domingo, novembro 30, 2014

SAINT LAURENT



Quanta diferença ver este SAINT LAURENT (2014) e a cinebiografia YVES SAINT LAURENT, dirigida por Jalil Lespert, também lançada este ano. O filme de Lespert tinha uma intenção bem maior de apresentar os fatos de maneira didática para que o espectador totalmente leigo na vida e na obra do estilista francês aprendesse um bocado. Por isso foi bom a versão de Bertrand Bonello ter sido lançada nos cinemas depois, uma vez que não só complementa o filme de Lespert, como também se mostra um trabalho bem mais bonito em todos os sentidos.

Bonello apresenta uma paleta de cores de encher os olhos, que transparece tanto nas cenas nas boates, nos anos 1960, quanto no último e ultracolorido desfile, de 1976, que de certa maneira fecha o recorte do filme, iniciado em 1967. Aqui não há espaço para os pais de Yves (Gaspard Ulliel) e os seus primeiros passos rumo à alta costura. O estilista já é um nome consagrado quando apresentado desde o início. Também há pouco espaço para o relacionamento dele com Pierre Bergé (Jérémie Renier), não apenas amante, mas o homem por trás das negociações da marca Yves Saint Laurent no mundo todo.

O curioso de SAINT LAURENT é o quanto o filme procura se fechar, não apenas não entregando tão facilmente seus personagens, mas também na maneira como a câmera mostra poucos planos gerais, preferindo planos fechados, fugindo do lugar comum de mostrar-se um plano mais aberto para só depois fechar o plano e em seguida mostrar close-ups.

Não há também muita preocupação em deixar o espectador totalmente consciente do que está acontecendo, embora também não seja um filme difícil de acompanhar. Inclusive, há um momento em que Bonello usa o split-screen para mostrar eventos importantes acontecendo no mundo, em paralelo com as passarelas. O uso desse recurso se mostrará ainda mais elegante perto do final.

Uma das cenas mais belas acontece em uma boate, na primeira aparição da beldade Aymeline Valade, que interpreta Betty, uma moça que desfila para um concorrente de Yves, mas que é convidada para trabalhar para ele e se torna uma das amigas queridas. Na referida sequência, Betty se mostra como uma deusa, ao mesmo tempo em que também vemos que ele só a escolhe porque se enxerga nela, numa espécie de transferência que os psicólogos descreveriam melhor. O fato é que a imagem daquela mulher se levantando para dançar na pista é apaixonante.

No entanto, o amor de Bonello pelas mulheres, muito bem mostrado em um de seus melhores trabalhos, L'APOLLONIDE – OS AMORES DA CASA DE TOLERÂNCIA (2011), é um pouco deixado de lado em SAINT LAURENT, já que ele precisa focar naquele personagem e seus relacionamentos afetivos com homens. Além de Pierre Bergé, passa pela vida de Yves também uma grande paixão, Jacques de Bascher, vivido com elegância e entrega por Louis Garrel. Jacques é o homem que ameaça não só a relação com Pierre, mas também a própria grife, já que a relação dos dois também está diretamente ligada ao uso de drogas e álcool.

E isso o filme de Bonello enfatiza bastante, fazendo com que algumas cenas emulem estados de espírito alterados por essas substâncias, bem como o próprio espírito da época – o ano de 1967, embora não seja o ano que os dois se conhecem, é conhecido como o ano mais lisérgico do século XX. Além do mais, o vício de Saint Laurent nas pílulas vêm de muito cedo, lembrando bastante a vida de outro nome importante da cultura pop, Brian Epstein, o empresário dos Beatles, que também era gay, enveredava por lugares sombrios à procura de aventuras e tomou pílulas até perder parte da sanidade mental.

No mais, há uma trilha sonora magnífica, que equilibra tanto as canções do mundo da contracultura ("I put a spell on you" toca em versão do Creedence Clearwater Revival e ouvimos "Venus in Furs", do Velvet Underground, em uma versão alternativa) quanto a música erudita – ouvimos Maria Callas em um dos pontos altos do filme. Além do mais, sair da sessão ao som de "Faithful Man", de Lee Fields & The Expressions, é animador.

sábado, novembro 29, 2014

BOA SORTE



BOA SORTE (2014) é o primeiro longa-metragem de ficção de Carolina Jabor, filha de Arnaldo Jabor e uma das sócias da Conspiração Filmes. Venceu o prêmio do público do Festival de Paulínia e tem uma simpatia e uma ternura que são bem-vindos. Afinal, histórias de amor são sempre atraentes. Só é preciso que tudo conspire para que o resultado saia satisfatório.

A trama acompanha o envolvimento de João, rapaz viciado em remédios, que vai parar em uma clínica psiquiátrica, e a paciente que lá encontra, uma garota que está morrendo em consequência da AIDS. O relacionamento gera alguns momentos especialmente emocionantes, tanto pela entrega física de Deborah Secco à sua personagem (ela emagreceu bastante para aparentar alguém doente) e a naturalidade com que lida com o papel, quanto pelo trabalho inspirado do jovem João Pedro Zappa, um pouco por ele não ser muito conhecido e não gerar associação de seu papel com outros trabalhos.

Na clínica, ele conhece o amor pela primeira vez com alguém que já aceitou a própria morte iminente. Mas que nem por isso se sente infeliz. Ao contrário, é Judite, personagem de Deborah, que traz felicidade para a vida do até então zumbi João, desde que os dois se conhecem até a amizade se transformar em um relacionamento mais íntimo. Porém, como é previsível, essa paixão está fadada a se transformar em dor.

