segunda-feira, fevereiro 29, 2016

OSCAR 2016



Estava sendo uma cerimônia bem divertida e com pontos bem altos, mas chegou aquele momento que todo mundo esperava e que poderia fazer esta edição ficar para a história: a premiação de Sylvester Stallone por CREED – NASCIDO PARA LUTAR. Não se trata exatamente de fazer justiça, pois sabemos que no Oscar a coisa não é bem assim, mas sabemos o quanto Stallone é querido, o quanto foi bonito vê-lo recebendo o Globo de Ouro com todos aplaudindo de pé e reconhecendo o grande e carismático ator de coração grande que ele é. Ninguém esperava que o prêmio fosse para Mark Rylance.

Mas não se pode ter tudo. E houve alguns bons destaques, como a própria premiação de Leonardo DiCaprio, que depois de cinco tentativas finalmente conquistou o seu Oscar. Estava rolando uma torcida boa na internet e no mundo todo, aliás. Ainda que não tenha sido sua melhor atuação, está valendo. Sem falar que teve todo o sacrifício e preparação para compor o personagem e a questão física pesada. E ele ainda contribuiu com o melhor discurso da noite.

A cerimônia começou com o monólogo de Chris Rock, que, como esperado, aproveitou a polêmica em torno da falta de diversidade entre os indicados deste ano. Juntando piadas com coisa séria (lembrar da perseguição e até mesmo do enforcamento de negros durante vários anos nos Estados Unidos foi importante), ele fez um bom trabalho. Bem melhor do que o sujeito do ano passado.

Entre as coisas boas da noite, tivemos seis estatuetas para MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA, deixando até mesmo uma esperança de que o filme ganhasse direção ou o prêmio principal. Não foi dessa vez, mas o amor que o trabalho de George Miller provoca em tanta gente é grande e maior do que uma premiação que costuma ser normalmente esquecida.

Mas como a festa também é composta de gente bonita, vale destacar a presença de beldades como Kate Winslet, Brie Larson (melhor atriz da noite), Margot Robbie (que deve matar muito homem do coração), Charlize Theron, Rachel McAdams, Sophie Turner, Jennifer Lawrence, Alicia Vikander, Saoirse Ronan, entre outras mulheres lindas que abrilhantaram a noite. Até a Gena Rowlands, eterna musa indie dos filmes de John Cassavetes, estava lá, ainda que muito abatida pelo peso da idade.

A edição deste ano também vai ficar famosa pela premiação a Ennio Morricone, por OS OITO ODIADOS, de Quentin Tarantino. O compositor veterano estava visivelmente muito emocionado. Foi bonito de ver, ainda que passe longe de ser o melhor trabalho do mestre italiano. Até porque o trabalho de trilha sonora de CAROL é lindíssimo. Mas como preferiram esnobar geral o filme de Todd Haynes, isso já era de se esperar.

Um detalhe interessante aconteceu extra-cerimônia e que criou e deve criar outros memes bem engraçados: a Rede Globo convidou a atriz Glória Pires para fazer os comentários da premiação durante os intervalos e foi impressionante: ela não conseguia falar nada sobre filme algum. Só palavras soltas, como "bacana", "curti" etc. Acabou virando alvo de piadas nas redes sociais. Vi grande parte da premiação pela TNT, mas na hora dos intervalos dava para testemunhar esse acontecimento tão divertido quanto constrangedor.

No mais, foi bom ver SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS tirando o Oscar de O REGRESSO, foi bom ver que a premiação tem ainda um apelo popular grande, tendo praticamente monopolizado as redes sociais, e que o Oscar também surpreende: EX MACHINA – INSTINTO ARTIFICIAL ganhando o prêmio de efeitos visuais em cima de grandes produções pegou todo mundo de surpresa.



Os premiados

Melhor Filme – SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS
Direção – Alejandro G. Iñárritu (O REGRESSO)
Ator – Leonardo DiCaprio (O REGRESSO)
Atriz – Brie Larson (O QUARTO DE JACK)
Ator Coadjuvante – Mark Rylance (PONTE DOS ESPIÕES)
Atriz Coadjuvante – Alicia Vikander (A GAROTA DINAMARQUESA)
Roteiro Original – SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS
Roteiro Adaptado – A GRANDE APOSTA
Fotografia – O REGRESSO
Montagem – MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA
Trilha Sonora Original – OS OITO ODIADOS
Canção Original - "Writing's on the Wall", de 007 CONTRA SPECTRE
Mixagem de Som – MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA
Edição de Som – MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA
Efeitos Visuais – EX MACHINA – INSTINTO ARTIFICIAL
Design de produção – MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA
Figurino – MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA
Maquiagem e cabelos – MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA
Filme Estrangeiro – O FILHO DE SAUL (Hungria)
Longa de Animação – DIVERTIDA MENTE
Curta de Animação – BEAR STORY
Curta-metragem – STUTTERER
Documentário – AMY
Curta Documentário – A GIRL IN THE RIVER: THE PRICE OF FORGIVENESS



sábado, fevereiro 27, 2016

PRESSÁGIOS DE UM CRIME (Solace)



Gostando ou não gostando de 2 COELHOS (2012), o filme foi um cartão de apresentação e tanto para Afonso Poyart, que logo em seu longa de estreia foi convidado para dirigir uma produção americana estrelada por Anthony Hopkins. E é verdade que o roteiro de PRESSÁGIOS DE UM CRIME (2015) tem algo de problemático, mas o cineasta brasileiro consegue driblar alguns problemas, com seu estilo moderno e cheio de efeitos especiais – o da imagem congelada, similar à mostrada em 2 COELHOS – é usada em uma das cenas mais importantes: a que acontece em uma estação de metrô.

PRESSÁGIOS DE UM CRIME é diversão para quem gosta particularmente de thrillers policiais envolvendo assassinos seriais. E levando em consideração que o número desses filmes tem diminuído consideravelmente nos últimos anos (talvez porque o subgênero migrou para a televisão), ver um novo exemplar no cinema não deixa de ser prazeroso.

A trama nos apresenta a uma dupla de detetives, os agentes do FBI vividos por Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish, que sentem a necessidade da ajuda de um médium que costumava ajudar a polícia em alguns casos especiais. O problema é que o tal médium, John Clancy (Anthony Hopkins), está passando por um momento de clausura desde que a sua filha morreu, em consequência de uma leucemia.

Mas, como não é nenhuma surpresa, sabemos que John Clancy irá sair da toca para prestar auxílio aos policiais, nem que seja por ver na detetive vivida por Abbie Cornish uma semelhança com a filha morta. É importante dizer que em nenhum momento o filme coloca em dúvida os dons de Clancy. Eles surgem em flashes do passado e do futuro em imagens tão rápidas quanto em videoclipes, também como uma forma de antecipar eventos futuros, e assim criar um suspense sobre o que acontecerá, por exemplo, com a personagem de Cornish.

O que vem deixando esses agentes do FBI preocupados é o crescente número de vítimas do assassino serial, cujo principal modus operandi é matar as pessoas com um objeto perfurante na nuca, aparentemente uma morte rápida e quase indolor. Não se sabe até então o que motivaria e o que ligaria essas vítimas, qual seria o denominador comum.

O filme se mantém firme enquanto a caça ao assassino – que também tem um dom de prever o futuro – continua sendo um mistério. O problema é quando o personagem de Colin Farrell entra em cena. Seu personagem não foi bem delineado (na verdade, é apenas um rascunho) e isso se percebe logo em sua primeira aparição e também na pressa do filme em contar as suas motivações.

Ao menos a conclusão ainda contará com uma boa cena-chave – a já mencionada cena no metrô – e incentivará alguma reflexão sobre a questão da eutanásia, de um ponto de vista mais amplo. Também conta pontos algumas surpresas no enredo, embora a execução nem sempre seja satisfatória. Ainda assim, PRESSÁGIOS DE UM CRIME entretém e até empolga durante sua projeção, principalmente se fizermos vista grossa para alguns "detalhes", como roteiro e interpretações. Como o roteiro não é de Poyart, é possível que seu retorno à direção, com a produção brasileira MAIS FORTE QUE O MUNDO, seja uma espécie de salvação para ele.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

MORTALMENTE PERIGOSA (Gun Crazy / Deadly Is the Female)



Foi vendo o recente TRUMBO – LISTA NEGRA e percebendo o cartaz exposto de MORTALMENTE PERIGOSA (1950) no escritório dos irmãos King, os produtores, que eu vi o quanto precisava ver esse lendário filme de Joseph H. Lewis, cineasta conhecido pela excelência em produções de baixo orçamento, mas ainda não popular o bastante, embora o culto a seus filmes tenha crescido consideravelmente a partir da descoberta de gente boa como a crítica francesa e Peter Bogdanovich.

Aliás, foi lendo a entrevista que Lewis deu para Bogdanovich, contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, que eu vi o quanto uma única cena de MORTALMENTE PERIGOSA deu o que falar, especialmente entre os realizadores de cinema. Trata-se da cena do assalto a banco, que não contou com o uso tradicional das projeções de fundo, que eram enxertadas em cenas externas e que hoje tornam alguns filmes visualmente datados.

Em vez disso, Lewis filmou toda a sequência em uma só tomada, com a câmera colocada no banco de trás do carro, enquanto, de maneira natural, o casal de foras-da-lei se preocupa em encontrar algum lugar para estacionar, e, posteriormente, em lidar com um policial que aparece na calçada. Assim que Barton entra no banco, Annie sai do carro para distrair o policial. É uma sequência admirável. Acabei de rever.

