quarta-feira, setembro 28, 2016

MR. ROBOT – TEMPORADA 2 (Mr. Robot – Season 2)



O que dizer desta segunda temporada de MR. ROBOT (2016)? Não dá pra dizer que não foi surpreendente em muitos sentidos. Mas ficou uma pontinha de desapontamento no modo como a série deixou de me entusiasmar da mesma maneira que a primeira conseguiu. Isso se deve à coragem de seu criador, Sam Esmail, que dirigiu todos os episódios também, e fez algo ainda mais ousado na segunda parte da história do hacker Elliot Alderson (Rami Malek).

Na primeira temporada descobrimos quem era Mr. Robot e vimos os planos de sua equipe de afundar o sistema econômico mundial, deixando a sociedade em colapso, sem poder acessar suas contas. O mundo da segunda temporada já é esse mundo sombrio (ou de libertação, depende do ponto de vista), e há uma série de novos personagens estranhos que aparecem, às vezes só no cantinho do quadro, pois Esmail também faz questão de desconstruir o que normalmente se espera de um programa televisivo. Ou seja, não é pra esperar os tradicionais close-ups e tantos campos e contracampos.

Há muitos planos gerais, tomadas em que os personagens aparecem bem no canto da tela, às vezes à distância, e cenas de tiroteio (poucas, mas empolgantes) de um ponto de vista bem estranho. Nada de deixar o espectador se sentindo privilegiado com a melhor visão de um tiroteio, por exemplo. Mas isso não diminui o impacto das duas cenas a que me refiro, especialmente a segunda, que acontece no episódio 10, um dos melhores da breve história da série. As duas envolvem a detetive do FBI Dominique DiPietro, muito bem interpretada por Grace Gummer (filha de Meryl Streep).

Ela já aparece na segunda parte do episódio duplo que dá início à segunda temporada e no começo eu demorei a perceber que ela era uma nova adição para a série. Isso porque é preciso, pelo menos, rever o último ou talvez o penúltimo episódio da temporada passada, a fim de não ficar um pouco perdido na trama. Esmail faz questão de deixar a gente confuso. E uma prova da qualidade da série é quando deixamos de lado o episódio por algum motivo, e, ao recomeçarmos, percebemos o quanto ele é bom e ousado, precisando ser visto com mais atenção do que a grande maioria das séries de televisão, que tem apenas o intuito de entreter.

Há também um clima de melancolia na série, principalmente quando foca em Angela Moss (Portia Doubleday), a melhor amiga de Elliot, que aqui aparece trabalhando para seus inimigos, da E Corp, a fim de se vingar, de alguma maneira do que eles fizeram a sua família. Ela acaba sendo peão dos amigos de Elliot em certo momento, para executar uma das ações perigosas. Destaque para uma cena em que Angela aparece cantando "Everybody wants to rule the world", do Tears for Fears, em um karaokê.

A segunda temporada também nos deixa no chão em pelo menos dois momentos, ao mostrar surpresas sobre Elliot e os demais personagens, como o desaparecido Tyrell (Martin Wallström). E enquanto ele está desaparecido, a série dá espaço à sua bela e intrigante esposa, Joanna (Stephanie Corneliussen), que mantém um relacionamento com um jovem amante, que usa apenas para exercitar seus gostos extravagantes por sexo com dominação.

Haveria muito o que comentar sobre os demais personagens, que se tornam quase tão importantes quanto Elliot no enredo, principalmente Darlene (Carly Chaikin), que com o sumiço de Elliot por uns tempos acaba assumindo a liderança da equipe de hackers por um tempo. No mais, é uma série que talvez se beneficie de uma revisão mais atenta, mas cujas ousadias de Esmail podem lhe custar caro, por mais que haja um hype em torno de si. Vamos ver o que acontece na temporada seguinte.

terça-feira, setembro 27, 2016

LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO (La Corrispondenza / Correspondence)



Alguns filmes têm uma pegada tão sentimental que é até compreensível que chegue a ser alvo de ódio de alguns espectadores. Ainda mais os de hoje, que são menos tolerantes a sentimentalidades. Pode ser muito bem o caso de LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO (2016), novo trabalho de Giuseppe Tornatore. O filme é um exemplar perfeito de um cinema canceriano por excelência (algo que não via desde ROCKY BALBOA, de Sylvester Stallone), derramando romantismo exacerbado por todos os lados e com personagens trocando juras de amor, ainda que a situação em si seja bastante complicada para os dois.

Até o símbolo do caranguejo aparece em pelo menos duas vezes no filme, seja isso uma coincidência ou não, intenção ou não do diretor. Mas há também a questão do guardar, da força das palavras de afeto, seja em cartas, seja em vídeo. Com a impossibilidade do amor físico dos personagens, o que sobra são as cartas – no caso, ou principalmente, os e-mails recebidos numa tentativa de enfrentar a morte até o último respiro de vida. Uma das coisas que mais pode incomodar, até mesmo para aqueles que curtem a proposta estética do filme é o clima carregado que fica no ar, como de um luto prolongado.

Tornatore leva o tema do amor impossível – pelo menos o amor carnal e presente – a um novo patamar. Aqui não é exatamente uma família que impede o amor do casal, como em Romeu e Julieta, para citar um exemplo clássico, mas algo maior. E esse algo maior é desafiado pelos personagens. E embora seja um filme que fala sobre questões existenciais ligadas à física, à ciência, há também uma carga de mistério e de espiritualidade, ainda que apareça de maneira quase sutil, como na cena do cachorro.

Acho especialmente tocante a primeira sequência, quando o casal de amantes vivido por Jeremy Irons e Olga Kurylenko está se beijando e se abraçando calorosamente antes de se despedirem. Há, naquele momento, um descompasso entre os dois discursos. Ele quer que ela lhe conte um segredo; ela quer focar no amor físico, fala que quer uma camisa dele para sentir o seu cheiro quando dormir. Aquele amor adquire um tom de urgência poucas vezes impresso no cinema recente.

Lembremos que a atriz ucraniana já esteve em uma espécie de filme-ensaio sobre o amor, no arriscado AMOR PLENO, de Terrence Malick. E ela tem uma aura de beleza e um olhar que passa uma melancolia que combina para esse tipo de papel. No caso do filme de Tornatore, vemos Amy, sua personagem, quase sempre desolada, em busca de migalhas deixadas pelo amor de sua vida. Pequenas mensagens, pequenos e-mails rápidos, mas que demonstram uma paixão intensa daquele homem por ela. O fato de ele saber tudo sobre ela, onde estaria em determinado momento é um indicativo de que o mundo dele girava em torno dela, por mais que os encontros fossem escassos para tão grande amor.

