segunda-feira, junho 30, 2014

MENINA BONITA (Pretty Baby)



Hoje, mais do que na época em que foi realizado, MENINA BONITA (1978) continua sendo um filme controverso. Isso porque há uma maior fiscalização, uma maior vigilância no que se refere à prostituição infantil ou a qualquer mídia que coloque crianças em cenas ou imagens de sexo. O fato de o filme começar a sua narrativa no ano de 1917 ajuda a distanciar a situação, a dizer que aquilo é coisa do passado, como foi também a escravidão.

Desde a pré-produção, porém, muitos já sabiam se tratar de um filme complicado, delicado. Inúmeras atrizes que seriam famosas e eram ainda adolescentes na época fizeram testes para o papel de Violet, mas que depois desistiriam. De todo modo, a bela modelo Brooke Shields, um dos mais belos rostos dos anos 1980, acabou desempenhando muito bem o papel de uma jovem que cresceu dentro de um bordel.

O cartaz do filme informa: “a imagem de um mundo adulto pelos olhos de uma criança”, mas MENINA BONITA também nos oferece um pouco do ponto de vista do fotógrafo Bellocq (Keith Carradine), o homem que se apaixonaria por Violet, muito embora no começo ele tenha ficado bastante incomodado com aquela criança crescendo em ambiente de prostituição. Porém, uma vez que a paixão chega, ele se entrega a ela.

A primeira cena de MENINA BONITA mostra Susan Sarandon em close-up sofrendo as dores do parto. Em contracampo, os olhos admirados de Violet olhando para a mãe. A princípio, a impressão que dá é que ela não está sentindo dor, mas que está fazendo sexo ou se masturbando aos olhos da filha pequena. Só depois é que a câmera oferece um plano mais afastado e nos oferece a real situação.

Uma das cenas mais marcantes do filme é a que mostra o leilão da virgindade de Violet, que se mostra até mesmo feliz por finalmente poder deixar de ser uma criança para se tornar tão desejada quanto as demais mulheres que vivem naquele lugar que para ela se tornou um lar. A piscada de olho para Bellocq gera sentimentos contraditórios, uma vez que o espectador se coloque um pouco no lugar do personagem.

No que se refere às cenas de nudez da jovem Brooke Shields, ainda que se saiba que Sarandon havia lhe conseguido uma espécie de tanga da cor da pele que serviria para tapar sua genitália, não deixa de ser também uma ousadia, algo proibido, mas cujos produtores e realizadores tiveram a coragem de materializá-lo.

O que chama a atenção é o fato de a jovem personagem mostrar muita inocência em seus gestos e em sua fala, por mais que tenha aprendido muito da vida privada com as prostitutas. No elenco, além de Sarandon, é possível notar uma musa do cinema de horror italiano, Barbara Steeele, notabilizada com A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Mario Bava. Seu papel, porém, é pequeno. Ela só não é apenas mais uma das outras prostitutas do bordel porque seus olhos são inconfundíveis.

MENINA BONITA foi a estreia de Louis Malle em Hollywood, depois de uma brilhante carreira em seu país natal, só retornando à França em 1987, para realizar o cultuado ADEUS, MENINOS.

sábado, junho 28, 2014

SEGREDOS DE SANGUE (Stoker)



O primeiro momento de encantamento de SEGREDOS DE SANGUE (2013) acontece logo nos créditos de abertura. Todo o cuidado plástico que testemunhamos na direção de arte e na fotografia das produções sul-coreanas de Chan-wook Park pode ser percebido já nesses momentos iniciais. O diretor de fotografia, Chung-hoon Chung, é o mesmo de outras obras de Park. Isso já ajuda a manter as características autorais do diretor nesta sua estreia em uma produção em língua inglesa.

O outro elemento de encantamento do filme está na presença de Mia Wasikowska, essa garota de uma beleza toda especial e com uma força no olhar e na interpretação que vem conquistando mais e mais fãs desde, pelo menos, sua aparição na primeira temporada da série EM TERAPIA (2008), muito embora ela tenha feito antes outros trabalhos menos conhecidos em seu país natal, a Austrália.

A personagem India Stoker parece ter sido feita pensando nela. Mia interpreta uma garota pouco sociável que perdeu o pai em um acidente de carro, não consegue ter um bom relacionamento com a mãe (Nicole Kidman) e fica incomodada com o surgimento de um tio que ela não conhecia até então (Matthew Goode).

A personalidade do tio, de nome Charles, deixa India com um misto de atração e repulsa. Ele é um sujeito que a princípio tem interesse em sua mãe, mas que se mostra cada vez mais interessado nela. Os sentimentos contraditórios de India são muito bem incorporados por Mia, em especial no momento em que ela flagra a mãe e o tio em momentos de intimidade e foge de casa como uma forma de se vingar.

Isso acaba resultando em uma situação que fará com que India se torne não apenas cúmplice de Charles, como também mais próxima dele. Curiosamente, a persona dele é próxima da de uma vampiro, o que, junto com as mortes que aparecem durante a narrativa, acabam por aproximar o filme bastante do gênero horror, embora Park consiga, como sempre, se afastar dos clichês mais manjados do gênero.

Talvez porque o cineasta esteja mais interessado na forma do que no conteúdo, mas é o tipo de caso em que a forma é tão boa que compensa qualquer problema eventual no conteúdo, o que nem é o caso de SEGREDOS DE SANGUE. Ao contrário, há uma tal profundidade na criação da protagonista que devemos louvar também o roteiro, que curiosamente é de Wentworth Miller, o ator principal da saudosa série PRISON BREAK (2005-2009), em seu primeiro trabalho como roteirista. Tem sensibilidade, o rapaz.

sexta-feira, junho 27, 2014

O HOMEM DUPLICADO (Enemy)



Pode não ser o tipo de filme que se indique para qualquer espectador, mas certamente O HOMEM DUPLICADO (2013) é o tipo de filme que encanta aos ávidos por um tipo de cinema mais desafiador e que, ainda por cima, consegue transcender uma trama que por si só já é intrigante. A história é relativamente simples e possivelmente já deve ter sido vista em outros filmes: o encontro de um homem comum com o seu doppelgänger, termo alemão usado para designar um duplo, geralmente representando o lado mais sombrio da pessoa.

Por mais que o filme de Denis Villeneuve (INCÊNDIOS, 2010; OS SUSPEITOS, 2013) tenha uma identidade própria, ao sabermos que se trata de uma adaptação de um romance de José Saramago, é até possível pensar em outras premissas geniais do escritor português, como o fato de imaginar uma morte para um heterônimo de Fernando Pessoa (em O Ano da Morte de Ricardo Reis), fazer de Jesus o herói e de Deus o vilão (em O Evangelho segundo Jesus Cristo), imaginar um mundo em que todos ficam cegos (Ensaio sobre a Cegueira), imaginar um dia em que ninguém morre (Intermitências da Morte) etc.

No entanto, a adaptação para cinema tem um quê de David Lynch, inclusive com uma trilha sonora opressiva e um desenho de som espetacular, que convidam o espectador a ver o filme no cinema, para se ter uma melhor imersão naquele ambiente que também se pode dizer que seja kafkiano. Inclusive pelo uso da figura de uma aranha como elemento recorrente, em algumas imagens que podem perturbar o espectador. A figura da aranha também está presente em pequenos detalhes, como a própria lousa em que o professor de História Adam (Jake Gyllenhaal) ministra sua aula; ou no modo como o vidro de um carro se quebra.

O filme nos apresenta a um homem inseguro. Inseguro e desconfortável em dar sua aula de História, inseguro nos passos, no modo como se posiciona ao sentar, na maneira como é passivo quando vai para a cama com sua namorada (Mélanie Laurent). Certo dia, um colega da universidade pergunta se ele gosta de ir ao cinema. E recomenda um filme que pode ser encontrado nas locadoras. Para sua surpresa, no tal filme, há um ator em um papel muito pequeno que é o seu espelho. A partir daí ele não descansa enquanto não encontrar aquele homem pessoalmente.

O HOMEM DUPLICADO é bastante devedor de sua trilha sonora, que arrasta a trama com seus tons graves para um clima de pesadelo. Mas um filme se faz por todo um conjunto. Portanto, isso não desmerece de maneira alguma o trabalho de Villeneuve, que já havia mostrado em suas obras anteriores a sua capacidade de tecer tramas perturbadoras em diferentes situações. Aqui é um pouco diferente, pois ele entra no território do surreal, deixando o espectador pensando no filme e nos seus significados e simbolismos ao sair da sessão.

Algumas cenas são particularmente dignas de nota e atestam a grandeza da obra, como aquela que mostra os dois homens encontrando a mulher do outro, em uma situação de admirável simetria em vários sentidos (passividade de Adam e extrema atividade agressiva de Anthony e o oposto sendo visto nas mulheres). Aliás, se lamentamos a pouca participação de Mélanie Laurent, depois percebemos que a importância de sua personagem não é de modo algum diminuída.

Ao contrário, tanto ela quanto Sarah Gadon desempenham muito bem seus papéis de coadjuvantes, assim como uma envelhecida Isabella Rossellini no papel da mãe de Adam. Inclusive, a presença de Isabella pode ser uma pista para se pensar mais uma vez na possível vontade de Villeneuve em emular Lynch, dada a importância da atriz na obra do diretor americano.

Vale destacar também as imagens da cidade sempre nublada e vazia que comparece como uma espécie de personagem para a trama. A cidade é mais um elemento que compõe essa história estranha que lida com descobertas, medos, controle e submissão, dualidade, crise de identidade, realidade e sonho.

quarta-feira, junho 25, 2014

TABU (Tabu – A Story of the South Seas)



F.W. Murnau é um cineasta tão incrível que basta ver um único filme seu para saber que estamos diante da obra de um gênio. Pelo menos foi assim comigo quando vi A ÚLTIMA GARGALHADA (1924) e que aumentou exponencialmente quanto vi AURORA (1927), que considero um dos melhores filmes do mundo. Não sei bem por que motivo eu não dei continuidade a apreciação de todos os filmes do diretor ainda, mas comprei aquela edição de FAUSTO (1926) que saiu com libreto pela Folha de S. Paulo não faz muito tempo. Só não sei quando o verei. E até hoje eu nunca vi o seu filme mais popular: NOSFERATU (1922). Pois é.

Acabei vendo TABU (1931) no ano passado, logo depois de ter visto o outro TABU (2012), o de Miguel Gomes, que me deixou tão entusiasmado que até cheguei a dizer que seria um filme melhor que o de Murnau. Provavelmente algo bem apressado a se dizer. De todo modo, são dois filmes espetaculares, mas, mesmo tendo vários elementos em comum, são bastante distintos. E é sempre bom lembrar que o filme de Miguel Gomes só existe por causa do filme de Murnau. É uma homenagem. Mas deixemos o título português de lado para tratar dessa produção que o cineasta alemão fez em Hollywood.

Curiosamente, há muitos diretores e críticos que consideram TABU superior a AURORA, que é um título muito mais presente nas listas de melhores filmes de todos os tempos. O cineasta e crítico francês Eric Rohmer, que tanto bebeu de Murnau em sua rica filmografia, é um deles. O que acaba por deixar um gosto amargo com relação a TABU é o fato de ter sido o seu último filme, lançado no mesmo ano em que o cineasta morreu em um acidente automobilístico em Santa Barbara, na Califórnia, uma semana antes da estreia nos cinemas.

