quinta-feira, abril 30, 2015

O ANIMAL SONHADO



Quando se pensa em filmes brasileiros em segmentos, que lidam com o sexo, geralmente se lembra daqueles belos e tesudos exemplares produzidos na época da Boca do Lixo. Mas os tempos são outros e sabemos que aqueles filmes eram feitos com uma boa dose de apelação mesmo. Afinal, eles precisavam ser pagos. Não já nasciam pagos por incentivos do Governo. Hoje os tempos são outros e não existe mais uma indústria do cinema brasileiro, por assim dizer.

Nesse sentido, a busca de falar sobre ou mostrar sexo nos filmes não passa mais necessariamente por uma intenção de tornar tais cenas excitantes do ponto de vista erótico. Pode-se dizer que é o caso de O ANIMAL SONHADO (2015), um bem-vindo projeto coletivo produzido em Fortaleza e dirigido a seis mãos por Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima e Victor Costa Lopes.

Embora fique bem clara a divisão entre cada segmento e o corte entre eles seja suave (o corte do primeiro para o segundo dá a entender uma falsa continuidade, inclusive), a equipe optou por não nomear os diretores de cada episódio. Assumiu-se o projeto como coletivo. E por mais que os episódios sejam distintos, há algo que os liga que vai além da temática “sexualidade”. E esse é um dos pontos que depõem a favor do filme, que cresce à medida que pensamos nele.

Daí a discussão com os realizadores após a sessão ser muito recompensadora, pois ajuda a iluminar alguns pontos que ficaram um pouco turvos. Na plateia do Cinema do Dragão, palco da primeira exibição do filme em Fortaleza, havia muita gente que contribuiu com o projeto e que apontava vez ou outra algo ou alguém presente. Isso, junto com a simpatia dos realizadores, tornou a conversa informal e agradável.

As seis histórias de O ANIMAL SONHADO são narradas num crescendo de sonhos, desejos, alegrias, frustrações e fantasias para terminar em algo bastante próximo do cinema de horror, cujos elementos vão paulatinamente sendo absorvidos ao longo do filme, auxiliados por um excelente tratamento sonoro, que faz a diferença em uma obra que não opta por ter muitos diálogos. Durante o debate, os realizadores afirmaram que a montagem ficou exatamente na ordem em que filmaram, embora essa não fosse exatamente a intenção inicial. Isso indica que o crescendo de tensão mostrado no filme foi reflexo também de um sentimento do coletivo.

Nas tramas, há uma história que mostra a tensão sexual entre dois rapazes, uma aventura de dois rapazes para conquistar duas moças em uma festa, a história de uma jovem em uma academia de musculação, o desejo sexual de um pai por sua filha adolescente, um descontraído encontro de amigos numa casa de praia, e uma mulher que se vê desejada por uma cidade.

O primeiro (mais realista) e o último (mais onírico) são justamente os que mais lidam com tensões eróticas de maneira mais excitante, ainda que se perceba uma maior preocupação nos aspectos visuais do que em excitar a plateia com as cenas. Em geral, os corpos são muito bonitos de ver, especialmente quando nus, mas há uma opção por tratar essa sexualidade de maneira mais incômoda e menos erótica, ainda que sem nenhuma amarra moralista ou religiosa. O que é bom. Dos seis segmentos, tenho um especial apreço pelo quinto, que parece ter ganhado uma aura mágica maior que os demais.

quarta-feira, abril 29, 2015

(O VENTO LÁ FORA)



Com a morte do ator, apresentador e diretor de teatro Antônio Abujamra ontem, dia 28, tive a oportunidade de ver no youtube um vídeo em que ele declama um dos poemas mais famosos (e também mais longos) de Fernando Pessoa, "Tabacaria". É o que começa com "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Ele o declama inteiramente. Um grande homem declamando com emoção uma obra-prima do maior poeta da língua portuguesa.

E com isso acabei lembrando que ainda não escrevi sobre o delicioso documentário (O VENTO LÁ FORA) (2014), de Marcio Debellian, visto no início do ano em sessão única, numa dessas mostras que o Cinema do Dragão tem feito para alegrar a nossa vida e alimentar o nosso espírito. O filme pode até não ser grande cinema, mas ver grande poesia sendo recitada com respeito e emoção na telona e em um local cheio de pessoas ávidas por esse alimento espiritual torna tudo ainda maior. Ajuda termos duas ótimas intérpretes: a Professora Cleonice Berardinelli, especialista em Literatura Portuguesa, e uma de nossas grandes cantoras, Maria Bethania, aqui com um senso de humor muito bem-vindo.

Entrei em contato com Fernando Pessoa um pouco tarde, já no primeiro semestre da faculdade. E nessa época comprei no sebo uma daquelas edições de capa vermelha da obra poética completa, em papel bíblia. Até hoje guardo-a com carinho e de vez em quando pego para recitar em voz alta alguns poemas. A descoberta de Pessoa foi bem impactante. Difícil não ficar encantado. Além do mais, acho bom saber que ainda falta muito para compreendê-lo mais. Gosto dessa coisa mística de não entender com a mente, mas de se sentir tocado emocionalmente, mesmo assim.

(O VENTO LÁ FORA) é só isso. E é tudo isso. Duas grandes mulheres recitando por dois dias – um dia com plateia – alguns dos poemas mais famosos daquele que doou a própria vida à poesia. Assim, ouvimos com alegria o poema sobre as cartas de amor serem ridículas, um trecho de Mensagem (de "Mar Portuguez"), "Poema em linha reta" ("Nunca conheci quem tivesse levado porrada.."), entre outros.

Há algo de didático no filme em algum momento, quando são apresentados os heterônimos mais famosos de Pessoa, o que ajuda não apenas a apresentar um pouco do poeta aos iniciantes, como também não deixa de ser gostoso de ver, mesmo para quem já conhece essas personas do poeta português. Funciona como uma deliciosa aula.

E por mais que Bethania seja uma estrela de primeira grandeza que já declarou seu amor a Fernando Pessoa em shows e em registro fonográfico, é Cleonice que, aos 98 anos, emana paixão e aparece com os olhos marejados a cada vez que recita ou vê a si mesma recitando os poemas do mestre. É tocante ver a sabedoria e o encantamento naqueles olhos que viram tanto, e que deve se sentir no mínimo muito grata à vida por ter entrado em contato com a poesia de Pessoa. Uma coisa apenas podemos reclamar de (O VENTO LÁ FORA): é muito curto. Tem pouco mais de 60 minutos de duração.

segunda-feira, abril 27, 2015

MAIS CINCO CURTAS



Mais uma série de curtas-metragens para descarregar um pouco a minha listagem de filmes a comentar. Dessa vez, há até filme mudo da primeira década de existência do cinema. Além, claro, dos tradicionais filmes brasileiros contemporâneos, reveladores de novos talentos e que passeiam por festivais, mas que só alguns poucos têm a sorte de vê-los.

CELIA

Faz parte de uma série de curtas-metragens para o canal exclusivo do youtube Wigs que apresenta recortes da vida de algumas mulheres. Fiquei interessado em CELIA (2012) por causa da direção de Rodrigo García e vi este pequeno filme no ano passado e revi agora para escrever um pouco a respeito. Trata do dilema de uma médica ao lidar com a filha de uma amiga pedindo que ela lhe faça um aborto. A garota é Dakota Fanning, a médica é Allison Janey. Embora não seja tão especial, a boa mão de García para tratar de assuntos da intimidade faz a diferença. Seu trabalho com a série EM TERAPIA (2008-2011) foi louvável, assim como outros filmes dele que acabam ficando injustamente esquecidos, como DESTINOS CRUZADOS (2009), QUESTÃO DE VIDA (2005), COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA (2000) e CONFISSÕES AMOROSAS (2002). Nos últimos anos ele vem se dedicando a trabalhos menores, intimistas e protagonizados por mulheres, como as séries CHRISTINE (2012) e BLUE (2012-2014).

LE DIABLE NOIR

Surgiu uma oportunidade de eu dar aulas sobre cinema numa disciplina de projetos da escola, e por mais que a turma dê muito trabalho, venho tentando tornar o fardo menos difícil. Assim acabei vendo um desses trabalhos de Georges Méliès, o grande pai do cinema de ficção fantástico. LE DIABLE NOIR (1905) é apenas divertido, embora seja um grande documento histórico de uma época em que o cinema estava engatinhando, mas que já tinha uma figura tão notável e disposta a fazer as mais diversas experimentações que contribuíram bastante para a evolução da sétima arte. Na trama, o diabo aparece no quarto de um homem apenas para perturbar o seu juízo, fazendo desaparecer e aparecer coisas. Méliès adorava brincar com isso.

GERU

Atualmente há uma série de curtas que trafegam pela vida de determinada pessoa ou comunidade e se estrutura como algo parecido com um filme de ficção. Daí que as fronteiras entre ficção e documentário estão cada vez mais borradas, o que eu vejo como algo positivo. GERU (2014) faz parte dessa leva e nos apresenta a Zé Dias, um senhor que perdeu a habilidade de falar depois que lhes arrancaram suas cordas vocais. Provavelmente por causa de um câncer na garganta. O filme tem uma luz muito bonita e valoriza o prazer de viver, apesar das circunstâncias do personagem. Imagens de O CANTOR DE JAZZ e o som de uma sequência-chave de O SÉTIMO SELO, de Bergman, ajudam a compor a poesia desse filme dos diretores Fábio Baldo e Tico Dias.

ATÉ O CÉU LEVA MAIS OU MENOS 15 MINUTOS

Visto em um dos vários festivais que o Cinema do Dragão promoveu no ano passado, ATÉ O CÉU LEVA MAIS OU MENOS 15 MINUTOS (2013) é um trabalho que talvez deva muito ao acaso, mas que se não fosse pela ideia ótima da diretora Camila Battistetti não teríamos o prazer de testemunhar esse divertido curta que também mistura ficção com documentário. Vemos duas mães levando três crianças em um carro. A câmera registra principalmente as crianças, muito pequenas ainda, e difíceis de domar e se acalmar, no banco traseiro de um carro. No meio do trânsito, essas crianças brigam, esbravejam, dormem. E ao final uma paz impera em nosso coração, por mais que em algum momento choro de criança no ouvido não seja algo que você curta tanto assim.

LOJA DE RÉPTEIS

Quando alguém fala que atualmente o melhor cinema do Brasil é produzido em Pernambuco eu costumo achar que é exagero, mesmo admirando várias produções vindas de lá. Mas ao ver um filme como LOJA DE RÉPTEIS (2014, foto), de Pedro Severien, eu começo a acreditar que essa afirmativa possa mesmo ser verdadeira. E nem é porque eu sou admirador do gênero horror, mas é de como o diretor consegue passar beleza e terror nas imagens, fotografadas em belíssimo scope. Na trama, Maeve Jinkings (sempre bem-vinda) e Fransérgio Araújo são um casal que mora em uma loja de répteis, mas por algum motivo surge a ideia de se mudarem. O marido não quer se desfazer de sua tão querida loja, mas a esposa sofre um acidente com o jacaré da casa. Outros acontecimentos, não necessariamente tão bem ligados (há uma impressão de grandes elipses entre uma cena e outra), surgem e elevam o filme a um patamar bastante elevado. Destaque para os travellings dentro da casa. De uma elegância e beleza admiráveis. A se ficar de olho nos próximos trabalhos de Severien.

domingo, abril 26, 2015

14 ESTAÇÕES DE MARIA (Kreuzweg)



A ideia por si só já é bastante interessante: narrar um filme em 14 planos fixos em que somos apresentados a uma garota de nome Maria (Lea van Acken) que tem como principal objetivo de vida alcançar a santidade. Cada plano é um capítulo e é apresentado em paralelo com os 14 momentos da via crúcis de Jesus. Por exemplo, o primeiro capítulo se chama "Jesus é condenado à morte"; o segundo, "Jesus carrega a cruz às costas"; o terceiro, "Jesus cai pela primeira vez" etc.