Pra completar, o filme ainda conta com trilha sonora do grande Ennio Morricone, este senhor de quase 90 anos que ainda está ativo e fazendo temas tão lindos. A presença da música do maestro é fundamental para a construção deste melodrama que não tem medo de ser melodrama. Algumas notas até lembram o que o músico fez em parceria com Tornatore em sua obra mais conhecida, CINEMA PARADISO (1988). São dois artistas mais uma vez tratando da saudade.

segunda-feira, setembro 26, 2016

SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94



Quem viveu com intensidade os anos 1990 sabe o quanto foi empolgante acompanhar o surgimento de bandas como Raimundos, Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi, Pato Fu, Skank, mundo livre s/a, Maskavo Roots, Little Quail and the Mad Birds, Graforréia Xilarmônica, entre outras. SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94 (2015), de Ricardo Alexandre, fala justamente deste momento em que o rock brasileiro chegou com uma mistura maior de ritmos e de preferência com muito peso e barulho, pois era o espírito daquela época em que o grunge ainda definia muito do que se fazia no campo mundial.

Vendo o documentário, tendo ido a shows de algumas dessas bandas, tendo comprado alguns de seus discos e sendo leitor da Bizz, ficamos sabendo o quanto a revista foi fundamental para o surgimento até um pouco tardio dessa nova geração de bandas da década de 90. Graças, principalmente, a Carlos Eduardo Miranda, que resolveu ir atrás de coisas novas e empolgantes naquele período de entressafra, quando a maior parte dos críticos da revista já estavam cansados das bandas dos anos 80, chegando a chamar os Titãs de dinossauros.

O documentário já começa dando uma ideia de como era o Brasil no começo daquela década, com o Collor derrubando muita coisa de nossa cultura e Daniela Mercury tocando no rádio junto com muita música sertaneja. Era o que estava no gosto popular naquele momento tenebroso. Mas, por outro lado, uma série de bandas independentes começou a surgir por todos os lugares do Brasil.

Naquela época, sem internet e telefone celular, o contato do artista com as grandes gravadoras era muito complicado. E conseguir que uma das grandes (a Warner) desse carta branca para a produção de um disco como o primeiro dos Raimundos foi quase um milagre. Miranda teve que inventar uma matéria mentirosa para a Folha de S. Paulo para que a major finalmente aceitasse a criação do famoso selo Banguela, que trouxe também o mundo livre s/a, o Maskavo Roots e o Little Quail and The Mad Birds, embora essas duas bandas não tenham acontecido de maneira tão intensa quanto os Raimundos.

De outro lado, outras gravadoras lançavam artistas como Pato Fu, Skank (que chegou um pouco antes dessa turma), Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi e O Rappa (que é injustamente ignorada no documentário, mesmo sendo de vital importância para aquela época). Até entendemos que algumas dessa bandas não sejam devidamente exploradas, mas isso acontece porque elas não fizeram parte ativa do selo Banguela. Porém, deixar totalmente de fora O Rappa foi um vacilo dos realizadores.

Sobre o Planet Hemp, há um pouco da história da polêmica da banda e seu tema espinhoso; sobre o Chico Science, há o impacto de sua música e da força de seu líder; sobre o Skank, há pouco, mas há Samuel Rosa filosofando do começo ao fim sobre o que foi aquela época. Dos Titãs, as falas de Nando Reis e Charles Gavin são fundamentais para entender aquele momento. Como os Titãs foram também responsáveis pela criação do selo, nada mais justo que dois dos melhores pensadores da banda, mesmo não estando mais na banda, contem suas histórias e até um pouco de suas indignações, como quando Nando Reis fala de se sentir incomodado com as acusações de eles (os Titãs e a geração dos anos 80) serem menos brasileiros que a nova geração que surgia.

No mais, há tanta coisa que o documentário fala que não vai caber nesse espaço: o surgimento da MTV, o quanto o Sepultura foi uma banda que impulsionou outras a tentarem um caminho em inglês, o surgimento do Abril pro Rock, entre outras coisas. Mas o principal foco do filme é mesmo a gravação dos discos de três bandas do selo: Raimundos, mundo livre s/a e Little Quail and the Mad Birds. As demais ficam em segundo plano.

Mas o que mais me deixou empolgado foi poder relembrar alguns momentos especiais, como quando ouvi “Puteiro em João Pessoa” pela primeira vez, na Biruta, em 1994; quando ficava animado com os videoclipes que passavam na MTV daquelas bandas novas; de como era bom se sentir meio guerrilheiro e roqueiro em um momento em que as rádios só tocavam sertanejo, axé e pagode; das dicas de ouro da Bizz, que traziam resenhas tão boas que faziam a gente dar aquele pulinho na loja de discos, mesmo sendo tão difíceis aqueles tempos. Foi uma época gloriosa que durou poucos anos. A década seguinte já chegou com uma cara diferente – nem melhor, nem pior –, mas certamente bem menos empolgante que a catártica década final do século XX.

domingo, setembro 25, 2016

O SILÊNCIO DO CÉU (Era el Cielo)



2016 tem sido um ano muito positivo para o cinema brasileiro. Talvez o melhor ano em muito tempo. E sair da sessão de O SILÊNCIO DO CÉU (2016), o novo trabalho de Marco Dutra (QUANDO EU ERA VIVO, 2014), só amplifica essa impressão. Isso porque, do início ao fim, o filme nos pega pelo braço e, com sua narrativa intrigante, sua história de pessoas atormentadas pelo medo, pela culpa ou por alguma coisa que deixa a angústia entalada na garganta, faz com que o silêncio do título brasileiro também se conserve durante a sessão, com os espectadores atentos, curiosos, tensos com o desenrolar dos acontecimentos e também com o modo como o diretor e seus roteiristas esquadrinham seus personagens através de uma voice-over que os aprofundam.

O melhor a fazer é ver o filme sabendo o mínimo ou praticamente nada, para ir se envolvendo com as surpresas que acontecem tanto na narrativa, quanto nas opções formais de Dutra ao apresentar os personagens. No caso, através de uma apresentação mais aberta do personagem de Leonardo Sbaraglia – a maior parte do filme é contada através de seu ponto de vista – e de uma maneira mais misteriosa a personagem de Carolina Dieckmann.

Ela é a esposa que é estuprada por dois homens logo no início do filme. Vemos muito pouco, mas a imagem é incômoda. O uso do som abafado na mixagem de som, como um efeito de perturbação psicológica de Diana, sua personagem, acentua essa impressão durante boa parte do início do filme. O ponto de vista de Mario (Sbaraglia) e o posterior ajuste no som não diminuem a dor daquela situação, já que o horror de ver a mulher sendo violentada e não conseguir fazer nada é bastante revoltante (para ele, principalmente).

O embate interior de Mario em ser o homem que gostaria de ser – longe de todos os medos, todas as fobias que o atormentam (ele tem medo de avião também) – é um dos grandes pontos fortes do filme. E o ator argentino desempenha com louvor esse papel de homem frágil que finge ser forte. Muito da força do filme está em seu personagem, mas também no que nos é apresentado de herança da obra literária, na narração do personagem, que usa o espectador como um confessionário.