A história é baseada no conto “Frontal com Fanta”, do cineasta Jorge Furtado, que assina o roteiro com seu filho Pedro, e é possível perceber um pouco da espirituosidade dos diálogos do diretor de MEU TIO MATOU UM CARA (2004) em alguns momentos. Talvez o filme ficasse até melhor se fosse dirigido por ele. Mas BOA SORTE é uma bela estreia, ainda que suas passagens mais dramáticas nem sempre sejam convincentes. Sorte é que o filme aposta mais na leveza e em momentos divertidos.

Duas atrizes mais maduras interpretam personagens importantes da trama: Cássia Kis Magro, como a psiquiatra da clínica, e Fernanda Montenegro, como a avó de Judite. Fernanda, como sempre, por mais que pareça se repetir um pouco, é responsável por momentos comoventes, principalmente quando contracena com Zappa. No mais, é desejar boa sorte para Carolina Jabor neste e nos próximos filmes que dirigirá.  

quinta-feira, novembro 27, 2014

O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet)



Muito boa a oportunidade que tive de rever O SÉTIMO SELO (1957), filme tão reverenciado por tantos cinéfilos e estudiosos do cinema, mas que não cheguei a apreciar de verdade quando o vi em VHS. No cinema e, ainda mais em película bem conservada e boa projeção, é outra coisa. É como se eu voltasse a ficar de bem com Bergman de novo, que durante algum tempo foi sempre aquele diretor que eu deixava pra ver depois, com calma, até por ele ter uma filmografia bem extensa.

O filme foi lançado na Europa logo após SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR (1955), obra que o consagrou e que, assim como O SÉTIMO SELO, teve passagem por Cannes. Hoje muitos acham injusto Bergman ter perdido a Palma de Ouro para SUBLIME TENTAÇÃO, de William Wyler, mas premiações têm dessas coisas. O que mais importa é o quanto o filme sobreviveu sem deixar de ser relevante e sem perder a sua força.

O SÉTIMO SELO só seria lançado nos cinemas brasileiros em 1974 e aí vemos o quanto temos sorte atualmente de ter em fácil acesso, nos sites de compartilhamento da vida e em ótima qualidade, toda a filmografia do cineasta à disposição. Basta querer. Sem falar no caminho legal, que é o das ótimas versões em DVD e BluRay da maioria de seus filmes à venda em lojas nacionais e estrangeiras.

Diferente de MORANGOS SILVESTRES (1957), que tem uma melancolia mais constante e muito presente, O SÉTIMO SELO equilibra o aspecto sombrio da presença da morte e da peste negra de uma Suécia medieval com momentos de humor, de leveza, em especial as cenas envolvendo a trupe de saltimbancos. Mas apesar da beleza de Bibi Andersson que faz uma personagem nessa trupe, o que mais chama a atenção mesmo é o drama de Antonius Block (Max Von Sydow), o cavaleiro que volta das cruzadas totalmente desiludido, após ter lutado em vão por uma religião cheia de falhas, enganações e outras atrocidades.

Diante da morte iminente, personificada por Bengt Ekelund, que lhe concede um tempo para uma partida de xadrez, ele procura o sentido da vida e a existência de Deus, já que sobre isso nem a morte sabia. Assim, não deixa de ser tocante o momento em que ele encontra uma jovem acusada de bruxaria e prestes a ser queimada na fogueira, para saber se ela teve contato com o diabo, de modo que ele pelo menos tivesse algum intermediário para encontrar Deus. Nem mesmo isso. Apenas o nada absoluto. Aliás, a cena da jovem queimando na fogueira lembra um pouco a da obra-prima DIAS DE IRA, do dinamarquês Carl Th. Dreyer, ainda que menos intensa.

Não só Antonius, mas praticamente todos os personagens de O SÉTIMO SELO estão destinados a sucumbir diante da morte, sendo poupados apenas um casal e o bebê da trupe, que representam o que há de puro na humanidade, uma amostra do humanismo do cineasta. O amor de Bergman pelo teatro também pode ter interferido na escolha e no carinho pelo casal, já que ambos são atores itinerantes de um circo.

E foi assim que eu fiz as pazes com O SÉTIMO SELO – ninguém merecia aquela cópia tosca em VHS da Continental – e fico na torcida para que arrange um tempo para me dedicar um dia à obra desse cineasta que influenciou de maneira forte a obra de dois dos meus diretores favoritos, Woody Allen e Walter Hugo Khouri. Não posso renegar o mestre e reverenciar tanto os discípulos.

sábado, novembro 22, 2014

TRÊS FILMES FRACOS

 

Ok, comparando com os blogs de outros colegas cinéfilos, este aqui até que não está tão abandonado. Mas desde já peço desculpas aos fiéis leitores ou aos ocasionais pelos textos meio atabalhoados. O tempo parece que tem estado do lado apenas do Mick Jagger esses dias. Mas vamo que vamo com uma postagem tripla e comentários rasteiros de filmes que não merecem mesmo muitas palavras.