Murnau tinha 40 anos quando resolveu ir para o Taiti em 1929. Antes de viajar, conheceu Robert J. Flaherty, famoso por seus documentários inovadores, sendo NANOOK DO NORTE (1922) o mais celebrado, até pelo aspecto antropologista do trabalho, mostrando em primeira mão a muitos como viviam os esquimós do Polo Norte.

TABU, seria, portanto, um filme com características de documentário, dada a interferência de Flaherty, que entrou como um dos roteiristas, mas que tinha visões bem opostas às do cineasta alemão: Flaherty via o lugar como um paraíso; Murnau, via-o como um lugar onde o mal predominava, como em qualquer lugar do mundo. Predominou Murnau, que criou uma história de amor trágica, utilizando nativos locais para os papéis e fazendo um tipo bem diferente de dramaturgia, nada comum na Hollywood daquela época.

O filme começa com um tom alegre, mostrando, em harmonia, um grupo de jovens homens pescando no mar, enquanto as mulheres tomam banhos em cascatas. E logo conhecemos os nosso heróis apaixonados. Em uma das imagens mais icônicas do filme, a moça encosta a cabeça no peito do rapaz. Ambos estão apaixonados e estão muito felizes naquele momento.

Porém – há sempre um porém –, surge algo que irá acabar com a festa dos dois. Como Murnau teve experiência com o cinema de horror, que costuma começar com harmonia para depois dar continuidade em pesadelo, é natural que haja também no filme não apenas isso, mas até mesmo elementos fantásticos. O grande obstáculo surge quando a moça é escolhida para ser uma espécie de santa, virgem para sempre, intocável, a fim de afastar os maus agouros que surgiram logo depois de ataques de tubarões ao lugar. Assim, ela se torna proibida a qualquer homem da tribo, inclusive ao herói. Ele, no entanto, não aceita isso e planeja fugir com a amada.

Há um certo ar de maldição no filme. Tanto na história em si, como a impressão de que uma desgraça vai acontecer com o casal a qualquer momento, quanto com o fato de Murnau ter ficado enfeitiçado pelo lugar. Ele escrevia em cartas dizendo que não desejava mais voltar para os Estados Unidos ou para sua terra-natal. Talvez fosse melhor mesmo. A morte o esperava na Califórnia.

segunda-feira, junho 23, 2014

TRÊS CINEBIOGRAFIAS



Sei que os três são filmes completamente diferentes entre si, mas é mais uma daquelas sessões de descarrego de títulos com algo em comum que de vez em quando eu promovo aqui no blog quando estou com preguiça ou não tenho muito a falar a respeito. Então, vamos de cinebiografias hoje.

PALAVRA E UTOPIA

A história de Padre Antônio Vieira sempre me interessou. Interessa-me mais o seu magnífico texto, mas sua história de vida é interessante também, conforme pude conferir no prefácio escrito por Alfredo Bosi para a coletânea Essencial, contendo os sermões mais importantes, cartas e outros textos do maior nome do Barroco brasileiro e português. PALAVRA E UTOPIA (2000), inclusive, traz alguns trechos dos sermões. Como se trata de um filme de Manoel de Oliveira, naturalmente não é uma cinebiografia qualquer: tem todo aquele andamento mais lento e todo próprio do Seu Manoel. Três atores interpretam o padre em diferentes épocas de sua vida: Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra e Lima Duarte. Imagens do mar surgem de vez em quando nas passagens do tempo e é possível ver as trajetórias de Vieira do Brasil a Europa, a polêmica em torno de uma ideia sua sobre o Quinto Império, sua posição favorável aos índios e aos negros, comparando estes últimos aos mártires do início do Cristianismo etc. Um belo filme.

O MORDOMO DA CASA BRANCA (The Butler / Lee Daniels' The Butler) 

O mesmo não se pode dizer de O MORDOMO DA CASA BRANCA (2013), de Lee Daniels, mais conhecido como o homem por trás do horrível PRECIOSA – UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA (2009). Porém, se compararmos um filme com o outro, O MORDOMO chega a ser uma maravilha. E ainda tem o seu valor pedagógico, mostrando a história dos Estados Unidos em boa parte do século XX pelo ponto de vista deste mordomo negro (Forest Whitaker) que fugiu de sua cidade até ter a chance de se tornar um dos homens confiáveis de vários presidentes dos Estados Unidos, de sua mocidade até a velhice. O filme, pra não se mostrar tão passivo, mostra também o posicionamento de seu filho, que se juntou a grupos extremistas como o dos Panteras Negras para defender mais direitos e dignidade para os afroamericanos, que ainda eram tratados como escória pelos brancos. Assim, o filme não é tão feio quanto pintam, mesmo carregando nas tintas.

WALESA (Wałęsa - Człowiek z Nadziei) 

O prestigiado diretor polonês Andrzej Wajda já tinha feito uma espécie de cinebiografia de época antes, mas com um resultado bem superior, DANTON – O PROCESSO DA REVOLUÇÃO (1983). WALESA (2013), porém, é um trabalho mais próximo da realidade de Wajda, já que ele trata aqui de um dos homens mais importantes da história de seu país, o prêmio Nobel da Paz e fundador do movimento Solidariedade Lech Walesa. Difícil para nós, brasileiros, não compararmos o personagem com Lula, que também foi operário, líder de greves, aplaudido pelo povo e também chegou a ser Presidente da República. Walesa fez tudo isso, mas enfrentou muito mais obstáculos, tendo sido preso dezenas de vezes e tendo visto seu país sofrer bastante diante da opressão dos soviéticos, que não queriam perder mais um país para o bloco capitalista. O filme continua em cartaz em Fortaleza e vale muito ser visto.

domingo, junho 22, 2014

VIZINHOS (Neighbors)



E a turma das piadas de maconha e pênis está de volta. Depois do bem mais ambicioso É O FIM (2013), dirigido por Evan Goldberg e Seth Rogen, desta vez os dois rapazes entraram "apenas" como produtores de VIZINHOS (2014). E, no caso de Seth Rogen, também como ator. Afinal, é ele o principal rosto desta turma de atores humoristas maconheiros de bom coração.

VIZINHOS é dirigido por Nicholas Stoller, mais conhecido por RESSACA DE AMOR (2008), que também traz alguns nomes da turma, como Jonah Hill e Paul Rudd. E se não tem muita gente da turma além do prório Rogen e de Christopher Mintz-Plasse (SUPERBAD - É HOJE), traz o irmão de James Franco, Dave Franco, como um dos membros da fraternidade que veio para azucrinar com a vida do jovem casal vivido por Rogen e Rose Byrne.

Aliás, muito bom ver a bela Rose Byrne integrando a turma. Além de filmes de horror, ela também tem se destacado em comédias. Tanto ela quanto Zac Efron estão ótimos. O filme talvez só peque por ser um pouco mais desleixado do que as outras comédias, especialmente as dirigidos por Greg Motolla e Judd Apatow. Ainda assim, é bastante divertido e não é preciso saber de tanta cultura pop quanto É O FIM para se divertir.

Afinal, a história é bem simples e o que mais importa mesmo é a querela entre família e jovens universitários que curtem uma grande farra. No começo, a intenção do casal é tentar chegar na turma e pedir, mostrando que ainda são descolados e que curtem uma boa erva, para que baixem o volume do som sempre que eles pedissem. Mas as coisas não saem tão pacíficas, para o prazer dos espectadores.

Algumas das cenas mais memoráveis: a tentativa do casal de fazer com que os dois melhores amigos da fraternidade (Efron e Franco) entrem numa briga por causa de uma das garotas, com direito a uma cena de beijo de dar água na boca; a tentativa do casal de transar, mesmo com a filhinha pequena na sala; a briga entre Rogen e Efron perto da escada; o roubo dos airbags; a confecção dos pênis de borracha para venda etc.

Quer dizer, quanto mais se pensa nessas presepadas, mais se gosta do filme. Uma coisa que se percebe também com relação aos trabalhos dessa turma é que, quanto maior a intimidade com o seu humor, maior também o carinho e a cumplicidade que sentimos por eles.

sábado, junho 21, 2014

NA CARNE E NA ALMA



A frase escrita no cartaz de NA CARNE E NA ALMA (2012) define um pouco o drama de Rodrigo (Karan Machado): "Você já se apaixonou? Bem-vindo ao inferno". A postura de total entrega dele em relação a ela no cartaz também mostra o quanto sua mente fica intoxicada pela presença física e espiritual da mulher, no caso, a jovem Mariana (Raquel Maia).

O filme foi dirigido por Alberto Salvá, mais lembrado por A MENINA DO LADO (1987), filme que, aliás, foi seu último longa até ele resolver fazer mais esta história de amor crua e cruel, pouco antes de morrer, em outubro de 2011, aos 73 anos. E que bom que ele nos deixou essa pequena pérola que tem sido exibido atualmente no Canal Brasil e que também pode ser encontrado em sites de compartilhamento.

Se A MENINA DO LADO mostrava uma relação que hoje seria um tanto complicada para explorar, dada a idade de Flávia Monteiro, que tinha por volta de 15 anos quando fez o filme, contendo cenas eróticas com um homem mais velho vivido por Reginaldo Faria, no novo filme, a idade dos protagonistas é equivalente e as cenas são mais gráficas e corajosas, embora servindo mais para mostrar a trajetória da relação de Rodrigo e Mariana.

O filme também lembra um pouco LOUCA PAIXÃO, de Paul Verhoeven, tendo em vista o total desembaraço ao lidar com coisas tão íntimas e ao mesmo tempo tão tabus em filmes, como fezes, urina e sexo com menstruação como parte do pacote. Inclusive, essa crueza está presente também nos diálogos cheios de palavras de baixo calão, que destoam do cinema politicamente correto que se faz hoje no Brasil. Assim, ver NA CARNE E NA ALMA é como se tivéssemos encontrado uma cópia rara de um filme dos anos 1980.

Nota-se que é uma produção de orçamento bem baixo, com elenco desconhecido, precário em aspectos técnicos e muitas cenas se passando em interiores. Mas, em compensação, há um cuidado narrativo que não deixa o espectador ficar desinteressado com a história dos dois em nenhum momento. E tudo parece estar no lugar certo, com planos curtos e uma voice-over que só agrada, ajudando a manter a história mais intimista, oferecendo o ponto de vista de Rodrigo e dando a Mariana um ar um tanto mais misterioso, já que é uma personagem que sai do desagradável para o encantador em questão de segundos. Muda de anjo para demônio, mas nunca deixa de ser um objeto de desejo.

Na trama, Rodrigo é um rapaz acostumado a levar garotas para sua casa, mas não tem a menor intenção de ter com elas um envolvimento afetivo. Depois do sexo, virava para dormir e aquilo era página virada. Até o dia em que ele conheceu Mariana e essa rotina mudou completamente. A iluminação veio quando ele acendeu as luzes e deu de cara com os lindos seios da moça. Para ele, algo próximo do divino. Rodrigo chega a dizer que se existe Deus, ele deve ter seios.