De certa forma, tanto as fobias de Mario quanto a perseguição aos atores do crime torpe são elementos que aproximam O SILÊNCIO DO CÉU de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. Claro que há uma infinidade de suspenses psicológicos que são devedores desta obra-prima, mas de vez em quando alguns filmes se aproximam mais, por causa de alguns aspectos específicos. No caso do filme de Dutra, essa influência não se manifesta como em DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, em forma de homenagem explícita, mas de forma mais natural, sem tanta natureza de hipertexto.

Tanto que é possível esquecer esse detalhe da influência hitchcockiana e se deixar levar pela trama, pelo desejo do protagonista de enfrentar, de alguma maneira, não apenas os homens que atacaram a sua esposa e a deixaram em estado de choque e tornaram ainda mais complicada a relação conjugal, mas, principalmente, talvez, enfrentar seus demônios interiores, aqueles que o assombram desde sempre, que o fazem sentir-se menos homem do que gostaria de ser.

Entre as cenas com Carolina Dieckmann, há duas bem especiais: uma envolvendo a fábula da cegonha e o porco-espinho e outra em que ela está na cama com o marido, os dois do lado oposto da linda fotografia em scope. Mas talvez um dos melhores momentos de Diana no filme seja o momento de enfrentamento, na casa de um dos estupradores. A opção pela imagem dela à meia-luz subindo a escada parece remeter a vários clássicos hollywoodianos do passado, vários filmes noir, por exemplo, embora o andamento mais lento do suspense faça lembrar também os filmes de tonalidade mais misteriosa de Walter Hugo Khouri. O fato é que sair do cinema depois de tanta poesia visual faz bem demais ao espírito, por mais doloroso que seja o drama dos personagens.

quinta-feira, setembro 22, 2016

O HOMEM NAS TREVAS (Don’t Breath)



Não dá pra negar a eficiência do cineasta uruguaio na condução narrativa e na construção de uma atmosfera de suspense em O HOMEM NAS TREVAS (2016), da mesma forma como era admirável a sua reconstrução de um clássico do cinema de horror em A MORTE DO DEMÔNIO (2013), sua estreia em Hollywood. Talvez, inclusive, estejamos presenciando a chegada de um grande diretor de gêneros que andam em baixa nos Estados Unidos. Não que tenham deixado de lucrar, mas que não se manifestam em abundância e excelência como em décadas passadas.

O problema de O HOMEM NAS TREVAS é que é difícil torcer pelo grupo de personagens que são vítimas dos ataques do homem cego. Afinal, foram eles que entraram naquela casa para roubar. E roubar um homem cego. Isso não quer dizer que estejamos nos sentindo juízes daqueles jovens infratores, mas que o cineasta não foi suficientemente capaz de nos colocar em seus sapatos, como fez tão bem Hitchcock em PSICOSE, para citar o exemplo mais clássico, ou tantos outros diretores.

A coisa começa a pender um pouco mais nada balança, contra o tal homem cego, quando descobrimos mais sobre ele; sobre o que ele esconde. E isso já é um pouco antecipado logo na primeira cena do filme, em que o vemos carregando, em um plano geral, o corpo de uma mulher. Mas essa é uma dessas cenas que costumam ser esquecidas pelo espectador quando a narrativa opta por apresentar, em uma estrutura tradicional, os personagens que fazem pequenos roubos em casas.

Os dois rapazes e a moça não são muito diferentes de tantos outros personagens marginais e ladrões de bancos que aprendemos a gostar ao longo desses mais de cem anos de cinema. Mas talvez por Alvarez não estar muito interessado em lhes dar profundidade, isso pode ter sido um dos motivos de o filme não ter atingido o grau de excelência que gostaríamos.

Mas não dá também para reclamar muito. Quando o homem cego entra em ação como uma ameaça assustadora, somos jogados em uma espécie de filme de monstro, com a diferença que o monstro aqui é uma pessoa de carne e osso e com uma deficiência física, ainda que com uma força e uma agilidade admiráveis. Ele é um ex-fuzileiro do exército que ficou cego durante uma guerra e que ainda mantém o vigor da juventude.

Aos poucos, o tal "filme de monstro" vai se tornando também uma espécie de mata-mata, com a qualidade de não haver muitos personagens e de ter várias sequências de fazer o espectador ficar caladinho e com os braços agarrados à cadeira. A sobriedade do filme é outro aspecto que merece ser louvado, além de ser mais uma bem-sucedida obra a usar as trevas e o medo do escuro como um de seus eixos. No mais, merecem palmas, em seu desempenho, tanto Stephen Lang, como o homem cego, quanto Jane Levy, como a garota ladra.

quarta-feira, setembro 21, 2016

DE PALMA



Tem sido triste ver essa diminuição no ritmo dos filmes de Brian De Palma, e a não chegada em nossos cinemas de filmes como GUERRA SEM CORTES (2007) e PASSION (2012). Para vê-los, tive que apelar para meios alternativos. O que é ruim, levando em consideração que ver um filme do De Palma no cinema é algo muito especial. Ao menos eu tive a sorte de ver seis dele na telona: de O PAGAMENTO FINAL (1993) a DÁLIA NEGRA (2006).

E ver O PAGAMENTO FINAL no extinto Cine Fortaleza foi algo que me deixou quase paralisado de emoção. Sair daquela experiência e encarar a rua deserta do Centro da cidade enquanto pensava no filme foi muito impactante pra mim. E engraçado que no documentário DE PALMA (2015), de Noah Baumbach e Jake Paltrow, o próprio diretor conta que ao ver o próprio filme em um festival afirmou para si mesmo que jamais conseguiria fazer algo melhor do que aquilo. E de fato o drama estrelado por Al Pacino pode ser o seu ápice, embora eu coloque UM TIRO NA NOITE (1981) um pouco à frente.

O documentário é narrado apenas pelo próprio cineasta, o que confere à produção um status que o diferencia de um extra de DVD, embora eu prefira muito mais alguns extras de vários DVDs da Universal do Hitchcock. Não sei se DE PALMA funcionaria bem para um não fã do cineasta, já que os filmes são vistos de maneira muito rápida e até um pouco fria, embora seja muito interessante saber algumas histórias de bastidores, como David Koepp sendo demitido da produção de MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996), De Palma não gostando nada do ator de TRÁGICA OBSESSÃO (1976), o cachê milionário de Robert De Niro em OS INTOCÁVEIS (1987), etc.

Aliás, engraçado que De Niro estreou no cinema graças a De Palma, com QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES (1968), fazendo outro longa com ele, em seguida. Depois é que foi se tornando famoso pela parceria com Martin Scorsese. O documentário de vez em quando mostra algum paralelo entre a obra do De Palma com a de seus colegas da Nova Hollywood (Scorsese, Spielberg, Coppola, Lucas) e outros filmes marcantes.

