaba fazendo mais mal do que bem para a série, já que os episódios ficam frouxos, a personagem da soprano é um tanto quanto caricata e o humor acaba não funcionando em diversos momentos. Alessandra é uma mulher assustadora e Rodrigo está em maus lençóis ao não saber direito o que quer da vida e fazendo promessas de amor que sabe que não vai cumprir. Pelo menos o quinto episódio, que é a despedida dessa fase em Veneza é muito bom, com a participação especial de Plácido Domingo, interpretando ele mesmo. Emocionante.

O retorno de Rodrigo para sua orquestra, que está em greve, nos Estados Unidos, não deixa de ser um alívio, pois a série volta a ser o que era antes. E isso é muito bom, muito embora os episódios demorem um pouco para engrenar. Os produtores e roteiristas até inventam um episódio experimental, uma espécie de mockumentary com a sinfônica tocando em uma penitenciária, mas acaba sendo o episódio mais chato de toda a série.

A terceira temporada também se destacou por mostrar Thomas (Malcolm McDowell), o velho maestro, como um sujeito muito mais simpático e agradável. Acaba entrando para o rol dos queridos da série, junto com Cinthia (a bela Saffron Burrows), que passa por uma situação delicada de saúde nesta temporada, depois de tanto sofrer de dores nos tendões e de temer ter que abandonar o violoncelo.

Os últimos episódios trazem de volta o amor que fez de MOZART IN THE JUNGLE uma das séries mais queridas e menos vistas por um grande púbico dos últimos tempos – eu, pelo menos, não tenho nenhum amigo que a acompanha. Os episódios finais tratam de mostrar a tentativa de Hailey de se tornar uma maestrina, além de dar um novo recomeço para sua vida profissional e sua relação com Rodrigo. Funciona que é uma beleza, mas suspeito que na próxima temporada, se houver, acabarão dando um jeito de tornar as coisas um pouco como eram antes. De todo modo, tendo uma quarta temporada, eu já fico feliz.

domingo, janeiro 15, 2017

BR 716























A comparação que costumam fazer de Domingos Oliveira com Woody Allen mais uma vez ganha força no novo trabalho do cineasta carioca, que com BR 716 (2016) mais uma vez trata com leveza a ciranda de amores na vida protagonista, o aspirante a escritor Felipe (Caio Blat). O personagem começa o filme sofrendo as dores de separação da sua primeira esposa, vivida por Maria Ribeiro, que o traiu justamente com o melhor amigo.

Mas tudo é motivo para riso, embora a dor, saibamos, está lá e somos solidários ao protagonista por isso. Mas é que BR 716 tem um tom de nostalgia que já marca o tom desde o começo a narrativa, ainda em cores, e que nos contagia. Na trama, somos levados à primeira metade dos anos 1960, momentos antes do Golpe de 64, quando o país parecia mais feliz.

Mas embora haja esse pano de fundo político, o que mais importa é a relação que se constrói entre o protagonista e seus inúmeros amigos que frequentam sua casa, que fica na Rua Barata Ribeiro 716, em Copacabana. O lugar é privilegiado e há sempre muitas festas. Felipe não aceita os conselhos do pai em ter um emprego normal para ganhar dinheiro e segue buscando seu sonho de se tornar escritor e roteirista de peças e filmes.

A identificação do personagem com o diretor se estabelece desde o começo, quando na primeira das frases da narração em voice-over que permeia todo o filme, ele conta que não lembra direito dos eventos que vai contar, que tudo está borrado na memória, afinal, estavam todos quase sempre bêbados mesmo. Essa aproximação enfatiza o caráter de filme memorialista, além de ser uma retomada aos primeiros trabalhos do diretor, TODAS AS MULHERES DO MUNDO (1966) e EDU, CORAÇÃO DE OURO (1968), sendo considerado o fecho de uma trilogia.

Três mulheres dão o tom de uma vida levada pelas paixões. Seja a já citada ex-mulher, a nova e sedutora moça aspirante a atriz que ele conhece em uma das várias festas em seu apartamento (Sophie Charlotte, ótima) e outra moça que ele conhece também em uma das festas e que representa algo de estranho para alguém que mora em um bairro privilegiado do Rio de Janeiro. As perdas e os recomeços desses amores são mostrados com uma visão de quem é velho o suficiente para encarar com saudade, serenidade e amor as pessoas que fizeram parte daquele momento tão especial.

Há uma cena especialmente mágica, que é quando Felipe acorda rodeado pelos seus melhores amigos e quer dar um beijo em cada um deles. Essa cena sintetiza o sentimento desse filme que transborda amor.

sábado, janeiro 14, 2017

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land)























Quem não se deixou levar pelo encanto ao ver o primeiro trailer de LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (2016)? As imagens são de encher os olhos e a delicadeza com que vendem "City of Stars", cantada pelo próprio Ryan Gosling, parece um indicador de que estamos/estaremos diante de um novo clássico. E é possível que o novo filme de Damien Chazelle seja. O tempo dirá. O que temos, por enquanto, é um belo trabalho que homenageia os clássicos musicais produzidos por Hollywood entre os anos 1930 a 60.

E um dos méritos do filme é não apontar de maneira tão óbvia as referências a esses clássicos, embora, quem tenha visto filmes como CANTANDO NA CHUVA, A RODA DA FORTUNA e AMOR, SUBLIME AMOR vá reconhecer as homenagens. É também o terceiro filme de Chazelle, de uma carreira de apenas longas-metragens na direção (sendo o primeiro um tanto obscuro), que trazem o jazz como tema. Ou como um dos temas, na verdade.