Essa relação de intimidade crescente, que também conta com brigas e outras situações típicas de quem já teve um relacionamento intenso de paixão carnal como esse (muito próximo de uma doença), pode fisgar muitos espectadores que se identificarem com o personagem ou com seus sentimentos. E mesmo que não haja identificação, é sempre muito bom ver um grande filme brasileiro de vez em quando.

sexta-feira, junho 20, 2014

UM PLANO BRILHANTE (The Love Punch)



Se a Copa do Mundo está reservando várias surpresas, as estreias deste período também não devem ser subestimadas. Um filme como UM PLANO BRILHANTE (2013), por exemplo, além de ter esse título genérico brasileiro e que até já foi usado antes, traz uma impressão de ser uma comédia boba e também tem um cartaz nada convidativo. Em vez disso, porém, o que vemos é uma das comédias mais agradáveis dos últimos anos, com um sabor das comédias sessentistas, misturando humor físico com os bons e velhos clichês das comédias românticas.

Tanto Emma Thompson quanto Pierce Brosnan estão ótimos no papel de um casal divorciado que, depois da partida da filha para estudar em uma universidade em outro estado, e depois do incidente que leva à falência da empresa do personagem de Brosnan, acabam se juntando para conseguir reaver o que um magnata inescrupuloso (Laurent Lafitte, creditado como sendo da comédie française) lhes tomou. Assim, os dois vão parar em Paris para viver grandes aventuras, além de uma forte possibilidade de voltar a ficar juntos. Aliás, isso já é algo bastante esperado no enredo. Praticamente óbvio. Mas o importante é como o filme chega lá.

Brincar com o peso da idade não é nenhuma novidade. O velho Clint já vem fazendo isso desde os anos 1980. Mas o que vemos neste novo filme de Joel Hopkins, financiado com dinheiro francês, é uma excelente química entre os dois astros. Uma química, aliás, bem melhor do que a do filme anterior de Hopkins, também com Emma, mas com um par romântico que não combinava tanto com sua beleza, Dustin Hoffman, no romance da terceira idade TINHA QUE SER VOCÊ (2008). Aqui ambos os protagonistas são dois coroas enxutos e cheios de magnetismo e beleza.

O filme ganha ainda mais graça com a presença do casal de amigos do duo, vividos por Timothy Spall e Celia Imrie. Os dois dão ainda mais graça à loucura de raptar os convidados do inimigo da família e roubar uma joia que vale muitos milhões durante uma festa de casamento. No caminho, conhecem a noiva, a bela francesa Louise Bourgoin, que desempenhará papel importante nos momentos finais do filme.

UM PLANO BRILHANTE, além de ser feito para chamar a atenção de um grupo de espectadores mais maduros, acaba sendo também uma diversão para toda a família, e um filme que provoca um estado de bem-estar e um sorriso no rosto, ao sair da sessão, que poucas comédias mais ambiciosas ou mais moderninhas conseguem.

quinta-feira, junho 19, 2014

TRANSCENDENCE – A REVOLUÇÃO (Transcendence)



E Wally Pfister, o diretor de fotografia favorito de Christopher Nolan, não se saiu tão bem em sua estreia como cineasta. E olha que ele tinha com ele um elenco muito bom e uma história bem interessante. Aliás, a história continua a ser interessante, mesmo que o filme não seja suficientemente bom. Faltou um maior cuidado no andamento narrativo, que principalmente a partir de sua segunda metade vai ficando cada vez mais aborrecido. É quando percebemos que a história, que já era um tanto fria, mas que tinha um ponto de partida fascinante, não é o bastante para segurar o interesse do espectador.

TRANSCENDENCE – A REVOLUÇÃO (2014) trata de um assunto que na verdade nem é tão original assim: a transferência da mente humana para um computador. Já vimos isso nos cinemas este ano em CAPITÃO AMÉRICA 2 – O SOLDADO INVERNAL, em que Steve Rogers se vê às voltas com um velho inimigo dos tempos da Segunda Guerra Mundial, o Dr. Arnin Zola, que vive agora dentro de um computador.

Mas TRANSCENDENCE vai mais longe nessa proposta, já que é o cerne da história. Johnny Depp é Will Caster, um cientista que acredita que o futuro está nas mãos dos computadores. No início do filme, ele está fazendo uma palestra falando sobre o quanto um computador inteligente e autoconsciente pode fazer coisas que o mais inteligente dos cientistas jamais faria.

Ao mesmo tempo, dentro dessa realidade, um grupo de contrarrevolucionários faz o possível para impedir que a ciência chegue a um estágio tão perigoso. Kate Mara interpreta uma das pessoas que lutam contra esses avanços científicos. Já Paul Bettany é Max Waters, outro cientista, amigo de Will, mas um sujeito preocupado com esses experimentos, que já estão em fase muito avançada. No entanto, quando Will descobre que está doente e só tem um mês de vida, é ele quem ajuda Evelyn, a esposa de Will, a transferir a mente do cientista moribundo para uma inteligência artificial, mesmo sem acreditar que isso daria certo.

O interessante do filme é abordar a questão das emoções, que são diminuídas quando a mente de Will é transferida para uma grande rede de computadores e ele é capaz de fazer coisas jamais imaginadas, como uma espécie de deus da Era de Aquário. Curiosamente, no filme ELA, de Spike Jonze, uma inteligência totalmente artificial tem muito mais emoções do que Will, que já foi humano e agora é um computador-deus. Até o próprio HAL-9000 de 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO parece mais humano que Will.

E é isso que começa a assustar a personagem de Rebecca Hall, que divide com Depp o protagonismo de TRANSCENDENCE. Aliás, é sempre bom ver Rebecca em ação, mas o filme não dá muito espaço para que sua personagem cresça. Ela está sempre à sombra de Will. Outro ponto negativo do filme está no exagero das ações de Will, com a intenção, talvez, de entregar uma história épica. Uma pena que esse êxito não é atingido.

quarta-feira, junho 18, 2014

A MONTANHA DOS CANIBAIS (La Montagna del Dio Canibale / Slave of the Cannibal God / The Mountain of the Cannibal God)



Ainda prefiro o Sergio Martino dos gialli. Basta lembrar dos ótimos ALL THE COLORS OF THE DARK (1972) e TORSO (1973). Pelo menos foi o que eu vi dele. Não cheguei a ver suas comédias eróticas nem suas incursões no western spaghetti. A MONTANHA DOS CANIBAIS (1978), sua incursão no ciclo canibal, é um dos melhores representantes deste subgênero de aventura, que tanto sucesso fez nos anos 1970 e 1980, especialmente na Itália.

Os italianos têm um tino forte para vender o seu peixe e sabem que atores estrangeiros, especialmente os que fizeram sucesso nos Estados Unidos ou na Inglaterra, são excelentes chamarizes para muitos espectadores. Muitos desses espectadores até compram gato por lebre, achando se tratar de uma produção americana. Em A MONTANHA DOS CANIBAIS, por exemplo, os dois nomes mais famosos são os de Ursula Andress e Stacy Keach.

É sempre bom lembrar que Ursula começou sua carreira em produções italianas, antes de se tornar mundialmente conhecida como a primeira Bond-girl. Saindo do mar com um dos biquínis mais famosos do mundo pop, ela se tornou um dos símbolos sexuais de seu tempo. Embora não esteja mais tão bela quanto em 007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, ela continuava batendo um bolão, e os produtores italianos souberam explorar a sua nudez em algumas cenas, especialmente a que acontece na tal montanha dos canibais.

Curiosamente, Sergio Martino dirigiria outra Bond-girl, Barbara Bach, em suas duas produções seguintes: A ILHA DOS HOMENS-PEIXE (1979) e CROCODILO – A FERA ASSASSINA (1979). São dois filmes bastante questionáveis em se tratando da qualidade. Segundo alguns dizem, são tranqueiras que seguem o rastro do sucesso de filmes de feras das águas, no rastro do sucesso de TUBARÃO, de Steven Spielberg, e que representariam já um momento de decadência do cinema de Martino.

A MONTANHA DOS CANIBAIS, se tem alguns momentos aborrecidos lá pelo meio, melhora bastante quando a mulher, seu irmão e um explorador, na missão de reencontrar o marido perdido em uma montanha considerada maldita na Nova Guiné, se veem sozinhos depois que os nativos são todos assassinados ou desaparecem misteriosamente.

No meio da aventura, o filme não abandona a tradição do mondo cane, mostrando, por exemplo, um macaquinho sendo devorado por uma cobra gigante. E há também muito gore, embora hoje em dia os efeitos não sejam mais tão convincentes. Basta lembrar de outros filmes italianos da época, como ZUMBI 2 – A VOLTA DOS MORTOS, de Lucio Fulci, e CANIBAL HOLOCAUSTO, de Ruggero Deodato, que trazem efeitos visuais tão impressionantes, que até hoje são referência. Martino, porém, consegue disfarçar o baixo orçamento da produção, não só com o elenco internacional, mas também com sequências externas em zonas perigosas.

terça-feira, junho 17, 2014

PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp Fiction)



Curiosamente, desde a primeira vez que vi PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994) no cinema nunca parei para revê-lo, a não ser por alguns trechos exibidos na televisão. No entanto, é impressionante como essa obra de Tarantino, mesmo que passados 20 anos, continua com suas cenas tão frescas na memória. A audição tantas vezes da trilha sonora pode ter contribuído, mas creio que é mesmo o poder das cenas que faz isso.

Aliás, é bom destacar que o filme foi lançado no Brasil em fevereiro de 1995 e não em 1994. Portanto, ainda não são 20 anos para nós, brasileiros, que vimos o filme em circuito comercial. De todo modo, é importante rever o filme depois de passados tantos anos e perceber que suas qualidades continuam intactas, embora o impacto de vê-lo no cinema pela primeira vez, com a surpresa de sua estrutura e de seus diálogos e de tantas outras coisas que o filme oferece, já não seja mais o mesmo na revisão. Agora é momento de analisar de maneira um pouco mais fria esse segundo filme de Quentin Tarantino.

Antes de escrever a respeito, fiz questão de ler uma série de textos contendo críticas, entrevista e um excelente ensaio sobre o filme presente no livro Quentin Tarantino, organizado por Paul A. Woods, e lançado no Brasil pela editora Leya. O que mais me agradou foi o ensaio "A Segunda Melhor Coisa...", de Peter N. Chumo II. Nele, o autor traça paralelos muito interessantes sobre a questão do tempo na trama estrelada por Bruce Willis e sobre a questão da direção no último ato do filme. Há também importantes observações acerca da presença de John Travolta e de sua relação com o tempo.

Tanto o tempo quanto a questão da direção do filme já se estabelecem na interrupção do prólogo do filme, em que vemos os dois assaltantes de restaurante vividos por Tim Roth e Amanda Plummer. A imagem é congelada, os créditos se iniciam com a excitante "Misirlou", de Dick Dale and Del Tones, e Tarantino se mostra deus supremo daquele universo, com direito, inclusive, a operar milagres, como na cena em que os gângsteres vividos por Travolta e Samuel L. Jackson não são atingidos pelas balas.

As relações que Tarantino faz com outros filmes (A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich; PSICOSE, de Alfred Hitchcock; OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE, de John Badham; VIVER A VIDA, de Jean-Luc Godard, entre outros), além de haver referências ao seu filme de estreia, CÃES DE ALUGUEL (1992), são misturadas a outras homenagens ao cinema mostradas especialmente no momento em que Vince (Travolta) leva Mia (Uma Thurman), a esposa de seu chefe, para um restaurante temático da década de 1950.