Legal vê-lo rindo das ousadias que foi capaz de fazer, como colocar cenas de nudez e muito sangue em CARRIE, A ESTRANHA (1976) e também de DUBLÊ DE CORPO (1984). Este segundo, inclusive, contou com uma ajudinha de uma atriz pornô famosa, Annette Haven, que serviu de modelo para a construção da personagem de Melanie Griffith.

DUBLÊ DE CORPO também foi mais um filme do diretor acusado de ser um tanto misógino, por mostrar, com requintes de crueldade, uma morte bem sangrenta de uma mulher por um homem portando uma enorme furadeira elétrica. E bota enorme nisso. O vermelho de muitos filmes do De Palma, com isso, acabam por aproximá-lo dos gialli de Dario Argento, de certa forma.

Quanto à influência explícita de Alfred Hithcock nas obras do diretor americano, o documentário trata logo de começar com uma cena de UM CORPO QUE CAI, que teria sido o filme que primeiro inspirou De Palma a seguir de maneira obsessiva por esse caminho do suspense não apenas hitchcockiano, mas de homenagem direta ao mestre do suspense. De Palma fez questão de mostrar esse débito, esse tributo, em vários filmes.

O final do doc é um tanto melancólico, pois mostra um cineasta que se diz cansado e que acredita que uma pessoa que chega a sua idade não produz mais grandes filmes, citando, inclusive, o caso de Hitchcock e suas obras tardias. Podemos ainda discordar dele, e torcer para que seu próximo filme, LIGHTS OUT, ainda em pré-produção, seja especial.

terça-feira, setembro 20, 2016

TRÊS COMÉDIAS BRASILEIRAS



Por mais que muitos reclamem das comédias brasileiras feitas para um grande público, até que elas têm o seu grau de interesse. Algumas, como é o caso do primeiro filme assumidamente do coletivo Porta dos Fundos, até ganharam fama de péssimo por muitos, quando, na verdade, há algo de interessante nelas. E nem falo em um sentido atropológico ou de um estudo das tendências do humor e da sociedade brasileira contemporâneos, mas em termos formais e narrativos mesmo. Falemos um pouco desses três filmes.

PORTA DOS FUNDOS - CONTRATO VITALÍCIO

Ian SBF já havia sido visto no cinema, na direção da comédia dramática ENTRE ABELHAS (2015), estrelada por Fábio Porchat e que trazia alguns membros do Porta dos Fundos em papéis pequenos. PORTA DOS FUNDOS – CONTRATO VITALÍCIO (2016) até tinha chances de ter sido um bom filme, mas, ao que parece, o grupo ainda não aprendeu a fazer algo que não fosse em esquetes. Como se trata de uma narrativa mais longa, em certo momento, ela perde a graça. Mas a primeira metade é divertida, bem conduzida, e tem os talentos do Porchat e do Gregório Duvivier encabeçando um projeto ambicioso, mas que ao mesmo tempo não deseja sair do território nacional, com suas piadas que só brasileiros entendem. Na história, os dois são amigos que trabalharam juntos em um filme que foi premiado em Cannes. Acontece que, na noite da premiação, Duvivier desaparece misteriosamente, só reaparecendo vários anos depois, para virar a vida do amigo de cabeça pra baixo, com a ideia de um filme maluco, sobre sua experiência em ter sido sequestrado por seres que vivem nas profundezas da Terra.

UM NAMORADO PARA MINHA MULHER

Infelizmente este filme vai ser lembrado também por causa da morte recente de Domingos Montagner, que interpreta o "Corvo", um sujeito cuja especialidade é conseguir acabar com o casamento dos outros, uma vez que ele seja contratado. Na trama, Caco Ciocler é um sujeito que não aguenta mais o jeito chato e rabugento da mulher, vivida por Ingrid Guimarães. Acontece que ele não tem coragem de pedir o divórcio ou a separação. Por isso aceita essa sugestão de um amigo. Assim, a mulher conheceria outro homem e ela mesma pediria a separação. Um dos pontos positivos de UM NAMORADO PARA MINHA MULHER (2016) é a direção segura de Julia Rezende, que já provou que sabe lidar tanto com comédias quanto com dramas mais sérios, como PONTE AÉREA (2015). Pena que o roteiro não ajude muito, no caso deste novo filme. Ainda assim, dá pra sair do cinema mais leve, depois de dar umas boas risadas. Além de o elenco de apoio ser muito simpático (Miá Mello, Paulo Vilhena, Marcos Veras), o papel caiu como uma luva para Ingrid Guimarães. E como desgostar de um filme que começa com "What a wonderful world" cantada por Joey Ramone?

DESCULPE O TRANSTORNO

A primeira vez que eu vi a Clarice Falcão foi na comédia EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA, de Matheus Souza. Era um filme menor, mas que já explorava bastante a simpatia dessa moça, que seria melhor vista como humorista do Porta dos Fundos e como cantora também. A presença dela no coletivo certamente se devia à parceria com Gregório Duvivier, que foi seu marido, mas ela tinha brilho próprio, ótimo senso de humor, além de ser bela em sua estranheza. Acabou saindo do grupo, provavelmente por causa da separação do casal. DESCULPE O TRANSTORNO (2016, foto) parece mais um filme do coletivo, já que traz o então casal e mais outros dois membros da turma em papéis menores. O filme trata de um sujeito que manifesta dupla personalidade, conforme suas idas ao Rio ou a sua casa em São Paulo. O engraçado é o gatilho para a transformação do personagem em Duca, o "monstro" da história (se compararmos com O Médico e o Monstro). Novamente aqui a turma utiliza referências bem brasileiras, como a novela MULHERES DE AREIA, o que restringe um pouco o filme ao mercado local, mas ao menos o número de piadas internas é menor. A direção de Tomas Portella é que é um pouco frouxa e a história não desenvolve bem uma conclusão. Ainda assim, rende uma sessão da tarde descompromissada e agradável, se você gosta dos atores.

segunda-feira, setembro 19, 2016

ROSAS SELVAGENS (Les Roseaux Sauvages)



Mais de 20 anos depois de ter visto ROSAS SELVAGENS (1994) em gloriosa película, tive a chance de revê-lo, desta vez em digital, na mostra New Queer Cinema – Segunda Onda. Como a memória costuma trair muito a gente, entrar em contato novamente com esta obra de André Téchiné depois de tanto tempo é como reencontrar alguém que a gente havia esquecido, mas que aos poucos vamos lembrando e vendo o quanto é especial.