No primeiro plano-sequência, vemos um jovem padre ensinando a um grupo de jovens que se preparam para a crisma sobre o quanto devemos sacrificar nossas vidas em prol de Jesus. A ideia é pensar em alguma coisa de que gostamos muito e renunciar ao prazer dessa coisa, podendo ser algo simples, como comer chocolate, por exemplo. É difícil não ficar até um tanto irritado com esse discurso, mas ao mesmo tempo o filme tenta mostrar isso de forma aparentemente isenta de julgamentos, muitas vezes remetendo ao cinema de Robert Bresson e de seu maior seguidor contemporâneo, Bruno Dumont.

O terceiro capítulo, intitulado "Jesus cai pela primeira vez", mostra a primeira vez em que Maria sente atração por um rapaz da escola, que insiste em convidá-la para sair, ou pelo menos ir até a igreja dele, para assisti-lo em um coral que canta canções gospel, corais de Bach e também um pouco de soul. Esse tipo de música (gospel e soul), para a família de Maria, especialmente para sua mãe, é considerada satânica, e só contribui para desviar os incautos do caminho de Deus. Maria também concorda com isso, mas a vontade que ela tem de encontrar aquele rapaz é forte.

O fato de a câmera não sair do lugar – a não ser em algum ou outro momento muito especial – torna o filme ainda mais intrigante. Seus enquadramentos, apesar de despojados, são belíssimos, tanto nas cenas exteriores, quanto nas interiores, que são maioria.

Infelizmente acabei vendo numa sala com uma projeção não muito boa, mas o filme é tão bom que mereceu mesmo um tratamento de tela grande, embora necessite de algumas revisões em casa, até para sabermos se o diretor alemão Dietrich Brüggemann tem um posicionamento em cima do muro, dando ao espectador a sua própria interpretação, ou se há de fato de uma crítica à Igreja Católica, embora o filme não pareça negar algo como o olhar de Deus ou algo parecido.

Há um clima de tensão no ar em cada uma das 14 cenas. Na já citada primeira cena, por exemplo, em que o padre discursa com jovens sobre a necessidade de estar do lado de Deus e contra as forças de Satanás na batalha. Nisso, ele faz até mesmo uma crítica às ações do Vaticano. Já a partir desse instante e vendo em seguida os posicionamentos de Maria, certamente os espectadores em grande maioria a veem como uma fanática religiosa.

Nos planos-sequência finais, alguém poderia citar alguma semelhança do filme com A PALAVRA, de Carl T. Dreyer, ao vê-lo como um exemplo de estudo sobre a fé, mas há muitas camadas e detalhes que tornam o trabalho mais próximo de um DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, de Bresson, ou de O PECADO DE HADEWIJCH, de Dumont. Mas o importante mesmo é o quanto a obra de Brüggemann inquieta o nosso espírito e nos faz sair da sessão no mínimo transtornados.

sábado, abril 25, 2015

VINGADORES – ERA DE ULTRON (Avengers – Age of Ultron)



Mesmo que não seja ainda uma adaptação dos sonhos de alguém que acompanha as aventuras dos Vingadores desde criança, VINGADORES – ERA DE ULTRON (2015) é uma obra admirável já a partir de sua incrível sequência inicial em que somos colocados em uma montanha-russa de ação envolvendo a mesma equipe formada em OS VINGADORES - THE AVENGERS (2012): Capitão América, Thor, Hulk, Homem de Ferro, Viúva Negra e Gavião Arqueiro. Nesse momento, Joss Whedon consegue emular os quadrinhos com magnitude, como se estivéssemos vendo um grande painel desenhado. Com a diferença que aquilo ali está em movimento e em um formato muito maior, especialmente se visto em uma sala IMAX, valorizando especialmente o tamanho e a raiva do Hulk, que mais uma vez rouba a cena.

Aquilo que pode incomodar um pouco talvez seja o excesso de tempo na cena da batalha final entre os Vingadores e o grande vilão da história, a inteligência artificial Ultron (voz de James Spader), que nos quadrinhos é criada por Hank Pym (um personagem ainda a ser apresentado em HOMEM-FORMIGA). No cinema, a criação de Ultron é atribuída a Tony Stark (Robert Downey Jr.), que já tem fama de ser um homem um tanto inconsequente.

O tom do novo filme se assemelha um pouco ao do anterior, com a diferença que há espaço para um pouco mais de dramaticidade, o que ajuda a compensar as piadinhas, que na maioria das vezes não têm muita graça, até por elas ficarem espremidas em meio a cenas de ação de altíssima velocidade. Afinal, além de ter que dar dinamismo ao filme, estamos falando de uma obra que lida com vários heróis ao mesmo tempo e que é preciso dar espaço para todos. Além do mais, como se trata de um filme e não de uma série, há poucos respiros das cenas de ação, o que pode cansar um pouco, especialmente no final.

Duas cenas de respiro são dignas de nota e que funcionam tanto na comicidade quanto na dramaticidade: a cena da tentativa de os demais vingadores levantarem o martelo de Thor (Chris Hemsworth) e o momento em que somos apresentados à família de Clint Barton, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner).

A trama apresenta Ultron, um personagem criado em 1968 por Roy Thomas na revista Avengers #58, e que reapareceu para assombrar os heróis mais poderosos da Terra durante várias décadas. Recentemente, a Salvat lançou um encadernado contendo um arco de histórias de Kurt Busiek e George Pérez, que representa bem o personagem. Brian Michael Bendis, um dos homens mais criativos da fase anos 2000 da Marvel, utilizou o vilão por duas vezes: uma em que ele reaparece no corpo de Vespa, e outra em uma minissérie passada em uma realidade alternativa em que Ultron de fato consegue acabar com grande parte da humanidade e restam poucos super-heróis.

Isto é, quem acompanhou um pouco dessas histórias sabe da importância do vilão na cronologia do grupo e do quanto a questão da máquina se voltar contra o homem pode se tornar novamente uma discussão em pauta, embora saibamos que há vários outros filmes que lidam com o assunto de maneira muito mais eficiente e profunda, como 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick; O EXTERMINADOR DO FUTURO, de James Cameron; MATRIX, dos irmãos Wachowski; A.I. – INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, de Steven Spielberg; e ELA, de Spike Jonze.

No caso de VINGADORES – ERA DE ULTRON, não há uma pretensão de colocar essa discussão de forma mais aprofundada. O que importa mesmo é o quanto isso funciona dentro do formato aventura movimentada e barulhenta, no melhor sentido do termo.

Quanto aos novos heróis apresentados, os gêmeos Pietro e Wanda, que ainda não ganharam o codinome de Mercúrio e Feiticeira Escarlate, aparecem inicialmente como vilões, inclusive do lado de Ultron, para depois passar pro lado dos mocinhos. Wanda, interpretada pela bela Elizabeth Olsen, é um dos destaques do filme, tanto por seu poder, quanto pela expressividade da atriz e da dimensão trágica que a personagem carrega. Quem também rouba a cena é o Visão (Paul Bettany), uma inteligência artificial que surge para auxiliar os Vingadores. Infelizmente, o personagem de Mercúrio não é tão brilhante quanto a sua versão apresentada em X-MEN – DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO, de Bryan Singer.

No mais, há um relacionamento-surpresa entre dois membros do grupo, uma baixa surpresa, bons momentos em que os heróis lutam entre si, citações que fãs da Marvel vão gostar de ouvir, uma produção milionária de encher os olhos, um trabalho de casting novamente admirável, e várias deixas para VINGADORES – GUERRA INFINITA – PARTE 1, previsto para 2018, que deve levar nossos heróis para o espaço para enfrentar aquele que talvez seja o seu maior inimigo. Até lá, a expansão do Universo Marvel no cinema e na televisão terá atingido níveis ainda mais gigantescos.

quinta-feira, abril 23, 2015

CASA GRANDE



Depois de dois curtas e de um documentário que passou discretamente nos cinemas brasileiros chamado LAURA (2011), Fellipe Barbosa estreia em um longa-metragem de ficção que recebeu muitos elogios nos festivais por onde passou e continua recebendo agora que foi lançado comercialmente, ainda que em circuito limitado. A comparação com O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho, tem a sua razão de ser, já que CASA GRANDE (2014) é também um filme que propõe discussões sobre a diferença de classes e o atrito que existe entre empregados e patrões no Brasil contemporâneo. A própria alusão à obra literária de Gilberto Freyre já é explícita logo a partir do título.

A diferença maior entre CASA GRANDE e o filme pernambucano é que aqui a visão do patrão é um tanto mais suavizada. Vemos o filme mais pelos olhos dos ricos, que não estão mais tão ricos assim, na verdade. A família do filme, encabeçada pelo personagem de Marcello Novaes e sua esposa (Suzana Pires), se encontra em uma situação delicada, com o patriarca tentando manter as aparências, quando na verdade a crise chegou com força, a ponto de ele ter que demitir um empregado e fazer com que o filho (Thales Cavalcanti) passe a ir para a escola de ônibus.

E é pelos olhos do jovem Jean (Cavalcanti) em sua jornada de autodescoberta que acompanhamos a maior parte da narrativa. Sabemos logo de início que ele dá umas escapadas para o quarto da simpática empregada, a fim de dar-lhe uns amassos, ainda que sem tanto sucesso. Também é através de Jean que vemos sua rotina na prestigiada escola particular só para garotos, bem como a pressão que o pai lhe impõe para que escolha um curso universitário que dê dinheiro (Direito ou Economia, por exemplo), e quando ele encontra uma garota de outra escola, uma escola pública, uma menina que de alguma forma lhe encanta.

Há todo um cuidado estético de Barbosa na construção da trama e dos personagens e no quanto a emoção chega num crescendo inesperado, mas fruto de uma direção firme e de desempenhos notáveis até mesmo do elenco de apoio. Todo esse cuidado contribui para que CASA GRANDE seja percebido como uma das melhores produções brasileiras do cinema recente. Desses que merecem mais atenção por parte do público e quem sabe até da crítica estrangeira, como foi o caso de O SOM AO REDOR.

Mas todo esse cuidado na parte técnica (vale destacar também o ótimo trabalho de som) nada valeria se não fosse a sensibilidade do diretor em saber lidar com as emoções dos personagens, principalmente as de Jean, um garoto confuso e ainda sem opinião formada sobre alguns assuntos e que talvez não saiba ainda o que quer da vida, mas que começa a se conhecer a partir do confronto com o pai, alguém que ele não quer adotar como modelo.

