sexta-feira, fevereiro 28, 2014

VIDAS AO VENTO (Kaze Tachinu)



E a anunciada despedida de Hayao Miyazaki é justamente um filme sem elementos de fantasia ou ficção científica tão característicos de seu cinema. E o fantástico disso é que VIDAS AO VENTO (2013), indicado ao Oscar de melhor animação, é um filme com a cara de seu diretor, que já havia mostrado em diversos outros trabalhos a sua fascinação pelo voo. LAPUTA – O CASTELO NO CÉU (1986) se passa boa parte do tempo em ambientes aéreos. Em outros trabalhos, como NAUSICAÄ DO VALE DOS VENTOS (1984) e PORCO ROSSO (1992), é possível, inclusive, sentir um frio na barriga em algumas cenas de voos. E ele consegue isso utilizando uma animação tradicional, sem uso da tecnologia 3D ou truques semelhantes.

Com exceção dos encontros através de sonhos do protagonista Jiro Horikoshi com o designer de aviação italiano Gianni Caproni, VIDAS AO VENTO é um trabalho sobre a história real de um rapaz apaixonado por aviação que se passa nas décadas de 1920 e 1930, em que alguns momentos importantes da história do Japão são mostrados ou citados, como o grande terremoto em Kanto, a Grande Depressão, a epidemia de tuberculose e a entrada do país na Segunda Grande Guerra.

A cena do terremoto é a primeira do filme a nos deixar impressionados. É possível sentir o caos que essa tragédia causou naquela cidade, deixando destruição, incêndios, explosões, mortos e feridos. Aliás, não deixa de ser uma síntese dos terremotos frequentes que assolam o país. É durante esse terremoto que o jovem Jiro conhece a bela e frágil Nahoko, que se tornaria a mulher de sua vida.

Apesar de o filme se deter mais na vida profissional e na obsessão de Jiro com a aviação, que o leva a construir a construir aviões destinados à Segunda Guerra Mundial, é o romance de Jiro e Nahoko que mais mexe com as emoções do público. A cena do casamento dos dois, inclusive, é de uma beleza tão especial que chega a ser difícil conter as lágrimas.

Os traços dos desenhos seguem uma linha quase tão simples quanto a de PONYO – UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR (2008), diferente, por exemplo, dos traços finos e mais caprichados de PRINCESA MONONOKE (1997) e A VIAGEM DE CHIHIRO (2001). Mas isso em nenhum momento atrapalha a apreciação. Até porque algumas imagens são de uma beleza impressionante, inclusive as mais trágicas. Há uma sequência que mostra, numa visão de cima, em um travelling que amplia o plano, um grupo de moças tuberculosas em um hospital situado em uma montanha, referência à Montanha Mágica, de Thomas Mann, obra que é citada em uma conversa.

VIDAS AO VENTO, porém, pode desagradar a muitos que não ligam para aspectos técnicos da aerodinâmica de aviões. Porém, como se trata de uma paixão do personagem (e do cineasta), é bom se deixar contagiar um pouco com o entusiasmo. Pode desagradar também a quem estiver esperando um trabalho cheio de fantasia e elementos fantásticos, como o que é encontrado em todos os seus demais filmes.

Daí a distribuidora brasileira, a California Filmes, ter resolvido, muito sabiamente, lançar o filme apenas em cópias legendadas. Afinal, trata-se de uma animação para adultos ou, no máximo, para adolescentes. Isso acaba sendo uma oportunidade de ouro para quem nunca teve a oportunidade de ver um Miyazaki com o áudio original no cinema, já que a língua japonesa tem uma musicalidade toda especial.

Quanto ao aspecto da Segunda Guerra Mundial e de o filme não questionar enfaticamente o uso dos aviões para fins não muito nobres, digamos que VIDAS AO VENTO prefere crer que as escolhas do Japão em se aliar aos países do Eixo foram uma infelicidade. E que os soldados, apesar de terem se transformado em máquinas assassinas a serviço de um imperador terrível, eram, acima de tudo, homens obstinados e corajosos. Mas Miyazaki prefere não se aprofundar muito nessa questão. Até porque o seu filme já abraça muitos momentos da história japonesa e da história do próprio personagem.

P.S.: Curiosamente, quem faz a voz de Jiro é Hideaki Anno, o criador de NEON GENESIS EVANGELION, uma das séries de animação japonesa mais queridas de todos os tempos, aqui em seu primeiro trabalho como dublador. Isso leva-nos a imaginar que existe uma admiração mútua entre os dois criadores. 

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

NEBRASKA



Assim como David O. Russell, Alexander Payne é um dos novos cineastas (surgidos nos anos 1990, mas que ganharam mais popularidade nos anos 2000) que tem conseguido um forte apoio da Academia, no que se refere ao Oscar. No entanto, talvez seja um cineasta um tanto superestimado. Não se trata de negar seu talento ou mesmo sua autoria, mas de se perguntar até que ponto a indicação de cineastas como ele não é apenas uma tentativa de renovar as listas de favoritos com supostos novos talentos do cinema americano.

Apesar de dois interessantes filmes nos anos 1990, RUTH EM QUESTÃO (1996) e ELEIÇÃO (1999), foi a partir dos anos 2000 que seu estilo pareceu se cristalizar, a apresentar pontos mais claros em comum. O ponto mais fácil de verificar é o gosto pelo road movie, subgênero que já se caracteriza por mostrar a jornada espiritual de um ou mais personagens, através do simbolismo da viagem. Aconteceu em AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (2002), SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS (2004) e OS DESCENDENTES (2011).

NEBRASKA (2013) dá prosseguimento a esse trabalho de autoconhecimento de seus heróis. No caso do novo filme, o herói é Woody Grant, um senhor idoso e com prováveis problemas de memórias vivido por Bruce Dern. Ele cismou que foi premiado com um milhão de reais, através de uma carta de uma revista. Provavelmente a Reader’s Digest, embora não tenha sido citada explicitamente.

Sua família sabe que ele não ganhou coisa alguma, mas o filho mais novo, David, vivido por Will Forte, resolve levar o pai até Nebraska (eles moram em uma cidadezinha de Montana), tanto para mostrar a realidade nua e crua para o velho cabeça dura quanto para passar mais tempo com o pai.

O curioso de NEBRASKA em relação aos demais trabalhos de Payne é que dessa vez ele vai mais fundo na América profunda, apresentando personagens que beiram o ridículo, em especial os moradores da cidade em que Woody e David fazem uma parada, a fim de que Woody possa descansar de uma batida na cabeça. O problema é que Woody espalha que é milionário e não falta gente para botar o olho gordo e até tentar extorqui-lo para conseguir uma parcela desse dinheiro.

Um dos destaques do filme é a bela fotografia em preto e branco de Phedon Papamichael. A textura da imagem é quase prateada. O uso do scope também é valorizado. Em determinada cena, a família de Woody é mostrada numa sala de estar, ocupando a tela inteira. O scope também auxilia nas tomadas exteriores, destacando a paisagem da região e a melancolia daquele lugar, lembrando, inclusive, A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA, de Peter Bogdanovich.