Se WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (2014) é sobre obsessão, em LA LA LAND a obsessão até move os personagens, tanto a aspirante a atriz vivida por Emma Stone, quanto o pianista/tecladista vivido por Ryan Gosling. Ambos estão em começo de carreira e têm sonhos de se tornarem importantes fazendo o que amam. Chegar ao primeiro time de Hollywood não é fácil, assim como também não é fácil conseguir viver e ser bem-sucedido com o jazz, um gênero musical cada vez mais fechado e admirado por poucos.

Mas não é a obsessão o tema dominante de LA LA LAND. O que vemos aqui é, principalmente, uma história de amor. Uma história de amor que peca um pouco por deixar com que o cinismo contamine um pouco a pureza do sentimento que poderia ser explorado de maneira mais apaixonada (ou sutil, mas amorosa). A história também não ajuda, já que há poucos momentos de tensão na relação do casal – o foco na carreira pesa um bocado. Além do mais, Ryan Gosling tem uma persona que não combina com a figura de um quase loser. Ele é muito cool, muito seguro de si. Quase como se ele tivesse saído de uma filmagem de DRIVE, de Nicolas Winding Refn.

Curiosamente, há uma cena que se passa no planetário do Observatório Griffith que acaba lembrando outra cena em um planetário também estrelado por Emma Stone: a do subestimado e belo MAGIA AO LUAR, de Woody Allen. Lembremos que o casal do filme de Allen, nesta cena, está em um impressionante momento de tensão de sua paixão ainda não assumida. Quanto a cena do planetário de LA LA LAND, é lá que acontece uma das cenas mais bonitas, visualmente falando, mas que passa uma sensação de que a intenção não chega ao resultado arrebatador que quer causar, com o casal levitando.

Se pensarmos na famosa cena do parque de A ROSA DA FORTUNA, de Vincente Minnelli, não é preciso que o casal, enquanto dança, levite, literalmente. A música e a leveza dos corpos de Fred Astaire e Cyd Charise passam esse sentimento e nos arrebata. Mas claro que não é nada bom ficar fazendo esse tipo de comparação com clássicos já estabelecidos. Um filme novo acabou de vir ao mundo e ainda está sendo avaliado e deve ser revisto com o devido carinho, principalmente se a carreira de Chazelle se encaminhar para outro filme tão bom quanto este e principalmente quanto WHIPLASH.

Curiosamente, LA LA LAND não é um filme com tantos números musicais. Eles são até escassos se pensarmos na duração de pouco mais de duas horas. Mas as canções poderiam ser mais grudentas e apaixonantes, embora possam melhorar numa revisão, como é natural acontecer com canções, em geral. Nesse sentido, não dá para reclamar, porém, das cenas de dança. Emma Stone dançando com suas duas colegas. A cena inicial dos carros parados. Stone e Gosling no parque. Essa cena, em especial, tem um movimento de câmera belíssimo. E o filme não apela para a montagem e close-ups como fez CHICAGO para atrapalhar. Assim é possível apreciar a dança dos amantes sob o fundo sempre belo.

Justamente pelo capricho visual, trata-se de um filme que pede para ser visto em uma sala que dispõe de uma ótima projeção, para que se possa apreciar devidamente a fotografia de cores vivas e a direção de arte e figurinos belamente anacrônicos, bem como um sistema de som que reverbere por toda a sala e faça com que as intenções de Chazelle cheguem ao espectador sem ruídos de comunicação.

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES foi recordista de prêmios no Globo de Ouro, vencendo em todas as categorias em que foi indicado: filme, direção, roteiro, ator, atriz, trilha sonora e canção ("City of Stars").

sexta-feira, janeiro 13, 2017

SIERANEVADA























Um privilégio poder ver SIERANEVADA (2016) no cinema. Em casa certamente o impacto e o prazer misturado com o incômodo não seriam os mesmos. E o engraçado é que este quinto longa-metragem de Cristi Puiu, mais conhecido por A MORTE DO SR. LAZARESCU (2005), promove uma série de sentimentos contraditórios em nossa relação com ele. Se por um lado, é incômodo ficar posicionado no meio de um corredor de uma casa com portas que se fecham e abrem de um lado e de outro, é ao mesmo tempo fascinante poder ir desvendando e conhecendo aquelas pessoas estranhas.

Assim, uma vez que entendemos o jogo de Puiu, cresce então uma relação de prazer com o filme, a ponto de ficarmos sorrindo ao olhar para a tela, durante situações não muito confortáveis, como a citada acima. A câmera fica no corredor, coisas acontecem em diversas partes da casa e o espectador fica um tanto perdido e se perguntando o que está acontecendo.

A câmera estilo voyeur, se não nos coloca muitas vezes em uma posição privilegiada, acaba fornecendo uma forma em que o objeto mostrado é muito mais interessante do que se acompanhássemos tudo da maneira mais tradicional, com plano geral de apresentação do espaço, seguido de planos de pessoas mais de perto e depois com uso de close-ups e campo e contracampo. É o padrão usado nas telenovelas e na maior parte dos filmes americanos.