ISOLADOS 

Sempre que vemos algum filme de horror brasileiro no circuito, não há como não torcermos por seu sucesso, tanto nas bilheterias quanto de produção artística. Infelizmente ISOLADOS (2014), de Tomas Portella, não é um de nossos melhores exemplares. Possui até alguns momentos que remetem a alguns filmes de horror e mistério de nosso grande mestre Walter Hugo Khouri (gosto especialmente da casa cheia de "janelas" no meio da floresta), mas no geral é um filme que procura apostar mais na atmosfera do que no roteiro e dá com os burros n’água. Na trama, um casal vivido por Bruno Gagliasso, um médico, e Regiane Alves, sua paciente com problemas de depressão, vai até uma casa situada em um local afastado da cidade justamente quando um terrível assassino de mulheres está à solta. O filme traz uma sucessão de clichês que só agradam mesmo os fãs de cinema de horror que não se importam tanto em ver obras ruins. Eu meio que me incluo nesse grupo, portanto, não vi a apreciação de ISOLADOS como uma perda de tempo, mas como mais um passo, ainda que errado, do cinema de horror no Brasil. Aos poucos, a gente chega lá.

O CANDIDATO HONESTO

Justo quando eu começava a simpatizar com Leandro Hassum, graças ao divertido VESTIDO PRA CASAR, eis que lá vem ele com mais uma parceria com o nefasto Roberto Santucci, o mesmo dos horríveis ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE (2012) e sua continuação (2013). O CANDIDATO HONESTO (2014) é uma versão mequetrefe de O MENTIROSO, comédia divertida com Jim Carrey. Na versão brasileira, Hassum interpreta um político corrupto que, da noite para o dia, depois de um encontro com sua avó moribunda, passa a ser incapaz de mentir ou de fazer qualquer ato imoral. Isso acaba por atrapalhar completamente sua campanha. O destaque aqui é o apelo para os palavrões, que até então não tinham aparecido nas comédias de Hassum. Acabou tornando o produto final ainda mais vulgar. E olha que eu não tenho nada contra palavrões. Eles apenas não combinaram em nada aqui neste filme que não tem nada que se aproveite.

FÚRIA (Tokarev / Rage)

É impressionante a quantidade de filmes em que Nicolas Cage se autossabota, como tivesse cometido um crime terrível e agora precisasse se purgar através de filmes ruins. Tudo bem que cinco anos atrás tivemos a oportunidade de vê-lo protagonizando VÍCIO FRENÉTICO, de Werner Herzog, mas é pouco em uma filmografia de cerca de três a quatro filmes por ano. Quando FÚRIA (2014) teve o seu trailer disponibilizado e o nome do pouco conhecido cineasta espanhol Paco Cabezas foi citado, imaginou-se que poderia ser uma espécie de resgate aos bons tempos de Cage, já que o cineasta tem dois filmes aplaudidos pela crítica – APARECIDOS (2007) e CARNE DE NEÓN (2010) – e talvez pudesse fazer alguma diferença no comando desse filme sobre morte, máfia e vingança. Na trama, Cage é um sujeito que já fez parte da máfia, mas que agora é um homem desligado dos negócios ilícitos. Quando sua filha é sequestrada, ele não vê outra alternativa a não ser ir em busca dos possíveis criminosos, da maneira mais violenta que pudesse. Se ao menos FÚRIA carregasse mais nas tintas da violência gráfica, talvez fosse um trabalho que chamasse mais a atenção, mas nem mesmo isso tiveram a coragem de fazer.

sexta-feira, novembro 21, 2014

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (The Graduate)



Normalmente, quando um artista do cinema, principalmente um cineasta, morre, faço questão de ver algum de seus filmes como forma de homenageá-lo. Anteontem foi a vez de Mike Nichols nos deixar. Embora pouco valorizado dentro da política dos autores, trata-se de um diretor com uma carreira de destaque, que foi tanto relevante para ajudar a criar a chamada “Nova Hollywood”, justamente com este A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967), quanto por seus trabalhos mais convencionais feitos ao longo dos anos, mas que quase sempre traziam algo de especial. Não cabe aqui citar cada um de seus trabalhos, até por eu não ter visto todos, mas o caminho que ele trilhou foi marcante. Pode-se dizer que o seu último grande sucesso popular foi CLOSER – PERTO DEMAIS (2004), que angariou uma impressionante legião de fãs.

Quanto à sua contribuição para a "Nova Hollywood", eu achava que no livro Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood o escritor Peter Biskind tivesse dado maior destaque a esse clássico moderno, já que A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM foi responsável, junto com com BONNIE & CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, de Arthur Penn, a iniciar oficialmente essa nova fase do cinema americano feito nos estúdios. Mas infelizmente não há muitas informações sobre o filme de Nichols no livro. Talvez por não ter muita fofoca e intriga em jogo.

Mas o que importa é o valor do filme, que além de ser retrato de uma revolução social de um país, é também uma obra de arte que resiste ao tempo e continua admirável e emocionante. Basta ver o começo, com um meditativo e dormente Dustin Hoffman dentro de um avião e depois saindo do aeroporto para sua casa, com a canção "Sound of Silence", de Simon & Garfunkel, ao fundo, para perceber que estamos diante de um filme especial. Aliás, a trilha sonora da dupla é fundamental para que a emoção tome conta da gente.

Na época, Hoffman já tinha 30 anos, mas convenceu muito bem na pele de Ben Braddock, um rapaz tímido e atrapalhado de 20. Recém-saído da faculdade, mas sem saber o que fazer da vida, sendo cobrado pela família e amigos da família, o rapaz que só queria fugir de tudo teve uma chance de ter uma guinada na vida ao ser seduzido por uma mulher casada e que teria idade para ser sua mãe, a Sra. Robinson, vivida com brilhantismo por Anne Bancroft. Todas as cenas envolvendo o relacionamento de Ben com aquela mulher são tratadas com muita inteligência por Nichols. Impossível esquecer a montagem acelerada de quando Ben vê pela primeira vez o corpo nu da Sra. Robinson e entra em pânico. Ou da primeira vez no hotel.