O texto de Chumo II também fala da questão do tempo em torno de Butch, o personagem de Bruce Willis, que gira todo em torno do passar das horas. A começar pelo título, "O Relógio de Ouro". Não é a luta que ocasiona a morte do outro boxeador o mais importante da história, mas o tal relógio, cuja importância sabemos através de um sonho que Butch tem pouco antes da luta. Até mesmo um detalhe pequeno, como a "torta de café da manhã" de Fabienne (Maria de Medeiros), é também mais uma alusão à fixação do personagem ao tempo.

Outro destaque curioso, e isso eu não vi em texto nenhum, é que na cena da dança, enquanto Vince dança de maneira mais suave, sob efeito da heroína que injetara um tempo atrás, Mia dança mais rapidamente, sob efeito da cocaína que cheirara tanto em seu apartamento quanto no banheiro do restaurante. Depois, quando os dois chegam à casa dela bêbados e com o troféu, a canção que ela bota pra tocar é "Girl, You'll Be a Woman Soon", quem sabe prevendo o momento de "ressurreição" por que ela iria passar na inesquecível cena da injeção de adrenalina.

Falando em inesquecível, impressionante o quanto PULP FICTION é cheio de tantas cenas memoráveis. É como se cada cena do filme fosse importante, mesmo aquelas que parecem banais, como quando os dois assassinos conversam sobre uma massagem nos pés, pouco antes de entrarem na casa de um devedor do chefe e fazer uns estragos bem feios. Tudo em PULP FICTION, então, parece essencial, por mais que alguém venha reclamar de sua duração.

E o engraçado é que hoje quase ninguém mais acha que a Palma de Ouro em Cannes deveria ir para A RAINHA MARGOT, por tão bom que seja o sangrento drama francês. É que PULP FICTION representa um momento muito especial para o cinema contemporâneo, trazendo o que que podemos chamar de novo cinema pós-moderno, seguindo o rastro do que fizeram antes diretores como Jean-Luc Godard, Sergio Leone e Brian De Palma.

O filme é tão especial que eu escrevi vários parágrafos, mas deixei de falar de tantas outras sequências inesquecíveis, como o tiro acidental dentro do carro, o estupro na loja de penhores, a questão religiosa envolvendo o personagem de Samuel L. Jackson, o homem que chega para limpar o carro, vivido por Harvey Keitel, etc. São tantos os momentos que se poderia falar de maneira mais detalhada que o texto ficaria enorme e ninguém iria querer ler.

segunda-feira, junho 16, 2014

GAME OF THRONES – A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Game of Thrones – The Complete Fourth Season)



Nesta quarta e melhor temporada de GAME OF THRONES (2014), não precisamos esperar pelo nono episódio para ver cenas impactantes e sangrentas e personagens importantes morrendo. Já no segundo episódio, "The Lion and the Rose", ao assistirmos o casamento entre o odioso rei Joffrey e a ambiciosa Margaery, acontece algo que deixou muito espectador impressionado. E mostra o quanto George R.R. Martin, o criador desse universo, gosta de casamentos.

O ocorrido no casamento (a morte por envenenamento de Joffrey) deixará um dos personagens mais queridos da série, Tyrion, em uma situação extremamente complicada, já que ele é imediatamente acusado por sua irmã Cercei a ser o responsável pelo ocorrido. Mais à frente, quando veremos o julgamento de Tyrion, o ator que o interpreta, Peter Dinklage, dá um show de interpretação no episódio "The Laws of Gods and Men". É possivelmente o seu melhor momento na série até agora.

E o segundo episódio mais impactante da temporada é "The Mountain and the Viper", o oitavo, que conta com uma sequência de luta com armas tão brutal que podem ser vistos pela internet vídeos da reação das pessoas durante o momento mais forte. E um sinal de que a violência gráfica não tem limites em GAME OF THRONES, que diminuiu um pouco a nudez, mas aumentou bastante o gore.

A quarta temporada é também dedicada a Jon Snow, que passou por uma reviravolta em sua vida quando visitou os povos que vivem do outro lado da grande muralha. O nono e épico episódio, "The Watchers on the Wall", é todo dedicado a ele e ao seu núcleo. Muito justo e necessário. Com isso, cresceu também a simpatia e a força de Sam, o gordinho que se apaixona por uma mulher; ele, que vive em uma sociedade em que ter relações com mulheres é proibido.

Falando em núcleos, creio que todos concordam que as melhores cenas acontecem quase sempre quando os Lannisters estão presentes. De vilões da série, eles passaram a ser a família mais interessante, sem falar no fato de que um sujeito como o Jaime passou por uma trajetória de sofrimento e heroísmo que mudou bastante o nosso sentimento por ele.

Por outro lado, os Starks seguem todos separados um do outro e em situações bem distintas (a mais triste de todas é a situação de Theon, mas ele colheu o que plantou). E, apesar do grande número de núcleos, a temporada tem o mérito de não ser confusa, principalmente depois que adotaram a estratégia de adaptar um livro em duas temporadas, que foi como fizeram com a terceira e a quarta temporadas.

Alguns personagens ganharam mais força ao longo desta quarta temporada, como Sansa e Mindinho. E até o careca despirocado Varys tem o seu momento de brilho, interferindo num momento crucial. A menina Arya também cresceu bastante como personagem e o fato de a última imagem que vimos da temporada ser dela pode ser bastante revelador do que vem por aí, do que ela se tornará.

Quanto a Daenerys, rainha dos dragões e libertadora dos oprimidos, esperamos que a próxima temporada seja ainda melhor para ela. Como é a personagem cujo núcleo está mais separado dos demais, mal posso esperar para que ela chegue para infernizar a vida dos demais pretendentes ao trono dos sete reinos.

Como eu não leio os livros, não faço ideia do que acontecerá. Mas sou paciente e posso esperar por 2015, 2016 e o que mais vier. O que não podemos deixar de destacar é a grandeza desta série, que segue sendo uma das melhores da atualidade.

domingo, junho 15, 2014

AMOR SEM FIM (Endless Love)



A lembrança do primeiro AMOR SEM FIM, de Franco Zeffirelli, datado de 1981, pode estar nublada na memória de muitos, mas pelo menos duas coisas ninguém esquece. A primeira delas é a beleza enfeitiçadora de Brooke Shields, que já havia encantado muita gente, ainda adolescente, em filmes como PRETTY BABY – MENINA BONITA, de Louis Malle, e A LAGOA AZUL, de Randal Kleiser. A segunda coisa do primeiro filme que fica guardada na memória afetiva até mesmo do espectador que reconhece os problemas do melodrama é a canção-tema "Endless Love", gravada por Lionel Ritchie e Diana Ross. Grande balada que marcou época.

O novo AMOR SEM FIM (2014) recupera apenas o esqueleto do filme anterior, mas sem conseguir inovar ou melhorar o que já não era muito benquisto pela crítica e boa parte do público cinéfilo. Sem uma canção forte como "Endless Love" e sem uma garota linda como Brooke Shields, o novo filme tenta, mesmo assim, chamar a atenção da nova geração.

Gabriella Wilde, que esteve também em outro remake (CARRIE - A ESTRANHA), não consegue ser tão apaixonante. Muitas vezes só parece uma menina mimada. E o seu parceiro de cena, Alex Pettyfer (de EU SOU O NÚMERO QUATRO), até pode agradar algumas meninas, mas não tem muito carisma não. E o roteiro também não ajuda. Chega a ser constrangedora a cena em que o seu personagem fala sobre o quanto o amor é mais importante do que todas as coisas à família de sua amada.

Não que ele esteja errado, mas, com aquele discurso piegas, dá vontade de não acreditar mais no amor romântico e ser cínico com relação a isso pelo resto da vida. Tudo por causa de dois roteiristas ruins e provavelmente um livro ruim, o romance de Scott Spencer que serviu de base também para esta segunda adaptação.

O fiapo de história é extremamente simples e fala do amor entre duas pessoas de classes sociais diferentes: ela, Jade, é de família nobre e vive sempre com o semblante triste desde a morte do irmão mais velho; ele, David, é pobre e de família esfacelada, mas é feliz, ajuda o pai na oficina de automóveis e trabalha como manobrista. E é nesse emprego, em um restaurante de luxo, que os dois conversam pela primeira vez. Quando ele joga o charme pra cima dela e ela tem a ideia de fazer uma festa em sua casa, tudo como justificativa para que os dois se vejam novamente.

A história dos dois seria um mar de rosas se não fosse a implicância do pai de Jade (Bruce Greenwood), que considera o rapaz uma má influência para a jovem, que estava prestes a se dedicar à Medicina, se não fosse a paixão que passa a sentir por ele, que mexe totalmente com sua cabeça e com seu coração. A mãe de Jade, vivida por Joely Richardson, no entanto, apoia a relação dos dois e sente falta de quando amava e era amada pelo marido.

Mesmo não tendo situações tão dramáticas quanto filmes sobre doenças terminais (com o bem-sucedido A CULPA É DAS ESTRELAS), AMOR SEM FIM perde oportunidades de emocionar as plateias tanto pela falta de graça do par principal quanto pela má condução narrativa, que não consegue ter um apelo emotivo suficiente para provocar o espectador. Talvez até seja um filme que conquiste uma fatia do público, especialmente o mais adolescente, mas, certamente, quem já viu histórias de amor melhores, não se comoverá em momento algum com esse grande novelão.

AMOR SEM FIM é o terceiro trabalho na direção de Shana Feste. Os anteriores foram também histórias de amor: EM BUSCA DE UMA NOVA CHANCE (2009), estrelado por Carey Mulligan e Aaron-Taylor Johnson, e ONDE O AMOR ESTÁ! (2010), estrelado por Gwyneth Paltrow. Arrisco dizer, sem ter visto nenhum dos dois, que devem ser bem melhores que o novo filme.

sábado, junho 14, 2014

A FACE DO MAL (Haunt)



Ver um horror genérico como A FACE DO MAL (2013) passa até uma impressão de que todos os bons filmes do gênero já foram feitos. É uma sucessão de tantos clichês manjados, de tantos sustos forçados e uma história de fantasmas sem inspiração que chega a ser difícil ter um pouco de boa vontade com o filme, por mais aficionados que sejamos ao gênero horror.

O que poderia ter salvado o filme seria uma direção inspirada que pudesse fazer com que o monstro fosse suficientemente assustador. Por mais que tenham até caprichado no visual da criatura fantasmagórica, que lembra um pouco a de MAMA, de Andrés Muschietti, o resultado no final é desanimador, pois os sustos só vêm por causa do áudio e não por causa de algum arrepio causado pela capacidade de causar medo.

Na trama, ouvimos a voz de Jackie Weaver apresentando uma história de fantasmas, que, segundo sua personagem, sempre começa com uma casa. Para a família dela foi assim. E logo o filme conta rapidamente o que ocorreu na casa antes que os novos habitantes cheguem. O curioso é que, diferente da maioria dos filmes de fantasmas, esse aqui prefere apostar apenas em dois personagens: Evan (Harrison Gilbertson), o jovem que vem com a família, e a garota que ele encontra chorando na floresta Sam (Liana Liberato).