MORTALMENTE PERIGOSA é desses filmes que encantam desde o início, com a cena do pequeno Barton quebrando uma loja para assaltar uma arma. Sua obsessão por armas que levou a este primeiro crime o levará a um reformatório. Depois da decisão do juiz o filme salta para Barton adulto (John Dall), seu retorno à cidade, depois de uma temporada no exército e com disposição para ser um cidadão de bem, ainda que sua obsessão por armas não tenha diminuído em nada.

E como não se apaixonar por Annie, a bela moça que apresenta um show de tiros em um circo, vivida por Peggy Cummins? A atriz está tão linda e tão perfeita no papel que parece tudo um milagre, uma conspiração do bem para que o resultado saia perfeito. É Annie quem acaba levando Barton para o mundo do crime, depois que os dois se casam em uma cidadezinha e veem o quanto é difícil manter uma vida com um pouco mais de luxo, sem ter um emprego bom. Daí ele ter aceitado a vida do crime, só para não perder Annie.

E como o filme é muito compacto e ágil, a gente não sente o tempo passar. E sentimos, além de tudo, o que Barton diz sentir em determinado momento, ao falar que às vezes acha que está vivendo um sonho ou pesadelo, pois a vida dele não parece estar acontecendo de verdade. O filme passa esse ar de perigo e maravilhamento, de estar vivendo intensamente, ao mesmo tempo sabendo que está fazendo uma coisa errada. Principalmente quando Annie age por impulso e mata pessoas.

Curiosamente, GUN CRAZY foi lançado primeiramente nos cinemas com o título "Deadly Is the Female", a partir de decisão do estúdio, por acreditarem ser um título de filme classe A. Joseph H. Lewis foi totalmente contrário, mas acabou aceitando. O resultado nas bilheterias foi um desastre e até o relançaram em poucas salas com o original "Gun Crazy", mas aí já era tarde demais. O filme não rendeu nada e só foi descoberto por um público maior tempos depois. Além de ter sido também chamariz do excelente trabalho de Lewis para, a partir de então, passar a trabalhar na MGM.

MORTALMENTE PERIGOSA é um filme que tanto é da tradição dos dramas criminais que nos fazem ver a vida do ponto de vista dos bandidos, e por isso fazem com que nos solidarizemos com eles e suas tragédias pessoais, como também é uma crítica a duas coisas que são bem fortes da cultura americana: a obsessão por armas e o consumismo.

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

ARQUIVO X – DÉCIMA TEMPORADA COMPLETA (The X-Files – The Complete Tenth Season)



Uma das séries mais marcantes dos anos 1990, ARQUIVO X retorna agora para uma tímida (em número de episódios) décima temporada (2016). A última até então havia encerrado em 2001, mas a série ainda rendeu dois longas-metragens para o cinema: ARQUIVO X – O FILME (1998) e o mais apagado ARQUIVO X – EU QUERO ACREDITAR (2008), que eu até já escrevera a respeito aqui no blog mas tinha esquecido, o que não é bom sinal no que se refere à qualidade do trabalho e ao teor oportunista.

A nova e curta temporada de ARQUIVO X funcionou mais para que o criador Chris Carter e a emissora Fox vissem se ainda havia apelo popular, o que se provou positivo, ainda que os episódios sejam irregulares na qualidade, principalmente levando em consideração o fato de serem só seis. Por outro lado, acaba sendo uma mostra do quanto o público quer ver mais aventuras de Mulder e Scully e do quanto os dois agentes são queridos.

O primeiro episódio, "My Struggle", dirigido e roteirizado pelo próprio Chris Carter, porém, parece um bêbado tentando executar uma tarefa complicada. O próprio David Duchovny, aliás, parece estar bêbado ou passando por um processo de reabilitação, com sua voz e seu jeito de atuar estranhos, que destoa de Gillian Anderson, que consegue trazer de volta a sua Scully como num passe de mágica.

O episódio também oferece informação demais para apenas 44 minutos de duração. Talvez funcionasse bem em pelo menos uma hora e meia. De todo modo, é um início. E o segundo episódio, com Mulder e Scully reassumindo os arquivos x, com o apoio de Skinner (Mitch Pileggi), e sabendo de uma grande conspiração envolvendo o Governo, que estaria utilizando tecnologia alienígena para fins pouco nobres, já começa com um caso especial, fugindo aos poucos da trama principal e oferecendo episódios do "monstro da semana", como era de hábito na série.

O melhor dos episódios da nova temporada é justamente o terceiro, "Mulder & Scully Meet the Were-Monster", uma deliciosa comédia sobre o misterioso caso de uma estranha criatura que aparece em uma cena de crime. É desses episódios para se assistir com um sorrisão no rosto do início ao fim, tanto de contentamento por estar vendo algo especial, como por ser engraçado mesmo, além de ter um belo teor de humanidade e solidariedade em sua conclusão. Mas como as coisas precisam voltar à trama principal, o quarto episódio retoma o caso do filho que Mulder e Scully tiveram juntos, ainda que muito ainda precise ser dito sobre isso.

Chris Carter volta à direção no quinto episódio, "Babylon", que funciona como uma dobradinha com a season finale. "Babylon" brinca com o fato de haverem dois agentes com características muito parecidas com os jovens Mulder e Scully – aquele que acredita e aquela que duvida. O quinto episódio envolve o caso de um terrorista em coma que pode ser a chave para que Mulder consiga descobrir os novos planos do grupo a que ele pertencia.

Mas legal mesmo é ver "My Struggle II", que fecha a temporada muito bem. Se o primeiro "My Struggle", que abre a temporada, é atabalhoado, este, apesar de muito movimentado, tem um timing muito bom, com uma beleza de narrativa que se inicia com o desaparecimento de Mulder e segue com um interessante caso de uma doença mortal e o uso de DNA alienígena para salvar a humanidade. Sem falar na melhor presença de cena do terrível Canceroso (William B. Davis) na temporada. No final, somos deixados com um gancho e um gosto de "quero-mais", o que prova que a série tem, sim, que retornar pelo menos para mais uma mini-temporada como essa e fechar as pontas soltas.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

QUATRO FILMES INDIE



Em tempos de Oscar ser indie também está na moda. Sempre há alguns títulos saídos de Sundance, por exemplo. Por isso, vamos a mais um tradicional post de resgate de filmes vistos e ainda não comentados no blog, dessa vez dando ênfase a alguns trabalhos de baixo orçamento e cuja adjetivação tem a ver não apenas com o seu custo, mas também com a própria característica do ser indie, que é, em grosso modo, procurar ser diferente, de alguma maneira, ao estilo tradicional de narrativa hollywoodiana, embora possa trazer também atores conhecidos.

FRANK

Por causa de sua indicação ao Oscar por O QUARTO DE JACK (2015), Lenny Abrahamson ganhou maior visibilidade mundial. Mas foi com FRANK (2014) que o cineasta irlandês chamou primeiro a atenção, trazendo Michael Fassbender no papel de um vocalista de uma banda de rock alternativa que tinha uma peculiaridade muito curiosa: ele usava uma cabeça grande cobrindo a sua o tempo inteiro, sem mostrar a ninguém o seu verdadeiro rosto. Domhnall Gleeson faz o papel do rapaz que entra na banda estranha com gente esquisita – só vendo para crer o que tem de gente esquisita nessa banda. Talvez o problema do filme seja ter tanto dessas excentricidades que, com o tempo, a gente até esquece, ainda que fique na memória o final melancólico e desolador.

ENQUANTO SOMOS JOVENS (While We’re Young)

Depois do hit cult FRANCES HA (2012), Noah Baumbach volta a fazer filmes com atores mais famosos, e com uma pegada um pouco mais tradicional. ENQUANTO SOMOS JOVENS (2014, foto), até pela presença de Adam Driver como um dos quatro protagonistas, lembra um pouco o humor de GIRLS, a série de Lena Dunham, com personagens com pouco senso moral – ou com moral desvirtuada. Na trama, Ben Stiller e Naomi Watts formam um casal que tem passado por uma espécie de crise de identidade na comparação com outros casais de sua idade. Eles não têm filhos como os seus amigos da mesma idade e por isso se encontram numa espécie de lapso temporal. Por isso ficam felizes ao conhecer o casal jovem e descolado formado por Driver e Amanda Seyfried. No começo é só alegria, mas depois algumas decepções farão parte da trama e trarão um gosto amargo a uma história que começa fazendo rir – Ben Stiller ainda é muito bom nisso.

TANGERINE

Um dos filmes mais curiosos do cinema independente americano recente, TANGERINE (2015), de Sean Baker, foi todo filmado em uma câmera de um iPhone 6 (o que é admirável pelo excelente resultado da fotografia) e narra uma história do mundo das transexuais que trabalham com prostituição em Los Angeles. Uma delas sofre quando descobre que seu namorado a traiu com uma mulher enquanto ela esteve uns dias presa. Sua missão passa a ser, então, ir em busca dessa mulher e também do namorado. Enquanto isso, vemos o dia a dia de um taxista que tem obsessão por "mulheres com pênis". O que me desagradou no filme é o excesso de gritaria das personagens. Em determinado momento, isso é até engraçado e intenso, mas depois passa a dar dor de cabeça.