Uma das coisas que havia ficado na memória com mais força era a presença radiante de Élodie Bouchez, então com apenas 20 anos, mas interpretando Maïté, uma moça ainda mais jovem. Ela e os outros três protagonistas são pessoas que se sentem deslocadas diante daquilo que a sociedade lhes impõe. No caso, ela não se importa em namorar, ou fingir que está de namoro com um rapaz que não tem interesse em moças, mas que sente atração por outros rapazes, o amigo François (Gaël Morel). Até por não saber direito o que fazer com seus sentimentos conflitantes ou confusos.

Eles são os novos incompreendidos, para citar o nome do filme de estreia de François Truffaut. O nome do personagem de Morel, aliás, pode ser mais uma homenagem que Téchiné faz ao homem que amava o cinema (e as mulheres, e os livros). A homenagem mais explícita aparece em uma cena em que François olha para o espelho e afirma "você é uma bicha, você é uma bicha, você é uma bicha", repetidas vezes, como um misto de autoafirmação e de condição marginal, fazendo referência a uma cena de BEIJOS PROIBIDOS. E ainda que o filme se passe no início da década de 1960, durante a guerra da Argélia, a naturalidade com que François assume sua condição não deixa de ser ao mesmo tempo estranha e admirável.

Uma das impressões que o filme havia me deixado e que permanece durante a revisão é o gosto proibido que o filme imprime, em especial nas cenas de sexo ou demonstrações de afeto homossexual, quando François se aproxima de Serge (Stéphane Rideau), um rapaz que se mostra a princípio bastante machista, mas que não deixa de aceitar a investida de François. Serge pode ser o modelo de rapaz que se recusa a aceitar que também sente algo, nem que seja no campo físico, pelo colega.

O quarto elemento é Henri (Frédéric Gorny), um rapaz mais velho que os outros e que se sente ainda mais alienígena naquela universo. Mas, por conta de sua idade, ele parece mais confiante de si e mais consciente do que acontece ao redor, como a busca de François por Serge, seu colega de quarto, à noite. Mas, em relação a Henri, o que mais permanece mais forte na memória são os seus momentos com Maïté, em especial no ápice do filme, quando o quarteto está no lago.

O lago, que já havia sido mostrado em uma cena bem erótica de Serge com Maïté, sem que, no entanto, eles tivessem um contato físico. Téchiné consegue com pequenos detalhes nos dar uma consciência dos corpos daqueles jovens, e com essa consciência vem o desejo, que até por serem tão jovens, se manifesta à flor da pele, tão forte quanto um elefante que os atropela. Essa intensidade faz a diferença e por isso tornou ROSAS SELVAGENS marcante para a geração dos anos 1990, e continua mexendo com as gerações seguintes.

domingo, setembro 18, 2016

BRUXA DE BLAIR (Blair Witch)



Muitas vezes temos em tão alta estima a lembrança de ver no cinema certos filmes que até temos medo de rever e constatar que eles envelheceram mal ou que não são tão bons quanto lembrávamos. Não digo que seja o caso de A BRUXA DE BLAIR (1999), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, mas é certamente um filme que é mais lembrado pelo impacto de seu momento do que por suas revisões e constatações de ser realmente uma grande obra.

O trabalho de Myrick e Sánchez trouxe a moda dos filmes found footage, que chegou a ser posteriormente experimentado por cineastas tão distintos quanto George A. Romero, Brian De Palma e M. Night Shyamalan, além de render uma lucrativa franquia (ATIVIDADE PARANORMAL, 2007-2015). De 1999 pra cá, muita coisa rolou e o uso da câmera na mão e a brincadeira de se ter encontrado filmagens supostamente verídicas já cansou um bocado, embora de vez em quando ainda possamos nos surpreender com algo de novo.

E é neste momento de amadurecimento do estilo, e também de seu cansaço, que surge o novo BRUXA DE BLAIR (2016), que a princípio não se sabia se se tratava de uma refilmagem, um reboot ou uma continuação do original – ou do segundo e pouco lembrado filme de 2000. Trata-se de uma continuação do primeiro filme, em que um dos personagens é um irmão mais novo de Heather, desaparecida na floresta por 15 anos. A intenção do rapaz é encontrar pistas da irmã, indo parar, junto com uma turma de amigos, no mesmo local em Maryland.

Entre as novidades tecnológicas estão o uso de câmeras com GPS grudadas no ouvido de cada um, assim como uma câmera instalada em um drone, para dar uma dimensão de onde eles estão e evitarem se perder, uma webcam de vigilância, além de uma câmera convencional levada na mão por uma das moças. É câmera que não acaba mais, diminuindo bastante aquela velha pergunta que sempre fazem neste tipo de filme: por que os personagens não largam a câmera nunca, mesmo passando por momentos de altíssima aflição e perigo?

Infelizmente, o novo filme, dirigido por Adam Wingard, do ótimo VOCÊ É O PRÓXIMO (2011), não oferece muito ao espectador, mesmo aqueles que compram com boa vontade a proposta de retornar a esse universo, e encarar tudo de maneira um pouco menos descompromissada, como se assistisse a uma continuação qualquer de um filme de terror. O que acaba ficando óbvio é mesmo a intenção puramente comercial e picareta de fazer um filme que foi um fenômeno de bilheteria em 1999, mas sem dispor de algo realmente novo para oferecer, ou mesmo uma eficiência na condução de uma trama tensa e envolvente.

sábado, setembro 17, 2016

VIDAS PARTIDAS



Confesso que quando vi no cinema DE ONDE EU TE VEJO, de Luiz Villaça, não sabia quem era Domingos Montagner. Mas dava para perceber o quanto se tratava de um grande ator neste filme sobre separação conjugal. O que eu não sabia era que o ator já era destaque em produções televisivas, como a telenovela CORDEL ENCANTADO, de cinco anos atrás. Mas Montagner foi certamente um talento que se revelou tardio para a televisão e para o cinema.

Mas que bom que em 2016 tivemos a sorte de tê-lo em três produções para o cinema: além da citada comédia dramática de Luiz Villaça, o vimos no drama VIDAS PARTIDAS (2016), de Marcos Schechtman, e na comédia UM NAMORADO PARA MINHA MULHER, de Julia Rezende. (Além disso, o ainda inédito ATRAVÉS DA SOMBRA, de Walter Lima Jr., está previsto para estrear em novembro, e conta com o ator em um dos papéis principais.)

O que se percebe nos personagens dos três filmes de 2016 estrelados por Montagner é uma versatilidade rara em atores em geral, que costumam se apegar a tipos e personas que lhe caem bem e com isso ficam relaxados. VIDAS PARTIDAS, ainda que não seja tão bom e delicado quanto o filme de Villaça, é um trabalho que explora bastante a potência do ator, morto na última quinta-feira, levado pelas águas do Rio São Francisco, em um intervalo das filmagens da novela VELHO CHICO.