Os dois começam um relacionamento afetivo que se inicia de maneira rápida. Inclusive, no início dá pra suspeitar um pouco de Sam, pelo fato de ela ser a estranha que surge do nada e detém alguns mistérios. Porém, aos poucos vemos que a vilania vem de outro lado. E está naquela casa para atormentá-los ou mesmo tirar a vida daquela família, como tirou a da família anterior, cujo patriarca tentou um contato com os filhos mortos usando uma espécie de rádio, que seria peça importante na história da nova família.

Há alguns flashbacks um pouco confusos que surgem em sonhos do protagonista e há sim alguns sustos, que são reforçados pela potência das caixas de som do cinema. O que poderia ser um truque válido se o filme conseguisse assustar também através de recursos mais criativos. Como não é o caso, é sair do cinema com aquela sensação de que não faria mal ter ficado em casa.

Uma curiosidade quanto ao currículo do diretor Mac Carter: ele havia dirigido apenas um filme antes, um documentário chamado SECRET ORIGINS: THE STORY OF DC COMICS (2010), que certamente deve ser um item do interesse de muitos fãs de quadrinhos de super-heróis, especialmente os decenautas.

sexta-feira, junho 13, 2014

TRÊS AVENTURAS



O tempo passa tão rápido que um filme que eu vi no ano passado, A AVENTURA DE KON-TIKI (2012), ainda estava na minha lista de pendências. E como a memória da gente é uma coisa tão fugaz quanto a nossa vida, é uma pena perceber o quanto certos filmes que foram tão impactantes durante sua projeção (e também após alguns dias) acabam ficando perdidos no cantinho escuro da mente. E a culpa não é dos filmes, mas da nossa (da minha) memória ruim, que costuma esquecer facilmente como termina praticamente todos os filmes que vejo. Vamos a mais uma batalha mental, com uma ajudinha da internet.

A AVENTURA DE KON-TIKI (Kon-Tiki) 

Representando a Noruega na categoria de filme em língua estrangeira do Oscar 2013, este interessante relato sobre a aventura de um pequeno grupo de homens que se aliam para provar uma teoria é cheio de momentos de tensão e emoção. Dois diretores, Joachim Rønning e Espen Sandberg, comandam o espetáculo. A viagem foi toda feita em uma simples balsa em que o explorador Thor Heyerdal percorreu quatro mil milhas da América do Sul até a Polinésia para provar que essa mesma viagem já havia sido feita no período pré-colombiano. Baseado em uma história real, já se sabe que pelo menos o protagonista chega vivo no final, mas não deixa de ser eletrizante vê-los enfrentando a violência dos mares e até tubarões. Um belo filme que merece ser conhecido ou revisado.

ATÉ O FIM (All Is Lost) 

Já que estamos falando de homens enfrentando os perigos da natureza, achei por bem incluir este filme em que Robert Redford é um homem solitário no mar cujo barco sofre uma colisão com um contêiner, causando um buraco, que inunda a embarcação. ATÉ O FIM (2013) é muito diferente do trabalho anterior de J.C. Chandor, MARGIN CALL – O DIA ANTES DO FIM (2011), sobre as horas anteriores à última grande crise financeira americana. Aqui praticamente não há diálogos, já que o personagem de Robert Redford está sozinho, sem ninguém com quem falar, a não ser uma tentativa de buscar ajuda em um velho rádio ou com navios que passam e não o veem. ATÉ O FIM passa um clima de desesperança que chega a contagiar a plateia. O uso de pouca música funciona muito bem a favor do filme.

O GRANDE HERÓI (Lone Survivor) 

Aqui não há mar e nem tubarões como nos dois filmes anteriores, mas há também uma luta pela sobrevivência de um grupo de homens em uma missão para capturar um líder do talibã em um país do Oriente Médio. O líder da equipe é vivido por Mark Wahlberg, mas o filme conta com outros rostos conhecidos (Taylor Kitsch, Emile Hirsch, Ben Forster, Eric Bana e até o amigo de ENTOURAGE de Wahlberg Jerry Ferrara). O que mais importa, porém, é que O GRANDE HERÓI (2013) é um puta filme de missão, com sequências eletrizantes, violência gráfica e realista e situações extremamente dramáticas para os personagens. O título original já entrega um pouco a questão de quem sobrevive no grupo, bem como o próprio prólogo, mas isso não estraga nenhum pouco a força desse trabalho de Peter Berg, que se redimiu, depois do horrível BATTLESHIP – A BATALHA DOS MARES (2012).

quinta-feira, junho 12, 2014

UM DIA NA VIDA



Sem querer deixei de colocar UM DIA NA VIDA (2010) na lista de filmes a escrever a respeito. Quando percebi, vi que já se passaram muitos dias (meses). Mas não posso deixar de registrar algumas palavras sobre este trabalho estranho e fascinante que partiu de um dos nossos maiores cineastas, que infelizmente se foi de uma das maneiras mais terríveis que se pode imaginar. Tão brutal e horrível quanto um dos programas policiais sensacionalistas que ele apresenta em seu recorte.

Uma das características do cinema de Coutinho é trazer sempre uma ideia muito boa e conseguir buscar de seus entrevistados momentos mágicos, conseguindo algo, muitas vezes, do acaso. Mas em UM DIA NA VIDA, o cineasta não precisou ligar sua câmera uma vez sequer. Trata-se da seleção e colagem em 90 minutos de duração da programação dos canais Bandeirantes, CNT, Globo, MTV, Record, RedeTV, SBT e TV Brasil da manhã do primeiro dia do ano de 2009 até a madrugada do segundo dia. Há, inclusive, algumas propagandas. De 19 horas de televisão, ele simula o que seria alguém zapeando pelo mondo bizarro da televisão brasileira.

Quem teve a sorte de ver este filme no cinema deve ter experimentado uma sensação mais forte, já que ver na tela do cinema esta série de programas de televisão deve causar uma sensação maior de estranhamento e a uma percepção mais aguda dos aspectos alienantes, misóginos e imbecilizantes que são mostrados.

Infelizmente UM DIA NA VIDA não pôde ser lançado comercialmente, naturalmente, por problemas de direitos autorais, mas felizmente alguém o lançou na internet a tempo de conseguirmos pegá-lo para ver. É, sim, mais um projeto inovador de Coutinho, assim como foram CABRA MARCADO PARA MORRER (1985) e JOGO DE CENA (2007), para citar dois filmes de transição do cineasta.

Algumas "cenas" marcantes: o cirurgião plástico Dr. Hollywood falando das características da beleza ideal (lembrando o nazismo); Wagner Moura em seu programa, depois de mostrar um homem chutando a cabeça de uma mulher, dizendo o que se deve fazer quando sua namorada ou mulher estiver enfurecida ("só segurá-las pelo braço e pronto!"); o programa que mostra o cinto que disfarça a barriga da mulher; a transformação extrema de uma mulher humilde e de traços não muito bonitos; o ex-Raimundos Rodolfo sendo flagrado numa pregação-show do Pastor Silas Malafaia, que cria detalhes da luta entre Davi e Golias. O que deixa a gente confuso é que há também algumas coisas legais, como o Massacration tocando com o Falcão no VMB da MTV e um trecho do programa do Chaves.

quarta-feira, junho 11, 2014

MINHA ESPERANÇA É VOCÊ (A Child Is Waiting)



Segundo filme produzido em Hollywood de John Cassavetes, MINHA ESPERANÇA É VOCÊ (1963) foi uma obra que fez com que o realizador se afastasse da meca do cinema americano para voltar ao seguro território independente em Nova York, sua cidade, e onde estreou com SOMBRAS (1959).

Se em A CANÇÃO DA ESPERANÇA (1961) ainda se notava muita similaridade com o filme anterior de Cassavetes, seu terceiro longa-metragem é bem mais quadrado, com as características típicas dos melodramas americanos dos anos 1950 e com dois astros já consagrados marcando presença: Burt Lancaster e Judy Garland. Outro nome conhecido no elenco é a sra. Cassavetes, a jovem e bela Gena Rowlands, no papel da mãe do garotinho Reuben.

A primeira cena de MINHA ESPERANÇA É VOCÊ é de cortar o coração: dentro de um carro, o garotinho Reuben, assustado, é convidado a sair de lá para entrar em um carro de brinquedo pelo Dr. Matthew Clark (Lancaster). Mal entrou no brinquedinho, o automóvel do pai foge em disparada, deixando o pequeno garoto naquela instituição para crianças com dificuldades mentais.

O problema é que Reuben, como dizia o próprio Dr. Clark, beirava à normalidade. Só tinha um raciocínio um pouco lento. Muito diferente da grande maioria das crianças daquele lugar, a maioria composta verdadeiramente por crianças com deficiência. A linha principal da história, porém, se inicia com a chegada da personagem de Judy Garland, a triste Jean Hansen.

Ela fica particularmente tocada com o caso de Reuben, um garoto muito carente, solitário e revoltado com sua condição e que não recebia a visita dos pais há muito tempo. Inclusive, o rosto de assombro de Garland ao chegar naquela instituição é verdadeiro, segundo dizem. Ela deu trabalho durante a realização do filme, por problemas pessoais e também por não ficar à vontade com aquelas crianças diferentes. Lancaster foi que deu força para que ela continuasse e aproveitasse o seu rosto atemorizado na construção da personagem.

Garland, curiosamente, aparece quase sempre com o rosto muito branco, com muita maquiagem, e em cenas de close-up, a imagem fica um pouco mais desfocada, provavelmente para disfarçar seus traços da idade. Nota-se uma clara diferença quando vemos, por exemplo, Gena Rowlands, em imagem nítida. Aliás, o filme melhora com os flashbacks que mostram o passado dos pais de Reuben antes da decisão de abandoná-lo.

Além dos problemas de Cassavetes com Judy Garland, houve no final a briga com o produtor do filme, o poderoso Stanley Kramer, que demitiu o diretor durante o processo de edição, depois de tantas discussões no processo criativo. Sem ter direito ao corte final, Cassavetes passou 20 anos longe dos grandes estúdios. Mas isso seria muito melhor para ele. Há, definitivamente, males que vêm para o bem.

terça-feira, junho 10, 2014

COM VANDALISMO



Estamos fazendo aniversário de um ano daquele período confuso e excitante (e para muitos, revoltante) que foi aquele junho de 2013, quando gente do país inteiro (ou quase) resolveu ir às ruas para reclamar. Tudo começou em São Paulo, ao que parece, mas Fortaleza foi uma das cidades que mais recebeu foco da mídia. Uma mídia, aliás, que estava com o rabo preso com os governantes e com a FIFA e iniciava cada telejornal delatando a ação terrível dos "vândalos", que se tornou a palavra mais usada na época.

Nada mais inteligente por parte dos manifestantes, sejam eles pacifistas ou vândalos (o documentário faz essa divisão), do que atrair a atenção da imprensa internacional (e de nossos governantes) para nossas insatisfações, para aquilo que estava preso goela abaixo, aproveitando um evento de repercussão mundial.

E, em Fortaleza, em meio a quatro grandes manifestações que ocorreram na cidade, duas por ocasião de dois jogos ocorridos na Copa das Confederações, sendo que a primeira foi durante o jogo Brasil x México, muita gente, em sua maioria, jovens, foi às ruas para botar a boca no trombone, mesmo que para isso corresse o risco de levar balas de borracha, respirar gás lacrimogêneo ou mesmo ser preso.