O problema do filme talvez seja o "excesso de sutileza" no trato com as emoções, o que já é uma característica do cinema de Payne, mas que em OS DESCENDENTES ganhou contornos próximos do melodrama em seus momentos finais, o que vejo como um mérito. Porém, há uma boa lista de apreciadores do filme e da atuação de Bruce Dern, pessoas que se sentiram tocadas com o drama dos personagens e com o estilo da direção.

NEBRASKA foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, direção, ator (Dern), atriz coadjuvante (June Squibb), roteiro original e fotografia.

terça-feira, fevereiro 25, 2014

FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog Day)



E foi preciso que Harold Ramis morresse para que eu finalmente revisse, em sua homenagem, este filme que marcou os anos iniciais de minha cinefilia. Não lembro se FEITIÇO DO TEMPO (1993) chegou a passar nos cinemas da cidade, mas meu contato com o filme foi através do velho VHS. E foi amor à primeira vista. A história de um sujeito que acorda no mesmo dia todos os dias é fascinante, suscitando reflexão sobre o sentido da vida e sobre o amor.

O filme é uma fábula sobre a jornada de um homem cínico no caminho da redenção. Mas para ele chegar lá, ele vai ter que penar muito. A ponto de enfrentar momentos de tédio e depressão, de euforia e de desapego, de amor ao próximo e de gosto e interesse em se tornar uma pessoa melhor, através da arte, da técnica e do amor. E o objeto de desejo só surge de verdade quando ele está preparado.

Na trama, Bill Murray é Phil, o "homem do tempo" de uma emissora de televisão de Pittsburgh que viaja mais uma vez para cobrir as festividades do curioso Dia da Marmota. Anualmente, uma festa é feita durante o inverno desta cidade que enfrenta um inverno pesado. Pela tradição, uma marmota é quem dirá se a primavera chegará mais cedo ou se eles terão que enfrentar mais algumas semanas de inverno.

Phil, como um sujeito antipático e pouco animado com a vida e com o trabalho, acaba, como por mágica, ficando preso no mesmo dia. Isso durante muitos e muitos dias. A cada dia, ele começa a se interessar por sua colega de trabalho, Rita (Andie MacDowell), a ponto de se apaixonar por ela. E usa o fato de ter de viver o mesmo dia a fim de seduzi-la. Mas a moça não é tão fácil assim. Ele tem que trabalhar um bocado ainda para merecê-la.

Na época, Andie era uma das mais requisitadas estrelas de comédias românticas. E seu jeito de garota normal e seu sorriso adorável realmente é capaz de deixar muito marmanjo encantado. No ano seguinte, por exemplo, ela faria QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL, de Mike Newell. E Bill Murray ainda não tinha uma fama de ator cultuado como foi ganhando com o passar dos anos, mas já se podia notar um estilo de interpretação bem própria, com uma expressão de desencanto no rosto que nenhum outro ator parecia ter.

Em alguns momentos de FEITIÇO DO TEMPO, dá até um pouco de inveja de Phil, já que a vida não nos dá oportunidade para ensaiar. E ele tem toda a oportunidade do mundo, ainda que na maioria dos dias veja isso como uma maldição. Mas quando ele descobre o quanto pode aproveitar produtivamente cada dia, estudando (piano, poesia), ajudando pessoas, percebendo detalhes pequenos do cotidiano, é que vemos que de certa forma também estamos presos numa repetição. Cabe a nós transformar a repetição em variação, ou a rotina em poesia.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club)



Fica difícil falar de CLUBE DE COMPRAS DALLAS (2013) e não enaltecer o excelente desempenho de Matthew McConaughey, que está no melhor momento de sua carreira, inclusive empolgando atualmente em uma série extraordinária, TRUE DETECTIVE. Como um filme em que a atuação é um ponto forte, não podemos deixar de destacar também o outro oscarizável, Jared Leto.

Tanto McConaughey quanto Leto passaram por mudanças físicas brutais, impressionantes, tendo emagrecido bastante para interpretarem doentes de AIDS durante os anos 1980, quando se iniciou a epidemia da doença e a ciência ainda estava em busca de uma cura ou tratamento para aquele mal que matava mais rápido do que o mais agressivo dos cânceres. Leto talvez até mereça mais crédito, já que também passou por outro tipo de transformação: ele fez o papel de um transexual tão bem que chega a se perder na personagem.

Quanto ao filme em si, é um belo e empolgante drama sobre um heterossexual homofóbico e viciado em drogas que descobre que tem AIDS num tempo em que a doença ainda era ligada aos homossexuais. Tanto que, além de sofrer com um tempo de vida de 30 dias que os médicos lhe dão, ainda perde os amigos por causa do preconceito. Como é baseado em uma história real, como, aliás, boa parte dos indicados ao Oscar, CLUBE DE COMPRAS DALLAS nos apresenta a missão de um homem cujo egoísmo e o preconceito vai se esvaindo aos poucos, à medida que ele abraça as novas prioridades de sua vida.

São elas: trazer medicação não autorizada pelo Governo dos Estados Unidos para soropositivos que, ou não conseguem o remédio mais caro da temporada, o AZT, como aqueles que descobrem que o remédio mata ainda mais rápido o doente. Ao buscar um coquetel fabricado de forma quase caseira em uma cidade no México, Ron Woodroof, o personagem de McConaughey, cria uma espécie de cruzada contra o sistema de saúde e a empresa que monopoliza o uso de um remédio e que não aceita, até então, terapias alternativas.

Assim, CLUBE DE COMPRAS DALLAS funciona em diversos quesitos: como "filme de doença", como filme de atores, como um filme sobre a missão de um homem ou como um filme sobre superação. É também um retrato de uma época que parece ter sido deixada de lado ultimamente por Hollywood, agora que a doença está sob controle. Alguns momentos no filme podem comover, principalmente os momentos de abraços. Impressionante o quanto um abraço é capaz de fazer como catalizador de sentimentos.

Ainda assim, o diretor canadense Jean-Marc Vallé, de C.R.A.Z.Y. – LOUCOS DE AMOR (2005), outro trabalho também simpatizante da causa gay, procura não exagerar no sentimentalismo. Ou então não consegue transcender a mera história bem contada e com bons atores. O que não deixa de ser muito bom, mas que provavelmente não garantirá uma memória afetiva tão duradoura para seu filme.

CLUBE DE COMPRAS DALLAS foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator (McConaughey ), ator coadjuvante (Leto), roteiro original, edição e maquiagem e cabelos.

domingo, fevereiro 23, 2014

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (12 Years a Slave)



O sentimento de revolta é o que mais nos martela ao ver 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (2013), terceiro longa-metragem do cineasta inglês Steve McQueen. Imagine ser livre, ter uma família que ama e de repente ser capturado e virar moeda de troca para trabalho escravo de latifundiários sádicos e perversos. Pois essa é a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) e o filme de McQueen nos leva a sentir um pouco pelo que passa este homem que, apesar de todas as humilhações, mantém sua nobreza de caráter intacta.

Ver 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO até faz com que a fé cristã seja posta em xeque, já que o que os escravos aprenderam do Evangelho e que passaram adiante em igrejas protestantes foram passadas pelos senhores de escravos, que ainda tinham a cara de pau de afirmar que todo o sofrimento que eles estavam passando tinha o aval da Bíblia.