BEM-VINDOS AO MEU MUNDO (Welcome to Me)

Atraído pelo encanto de Kristen Wiig, lá fui eu atrás desta comédia dramática em que a atriz interpreta uma mulher depressiva que ganha na loteria. Ela resolve então deixar de tomar suas pílulas e começa a patrocinar o seu próprio programa de televisão, onde irá expor, das maneiras mais constrangedoras possíveis, uma lavagem de roupa suja com as pessoas que lhe feriram no passado, e a também fazer outras coisas inusitadas e inéditas em qualquer programa de tevê. Em BEM-VINDOS AO MEU MUNDO (2014), Kristen mais uma vez, assim como fez em IRMÃOS DESASTRE, do mesmo ano, foca em personagens deprimidos, mas misturando tudo com um tipo de humor diferente. No caso, a diretora Shira Piven não é bem-sucedida nem no drama nem na comédia, se é que dá pra separar uma coisa da outra neste filme.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

ANOMALISA



Charlie Kaufman é um artista famoso por seus roteiros que contam histórias estranhas. Pode-se dizer que ele é talvez a maior celebridade contemporânea em se tratando de roteiros, graças às suas primeiras parcerias com Spike Jonze, que rendeu sucessos cultuados como QUERO SER JOHN MALKOVICH (1999) e ADAPTAÇÃO (2002). E em parceria com o diretor francês Michel Gondry, Kaufman conquistou muitos corações com BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (2004). Seu primeiro longa-metragem, porém, foi o hermético e um tanto chato (embora haja um bom número de fãs) SINÉDOQUE, NOVA YORK (2008).

ANOMALISA (2015) é o seu terceiro longa como diretor, depois de um trabalho para a televisão pouco conhecido (HOW AND WHY, 2014). Aqui ele divide os créditos de direção com o animador Duke Johnson, com bastante experiência em animação em stop-motion. A estranheza de ANOMALISA está justamente em parecer, pelo menos de início, uma história de uma pessoa comum contada com bonecos um tanto desproporcionais. O que não é comum é o mundo que circunda o protagonista, como aos poucos vamos percebendo.

David Thewlis faz a voz de Michael Stone, um autor de livros especializado em atendimento ao cliente que é adorado por multidões. Ele é uma celebridade, por assim dizer. O filme acompanha sua jornada do avião até o hotel de luxo em que se hospeda. Mas em vez de estar feliz com a vida que leva, ele acha tudo um saco. E ainda está passando por problemas conjugais – brigou com a esposa quando saiu de casa para dar essa palestra em outra cidade.

A solidão faz com que ele procure meios de aplacar esse vazio, chegando até mesmo a procurar o número de uma ex-namorada, cujo fim do relacionamento a deixou um tanto confusa e magoada. E o curioso é que tanto ela quanto todos os demais personagens são dublados pela voz de um único homem, Tom Noonan. Essa sensação de estranheza ao ver mulheres com voz de homem acaba sendo um charme desse filme. E também há uma razão de ser, como veremos a seguir, quando ele conhece uma moça, Lisa, que tem uma voz diferente (de Jennifer Jason Leigh).

E eis que nesse cenário tão raro de encontrar cenas de sexo boas e autênticas – refiro-me ao cinema americano contemporâneo –, justo em uma animação vemos um excelente trabalho de construção de cena de intimidade entre Michael e Lisa. A cena não é exatamente excitante, mas é envolvente e encantadora o suficiente para deixar a plateia quase prendendo a respiração.

Charlie Kaufman (e seu companheiro Duke Johnson) constroem um retrato muito bonito e kafkiano sobre a solidão, a dificuldade de se relacionar com o mundo, de externar as emoções, de ser singular neste mundo globalizado, sem que com isso não tenha também seus momentos de alívio cômico, uma estratégia, aliás, para nos aproximarmos mais desses personagens cabeçudos – no sentido literal da palavra.

ANOMALISA concorre ao Oscar na categoria de melhor animação.

sábado, fevereiro 20, 2016

BONECO DO MAL (The Boy)



À medida que os filmes da temporada de premiações vão saindo dos holofotes com a aproximação do Oscar, começa a haver uma maior abertura para filmes de gênero. E como o gênero horror é um dos mais queridos da casa, é sempre uma festa quando alguns novos títulos começam a circular. Em breve teremos BOA NOITE, MAMÃE, de Veronika Franz e Severin Fiala, A BRUXA, de Roger Eggers; FLORESTA MALDITA, de Jason Zada; RUA CLOVERFIELD, 10, de Dan Trachtenberg; CHAMADOS, de F. Javier Gutiérrez; DEMON, de Marcin Wrona; e INVOCAÇÃO DO MAL 2, de James Wan, só para citar alguns exemplares.

BONECO DO MAL (2016), de William Brent Bell, seria então o primeiro a inaugurar este momento que promete ser um dos mais interessantes para o gênero em muitos anos. O diretor tem no currículo um filme que teve um considerável apelo comercial na época em que estreou, FILHA DO MAL (2012), um trabalho que utilizava o recurso do found footage para contar uma história de possessão. Não foi exatamente um trabalho muito bem recebido pela crítica em geral, assim como BONECO DO MAL também não é.

No entanto, há que se dar crédito para o modo como Bell consegue fazer de uma história claramente vulgar em uma trama envolvente que brinca com desenvoltura com os clichês do gênero, sem precisar apelar para sustos fáceis. BONECO DO MAL é a produção de maior orçamento do cineasta (10 milhões) e conta com a presença da hoje celebridade Lauren Cohan, mas conhecida como a doce e corajosa Maggie de THE WALKING DEAD. Para muitos, inclusive, a presença da atriz já justifica a ida ao cinema.

Ela interpreta Greta Evans, uma americana em passagem pelo Inglaterra a fim de trabalhar como babá em uma mansão situada longe das cidades. Seu dever é cuidar de uma criança que tem uma característica bem peculiar: trata-se de um boneco, que os pais criam como se fosse uma criança de verdade. Assim que chega, ela pensa se tratar de uma brincadeira, mas percebe que o casal de velhinhos não está brincando. Até deixa uma série de regras para que ela possa seguir. Essas regras até fazem com que o filme lembre GREMLINS, de Joe Dante, embora a semelhança pare por aí.

Com a saída dos pais do boneco/garoto, Greta se vê sozinha naquela casa com aquele misterioso boneco, que pelo menos não é tão feio quanto a boneca Annabelle, do filme homônimo. Mas não deixa de ser assustador para ela ver que o boneco muda de lugar misteriosamente, sem falar na tentativa de ele sabotar o encontro romântico que ela tem com um rapaz do vilarejo (o simpático Rupert Evans), entre outras coisas que acontecem.

É curioso também notar o desenvolvimento da trama para chegar à sua conclusão, quando o diretor e o roteirista assumem de vez o aspecto Bzão de seu trabalho, o que o torna ao mesmo tempo alvo de críticas por muitos, mas que não deixa de contar com um final inesperado, surpreendente, de certa forma. E por mais que haja uma série de problemas na narrativa, só o fato de causar prazer para o fã do gênero com uma história divertida e envolvente e ainda trazer uma moça tão bela e carismática quanto Lauren Cohan encabeçando o elenco já merece o nosso crédito. Sem falar que BONECO DO MAL pode ser só o início de uma safra que promete.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

A GAROTA DINAMARQUESA (The Danish Girl)



É difícil esperar que o combo Tom Hooper + Eddie Redmayne vá render coisa boa. Mas, por outro lado, temos a garota revelação do ano, Alicia Vikander, e um assunto interessante e curioso, o caso da primeira intervenção para mudança de sexo no mundo. A GAROTA DINAMARQUESA (2015) é uma história fictícia baseada nessa história real, ocorrida com um homem que teve um insight ao usar um vestido e ir a uma festa disfarçado de mulher por diversão com a esposa e depois passa a acreditar que sua vida até então, como homem, era uma farsa; que ele é, na verdade, Lili.

Claro que essa descrição poderia ser dita de outra maneira: mulher que vivia presa em corpo de homem finalmente encontra a liberdade depois que descobre seu verdadeiro gênero e passa a negar aquilo que nunca foi. Mas o filme, por mais que abrace também essa ideia aos poucos, torna o modo como vemos Einar/Lili mais como uma espécie de caso de esquizofrenia muito parecido com o visto em PSICOSE, de Alfred Hitchcock.

Até já ouvi dizer que algumas transexuais não gostam nenhum pouco dessa maneira de usar esse recurso da terceira pessoa para tratar o seu outro eu – ou seja lá como elas prefiram chamá-lo, pois também estamos em um tempo em que certos termos devem ser cuidadosamente usados. Hoje estamos mais avançados nessa questão, mas ainda engatinhando nos estudos de gênero. Até pelo fato de a maioria dessas pessoas terem uma vida muito reservada ou terem também muitos traumas pessoais, sem falar no preconceito que ainda sofrem da sociedade.

Em A GAROTA DINAMARQUESA, o casal de pintores Gerda (Alicia Vikander) e Einar (Eddie Redmayne) vive uma vida relativamente tranquila, ainda que não seja nada fácil viver de arte. Gerda, principalmente, só vai conseguir sucesso com seus retratos quando pede que o marido pose para ela com um vestido. A pintura é um sucesso e mais do tipo é encomendada para uma exposição em um museu de arte de Copenhague. Mas a verdadeira turbulência aconteceria na cabeça de Einar, que percebe de imediato, ao usar aquele vestido, o quanto sua feminilidade estava prestes a aflorar. E não vai ser fácil para os dois essa travessia.