Como cinema de gente grande que é, SIERANEVADA também promove discussões políticas ao mesmo tempo acaloradas e muito espirituosas no modo como elas são tratadas, como é o caso das opiniões contundentes do rapaz que duvida da versão oficial do ataque às Torres Gêmeas no 11 de setembro, ou da velhinha comunista, que, como boa ativista, ainda acredita que o velho sistema político adotado na Romênia na época da Guerra Fria era muito bom, sim senhor. No meio do debate, há aqueles que ficam em cima do muro ou estão abertos a novos pontos de vista, contanto que baseados em algo sólido.

Mas o que mais é enfatizado no filme é mesmo o jogo de relações humanas que se promove naquele espaço, uma casa cheia de familiares prontos para o aniversário de morte do patriarca e um padre ortodoxo que demora tanto a chegar que faz o filme parecer uma versão atualizada de O ANJO EXTERMINADOR, de Luis Buñuel. E essa demora do padre acaba gerando desgastes na família, que vem passando por situações bem complicadas. O atrito cresce ainda mais com a chegada de um dos homens da família, que acaba não sendo bem recebido por ter aprontado com a esposa e ter mexido com seus sentimentos.

Na verdade, não acontece nada de anormal no retrato de família que é mostrado em SIERANEVADA. As discussões são muito comuns, tornando-se tão universais que até parece que estão filmando a nós mesmos, passando uma sensação de verdade escancarada para o espectador. E isso Puiu consegue através do seu realismo às vezes incômodo e de sua câmera que sabe muito bem quando se afastar e quando se posicionar bem próximo dos personagens. O fato de ter quase três horas de duração também contribui muito para deixar o espectador um tanto incomodado. Mas é tão bom quando topamos com esse tipo de incômodo, que só temos a agradecer.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

ASSASSIN'S CREED























Ao que parece a maldição dos péssimos filmes baseados em games não terminará tão cedo. Claro que há algumas exceções, e aí sempre lembramos do ótimo TERROR EM SILENT HILL, de Christophe Gans. Há outros bons também, mas são poucos e talvez nem mereçam a citação. De todo modo, a culpa nem é dessa tal maldição, mas da falta de criatividade em aproveitarem o que há de mais interessante no jogo e criarem uma história suficientemente boa.

Aliás, é possível um filme sobreviver e ser muito bom sem ter uma história boa também. Mas como isso é tarefa para alguns diretores muito especiais, é bom que haja um roteiro bem trabalhado. No caso, o que houve aqui foi um excesso de confiança no trabalho do colega. O produtor e ator Michael Fassbender convida o diretor de MACBETH – AMBIÇÃO E GUERRA (2015), Justin Kurzel, para dirigir o filme e também a sua colega de mesmo filme, Marion Cotillard, que topa fazer um novo trabalho com os dois, já que a adaptação da tragédia de Shakespeare foi bem aceita por público e crítica.

Sem querer entrar muito na questão da adaptação da peça Macbeth por Kurzel, mas há ali já um texto poderoso e atores competentes, o que é meio caminho andado para um bom efeito. Claro que houve boas escolhas do diretor para um resultado final, mas nada de excepcional, na verdade. O que acontece em ASSASSIN’S CREED (2016) é algo que, ou mostra que o diretor é uma farsa, ou o australiano precisará de algo muito bom para reconquistar o respeito de público, crítico e indústria.

ASSASSIN’S CREED é desses filmes que não enganam nem mesmo no início. Em 10 minutos, você já quer ir embora. Quem é fã dos jogos também não tem gostado, mas talvez encontre ali algum interesse, por causa da familiaridade e da vontade de gostar. Mas como um filme é um objeto independente, ele deve ser visto e analisado como algo singular, não importando sua origem. Pouco importa, no caso, se ele é adaptação de um game.

Ainda assim, o trabalho de Kurzel é o típico filme de jogo, no sentido de que há uma missão a ser cumprida e alguns perigos pela frente. Até aí não chega exatamente a ser um problema se lembrarmos de certos filmes de guerra do passado, que também mostra homens em uma missão, mas ali o componente humano era valorizado. O que vemos aqui é um protagonista sem alma (Fassbender) que descobre que tem como ancestral um homem que trabalhou como um dos assassinos de membros dos Templários. O protagonista é um homem condenado à morte que faz parte de um projeto ultrassecreto que liga seu cérebro ao de seu antepassado para que ele consiga algo.

Uma vez que pouco importa aquilo que ele deve fazer, esse mcGuffin não funciona em nenhum momento, pois o que importa nesses casos é o que o diretor consegue extrair das situações, como momentos de suspense, sensação de perigo etc. Mas, como sentir perigo se não há um componente humano bem elaborado? Além do mais, em nenhum momento nos sentimos na Espanha, apenas em um cenário artificial criado por pessoas pouco habilidosas na computação gráfica, o que dificulta ainda mais a suspensão de descrença, tão necessária para uma imersão razoável em um filme que tenha ao menos a intenção de entreter. E no caso de ASSASSIN’S CREED o entretenimento chega próximo de zero.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

GLOBO DE OURO 2017





















Foi uma festa e tanto. Começou um pouco desanimadora, pois a expectativa era de que o anfitrião, o querido e simpático Jimmy Fallon, ficasse mais à vontade, fosse mais divertido. Enfim, acabou sendo um pouco complicado no que se refere ao humor, inclusive porque outros artistas também tentaram fazer humor e resultaram em fracasso. Até que entraram Steve Carell e Kristen Wiig para apresentar os vencedores da categoria "animação". Foi muito bom. Perfeito. Um dos pontos altos da noite. Que do ponto de vista mais sério ainda ia render muito.