No Brasil, por exemplo, os negros foram mais rebeldes, ao manterem vivas religiões afrobrasileiras, até como uma forma de recusa aos dogmas trazidos da Europa. Nos Estados Unidos, porém, não se pode dizer que eles não foram beneficiados com criações gloriosas nascidas da dor, como os spirituals, que depois deram origem a ritmos como o blues, o jazz, o r&b, o soul, o rock'n'roll, o funk ou o rap, com o passar dos tempos. Quer dizer, não dá para imaginar a sociedade ocidental sem essa música rica e influente.

É justamente num desses momentos de dúvida do protagonista, entre aceitar ou não as canções do inimigo, que falam da ida para um lugar melhor, o céu, o paraíso, que Solomon finalmente aceita, no funeral de um escravo que morreu "em serviço". Era viver em rancor eternamente ou crer na glória no céu, depois do sofrimento na Terra.

Steve McQueen, cineasta negro, um estrangeiro abordando um tema americano, mas tão pouco explorado, representa a raça, justifica esse belo trabalho. No ano passado tivemos dois filmes que abordaram o tema, LINCOLN, de Steven Spielberg, e DJANGO LIVRE, de Quentin Tarantino. Mas se o primeiro focava em um momento específico da vida do Presidente que declarou uma guerra contra a escravatura e o segundo fez uma abordagem mais próxima do cinema blaxploitation, McQueen opta por um caminho realista e mais ligado ao tema da escravidão, especificamente.

No prólogo, que antecipa um momento que seria retomado posteriormente, vemos Solomon tentando escrever uma carta utilizando um graveto e amoras machucadas. Devido à dificuldade, ele desiste. Essa sensação de indignação, de impotência, só cresce ao longo do filme. Uma sequência é, sem dúvida, inesquecível: Solomon está enforcado com apenas as pontas dos pés encostadas no chão. Ao fundo, ninguém se mexe para ajudá-lo, como se aquilo fosse algo normal. A trilha sonora, de Hans Zimmer, emula de maneira eficiente o clima de opressão por que passa o personagem.

A cena das chibatadas na personagem de Lupita Nyong'o só não é mais impactante porque não é tão gráfica quanto em, por exemplo, A PAIXÃO DE CRISTO, de Mel Gibson, mas imaginar isso é até perverso de nossa parte. Muito elegantemente, McQueen vira sua câmera para a pessoa que está recebendo as chicotadas, mas a preferência é destacar a dor de Solomon ou o comportamento perverso do personagem de Michael Fassbender.

Quanto ao final extremamente dolorido, o pedido de desculpas por parte de Solomon é de cortar o coração. Como pedir desculpas depois de tudo o que passou? A liberdade, tema também dos outros dois longas de McQueen, HUNGER (2008) e SHAME (2011), não poderia encontrar espaço mais apropriado do que neste pequeno recorte de um dos momentos mais vergonhosos da História das Américas.

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, direção, ator (Chiwetel Ejiofor), ator coadjuvante (Michael Fassbender), atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o), roteiro adaptado, edição, figurino e desenho de produção.

sábado, fevereiro 22, 2014

ROBOCOP



Dentre os vários remakes que foram produzidos em Hollywood nos últimos anos, poucos tiveram tanta resistência por parte da audiência quanto ROBOCOP (2014), de José Padilha. Isso se deve, obviamente, ao fato de o original de Paul Verhoeven ser tão cultuado e possuir uma quantidade de fãs bem considerável. A violência por imposição dos produtores também é outro elemento importante nessa rejeição por antecipação. Verhoeven adora violência e nudez em seus filmes e essa é uma das razões de ele ser tão amado por uma parcela da cinefilia. Assim, é bastante comum ler ou ouvir de pessoas que sobre um boicote a esta nova versão da história do policial Alex Murphy, que tem seu corpo mutilado e é colocado em uma máquina. Uma máquina a serviço das autoridades.

Acontece que já conhecemos José Padilha e sabemos o seu interesse por questões políticas e sociais e o seu filme pode ser visto como uma alegoria da sociedade. Viver no Brasil pode tornar uma pessoa mais pessimista com relação ao futuro da humanidade. Se para os americanos o excesso de violência e criminalidade pode representar uma distopia, para nós, brasileiros, é uma realidade. Assim, não precisamos chegar ao ano de 2028 para ver esse tipo de situação, assim como já estamos bem acostumados a apresentadores de noticiários sensacionalistas que ganham dinheiro e fama com seus comentários nada imparciais e bem próximos do fascismo sobre a questão da violência.

O novo ROBOCOP, apesar de tão malhado por boa parte da crítica e da audiência, embora tenha também alguns ilustres admiradores, é bem eficiente como diversão, embora alguém vá achar que há muitos jogos políticos e pouca ação. Mas é por isso mesmo que ele é interessante, diferenciando-se dos thrillers de ação convencionais e ainda empolgando nas poucas cenas de ação.

A ênfase que Padilha dá em seu ROBOCOP é na questão homem-máquina, no humanismo que quer ser roubado de Murphy (Joel Kinnaman), policial que acorda sem o seu corpo para ser usado como fantoche nas mãos de uma organização privada de segurança que está tendo dificuldade em colocar robôs nas ruas dos Estados Unidos, porque a população não confia em quem não pensa. Daí vem a ideia de colocar o homem no corpo de uma máquina e construir um homem-robô. E Michael Keaton representa muito bem o homem manipulador que se aproveita da inteligência do médico e cientista vivido por Gary Oldman (como sempre excelente).

Talvez o que falte em ROBOCOP seja justamente mais humanidade. É como se o filme sofresse também dos distúrbios de seu protagonista. Ora Murphy consegue seguir com suas próprias pernas e sair à cata de quem planejou a sua morte, ora ele tem sua liberdade podada pelos cientistas. E esse problema de se ter (ou não) liberdade num filme 100 milhões de dólares já era bastante esperado.

Daniel Rezende, montador de TROPA DE ELITE (2007) e TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO (2010), aqui trabalha ao lado de outro técnico, que provavelmente interfere para que haja um dinamismo na ação que não canse a audiência, uma preocupação que remonta à aurora do cinema hollywoodiano, mas que pode, muitas vezes, tornar aquilo que seria uma obra relevante em mera diversão escapista. E é assim, trôpego, tentando se equilibrar entre essas duas necessidades – de entreter como um blockbuster lucrativo e de honrar o trabalho e a reputação de seu diretor – que o ROBOCOP de Padilha quase chega a ser um grande filme.

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

A FLORESTA DE JONATHAS



Uma pena que muitos filmes brasileiros não estejam encontrando uma boa acolhida nem mesmo no circuito alternativo. A FLORESTA DE JONATHAS (2012), belo trabalho de Sérgio Andrade, só fica até esta quinta-feira em Fortaleza, com apenas uma sessão diária, no Dragão do Mar. Mesmo um espaço que prestigia mais filmes fora do circuitão não segurou mais do que uma semana este trabalho singular em nossa cinematografia.

A FLORESTA DE JONATHAS, além de nos apresentar um universo novo e misterioso, desperta sentimentos e sensações difíceis de descrever. Muitas dessas sensações são causadas pela grandeza assustadora e perturbadora da floresta amazônica, que também é explorada através do excelente trabalho de som. Daí a importância de vê-lo no cinema, para que nos sintamos tão perdidos na Floresta Amazônica quanto o protagonista. Quem já teve a sensação de ter se perdido alguma vez e não saber como encontrar a saída certamente vai comungar com a angústia de Jonathas (Begê Muniz).