Até por destacar esse embate interior o filme tem o seu grau de interesse, mas chega a ser incômodo o modo exagerado como Redmayne incorpora essa transformação, seja rejeitando seu órgão sexual masculino, seja aprendendo através do olhar o modo como uma mulher se comporta no gestual. Como uma criança que através da observação vai criando modelos a partir da imagem da mãe, do pai ou de um irmão ou irmã, Einar vai cada vez mais morrendo e deixando nascer Lili.

No mais, o filme também incomoda pela utilização cafona e exagerada da música e no modo exagerado como Redmayne expõe o drama. Por outro lado, Vikander tem uma personagem tão interessante, que não deixa de ser emocionante o diálogo final entre o (ex-)casal, que pode levar muitos espectadores às lágrimas.

A GAROTA DINAMARQUESA concorre ao Oscar nas categorias de ator (Eddie Redmayne), atriz coadjuvante (Alicia Vikander), figurino e desenho de produção.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

O IMPORTANTE É AMAR (L'Important c'Est d'Aimer)



Faleceu hoje um dos mais importantes cineastas poloneses modernos. Embora só tenha 13 longas-metragens no currículo, Andrzej Zulawski deixou marcas fortes. Para os fãs do cinema de horror, ele é mais lembrado por POSSESSÃO (1981), mas este é só mais um de seus trabalhos que lidam com a intensidade das emoções humanas. O IMPORTANTE É AMAR (1975) é baseado em um romance de Christopher Frank intitulado A Noite Americana e é estrelado pela bela Romy Schneider, em interpretação inspirada.

Neste filme, Zulawski dá espaço para que as emoções de seus personagens fluam de maneira bem intensa. Exagerada e histérica, para alguns. Mas não deixa de ser interessante a experiência, especialmente quando entra em cena a música sensacional de Georges Delerue, que inclusive lembra o trabalho dele em O DESPREZO, de Godard, dando um ar solene em diversas cenas. Em determinado momento, aliás, esse sentimento vem à tona em um dos diálogos cruciais para a trama.

O filme acompanha o amor obsessivo do fotógrafo Servais (Fabio Testi) pela atriz decadente Nadine (Romy Schneider). Ela tem um passado de produções pornôs e tenta fazer alguns trabalhos na tentativa de provar a si mesma que é uma boa atriz. O marido dela Jacques (Jacques Dutronc), fã de cinema hollywoodiano, é um sujeito simpático, mas de modos também sarcásticos, talvez para esconder a própria insegurança, principalmente quando percebe que pode perder a mulher para Servais.

A tática de Servais de levantar a autoestima de Nadine é concedê-la a chance de trabalhar em um papel importante de uma peça de Shakespeare. Para isso, ele consegue a ajuda de alguns amigos e também tem a coragem de fazer um empréstimo bancário para bancar a produção teatral. É um tiro no escuro, já que o sucesso da peça é imprevisível, muito por causa dos excessos do ator principal, vivido por Klaus Kinski, que interpreta uma espécie de homossexual aristocrata.

O filme adentra pouco no submundo dos filmes pornôs e das perversões, mas há algumas poucas cenas que servem para mostrar que elas estão presentes e fazem parte das vidas dos personagens. O que mais importa, como diz o título, é o amor. O amor de Servais por Nadine, de Jacques por Nadine, e o amor hesitante de Nadine por Servais. No primeiro momento, ela quer se entregar a ele através do sexo, mas ele rejeita, tem a intenção de ter um relacionamento sério e não uma simples transa que possa ser esquecida no dia seguinte.

Uma das marcas mais presentes em O IMPORTANTE É AMAR é a câmera nervosa de Zulawski, que persegue os personagens de perto, com frequência. Há também bastante uso de travellings de aproximação e distanciamento, conforme a intenção do sentimento a ser usado. Essa inquietude da câmera se confunde com a inquietude do drama dos personagens, embora muitas vezes fiquemos um pouco insatisfeitos com o modo como suas motivações pareçam estranhas. A falha do filme está principalmente em não saber desenvolver bem sua conclusão, que fica aquém de um trabalho que começa intrigante. E nem é pelo apelo à violência, comum aos filmes do diretor.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

DEADPOOL



Os anos 1990 para a Marvel são tidos por muitos especialistas e fãs de quadrinhos como os piores anos da editora. Foi uma era que primou por exageros em várias frentes, inclusive nos traços dos desenhos. Foi nessa época que surgiu o Venom, um dos mais famosos inimigos do Homem-Aranha, e também foi no início dessa época que surgiu o Deadpool, inicialmente como um vilão em uma história dos Novos Mutantes e claramente inspirado em um herói da DC chamado de Exterminador. Com o tempo o mercenário falastrão foi ganhando popularidade e um título próprio. Como ele não é exatamente um herói, está liberado a matar e a ferir.

DEADPOOL (2016), o filme, nesse sentido, é muito fiel, inclusive, ao senso de humor do personagem, na quebra da quarta parede o tempo todo, nas piadinhas que se seguem à exaustão, e por aí vai. O problema é que de 100% das piadas, eu devo ter rido em apenas 5% no máximo. E nada pior do que você estar em uma sala de cinema com gente rindo e você não vendo muita graça naquilo. É como se os roteiristas e o diretor não conseguissem impor um timing exato para que essas piadas funcionassem, principalmente quando elas estão dentro das cenas de ação. Ou seja, na maioria das vezes.

Há bons momentos, como a piada envolvendo o Liam Neeson, ou as brincadeiras com as datas comemorativas e a namorada (Morena Baccarin), antes de Wade Wilson (Ryan Reynolds) ser diagnosticado com câncer e se transformar no duro de matar Deadpool. Aliás, seria preferível dizer impossível de matar. O anti-herói tem como principal característica a autorregeneração de seu corpo. E nisso cabe até uma piada tosca envolvendo um spoiler de 127 HORAS, de Danny Boyle. E essa impossibilidade de matá-lo ou feri-lo de verdade torna tudo ainda mais chato.

Sim, o filme tem esse aspecto legal de trazer uma avalanche de referências pop do mundo dos quadrinhos, mas também do mundo do cinema. E tem também a ótima caracterização do personagem com um uniforme que não parece, na maior parte das vezes, CGI, mas uma roupa de couro mesmo. Mas isso não impede, por exemplo, que essa aproximação do real faça com que a violência gráfica seja impactante. Ela está lá, mas não parece fazer diferença nenhuma. Para o bem ou para o mal. Não é como em KICK-ASS – QUEBRANDO TUDO e sua continuação. Esses sim são exemplos de filmes que usam a violência e o humor com eficiência, coisa que o diretor estreante em longas-metragens Tim Miller não consegue obter.

Resta elogiar o filme pelas brincadeiras (algumas ousadas e picantes), pelos créditos iniciais criativos, pelo sarro metalinguístico que tira com a própria produção (quando Deadpool diz que o estúdio não teve dinheiro para contratar mais x-men, por isso só aparecem Colossus e uma mutante aprendiz), pela brincadeira com a canção "Careless whisper", do George Michael/Wham!, e pela fidelidade ao personagem. Mas, sinceramente, como comédia, acho bem preferível rever o maltratado e muito mais divertido TIRANDO O ATRASO.

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

BROOKLIN (Brooklyn)



Eis um filme que vai conquistando aos poucos o espectador. BROOKLIN (2015) inicia aparentemente um pouco atabalhoado, com uma pressa de enviar logo sua protagonista para os Estados Unidos, mas talvez isso tenha sido para melhor. Uma vez que Eilis (Saoirse Ronan) está em Nova York, numa comunidade irlandesa, sua história começa a ficar mais e mais interessante, muito fácil de criar uma empatia até em espectadores que nunca sofreram com a saudade da família e do lar, estando em um país distante.

Na trama, Eilis é uma jovem de uma família simples da Irlanda que consegue, através de um padre irlandês que trabalha nos Estados Unidos (Jim Broadbent), uma chance de ter melhores condições de vida na "terra das oportunidades". Ela já vai, inclusive, com um emprego garantido e hospedagem na pensão de uma senhora muito tradicional e exigente no que se refere a comportamento, ainda que as meninas que lá moram vivam tirando sarro dela.

Depois de tanto chorar de saudade de casa e de escrever e receber cartas de sua terra, a vida de Eilis muda bastante quando ela conhece um rapaz italiano muito gentil e disposto a ter um relacionamento sério com ela. O amor e o carinho que recebe elevam o espírito de Eilis, que passa a ter um comportamento mais confiante e mais feliz diante da vida no novo país, assim como melhor desempenho no trabalho - numa loja de perfumes. Com tudo melhorando, a vida no velho continente vai ficando em segundo plano. Até que algo acontece e chama Eilis de volta para lá e a deixa dividida.

BROOKLIN já é o sexto longa-metragem de John Crowley, embora seja o primeiro que tenha revelado o seu nome para o grande público, graças, principalmente à indicação ao Oscar. O que é muito bom, pois há nomes quase invisíveis, mesmo no cinema em língua inglesa, que precisam mesmo desse tipo de empurrãozinho, a fim de que novos talentos sejam conhecidos por uma audiência maior no circuito internacional. O filme anterior do diretor, CIRCUITO FECHADO (2013), foi lançado direto em DVD no Brasil, mesmo tendo um elenco de nomes bastante conhecidos.

Como BROOKLIN se passa na década de 1950 e não no início do século, a chegada dos imigrantes é bem menos traumática e difícil do que a apresentada em ERA UMA VEZ EM NOVA YORK, de James Gray, ainda que sejam mostrados tanto a difícil viagem de navio até o novo mundo, quanto a tensão e a possibilidade de se ficar em quarentena se alguém da imigração desconfiar que determinado imigrante está doente.