As emoções, principalmente as que lidam com situações-limite ou situações que representam passagens ou finalizações, chegam a impactar o espectador. Depois das belas cenas finais, os créditos sobem e ficamos ainda parados olhando para a tela preta, com a certeza de que acabamos de ver algo especial, que nos fez ganhar o dia.

quarta-feira, abril 22, 2015

DEMOLIDOR – A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Daredevil – The Complete First Season)



E até que enfim a Marvel consegue chegar a um nível de verdadeira excelência em um de seus produtos audiovisuais. Sem querer reclamar dos bons e divertidos filmes, principalmente os mais sérios, como os dois protagonizados pelo Capitão América, o cinema traz muitas imposições para os filmes, a fim de atingir uma fatia maior de público, como os adolescentes, que, merecidamente, querem ver seus heróis dos quadrinhos na telona.

O que aconteceu com DEMOLIDOR (2015), a primeira de quatro séries que a Marvel lançará até o ano que vem (as outras são A.K.A. JESSICA JONES, LUKE CAGE e PUNHO DE FERRO, e em seguida os quatro heróis juntos em uma minissérie), foi quase um milagre. A série criada por Drew Goddard, diretor de O SEGREDO DA CABANA (2012), é um reflexo do que foi a fase de ouro do herói da Cozinha do Inferno nos quadrinhos, quando Frank Miller passou a assumir os roteiros. Toda a tragicidade que o personagem carrega foi acentuada por escritor e desenhista de maneira mais intensa e violenta em sua passagem pelo título do herói nos quadrinhos a partir do final da década de 1970.

E violência não falta nesta série produzida para a Netflix, com direito a mãos e cabeças decepadas, uma luta com um ninja de arrancar pedaços de carne, brigas corporais brutais etc. É como se toda aquela leveza e aquele humor incômodos dos filmes da Marvel recebessem uma resposta à altura por alguém que quer mudar o estado das coisas. E isso é motivo de celebração. Afinal, DEMOLIDOR não é apenas a melhor série de super-heróis já feita, mas a melhor série dramática do ano até o momento, pelo menos em comparação com as demais que acompanho.

A escalação de atores foi muito feliz. Charlie Cox convence muito bem como o advogado cego e vigilante do crime Matt Murdock, assim como é uma alegria ter Deborah Ann Woll (a adorável vampira Jessica, de TRUE BLOOD) no papel de Karen Page. Elden Henson faz um Foggy, o melhor amigo de Matt, muito bem e até a escolha de um ator negro para viver Ben Urich (Vondie Curtis-Hall) foi feliz. Enxergamos o repórter investigativo naquele ator. Mas de que adiantaria tanta gente boa se Vincent D’Onofrio não encarnasse um Wilson Fisk tão majestoso?

A série é também um manancial de informações e deixas para fãs do herói cego perceberem, como, por exemplo, a citação de uma certa moça grega que Matt conheceu na faculdade. Não que essas informações tornem a série exclusiva para os iniciados do herói nos quadrinhos. Não. Qualquer pessoa que não conhece nada a respeito do Demolidor pode muito bem se deliciar com uma trama narrada em episódios que vão num crescendo de qualidade, excitação e angústia. Justamente como tem que ser.

E o interessante é que não sentimos falta do uniforme vermelho, que talvez até estrague um pouco o clima mais realista que a série adota durante a primeira temporada, em que Matt Murdock usa apenas um pano preto amarrado ao rosto. Assim, ele fica conhecido como o misterioso homem mascarado da região e o principal inimigo de Wilson Fisk, o poderoso chefão que comprou a polícia, os jornais e quem mais ele puder.

Alguns episódios são particularmente especiais, como "Stick", quando a série introduz na narrativa a figura do homem cego que ensinou as artes marciais para Matt quando ele era uma criança e vivia em um orfanato. O episódio "Speak of the devil" traz uma das lutas mais viscerais de toda a série, com Matt lutando com uma espécie de ninja japonês armado com uma lâmina mortal que o deixa em pedaços. É o tipo de luta que não se costuma ver em filmes americanos. Como as séries de televisão estão mais abertas para a violência, esse tipo de coisa acabou passando e é muito bem-vindo.

Outro episódio marcante é "Nelson v. Murdock", que lida com a relação entre os dois amigos e parceiros na firma de advocacia. Por uma situação x, a amizade dos dois passa por uma crise inédita e somos apresentados a momentos do passado dos dois, em um flashback dos tempos da faculdade. A série enfatiza o forte sentimento de amizade de maneira tocante. É mais um indicativo de que não estamos vendo uma série qualquer, mas uma que sabe lidar muito bem com o enredo, com os personagens e com os sentimentos envolvidos.

Enfim, daria para falar de cada um dos episódios e de vários outros personagens interessantes, mas uma coisa é certa: a Marvel agora pode se orgulhar de ter em seu currículo um material de alto nível, e de ter adaptado um herói tão querido para uma mídia que certamente alcançará a um público maior.

terça-feira, abril 21, 2015

PROFISSÃO MULHER



Falecido nesta segunda-feira, dia 20, Claudio Cunha deixou saudades. Nos jornais, poucos lembraram os filmes com conteúdo erótico que ele dirigiu na época da Boca do Lixo. A grande maioria só mencionou a peça O Analista de Bagé, que ele vinha protagonizando sempre junto a uma mulher bonita ao longo de vários anos. Muitos anos, aliás. A peça entrou até no Guiness Book, como peça que ficou mais tempo em cartaz. Quanto aos filmes, o único que eu havia visto dirigido por Cunha era justamente o seu último, considerado sua obra-prima, OH! REBUCETEIO (1984), muito provavelmente o melhor filme de sexo explícito já feito no Brasil.

A escolha de PROFISSÃO MULHER (1982) como filme-homenagem a Cunha veio principalmente pelo fato de ele estar de mais fácil acesso em meu HD. Ter a presença da lindíssima Simone Carvalho encabeçando os créditos também incentiva. Ela foi, inclusive, esposa do felizardo Cunha, que a dirigiu quando ela tinha 18 anos no filme AMADA AMANTE (1978). Os dois fariam mais três filmes juntos, sendo os outros dois, SÁBADO ALUCINANTE (1979) e O GOSTO DO PECADO (1980). Mas ela é certamente mais conhecida do grande público por seu trabalho em telenovelas.

PROFISSÃO MULHER é baseado no livro O Animal dos Motéis, de Márcia Denser, sucesso de crítica lançado em 1981. O livro é dividido em episódios, mas Cunha resolveu fugir do padrão comum na época, de se fazer filmes em segmentos, e elaborou uma interessante, ainda que nem sempre feliz, ligação entre as histórias de quatro mulheres (ou cinco, se contarmos também a personagem de Márcia Porto).

O filme acompanha a jornada dessas quatro mulheres em momentos de frustração e busca por amor. São elas as modelos Sandra (Wilma Dias) e Luiza (Simone Carvalho), a diretora de criação Natália (Patrícia Scalvi) e a secretária Vera (Lady Francisco). A narrativa começa com uma festa de fim de ano em uma agência de publicidade no Rio de Janeiro.

A primeira mulher que conhecemos mais a fundo é Natália, que encontra no álcool o consolo para sua vida amarga. São dela os diálogos mais pessimistas do filme, embora ela também contribua com seu belo corpo em duas cenas de sexo bem fora dos padrões, ao lado de Otávio Augusto, que vive um representante de vendas que ela conhece em um bar. Destaque para o momento em que eles tentam transar em uma praça e ela precisa terminar sozinha o “trabalho”.

Luiza, porém, é que a menina dos olhos do filme. Principalmente por ser encarnada por Simone Carvalho. Sua história nem é das mais interessantes – ela é apaixonada por um rapaz bonito (Mário Cardoso), que não se esforça suficientemente por ela –, mas há um momento bem especial, que acontece no apartamento de uma mulher mais velha que acaba levando seu namorado para a cama. Luiza e Natália se encontrarão ao final, numa discreta cena lésbica, que acaba servindo mais para provar para elas que a felicidade das duas não está nos homens.

O filme completa o quarteto de protagonistas femininas com a secretária subserviente Vera, adepta do sexo solitário e da água quente; e com a modelo Sandra, que se sente velha aos 30 anos e é cantada por um rapaz de 19. A cena dos dois no motel é interessante. Vale destacar também a presença de Márcia Porto no papel da sobrinha de Vera. Ela aparece nua, exibindo um corpo exuberante, e contracena com Claudio Marzo (outro que a dona ceifadora tratou de levar recentemente) numa cena bem bonita na praia.

Por pouco, Cunha não faz um filme ótimo. Faltou saber fazer uma boa conclusão, que no papel talvez até fosse uma boa ideia, mas que na realização acabou resultando fraca. Mas isso acontece. Nossa filmografia é composta por centenas de filmes deliciosamente imperfeitos. PROFISSÃO MULHER é um desses.

domingo, abril 19, 2015

AS MARAVILHAS (Le Meraviglie)



Incrível como o cinema italiano, que já foi o melhor do mundo na década de 1960, está passando por uma crise criativa grave, a julgar pelos títulos que chegam aqui, geralmente já laureados com prêmios e boas recepções de boa parte da crítica. AS MARAVILHAS (2014), por exemplo, segundo longa-metragem de Alice Rohrwacher, até ganhou um prêmio bem importante, o Grande Prêmio do Júri, no Festival de Cannes do ano passado. Como os títulos selecionados para este festival costumam representar o que há de melhor no cinema de autor no mundo, espera-se que os premiados sejam no mínimo muito bons.

E até pode-se dizer isso quanto a AS MARAVILHAS, uma vez que se aprecie o ritmo cadenciado (ou às vezes monótono) e o enredo que é mais construído em prol da atmosfera e do desenvolvimento dos personagens dentro de uma geografia interessante, a da região etrusca, lugar em que uma família muito simples vive e sobrevive da criação de apiários e da extração de mel. Trata-se de uma prática já bastante antiga da região.

O filme, que tem algo de misterioso em alguns momentos, embora tal elemento não chegue a ser algo que o torne suficientemente intrigante, traz algumas cenas memoráveis, a começar pelo início, com uma garotinha saindo de sua cama à noite para fazer xixi e a irmã a segue. Aos poucos, vamos vendo o tamanho da família, toda de meninas, e o modo bem pouco privativo que essas pessoas têm para satisfazer suas necessidades fisiológicas.

O filme lida com uma jovem que está em processo de amadurecimento, a adolescente Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), que tem sua rotina perturbada por dois fatores: 1) o grupo de uma estação de televisão do programa "País das Maravilhas" chega na região e faz com que ela perceba o quanto o ambiente em que vive é limitador e quanto o mundo é grande; e 2) o rapazinho que é colocado para ser cuidado pela família, que desperta nela desejos, mas ele é estranho demais para falar qualquer palavra e ela também não quer reconhecer o seu interesse.