Mas posso até estar antecipando bastante o terceiro ato do filme, embora não haja palavras que substituam a experiência de ver (e ouvir) este misterioso filme. Aliás, em tempos de exibição de QUANDO EU ERA VIVO e de diversos flertes de cineastas brasileiros com o fantástico, A FLORESTA DE JONATHAS vem engrossar as fileiras desse território que, principalmente na Amazônia, pode ser muito rico para exploração.

Na trama, Jonathas e seu pai (Francisco Mendes) são quem mais dão duro para colher frutas e vendê-las no pequeno quiosque em frente à humilde casa deles, na beira da estrada. O irmão de Jonathas, Juliano (Ítalo Castro), costuma desobedecer o pai e prefere se divertir, saindo com os vários turistas que visitam a região. Entre esses turistas está Milly, vivida pela bela Viktoria Vinyarska, objeto de desejo de Jonathas. Aliás, as cenas entre os dois são tão boas que Sérgio Andrade faria, sem problema algum, uma história de amor a partir do relacionamento deles.

Mas o diretor prefere ousar e adentrar um território não apenas do fantástico, mas do estranhamento na mudança do registro realista para um registro diferente, com personagens olhando para a câmera em determinado momento, além de termos a chance de entrar em contato com crenças indígenas. Aliás, filmes que abordam o misticismo dos índios funcionam também nos Estados Unidos. Quem não lembra do mistério em torno de Jim Morrison e um índio xamã em THE DOORS, de Oliver Stone?

E o Brasil oferece ainda mais mistério, já que é um terreno muito pouco explorado por nossos cineastas. Quem ousa filmar no território amazônico acaba enfrentando muitos problemas, como foi o caso de Hector Babenco, com o seu maravilhoso BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR. Sérgio Andrade teve essa ousadia e, se não teve apoio do grande público, o que é comum em se tratando de produções brasileiras fora das mãos da Rede Globo, deixou um belo trabalho para ser apreciado.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

SEIS CURTAS BRASILEIROS



Um conselho de um blogueiro veterano: não deixe acumular muitos filmes se você não tem uma memória muito boa. Especialmente se forem curtas-metragens. Eu poderia ter feito algumas anotações logo depois que assisti a cada um destes seis curtas-metragens, mas o que foi que eu fiz? Apenas anotei o nome do filme e do diretor. Só pra ficar lembrando a mim mesmo que eu devo escrever algumas linhas a respeito. E chegou a hora de falar um pouco sobre esses filmes, buscando da memória ou em alguns casos de trechos dos próprios filmes. Vamos lá.

TUDO BEM

Taí o caso de curta que apresenta personagens tão legais que dá vontade de ficar com eles mais um pouco. Quem sabe numa série de televisão ou algo do tipo. Destaque para Camila, a personagem de Ailen Scandurra, que terminou o namoro há pouco tempo e anda desencantada com baladas e flertes. TUDO BEM (2012, foto), de Christopher Faust, tem uma simplicidade agradável no trato com os problemas da personagem e ainda assim consegue ser muito sensível ao nos apresentar seus sentimentos, sua vontade de estar só, embora às vezes o destino possa pregar peças. A cena de Camila cantando para a câmera uma canção de Mallu Magalhães ajuda a situá-la na atual geração.

BRASÍLIA SEGUNDO FELDMAN 

Documentário em curta-metragem visto na Mostra de Direitos Humanos do ano passado, dentro de uma mini-mostra em homenagem a Vladimir de Carvalho, BRASÍLIA SEGUNDO FELDMAN (1979) traz imagens de arquivo impressionantes sobre a construção de Brasília, mais exatamente sobre o último ano, quando aconteceu um massacre de operários, gente que já comia o pão que o diabo amassou para ajudar a construir a capital do país. Até hoje essa chacina é um assunto mal resolvido e o curta de Vladimir continua tendo sua força tanto como documento histórico quanto como arte.

LIÇÃO DE ESQUI 

Leonardo Mouramateus é um dos jovens mais talentosos do novo cinema produzido no Ceará e tem chamado a atenção em vários festivais. No Cine Ceará do ano passado, tive a oportunidade de trocar algumas poucas palavras com ele e de ver MAURO EM CAIENA (2012), que ganhou um prêmio especial de temática nordestina. LIÇÃO DE ESQUI (2013), em parceria com Samuel Brasileiro, seu trabalho seguinte, foi exibido no Festival de Brasília. O interessante é que você percebe elementos autorais já a partir do segundo trabalho visto do diretor. O filme lida com um acidente ocorrido com um amigo em comum de dois rapazes, que aparecem filmados de maneira pouco comum. Interessante a brincadeira de brigar e de interpretar dos dois amigos, que pode ser algo relacionado à natureza da interpretação, da criação cinematográfica. A cena na boate parece uma espécie de continuação do final de MAURO EM CAIENA, como se se passasse no mesmo universo.

POUCO MAIS DE UM MÊS 

Entrei em contato pela primeira vez com o trabalho de André Novais Oliveira com FANTASMAS (2009), o tipo de filme que de tão simples de fazer e tão inteligentemente construído que a gente fica com raiva de não ter tido a ideia. POUCO MAIS DE UM MÊS (2013) é menos impactante, mas bem mais fascinante e complexo. Começa com imagens invertidas da “câmera escura” do apartamento de Élida, moça que está começando um relacionamento com André, interpretado pelo próprio diretor. O filme explora também a relação dos dois personagens, do fato de eles terem dúvidas quanto à estabilidade e às possibilidades de um relacionamento sério. Há todo um cuidado com os silêncios, os sons, a respiração. E é muito bonita a cena da conversa dos dois na parada de ônibus. Ao que parece, Novais Oliveira é mesmo um dos melhores talentos da nova geração.

A NAVALHA DO AVÔ 

O que inicialmente chama a atenção em A NAVALHA DO AVÔ (2013), de Pedro Jorge, é a presença do crítico de cinema Jean-Claude Bernadet no papel do senhor de idade que não fala e que está um tanto doente. Há um jovem que se esquiva de cuidar do avô e é principalmente a relação dos dois que o filme mais apresenta. O filme não tem exatamente uma linha narrativa óbvia, é mais um cinema de cotidiano, de pequenos gestos, mas que tem sua força em diversos momentos, como uma cena na feira, outra em uma barbearia e diversas dentro da própria casa. Bernadet fez o seu primeiro personagem de ficção e se saiu muito bem.

A QUE DEVE A HONRA DA ILUSTRE VISITA ESTE SIMPLES MARQUÊS? 