O escritor Nick Hornby, aqui como roteirista, contribui para que a narrativa de BROOKLIN flua com naturalidade e sensibilidade e com vários momentos de humor suave. Daí a semelhança do filme com outro trabalho de Horny que ganhou também os holofotes graças à temporada de premiações, EDUCAÇÃO (2009), de Lone Sherfig.

Destaque também para a bela e caprichada reconstituição de época, para as cenas de retorno na Irlanda, que elevam ainda mais o filme a um patamar mais interessante, e às performances de seus atores, em especial Saoirse Ronan, que está adorável, mas também Domhnall Gleeson, que faz o atraente pretendente de Eilis em sua terra natal. Aliás, é interessante notar também o quanto a personagem, em sua relação de amor e desamor com a Irlanda, acaba parecendo saída de um conto de James Joyce, escritor que lidava com a questão da paralisia reinante em seu país, retratada no comportamento dos personagens.

BROOKLIN concorre ao Oscar nas categorias de melhor filme, atriz (Saoirse Ronan) e roteiro adaptado.

domingo, fevereiro 14, 2016

O QUARTO DE JACK (Room)



Último dos oito candidatos deste ano a melhor filme a entrar em cartaz no Brasil, O QUARTO DE JACK (2015), de Lenny Abrahamson, é desses que causam sentimentos de comoção em diversos momentos. É um filme pequeno que se agiganta com seu tema forte e pesado, com as interpretações inspiradas da bela e talentosa Brie Larson e do garotinho Jacob Tremblay, e com cenas que trazem um sentimento de impotência, claustrofobia e indignação. Ao mesmo tempo, exalta a beleza e a grandeza do mundo, esse mundo tão desconhecido dos olhos e da cabeça do pequeno Jack.

A princípio, especialmente se o espectador não se deixou levar pela tentação de ver o trailer ou ler qualquer crítica, há um sentimento de inquietação ao não sabermos ainda o motivo de a mãe vivida por Brie Larson e Jack viverem sozinhos e trancados em um quarto minúsculo sem saírem para lugar algum. Mas as respostas vêm em breve, assim como uma série de outros sentimentos perturbadores, causados pela raiva, urgência pela liberdade e sede de justiça.

Lenny Abrahamson poderia muito bem ter optado por uma janela de aspecto mais fechada, a fim de tornar aquele espaço pequeno ainda menor, mas ele opta pelo scope, dando àquele espaço uma relativa grandeza na cabeça de Jack, que nunca conheceu outro lugar em sua curta vida (cinco anos). Demora um pouco para ele aceitar, por exemplo, que aquilo que ele vê na televisão velha e com má sintonia não é mágica, mas pessoas de verdade que existem em um mundo de verdade, do outro lado daquelas paredes. Trata-se de uma clara alusão ao mito da caverna de Platão.

Uma vez que fica difícil escrever sobre o filme sem entregar alguns spoilers, já peço desculpas e recomendo ao leitor que o veja antes de ler ou ver qualquer coisa que possa estragar a experiência e as surpresas. Dito isso, O QUARTO DE JACK pode ser dividido claramente em dois momentos: antes e depois do quarto. Tanto para os personagens quanto para nós, espectadores.

Um dos méritos do filme, além de conseguir envolver e trazer também uma carga de suspense no momento da fuga do garotinho e da torcida para que o plano da mãe de conseguir liberdade dê certo e no meio disso trazer uma cena de tirar a respiração, de tão linda (o olhar de Jack pela primeira vez para o céu azul enquanto está na caminhonete do velho Nick), é que podemos acompanhar o que acontece com os personagens depois disso.

Não se trata, portanto, de um mero filme sobre sequestro, fuga e final feliz. As cicatrizes e os traumas daqueles anos todos confinados gerarão ainda muito interesse na segunda parte do filme, com a difícil readaptação à vida normal, tanto pelo garoto quanto por sua mãe, que enquanto está sozinha no quarto com ele precisa ser forte para dar amor e educação ao garotinho de cabelos longos, além também de ele representar o principal motivo de ela ainda querer estar viva dentro desse cenário hediondo.

Por isso esse segundo momento é tão bom quanto o primeiro, trazendo ainda mais cenas comoventes, como a que envolve a relação de Jack com a avó (Joan Allen) e o marido dela, e o modo como a mãe de Jack cai em depressão em se ver diante daquele mundo que os acolhe, mas que também procura tirar proveito de sua experiência perturbadora de aprisionamento e abuso sexual.

O QUARTO DE JACK é baseado em um romance da escritora irlandesa-canadense Emma Donaghue, que tem um histórico interessante de livros sobre personagens femininas fortes. Dois de seus livros receberam prêmios especiais de ficção lésbica. E se Room não possui marcas de lesbianismo, há sim um forte apelo feminino, ao mostrar Joy, a personagem de Brie, como uma mulher que recusa, com toda a razão, a ideia de que Jack seja produto da ação de um estuprador, mas sim que o garoto é dela, e só dela. Esta declaração, inclusive, é um dos momentos mais fortes deste filme sensível e doloroso.

O QUARTO DE JACK concorre ao Oscar nas categorias de melhor filme, direção, atriz (Brie Larson) e roteiro adaptado.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA (En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron)



A exibição de UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA (2014) na Mostra Cinema em Transe foi uma das experiências mais prazerosas que se pôde ter no cinema recente. O público interagiu muito bem, gargalhando em diversos momentos, e também entendendo que o tipo de humor que o filme de Roy Andersson propõe é também uma crítica ácida e triste a uma sociedade que parece estar pouco se importando com o outro. Todos estamos sozinhos e desamparados. O uso de uma maquiagem que dá um tom esbranquiçado no rosto de alguns personagens é proposital, como que para dar a entender que aquela sociedade está morta.

A estranheza do filme é grande, mas é muito bem-vinda. E só tendo muita má vontade para desistir de sua agradável narrativa. Até porque UM POMBO POUSOU... é um filme em esquetes, 39 esquetes, dentro de uma duração total de apenas 1h40, o que não constitui nenhum incômodo, mesmo para espectadores mais desatentos ou desinteressados. Mas sabemos que é preciso ter um pouco de interesse sim e também um pouco de atenção nos ricos detalhes da cenografia, toda feita em estúdio e de uma beleza que só se compara à de alguns filmes hollywoodianos da década de 1950.

Se o filme peca um pouco, talvez seja por não conseguir fazer todas as esquetes perfeitas. Ou talvez até alcance a perfeição, se é que isso existe, mas como elas são diferentes e algumas são mais engraçadas, enquanto outras são mais amargas, acaba passando essa impressão de irregularidade. Algumas esquetes são bem independentes dentro da narrativa, mas têm um temática que as une, como aquelas que mostram o encontro com a morte. Por mais mórbidas que sejam, são o principal convite ao riso para o público, logo no início do filme. É o momento em que Roy Andersson nos ganha e nos pega pela mão.

Depois disso, alguns personagens aparecem com certa frequência, principalmente os dois vendedores ambulantes de objetos para divertir as pessoas. O problema é que eles são excessivamente tristes – principalmente um deles, que é depressivo – para que consigam encontrar alguém que compre os tais produto. E é neles que o filme mais toca com profundidade a questão da carência afetiva. A falta de calor humano é mostrada mesmo em uma cena rotineira como a de pessoas na parada de ônibus, quando uma delas pergunta que dia da semana é.

Mas uma das características mais marcantes de UM POMBO POUSOU... é o trabalho de encenação, que acontece sempre em uma câmera parada e em imagens dotadas de profundidade de campo. Assim, vemos tudo que acontece dentro do quadro. E todos os detalhes são importantes, alguns mais que outros. A invasão de um exército de outra época em um bar é impressionante em sua construção, assim como também é mais do que eficiente como humor absurdo, até lembrando vez ou outra o humor do grupo inglês Monty Python, embora a proposta seja diferente.

A crueldade humana também exposta, como na cena dos escravos negros entrando em uma espécie de recipiente gigante, ou na cena do macaco de laboratório. Ao final, depois de muitas risadas, fica no ar uma doce melancolia. Doce, no sentido de que acabamos de ver uma obra adorável e cheia de sensibilidade, mas é impossível deixar de constatar o quanto estamos sozinhos.

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

AS MEMÓRIAS DE MARNIE (Omoide no Mânî)



Muito provavelmente, não fosse a marca forte e de qualidade dos estúdios Ghibli, AS MEMÓRIAS DE MARNIE (2014) não teria tido a boa recepção que merecidamente teve. Mesmo não sendo assinado por Hayao Miyazaki e Isao Takahata, os dois maiores nomes do estúdio, o filme de Hiromasa Yonebayashi é um primor em sua história sobre solidão, amizade e relações familiares, aliado a um crescente e instigante clima de mistério.

E tudo isso é muito comum à cultura japonesa, que tem um trato com o mais próximo de uma maneira mais fisicamente distanciada e tímida. Paradoxalmente, nos filmes de fantasma nipônicos, essas entidades são vistas de maneira física quanto pessoas de carne e osso, como podemos comprovar em obras referenciais do gênero terror, como CONTOS DA LUA VAGA, de Kenji Mizoguchi, e KWAIDAN – AS QUATRO FACES DO MEDO, de Masaki Kobayashi.