Isso gera alguns momentos interessantes, como as cenas que envolvem o apiário que mostram as tensões existentes no processo e na família, muito disso em razão de o pai, um alemão, ser um sujeito bastante autoritário, e tem ciúmes principalmente de Gelsomina, sua filha preferida.

Monica Bellucci aparece num papel pequeno, mas felliniano, parecida saída de um sonho um tanto carnavalizado. Aliás, não só ela remete a Fellini, mas também o próprio nome da menina, Gelsomina, é o mesmo de Giulieta Masina em A ESTRADA DA VIDA, filme da primeira fase do lendário cineasta. Mas embora seja muito bonito isso de homenagear os cineastas da era de ouro do cinema italiano, acaba ficando mais uma vez a impressão de que essa geração nova ainda vive sob a sombra dos veteranos ou falecidos, por mais que tentem buscar inovações e registrar suas próprias inquietações.

sábado, abril 18, 2015

RITA LEE MORA AO LADO



Não vou negar que meu maior interesse pelo espetáculo RITA LEE MORA AO LADO foi a presença de Mel Lisboa interpretando a nossa Rainha do Rock nacional. Desde que soube dessa peça, que esteve em cartaz em São Paulo por um bom tempo, fiquei muito a fim de ver. Sei bem que Mel Lisboa não é mais a mesma ninfeta de PRESENÇA DE ANITA (2001) que fez a cabeça de tantos homens, mas recordações batem forte, assim como o encanto pela bela e corajosa artista que ela se tornou.

Quanto à Rita Lee, claro que sua vida e suas canções também são ótimos chamarizes para os espectadores. E a peça, além de ser extremamente bem elaborada, com uma equipe de artistas talentosos que ajuda bastante Mel nas suas mais de duas horas de duração, também tem a vantagem de contar a história de Rita desde a sua infância, mostrando de maneira divertida ícones da música brasileira que passaram por sua vida, como Ronnie Von, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tim Maia, Elis Regina, Ney Matogrosso, Gal Costa, João Gilberto, e ainda tem uma cena divertidíssima dos Mutantes sendo entrevistados em um programa de televisão dos anos 60 por Hebe Camargo. É talvez a cena mais engraçada da peça.

A sua história é entrecortada pelas canções, ao mesmo tempo em que acompanha a história de uma garota anônima chamada Bárbara, que esteve sempre presente na vida de Rita desde sempre. Há outras canções que não da Rita ou dos Mutantes, como uma dos Rolling Stones ("Fool to cry"), dos Beatles ("Happiness is a warm gun"), de Jimmy Hendrix ("Hey Joe"), mas o que arrepia mesmo são duas interpretações de membros da equipe que incorporaram mesmo dois artistas brasileiros: "Sangue latino" (com um ator muito bom interpretando Ney) e "Baby" (com uma atriz parecidíssima com a Gal cantando). Coisa linda de ver mesmo.

E como esse pessoal canta melhor do que a Mel, ajuda a dar uma balanceada no que parece o aspecto mais frágil da peça, que é a voz da atriz. Mas isso é bem fácil de relevar, levando em consideração o fato de que ela é uma atriz e não uma cantora, e de que ela convence mesmo como Rita Lee no palco. Às vezes, até parece que estamos diante da própria Rita.

Alguns momentos são especialmente bons, inclusive, do ponto de vista da interpretação de Mel, como quando ela canta "Menino Bonito" numa cena que emula a Santa Ceia de Jesus. Ela canta para Roberto de Carvalho, sua alma gêmea, que fica do outro lado da mesa, enquanto visualizamos, como num jogo de tênis, os outros atores em momentos de prazer gerados pela entrega ao sexo e às drogas típico da época. É o momento mais transgressor da peça, e certamente um dos mais lindos.

Sem dúvida, a memória dessa peça, com suas cerca de 40 canções interpretadas, ficará guardada com carinho comigo por muito tempo. Abaixo, foto de qualidade, inferior, mas que, pelo menos, foi tirada por mim durante o espetáculo.

sexta-feira, abril 17, 2015

CINCO CURTAS



Curtas-metragens são, comparando com a literatura, como contos, no sentido de que são mais condensados em sua narrativa. E, em geral, por não terem tanta necessidade de agradar a um público grande, de não serem vendáveis e distribuídos em salas de cinema como os longas, mas exibidos a um público mais seletivo, o de festivais, podem se dar ao luxo de experimentarem mais a linguagem cinematográfica. Segue mais uma remessa de interessantes objetos culturais e de invenção produzidos no Brasil e também no exterior, dessa vez.

TREMOR

O filme de Ricardo Alves Jr., TREMOR (2013), é daqueles que se a gente piscar perde. Há no início um interessante e enigmático plano seguindo um cavalo, em seguida acompanhamos os passos de um homem que se dirige a um necrotério, onde terá que reconhecer um corpo. A câmera (na mão?) segue o homem com lentidão, como num filme dos irmãos Dardenne, de modo que ficamos um tanto anestesiados com esse andamento. Por isso é interessante revê-lo, a fim de captarmos o instante final, que é enigmático, mas pode ser mais ainda pra alguém que desviou o olhar por um segundo. TREMOR foi exibido primeiramente no Festival de Locarno, mas ganhou muitos prêmios em Brasília. O primeiro longa do diretor, derivado desse curta, ganhou nome e até distribuidora, antes mesmo de começar a ser feito. Chama-se ELON RABIN NÃO ACREDITA NA MORTE. Pra ficar de olho.

TIGRE

Provoca certo fascínio o modo como João Borges narra a história de seu tio-avô Arnaldo Tigre, depois de seu falecimento. Coisas do passado sempre me deixam interessado e com TIGRE (2013) não foi diferente. O jovem cineasta optou narrar sua história através de fotografias e cartas deixadas como arquivo a fim de reconstituir uma parte da vida desse homem que ele conheceu já no fim da vida. A narração em voice-over do diretor passa uma sensação agradável, enquanto vamos conhecendo um pouco mais da vida de Tigre, um boêmio viciado em jogo do bicho do Rio de Janeiro, que conheceu a mulher de sua vida já depois dos 40 anos, mas as coisas não terminaram muito bem. Contar mais pode estragar o filme. Ainda mais por ter apenas 15 minutos e deixar um gostinho de quero mais.

DIA BRANCO

Embora no final eu não tenha captado o que o filme quis dizer, não deixa de ser uma experiência gratificante ver DIA BRANCO (2014), de Thiago Ricarti, mais um bom exemplar do cinema produzido em Minas Gerais. O interessante deste filme é que só aos poucos as informações são nos dadas, como quantas pessoas estão em cena, por exemplo. O fato de haver a morte de um dos familiares dos garotos não deixa de ser uma informação de destaque, mas que acaba não sendo tão importante assim no clima, que parece meio descontraído, meio vazio, com os personagens brincando, tirando fotos com o celular ou olhando para o céu nublado. Sempre fico cismado com o último plano, por isso acho que DIA BRANCO se beneficiaria de uma revisão.

LIGHTS OUT

A duração do sueco LIGHTS OUT (2013), de David F. Sandberg, é de apenas três minutos, mas é o suficiente para assustar muita gente. Até mesmo quem já o viu diversas vezes. Tudo bem que ele segue as convenções e os clichês do gênero para conseguir o efeito desejado, mas não deixa de ser bastante eficiente. Há também a velha história do medo do escuro e da exploração do medo daquilo que está debaixo da cama, que tanto assalta praticamente todas as crianças. A história é muito simples e acompanha uma mulher que descobre que uma criatura assustadora aparece durante o apagar das luzes, quando ela está sozinha, em casa.

KICK THE COCK

Tinto Brass está velho. Reconheçamos que o bom velhinho tarado está praticamente aposentado. Seu último longa foi MONAMOUR (2006), e lá se vão quase 10 anos. Mas eis que temos dois curtas dele, e um deles é este KICK THE COCK (2008), que é dividido em duas partes. Ele segue brincando de usar pênis artificiais, que já havia aparecido em outros de seus longas mais recentes, mas o que conta mesmo é o modo bem sem-vergonha (no bom sentido) como ele lida com uma empregada doméstica (Angelita Franco, belíssima) que aparece com trajes sumários mostrando seus dotes e valorizando inclusive as partes mais íntimas e aproximando KICK THE COCK de um vídeo de sexo explícito. É um filme que elogia a beleza, o prazer e a sacanagem, mas acaba funciona mais como aperitivo para ver um hardcore de verdade, em seguida.

quinta-feira, abril 16, 2015

NÃO OLHE PARA TRÁS (Danny Collins)



O cinema, assim como a vida, é uma caixinha de surpresas. De vez em quando surge um filme assim, meio de mansinho, como este NÃO OLHE PARA TRÁS (2015), que nem deve ficar mais de uma semana em cartaz neste circuito ingrato, para nos surpreender e nos emocionar. Mas que bom que o filme pelo menos teve a chance de chegar à telona. Sorte dos poucos felizardos que se disporão a ir ao cinema nesta semana para conferir uma das melhores performances de Al Pacino, num momento particularmente muito bom para ele, depois de tanto se repetir nos últimos anos. (Falam muito bem de O ÚLTIMO ATO, de Barry Levinson, lançado em poucas cópias recentemente nos cinemas brasileiros.)

Em NÃO OLHE PARA TRÁS, Pacino é o Danny Collins do título original, um velho astro veterano do rock que continua fazendo sucesso, mas apenas com as velhas canções. Não consegue compor nada novo há décadas. Mesmo assim, apesar da idade, vai seguindo uma vida de sexo, drogas e rock’n’roll, com direito a cocaína, uma mulher bem jovem e mansões e carros luxuosos, além de turnês milionárias. Mas há uma coisa que muda a vida de Danny: ele descobre que John Lennon escreveu uma carta para ele em 1971. E essa carta nunca chegou em suas mãos até então. É a partir dessa carta ele passa a reavaliar sua vida.

O filme pode até parecer piegas para alguns e a história não se furta de momentos especialmente lacrimosos, mas muito bem-vindos. Ao longo da narrativa, várias canções de Lennon são ouvidas e compõem um mosaico muito bonito deste momento da história de Danny, principalmente a partir de quando ele decide conhecer seu filho crescido, fruto de uma noite de farra.

E aí entra em cena o personagem de Bobby Cannavale, um jovem homem que guarda mágoa do pai ausente, e que precisa ser cuidadosamente reconquistado. Junto dele Danny conhece a nora grávida de seis meses, vivida por uma iluminada Jennifer Garner, e sua netinha cheia de energia de sete anos. Finalmente ele tem uma família e com ela vêm problemas e revelações, mas também algo novo, que Danny não quer deixar passar, não importa quantas vezes ele seja enxotado.