Sendo sintético, o que houve de melhor nesta edição do Globo de Ouro foi, primeiramente, a premiação de Sarah Paulson, por seu espetacular desempenho em THE PEOPLE V. O.J. SIMPSON – AMERICAN CRIME STORY. Foi o primeiro prêmio a me deixar feliz numa noite que parecia apenas ok. Mas as coisas iriam melhorar muito ainda. A noite só estava começando. Pois ainda teve um discurso lindo da Viola Davis para homenagear a Meryl Streep que foi de arrepiar. E a Meryl ainda entra lá e mete o pau no Donald Trump e encoraja os jornalistas a contar tudo.

Os outros dois grandes motivos de alegria da festa foram as premiações para ELLE, de Paul Verhoeven, com o cineasta holandês pisando em território americano depois de tanto tempo afastado, e, principalmente, a vitória de Isabelle Huppert por sua performance monstruosa no filme. Isso fechou com chave de ouro a noite.

A premiação deste ano também será lembrada pelo recorde de premiações de um único filme. No caso, LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES ganhou em todas as indicações. Sete, no total. Incluindo melhor filme (comédia ou musical), melhor diretor, melhor ator (comédia ou musical) e melhor atriz (comédia ou musical). Foi bonito de ver. Restou pouco para os demais concorrentes. MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR ganhou melhor filme (drama).

Nas categorias de televisão as séries que mais chamaram a atenção foram THE NIGHT MANAGER, que ganhou três prêmios, ATLANTA e THE CROWN. Além, claro, de THE PEOPLE V. O.J. SIMPSON – AMERICAN CRIME STORY, mas essa já se esperava ser um sucesso. Acabou perdendo em algumas categorias, na verdade.

No mais, teve um desfile de mulheres lindas que foi de deixar o coração apertado. Brie Larson, Jessica Chastain, Emma Stone, Mandy Moore, Kristen Wiig, Amy Adams, Hailee Steinfeld, Naomi Harris, Amanda Peet, Zoe Saldana, Saffron Burrows, Gal Gadot, Sophie Turner, Lola Kirke. Que beleza...

Pra não dizer que só falei de flores, um ponto negativo da cerimônia foi terem perdido a chance de premiarem Hugh Grant. Mas tudo bem. Pelo menos ele estava lá e espero que volte a atuar com mais frequência.  





















Prêmios da noite:

Cinema 

Melhor Filme (Drama): MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR
Melhor Filme (Comédia/Musical): LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES
Melhor Direção: Damien Chazelle (LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES)
Melhor Ator (Drama): Casey Affleck (MANCHESTER À BEIRA-MAR)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Ryan Gosling (LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES)
Melhor Atriz (Drama): Isabelle Huppert (ELLE)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Emma Stone (LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES)
Melhor Ator Coadjuvante: Aaron Taylor-Johnson (ANIMAIS NOTURNOS)
Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis (CERCAS)
Melhor Roteiro: Damien Chazelle (LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES)
Melhor Trilha Sonora: LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES
Melhor Canção Original: "City of Stars" (LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES)
Melhor Animação: ZOOTOPIA
Melhor Filme Estrangeiro: ELLE (França)

Televisão

Melhor Série (Drama): THE CROWN
Melhor Série (Comédia/Musical): ATLANTA
Melhor Minissérie ou Telefilme: THE PEOPLE V. O.J. SIMPSON – AMERICAN CRIME STORY
Melhor Ator de Série (Drama): Billy Bob Thornton (GOLIATH)
Melhor Ator de Série (Comédia): Donald Glover (ATLANTA)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Tom Hiddleston (THE NIGHT MANAGER)
Melhor Atriz de Série (Drama): Claire Foy (THE CROWN)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Tracee Ellis Ross (BLACK-ISH)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Sarah Paulson (THE PEOPLE V. O.J. SIMPSON – AMERICAN CRIME STORY)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Hugh Laurie (THE NIGHT MANAGER)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Olivia Colman (THE NIGHT MANAGER)


domingo, janeiro 08, 2017

12 ANIMAÇÕES























Não sei se estou me tornando um velho chato e perdi a conexão com o espírito infantil que tanto gosta de filmes de fantasia e de certas animações, mas o fato é que poucas delas têm me agradado. E eu nem tenho visto tudo do gênero que foi lançado. Mesmo assim, eu cheguei a ver várias neste ano que se passou e agora mais uma neste ano que está começando. Algumas mereciam textos maiores, pois eu gostei mesmo, mas agora que passou o tempo acho complicado voltar na memória e tentar refletir sobre algo que já nem me lembro direito.

Ainda assim, dei uma olhada no blog no arquivo de 2016 e até que escrevi sobre uma boa leva de filmes, como PROCURANDO DORY, MOGLI – O MENINO LOBO (se o considerarmos uma animação, no caso), ZOOTOPIA – ESSA CIDADE É O BICHO, ANOMALISA, AS MEMÓRIAS DE MARNIE e O BOM DINOSSAURO. De certa forma, foram filmes que me puxaram para a escrita. Acho que tinha algo a dizer sobre eles e calhou de também ter algum tempo para destinar a eles. Agora é hora passar a régua logo naqueles títulos que foram vistos e que acabaram ficando de fora das postagens do blog. Então, façamos rapidamente. A soma de 12 se dá por causa de dois curtas em animação, ok?