Logo que o filme começa, há uma cena de intimidade dos protagonistas: Raul (Montagner) e sua esposa Graça (Laura Schneider). Na cena, o casal vive um momento de sexo tórrido, enquanto os filhos estão fora de casa. Mas há algo no modo como Raul trata Graça que incomoda um pouco: sua selvageria no trato com a mulher, que passa quase a impressão de que estamos presenciando uma espécie de estupro consentido.

A impressão se justifica à medida que vamos conhecendo o caráter do personagem, e o quanto ele evolui ao ponto de parecer um psicopata. Ou de ser um psicopata, já que o que ele faz com a mulher ao longo da narrativa é inacreditável, de tão terrível. VIDAS PARTIDAS é um filme que tem a intenção de mostrar a violência doméstica. Não é baseado em uma história real, mas, como informa no final, é baseado em diversas histórias reais de abusos domésticos que as mulheres sofrem diariamente.

O que pode contar pontos tanto negativos quanto positivos para o filme de Schechtman, um diretor vindo da televisão e que estreia no cinema aqui, é justamente as inacreditáveis ações de Raul, o que eleva o filme a um suspense com tintas bem carregadas. Laura Schneider também está muito bem como a mulher que sofre com a violência do marido e que depois é obrigada a buscar forças de onde parecia não ter para enfrentá-lo.

Em alguns momentos, VIDAS PARTIDAS até parece um suspense vulgar hollywoodiano, mas em outros parece uma obra cheia de vigor e brilho próprio, muito por causa do desempenho do casal de atores e também pelo incômodo que nos provoca à medida que as ações de Raul vão se tornando mais e mais perigosas. Dá para sair do cinema bastante tenso.

quarta-feira, setembro 14, 2016

HERANÇA DE SANGUE (Blood Father)



Quem aprecia o trabalho de Mel Gibson, seja o ator ícone dos anos 80 e 90, sejam o grande diretor que se revelou, sempre torce por um retorno triunfal, depois que o astro teve sua vida virada do avesso por causa de alguns vacilos em sua vida pessoal que o tornaram persona non grata por muitos. Mas isso não atrapalha a vontade de o vermos novamente de volta à grande forma. O alívio é saber que o novo filme dirigido por ele, o drama de guerra ATÉ O ÚLTIMO HOMEM, foi aplaudido de pé por 10 minutos no Festival de Veneza. Infelizmente teremos que esperar até janeiro, que é quando o filme estreia no Brasil.

Enquanto isso, podemos ter um ultimamente raro gostinho do Mel Gibson ator, em uma produção francesa travestida de hollywoodiana chamada HERANÇA DE SANGUE (2016), com direção de Jean-François Richet, mais conhecido no Brasil por ASSALTO À 13ª DELEGACIA (2005). Se bem que não costumam ligar o filme à pessoa, o que é compreensível. Infelizmente, o filme de Richet não chega a ser exatamente bom, embora tenha os seus méritos, principalmente para quem é fã de Gibson.

Como ator-autor que é, os filmes que ele atua, ainda que idealizados e dirigidos por outras pessoas, acabam sendo também dele, por trazerem personagens que dialogam entre si, seja por serem de alguma maneira suicidas, meio maníacos ou por carregarem um sentimento de culpa que remete bastante ao Catolicismo. Basta lembrar de filmes tão distintos quanto MAD MAX, MÁQUINA MORTÍFERA, HAMLET, O PATRIOTA, FOMOS HERÓIS, O FIM DA ESCURIDÃO e UM NOVO DESPERTAR.

Em HERANÇA DE SANGUE, aliás, Richet traz momentos que remetem diretamente a personagens modelos do cinema de ação oitentista, como Max e o detetive Martin Riggs. Essas citações chegam a ser explícitas e funcionam como uma piscadela de olho do diretor (e do ator) para os fãs de Gibson.

Novamente temos um personagem que se martiriza, dessa vez por não ter dado uma educação ou uma atenção adequadas à filha, que se encontra desaparecida e envolvida com pessoas pouco confiáveis. Logo no começo, vemos o quanto a vida da menina (Erin Moriarty) anda louca. E então somos apresentados ao personagem de Gibson, um ex-presidiário que mora em uma comunidade de pessoas de meia-idade que vivem em trêileres no meio do deserto. Ele trabalha como tatuador e exibe as rugas da idade, mostradas em vários closes-ups ao longo do filme.

A história, aos poucos, vamos vendo que é um detalhe, levando em consideração o interesse em explorar mais a persona do ator. Mas teria sido muito melhor se o diretor e os roteiristas tivessem se esforçado um pouco mais para fazer um trabalho de contar uma história menos desleixado, não é? Lá pela metade do filme, mesmo tendo uma duração de menos de uma hora e meia, começamos a ficar um pouco aborrecidos, sinal de que é um problema tanto de roteiro quanto de direção e edição.

Até mesmo os aspectos trágicos e de sacrifício, que costumam ser explorado muito bem em alguns filmes dirigidos pelo próprio Gibson, como os excelentes CORAÇÃO VALENTE e A PAIXÃO DE CRISTO, acabam sendo subvalorizados pela mão pesada de Richet na condução da trama. Mesmo que ele tivesse caprichado na direção da cena decisiva do herói contra seus inimigos, o filme já havia desandado. O que resta é a nossa boa vontade de tratar o filme como especial, embora fique aquele gostinho amargo de que acabaram desperdiçando um grande astro em um filme medíocre.

domingo, setembro 11, 2016

ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO (Last Days in the Desert)



Quem acompanha a carreira de Rodrigo García no cinema desde COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA (2000), passando pela excelente série EM TERAPIA (2008-2010), sabe que ele é um cineasta bastante afeito à palavra, e tem nela um aliado forte na construção de obras de intensidade dramática. Por isso ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO (2015) parece um trabalho atípico na obra de García, por ser mais contemplativa, mais centrada nas imagens do que nas palavras.

Apesar de mostrar de maneira respeitosa e séria parte dos momentos em que Jesus esteve jejuando e orando no deserto, antes de iniciar seu ministério de pregações e milagres, ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO não tem teor panfletário ou doutrinário. Até toma algumas liberdades. Afinal, toda a história da relação que Ele constrói com uma família que encontra no deserto é totalmente fictícia.

Vale destacar também o modo inventivo como o filme mostra Satanás, interpretado pelo mesmo Ewan McGregor que interpreta Jesus, como se fosse a parte dele que tenta negar a fé e a própria ideia de que ele é o filho de Deus, escolhido para salvar a humanidade. As artimanhas do inimigo se mostram ainda mais interessantes quando Jesus está dormindo em uma cabana ao lado de uma mulher moribunda, mas muito bonita (a israelense Ayelet Zurer, de BEN-HUR). Também merece destaque o jovem Tye Sheridan como o filho da família, um rapaz que não deseja seguir os mesmos passos do pai e ficar naquela região árida, mas conhecer Jerusalém e o mundo.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que a relação de Jesus com esta família é o principal eixo da trama, ela também se mostra o ponto mais frágil, comprometendo às vezes o ritmo e o aspecto contemplativo do filme. Ainda assim, trata-se de uma obra que tem brilho próprio e evita colocar palavras já conhecidas dos evangelhos na boca de Jesus e de Satanás, já bastante explorados em outros filmes. Só por isso, já merece ser tratada de maneira respeitosa.