O filme é enxuto, embora os diálogos não pareçam ser ditos com pressa em nenhum momento. No tom certo, o estreante na direção Dan Fogelman vai construindo uma pequena e tocante história sobre insegurança, generosidade, amor e dor, que também apresenta um interesse amoroso do famoso, ilustre e decadente cantor, a gerente do hotel onde ele fica hospedado, interpretada por Annette Bening. Mas o mais importante é que o filme consegue superar a velha fórmula de melodramas sobre redenção de velhos heróis e tem um dos finais mais belos e sensíveis do cinema recente.

quarta-feira, abril 15, 2015

JACKIE BROWN



Já fazia mais de 16 anos da primeira e única vez que havia visto JACKIE BROWN (1997) no cinema numa das salas do extinto Art Iguatemi. As impressões na época não foram de muito entusiasmo, levando em consideração que eu havia saído da sessão de PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994) em êxtase. Assim, Quentin Tarantino pegou muita gente de surpresa com seu novo trabalho, uma adaptação de um romance de Elmore Leonard e talvez por isso seja um de seus trabalhos menos tarantinescos.

Aliás, engraçado como na época, só com dois longas no currículo e uns poucos roteiros, o cineasta já havia ganhado um adjetivo para si, o que não deixa de ser um tanto limitador, ainda mais para quem ainda estava só começando. Por outro lado, isso também provava a imensa popularidade do diretor. Mas se JACKIE BROWN era um tanto diferente, até por não se passar no universo de Tarantino, mas num mundo à parte, o cineasta também trata de homenagear outro dos subgêneros marginais que ele tanto aprecia, o blaxsploitation, ou seja, os filmes produzidos e protagonizados por negros que foram tão populares nos Estados Unidos dos anos 1970. O próprio título remete diretamente a FOXY BROWN (1974), estrelado pela musa Pam Grier, que aqui ele trata de trazer aos holofotes, como protagonista.

Na trama, Jackie (Grier) é uma comissária de bordo de uma companhia de segunda categoria que é pega pelos policiais federais (Michael Keaton é um deles) portando uma boa quantidade de dinheiro e um pouco de cocaína. É o suficiente para ela ficar encrencada, mas consegue logo ficar livre graças à intervenção do contrabandista Ordell (Samuel L. Jackson), que contrata os serviços de Max Cherry (Robert Forster) para tirá-la da prisão. Logo no primeiro encontro, Jackie e Max se gostaram e uma relação se inicia. Uma relação que também se estende às ligações perigosas de Jackie com o perigoso Ordell.

Completam o elenco de apoio dois personagens bem interessantes: o ex-presidiário vivido por Robert De Niro e a surfista maconheira e preguiçosa vivida por Bridget Fonda, que parece nunca ter aparecido tão bela antes ou depois. Há uma cena de sexo entre esses dois personagens que é um tanto quanto desconfortável. Pelo menos, a tara de Tarantino por pés se justifica nas várias vezes em que vemos Bridget fazendo as unhas na sala de Ordell. Os dois personagens têm importância na trama, especialmente no último ato, mas valem mais pela ótima construção de suas características.

Um dos diálogos mais bonitos do filme é entre Max e Jackie, quando ela pergunta a ele sobre como ele se sente ao envelhecer. É um diálogo curto, mas que é bem representativo do respeito com que o jovem Tarantino tinha com essas duas figuras icônicas do cinema. E esse diálogo sintetiza o próprio ritmo do filme, muito mais pausado que PULP FICTION.

A empolgação juvenil que pega o espectador de jeito acaba vindo da inteligência da trama e do modo como ela é contada, de diferentes pontos de vista, na sequência climática envolvendo uma troca de sacolas em uma loja de roupas de um shopping center. É então que lembramos das brincadeiras temporais e de montagem de PULP FICTION e dos demais trabalhos de Tarantino que viriam.

terça-feira, abril 14, 2015

CINCO CURTAS BRASILEIROS



Alguns vistos no ano passado, outros vistos neste ano. O fato é que eu andei vendo curtas demais em 2014 e não tive o devido cuidado de escrever minhas impressões sobre eles. Assim, tive que rever estes cinco para poder escrever pelo menos um pequeno parágrafo sobre cada uma dessas pequenas e belas obras de nossa cinematografia.

ESTÁTUA!

Gabriela Amaral Almeida conquistou seu espaço no cinema fantástico brasileiro com seu ótimo curta A MÃO QUE AFAGA (2012), que flertava com o horror, mas não tanto quanto este ESTÁTUA! (2014, foto), um autêntico filme do gênero, que lida com o medo, a maternidade e quão más as crianças podem ser (pelo menos na cabeça da protagonista). Neste novo filme, Maeve Jinkings é uma mulher grávida de três meses que aceita a tarefa de ficar cuidando por alguns dias de uma menina de comportamento esquisito. O que parecia ser apenas algo estranho começa a se transformar em terror na vida da mulher. Muito da força do filme está nos enquadramentos, no modo como a diretora brinca com o campo e o extracampo, de modo a mostrar ou esconder a menina.

SE ESSA LUA FOSSE MINHA

Interessante o modo recorrente como alguns novos cineastas têm misturado a ficção científica com o documentário. No campo dos longas-metragens mais recentes, o melhor exemplo disso é BRANCO SAI, PRETO FICA, de Adirley Queirós, mas em SE ESSA LUA FOSSE MINHA (2013), Larissa Lewandoski faz algo simples e também bem interessante, ao brincar com a escassez de recursos, usando papel alumínio para confeccionar capacetes de astronautas, mas principalmente ao fazer perguntas a pessoas simples da rua, algumas delas um pouco alteradas pelo álcool, outras um tanto mais sóbrias no sentido amplo do termo. As respostas nem sempre precisam ser do jeito que a diretora quer, mas do jeito que sai, o que torna o seu trabalho mais poético e estranho.

BATCHAN

Dá pra sentir o carinho com que Gabriel Carneiro fez seu BATCHAN (2013), explicitamente uma homenagem ao cinema de Yasujiro Ozu, com direito a discussões familiares que muito lembram a situação de ERA UMA VEZ EM TÓQUIO. Na breve história, Noriko é uma senhora idosa que mora sozinha e recebe a família um tanto numerosa para almoçar. Vemos as distâncias entre as gerações através de comportamentos e conversas, mas há também todo um cuidado com os enquadramentos, de modo a emular Ozu. Excepcionalmente lindo o plano final, um dos poucos em que há de fato uma movimentação da câmera.

LA LLAMADA

Eis um filme que melhora bastante na revisão. LA LLAMADA (2014), de Gustavo Vinagre, nos pega pela estranheza. Não dá de mãos beijadas as informações para o espectador, que inicialmente fica sem saber que país é aquele, qual a situação do protagonista Lázaro, um vendedor de frutas e legumes, com o filho, que ele afirma no início da entrevista não ter. Essa situação com o filho e a questão de um telefone que será instalado em seu estabelecimento será de fundamental importância para a cena mais emocionante. Há também um jogo muito bonito entre documentário e ficção, já que o diretor conduz a situação e a montagem de modo que até mesmo aquilo que acontece ao acaso se torne parte do enredo. É também um filme muitíssimo agradável de ver, em seus quase 20 minutos de duração.

A ERA DE OURO

Mais um filme que melhora bastante na revisão. E é admirável o crescimento na direção do jovem Leonardo Mouramateus, de FUI À GUERRA E NÃO TE CHAMEI (2011), MAURO EM CAIENA (2012) e LIÇÃO DE ESQUI (2013). A ERA DE OURO (2014), feito em parceria com Miguel Antunes Ramos, representa uma nova etapa na carreira de Mouramateus, e funciona também como uma transição, já que seus protagonistas são dois cearenses em São Paulo. Ela (Ana Luiza Rios) trabalha já há dois anos em uma empresa de investimentos; ele (Arthur Abe) é o sujeito que quer levá-la de volta, que quer reatar o relacionamento que tiveram no passado. As coisas ficam um tanto tensas durante uma festa na empresa em que ela trabalha. O impressionante de A ERA DE OURO é a maturidade na direção de Ramos e Mouramateus, no modo como os diálogos são recitados (seja de maneira naturalista, seja mais performáticos) e as diferentes posições da câmera em uma simples conversa numa mesa entre quatro pessoas.

segunda-feira, abril 13, 2015

PASOLINI



Na falta de uma distribuidora que resolva lançar PASOLINI (2014) nos cinemas, temos mesmo que apelar para meios alternativos a fim de ver o mais recente trabalho de Abel Ferrara, que homenageia respeitosamente o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, nos apresentando ao que seria o seu último dia de vida. E como sabemos que o diretor italiano foi brutalmente assassinado, já é de se esperar que o final apresente alguma cena chocante ou algo do tipo.

Não que isso não apareça em PASOLINI, mas Ferrara prefere não exagerar na violência da cena. Poderia parecer de mau gosto, ainda mais se a intenção é prestar uma homenagem ao diretor de SALÓ OU OS 120 DIAS DE SODOMA. Assim, embora a cena de sua morte seja dramática, não esperemos um torture porn. O que é mostrado já é suficientemente doloroso de ver.

PASOLINI foi lançado no mesmo ano de BEM-VINDO A NOVA YORK (2014), que também trata de uma pessoa real. Mas são filmes bem distintos, embora seja possível encontrar pontos em comum, se assim quisermos. Ambos os filmes tratam de sexo, de alguma forma, de personagens que têm que lidar com seus desejos proibidos. Seja o viciado em sexo de Gerard Depardieu, seja o homossexual em busca de um parceiro de Willem Dafoe. Ambos, por mais distintos que possam ser seus caráteres, são tratados com respeito por Ferrara.

Em PASOLINI, acompanhamos o cineasta italiano em companhia de sua família (inclusive, quem interpreta sua mãe é Adriana Asti, atriz de ACCATONE – DESAJUSTE SOCIAL, o primeiro trabalho de Pasolini); vemos sua relação com amigos próximos (destaque para a personagem de Maria de Medeiros); com a imprensa, já que seu filme, até então ainda não lançado e baseado na obra do Marquês de Sade, já provocava um burburinho bem intenso; e com aquele que seria o último garoto com quem ele sairia, Pino Pelosi, que seria condenado pelo crime.

Mas o filme de Ferrara também procura reconstituir, pelo menos em parte, o trabalho que Pasolini deixou por fazer, "Porno-Teo-Kolossal", que lida tanto com aspectos religiosos – um homem e seu amigo jovem seguem a estrela de Belém do Messias – quanto com profanos, como na cena do bacanal. A ideia de uma cidade regida por gays e lésbicas que devotam um dia no ano para que homens e mulheres possam transar em público e assim continuar a se multiplicar não deixa de ser bem interessante, e mostra o quanto o diretor italiano ainda escandalizaria, por mais que sua intenção fosse lutar por tudo que é belo e humano.

domingo, abril 12, 2015

CORPO DEVASSO



Uma belíssima surpresa este CORPO DEVASSO (1980), que já posso colocar entre os três melhores trabalhos de Alfredo Sternheim, ao lado de ANJO LOIRO (1973) e VIOLÊNCIA NA CARNE (1981). Pode-se notar a habilidade do diretor em lidar tanto com histórias mais sofisticadas, quanto com com filmes mais populares, cujo termo "pornochanchada" lhes cabem melhor. Ainda assim, acho que ele não se saiu tão bem assim em tentar fazer algo parecido com o que Walter Hugo Khouri fazia, em seu filme anterior, A HERANÇA DOS DEVASSOS (1979).