Mas o filme consegue melhorar ainda mais com a entrada em cena da filha da Sra. Robinson, Elaine, vivida pela belíssima Katharine Ross. Assim, pode-se dizer que o filme é dividido em lado A e lado B, sendo que o primeiro trata de sexo enquanto o segundo trata de amor. Elaine, apesar de ser uma moça proibida, acaba se tornando o grande amor e o verdadeiro sentido para a vida de Ben. A última cena dos dois é tão linda que consegue superar até mesmo aquilo que tentou representar. Não é maravilhoso quanto isso acontece?

quinta-feira, novembro 20, 2014

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA - PARTE 1 (The Hunger Games: Mockingjay - Part 1)



A terceira parte de JOGOS VORAZES é a primeira curva descendente de uma franquia que começou muito bem e prosseguiu surpreendentemente melhor em sua segunda parte, JOGOS VORAZES - EM CHAMAS (2013). Ter uma atriz bonita e talentosa como Jennifer Lawrence ajudou bastante a manter a chama acesa, mas sabemos que isso não é o suficiente. Foi uma soma de fatores que fizeram com que esta franquia mais dirigida ao público juvenil também caísse nas graças da crítica.

Não foram também os livros, que não têm, por exemplo, o mesmo prestígio da série Harry Potter. Porém, como tratam de outras questões que não há a magia, mas a ideia de uma sociedade distópica, como em outros clássicos da literatura – 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, são exemplos – as adaptações para o cinema da epopeia de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrecen) também despertam interesse de um público mais maduro.

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – PARTE 1 (2014) continua com Francis Lawrence na direção, depois da bem sucedida experiência com EM CHAMAS. Não temos mais uma repetição dos tais jogos, que aparecem no primeiro e no segundo filmes, mas uma trama envolvendo um bloco rebelde que foi sendo construído abaixo do Distrito 13 e que planeja utilizar o símbolo de vencedora e de rebelde de Katniss para desmantelar o poder autoritário da Capital e do Presidente Snow (Donald Sutherland).

O problema é que este novo filme não consegue repetir nem a mesma excelência do segundo nem o mesmo vigor do primeiro. Um dos motivos talvez esteja em ser uma obra incompleta, dependendo da segunda parte, mas isso não chega a ser uma grande desculpa, já que outras franquias conseguiram se sair muito bem com essa estrutura episódica. Logo, há, de fato, problemas tanto no roteiro, que é derivado de um livro considerado por quem leu como sendo inferior aos demais, e há também problemas de dramaturgia, com diálogos fracos e alguns momentos bem pouco inspirados.

Ainda assim, trata-se de um filme que tem o seu valor, não exatamente pela presença de Katniss, que aqui aparece mais chorando do que em ação, o que pode incomodar um pouco quem está acostumado a vê-la em ação nos outros dois filmes. Há uma sequência de bombardeiro bem interessante, mas é pouco. Assim, quem acaba brilhando mais são personagens secundários, como Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), que aparece liderando um grupo de rebeldes em uma cena digna de alguns bons filmes de espionagem.

Como a relação que se estabelece entre rebeldes e o governo é ainda de distanciamento, a presença de um especialista em invasão de redes de computador (Jeffrey Wright) acaba também sendo muito bem-vinda. Falando em excelente elenco, muito bom ver as breves participações de Philip Seymour Hoffman, que são mais do que se esperava, tendo em vista que algumas das falas de seu personagem foram cortadas por causa de seu falecimento em fevereiro, durante as filmagens. Do jeito que ficou, seu personagem continua bastante presente, exceto em uma sequência em que Julianne Moore, a presidente dos rebeldes, fala dele como se ele não estivesse mais entre nós, como numa aparente e discreta homenagem.

Outro problema de A ESPERANÇA – PARTE 1 vem desde o primeiro JOGOS VORAZES (2012), que é a falta de carisma do personagem Peeta (Josh Hutcherson), que fica retido na Capital, sendo usado pelos vilões como um joguete em programas de televisão feitos para abalar as estruturas emocionais de Katniss. O problema parece estar no ator que o interpreta, já que, dado o histórico do casal dentro dos jogos, deveria haver uma maior torcida da plateia pelos dois.

Depois do final pouco satisfatório, que já era de esperar que fosse com um gancho, resta aguardar a conclusão e torcer para que ela ajude a balancear os problemas deste terceiro filme. O que se espera é que Katniss se mostre novamente mais ativa e menos frágil. Não que a fragilidade de sua personagem não seja uma qualidade, mas sempre se espera mais da moça símbolo da resistência. De uma boa lembrança do filme, guardamos a canção que a própria Katniss/Jennifer Lawrence canta e que tem uma força e uma beleza admiráveis.

terça-feira, novembro 18, 2014

ASSIM FALOU O AMOR (Minnie and Moskowitz)



Depois da decepção que foi para mim OS MARIDOS (1970), com personagens masculinos chatos numa narrativa que parece não querer terminar, a impressão que eu tive com ASSIM FALOU O AMOR (1971), o trabalho seguinte de John Cassavetes, foi completamente oposta: embora não seja uma comédia romântica convencional, o filme é cheio de amor e tem uma leveza que não se costuma ver nos outros títulos do cineasta.