O filme de Rafael Urban e Terence Keller é um dos curtas mais interessantes que eu vi recentemente. O filme se passa todo dentro da mansão de Max Conrad Jr., um rico octogenário que recebe os diretores para mostrar quadros de arte, antigas revistas e jornais, entre outros elementos que fazem parte de sua singular coleção. Uma das coisas que chama atenção em A QUE DEVE A HONRA DA ILUSTRE VISITA ESTE SIMPLES MARQUÊS? (2013) é a ordenação do espaço, tão perfeito como em um museu de arte. Até mesmo o aposento que guarda antigas revistas e jornais é muito bem ordenado, apesar de parecer menos vistoso. E há a própria figura de Conrad Jr., que se mostra um tanto solitário, por ser a única pessoa presente no filme. Não que ele pareça se importar, já que mostra sua coleção com muito entusiasmo.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

À PROCURA DO AMOR (Enough Said)



Nos créditos finais de ELA, um dos homenageados é James Gandolfini. Ver o nome dele ali e saber que o ator não está mais entre nós dá até uma pontada no coração. Quem acompanhou FAMÍLIA SOPRANO sabe o quanto o seu personagem é carismático e o quanto se confunde com o próprio ator para nós, que não o conhecemos pessoalmente.

À PROCURA DO AMOR (2013), de Nicole Holofcener, do ótimo SENTIMENTO DE CULPA (2010), nos oferece a chance de entrar em contato com um Gandolfini mais gentil, na pele do personagem Albert, um homem divorciado que mantém uma relação bem carinhosa com a filha, prestes a entrar na faculdade.

Outro presente de À PROCURA DO AMOR é Julia Louis-Dreyfus, a eterna Elaine, de SEINFELD. Holofcener junta duas lendas da televisão americana em um único filme. Julia é a massagista Eva, também divorciada e também com uma filha prestes a entrar na faculdade que conhece esse homem gordo e um tanto desengonçado, mas que tem um charme que ela não sabe explicar muito bem explicar.

Os dois gostam muito do primeiro encontro. Tanto que o segundo é mais fácil. O problema é que Eva se torna amiga da ex-esposa de Albert (Catherine Keener). E essa mulher começa a contar aquilo que mais lhe incomodava no ex-marido. Isso, sem que Eva dissesse nada sobre estar saindo com Albert.

É até previsível o final, mas é tão bonito e há uma química muito gostosa entre o casal de astros. O interessante é que a personagem de Julia lembra Elaine em alguns aspectos, o que dá para imaginar que o papel foi feito para ela. Eva comete alguns deslizes e algumas atitudes pouco louváveis que fazem lembrar a adorável personagem de caráter duvidoso de SEINFELD. Mas o coração do filme é mesmo Gandolfini, com sua simplicidade e grande coração. Dá até pra imaginar que muito do saudoso ator está ali, naquele personagem.

domingo, fevereiro 16, 2014

PHILOMENA



Dentre os indicados ao Globo de Ouro e ao Oscar, PHILOMENA (2013) era, talvez, o menos esperado. Novo trabalho de Stephen Frears, o filme representa uma volta a uma visibilidade maior do cineasta inglês, depois de alguns trabalhos pouco inspirados após o ótimo A RAINHA (2006). Se bem que CHÉRI (2009) é um belo e amargo filme. Pena ter sido tão pouco visto e comentado. PHILOMENA ainda estabelece um link com um dos primeiros trabalhos de maior repercussão de Frears, MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA (1985), que aborda a questão da homossexualidade.

Em PHILOMENA, essa questão não é aprofundada, mas é elemento essencial. O que mais importa, no entanto, é a jornada desta senhora irlandesa, Philomena (Judi Dench) que quando jovem teve o filho tomado de si por freiras sádicas e desumanas, na época em que era tida como uma espécie de prisioneira em um convento. Ela havia engravidado depois de uma aventura amorosa e só tinha permissão de ver o filho uma hora durante o dia. Ainda criança, o menino foi levado por uma família, assim como outros filhos frutos do "pecado" de outras jovens do convento.

A história de Philomena cruza com a do jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan), que foi recentemente demitido de um jornal de prestígio e se encontra desempregado. Sua ideia é escrever um livro sobre a História da Rússia, mas lhe surgiu esta história investigativa sobre uma mulher que deseja encontrar o filho. Depois de hesitar e subestimar o valor daquela história, ele aceita ajudar e também lucrar com isso.

Ao contrário de Philomena, que é uma senhora que ainda respeita e crê em Deus e no Catolicismo, Martin é um homem cético e que não consegue entender como Philomena ainda respeita uma instituição que lhe tomou a criança, sem falar em todo o histórico de sangue nas mãos. Mas é esse tipo de diferença entre os dois que cria um interessante relacionamento durante a jornada.

Talvez falte ao filme de Frears mais momentos realmente emocionantes, mas é um trabalho muito agradável de ver e os dois protagonistas estão muito bem, representam de fato os personagens, numa história inspirada em fatos reais. A descoberta, por parte de Martin, do paradeiro e de quem se tornou o filho de Philomena é talvez o momento de maior emoção do filme, mas o confronto com as velhas freiras do convento fecham com chave de ouro este bom trabalho.

PHILOMENA foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, atriz (Judi Dench), roteiro adaptado e trilha sonora original.

sábado, fevereiro 15, 2014

ELA (Her)



"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."
(Gênesis 1:27)

Ao que parece, não demorará muito para que o homem também passe a ser uma espécie de deus, criando à sua imagem inteligências artificiais espelhadas em seus pensamentos e sentimentos, de modo que possam até mesmo evoluir de maneira livre. No cinema, já havíamos visto algo parecido em diversos filmes. Podemos lembrar do computador HAL-9000, de 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick; das inteligências artificiais parecidas com anjos no final de A.I. – INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, de Steven Spielberg; do andróide amigo da família de O HOMEM BICENTENÁRIO, de Chris Columbus; dos andróides rebeldes que desejam permanecer vivos de BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, de Ridley Scott. Há, certamente, outros tantos exemplos de como o cinema antecipou essa possibilidade.

Porém, poucos filmes lidaram de maneira tão romântica e tão delicada com essa questão quanto ELA (2013), de Spike Jonze, que tem uma carreira com mais videoclipes do que longas-metragens. Lembremos de um clipe que ele fez para a Björk, "It’s Oh So Quiet" (1995), canção que trata justamente da paixão e de como ela mexe com a cabeça das pessoas. Tudo bem que o mérito aqui é principalmente da cantora e compositora, mas o trabalho inspirado nos musicais da Broadway que o diretor criou foi algo bastante especial.

Jonze, inclusive, vinha mostrando também em trabalhos mais recentes, como ONDE VIVEM OS MONSTROS (2009) e o curta-metragem I’M HERE (2010), a sua tendência em sair um pouco mais dos cerebralismos de QUERO SER JOHN MALKOVICH (1999) e ADAPTAÇÃO (2002), que eram bem mais culpa do roteirista, Charlie Kaufman. ELA seria, portanto, a junção dessa natureza cerebral, já que trata de um universo de ficção científica, com um tratamento mais amoroso, ao abordar a história de um homem que se apaixona por um sistema operacional.

Mas não se trata de um sistema operacional qualquer. É um SO com a voz, a sedução e o senso de humor de Scarlett Johansson, que aqui ganha o nome de Samantha. O homem, vivido por Joaquin Phoenix, se chama Theodore, e está passando por um momento bastante difícil em sua vida. Depois da separação da esposa (Rooney Mara), ele não é mais o mesmo. Sonha com ela constantemente. Seu trabalho é particularmente interessante: ele escreve cartas de amor em uma empresa especializada no ramo. E ele é muito bom nisso, tem muita sensibilidade no uso das palavras.