Os anos 80, principalmente a primeira metade, foram bem interessantes para a Boca do Lixo, já que começou uma abertura maior na busca por um erotismo mais gráfico. Muitos dos filmes desse período ainda são mais excitantes do que muito filme pornô que se faz hoje, tanto pela boa condução na narração, quanto por saber lidar com o erotismo com maestria.

No caso de CORPO DEVASSO, isso se deve tanto à participação de Ody Fraga no roteiro, quanto à produção e presença de David Cardoso, o principal nome masculino no elenco dos filmes da Boca do Lixo, o grande galã do cinema paulista da época, e que adorava ficar pelado na frente das câmeras, o que acabava sendo um chamariz também para as espectadoras do sexo feminino.

Tanto é que o tal corpo devasso do título se refere ao dele e não ao de uma mulher, como era de se esperar. Nesse sentido, o filme de Sternheim foi quase revolucionário, ao trazer o tema da homossexualidade com respeito (até pelo fato de o diretor ser gay) e sem as tradicionais visões preconceituosas e afetadas. O cineasta também demonstra o seu amor pelos livros em diversas cenas em que o protagonista (David Cardoso) elogia as bibliotecas pessoais e a cultura das pessoas que ele encontra pelo caminho.

A trama é pra lá de divertida, com Cardoso aparecendo como Beto, um caipira (com cabelo de Jeca Tatu e tudo) tentando aplacar a fome de sexo em uma bezerrinha, quando a filha do seu patrão o pega no flagra e se insinua para ele. Isso acaba lhe prejudicando quando os pais o pegam com ela na cama. Resultado: ele precisa fugir para São Paulo, a megalópole que o maltrata, mas que também traz muitas coisas boas. Lá ele se relaciona com mulheres e também com homens, quando, ao precisar de dinheiro, apela para a prostituição.

Mas, embora as cenas com Raul (Arlindo Barreto) sejam muito boas, as minhas preferidas são as com Neide Ribeiro, que interpreta uma fotógrafa que adora usar os homens como objetos sexuais e depois descartá-los. As cenas com ela são as mais excitantes do filme, tanto pela beleza de seu corpo quanto pelo modo como elas foram filmadas. É também o momento em que o personagem se vê em uma sociedade estranha à que ele estava acostumado, com direito a festas com orgias e tudo.

Pelo menos mais outras duas mulheres passam pelo caminho de Beto, em situações bem distintas. Uma se revelando bastante romântica; outra o querendo como um caseiro e amante. É nesse momento, já perto do final, que o filme perde um pouco o rumo. Poderia ser lembrado como um exemplar quase perfeito do gênero, ao lado de GISELLE, de Victor di Mello, realizado no mesmo ano, e que também contém cenas de sexo homossexual. Além do mais, CORPO DEVASSO trouxe temas que surpreendentemente passaram pela censura sem problemas, como a discussão sobre o socialismo e a difícil luta pelos direitos trabalhistas através da greve.

sábado, abril 11, 2015

QUATRO FILMES PROTAGONIZADOS POR CRIANÇAS



Vamos a uma nova série de pequenos textos para adiantar o que for possível o atraso em relação aos filmes vistos e os comentados. E que se tornou ainda maior durante o mês de março, quando eu não tive tempo pra nada e o blog também foi prejudicado. Então, segue uma temática de filmes protagonizados por crianças, ainda que de gêneros distintos. Vamos a eles, então, em ordem cronológica de lançamento.

A MALDIÇÃO DO SANGUE DE PANTERA (The Curse of the Cat People)

Muitas vezes expectativas podem atrapalhar muito uma apreciação fílmica. Ou de qualquer outra forma de arte. Não que eu achasse que essa continuação de SANGUE DE PANTERA (1942) fosse superior ao original, mas há o selo Val Lewton de qualidade, que me fez descobrir obras-primas como A MORTA-VIVA (1943) e A SÉTIMA VÍTIMA (1943). E por mais que A MALDIÇÃO DO SANGUE DE PANTERA (1944, foto) não fosse tão bom quanto os demais, pelo menos eu estava preparado para ver um filme de terror. E não um filme infantil com temática sobrenatural, que é o que Gunther von Fristch e Robert Wise fizeram. Por outro lado, esse aspecto desconcertante não deixa de ser interessante. O problema é que senti falta do veneninho habitual do gênero. Na trama, menina que costuma ser vista como estranha na escolha passa a ver o fantasma de uma mulher (Simone Simon, do filme anterior), que se torna a amiga "imaginária" dela. Confesso que é uma das continuações mais estranhas que já vi, pela total mudança de tom. Mas não deixa de ter o seu charme justamente por isso.

O PEQUENO FUGITIVO (Little Fugitive)

Considerado hoje um filme que influenciou OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, O PEQUENO FUGITIVO (1953), assinado a seis mãos por Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin, tem sido redescoberto ultimamente e com direito, inclusive, a uma cópia novinha em DCP da restauração, que pude ver em um festival promovido pelo Cinema do Dragão, no início do ano. Na trama, o pequeno Lennie é enganado pelo irmão mais velho e seus amigos, e acredita que matou acidentalmente o próprio irmão, e que por isso precisa fugir da polícia para não ser preso. E isso acontece no intervalo de tempo em que a mãe deles teve que viajar. Assim, o pequeno Lennie segue sem rumo com alguns poucos trocados na mão e sem que o irmão soubesse até certo ponto, indo parar num parque de diversões de outra cidade. Lá ele vai aprendendo sozinho as relações de troca e a sobrevivência, que ainda é muito atrelada à vontade de brincar. O ator que interpreta Lennie, Richard Brewster, é um achado. Ele ganha o filme e o espectador. Foi seu único papel no cinema.

O ESPÍRITO DA COLMEIA (El Espíritu de la Colmena)

Na época do lançamento de O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo Del Toro, muito se falava de O ESPÍRITO DA COLMEIA (1973), de Victor Erice. E eu fiquei curioso pra conhecer este cultuado filme espanhol que tem um lirismo muito bonito. Até pensei em revê-lo, pois não entrei muito no clima quando o vi (acho que é preciso ver em outra ocasião, com o corpo mais aceso e com mais atenção), mas demorei tanto pra escrever a respeito, que achei melhor deixar minhas impressões logo aqui antes que esqueça o pouco que lembro. O filme se passa na década de 1940, quando uma garotinha de sete anos (Ana Torrent) fica impressionada com uma exibição de FRANKENSTEIN, de James Whale, e passa a viver dentro de seu próprio mundo de fantasia. A história acontece logo após o fim da Guerra Civil Espanhola, quando o país está ainda tentando juntar os cacos, e esse contexto político é também interessante, embora não tanto quanto o universo interior e poético da garotinha. Se bem que há quem diga que a trama-base é uma alegoria para esse contexto político.

TRASH – A ESPERANÇA VEM DO LIXO (Trash)

Deixando o mais fraco para o final, TRASH – A ESPERANÇA VEM DO LIXO (2014), de Stephen Daldry, não deixa de ser uma obra interessante para que o brasileiro veja a visão do estrangeiro em relação a ele. Até porque Daldry já havia provado ter boa mão para dirigir filmes com crianças, como foi o caso de BILLY ELIOT (2000) e TÃO FORTE E TÃO PERTO (2011). Ainda que TRASH conte com as participações de Wagner Moura e Selton Mello (que está ótimo como um policial malvadão), o filme é mesmo dos três garotos desconhecidos que descobrem algo no lixo que podem mudar suas vidas. Aliás, já muda de imediato, pois eles passam a ser procurados pela polícia corrupta, para tentar fazer algo que eles julgam ser certo. Não deixa de ser um interessante conto moral contado à maneira estrangeira e com um bom andamento e belíssima fotografia. Do elenco internacional, destaque para Rooney Mara e Martin Sheen.

quinta-feira, abril 09, 2015

CADA UM NA SUA CASA (Home)



Perto da Disney e da Pixar, a Dreamworks Animation ainda é uma concorrente pequena. Mas ao ver filmes como COMO TREINAR O SEU DRAGÃO (2010) e sua continuação (2014), comecei a acreditar que o estúdio está evoluindo bem, além de continuar trazendo astros famosos para dublarem os personagens e servirem de chamarizes para a audiência, embora isso não se reflita no mercado brasileiro, já que praticamente todas as cópias chegam dubladas. Aqui em Fortaleza, uma única sala (VIP), numa única sessão, oferece a oportunidade de ver CADA UM NA SUA CASA (2015), o novo filme do estúdio, legendado com áudio original. Mas aí é ter que desembolsar uma grana preta pra isso.

Mesmo vendo o filme em sua versão dublada, porém, apesar dos traços simples do extraterrestre Oh, é possível muito bem perceber o quanto copiaram o sorriso do dublador Jim Parsons (o Sheldon de THE BIG BANG THEORY), emprestando um pouco da persona que criou para a popular série de tevê neste simpático personagem que também tem problemas em entender os códigos sociais. No caso de sua raça alienígena, Oh é sociável até demais para sua turma, o que faz com que ele se torne rejeitado pelos demais, ainda que ele seja muito ingênuo para perceber isso.

Na trama, Oh faz parte de uma raça de alienígenas chamados Boovs que resolvem invadir o planeta Terra. Para eles, os humanos são seres bem inferiores e basta que eles sejam abduzidos e colocados todos num mesmo lugar que o planeta se torna livre para os novos habitantes. Graças às tentativas de Oh de socializar com seus colegas, ele acaba causando um alarme quando possibilita, supostamente, que os principais inimigos de sua raça descubram onde os Boovs estão. Resultado: Oh se torna persona non grata entre seus pares. Ou melhor: ele acaba sendo procurado como criminoso.

No meio da fuga, ele encontra uma adolescente que por acidente conseguiu não ser abduzida e que quer encontrar sua mãe. Tip, dublada por Rihanna, é uma bela jovem negra e de cabelos encaracolados, e que só por esse aspecto já merece um crédito da produção, já que, além de tudo, a personagem é adorável e emocionalmente rica, passando por momentos de raiva, tristeza, alegria, coragem etc. Essa questão das emoções é algo novo para Oh, que descobre também os efeitos da música sobre o corpo e o espírito, além de também passar a entender e valorizar os afetos.

Trata-se de uma mensagem bastante simples, mas que funciona num filme dedicado a crianças de todas as idades. Há até alguns momentos genuinamente emocionantes dentro de uma trama que gira em torno principalmente na construção do relacionamento entre Oh e Tip, embora a missão dos dois e as aventuras no meio do caminho também contribuam para a boa fluidez da narrativa.

CADA UM NA SUA CASA, mesmo em sua versão 2D, tem efeitos interessantes que passam uma imagem de terceira dimensão. Sem falar que evita as possíveis dores de cabeça e o desconforto dos tais óculos. Entre os outros astros famosos que dublam personagens do filme estão Steve Martin, como o Capitão Smek, e Jennifer Lopez, como a mãe de Tip.

quarta-feira, abril 08, 2015

BETTER CALL SAUL – 1ª TEMPORADA (Better Call Saul – Season One)



É provável que nem mesmo os criadores soubessem o quanto daria certo este spin-off de BREAKING BAD (2008-2013), trazendo o advogado de roupas coloridas Saul Goodman (Bob Odenkirk) antes de se tornar famoso em Albuquerque como defensor das causas dos indefensáveis. Certamente, já havia uma boa expectativa quanto à recepção do público, mas o próprio público – e talvez os seus roteiristas também – não tinha ideia da ótima qualidade da produção.