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO (How to Train Your Dragon)

Como tenho um pouco de ranço com as animações da Dreamworks, não cheguei a ver COMO TREINAR O SEU DRAGÃO (2010), de Dean DeBlois e Chris Sanders, no cinema. Mas como ele se tornou o título da produtora que mais recebeu elogios e estava na véspera de ver o segundo, resolvi pegar para ver em casa. E de fato é um belo filme. Tem até uma agressividade que eu sinto falta nas animações contemporâneas, que têm medo de assustar os pequenos – ora, se até a Disney fazia desenhos bem perversos na década de 1950. O filme se passa muito tempo atrás nos países baixos, em uma comunidade de vikings que se dedica a matar dragões. O protagonista, um garotinho, porém, apesar de ter uma constituição mais frágil, também deseja seguir os passos dos pais e dos colegas. Mas a vida dele muda quando ele conhece um dragão machucado em uma floresta e resolve ajudá-lo. Daí em diante o filme só melhora e tem um final agridoce muito interessante.

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 2 (How to Train Your Dragon 2)

Foi bom poder revisitar os personagens do maior êxito da animação da Dremworks, e embora COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 2 (2014), de Dean DeBlois, não seja tão bom quanto o primeiro, a qualidade técnica já se mostrou bem melhor. Além do mais, o roteiro soube dar continuidade e trazer novas perspectivas para os personagens, ampliando o leque de ideias e sabendo muito bem como lidar com essa nova realidade que se instalou, em que os dragões agora são aliados dos vikings. Confesso que tenho pouca lembrança do filme e é justamente por isso que em minha cabeça ele é inferior ao primeiro, mesmo eu tendo visto no cinema, com melhor imersão e tudo. Acontece.

OPERAÇÃO BIG HERO (Big Hero 6)

Interessante eu ter visto este filme baseado em uma criação da Marvel sem ter sequer ouvido falar desses personagens. Logo eu, que sou um marvete. De fato, são personagens um pouco mais obscuros. E a Walt Disney Studios se beneficiou disso também. OPERAÇÃO BIG HERO (2014), de Don Hall e Chris Williams, acabou passando como uma ideia original, de certa forma. E com personagens que funcionam muito bem para virarem bonecos vendáveis. Principalmente o robô. Na trama, um garoto muito inteligente cria um robô para participar de lutas clandestinas, mas o irmão dele quer usar sua inteligência em coisas mais úteis e superiores. A história envolve perdas e superações e por isso eu imaginei que poderia ter funcionado mais do ponto de vista dramático. Em vez disso, acaba sendo uma das animações mais esquecíveis da fase recente da Disney.

O PEQUENO PRÍNCIPE (The Little Prince / Le Petit Prince)

Este era um dos filmes que mais mereceriam uma postagem só pra ele dentre os que estão aqui. Mas acabou passando muito tempo. O PEQUENO PRÍNCIPE (2015), de Mark Osborne, pode frustrar quem espera ver uma adaptação fiel do livro de Antoine de Saint-Exupéry. Mas uma coisa não se pode dizer da animação: que ela não trata a obra literária com respeito. O que muita gente reclamou na verdade de O PEQUENO PRÍNCIPE foi de que se trata de um filme maduro demais para crianças muito pequenas entenderem. De todo modo, acho que mesmo essas crianças um dia vão querer retomar o filme e dar o devido valor. Nem sempre é preciso oferecer coisas mastigadinhas para as crianças. É bom quando tem algo desafiador também. O protagonista do filme é na verdade uma menina, que se muda para uma nova casa com a mãe, uma mulher bastante controladora e que quer que a garotinha estude muito para uma conceituada escola. As coisas mudam para essa menina quando ela faz amizade com um senhor excêntrico, que é seu vizinho e que a apresenta à história do livro.

SNOOPY & CHARLIE BROWN - PEANUTS, O FILME (The Peanuts Movie)

Eu tenho um carinho imenso pelos personagens criados por Charles M. Schulz. Eles me ajudaram bastante em minha adolescência, quando eu me identificava com o personagem tímido Charlie Brown, um garoto cheio de neuras e que até pagava uma de suas amigas uma sessão de terapia. SNOOPY & CHARLIE BROWN – PEANUTS, O FILME (2015), de Steve Martino, tinha uma vantagem e tanto: ser escrito por um dos filhos e por um dos netos de Schulz, o que supostamente poderia trazer credibilidade e uma maior ligação com a obra original. Infelizmente o máximo que o longa conseguiu foi pegar pequenas coisas marcantes da série em desenho animado e em quadrinhos do criador. Faltou uma história boa. Claro que daria para se sustentar apenas nos personagens, mas o filme consegue isso muito pouco e acaba ficando no esquecimento aos poucos. Bom enquanto dura.

ANGRY BIRDS - O FILME (The Angry Birds Movie)

Não deixa de ser interessante uma animação infantil que estimula a raiva. Mesmo que seja a raiva como catalisadora de uma força criadora ou modificadora para o bem. ANGRY BIRDS – O FILME (2016), de Clay Kaitis e Fergal Reilly, é inspirado em um joguinho que foi lançado em 2009 e que virou uma febre em várias plataformas e em telefones celulares. Como eu não sou nem de jogar em computador, celular nem nada, nem sabia do que se tratava. Mas o cinema às vezes salva a gente da ignorância em relação a certas coisas. O personagem principal, o raivoso Red, é muito bom, justamente por ser ranzinza e morar em um lugar onde predomina a gentileza. Por isso ele é enviado para uma espécie de terapia de raiva para tratar o seu problema. Mas logo o seu jeito de ser será bastante útil para a comunidade, depois que ela é invadida para um grupo de porcos. Aliás, é a partir daí que o filme fica bem monótono e desinteressante.