Ele continua mordendo e assoprando, mas há mais uma trégua para o espectador, já que o personagem masculino da vez é muito simpático e carismático. Seymour Moskowitz, vivido pelo velho amigo do diretor Seymour Cassel, é tudo o que não se esperaria de um par romântico. Desajeitado, feio, com uma barba e um bigode que passam um ar de sujeira, sem classe e sem dinheiro, ele acaba representando para a personagem, a adorável Minnie Moore, de Gena Rowlands, aquilo que ela não encontrou em homens ricos e cheios de cultura.

Aquele humilde atendente de estacionamento não se conforma em ser inferior na escala social à bela e elegante curadora de museu. E sua intenção em ganhá-la é tanta que ele tenta até no grito. Aliás, como se grita em ASSIM FALOU O AMOR. Um dos blind dates de Minnie (em cena brilhante de Val Avery), inclusive, é um sujeito que fala tão alto que incomoda. E faz rir.

E falando em fazer rir, é impressionante o quanto os limites entre o drama e a comédia são tênues no filme. Embora muitas vezes nos peguemos rindo de orelha a orelha, há momentos, em especial os que mostram a solidão e a carência afetiva dos personagens, que são de fato muito tocantes. Há uma cena que trafega entre o riso e o choro, que é a cena da caminhonete, perto do final.

Apesar de ser uma das obras mais "feel good" do diretor – provavelmente a mais, nesse sentido –, ASSIM FALOU O AMOR é uma screwball comedy que reinventa as histórias de amor. Não apenas por colocar um ogro no papel de um possível galã, mas também pela rejeição de Cassavetes à velha fórmula hollywoodiana das comédias românticas.

Seus personagens eternamente inseguros e amargos continuam presentes. E se uma cena tem muito romance, ele a coloca junto com um mix de ansiedade e incerteza que corrói a alma de seus heróis. Sempre que seus personagens estão ficando felizes, acontece algo para os deixarem tristes. É um filme raivoso e ao mesmo tempo delicado. E é nessas curvas sinuosas que Cassavetes nos presenteia com um de seus mais belos trabalhos.

domingo, novembro 16, 2014

DEBI & LÓIDE 2 (Dumb and Dumber To)



O tempo voa. Lá se vão 20 anos que DÉBI & LÓIDE - DOIS IDIOTAS EM APUROS (1994) revelou o talento dos irmãos Peter e Bobby Farrelly para o mundo, ainda que até hoje o filme seja um tanto estigmatizado como tão idiota quanto seus protagonistas. Ainda assim, independentemente do modo como é visto, trata-se de um filme que tem um bom séquito de fãs, inclusive de alguns intelectuais.

Até fizeram uma continuação em 2003, chamada DEBI & LÓIDE 2 – QUANDO DEBI CONHECEU LÓIDE, mas passou longe da popularidade do primeiro. Tanto por não ser dirigido pelos irmãos Farrelly como por também não ser protagonizado por Jim Carrey e Jeff Daniels, mas por dois jovens atores.

A necessidade de um DEBI & LÓIDE 2 (2014) "de verdade" veio em um momento particularmente propício para os principais envolvidos: os irmãos Farrelly andam com a popularidade em baixa – OS TRÊS PATETAS (2012) foi fracasso de público e crítica e PASSE LIVRE (2011) dividiu opiniões – e Jim Carrey também está apagado como comediante e protagonista desde SIM SENHOR (2008).

Outro possível agravante talvez fosse a boa repercussão de Jeff Daniels como ator sério graças à série jornalística e política THE NEWSROOM. Porém, como bom ator que é, ele conseguiria entrar no velho personagem bobão tranquilamente. O resultado: DEBI & LÓIDE 2 é um filme simpático e com alguns momentos que rendem boas gargalhadas, mas que ainda parece uma sombra do que foi o primeiro.

O filme acompanha o nosso tempo cronológico e se passa exatos 20 anos após o primeiro. Lloyd/Lóide (Jim Carrey) estava esse tempo todo em uma instituição para doentes mentais, sem sequer balbuciar uma palavra e agindo como um bebê. Em todo esse tempo, o fiel amigo Harry/Debi (Jeff Daniels) esteve visitando-o e até mesmo trocando suas fraldas. Só que um problema de saúde de Harry fez com que Lloyd acordasse de seu fingimento de 20 anos. O bom é que ambos acharam a pegadinha de Lóide sensacional.

E lá se vão os dois amigos em busca de um doador de um rim para Harry. A princípio, conversando com seus pais, depois, em busca de uma filha que supostamente ele teve nos anos 1990 com uma moça bem generosa de sua juventude. Ao procurar por ela, dão de cara com uma envelhecida Kathleen Turner, que já faz algum tempo não se importa mais em aparecer totalmente diferente do objeto sexual que foi no início dos anos 1980.

A busca pela filha rende umas boas piadas. E outras nem tão boas. A melhor delas talvez seja a que envolve fogos de artifício; outra bem boa envolve um trem. Assim, o filme vai tropeçando, mas mantendo a dignidade dos personagens originais. Pode-se dizer que em tempos de comédias fracas no cinema, DEBI & LÓIDE 2 se destaca como uma das mais engraçadas da temporada. E deve trazer o tão querido retorno à popularidade aos principais envolvidos.

quarta-feira, novembro 12, 2014

BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood)



Richard Linklater acabou se tornando um diretor famoso pelo interesse no fluxo do tempo em seus filmes. BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (2014) seria uma espécie de versão mais arriscada do que ele havia feito nos filmes de Jesse e Celine, ANTES DO AMANHECER (1995), ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004) e ANTES DA MEIA-NOITE (2013). Se a (por enquanto) trilogia foi sendo montada de maneira acidental, o mesmo não se pode dizer de sua nova empreitada.