BETTER CALL SAUL (2015) começa com a expressão triste de um envelhecido Saul Goodman relembrando o seu passado, quando ainda usava o seu verdadeiro nome, Jimmy McGill, e conseguiu o seu diploma de advogado por correspondência, em uma universidade de pouco prestígio, mas que não deixou de ser uma surpresa para muitos, inclusivo para o seu irmão Chuck (Michael McKean), um personagem interessante, que na maior parte do tempo se vê enclausurado em sua própria casa, com medo de qualquer objeto elétrico ou eletrônico e da própria luz do sol.

Quem também aparece e é muito bem-vindo na série é Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), o ex-policial que aprendemos a gostar em BREAKING BAD. Há um episódio especial dedicado ao Mike, quando sabemos os motivos pelos quais sua carreira foi por água abaixo e ele teve que passar a viver em subempregos ou aceitar trabalhos perigosos, até porque coragem não lhe faltava. O personagem Mike é muito querido por juntar dois aspectos opostos: a dureza do espírito e o lado amoroso e humano.

Mas a menina dos olhos de BETTER CALL SAUL (pelo menos pra mim) é mesmo a encantadora advogada Kim Wexler (Rhea Seehorn), amor platônico de Jimmy e que nutre por ele um carinho especial. As cenas envolvendo os dois são sempre cheias de tensão e dor escondidas sob uma tentativa de disfarçar os desejos e as frustrações.

E é de frustrações que Saul Goodman/Jimmy McGill vai sendo moldado ao longo desta primeira temporada. Experimentando um mundo em que ser honesto, na medida do possível, não lhe traz boas recompensas e traições são comuns, a queda para o “lado negro da força” já é esperada. Ainda assim, BETTER CALL SAUL não torna tão simples um possível maniqueísmo. Como o velho Mike diz em determinada cena: há bons e maus criminosos, assim como há bons e maus policiais. E é nesse estreito fio que Jimmy trafega ou é tentado a trafegar.

terça-feira, abril 07, 2015

THE SLAP



Tem dado muito certo para a televisão americana "tomar emprestado" ideias de outras séries e minisséries de outros países para compor sua própria versão, com seu ritmo próprio, com uma maior possibilidade de distribuição internacional e com mais rostos conhecidos no elenco. E nesse último quesito THE SLAP (2015) não deixa a desejar, mantendo apenas, da série original australiana (2011), Melissa George.

THE SLAP conta a história, através de oito diferentes perspectivas em oito episódios, das consequências de um tapa dado por um adulto em uma criança durante um churrasco familiar. O adulto é Harry, vivido por Zachary Quinto, um homem de sangue quente e com tendências irascíveis que toma o bastão de beisebol de um garoto com tendências hiperativas. A mãe, Rosie (Melissa George), faz questão de criar uma confusão em torno do incidente, que vai se agravando e deixando as pessoas que lá estavam presentes em posições desconfortáveis.

Mas o interessante de THE SLAP é que o drama individual de cada personagem, principalmente quando não muito relacionado à briga entre Harry e Rosie, é que torna a minissérie mais envolvente. Pelo menos é assim que a gente sente ao ver os episódios centrados em Aisha (Thandie Newton), Anouk (Uma Thurman) e Connie (Mackenzie Leigh), não por acaso três mulheres.

Como a minissérie tem essa pegada mais feminina, isso acaba contribuindo para que esses episódios (que levam os nomes das personagens) sejam mais interessantes. E como não dá pra ficar o tempo todo discutindo a questão do tapa, as vidas particulares dessas personagens, que vão se descortinando pra gente, tornam-se mais atraentes, como pequenos filmes. O episódio de Aisha talvez seja o mais surpreendente, até por tirá-la da situação de mulher traída e passiva e colocá-la numa situação mais ativa.

THE SLAP também consegue fluir bem em seu estilo melodramático, com recurso de pianinho constante ao fundo, e chegar a uma conclusão satisfatória para ambos os lados da discussão. A minissérie é sólida no que se refere à construção dos personagens e isso é o que mais importa. Mais do que as histórias em si, embora elas sejam também necessárias. Curiosamente, há um narrador em apenas quatro episódios. A que se deve o sumiço dessa voz narrativa nos demais?

segunda-feira, abril 06, 2015

FRANCISCA



Não devia ser fácil viver em meados do século XIX, quando as tintas lúgubres do Romantismo perturbavam os espíritos de homens e mulheres. Vendo FRANCISCA (1981), de Manoel de Oliveira, fica-se com a impressão de que esse tenha sido um período ainda mais difícil para as mulheres, que só serviam para os homens de espírito romântico se colocadas num pedestal ou se exemplos de amor impossível ou platônicos. Esse é um dos dramas de Fanny/Francisca (Teresa Menezes), personagem-título desta obra-prima de Manoel de Oliveira, grande homem e cineasta que nos deixou aos 106 anos de idade, no último dia 2 de abril.

FRANCISCA (1981) não foi a única adaptação de uma obra de Agustina Bessa-Luís feita por Manoel de Oliveira. Foi apenas a primeira. Seguiram-se em seguida: VALE ABRAÃO (1993), INQUIETUDE (1998), O PRINCÍPIO DA INCERTEZA (2002) e ESPELHO MÁGICO (2005). FRANCISCA é adaptação do romance Fanny Owen, de 1979, que trata de um caso envolvendo José Augusto, um amigo do escritor Camilo Castelo Branco, e seu objeto de seu desejo, Fanny, uma jovem inglesa que vivia em Portugal.

Vale destacar que ver o filme na cópia existente atualmente na web não é tarefa fácil. Seja por causa da própria fotografia, que tende para a escuridão, seja pela qualidade do DVD original, isso acaba sendo um obstáculo para quem quer ver um filme de cerca de 2h40 minutos de duração. Logo, é preciso um pouco de paciência. Até porque o filme fica mais interessante mesmo quando Fanny se faz mais presente na trama.

Antes disso, vemos muitas conversas entre Camilo e José Augusto. Embora Camilo acolha José Augusto em sua casa, para que ele não morra de depressão, o escritor costuma falar do amigo pelas costas, tanto para outros amigos, quanto para a própria Fanny, que sente logo um interesse por aquela figura esquálida e depressiva. Segundo Camilo, é melhor que ela se afaste de José Augusto, pois se trata de um homem sem alma, que costuma envenenar o espírito das pessoas e do ambiente em que circunda. E de certa forma, ele tinha razão.

O momento da fuga de Fanny com José Augusto é a primeira vez em que a trilha sonora se mostra não apenas solene, mas próxima da de um filme de horror, acentuada ainda mais pela negritude da noite e da floresta que os acolhe. Quanto à moça, não é difícil afeiçoar-se a ela e também se solidarizar por seu amor por um homem cujos sentimentos por ela são confusos.

Daí entramos na questão levantada no primeiro parágrafo, sobre o quanto as mulheres, criaturas mais amorosas e também mais práticas, se veem reféns de homens perturbados, cujo espírito romântico servia mais para atrapalhar do que para ajudar no relacionamento. No caso, entram também uma questão envolvendo uma carta, o passado de Fanny e o orgulho e o ego feridos de José Augusto.

Manoel de Oliveira narra essa tragédia em tons performáticos, com os atores encenando como num teatro, com ar grave e pausas dramáticas. Há um delicado cuidado com os enquadramentos, sendo a grande maioria dos planos estáticos, parecendo pinturas em movimento, pinturas cujo teor de preto é predominante. É também mais um exemplar de obra cuja palavra falada é extremamente valorizada. E isso acrescenta ainda mais poesia ao todo.

domingo, abril 05, 2015

VÍCIO INERENTE (Inherent Vice)



Ver VÍCIO INERENTE (2014) e presenciar a coragem de Paul Thomas Anderson em apresentar um filme tão pouco acessível a grandes audiências como esse faz a gente pensar que talvez estejamos vivendo num momento especial do cinema americano, em que a questão do autor, que se mostrou explícita durante o nascimento da chamada Nova Hollywood, parece estar voltando com força com esta nova geração de cineastas independentes, dispostos a romper com algumas convenções, e tendo um senso de autoconfiança impressionante.

A trajetória de Anderson já é, por si só, das mais interessantes e curiosas. Tendo apenas sete longas-metragens no currículo, alguns filmes são mais acessíveis, ainda que bastante admiráveis, como BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997) e SANGUE NEGRO (2007), dois filmes que têm algo de grandiloquentes, ainda que não tanto quanto MAGNÓLIA (1999). Mas são trabalhos que conseguem dialogar com um público maior, ao contrário de O MESTRE (2012) e este novo VÍCIO INERENTE, cujo maior problema é ser quase impalpável.

Mas o que pode ser um problema para alguns, pode ser uma qualidade e o grande charme do filme para outros. Levando em consideração que ele levou para as telas uma adaptação de um romance de um escritor tido como inadaptável (Thomas Pynchon), até que ele se saiu muito bem. Há tantas cenas memoráveis e um senso de humor tão próprio em VÍCIO INERENTE, que é difícil encontrar paralelos no cinema recente. Talvez a comparação maior seja com À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, que também faz questão de ser um filme com uma trama quase incompreensível, de tão intrincada.

Em VÍCIO INERENTE, é entrar ou não na viagem. De repente, os efeitos da maconha do personagem de Joaquin Phoenix podem funcionar para alguns e para outros causar uma bad trip. Difícil é lidar com esse convite ao relaxamento no que concerne à história, ao mesmo tempo que também temos um convite à reflexão sobre as mudanças que passou a sociedade americana, da década de 1970 para os dias atuais. Se isso for mesmo uma das intenções de Anderson.

Na complicada trama cheia de personagens de VÍCIO INERENTE, Phoenix é Larry "Doc" Sportello, uma espécie de detetive particular maconheiro que tem sua vida virada do avesso com o aparecimento de uma ex-namorada por quem ele ainda nutre muito amor, vivida por Katharine Waterston, nunca vista tão sexy. A cena em que ela aparece na casa de Doc parece uma ilusão e ela se mostra também impalpável nesse momento.

A partir daí começa a jornada de Doc para encontrá-la, ao mesmo tempo que surgem novas e confusas subtramas, envolvendo um policial violento (Josh Brolin), um homem negro que vem contratar seus serviços (Michael Kenneth Williams), uma atendente de uma casa de massagem especializada em sexo oral (Hong Chau), uma policial-amante (Reese Witherspoon) e um sujeito dado como desaparecido, mas que reaparece em vários ambientes só para complicar ainda mais a história (Owen Wilson).

É mais ou menos nesse saco de gato que nos vemos envolvidos. E isso não é nem a metade da quantidade de personagens que surge ou é citado ao longo deste filme surreal, que acompanha o ponto de vista confuso de seu protagonista com a coragem de quem quer dar a cara a bater.