Não que AS MEMÓRIAS DE MARNIE se enquadre exatamente nessa categoria, embora a tangencie (os momentos que aproximam a animação de um horror gótico lembram, inclusive, certas produções do gênero da velha Hollywood). Aqui, percebemos desde o início algo de estranho na garotinha loira que mora em uma mansão abandonada que só pode ser acessada quando a maré está baixa ou de barco e que vira objeto de fascinação pela solitária Anna. Quando Anna visita a mansão pela primeira vez ela percebe que o lugar está abandonado; depois, vê que as luzes estão acesas; e, posteriormente, tem a primeira visão e depois contato com a nova amiga.

Inclusive, é até possível pensar que o relacionamento de amizade entre as duas em algum momento sugira uma espécie de amor romântico, graças a detalhes como o momento em que as duas tocam as mãos no barco ou quando Anna a convida para sua casa. Ou mesmo na cena da dança na festa patrocinada pelos pais aristocratas de Marnie.

A questão do sentimento de não se sentir amada de Anna, que é órfã (e também de Marnie), é mostrada a partir, principalmente, da conversa entre as duas meninas, e do recurso do flashback, tornando-as, devido a essas confissões, mais próximas e queridas do espectador.

Embora alguém possa achar que o filme exagera um pouco no melodrama, podemos dizer que, de certa forma, até que AS MEMÓRIAS DE MARNIE é bem contido nas emoções, já que o momento mais próximo de fazer o espectador chorar é lá pelo finalzinho, quando vemos que o filme é também sobre autodescoberta. E quando também, junto com Anna, vamos descobrindo quem de fato é Marnie.

AS MEMÓRIAS DE MARNIE foi indicado ao Oscar na categoria de melhor animação.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

CIÚME À ITALIANA (Dramma della Gelosia (Tutti i Particolari in Cronaca))



Como é de praxe aqui neste espaço, costumo ver filmes de artistas, principalmente cineastas, mas também atores e atrizes, que faleceram, como uma forma de homenageá-los. A escolha de CIÚME À ITALIANA (1970) foi tanto por ser uma das obras que eu não havia visto ainda de Ettore Scola (falecido em 19 de janeiro, aos 84 anos), quanto por ser elogiado por alguns amigos. Confesso, porém, que é um filme que me causa certos sentimentos contraditórios.

Acho que comecei a achar estranho logo no começo, quando, Adelaide, a bela personagem de Monica Vitti, fica encantada por um sujeito dormindo no lixão, Oreste, vivido por Marcello Mastroianni. Scola faz questão de não usar filtros embelezadores de modo a tornar a cena menos suja. Há até uma mosca entre os dois, que simboliza a presença de Oreste. Segundo Adelaide, seria mais belo se fosse uma borboleta, mas já que é uma mosca, é uma mosca bonita, é a mosca deles. Como ela é bela demais para um sujeito em tão franca decadência, ele pensa estar sonhando, mas logo ganha beijos e juras de amor.

Há, porém, uma tragédia envolvendo a história. E Scola já antecipa isso logo no começo, quando Oreste conta à polícia como se deu a cena do crime que vitimou Adelaide. Logo, já sabemos de antemão que ela morrerá. Porém, como há várias cenas de humor, a classificação de tragicomédia não seria de todo errada, embora eu veja o filme com certa amargura, mesmo os personagens agindo de maneira exagerada na manifestação de suas paixões: amor, raiva, ciúme etc. A cena de Oreste ligando para Adelaide e ela o rejeitando é de partir o coração.

A crise no relacionamento de Oreste e Adelaide se dá quando ela começa a ter um caso às escondidas com Nello (Giancarlo Gianinni), um pizzaiolo que calha de ser também parceiro de Oreste nas passeatas do Partido Comunista Italiano. Ambos são militantes de esquerda e o próprio diretor parece ser também um entusiasta do comunismo, que na época ainda parecia ser um sistema político viável, com direito a valorização de Mao e da bandeira da União Soviética. Para quem vive de maneira pobre, faz todo o sentido reclamar do sistema vigente, em busca de melhores condições de vida.

No campo narrativo, um dos destaques de CIÚME À ITALIANA é a forma como é contada a história, a partir de depoimentos de pessoas envolvidas com o autor do crime ou com a vítima. Assim, vemos tanto Oreste, quanto Nello, ou outros personagens secundários, dando sua contribuição na construção da história para a polícia e para o espectador, com direito a quebra da quarta parede e junções criativas desse tipo de recurso com a história principal.

CIÚME À ITALIANA foi a primeira parceria de Scola com Mastroianni. A amizade dos dois no cinema se estenderia por mais sete filmes, sendo que pelo menos dois deles estão entre as melhores obras do cinema italiano moderno: ROCCO PAPALEO (1971), NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO (1974, no papel dele mesmo), UM DIA MUITO ESPECIAL (1977), CASANOVA E A REVOLUÇÃO (1982), MACCHERONI (1985), SPLENDOR (1989) e CHE ORA È? (1989).

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

TIRANDO O ATRASO (Dirty Grandpa)



"Vou ali ver o filme ruim do De Niro." Foi mais ou menos essa a mensagem que eu deixei a um grupo de amigos no WhatsApp. Ir ao cinema com as expectativas muito baixas, especialmente quando o filme já chega massacrado pela crítica, é uma boa maneira de ver o quanto a tal produção é capaz de ganhá-lo, especialmente em se tratando de uma comédia, gênero tão difícil de fazer.

É bem o caso de TIRANDO O ATRASO (2016), que marca mais uma participação de Robert De Niro no gênero, desde que ele viu o quanto podia ser engraçado, na virada dos anos 1990 para os 2000, com MÁFIA NO DIVÃ e ENTRANDO NUMA FRIA. De lá pra cá, até fazer brincadeira com seu personagem de TOURO INDOMÁVEL ele fez, em AJUSTE DE CONTAS, enfrentando no ringue um boxeador vivido por Sylvester Stallone.

Há quem diga que De Niro está vivendo um momento de decadência. Mas por que não acreditar que ele, em seus 73 anos bem vividos, não está aproveitando um momento de descoberta pessoal que só confirma o quanto é um ator completo? Sim, TIRANDO O ATRASO é uma comédia vulgar. Mas quem é que vai ao cinema ver este filme esperando encontrar uma comédia sofisticada? As piadas consideradas por muitos como de mau gosto também podem ser vistas como piadas corajosas para os dias de hoje, especialmente uma em especial, que envolve Zac Efron pelado numa praia e um garotinho querendo pegar em sua abelha. E o que dizer nas pegadinhas do avô no neto certinho, especialmente uma que acontece na cama?

Há poucas comédias que conseguem tirar gargalhadas da plateia assim atualmente. E sabemos o quanto o gênero comédia é tido como menor e relegado a um público menos nobre desde os tempos do teatro clássico na Grécia e posteriormente na época de Shakespeare. Não foi diferente no cinema brasileiro, tanto na época das chanchadas da Atlântida, no tempo das pornochanchadas e mesmo agora, com as chamadas "globochanchadas", que até já estamos acostumados a xingar e muitas vezes nem nos damos ao trabalho de separar o joio do trigo.

Sim, há momentos especialmente constrangedores no filme. Mas não no sentido do mau gosto de mostrar um velho se masturbando ou coisas do tipo, mas quando TIRANDO O ATRASO tenta mostrar sua faceta sentimental. Essa virada é uma das mais complicadas de fazer em se tratando de comédia, especialmente quando o texto não é nenhum primor. E esse é o caso, infelizmente. Mas ao menos podemos ver a mensagem que o filme passa ao nos mostrar o quanto é marcante e decisiva a experiência do rapaz certinho e preocupado vivido por Efron quando está com o avô.

Na trama, Robert De Niro é Dick Welley, um senhor aposentado do exército que, depois da morte da esposa, quer que o neto Jason Kelly (Efron) o leve de carro até sua casa, na Flórida. O rapaz está com o casamento marcado e está prestes a se tornar sócio em uma empresa do pai de sua noiva e por isso vive sempre preocupado quando o velho Dick tenta mudar o caminho com o objetivo de transar com uma universitária. Que não por acaso tem uma amiga que já era conhecida de Jason, a bela fotógrafa vivida por Zoey Deutch.

No caminho, muitas presepadas e situações perturbadoras aguardam Jason, como ser preso, acordar pelado em uma praia, ficar totalmente chapado, levar porrada de uma gangue, entre outras situações tão divertidas para o espectador quanto incômodas para o personagem. E o curioso é que no comecinho o filme demora um pouco a engrenar, a ganhar o espectador no território da comédia, mas aos poucos tudo fica muito divertido e resta ao espectador relaxar, curtir os bons momentos e relevar os problemas.

sábado, fevereiro 06, 2016

MATE-ME POR FAVOR



Sempre muito agradável quando vemos que o cinema de gênero, especialmente do gênero horror, está começando a se estabelecer com mais força em nossa cinematografia. Se o Brasil é tão rico em folclore e superstições e também bebeu por tantos anos da fórmula de filmes de horror americanos, britânicos, italianos ou japoneses, não há por que não acreditar que ótimos exemplares surjam no Brasil também.