Que nem é tão nova assim, era apenas secreta: Linklater começou a filmar em 2002 e terminou em 2013, acompanhando a vida de um garoto dos 6 aos 18 anos chamado Mason (Ellar Coltrane). A título de curiosidade, o cineasta russo Nikita Mikhalkov já havia feito algo parecido, entrevistando anualmente sua própria filha, em formato documentário, em ANNA DOS 6 AOS 18 – filme que não vi ainda, mas me bateu uma vontade enorme de ver o quanto antes.

Conhecendo Linklater e seu interesse por temas políticos e filosóficos, já era de se esperar que haveria no filme momentos de reflexão, seja a partir de questionamentos existenciais dos próprios personagens, seja através de belos momentos de uma vida normal, ainda que cheia de percalços, principalmente por causa das várias mudanças de residência proveniente de problemas financeiros ou dos casamentos fracassados da mãe, vivida por Patricia Arquette.

Ethan Hawke é o pai ausente, mas esforçado, que tenta de tudo para fazer a alegria dos filhos nas vezes em que aparece para visitá-los (Lorelei Linklater, filha do diretor, participa como irmã de Mason). Hawke faz um pai cheio de carisma e bom humor, que muito lembra seu personagem Jesse, especialmente o do terceiro filme, já às voltas com a paternidade e com a difícil relação com a esposa. Seu personagem é responsável por muito da brilho do filme. Há tantos pais ruins no cinema americano (muitas vezes pela formação familiar dos diretores) que chega a ser até um alívio ver um pai como o interpretado por Hawke.

Seu personagem representa também um lado mais democrata de um estado americano dominado por pessoas que compram armas como se comprassem roupa, o Texas. Bem o tipo apresentado por Michael Moore em TIROS EM COLUMBINE. Há, inclusive, um aniversário de Mason, em que ele é presenteado com um rifle pelo avô. Essa cultura das armas é vista com um leve tom de crítica social. Apesar disso, o fato de a trama nunca sair do Texas também pode ser visto como uma espécie de homenagem ou visão carinhosa para com seu terra natal, mostrando, inclusive, algumas de suas belezas naturais nas cenas de passeio.

De tanto destacar a figura do pai e outros aspectos secundários de BOYHOOD, dá até para pensar que os personagens adultos são mais interessantes e importantes que o jovem protagonista, o que se constituiria numa falha do projeto de Linklater. É uma maneira de ver as coisas, mas também podemos ver o quanto é vazio e até mesmo triste a fase da adolescência. Até pelo fato de o protagonista ser um tipo mais introspectivo desde a infância.

A primeira cena, aliás, já foca no rosto ainda angelical do garoto, deitado na grama e olhando o céu azul, como se já tivesse discernimento suficiente para pensar sobre a vida. O ator que faz o garoto conta em entrevista que nem lembra dessas primeiras cenas. Então, não deixa de ser mesmo curioso tentar imaginar o que se passa na cabeça de uma criança de seis anos, ainda que todos já tenhamos passado por essa fase.

A opção do filme por momentos que valorizam mais os fatos normais da vida do protagonista em vez de situações extraordinárias é quebrada em alguns momentos bem interessantes, como os fatos envolvendo o padrasto alcoólatra e a ida do garoto para a universidade.

No mais, são quase sempre situações corriqueiras que ganham um brilho especial por mostrarem momentos de encanto (ou de desencanto), algumas vezes contextualizadas por algum hit radiofônico do momento (bonito o começo, ao som de "Yellow", do Coldplay). Mas apesar de a maior parte da trilha sonora prestigiar a música produzida no período, por causa da influência dos pais e pessoas mais velhas, Beatles, Bob Dylan e Pink Floyd também são mencionados, cantados ou tocados.

domingo, novembro 09, 2014

MAIS UM ANO (Another Year)



Os filmes de Mike Leigh se caracterizam basicamente por mostrar, de maneira muito delicada, a melancolia na vida dos personagens. De vez em quando ele coloca personagens que fogem a esse universo, como em SIMPLESMENTE FELIZ (2008), em que a protagonista tem uma alegria de viver que desconcerta os demais personagens.

Esse universo pesaroso do diretor aparece logo na primeira cena de MAIS UM ANO (2010), em que vemos uma senhora que simplesmente não vê sentido na vida e só quer apenas remédios para dormir. Ela é interpretada por Imelda Staunton, que já havia protagonizado um outro trabalho de Leigh, O SEGREDO DE VERA DRAKE (2004). Trata-se de uma personagem interessante e é uma pena que ela fique para trás nos demais capítulos.

Os protagonistas aqui são pessoas mais felizes e equilibradas: o casal Tom (Jim Broadbent) e Gerry (Ruth Sheen). Eles são os anfitriões que, ao longo de quatro estações, recebem amigos e familiares, num recorte que não confunde o espectador com as elipses. Não é por causa delas que o filme vai ficar mais difícil. Pode ser difícil para um espectador que não tenha paciência para filmes lentos e reflexivos, como é bem o caso de MAIS UM ANO.

Uma personagem que é bem típica dos filmes melancólicos de Leigh é a melhor amiga de Gerry, a atrapalhada Mary (Leslie Manville). Trata-se da personagem mais interessante do filme, com sua vida cheia de decepções e sua fuga da realidade através da bebida ou da negação. Nem sempre ela consegue disfarçar, como quando um jovem de quem ela gosta apresenta a nova namorada. Mary está presente em todas as estações do filme e por isso é tão importante e fácil de o espectador ser solidário com seus problemas e aflições. No final, tudo parece se resumir à solidão, já que os demais, quando estão juntos com alguém ou namorando, parecem estar mais felizes.