Conforme algumas análises, VÍCIO INERENTE seria mais um filme do diretor sobre o fracasso do sonho americano e o fim das utopias, com direito a citações a Charles Mason e a Santa Ceia, transformada em uma mesa com um grupo de hippies comendo pizza. É Anderson mais uma vez fazendo uma viagem aos anos do amor livre, mas sem deixar de se conectar com os dias atuais.

sábado, abril 04, 2015

VELOZES & FURIOSOS 7 (Furious 7)



Uma diferença e tanto quando sai um diretor de segunda categoria como Justin Lin, que vinha com a franquia Velozes e Furiosos desde o terceiro filme da série, e entra um cineasta mais habilidoso, ainda que venha de outro tipo de filme de gênero, no caso os filmes de horror, James Wan. E o curioso disso é que Lin, mesmo não sendo tão bom, tem cada vez ganhado mais prestígio, desde assumir a direção de episódios da segunda temporada da conceituada série TRUE DETECTIVE até a ser contratado para dirigir o próximo filme da franquia STAR TREK.

Mas voltemos a Wan, cineasta que veio de filmes de horror de baixo orçamento, sendo o melhor deles INVOCAÇÃO DO MAL (2013), e sua incrível habilidade em tornar algo que era uma espécie de cinessérie B de orçamento inchado (por ter excelente retorno financeiro) e fazer um filme de qualidade, cujo orçamento alto, chegando perto dos 200 milhões de dólares, segundo algumas fontes, dá mesmo a impressão de que todo esse dinheiro foi bem empregado.

As cenas de ação são orgânicas, o impacto dos carros parece quase sempre real, o uso de CGI é disfarçado e há um interesse em tornar essas cenas "realistas", por mais absurdas que elas sejam. Mas eis a graça do filme: o seu exagero no modo como lida com os excessos e com a própria inverossimilhança. Afinal, não é divertido ver um carro atravessando dois prédios? Carros não voam, como diz determinado personagem. Sem falar no quanto os personagens são duros na queda em enfrentar as mais violentas batidas e sobreviver.

Falando em sobreviver, não dá pra falar de VELOZES & FURIOSOS 7 (2015) e não citar o caso da morte de Paul Walker durante as filmagens, e no quanto isso acabou funcionando tanto como uma maneira de a série ser mais levada a sério por um público maior, quanto como uma forma de gerar curiosidade por parte desse público maior em relação ao modo como resolveram modificar o roteiro do filme de modo a ajustar e a homenagear Walker, que esteve em quase todos os filmes da franquia como protagonista, junto com Vin Diesel.

Um dos pontos fracos da série ainda continua, porém, que é o uso do sentimentalismo, que parece inspirado em uma novela mexicana. Interessante Wan não ter se importado em atenuar isso. Ao contrário, os dramas dos personagens são amplificados. Não apenas por causa do personagem de Walker, mas há também o caso de Letty (Michelle Rodriguez), que havia perdido a memória no filme anterior e vive nessa situação de não conseguir lembrar mais o passado que teve com Toretto (Vin Diesel). Felizmente ou infelizmente, depende de cada um, esses momentos não chegam a ser elementos que perturbam o que mais interessa no filme, que é a ação.

E a ação, desde alguns filmes atrás, deixou de ser apenas relacionada às corridas de automóveis. Os personagens se tornaram uma equipe especializada em lidar com situações difíceis, quase como super-heróis. E nisso, Wan faz questão de tornar o papel de cada um deles bastante claro, através da fala de uma nova personagem, a hacker Ramsey, vivida pela bela Nathalie Emmanuel, de GAME OF THRONES. Ela apresenta, de maneira didática, o papel de cada elemento do grupo, o que acaba sendo de ajuda para quem nunca viu nenhum dos outros seis filmes.

Quanto à ação, a primeira a deixar o espectador rindo consigo mesmo é a dos carros saindo de dentro de um avião, com paraquedas, com o objetivo de resgatar Ramsey de um grupo terrorista. Em paralelo à missão do grupo, há o ataque constante do grande vilão do filme, vivido por Jason Stathan, que, aliás, começa muito bem, atacando o policial Hobbs (Dwayne Johnson), e fazendo com que sua vitória sobre o montanhoso ator pareça até aceitável. Statham é o sujeito que matou, por vingança, um dos membros do grupo de Toretto no final de VELOZES & FURIOSOS 6, tornando-se, portanto, inimigo número 1 da “família”.

Muito bom também o modo como o diretor (e seu montador) costura as cenas de ação, tornando-as fáceis e agradáveis de serem acompanhadas. O humor também está no ponto, graças, principalmente, ao personagem Roman, de Tyrese Gibson, mas também por causa das situações inusitadas que acontecem, como nas cenas nos Emirados Árabes Unidos, país que fornece uma locação lindíssima, aliás.

Assim, VELOZES & FURIOSOS 7 acaba sendo o filme dos sonhos de muito fã, com ação e barulho a dar com pau, personagens carismáticos e bem tratados, uma homenagem um pouco cafona mas merecida a Walker, e um trabalho com cara de produção classe A, finalmente.

sexta-feira, abril 03, 2015

O ANJO AZUL (Der Blaue Engel)



O ANJO AZUL (1930) foi o primeiro dos sete filmes que Josef von Sternberg fez com Marlene Dietrich. Minha intenção é ver todos esses trabalhos e, quem sabe, ver os demais também do cineasta, se porventura eu me encantar com sua obra. O ANJO AZUL foi realizado excepcionalmente na Alemanha (o diretor já tinha uma carreira estabelecida em Hollywood), a convite do grande astro alemão Emil Jannings, que pretendia fazer uma boa transição do cinema mudo para o falado e Sternberg lhe parecia um ótimo nome.

A fim de ampliar o mercado, O ANJO AZUL teve duas versões: uma em inglês e outra em alemão, algo que era comum no início dessa década, que ainda não acreditava no poder de expansão do cinema falado em territórios de língua estrangeira. Creio que é mais válido ver a versão em alemão, levando em consideração a nacionalidade de Jannings e Dietrich. Curiosamente, a versão em inglês, dada como perdida durante algum tempo, conta com o áudio dos próprios astros.

Havia visto um filme que parecia uma espécie de variação deste, o brasileiro ANJO LOIRO, de Alfredo Sterheim. E confesso que ainda prefiro o brasileiro. Ainda assim, foi muito bom entrar em contato com este trabalho de Sternberg, cujas tonalidades ainda trazem influências do expressionismo alemão, principalmente quando mostra o velho professor (Jannings) caminhando pelas ruelas até chegar ao clube onde Lola Lola (Dietrich) está dando seu espetáculo.

Na trama, o professor Immanuel Rath é um senhor que costuma ser alvo de chacota pelos seus alunos, embora seja um homem respeitado pela comunidade de sua pequena cidade. Certo dia, ele descobre, através de pequenos postais com a foto de Lola Lola, que ela está se apresentando como cantora (e usando roupas muito sensuais) em um clube noturno lá perto. Ele não resiste à tentação e vai visitá-la. Inclusive no camarim, onde é visto com respeito pelos membros do grupo itinerante, e também pela estrela. Não demora para que ele decida jogar tudo pra cima e se aventurar como marido dela.

Este ato de paixão cega acaba por tornar a vida do velho professor o início de uma jornada aos infernos. Mas o curioso é que O ANJO AZUL transcende o mero jogo moral de ver a cantora sensual como uma espécie de anjo do mal ou responsável pela queda de um bom homem da sociedade. O filme nunca a coloca como demoníaca ou algo do tipo. O desejo, aliado à falta de bom senso de Immanuel, é que é o seu próprio inimigo. A questão da moral também se mostra no posicionamento da câmera, no extracampo, que prefere não mostrar Immanuel em situação ainda mais decadente do que já está.

Há também um interessante trabalho de som, que, para as produções daquele período, é bastante criativo, como nas vezes em que o professor está dentro do camarim e a porta se abre e ouvimos o barulho do clube, com os artistas se apresentando e os espectadores fazendo barulho.

O ANJO AZUL ajuda bastante a entendermos o fenômeno Marlene Dietrich, ao flagrarmos a atriz ainda na casa dos vinte anos, e, portanto, sem a expressão mais grave que apareceria nas produções hollywoodianas. Destaque também para as belas pernas da moça. Apesar de as vestimentas parecerem hoje estranhas, não dá para negar o quanto deveriam ser ousadas naquela época.

quarta-feira, abril 01, 2015

CINDERELA (Cinderella)



Um dos maiores temores desta versão em live action de CINDERELA (2015) seria ser careta demais para os novos tempos. Porém, a Disney tem uma equipe de produção admirável e o resultado não deixa de ser agradável, apesar de a narrativa ser já bem conhecida de quase todas as plateias. Além do mais, é importante que novos espectadores entrem em contato com histórias em que o bem e o mal são facilmente percebidos, algo pouco comum em tempos em que os contos de fadas procuram não exagerar mais no maniqueísmo, até mesmo colocando uma vilã como anti-heroína, como foi o caso de MALÉVOLA.

Algo que salta aos olhos nesta produção dirigida por Kenneth Branagh é a requintada fotografia de cores vivas e a direção de arte primorosa. Sem falar no figurino da vilã, a malvada madrasta vivida por Cate Blanchett. Ainda nos aspectos técnicos, mas já entrando no território da gramática cinematográfica, há um uso destacado de belos travellings de distanciamento em momentos de tristeza e solidão das personagens, um recurso bem antigo do cinema, mas que ainda continua bastante válido na construção das narrativas.

Antigo, aliás, é uma palavra que se aplica bem a CINDERELA. Não há a menor intenção de fazer algo moderno nesta adaptação. Há, na verdade, uma intenção de resgatar velhos valores. Ella (Lily James, da série DOWNTON ABBEY) é uma moça doce demais, que acredita na bondade, na gentileza e na coragem, e o Príncipe (Richard Madden, de GAME OF THRONES) é um romântico que quer casar por amor com a jovem simples e bela que ele encontrou na floresta.

Como alguns momentos da história já estão bastante presentes até mesmo no nosso inconsciente coletivo, como a busca pela dona do sapatinho de cristal, o que acaba funcionando como algo verdadeiramente tocante acontece no início, isto é, momentos antes de Bella se tornar uma espécie de empregada para a Madrasta e suas duas filhas.

No mais, o filme funciona muito bem para manter viva a tradicional grife Disney, que apesar das tendências modernas que se tornaram urgentes com o surgimento da Pixar e sua compra pela empresa do Mickey, há sempre uma necessidade de se voltar para o passado dourado da produtora, quando o material mais utilizado era o dos contos de fadas.

Uma bem-vinda surpresa na sessão de CINDERELA é o curta-metragem de oito minutos FEBRE CONGELANTE, dos mesmos diretores de FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE. No curta, Elsa procura fazer uma festa surpresa de aniversário para sua amada irmã Anna, utilizando seus poderes de frio. Acontece que ela pega um resfriado. Há uma canção de aniversário tão contagiante que se fosse bastante divulgada até poderia substituir o tradicional "Parabéns pra você". O curta acaba sendo mais agradável de ver do que o longa. Apesar de algumas poucas mancadas, a Disney continua com tudo no que se refere à qualidade de suas produções. Especialmente as animações.