MATE-ME POR FAVOR (2015), de Anita Rocha da Silveira, é muito feliz em tratar o tema de um assassino serial aterrorizando a vida de jovens, especialmente meninas, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, lidando também com questões bem próximas da idade de suas personagens, como o desejo sexual latente, o beijo na boca, o bullying na escola, a rivalidade entre as meninas etc. Junte-se a isso a obsessão por coisas mórbidas ou nojentas, como o modo como as vítimas do assassino se encontram depois que seu corpo é encontrado e nessa fórmula até poemas de Augusto dos Anjos entram na brincadeira. É como se Anita Rocha da Silveira fosse o mais próximo que temos atualmente de David Cronenberg, ao lidar o tempo todo com feridas, hematomas, chupões, embora essa afirmação seja ainda um tanto cedo para se fazer.

Curiosamente, o elenco de adultos é inexistente. Bia, a personagem principal, mora com o irmão e a mãe que nunca aparece (viajou para algum lugar, aparentemente). Não vemos os pais, professores e até mesmo quando é comunicado o assassinato de um garoto, isso é ouvido pela caixa de som da escola. Mesmo a igreja evangélica, que é usada como tiração de sarro no enredo (com direito a trilha musical), tem como principal pregadora uma das jovens do elenco. O namorado de Bia é um jovem frequentador da igreja que tem receio de estar fazendo algo errado, ao transar com a namorada antes do casamento.

Enquanto isso, o desejo é mostrado como algo bastante próximo da violência. Os beijos são violentos e tórridos, com direito a uma cena de pegação entre duas meninas dentro de um banheiro e outra dentro da sala de aula. Vemos dois jovens se beijando como se estivessem sozinhos, entre quatro paredes. E como os adultos parecem inexistir, é como se tudo fosse permitido, ainda que tudo seja também muito perigoso, com essa onda de assassinatos à solta. Mas viver é divertido e a morte é fascinante, como Bia descobre ao encontrar, em seus últimos suspiros, uma jovem deixada para morrer pelo assassino.

Há muito funk carioca, como Claudinho & Buchecha, além de clássicos internacionais dos anos 80/90 e o misto de brincadeira com seriedade pode confundir e fazer com que muitos vejam o filme como um projeto equivocado. Mas como não ficar impressionado com a sequência final, que problematiza e torna a questão dos assassinatos uma indagação reflexiva? Isso faz com que o que poderia ser um mero whodunit ganhe ares de autocrítica. E se as coisas ainda não ficam muito claras, pouco importa. O mistério não é algo tão ou mais fascinante quanto o descobrimento?

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

O REGRESSO (The Revenant)



Um dos possíveis significados de "revenant", do título original americano, é "pessoa que retorna como um espírito, depois da morte". E esse sentido se perde um pouco na tradução brasileira do novo filme de Alejandro G. Iñárritu, O REGRESSO (2015). O significado tem tudo a ver com o que ocorre com o herói vivido por Leonardo DiCaprio em sua jornada em busca de vingança. Em certo ponto do filme, ele até diz que já morreu. E a gente acredita. Assim como acreditamos na impressionante sequência envolvendo um urso cinza, que o ataca e o deixa às portas da morte. O ataque do urso, algumas vezes, tem a característica de um estupro, inclusive.

Neste momento, e antes disso também, a câmera dita as regras com sua dança admirável em torno dos personagens, do ambiente e da ação. A escalação do diretor de fotografia também mexicano Emmanuel Lubezki foi um acerto e tanto. Se em BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (2014), o uso do plano sequência (algumas vezes falso) é admirável, os momentos de glória de seu trabalho em conjunto com Iñárritu se ampliam numa sequência que remete às cenas das trincheiras de GLÓRIA FEITA DE SANGUE, de Stanley Kubrick, ao deixar o espectador no meio da ação, quando a equipe de homens caçadores de animais para o comércio de peles é atacada por índios.

Embora a versão dos brancos da história seja a mais explorada, O REGRESSO também dá voz aos índios, que atravessam um momento triste de sua história, ao serem enganados, roubados, mortos, estuprados, raptados pelos brancos, sejam os americanos, sejam os franceses. Muito disso acontece por dois motivos: o fato de o filho de Hugh Glass (DiCaprio) ser mestiço, filho de uma índia, e também por vermos a tentativa de um grupo de índios de reaver uma índia capturada por brancos, em uma inversão de uma ação que remete a RASTROS DE ÓDIO, de John Ford.

Sexto longa-metragem de Iñárritu, O REGRESSO é um deslumbre em sua parte técnica, algumas vezes oferecendo momentos de contemplação, que funcionam como um respiro à ação, que tanto fere e nos deixa tensos, para mostrar a beleza daquele território, da natureza, e o quanto o homem é pequeno, embora também tenha características de monstro e ao mesmo tempo de herói ao adentrá-la e invadi-la com tanta audácia. Boa parte do mérito do filme está em ser construído em torno da condição de Glass de quase morto e do pouco tempo que tem para chorar pelo filho, quando precisa sobreviver àquilo tudo para vingar a sua morte. E a jornada é dolorosa e incrível.

Leonardo DiCaprio, depois de tantos filmes aparecendo como rapaz bonito e conquistador (talvez a exceção maior até então tenha sido em J.EDGAR, de Clint Eastwood), aqui aparece ferido, sujo, ensanguentado e barbudo, o que pode contribuir finalmente para sua premiação na noite do Oscar. E embora saibamos que o filme não é nenhuma unanimidade entre os críticos, sabemos que O REGRESSO é muito mais do que um filme feito para enaltecer a boa atuação de DiCaprio, assim como também de Tom Hardy, que interpreta o seu inimigo, o colega traidor e racista John Fitzgerald. Isso porque há todo um tratamento técnico e visual que torna o filme especial.

O que talvez falte a O REGRESSO seja uma maior capacidade de tocar o espectador com o drama de Glass, justamente por se ater tanto a preciosismos técnicos. Todo o drama de perder o filho ou de se comunicar com o espírito da esposa são vistos com certo distanciamento, ainda que com admiração. O que mais impacta é mesmo a construção de uma estética que privilegia a carne exposta e ferida de homens e animais, e do quanto tudo isso é mostrado com visceralidade, literalmente falando, inclusive.

Há uma série de coisas que contribuem para uma valorização maior do filme, como saber que Lubezki filmou todas as cenas com luz natural para atingir o máximo de realismo; as locações foram mesmo em locais bastante frios, como Canadá, norte dos Estados Unidos e sul da Argentina; a cena de DiCaprio comendo o fígado cru de um bisão foi de verdade, mesmo o ator sendo vegetariano; há detalhes sobre a verdadeira história de Glass que são ainda mais impressionantes do que o que é mostrado no filme.

Em premiações, as circunstâncias incomuns das filmagens podem ser atenuantes, como os doze anos de filmagem de BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, para citar um caso do ano passado, mas no geral a crítica se atém ao que está na tela, à força das imagens e a sua capacidade de elevar o espectador, mexer com ele emocional ou mentalmente. Pode-se dizer que em O REGRESSO esse resultado nem sempre é satisfatório, pelo fato de o incômodo superar o prazer estético. Mas Iñárritu sempre foi mesmo um cineasta mais disposto a incomodar mesmo.

O REGRESSO foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, direção, ator (Leonardo DiCaprio), ator coadjuvante (Tom Hardy), fotografia, edição, figurino, maquiagem e cabelos, mixagem de som, edição de som, efeitos visuais e desenho de produção.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

MOZART IN THE JUNGLE - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Mozart in the Jungle - The Complete Second Season)



A segunda temporada de MOZART IN THE JUNGLE (2015) foca mais no personagem do maestro Rodrigo DeSouza, vivido por Gael García Bernal, do que em Hailey, vivida por Lola Kirke. Mas se por um lado isso é motivo para se reclamar, já que quanto mais Lola em cena melhor, Rodrigo se torna um personagem cada vez mais cativante. Se na primeira temporada ele era apenas um maestro um tanto biruta e excêntrico, nesta segunda ele ganha em profundidade. O fato de sabermos um pouco mais sobre o seu passado, como o histórico envolvendo sua ex-mulher louca, e até visitarmos sua terra natal, na Cidade do México, contribui bastante para isso. Podemos dizer, então, que Gael assumiu o protagonismo de vez na série, ainda que seja o último nome a aparecer nos créditos.

Algo que poderíamos reclamar da série é que tudo acontece muito rápido e há personagens demais que são pouco desenvolvidos, como os vários músicos da orquestra ou os amigos de Hailey. Mas, por outro lado, não sentimos tanta necessidade assim de ter esse aprofundamento maior, já que se trata de uma série de menos de meia hora de duração e apenas dez episódios por temporada. Então, esse gostinho de quero-mais é até um ponto positivo, ter aquela sensação de leve tristeza sempre que acaba o episódio.

Os episódios-destaque da segunda temporada são os dois em que a orquestra viaja para o México. Há o caso do violinista que teve seu material de trabalho roubado e recebe uma ajuda do irmão de Rodrigo para solucionar o problema dentro do submundo, mas o que mais importa mesmo e que enternece os corações é o passeio de Rodrigo com Hailey pelo interior do México. Dá uma vontade de conhecer o país, e a gente sente um especial carinho por aquela gente simples. A visita dos dois à avó de Rodrigo é um momento-chave, com aquela história envolvendo a borra de café.

Depois desses episódios, há uma subtrama envolvendo a greve dos músicos e entra em cena a personagem de Gretchen Moll, uma advogada sexy que acaba seduzindo Cynthia, a violoncelista vivida por Saffron Burrows. Até certo momento, as poucas cenas que vemos das duas são animadoras. Cynthia é outra personagem que cresce nesta segunda temporada, pois tem uma relação com vários personagens, e desde o primeiro episódio ela se mostra muito simpática com Hailey, dando apoio e mostrando a faceta gentil do mundo dos músicos eruditos, ao contrário de Elizabeth (Hannah Dunne), a oboísta veterana que vê seu trabalho ameaçado com a chegada de Hailey.