PETS - A VIDA SECRETA DOS BICHOS (The Secret Life of Pets)

Outro filme que começa bem interessante, mas cujo andamento acaba botando tudo a perder é este PETS – A VIDA SECRETA DOS BICHOS (2016), de Chris Renaud e Yarrow Cheney. É uma espécie de TOY STORY no mundo dos bichos. Quando os humanos saem, eles passam a ser eles mesmos e trocam ideias um com o outro. O protagonista é o cãozinho Max que é “presenteado” com um irmãozinho que ele não curte muito, um cão muito maior que ele e que invade o seu território. Porém, um incidente os coloca na mira da carrocinha, e eles vão ter que juntar forças e se tornarem amigos. Trata-se de uma animação da Universal, do mesmo estúdio que gerou os Minions. Aliás, os amarelinhos ganham um curta que abre o longa chamado MINIONS JARDINEIROS, de Runo Chauffaud e Glenn McCoy, que infelizmente é muito pequeno, com uma historinha simples e fraca. Pelo menos não incomoda.

FESTA DA SALSICHA (Sausage Party)

O mais diferente das animações aqui apresentadas e um dos que eu mais fiquei animado para ver, FESTA DA SALSICHA (2016), de Greg Tiernan e Conrad Vernon, seria supostamente uma versão em desenho animado e com cenas bem explícitas de sexo e violência das loucuras perpetradas pela turma de Seth Rogen e cia. Como eu gosto dos filmes de Rogen, Apatow etc., estava animado com essa animação tão ousada e proibida para menores. Acontece que, por trás dessa atitude transgressora, o que vemos é um filme feito nos mesmos moldes das animações tradicionais. Ou seja: chega a dar sono. Optei por ver na versão original legendada, por gostar do elenco escolhido, mas acredito que a versão dublada, com a turma do Porta dos Fundos envolvida, pode ser até uma opção mais interessante pelo fato de ouvirmos palavrões e sacanagem em português mesmo. E isso deve fazer alguma diferença. Quem sabe um dia eu vejo essa versão dublada.

SING - QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA (Sing)

Uma das animações mais divertidas dos últimos anos, SING – QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA (2016), de Garth Jennings e Christophe Lourdelet, tem como mérito as mais de 60 canções famosas que passam pela trilha. E isso deve ter custado um dinheirão para a produção. Trata-se de uma espécie de versão em desenho dos programas como The Voice e American Idol, mas com um cuidado também na construção dos personagens. Tanto que a gente chega a se importar com eles. Seja o gorila que vem de uma família de gângsteres, a porquinha mãe de vários filhos ou a porco-espinho rocker. E há uma costura cuidadosa na trama, nos personagens e nas canções, de modo que SING nunca fica chato. Mas acredito que a força da música ajuda e muito a tornar o filme mais interessante que a maioria.

MOANA - UM MAR DE AVENTURAS (Moana)

Será que a gente precisava mesmo de uma animação musical tão careta quanto MOANA – UM MAR DE AVENTURAS (2016)? O filme traz de volta Ron Clements e John Musker, diretores de A PEQUENA SEREIA (1989) e ALADDIN (1992), para os holofotes. Tudo bem que a Disney deve muito a eles pela revitalização das animações, mas mesmo com o sucesso de FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE e seu "Let it go", o tempo hoje está diferente. Inclusive, é bom a gente lembrar que, apesar das cópias dubladas de FROZEN, a canção mais famosa acabou virando hit aqui em sua versão original. E no caso de MOANA, as canções mais parecem saídas de um culto evangélico, o que não chega a ser de todo ruim, mas o problema é a quantidade. Chega uma hora que enche o saco mesmo. E não adianta ter um visual lindíssimo. Aliás, não dá pra negar o quanto o visual é extraordinariamente lindo e talvez um dos melhores de toda a história do estúdio do Mickey, mas infelizmente a história é desinteressante, as canções atrapalham mais do que ajudam e uma única personagem boa (o frango não conta) é insuficiente para levar um filme nas costas. Antes do longa passa um curta chamado TRABALHO INTERNO, de Leo Matsuda, que chegou um pouco atrasado, pois lembra bastante o DIVERTIDA MENTE, da Pixar. Mas o humor do curta é muito interessante e acredito que em uma revisão ele se beneficia, pois tudo é muito rápido.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

O LAGOSTA (The Lobster)























Ver um filme sem saber nada a respeito é sempre melhor, mas às vezes uma pequena ideia do que trata o enredo acaba sendo um bom motivo para que um espectador que jamais veria um filme resolva dar uma chance. É o caso de um filme com um nome tão pouco comercial como O LAGOSTA (2015). No meu caso, fiquei particularmente interessado no tema da imposição de estar com alguém e, pior, de essa sociedade distópica também punir de maneiras extremamente desumanas essas pessoas. Até faz lembrar um filme de François Truffaut, FAHRENHEIT 451, que mostra uma sociedade proibida de ler.