Em MAIS UM ANO, Leigh não se importa em filmar longos planos e longas conversas em torno de apenas um único espaço físico. Se o texto não fosse tão bom e não houvesse um trabalho tão bem desenvolvido com os atores certamente o filme seria um desastre. Mas Leigh faz um filme que poderia ter sido derivado de uma peça de teatro, mas que não é. Trata-se de uma autoafirmação de um cinema intimista e humano que pouco se vê atualmente. Há um equilíbrio de forças entre aquelas pessoas felizes com a vida que levam e aquelas infelizes (Mary e o amigo bêbado do casal, por exemplo) e por isso o filme não se transforma num muro de lamentações, como acontece, por exemplo, com AGORA OU NUNCA (2002).

Uma pena que essa belezura de cinema para gente adulta só tenha sido distribuído no país quatro ano depois de seu lançamento no Reino Unido. E se não tem como ser um sucesso do pequeno circuito como foi SEGREDOS E MENTIRAS (1996), trata-se de um dos filmes mais cultuados do cineasta por muitos cinéfilos que acompanham a sua obra. Afinal, só o plano final já é de uma beleza agridoce extraordinária. MAIS UM ANO bem que mereceria ser mais reconhecido.

sábado, novembro 08, 2014

MISS VIOLENCE



Eis o tipo de filme que é muito interessante na forma, mas que parece, de alguma maneira, problemático no conteúdo. MISS VIOLENCE (2013) causou furor durante sua exibição no Festival de Veneza do ano passado e muitos o viram como um autêntico representante do novo cinema grego. A julgar pela crise difícil que passou o país nos últimos anos, dá até para imaginar que o filme possa ser alguma metáfora da situação da Grécia, assim como A SERBIAN FILM foi um representante rebelde da situação sociopolítica da Sérvia.

Isso, levando em consideração que ambos os filmes apelam para o choque, muito embora MISS VIOLENCE pareça brincadeira de criança perto da violência gráfica do filme sérvio proibido no Brasil. Tanto é que MISS VIOLENCE não teve problemas nenhum com censura no país e desconheço que tenha tido em outro país, embora seja provável que tenha.

Um filme que considero "irmão" de MISS VIOLENCE é o primeiro longa-metragem de Michael Haneke, outro cineasta que gosta de provocações, mas que já teve tempo suficiente para mostrar o seu talento. Trata-se de O SÉTIMO CONTINENTE, que mostra uma família aparentemente comum que resolve se matar. É um filme muito mais perturbador e forte, enquanto MISS VIOLENCE até poderia ser vendido como um exploitation, se tivesse mais cenas de sexo, mas o diretor Alexandros Avanos queria um filme que fosse levado a sério. E pode-se dizer que conseguiu.

A primeira cena do filme é promissora. Mostra a família se preparando para o aniversário de uma das mais jovens e depois de ouvirmos a valsa "Dance me to end of love", do Leonard Cohen, e os parabéns, presenciamos o sorriso enigmático da adolescente, que pula da janela e morre instantaneamente. A partir daí, vamos descobrindo aos poucos os podres da família, o que leva, consequentemente, ao motivo que fez com que a garota cometesse suicídio.

Mas MISS VIOLENCE consegue ser ainda mais sombrio em seu desenvolvimento, sem precisar ser muito gráfico e apostando mais na tensão gerada pelas ações do patriarca da família, o grande responsável pela demolição daquela estrutura familiar.

As cenas em que ele leva a neta para se prostituir ou que ele leva a filha para transar com um amigo são bastante incômodas. E talvez por isso que a opção por um exploitation fosse um tiro no pé. MISS VIOLENCE nasceu mesmo para incomodar. E se não faz isso de maneira tão intensa quanto o citado O SÉTIMO CONTINENTE (há uma cena em que a família passa o carro por baixo de um lava-jato rápido, como no filme de Haneke) é porque Avanos não queria algo tão depressivo e de cortar os pulsos. Apenas incomodar um pouco a audiência. E isso é perfeitamente saudável.

sexta-feira, novembro 07, 2014

INTERESTELAR (Interstellar)



A missão de Christopher Nolan é tão ambiciosa quanto à dos astronautas que pretendem procurar recursos para salvar o planeta Terra da extinção em INTERESTELAR (2014), muito provavelmente o melhor trabalho do diretor. Felizmente, o saldo foi mais do que positivo e todos aqueles problemas que se costumam ver nos filmes de Nolan (excesso de didatismo e falta de senso de humor, por exemplo) são minimizados nesta ficção científica que homenageia explicitamente a obra-prima 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick.

O didatismo até aparece, como quando um dos astronautas tenta explicar o buraco de minhoca para Cooper, o personagem de Matthew McConaughey. Esse tipo de teoria é bem parecido com a dobra espacial tão comum nos filmes da série JORNADA NAS ESTRELAS. No entanto, há tantos momentos de fundir a cuca, que Nolan está mais do que perdoado. Até porque sua história (e de seu irmão Jonathan) é tão cheia de engenhosidade e inteligência que não resta outra coisa a não ser admirar.

Quanto à falta de senso de humor em seus filmes, não deixa de ser curioso o fato de o humor vir justamente de um robô. Claramente mais uma piscadela de olho para os fãs de 2001, já que no filme de Kubrick os homens são frios e o computador HAL-9000 é o único a ter sentimentos. Em INTERESTELAR, por outro lado, não falta sentimentalismo, necessário para a dramaticidade da história. Afinal, trata-se do fim da espécie humana e uma busca desesperada por salvação.