A Bíblia, aliás, conta muito pouco desses 40 dias e 40 noites de Jesus no deserto. Portanto, trazer uma história imaginária do que pode ter acontecido não deixa de ser interessante, à luz de uma visão mais humanista de Jesus. Ficamos constantemente nos perguntando, inclusive, o porquê de Ele não curar a mulher doente, mas estaríamos caindo na mesma armadilha que ele enfrentou em um dos desafios de Satanás, isto é, ter que provar que é capaz de fazer um milagre e mudar a ordem natural dos acontecimentos.

Em um dos primeiros momentos do filme, inclusive, Jesus se mostra bastante desconfortável com o fato de não obter respostas de Deus, de se sentir completamente sozinho naquele lugar, a não ser pela figura do demônio que o tenta, mas que pode muito bem ser fruto de sua imaginação, cheia de dúvidas e temores. O final desconcertante deixa perguntas no ar e justamente por isso não é dessas obras que ficam no esquecimento. Pode até ter as suas fragilidades, mas elas parecem menores diante dos desafios estéticos e morais que o cineasta apresenta ao longo de sua narrativa.

quinta-feira, setembro 08, 2016

VIAGEM A SAMPA - 2016



Desde 2012 que não punha os pés em São Paulo, um de meus lugares favoritos deste planeta (não entremos no mérito dos outros planetas, por ora). A desculpa desta vez para estar lá nem foi uma desculpa: foi quase um dever, mas ao mesmo tempo uma honra. Ser um dos poucos convidados a estar na festa de casamento de meu amigo Michel Simões foi motivo de muita alegria. Até por eu também poder encontrar vários amigos lá. Tem gente que eu conheço há 15 anos, vejam só! E como o Michel é um amigo-irmão, estava muito feliz em poder fazer parte desse momento tão especial na vida dele. Além de conhecer a sua simpática e amável noiva, a Cris Massuyama.

No primeiro dia, sábado, ao desembarcar na cidade, fui logo recepcionado pelo Chico Fireman, que dessa vez foi quem me emprestou o teto, já que o Michel estava bem ocupado com os preparatórios do casamento. Mas foram Michel e Cris que me levaram pra passear naquele sábado. Almoçamos no Cruzeiro, fomos ao MAC - Museu de Arte Contemporânea, um lugar enorme e muito interessante, saboreamos a possivelmente melhor coxinha da cidade (no Veloso), tentamos (re)ver um filme do Eric Rohmer (O JOELHO DE CLAIRE), no Cine Segal, e ainda fomos a um jantar especial em um restaurante japonês superlegal, o Kiiche. Quanto ao filme, devido ao cansaço e à privação de sono, nem consegui(mos) assistir, e nem dá pra contar como revisto, pois dormi mais do que vi. A sala é interessante e a exibição é mais barata por ser em DVD, pelo menos nesse horário específico, reservado a especiais de diretores de renome. O cansaço não nos deixou fazer muita coisa e eu também não queria alugar muito o casal.

No domingo, tive um dos momentos mais especiais da viagem: fui o convidado especial do Cinema na Varanda, um dos mais divertidos e inteligentes podcasts sobre cinema do país, formado por Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria. Foi um prazer inenarrável, embora no começo, principalmente, o nervosismo se mostre explícito e tenha embaralhado e confundido minhas palavras e ideias. Sobre o Diário de um Cinéfilo, poderia ter falado mais um pouco sobre a época áurea dos blogs de cinema, da premiação etc., mas até que os meninos ajudaram, principalmente o Tiago Faria, que fez uma pergunta crucial. Os filmes abordados foram AQUARIUS e STAR TREK – SEM FRONTEIRAS, e o podcast pode ser conferido AQUI.

Depois da gravação, eu, Michel e Cris fomos almoçar no Salmon e Cia. e fomos à Bienal do livro. Nossa, mas que coisa gigante e exagerada essa Bienal. Parecia um show de rock, pelo tanto de carros, de filas nas bilheterias, e pela própria música que rolava ao fundo. Foi legal ter ido ao último dia, mas confesso que fiquei um tanto triste com essa proliferação de livros de youtubers e de cultura excessivamente pop, embora eu mesmo só tenha comprado um livro em quadrinhos (Casanova – Luxúria). Queria uma pluralidade maior de opções. De tanto bater perna lá, ficamos logo cansados e o melhor foi ir pra casa, para dormir mais cedo. Como o Chico esteve trabalhando em plantões, quase não tive tempo de encontrá-lo em casa. Mas me senti à vontade, como em um hotel. De vez em quando olhava a bela coleção de filmes e livros dele na estante, pois tenho mania de xeretar as estantes dos outros. :)

A segunda-feira seria marcada pelo encontro com um grupo de amigos especial. Depois de alguns impasses, um grupo de cinco queridos amigos pôde comparecer: Marcelo V., Ana Paul, Laura Cánepa, Leandro Caraça e Gabriel Carneiro. Fomos a um bar-restaurante chamado Cão Véio. Muito agradável e toca rock de qualidade. O papo de cinco horas foi muito bom, de cinema a música, passando por comida, mas o diferencial era mesmo a conexão afetiva entre nós, o vínculo que se formou ao longo dos anos. Isso não tem preço.

Ah, no mesmo dia, antes do encontro, bati perna pela Paulista e fui ver ESPAÇO ALÉM – MARINA ABRAMOVIC E O BRASIL, um documentário sobre a peregrinação dessa mulher por diversos espaços místicos em diferentes lugares do Brasil. Como não chegou a Fortaleza, fui de Belas Artes. A propósito, que estranho o tamanho (pequeno) da tela, diante de sala tão grande e cheia de lugares. Mas a projeção é boa, ainda que eu tenha achado o som baixo. Ah, e neste mesmo dia ainda pude passar em uma ótima loja de discos na Augusta. Comprei um Nick Cave (The Boatman’s Call) e um Paul (Band on the Run).

Na terça-feira, dia do casamento do Michel e da Cris, fui novamente almoçar pela Paulista - mesmo Shopping 3 - e vi mais um filme, A COMUNIDADE, de Thomas Vinterberg. Esperava gostar mais, mas o filme tem seus méritos. Comprei na livraria do Espaço Itaú uma das últimas edições da revista Teorema (a que tem o menino Antoine Doinel na capa) e um livrinho sobre o José Antonio Garcia, daquela série Aplauso. Podia ter comprado mais coisas, mas diante da atual conjuntura até posso dizer que exagerei um pouco nos gastos.