Mas, por incrível que pareça, O LAGOSTA, do diretor grego Yorgos Lanthimos, consegue ser ainda mais cruel, por mais que haja um rincão de humor negro ao longo de toda a narrativa, embora ela vá se tornando cada vez mais sombria, perturbadora e melancólica à medida que se aproxima do fim. Na trama, Colin Farrell é David, um homem recém-separado da esposa, que justamente por isso, por estar agora solteiro, é obrigado a encontrar uma nova parceira em 45 dias. Para isso, ele é levado a um hotel que tem pessoas da mesma situação que ele. Lá as regras são bem rígidas. Não se pode simplesmente enganar ou fazer casamentos de conveniência, embora muitos tentem. Caso elas falhem, essas pessoas serão transformadas em animais. Literalmente.

Inclusive, uma das primeiras perguntas que a pessoa faz ao se dar entrada neste programa é em que animal a pessoa gostaria de ser transformada caso ela não consiga alguém. David, que já anda acompanhando de um cão, que na verdade é seu irmão, diz que quer ser transformado em uma lagosta, pois é um ser que vive até os cem anos e tem sangue azul. Vemos que a própria ideia básica do filme já é, no mínimo, intrigante. Mas O LAGOSTA vai além e novas surpresas surgem.

Para completar o tom de estranheza, há uma narradora mulher que conta a história de David a partir do momento de sua partida para o tal hotel, sabendo detalhes das pessoas que ele encontra lá. Essa narradora será conhecida da gente quando David conhecer outra sociedade, uma sociedade ilegal e que mora na floresta que, como uma forma de se rebelar contra o sistema, prega o total desapego da pessoa ao amor romântico ou físico. Assim, David, portanto, prova do pior dos mundos: da impossibilidade de estar só e da impossibilidade de namorar ou beijar ou transar com quem quer que seja. A líder dessa facção rebelde é vivida por Léa Seydoux, que está muito bem na pele dessa líder dura e perversa. No rico elenco, Rachel Weisz comparece com um papel bem importante de decisivo.

Quanto a Colin Farrell, ele está particularmente muito bem como esse homem à deriva em situações desesperadoras. Seu papel em O LAGOSTA lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro. A segunda, aliás. A primeira foi com NA MIRA DO CHEFE, de Martin McDonagh, que é, também, uma comédia de humor bem particular.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

THE BLACKCOAT'S DAUGHTER / FEBRUARY























Cada vez mais tem sido uma tarefa hercúlea encontrar os verdadeiramente bons filmes de horror. Se bem que, de certa forma, já foi pior, já que, por mais que o circuito não tenha trazido os melhores exemplares do gênero, há a possibilidade de encontrá-los através da internet e graças a dicas valiosas de amigos ou gente que escreve para sites especializados. Quando só tínhamos as fitas VHS e algumas obras vistas como inferiores por uma certa elite da crítica era mais complicado, por mais que as pessoas hoje romantizem essa época.

Um belo exemplar contemporâneo do gênero que pode ser encontrado por aí é THE BLACKCOAT'S DAUGHTER (2015), filme que chegou a passar primeiro em festivais com o título de FEBRUARY, que, aliás, ainda é o título que aparece nos créditos iniciais. Trata-se de um filme com uma trama relativamente intrincada envolvendo três jovens: Joan (Emma Roberts), Rose (Lucy Boynton) e Kat (Kiernan Shipka). Os pontos de vista das três histórias são dessas três moças, mas a narrativa mantém um bom distanciamento, através de elipses, uma montagem estranha e pequenas pistas que são deixadas para a história final. Tudo contado de maneira bem lenta e climática e com uma trilha sonora de fundo que lembra um pouco a do cinema de David Lynch.

O filme também é honesto em não se apegar a sustos fáceis, mas a uma atmosfera de mistério, ligado ao sobrenatural, com uma história envolvendo uma possessão demoníaca. A maior parte da trama se passa em uma escola católica para garotas e nela estudam as jovens Rose (bom demais ver a Lucy Boynton poucos dias depois de tê-la visto em SING STREET - MÚSICA E SONHO) e Kat. É fim de ano letivo e preparação para o recesso escolar, mas as duas garotas ficam na escola quase vazia por um motivo: seus pais não vêm ou chegarão com certo atraso.

Em paralelo, somos apresentados a Joan, uma jovem que está sozinha em uma parada de ônibus e é ajudada por um homem que lhe oferece carona. Ela parece ter medo desse homem, desconfia de seus gestos bondosos. Sabemos muito pouco dessa personagem, mas de vez em quando o filme nos oferece alguns flashes, que ficarão claros no terceiro, ótimo e horrendo ato.

Oz Perkins, é filho do lendário Anthony Perkins, o eterno Norman Bates, de PSICOSE, e este é o seu primeiro filme como diretor. Seu segundo trabalho, I AM THE PRETTY THING THAT LIVES IN THE HOUSE (2016), já estreou nos Estados Unidos e traz novamente Lucy Boynton no elenco. Pelo que a crítica anda dizendo por aí é mais um exercício de construção de horror através de pura atmosfera. Acho pouco provável que chegue aos cinemas brasileiros, mas é o caso de ficar de olho.

terça-feira, janeiro 03, 2017

INVASÃO ZUMBI (Busanhaeng)























Pra quem achava que a lista de grandes filmes de zumbis já estava fechada por falta de novas ideias, eis que surge um novo e empolgante exemplar, vindo da Coreia do Sul. INVASÃO ZUMBI (2016), de Sang-ho Yeon, um cineasta de animações, que nunca havia feito um filme em live action até então, estreia no gênero em grande estilo. Ele não segue a cartilha de George Romero, pelo menos não no quesito zumbis lentos. Aqui os zumbis são tão elétricos quanto os de EXTERMÍNIO, de Danny Boyle, o que os torna ainda mais perigosos.