O futuro mostrado no filme, ao mesmo tempo que facilita as conexões, também afasta as pessoas. Mais ou menos como já podemos sentir atualmente, em que os contatos virtuais tomam cada vez mais o espaço dos contatos físicos. A vantagem é que podemos conhecer e gostar de certas pessoas menos influenciados por sua aparência e mais influenciados por sua mente, seu espírito, por assim dizer.

Quanto a Theodore, nem mesmo o trabalho o impede que ele mergulhe cada vez mais na solidão. Até o dia em que ele descobre um sistema operacional que pode conversar com a pessoa, além de auxiliar em diversas tarefas. O primeiro contato com o tal sistema, Samantha, já é bastante impressionante. Samantha parece uma pessoa de verdade, embora tenha consciência de que não tem corpo e ainda questiona a natureza dos próprios sentimentos. Aos poucos, a relação dos dois adquire um status de relacionamento afetivo. E isso começa a fazer muito bem para Theodore, que, com a ajuda de Samantha, consegue preencher o vazio no peito pela falta da ex-esposa.

Obviamente, este não é o resumo da história completa, que ganha um desenvolvimento empolgante e muitas vezes bizarro e um final belíssimo. E Jonze consegue isso a partir de um roteiro muito bem escrito por ele mesmo, apresentando-nos discussões de relacionamento aparentemente inéditas no cinema, com um grau de profundidade que faz com que o filme seja adequado para plateias adultas. Além do mais, há também todo um cuidado no uso das cores, com um belo trabalho de fotografia do holandês Hoyte Van Hoytema, no desenho de produção e nos figurinos futuristas, na música da banda canadense Arcade Fire, e no elenco de apoio, composto por outras beldades, como Amy Adams, Rooney Mara e Olivia Wilde.

ELA foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, roteiro original, trilha sonora original, canção ("The Moon Song", de Karen O e Spike Jonze) e desenho de produção.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

SANGUE RUIM (Mauvais Sang)



O problema do cinema pós-moderno é que ele se utiliza de tantas referências que às vezes até pensamos que ele não consegue existir com as próprias pernas. Mas esse tipo de impressão se dissipa quando lembramos da grandiosidade de pós-modernos célebres, como Sergio Leone, na década de 1960, Brian De Palma, na década de 1970, e Quentin Tarantino, nos anos 1990. O amor pelo cinema está presente em cada enquadramento, em cada fotograma, em cada homenagem.

No caso de Leos Carax, que voltou a ser assunto de cinéfilos intelectuais depois do sensacional HOLY MOTORS (2012), sua obra tem sido reavaliada com o lançamento de alguns de seus primeiros trabalhos no cinema, sendo que SANGUE RUIM (1986) é um de seus filmes mais louvados. O filme ressurge em uma belíssima cópia restaurada em DCP, com as cores vermelho, azul e amarelo acentuadas em uma paleta que amplifica a sensação de artificialismo, ou de anti-naturalismo, já que é uma espécie de ficção científica que remete a ALPHAVILLE, de Jean-Luc Godard.

Os diálogos nos lembram o tempo inteiro de que estamos vendo um filme, o que pode interferir na identificação com os personagens, mas não interfere na apreciação estética. Difícil não ficar impressionado com a performance de Denis Lavant, que desde o primeiro filme de Carax (BOY MEETS GIRL, 1984) se mostrou um ator singular. A mais famosa cena dele em SANGUE RUIM é a corrida desesperada numa rua, ao som de "Modern Love", de David Bowie, que o recente FRANCES HA, de Noah Baumbach, tratou de homenagear.

A presença de duas beldades, que se tornariam duas atrizes de primeira grandeza do cinema francês e internacional, Juliette Binoche e Julie Delpy, é outro motivo para se querer ver o filme: vê-las ainda bem jovens, mas já belíssimas. Binoche já passava um ar mais aristocrático, clássico, enquanto Delpy já personificava, em sua simplicidade, aquela garota da vizinhança que mexia com os nossos corações.

Levant é Alex, um sujeito que está dividido entre esses dois amores. Embora um deles ele tenha deixado para trás. Agora seu interesse por Anna (Binoche) é, além de uma paixão genuína, uma vontade de enfrentar a autoridade do amante da moça, seu chefe, vivido por um já veterano Michel Piccoli.

O enredo do filme é, por si só, já carregado de poesia: uma doença está matando aqueles que fazem sexo sem amor. E Marc, personagem de Piccoli, sabe como conseguir um antídoto para a doença. Daí ele pede a ajuda de Alex e anda sempre com Anna. Trata-se de uma espécie de romantismo todo próprio de algumas gerações de cineastas franceses. No caso, Carax dialoga bem mais com a turma da Nouvelle Vague do que seus contemporâneos, que buscaram um caminho mais fácil e mais comercial. Carax teve a audácia de fazer filmes para si mesmo, antes de tudo.

Se SANGUE RUIM não é um filme de fácil degustação para muitos é porque ainda precisamos educar o nosso olhar para obras do tipo. Não se sai de uma sessão deste filme sem ficar com questionamentos e imagens na cabeça por muito tempo, talvez muitos anos. E ainda é um convite para entrar em contato com a obra completa de Carax, que é até bem curta para alguém que começou nos anos 1980.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

SPRING BREAKERS – GAROTAS PERIGOSAS (Spring Breakers)



Confesso que, mesmo tendo passado já alguns meses depois de visto SPRING BREAKERS – GAROTAS PERIGOSAS (2012), ainda não sei se gostei do filme. Na verdade, estou mais para desgostar do que para gostar, mas, racionalmente, vejo várias qualidades no filme. O tom de pessimismo, por exemplo. Sem falar na beleza das meninas, apesar de o filme passar uma imagem um tanto vulgar delas.

O que me deixou curioso em vê-lo foi sua presença na lista dos 10 melhores do ano dos Cahiérs du Cinéma. Nem sabia quem era Harmony Korine, o diretor. Se era homem ou mulher  – é homem. Um cineasta que veio do cinema independente. Depois, acabei vendo seu nome citado no livro História do Cinema, de Mark Cousins, o que me deixou surpreso. Ele é mais conhecido de críticos e cinéfilos que acompanham sua carreira em festivais ou por downloads. Não deixa de ser saudável conhecer mais um jovem talento e tentar buscar em outras obras algo que nos faça compreender aquela primeira que nos deixou um tanto confusos.

Em SPRING BREAKERS, garotas rebeldes e em trajes sumários, passando férias em uma cidade litorânea e bem ensolarada, começam a achar que assaltar um restaurante pode ser, além de divertido, bem lucrativo. Unir o útil ao agradável. Há entre as meninas uma bastante religiosa, que encontra entre as amigas um abrigo da vida um tanto regrada que leva na comunidade. O que faz com que ela dê para trás é o encontro das moças com um gângster cheio de lábia e dentes de ouro vivido por James Franco.

Como não se trata de um filme que se interesse tanto pela história ou mesmo pelos personagens, talvez o melhor seja ver SPRING BREAKERS atentando para sua forma. O excesso de cor e luz, junto com um trabalho de edição que lembra SEM DESTINO, de Dennis Hopper, faz com que fiquemos ainda mais confusos em saber se aquilo que estamos vendo é uma obra de respeito ou uma enganação.