O coletivo Nigéria Filmes aproveitou a deixa e se infiltrou na multidão, tanto para registrar coisas que a mídia oficial evitava mostrar ou mostrava com alguém falando alguma bobagem em voice over, quanto para entrevistar o povo. O resultado é este documentário que foi lançado direto na internet, COM VANDALISMO (2013). Nem vou colocar aqui o nome dos responsáveis pelo filme, pois são muitos.

Obviamente o documentário não chega a ser imparcial. Até porque não existe isso de documentário imparcial ou mídia imparcial, mas há problematizações, espaço para opiniões de gente que condena os atos de destruição, e há também muito espaço para aquele grupo que resistiu até o dia mais violento de confronto com a polícia, que aprendeu a lidar com o gás, a ficar mais forte e corajoso. E algumas dessas pessoas eu tenho orgulho de dizer que são minhas amigas.

Estamos a dois dias do início da Copa do Mundo e, embora haja uma quantidade grande de pessoas preparada para assistir aos jogos e condenando aqueles que querem atrapalhar a festa, há uma movimentação forte para que os eventos de junho de 2013 se repitam também neste ano com impactos maiores, já que é uma Copa mais longa e de maior importância. Assim, confesso que estou entusiasmado para saber o que vai acontecer. E estou pouco me lixando para o que a imprensa ou os turistas estrangeiros vão achar de nosso país.

O Brasil, que tem fama de passivo, apesar de ter lutado durante a ditadura, ter ido às ruas a favor das "diretas já" e de ter tirado um presidente canalha do poder, pode mostrar ao mundo aquilo que os governos e a própria grande mídia brasileira comprada tratam de esconder. Quanto ao filme, além de oferecer um registro importante desse momento tão marcante, ainda tem o cuidado de trabalhar a fotografia, usando o preto e branco com as cores no mesmo quadro e formando um bonito painel.

Algumas imagens ficam fortemente gravadas na memória, como a do manifestante dançando de alegria na rua enquanto a polícia solta bombas ou a do garotinho atravessando a rua em um cavalo. Bom trabalho o dos rapazes e moças do coletivo Nigéria Filmes, que eu espero que ofereçam mais mistos de jornalismo e arte como esse. E boa sorte para nós, brasileiros, nesses próximos dias que virão.

segunda-feira, junho 09, 2014

TRÊS DOCUMENTÁRIOS BRASILEIROS



Ainda na tentativa de diminuir a lista de filmes a escrever a respeito, segue mais um post "três em um", com três documentários brasileiros com visões muito particulares de seus diretores, os quais desempenham também papéis de personagens em seus trabalhos. Dois deles mereciam uma postagem só para eles; o outro só merece umas poucas linhas mesmo.

UMA PASSAGEM PARA MÁRIO 

Exibido numa mostra especial dedicada a filmes brasileiros, UMA PASSAGEM PARA MÁRIO (2013) é um documentário que tem os seus problemas, mas que eu fico muito feliz de tê-lo visto. O filme de Eric Laurence documenta uma viagem que o próprio diretor fez em homenagem ao seu amigo Mário, que sofre de câncer no fígado. A primeira cena do filme já chama a atenção, ao vermos o médico dando o laudo de mais uma boa batalha de Mário contra o terrível inimigo. O filme só cai um pouco mesmo quando ele sai de cena, embora a última cena dele, sempre um sujeito alegre e alto-astral, seja marcante. O filme se recupera no final, poético, e que faz jus à amizade dos dois.

OS DIAS COM ELE 

Também exibido na mesma mostra, mas bem melhor resolvido, é este OS DIAS COM ELE (2013), de Maria Clara Escobar, que só peca mesmo pelo fato de seu objeto de estudo ser um sujeito chato pra caramba. No caso, é o pai biológico da própria diretora. Hoje ele é um homem que vive recluso, mas foi um importante intelectual que foi preso e torturado nos tempos da ditadura. Chego a me perguntar se o filme existiria sem esse dado, já que há uma moda atual de filmes envolvendo os anos de chumbo. A sorte é que Maria Clara faz um filme sobre a dificuldade de sua aproximação a um homem que mais prefere a companhia dos gatos à presença humana e cujo discurso é geralmente um tanto borrado e confuso. Mesmo assim, trata-se de um belo filme, que conta com alguns momentos memoráveis. Um deles é um em que a própria Maria Clara lê um texto que o pai se recusa a ler.

ENTRE MIM E ELES 

Já ENTRE MIM E ELES (2013), de Marcelo Ikeda, se enquadra na categoria de um dos piores filmes já vistos por esst humilde escriba. A ideia de Ikeda é fazer um making of diferente do filme do coletivo cearense Alumbramento OS MONSTROS. Acontece que sua tentativa de ser muito poético acaba deixando tudo muito chato. Pode ser que existam defensores do filme, além do próprio diretor, mas é preciso ter uma boa vontade imensa. E o pior é que ENTRE MIM E ELES poderia ser tachado apenas como chato, mas o diretor resolveu terminá-lo de uma maneira tão ridícula que até parece que ele estava fazendo aquilo de sacanagem. Do tipo: "olha como eu consigo piorar ainda mais o que já é muito ruim".

domingo, junho 08, 2014

O GRANDE MESTRE (Yi Dai Zong Shi/The Grandmaster)



Vou me permitir a fazer um texto bem pessoal. Não que os outros não sejam, mas muitos procuram disfarçar um pouco. E também vou me permitir a fazer algo do tipo "gosto/não gosto", até para repensar o que eu preciso evitar ou o que eu preciso aprender a gostar. Antes de mais nada, é bom dizer que minha relação com o cinema de Wong Kar-wai nunca foi muito amigável. Principalmente quando ele coloca em seus filmes elementos históricos da cultura chinesa ou de Hong Kong especificamente que me deixam um pouco perdido. Mas aí eu culpo a minha ignorância. Quem mandou eu não estudar História da China?

Também não vou pedir que um cineasta abandone o seu estilo visual e narrativo em prol de algo de fácil compreensão para o público ocidental, que em sua maioria não é muito conhecedor de certas particularidades culturais da China. No caso de O GRANDE MESTRE (2013), por exemplo, ficamos "sabendo" sobre a Guerra Civil (o Norte contra o Sul) que ocorreu no país antes de sua incursão na Segunda Guerra Mundial e antes da terrível invasão japonesa.

Acontece que Kar-wai se atropela em sua narrativa e cria uma obra muito confusa, não necessariamente por causa dos vaivens no tempo, mas no que parece ser um problema de edição mesmo. Dizem que a edição chinesa é bem melhor (nem sabia desse corte até hoje), mas que também não ajuda muito a compreender a trama. Até aí tudo bem. Há vários filmes que prendem o espectador sem que queira deles compreensão do enredo, mas que o leva a viagens sensoriais ou psicológicas. Certamente isso ocorreu com quem gostou do filme, mas não deu certo comigo.

O curioso é que o filme até começa bem, mantendo o foco na vida de Ip Man (Tony Leug), o homem que seria essencial para o estilo e o crescimento de Bruce Lee nas artes marciais. E há também a beleza sempre exuberante de Zhang Ziyi, que já havia mostrado que além de linda também é mestra na coreografia das artes marciais em três filmes fundamentais para o renascimento dos filmes de artes marciais para as plateias dos anos 2000, O TIGRE E O DRAGÃO, de Ang Lee, e dois trabalhos de Zhang Yimou, HERÓI e o sensacional O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS.

E se Kar-wai parece dar conta razoavelmente dos personagens de Leung e Ziyi, o mesmo não pode ser dito do vilão, o "Navalha" (Chang Chen), que certamente foi decapitado no corte final, o que prejudicou bastante a segunda metade do filme e isso prejudica o andamento narrativo e faz com que certos filmes pareçam mais longos do que realmente são. No caso de O GRANDE MESTRE, por exemplo, isso se torna ainda mais complicado quando vemos três epílogos diferentes, como se o cineasta quisesse tirar onda com a cara do espectador, que já está impaciente e louco pra que o filme termine, e ele manda não uma, mas duas pegadinhas.

Ao sair da sessão, a vontade que eu tinha de ver os filmes anteriores de Kar-wai que ainda não vi, bem como os próximos que virão, foram bastante afetadas. E quando digo que meu favorito dele é justamente UM BEIJO ROUBADO (2007), falado em inglês, com duas beldades de Hollywood, e fora de seu habitat natural, muita gente acha um absurdo.

Outra coisa que percebi é que eu gosto mesmo é de ver lutas de artes marciais verdadeiramente violentas, e não coreografias de balé que ficam ainda mais sonolentas com o tradicional uso da câmera lenta do diretor. Juntando a confusão na edição e no enredo, a História da China passando como um raio (e eu nem aí pra saber mais sobre os "n" estilos de luta do kung fu) e uma história de amor sem graça, esse é O GRANDE MESTRE pra mim.

sábado, junho 07, 2014

VOCÊ É O PRÓXIMO (You're Next)



O mundo do cinema de horror independente tem guardado algumas pequenas pérolas e ótimos realizadores, que ainda não foram ou talvez nunca serão absorvidos pelo cinemão. Quem assiste, por exemplo, a antologias como V/H/S (2012) ou V/H/S 2 (2013) percebe que há vários diretores do cinema independente que fazem pequenos filmes muito interessantes. Daí a razão de eles terem sido chamados para esses projetos.

Adam Wingard é um desses realizadores, tendo feito mais filmes do que se imagina. VOCÊ É O PRÓXIMO (2011) já é o terceiro de seis longas que ele fez sozinho, isto é, não estamos contando as suas contribuições para as duas antologias citadas e para outra antologia, THE ABCs OF DEATH (2012). O que acontece é que seus filmes não chegam ao nosso circuito. No caso de VOCÊ É O PRÓXIMO, que teve uma melhor visibilidade, ele chegou ao nosso mercado direto em DVD.

Com o mercado decadente de DVDs, esses filmes são mais conhecidos por gente que vai à cata de filmes de horror na web, essa sim o grande manancial de obras de todos os gêneros e estilos. A sorte de VOCÊ É O PRÓXIMO é que tem um cartaz bem chamativo, com um sujeito com uma arma na mão e uma cabeça de um animal (ao longo do filme, três cabeças de animais surgem: de tigre, de cordeiro e de raposa).

O filme acaba por lembrar alguns outros filmes recentes de invasão a uma residência e assassinato de quem está lá dentro, como UMA NOITE DE CRIME, de James DeMonaco, OS ESTRANHOS, de Bryan Bertino, e ELES, de David Moreau e Xavier Palaud. De certa forma, VOCÊ É O PRÓXIMO é um pouco mais simples em sua estrutura narrativa, guardando sua força para a caracterização da protagonista, vivida pela bela Sharni Vinson, e seus principais vilões, que são revelados mais perto do final.

Na trama, Sharni é Erin, uma jovem que viaja com o namorado para um fim de semana com a família rica dele em uma casa longe da cidade. Antes disso, porém, o filme antecipa o seu caráter de horror sangrento com um prólogo em que um casal é assassinado e o título original do filme é estampado na parede com sangue. Veremos mais a frente que este prólogo não é gratuito, que tem relação com a trama principal, que envolve a família do namorado de Erin. Uma família que não se dá muito bem entre si, mas que parece saber conviver com isso.