O que pode ser um perigo em admirar tanto o filme é a excelência dos efeitos especiais, especialmente se vistos em uma sala IMAX. Aliás, devia ser obrigatório ver o filme em IMAX, com toda sua glória. Fico imaginando como seria ver numa sala IMAX com um projetor 70 mm, que dizem ter muito mais nitidez. Mas do jeito que está já é espetacular. E o fato de a janela ser em scope nas cenas não filmadas em IMAX e ter sua tela expandida para cima e para baixo nas cenas com a tecnologia ajudam bastante a percebermos o quanto a imagem fica mais bonita e o som ainda mais potente.

Felizmente, nem só de efeitos especiais de cair o queixo se faz INTERESTELAR. O filme tem um diálogo com o tempo e com a solidão enternecedor. E começa desde o momento em que Cooper precisa partir e não sabe quando voltará. Isso entristece profundamente a filha devotada e inteligente Murph (Mackenzie Foy, na versão infantil; Jessica Chastain, na versão adulta).

Um dos problemas do roteiro, porém, acontece justamente no recrutamento de Cooper, que é muito rápido e soou pouco convincente. Faltou mais capricho nessa parte. Mas, uma vez que essa sequência passa, o que vem a seguir é de estremecer o corpo e excitar o coração. Os momentos anteriores à entrada no buraco de minhoca são cheios de emoção e suspense, já que não se sabe nada do que os astronautas verão do outro lado. Ou se sobreviverão àquilo.

A degeneração da Terra através de uma poeira que destrói plantações e faz a população mundial sofrer com falta de comida e doenças é outro aspecto que o filme não deixa para trás depois que Cooper, Amelia (Anne Hathaway), o robô TARS e outros dois astronautas adentram aquele caminho desconhecido e perigoso. Assim, o filme segue num paralelo interessante (e emocionante – como não ficar comovido com os vídeos enviados para a nave?), ainda que o foco seja mais no espaço.

A música de Hans Zimmer, aqui especialmente inspirado, também contribui para toda essa carga de emoção e excitamento que o filme provoca tanto sentimentalmente quanto racionalmente. Afinal, Nolan sempre foi mesmo muito racional, vide sua visão tão cerebral dos sonhos em A ORIGEM (2010). Outro técnico digno de nota é o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, o mesmo de outra ficção científica fascinante, ELA, de Spike Jonze. As imagens são de encher os olhos, tanto na Terra quanto no espaço.

Também merece louvor a montagem de Lee Smith, colaborador habitual de Nolan, que faz com que as quase três horas de duração do filme sejam sequer sentidas pelo espectador, que se senta na poltrona do cinema como se estivesse participando também da viagem para um lugar além de nossa galáxia. E de certa forma estamos.

P.S.: Uma coisa tenho a lamentar: a quantidade cada vez maior e abusiva do número de cópias dubladas, mesmo para filmes adultos como esse. Foi preciso que eu assistisse a uma sessão adentrando a madrugada para ter o privilégio de vê-lo legendado e poder apreciar a interpretação dos atores em toda sua totalidade.

sábado, novembro 01, 2014

PASSION



É lastimável a falta de respeito de nosso circuito exibidor com o trabalho de alguns grandes mestres, que sequer têm a chance de ter seus filmes à disposição para o espectador. Como a distribuidora PlayArte resolveu deixar PASSION (2012) no limbo, não lançando sequer em DVD ainda, resolvi vê-lo por outras vias.

Com relação a De Palma, infelizmente o problema não é só no Brasil e não é só de distribuição, mas de produção também, já que um cineasta que vem somando décadas de contribuição inestimável ao cinema só conseguiu levar a cabo o seu projeto de filmar PASSION, remake de CRIME DE AMOR (2010), de Alain Corneau, graças a investimentos de produtores franceses e alemães.

Como GUERRA SEM CORTES (2007) não chegou a passar em nossos cinemas, o último filme de De Palma presente em nosso circuito foi DÁLIA NEGRA (2006). Quer dizer, lá se vão oito anos. Curiosamente, a admiração do cineasta pelo corpo feminino não chega a ser explorado como se esperava, como aconteceu em obras como DUBLÊ DE CORPO (1984) e FEMME FATALE (2002). O cartaz que mostra Rachel McAdams e Noomi Rapace se aproximando para um beijo na boca acaba funciona mais como um atrativo do que como um aperitivo para o espectador.

A trama de PASSION trafega no jogo de intrigas dentro de uma grande empresa de publicidade. Mais exatamente entre as duas personagens. McAdams é uma bem-sucedida executiva que se aproveita da ideia inteligente de sua assistente (Rapace), tomando-a para si para alçar voos maiores em sua carreira. Seu veneno de mulher-serpente acaba por contagiar a assistente, que pretende ir à forra.

Mas nem tudo é o que parece em PASSION, que já começa enganando pelo título e tem um roteiro deliciosamente confuso (bem parecido com alguns thrillers europeus). Destaque para a cena do split screen, em que vemos as duas personagens em um momento crucial da trama, sendo que De Palma brinca também com outra arte, o balé.

Esse jogo de enganos já havia sido melhor visto em OLHOS DE SERPENTE (1998), na genial cena da luta de boxe. Mas não quer dizer que não seja também brilhante no novo e subestimado trabalho. Enganar o espectador continua sendo uma das maiores habilidades de Brian De Palma, grande mestre das ilusões.