Resultado: SPRING BREAKERS é talvez a obra mais controversa do ano passado, tendo tanto apreciadores exaltados quanto gente que odeia de todo o coração. De todo modo, é um filme a ser conferido, até por sua ousadia no campo da sexualidade, algo um tanto raro no cinema produzido nos Estados Unidos. Além do mais, duas das garotas perigosas do subtítulo vêm da Disney: Selena Gomez vem da série HANNAH MONTANA e Vanessa Hudgens vem de HIGH SCHOOL MUSICAL. A molecada que cresceu vendo essas produções no Disney Channel já pode fazer a festa.

domingo, fevereiro 09, 2014

OPERAÇÃO SOMBRA – JACK RYAN (Jack Ryan: Shadow Recruit)



Quinta aventura cinematográfica baseada no personagem criado pelo romancista Tom Clancy, OPERAÇÃO SOMBRA – JACK RYAN (2014), de Kenneth Branagh, talvez seja o mais fraco dos filmes estrelados pelo herói, que aqui tem sua origem reinventada. Desta vez, Jack (Chris Pine) é um inteligente estudante de Economia em Londres que, depois dos acontecimentos de 11 de setembro, resolve se aliar aos fuzileiros navais americanos. Daí o salto para uma missão no Afeganistão, missão essa que faria com que ele ficasse seriamente ferido.

No hospital, além de ter que treinar muito para conseguir voltar a andar, conhece sua futura esposa, a médica Cathy, vivida por Keira Knightley. É lá também que ele é procurado por um agente da CIA (Kevin Costner), que o quer trabalhando como analista da Bolsa de Valores a fim de descobrir potenciais criminosos. Não demora muito para que ele descubra contas suspeitas de um empresário russo, Viktor Cherevin (vivido por Kenneth Branagh).

Vale dizer que o melhor personagem do filme é justamente este vilão vivido por Branagh. Mesmo com ares de canastrão, ele brilha como ator em um filme de personagens apagados. E o curioso é que Branagh está vivendo uma fase bem ruim como diretor há muito tempo. Não foi THOR (2011), dos estúdios Marvel, que conseguiu reabilitá-lo.

Nem mesmo quando OPERAÇÃO SOMBRA – JACK RYAN passa a chamar mais atenção com cenas mais movimentadas (sequestro, perseguição, lutas corporais etc.), o filme consegue ser minimamente eficiente como thriller de ação e espionagem. O que é uma pena, tendo em vista os nomes envolvidos no elenco.

Nem mesmo aquilo que poderia supostamente funcionar a favor do filme, que é o fato de Ryan não ter experiência como agente de campo e ficar tremendo como vara verde a cada situação perigosa, isto é, tornando-o mais humano do que qualquer encarnação de James Bond, não tem efeito algum para o espectador, que provavelmente ficará indiferente.

Além do mais, Chris Pine, por mais que tenha pinta de galã e provavelmente terá um futuro assegurado nos filmes de ação, ainda não parece ter encontrado o tom certo para encarnar seus personagens. Jack Ryan não é muito diferente do Capitão Kirk (dos novos STAR TREK), por exemplo, a não ser por suas histórias ou pela eficiência ou não dos diretores.

sábado, fevereiro 08, 2014

TRÊS FILMES FRANCESES



Com o tempo, acabei deixando alguns títulos para trás, não exatamente porque eles não merecem textos mais volumosos, mas por acúmulo de filmes vistos mesmo. Assim, se faz necessário de vez em quando uma postagem dessas de três títulos com alguma coisa em comum, no caso, o fato de serem franceses. São dois filmes que me agradaram e um que me desagradou, mas que ainda assim teu o seu valor. A cinematografia francesa é uma das mais resistentes do mundo e continua gerando belos filmes.

SEJAM MUITO BEM-VINDOS (Bienvenue Parmi Nous) 

Não cheguei a ver MINHAS TARDES COM MARGUERITTE (2010), mas é um filme que muita gente adora. SEJAM MUITO BEM-VINDOS (2012) é o trabalho seguinte do diretor, Jean Becker, e trata do relacionamento de amizade entre um ranzinza pintor sessentão e uma adolescente rebelde que resolveu fugir de casa por ser maltratada pelo padrasto e ignorada pela mãe. O pintor (Patrick Chesnais) está com depressão e resolve um dia fugir de casa. No caminho, encontra uma jovem (Jeanne Lambert) que lhe pede carona. De início, a carona seria só até determinado ponto, mas aos poucos a relação dos dois vai ficando mais próxima. Como não há nenhum interesse amoroso entre eles, o filme acaba adquirindo uma pureza por vezes comovente, quase como um encontro de pai e filha.

A ESPUMA DOS DIAS (L'Écume des Jours) 

Sabe aquele filme que com 20 minutos você já está doido para sair do cinema? Esse é o caso. E realmente, durante a sessão de A ESPUMA DOS DIAS (2013), várias pessoas foram embora. Não sei se alguém quis pedir o dinheiro de volta, mas é de fato uma obra tão chata que parece durar mais de três horas. Michel Gondry, mais conhecido como o diretor de BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (2004), abusou de sua liberdade criativa para fazer uma obra que de fato é bem diferente do que se encontra por aí, com personagens como que saídos de desenhos animados. Porém, ele não encontrou o tom para que nos importássemos com esses personagens. Ao contrário, tanto faz se Chloé (Audrey Tatou) vai morrer de uma doença misteriosa ou se Colin (Roman Duris) está sofendo muito com isto. O que pode chamar a atenção é o retorno de Gondry ao estilo de situações absurdas que eram bastante comuns em seus videoclipes que lhe fizeram a fama, como os que ele fez para Björk, Massive Attack, Daft Punk, The Chemical Brothers, entre outros. Seu trabalho com videoclipes foi tão expressivo que é até possível encontrar na internet um arquivo reunindo todo o seu trabalho na área. Certamente é uma experiência muito melhor do que ver A ESPUMA DOS DIAS.

O VERÃO DO SKYLAB (Le Skylab) 

Que simpatia de filme que é este O VERÃO DO SKYLAB (2011), de Julie Delpy. Sua parceria com Richard Linklater parece ter desabrochado seu lado roteirista/diretora, que já rendeu cinco longas e dois curtas. Infelizmente não cheguei a ver nenhum dos outros trabalhos de direção de Delpy, mas fiquei encantado em muitos momentos com este seu filme-coral, com tantos personagens que dá pra imaginar o trabalho que pode ter sido administrá-los no roteiro e principalmente durante o processo de filmagem e edição. Mas Delpy consegue lidar muito bem com essa comédia agradável sobre uma grande família que se reúne para celebrar o aniversário de 65 anos da matriarca, vivida por Bernadette Lafond, musa da Nouvelle Vague francesa. Outra veterana que aparece é Emmanuelle Rivas, pouco antes de ter filmado AMOR, de Michael Haneke. A personagem principal é uma garota de 11 anos, Albertine (Lou Alvarez), cujos pais são vividos por Eric Elmosnino e Julie Delpy. Entre crianças e adultos, sãos e loucos, esquerdistas e direitistas, o filme sai das conversas banais do início para discutir também política e sexualidade. Destaque para o momento em que Albertine se apaixona por um rapaz que conhece em uma praia de nudismo.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

ALÉM DAS MONTANHAS (Dupa Dealuri)



Depois de deixar muitos espectadores com falta de ar com o excepcional 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007), até que demorou bastante para surgir um novo trabalho do diretor romeno Cristian Mungiu. E se ALÉM DAS MONTANHAS (2012) não alcança (por pouco) a mesma força de seu antecessor, trata-se de um filme muito mais ambicioso na construção de outros elementos do cinema, como a direção de arte e a fotografia, por exemplo. Mas o elemento humano é novamente o "x" da questão.