A transição de Hailey, de assistente de Rodrigo, para membro substituto da orquestra deixa a personagem um pouco dispersa no meio da trama, e a gente sabe o quanto ela faz falta. Mas felizmente há toda uma gama de personagens interessantes que suprem essa falta e não deixam a série cair em momento algum. Malcolm McDowell como o velho maestro Thomas Pembridge se torna mais interessante ainda, ao tentar ser um compositor.

No mais, só reclamaria do episódio final, que poderia ser melhor, mas há um sentimento agridoce envolvendo uma decisão de Rodrigo e outra um tanto confusa de Hailey que ajuda a torná-lo igualmente especial. Enfim, MOZART IN THE JUNGLE é dessas séries para se guardar no coração. E uma pena que teremos que esperar até o final do ano ou início do próximo para a terceira temporada. Se bem que eu nem sei se a Amazon confirmou. Tomara que sim, ainda mais agora que a série ganhou o Globo de Ouro e alcançou maior visibilidade. Seria um pecado abandonar esses personagens.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

DIVERTIDA MENTE (Inside Out)



Já estava cogitando escrever sobre DIVERTIDA MENTE (2015), que vi no ano passado nos cinemas, somente em uma postagem junto com outras animações que também vi e demorei demais a escrever a respeito. Na verdade, já faz algum tempo que animações não me animam. Mas não deixo passar as produções da Pixar, por serem exemplos do que há de melhor na indústria de animações nos Estados Unidos. E DIVERTIDA MENTE é, definitivamente, um dos trabalhos mais marcantes da companhia.

O filme da dupla Pete Docter e Ronnie Del Carmen é mais um passo a frente no processo de sofisticação e amadurecimento dos filmes da Pixar. Por ser um pouco mais complexo, não chega a ter tanto apelo com as crianças menores, como é o caso do mais recente, O BOM DINOSSAURO (2015), que dialoga melhor com os pequenos. DIVERTIDA MENTE, por sua vez, parece uma evolução natural da companhia desde TOY STORY (1995), que também envelheceu bem com o seu público quando chegou a TOY STORY 3 (2010).

DIVERTIDA MENTE, apesar de ser bastante engenhoso e inteligente, também é um filme que se permite o delírio, o perder-se dentro de um universo, que é a mente de um ser humano, no caso, de uma garotinha na pré-adolescência. A premissa é por si só bastante divertida: mostra sentimentos personificados trabalhando numa espécie de espaço que mais parece uma nave espacial de filmes como STAR TREK. Quem mantém tudo em ordem e lidera o grupo é a Alegria, o que tem sua razão de ser. Afinal, deixar o controle para as personificações da Tristeza ou da Raiva não seria uma boa ideia para a saúde mental da garota.

O filme trabalha também com a questão das memórias, e do quanto elas são importantes para a constituição da personalidade. Algumas delas precisam permanecer para que a pessoa se torne de bem com a vida; outras, negativas, porém, podem ficar marcadas e deixar alguns traumas, e por isso é preciso que a maior parte dessas memórias seja enviada para uma espécie de arquivo morto.

A ideia de personificar emoções veio de Peter Docter, diretor também de MONSTROS S.A. (2001) e UP – ALTAS AVENTURAS (2009). Ele, na época, estava muito interessado em compreender o que se passava com sua filha, que era antes uma menina feliz e tranquila mas que de uma hora para a outra passou a ficar mais introspectiva. O que teria ocasionado isso? A partir desse brainstorming inicial foi-se criando as ideias para a trama de DIVERTIDA MENTE.

Não sei se por ter encontrado pessoalmente Fernanda Takai na época em que vi o filme, mas achei a personagem Alegria muito parecida com ela, tanto no jeito de se comportar, como em passar, mesmo que com muito esforço, uma visão otimista da vida. Curiosamente, a filha de Takai também achou a personagem parecida com a cantora, conforme ela disse. Na versão original, Amy Poehler é quem dubla Alegria, mas na versão brasileira Miá Mello faz o trabalho muito bem, passando a simpatia e também o jeito relativamente mandão da personagem.

Os outros personagens da mente da pequena Riley são Tristeza, Nojo e Raiva. Talvez sejam poucos para uma mente humana, mas complicar ainda mais isso tornaria o filme bem pouco palatável até mesmo para plateias adultas. Além do mais, é interessante que Alegria e Tristeza estejam juntas numa missão e que a personagem de Tristeza ganhe mais destaque e força, até por ser também importante para a formação humana. Afinal, existe alguém que vive o tempo todo alegre?

Além do mais, na trajetória de busca de um arquivo essencial para o restabelecimento da saúde mental de Riley, e no modo como Tristeza e Alegria se perdem num universo mais parecido com um labirinto gigante, elas encontram um personagem que responderia por um dos momentos mais tocantes do filme, o do Elefante rosa, o amigo imaginário dos tempos de infância de Riley, e que vive agora sozinho e esquecido.

E é assim que a Pixar chegou a um filme que abraça o caos, o delírio, e uma gama de sentimentos que tornam DIVERTIDA MENTE uma das mais importantes e criativas obras da história da animação americana.

DIVERTIDA MENTE concorre ao Oscar nas categorias de melhor roteiro original e melhor animação.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

45 ANOS (45 Years)



Com um histórico admirável de serviços prestados ao cinema, desde a década de 1960, Charlotte Rampling trabalhou com cineastas tão importantes quanto diversos, como Luchino Visconti (OS DEUSES MALDITOS, 1969), Giuliano Montaldo (GIORDANO BRUNO, 1973), John Borman (ZARDOZ, 1974), Liliana Cavani (O PORTEIRO DA NOITE (1974), Arturo Ripenstein (FOXTROT, 1976), Woody Allen (MEMÓRIAS, 1980), Sidney Lumet (O VEREDITO, 1982), Nagisa Oshima (MAX, MEU AMOR, 1986), Alan Parker (CORAÇÃO SATÂNICO, 1987), François Ozon (SOB A AREIA, 2000; SWIMMING POOL - À BEIRA DA PISCINA, 2003; ANGEL, 2007; JOVEM E BELA, 2013), Dominik Moll (LEMMING - INSTINTO ANIMAL, 2005), Julio Meden (CAÓTICA ANA, 2007) e Lars von Trier (MELANCOLIA, 2011), e mais uma vez ela demonstra sua força cênica em um filme extremamente intimista, com poucas sequências em que ela não contracena com o personagem de seu marido, vivido pelo também inglês Tom Courtenay.

45 ANOS (2015), de Andrew Haigh, jovem cineasta geralmente associado a filmes gays independentes e inclusive a uma série de televisão com essa temática (LOOKING, 2014-2015), traz um recorte sobre um momento delicado na vida de um casal de idosos que está preparando sua festa de 45 anos de casamento quando o marido (Courteney) recebe a notícia de que o corpo perdido em uma montanha gelada de sua ex-namorada da juventude foi encontrado. Isso desestabiliza a rotina tranquila do casal, com o marido preocupado em ir para a Suíça reconhecer o corpo e a mulher percebendo mais uma vez o quanto se sente incomodada com o ciúme que ainda nutre por essa mulher morta, mas que representa para o marido o modelo de amor perfeito, aquela com quem ele teria provavelmente se casado, caso não ocorresse esse acidente.

Trata-se de um filme sobre os danos que segredos são capazes de causar. Quando se sabe que o tempo de casamento é de 45 anos, esse tipo de coisa ganha ainda mais peso. 45 ANOS se passa no intervalo de uma semana, momento crucial de revelações, incômodo, silêncios, tentativa de diálogo, busca pelo passado, além de expor as fragilidades dos corpos e dos atos de seus protagonistas. Courtenay, principalmente, se mostra bastante frágil e abatido, embora a inquietação gerada pela notícia que cai como uma bomba na vida do casal seja um motor para que ele saia da inércia. Se é que pode-se chamar assim a então tranquilidade de viver em uma pequena cidade do interior da Inglaterra com uma esposa devotada.

Talvez o que mais incomode Kate, a personagem de Rampling, seja o fato de que desde o momento em que Geoff, o marido, conta a fatídica notícia, ele diz: "Eles encontraram Katya... Minha Katya." Ele até tenta fazer uma pequena piada, dizendo que ela deve estar como estava quando jovem, em 1962, quando o acidente ocorreu e seu corpo ficou congelado na neve. Kate, porém, deixa o sorriso se desmanchando em seu rosto. Quando Kate chega a dizer que a falecida mulher esteve o tempo todo no canto do quarto, escondida dela, chegamos ao ponto em que a crise dos dois atinge um de seus clímaxes. Até o momento da festa ainda teremos um bocado de situações tensas e conflitantes misturadas a tentativas de restabelecer a paz.

De certa forma estamos diante de um filme de fantasma. Não como nos filmes de horror, claro, mas toda a inquietude que o filme perpassa chega até mesmo a pesar em nossos ombros, como se fôssemos contaminados por aquela situação tão estressante e perturbadora. E tudo isso é fechado com um final próximo da perfeição. Não é sempre que temos a chance de ver uma obra assim tão cheia de nuances e tão devedora do texto e da excelência de seu casal de protagonistas.

45 ANOS concorre ao Oscar na categoria de melhor atriz para Charlotte Rampling.