Tudo está mais ou menos bem quando surge um tiro de flecha que atravessa a janela e mata um deles. E isso é só o começo de uma sangrenta matança protagonizada por esses sujeitos anônimos com máscaras de animais. O horror está no ar, mas, para a surpresa de muitos, Erin se mostra bastante habilidosa e calma em lidar com aquela situação pavorosa.

Daí alguns críticos atribuírem a ela o título de melhor "last girl", isto é, melhor heroína sobrevivente de filmes de massacre. O título pode ser controverso, já que temos as heroínas das franquias de HALLOWEEN e PÂNICO, mas Erin merece sim destaque, com sua confiança e o fato de ela não se importar em matar os bandidos com toda a violência que exala de seu ser.

Esse tipo de violência é um pouco contagioso e VOCÊ É O PRÓXIMO deixa o nosso sangue intoxicado. O que é um bom sinal para um filme do gênero. No mais, em papel pequeno, mas em clima de camaradagem entre diretores do horror independente contemporâneo, Ti West, do ótimo THE HOUSE OF THE DEVIL. É sempre bom ficar de olho nesses novos talentos, hein.

sexta-feira, junho 06, 2014

DEZ CURTAS BRASILEIROS



O ideal seria escrever sobre esses filmes logo que os visse. Ou rever todos quando fosse escrever a respeito, o que não seria nenhum problema, a não ser em relação a alguns, que são especialmente chatos. Mas a grande maioria se beneficiaria de uma boa revisão. Essa revisão, porém, fica para outra vez. Hoje quero ver se consigo lembrar, a partir de algumas pequenas anotações que fiz, desses curtas. Ou se minha memória está mesmo precisando ser trocada em alguma loja de eletrônicos.

EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO 

Este é mais fácil lembrar tanto por causa do longa, que faz uma espécie de versão estendida do curta, quanto pelo fato de eu o ter exibido para os alunos junto com outros curtas. Queria ver qual seria a reação deles diante de um filme que aborda a homossexualidade. Até que foi positivo, embora a maioria não quisesse ou não soubesse externar o que sentiu. A trama de EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO (2010) é já conhecida: trata de uma espécie de triângulo amoroso entre dois rapazes e uma moça. Os três são colegas em uma escola. O diferencial é que um deles é deficiente visual e se apaixona pelo rapaz. Daniel Ribeiro fez um filme muito bonito e sensível. A canção "Janta", de Marcelo Camelo, aparece num momento bem legal.

NOSSOS TRAÇOS 

Esse é aquele tipo de filme que traz uma ideia tão simples, mas ao mesmo tempo tão genial que não há como não ficar impressionado. Trata-se apenas de uma velha fita em VHS mostrando um aniversário de família, enquanto ao fundo ouvimos a conversa de duas pessoas sobre aquele evento e sobre as pessoas presentes. Dizer mais pode estragar um pouco a experiência e o prazer de ver essa pequena joia que é NOSSOS TRAÇOS (2013), de Rafael Spínola.

SYLVIA 

Um filme sem diálogos e que acompanha com habilidade narrativa a história de uma mulher que deseja ser uma boxeadora. SYLVIA (2013), de Artur Ianckievicz, apresenta a rotina da protagonista, seja treinando, seja ganhando seu dinheiro confeccionando DVDs piratas. O filme apresenta um final um tanto inesperado, mas nada de muito memorável, na verdade.

EM TRÂNSITO 

Trata-se de um filme que lida com a questão das diferenças sociais. EM TRÂNSITO (2013), de Marcelo Pedroso, nos apresenta aos danos que o trânsito e o chamado progresso podem fazer para a humanidade, especialmente das grandes cidades. Mas é também um filme bem politizado e que usa símbolos para ilustrar a vilania dos políticos e seus atos desumanos. Derrubar a casa de um pobre sem a menor piedade infelizmente não é algo raro de se ver nas grandes cidades. O filme, porém, me aborreceu mais do que me entusiasmou.

TODOS ESSES DIAS EM QUE SOU ESTRANGEIRO 

A primeira coisa que impressiona em TODOS ESSES DIAS EM QUE SOU ESTRANGEIRO (2013, foto), de Eduardo Morotó, é a espetacular fotografia em preto e branco, que valoriza o filme, que ainda por cima tem um trabalho de câmera magnífico, seja dentro do bar em que os dois irmãos trabalham, seja dentro da casa onde moram. Trata-se de um filme bastante duro e violento, mas talvez por isso eu tenha gostado tanto. O tema é o preconceito que os nordestinos sofrem em cidades do sudeste brasileiro, e o filme vai fundo no sentimento de indignação.

NÃO ESTAMOS SONHANDO 

A primeira parte de NÃO ESTAMOS SONHANDO (2013), de Luiz Pretti, lembra um pouco alguns filmes de Julio Bressane, com um personagem lendo um livro para nós, espectadores. As palavras são interessantes, mas depois o filme se dilui em simbolismos que até podem ter um significado interessante, mas que acabam deixando o filme chato e pretensioso, mesmo em sua curta duração. E confesso que não me arriscaria em fazer uma sinopse.

PÚRPURA 

Eis um filme de uma beleza plástica inegável. PÚRPURA (2013), de Tavinho Coutinho, já começa impressionando, com a imagem de uma casa pegando fogo. Aliás, imagens impressionantes não faltam no curta: a mulher no colo do homem embaixo da árvore, os bois mortos, o corpo nu e ferido da mulher no rio, um homem surgindo da lama, entre outros momentos que fazem desse curta uma experiência sensorial admirável. É o caso de filme para rever.

PÁTIO

Tinha gostado do filme anterior de prisão de Aly Muritiba, A FÁBRICA (2011). Mas este aqui eu não engoli. O diretor tenta trazer alguma novidade ao mostrar PÁTIO (2013) praticamente em um câmera parada com a voz dos personagens em off enquanto vemos imagens do pátio de uma prisão. Os diálogos têm o seu interesse, mas depois do sensacional FANTASMAS, de André Novais Oliveira, esse estilo de contar uma história perde a originalidade e a graça.

QUINTO ANDAR 

A fotografia em preto e branco é bonita e tal e o tema de quinta dimensão é interessante, mas esse filme não engana ninguém. Confuso, chato, pretensioso, longo, QUINTO ANDAR (2013), de Ricardo Mansur, também aposta na ausência de diálogos. Pena que o filme não consiga ser suficientemente interessante, mesmo diante de um assunto intrigante e que poderia render um trabalho decente, ainda que não fizesse sentido algum.

COLOSTRO 

Filmes que flertam com o gênero horror sempre me atraem a atenção e é também o caso de COLOSTRO (2013), de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet, apesar de o resultado final não ser tão bom. Mesmo assim, só o ponto de partida já é bem interessante. Uma mulher adota um filho e tenta fazê-lo mamar em seu peito, mas a única coisa que sai é sangue. Há um sentimento de revolta para com a criança, uma cena um tanto perturbadora, mas faltou um final mais impactante. Mesmo assim, é um filme que tem seus bons momentos e que vale a conferida e uma revisada.

quinta-feira, junho 05, 2014

A CULPA É DAS ESTRELAS (The Fault in Our Stars)



Histórias de amor com a morte iminente como obstáculo nunca deixaram de ser produzidas. Há quem considere assistir a esses filmes quase uma tortura, no sentido de que não aguentam de tanto chorar. Já outros são quase cínicos, analisando esses filmes com mais distanciamento, isentos de sentimentalidade. Os mais românticos, porém, apreciam histórias de amor tristes, carregadas por alguma tragédia ou um fato que separa a felicidade de um casal.

O câncer é o algoz em A CULPA É DAS ESTRELAS (2014), segundo filme do diretor americano Josh Boone, baseado no best-seller homônimo de John Green. Com o sucesso gigante do romance, já era de se esperar uma adaptação para o cinema. E bom para os produtores, já que o filme custou muito barato para os padrões de Hollywood (12 milhões de dólares) e deve render bastante nas salas.

A expectativa de muitos é de que o filme seja apenas um melodrama juvenil, lacrimoso e piegas, que se utiliza do câncer para fazer as plateias chorarem. No entanto, fazer um melodrama é muitas vezes uma tarefa ingrata. E é como pisar em ovos: um passo mal dado e o filme todo vai por água abaixo. Felizmente, Boone soube construir personagens suficientemente envolventes para que os seus dramas fossem sentidos pela audiência.

Na trama, Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort) são dois jovens que combatem (ou combateram) o câncer. Eles se conhecem em um encontro terapêutico de pessoas que passaram por esse mal ou ainda estão passando. Logo no primeiro dia que se veem, o interesse surge. E Gus é o tipo de rapaz que não hesita em sorrir e olhar fixamente para o seu objeto de interesse, no caso, a novata no grupo Hazel. Talvez por já aprender que o tempo urge, que a vida é breve.

Gus perdeu a perna para o câncer, mas diz com alegria que conseguiu sobreviver e que hoje é uma espécie de ciborgue. Tem um senso de humor e um charme natural que conquistam Hazel, uma jovem que se submete a todos os tipos de tratamentos por amor aos pais, vividos no filme por Laura Dern e Sam Trammell (série TRUE BLOOD).

Os dois são bem diferentes um do outro, mas acabam se complementando. O fato de emprestarem um ao outro os seus livros favoritos acaba sendo um fator muito importante para a história dos dois. E o filme, além de lidar bem com essa questão literária, também sabe ser contemporâneo, ao mostrar de forma criativa a troca de mensagens por smartphones.

A CULPA É DAS ESTRELAS tem uma sabedoria toda própria em seu andamento narrativo, que não atropela os acontecimentos, os passos que cada um dos dois personagens dá, além de saber também trabalhar com o fantasma da doença, que está ali, o tempo todo, prestes a acabar com a festa. Que já não é tão feliz assim, já que a moça precisa andar o tempo todo carregando um pesado tubo de oxigênio.

Mesmo assim, uma das coisas mais bonitas que o filme trata é a questão do último dia feliz da pessoa que está condenada a morrer de uma doença como o câncer. De como esse momento pode ser apenas um dia rotineiro qualquer. Há também um belo conceito sobre o infinito, que aparece numa das cenas mais tocantes de todo o filme e que certamente deve fazer muitos espectadores chorarem. Bela direção de Boone, e também muito bom o desempenho do jovem casal em um filme que talvez passe a ser objeto de culto pela nova geração. 

quarta-feira, junho 04, 2014

BIBLE BLACK



Não lembro bem o que me fez encontrar este hentai que além de ser bem sacana é cheio de heresias ao Cristianismo. Acredito que estava procurando por um bom hentai. Sempre senti falta de exemplares de qualidade do gênero. Até então, os melhores que havia visto foram KITE e MEZZO FORTE, ambos de Yasuomi Umetsu, produzidos na virada das décadas de 1990 e 2000. E eu não queria ver um desses animes com sexo explícito e tentáculos que os japoneses tanto gostam de fazer, sabe-se lá o porquê.

BIBLE BLACK (2001-2003), devo ter encontrado numa busca por best hentai animes ou algo parecido. Alguém em algum fórum especial disse se tratar do melhor anime de sexo explícito que havia assistido. Daí veio facilmente a curiosidade. Trata-se de uma série em seis episódios que depois gerou alguns spin-offs. O primeiro episódio é ótimo, até pelo fator surpresa e pelas aberrações mostradas. A maior delas vem da diretora da escola, que é hermafrodita: de dentro de sua vagina sai um enorme e imponente pênis. A imagem não deixa de ser impactante.