O que não quer dizer que a questão humana fique para trás. Ao contrário, o filme investe bastante nisso também, inicialmente ao apresentar um pai que tem dificuldade em se relacionar com a filha pequena, e que, por um sentimento de culpa, aceita ir com ela até a cidade onde a mãe mora. O que ele e mais ninguém esperavam é que uma epidemia tomasse conta do país e uma pessoa contaminada entraria no trem e transformaria quase todos a bordo em mortos-vivos.

Os demais personagens principais são apresentados dentro do trem: um homem que está com a esposa grávida e um grupo de jovens colegiais. O filme se concentra basicamente neles, embora haja também a figura do condutor e a do personagem que mais se aproxima de um vilão da narrativa, que, diferente da maioria dos filmes hollywoodianos, vai ganhando força à medida que se aproxima do final. Quer dizer, o filme só vai melhorando. O que dizer da cena em que três personagens tentam atravessar vários vagões cheios de zumbis para salvar seus entes queridos que estão em outro vagão? Sensacional.

No mais, diferente de outros filmes (e séries) de zumbi com que já estamos acostumados, o trabalho de Yeon não exagera no gore. As mordidas que os desmortos dão no pescoço das vítimas não são assim tão explícitas. Mas isso não quer que isso diminua o impacto da cena. Na verdade, acaba tornando-a mais verossímil, já que uma mordida de alguém não rasgaria um pedaço tão grande da carne, como nos filmes de zumbi americanos, por exemplo, ou como em THE WALKING DEAD.

Talvez o fato de o diretor ter vindo da animação tenha feito toda a diferença. A dinâmica com que ele conduz a história é admirável. E admirável ele ter pensado tudo isso e ter realizado com atores de carne e osso, além dos efeitos especiais mais do que eficientes. Há também outro fator que torna INVASÃO ZUMBI diferente dos filmes que costumamos ver, que é o exagero na dramaticidade, característica dos filmes orientais. Torna-se algo operístico e belo, muitas vezes tocante.

Só é uma pena que a distribuidora de INVASÃO ZUMBI, junto com os exibidores, tenha liberado tão poucas cópias legendadas, o que acabou forçando os espectadores que mais ansiavam ver o filme tendo que optar, em sua maioria, pelo download a ter que vê-lo dublado.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

SING STREET – MÚSICA E SONHO (Sing Street)























Sinal dos tempos esses em que filmes de tão alto nível quanto este SING STREET – MÚSICA E SONHO (2016) vão parar direto no Netflix e similares, longe da tela grande, mesmo tendo sido indicado ao Globo de Ouro de melhor filme (comédia ou musical) e tendo chances de indicação ao Oscar. Trata-se de mais uma deliciosa obra de John Carney, o sujeito que adora música e que já juntou o seu amor pelas melodias e pelos relacionamentos nos lindões APENAS UMA VEZ (2007) e MESMO SE NADA DER CERTO (2013).

SING STREET segue a mesma linha dos dois, mas de volta à Irlanda, como em APENAS UMA VEZ, e com personagens mais jovens e em uma outra época, a década de 1980, com o que ela tem de atraente, inocente e saudosista. Trata-se basicamente da história de um rapaz que resolve montar uma banda de rock por causa de uma garota. E o filme conta essa história com uma simplicidade e uma beleza impressionantes. Como a moça é especialmente linda e com um olhar especial (Lucy Boynton, que pode ser vista no terror THE BLACKGOAT'S DAUGHTER), é muito fácil nos colocarmos no lugar do jovem Conor (Ferdia Walsh-Peelo).

O processo de confecção de uma música, como nos filmes anteriores de Carney, se mostra até mais interessante do que o próprio resultado, até por que, no caso do novo filme, as canções não são assim tão boas. Elas refletem o espírito das bandas que influenciaram os estilos, a partir dos discos que o irmão de Conor apresenta a ele. Assim, se no começo, a banda segue uma linha próxima do Duran Duran, depois, quando ele conhece The Cure, a banda vai modificando o som e a imagem, assim por diante, até chegar ao ponto de ter um estilo próprio, ainda que bastante ligado ao espírito daquela época.

Como os anos 80 foram também a década dos videoclipes, esses também comparecem de maneira muito divertida. Raphina, a musa inspiradora de Conor, é também a modelo dos videoclipes caseiros que a banda intitulada Sing Street, muito no espírito “faça você mesmo”, produz amadoramente. As canções também vão surgindo a partir de sentimentos e situações que acontecem na vida de Conor ou mesmo na de Raphina, uma garota que sonha em ir embora para Londres e ter uma vida melhor.

O que torna SING STREET também especial é o modo como ele nos faz adentrar esse mundo de sonho, como se fôssemos capazes de nos colocar no lugar do protagonista e fazer algo que tantas pessoas querem e não conseguem por um motivo ou outro: fundar uma banda, conquistar a garota dos sonhos e ir embora com ela. A cena final é dessas que é tão inacreditavelmente bela que a gente custa a acreditar. SING STREET pode ser comparado a um sonho bom, um sonho de que não queremos acordar.