E chegou a hora do tão aguardado casamento. Depois de eu apanhar de uma gravata, fui de carona num uber com o Chico até a Casa Quintal, local da festa. Ele ficou junto aos padrinhos e eu fui esperar a turma da Cinefelia que se fez presente. Da turma, o único que não conhecia pessoalmente era o Marlonn Della Bruna, uma simpatia de sujeito. Ele estava com a namorada Joseane. Foi também muito bom rever e abraçar os demais, a Fer, o Fabrício, a Cris Miura, o Tiago Soares e a esposa Denise.

Impressionante como, mesmo tendo nos visto em tão poucas vezes pessoalmente, parece que tínhamos anos de convivência. E temos mesmo, mas de maneira virtual. Digo isso principalmente pelas várias brincadeiras que rolaram na mesa. E eu adoro gente com senso de humor afiado. E a Cris, com sua sensibilidade canceriana, é um amor de pessoa. A gente percebe pelo carinho especialmente na hora de dizer goodbye.

Quanto ao casamento, foi o mais inteligente, diferente, alto astral e especial que eu já fui. Sensacional mesmo. Parabéns à noiva Cris por coordenar com tanto cuidado e amor os detalhes, desde fotos do casal e outras inspiradas em filmes, decorações, passando pelas canções escolhidas e pela mestre de cerimônias.

O jantar foi farto, ainda rolou uma festa na pista com muita música boa pra quem quisesse dançar, e máscaras diversas com referências a filmes. Foi o momento final da festa e também o momento em que eu fiquei mais sensível aos abraços e partidas. Mas o tom geral da festa foi de muita alegria e espontaneidade. Desejo o melhor do mundo aos noivos e mais oportunidades como essa para nos encontrarmos.

Muita gente boa e querida eu deixei de ver por vacilo meu, por falta de melhor organização, e por fatores diversos (chuva e leve febre foi obstáculo pra eu encontrar o Vebis em Santos e falta de organização atrapalhou uma visita que poderia ter feito ao Primati e à Bia em Jundiaí) e também por estar com pouco tempo disponível mesmo. Ainda assim, acabei descobrindo um poder agregador que eu não sabia que tinha. Muito feliz com esses dias, que certamente darão uma injeção de ânimo à minha vida.

Pra encerrar, como emoção pouca é bobagem, na exata hora de embarcar, percebi que meu único documento de identidade (uma CNH) havia sumido do meu bolso. Fui falar com a moça da Avianca e ela foi logo dando ordem para a companhia retirar a minha bagagem. Eu só embarcaria com o documento. Fiquei desesperado. Um rapaz da companhia deu a sugestão de eu correr lá no Raio X. Talvez eu encontrasse lá. Depois de correr, esbaforido, o longo corredor, do portão de embarque a essa entrada, a minha carteira estava lá. Havia perdido no caminho. Foi só o tempo de embarcar, no último minuto, com uma expressão mista de desespero e alívio. Viagem com emoção.

(Mais fotos, em breve)

sexta-feira, setembro 02, 2016

AQUARIUS



Talvez um dos maiores elogios a se dizer de AQUARIUS (2016) é que se trata de um filme que parece ter sido feito por um cineasta muito experiente, de cerca de pelo menos 30 anos de carreira, tal o domínio da linguagem cinematográfica que Kleber Mendonça Filho demonstra neste seu segundo longa-metragem de ficção, depois da repercussão internacional de O SOM AO REDOR (2012).

Logo de cara, percebemos que os dois trabalhos, apesar de terem muita coisa em comum, como o flerte com a atmosfera dos filmes de horror, ou as questões sociais, que novamente entram em pauta de maneira forte e pungente, o novo filme, no entanto, é uma obra que respira melhor, com um tempo mais lento que pode incomodar a alguns espectadores mais apressados, mas que é necessário para que estudemos com atenção a personagem Clara, vivida de maneira brilhante por Sonia Braga.

Ter, aliás, Sonia Braga é um grande trunfo de AQUARIUS. O cineasta, a princípio, pensava em dar o papel a uma atriz pouco conhecida, mas depois viu que estaria estragando a oportunidade de usar uma atriz profissional, que carregasse com segurança um filme centrado todo nela. Nesse sentido, o resgate de Sonia Braga foi bom tanto para o cineasta quanto para Sonia, que estava um pouco fora dos holofotes, e que acabou de ganhar o que talvez seja o melhor papel de sua carreira.

O tema do filme é a resistência. Daí a identificação forte com o cenário político atual, sendo possível fazer alguns paralelismos com os ataques e ameaças que uma mulher segura de si recebe de todos os lados. No caso, Clara mora no único apartamento do prédio que não foi vendido. Só sai de lá morta, afirma. E tem início uma série de tentativas do inimigo de tentar derrubá-la, ela que já venceu um câncer.

Uma coisa que chama a atenção desde o começo é a valorização – mais uma vez – da mixagem de som. Agora, com a utilização de várias canções. O trabalho de DJ de Kleber Mendonça Filho é também admirável, e poder ouvir tantas canções boas no cinema é um privilégio. Talvez até acusem o diretor de usar demais boas canções como uma forma de talvez esconder alguma fragilidade na direção, mas como o apartamento de Clara é cheio de vinis e a música é tão importante para a personagem, nada mais natural que ela compareça de forma bastante forte na trilha sonora. Só no terceiro ato que essas canções se tornam mais raras, quando a tensão se intensifica.

O ponto de vista é, mais uma vez, da classe média, de gente que tem o prazer de poder tomar um bom vinho com a família e com os amigos, mas há, assim como em O SOM AO REDOR, um mea culpa em relação à exploração dos mais pobres, ainda que de maneira mais sutil. O que mais interessa para Mendonça Filho é tratar de temas humanos de peito aberto, também aproveitando para desabafar diante dos canalhas que só pensam no dinheiro acima de tudo.

Como o cineasta atira para vários lados, cada cena tem o seu valor, sua importância, como as que tratam, de forma mais explícita, da sexualidade da protagonista. Aliás, o sexo se tornou um dos tabus do filme, que inicialmente ganhou classificação 18 anos no Brasil, por causa, principalmente, de uma breve cena de sexo coletivo. O sexo, no entanto, já aparece logo em uma das primeiras cenas, em rápidas e inesperadas imagens em flashback de uma tia sexagenária de Clara, no dia de seu aniversário.

Haveria ainda muito a se falar do filme, sobre suas várias qualidades, como a fotografia em tons quentes que valoriza a luz de Recife, mais especificamente a Praia de Boa Viagem, mas também o apartamento de Clara; das conversas da protagonista com seus filhos, familiares e amigos; da troca de palavras tensa com seus inimigos; e por isso mesmo é uma obra que convida o espectador a uma nova apreciação.