A série chegou a ser proibida nos Estados Unidos, como vários outros animes pornôs. Isso porque consideram que o estilo é muito facilmente ligado à pedofilia, já que as personagens que fazem sexo nos filmes ou séries têm rostos de crianças, ainda que tenham corpo de mulher. E diga-se de passagem, seios muito maiores do que a média no Japão. Mas essa característica transparece não só em animes (ou mangás) pornôs. Em todos os demais há essa tendência de infantilização dos traços dos personagens.

Uma coisa que não dá para reclamar de BIBLE BLACK é da generosidade e da variedade de cenas de sexo (convencional, oral, anal, estupro, com rituais de magia negra, sadomasoquismo, incesto, tortura etc.). E há muito, mas muito líquido saindo abundantemente das genitálias femininas, bem como explosões exageradas de esperma nas cenas de ejaculação masculina.

Quanto à história, se é que ela importa, há um grupo de meninas numa escola que faz parte de um culto de magia negra. A líder do culto é a tal diretora hermafrodita, que enfeitiça e se aproveita sexualmente de meninos e meninas. Acontece que o protagonista da série é um rapaz que encontrou um misterioso livro de magia e que aprendeu a dominar e a ser desejado pelas mulheres. Assim, ele passa a ser assediado, para usar de eufemismo, por todas as estudantes. As coisas se complicam quando ele percebe que uma jovem virgem está prestes a ser sacrificada para que a diretora ocupe o seu corpo jovem.

O que incomoda muitas vezes a cada novo episódio é a repetição das cenas do anterior, principalmente se a intenção é fazer uma maratona. Mas essa é uma atividade difícil, já que cansa um pouco ver dois episódios seguidos, embora, paradoxalmente, dê vontade de ver logo o episódio seguinte. O sexo é suficientemente explícito e muitas vezes constante num episódio e é uma série que pode até servir como objeto de "alívio" sexual, mas pode ser mais vista como uma droga leve que funciona como um convite a outras drogas mais pesadas, se me permitem a comparação que fazem com uma certa erva natural.

terça-feira, junho 03, 2014

JOVEM E BELA (Jeune & Jolie)



François Ozon, ao mesmo tempo em que é subestimado ou esnobado por uma parcela da crítica ou do público mais exigente, é também valorizado e visto por outra parcela, que tem acompanhado religiosamente cada trabalho seu. No Brasil, a sorte é que todos os seus filmes têm chegado ao nosso circuito exibidor desde o início dos anos 2000. E ele nem é um cineasta facilmente reconhecível, fazendo filmes bastante diferentes entre si.

Em JOVEM E BELA (2013), Ozon conta a história de uma jovem que resolve ser garota de programa algum tempo depois de ter se iniciado sexualmente. Como em A BELA DA TARDE, de Buñuel, ela costuma fazer isso durante o dia, escondido de sua família. Não é um tema novo, mas não deixa de ser sempre excitante, no sentido amplo do termo.

Ozon gosta do mistério, tendo já feito, inclusive, um filme fantástico (RICKY, 2009), e esse mistério também foi trabalhado utilizando a estética de um film noir, como em SWIMMING POOL – À BEIRA DA PISCINA (2003). Mas em JOVEM E BELA o mistério e o fantástico se juntam em um momento específico da história: quando Isabelle (Marine Vatch) perde a virgindade e se vê a si mesmo, como um duplo, testemunhando o ato.

Essa sequência não é explicada, deixando no ar algumas possíveis interpretações: seria a despedida do aspecto puro de Isabelle? Pouco provável, já que o seu jeito frio de ver a vida e sua curiosidade para com os assuntos da intimidade já estavam lá antes do referido ato. Aliás, essas características se tornam cada vez mais acentuadas a cada experiência sua com um novo cliente.

O mais encantador do filme de Ozon é sua capacidade de nos envolver com sua história, mesmo carecendo de suspense por causa de algumas elipses. Ainda assim, alguns momentos são especiais, como seu último encontro com o senhor de idade que foi tão carinhoso com ela.

Já no aspecto familiar, o filme não rende muito bem, a não ser nas conversas com o estranho irmão mais novo, que não se sabe se é gay ou se tem tesão pela irmã (ou as duas coisas). Há também uma sutil atração (ou possibilidade de atração) entre ela e o padrasto (Frédéric Pierrot) e isso funciona bem no filme. Já a relação com a mãe parece destituída de interesse. Não sei se por erro do realizador ou se é algo proposital.

segunda-feira, junho 02, 2014

OS HOMENS SÃO DE MARTE...E É PRA LÁ QUE EU VOU



De vez em quando aparecem boas surpresas no território das comédias brasileiras. OS HOMENS SÃO DE MARTE...E É PRA LÁ QUE EU VOU (2014) é uma delas. Talvez por beber da comédia romântica americana, um gênero devidamente azeitado desde os anos 1930. Mas não apenas por isso: derivado de uma peça estrelada por Mônica Martelli, o filme é uma simpatia ao abordar a crise da mulher moderna; a que conseguiu sucesso na vida profissional e financeira, mas que está prestes a fazer 40 anos e começa a ficar desesperada para conseguir um marido. Não mais um namorado.

Em determinada cena do filme, a protagonista Fernanda, vivida pela própria Martelli, diz que já teve 25 anos de sexo. Que já chega de sexo. Quer mais alguém para casar. Olha para todos os lados e vê inúmeras pessoas acompanhadas ou com família e pergunta para si mesma: o que elas têm que eu não tenho?

O filme não seria tão divertido sem a presença de Paulo Gustavo como o amigo gay e sócio da firma de casamentos de Fernanda. Paulo foi uma revelação nos cinemas do ano passado com a comédia histriônica MINHA MÃE É UMA PEÇA – O FILME, também de origens teatrais. Se MINHA MÃE É UMA PEÇA peca por exagerar demais nas tentativas de fazer rir, OS HOMENS SÃO DE MARTE...segue um caminho oposto. Aliás, ri-se muito ao longo do filme, mas isso flui naturalmente, sem forçar a barra.

Até podemos dizer que Mônica Martelli é a nossa Kirsten Wiig, já que consegue fazer cenas que seriam constrangedoras se feitas por outra pessoa e ainda sai bem na fita. Quer exemplo melhor do que a cena em que ela precisa urinar no rio, quando faz uma viagem para o interior da Bahia? A comparação com a comediante americana também se dá pela beleza e elegância e pela coragem em não parecer ridícula. Muito provavelmente isso se deve a anos de experiência no teatro, testando o que dá e o que não dá certo, o que faz e o que não faz o público rir. A mexida na cabeça a cada vez que encontra uma nova paquera, por exemplo, é um belo acerto.

OS HOMENS SÃO DE MARTE... é o tipo de filme que parece que vai ser um estouro de bilheteria, mesmo com tantos concorrentes de peso no mercado atualmente. Como se trata de uma obra diferente, pode atrair públicos bem distintos daqueles que vão ao cinema para ver os blockbusters. Além do mais, há toda uma geração que deve se identificar em algum momento com a personagem.

A presença de Lulu Santos em participação especial no final é também muito bonita, embora o maior problema do filme seja justamente o seu desfecho excessivamente rápido. De todo modo, melhor que seja rápido e dinâmico – como é o filme, como um todo – do que se perder em um final piegas.

O diretor Marcus Baldinini (de BRUNA SURFISTINHA) foi bem-sucedido em sua estreia em comédias. E mais uma vez tratando de questões femininas. Porém, de maneira bem mais aprofundada, já que a peça, o roteiro, a atriz, a codireção (Susana Garcia) fazem a diferença em tornar tudo mais autêntico.

Detalhes como a preocupação em usar uma calcinha que fique melhor ou em acordar depois de transar com um homem e dar um retoque na maquiagem são momentos divertidos e que nos ajudam também a solidarizar com a mulher, que tem que se virar nos 30 (ou 39, no caso) para trabalhar, cuidar de uma casa, das finanças e ainda estar sempre linda e sorridente.

domingo, junho 01, 2014

MALÉVOLA (Maleficent)



É curioso o modo como a Disney (e outras produtoras também) tem tentado reinventar os contos de fada, seja tirando as princesas da posição passiva, como em VALENTE, seja evitando vilões óbvios, como em FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE. E é da casa do Mickey que chega também às telas a fantasia MALÉVOLA (2014), que vai mais além nesse sentido, ao recontar a história da Bela Adormecida do ponto de vista da vilã, aqui mostrada muito mais como vítima, embora intoxicada pelo mal em alguns momentos.

Trata-se de uma bela ideia, e que é muito bem incorporada por Angelina Jolie no papel de Malévola, em sua versão adulta. No filme, a personagem é vista desde criança em um bosque cercado por criaturas fantásticas, e ela é a maior das fadas do lugar, tendo o mesmo tamanho dos humanos e ostentando um par de chifres, olhos amarelos e grandes asas, imagem comumente associada a criaturas malignas. Pra completar, em sua versão adulta, a maquiagem também acentua as maçãs do rosto, pontudas.

O vilão do filme acaba sendo um humano, Stefan, um sujeito que conheceu Malévola quando ambos eram ainda adolescentes. Depois de algum tempo, ele retorna para visitá-la e os dois fazem as pazes. O problema é que as figuras fantásticas do bosque não são bem-vistas pelo rei e elas também não o aceitam como seu soberano. O rei, mesmo moribundo, oferece a sua coroa àquele que matar Malévola. Stefan, movido pela cobiça, aproveita-se de sua proximidade com a fada para traí-la, cortando-lhe suas grandes asas depois de lhe dar um sonífero para beber.

Ao acordar, Malévola se enche de ódio e planeja uma vingança ao rei. E essa vingança é diretamente ligada à sua filha recém-nascida: aos 16 anos, ela furará o dedo numa máquina de fiar e dormirá para sempre, só podendo ser despertada com o beijo de um amor verdadeiro. Curiosamente, o filme já trata essa ideia de "amor verdadeiro" como algo que não existe. Isso também é uma novidade em se tratando de contos de fadas, mas foi também explorado em FROZEN, de certa forma.

Não deixa de ser algo bem diferente e pode ajudar a criar uma juventude mais realista e menos crente no amor romântico. Porém, não se sabe o quanto isso pode ter efeitos negativos, já que pode gerar uma juventude mais cínica com certos aspectos da vida, também. De todo modo, não se trata de um filme censura livre, já que pode assustar crianças menores.

A propósito, a própria produção do filme custou a encontrar crianças pequenas que pudessem contracenar com Angelina Jolie com aquela maquiagem assustadora, fazendo com que sua própria filha vivesse a pequena Aurora aos cinco anos de idade, já que a menina estava acostumada com a mãe no set. A reviravolta da trama é bonita, com a protagonista contaminada pelo amor e pela pureza de Aurora (Elle Fanning, na versão adolescente).

O principal problema de MALÉVOLA talvez esteja em seu andamento, muitas vezes moroso. Dar mais de duas horas ao filme não parece ter sido uma decisão muito sábia. Além do mais, por mais que a ideia e a caracterização da personagem sejam ótimas no papel, a direção e o roteiro quadrados, tão convencionais e monótonos quanto a maioria dos filmes de fantasia hollywoodianos, atrapalham, deixando no ar a sensação de que foi uma ótima ideia desperdiçada por uma direção e um roteiro pouco inspirados.