Se em 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS acompanhamos o tormento de duas amigas para conseguir um aborto na Romênia da década de 1980, em ALÉM DAS MONTANHAS também vemos duas amigas em situações perturbadoras. O alvo aqui é o fundamentalismo religioso.

O filme se passa em uma aldeia da Romênia afastada da civilização onde funciona uma espécie de convento da Igreja Cristã Ortodoxa, que consegue ser bem mais rigorosa que a Ocidental, aproximando-se do fundamentalismo de algumas seitas islamitas. O cinema poderia muito bem ser utilizado como um bonito tratado de fé, como acontece, por exemplo, com A PALAVRA, de Carl T. Dreyer, mas esse é um caso bem excepcional.

A Igreja aqui carrega uma culpa enorme, não somente pela ignorância e a alienação em que vivem as mulheres de lá, como, principalmente, tem suas mãos sujas do sangue de uma inocente. Ou pelo menos inocente do ponto de vista legal, já que a fé e a ideia de pecado ficam a critério de cada espectador. Mas, obviamente, a balança pende contra a Igreja.

Assim, é até compreensível ficar do lado da garota que aparece para visitar a amiga que vive no convento e que no passado tiveram uma relação mais íntima. Sua intenção é levar a amiga de volta com ela, para morarem juntas. Acontece que a moça está convertida à religião e rejeita tentativas de aproximação da "estrangeira", que não é muito bem-vinda naquele lugar. Porém, nota-se que ela ainda nutre um sentimento pela amiga. Apenas acredita que fazer o que faziam quando eram mais jovens é pecado.

Em pleno século XXI, vemos um lugar que parece situado na Idade Média, o que só aumenta o clima de repressão, chegando um momento quase inacreditável, em que a garota que perturba a rotina daquele lugar é tida como endemoniada e necessita de um exorcismo.

Trata-se de um filme e tanto, mas ainda fica a impressão de que toda essa situação absurda que se forma em curva ascendente poderia ter causado uma catarse maior. Como acontece, por exemplo, no trabalho anterior de Mungiu. Teria sido uma pequena falha do diretor ou ele optou por um registro mais seco, de propósito? De todo modo, é desses filmes para não perder em hipótese alguma. Seja pelas suas qualidades fílmicas admiráveis, seja pela discussão que promove.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

EU E VOCÊ (Io e Te)



Depois do suntuoso O PEQUENO BUDA (1993), Bernardo Bertolucci cansou um pouco de histórias complicadas de se filmar e preferiu entrar num caminho mais introvertido, com poucos personagens e com destaque para cenas em interiores. Dessa fase vieram BELEZA ROUBADA (1996), ASSÉDIO (1998), OS SONHADORES (2003) e este mais recente EU E VOCÊ (2012).

Essa fase também é dedicada a personagens mais jovens, que paradoxalmente devem entrar em sintonia com o estado de espírito do cineasta, um dos mais importantes da cinematografia italiana, e atualmente fazendo bem menos filmes e já tendo passado o seu auge criativo. Cada novo trabalho seu parece ser o último. E depois de OS SONHADORES, que é um filme ao mesmo tempo saudosista mas também cheio de vitalidade, parecia que não veríamos mais um novo trabalho do autor de O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972).

Adepto do minimalismo, EU E VOCÊ centra-se basicamente em um pequeno lugar escondido no subsolo do prédio em que o garoto Lorenzo (Jacopo Olmo Antineri) mora. O lugar, ele escolhe estrategicamente para ficar sozinho e enganar a mãe, que acreditará que ele foi para um passeio da escola. A ideia é ficar os sete dias longe de todos, trancado naquele lugar, já tendo preparado o estoque de comida, o computador e a música para ouvir e se desligar do mundo.

O que ele não esperava é que sua meia-irmã, Olivia (Tea Falco), fosse aparecer por lá, intoxicada com álcool e drogas, e pronta para passar por um período de abstinência. De início, Lorenzo não quer que ela fique, mas depois ele começa a querer a sua presença, admirando sua beleza, como se sentindo um amor proibido pela própria irmã, que ele mal conhece. Não chega a ser uma relação tão próxima sexualmente quanto em OS SONHADORES, mas há uma carga de tensão sexual leve entre os dois.

EU E VOCÊ está longe de ser um dos melhores trabalhos de Bertolucci, especialmente quando ele subestima a memória dos espectador, na cena do tatu dando voltas dentro de uma redoma de vidro, mas ainda assim é um belo filme. Talvez o momento mais bonito seja o que toca uma versão italiana de "Space Oddity", de David Bowie. A mesma canção que também é ouvida em um momento bem especial de A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY, de Ben Stiller.

A letra da versão italiana não tem muito a ver com a original, mas é bem bonita e representativa daquele momento dos dois. Quando a canção toca e Olivia canta, sob teor alcoólico, num misto de alegria e tristeza, nos sentimos cúmplices dos dois, sozinhos ali naquele bunker, longe do mundo, mas sabendo que é necessário se fortalecer e voltar para ele. Por mais que a tentação de se esquivar e curtir a solidão seja grande. Os introvertidos entenderão; os extrovertidos, não sei.

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

TRAPAÇA (American Hustle)



Em um ano em que temos um Martin Scorsese em um de seus melhores momentos, ver um filme que emula o cinema do mestre ítalo-americano acaba perdendo um bocado da graça. TRAPAÇA (2013) carrega os trejeitos de algumas obras scorsesianas, mas sem metade de sua energia e transgressão. A narração em voice-over de dois personagens, a simpatia pelos enganadores, alguns momentos de câmera lenta e o gosto pelo rock setentista presente na trilha sonora são elementos que fazem com que lembremos inclusive do recente O LOBO DE WALL STREET.

Como comparar O. Russell com Scorsese não parece muito justo, fiquemos apenas com TRAPAÇA e um pouco da trajetória de seu diretor. Percebe-se, principalmente se tomarmos a trinca O VENCEDOR (2010), O LADO BOM DA VIDA (2012) e TRAPAÇA, uma preferência pelos personagens, muito acima de qualquer interesse pela trama. E isso pode ser visto como um mérito.

Inclusive, na trama mais cheia de reviravoltas de TRAPAÇA, é bem possível acompanhar o filme sem se preocupar em entender cada detalhe. O que acaba interessando bem mais são os personagens e a câmera às vezes urgente de O. Russell, em especial quando o personagem de Christian Bale está discutindo/conversando com sua amante e com sua esposa (Amy Adams e Jennifer Lawrence, respectivamente), ou quando o personagem de Bradley Cooper procura fugir de sua família esquisita para se aproximar da encantadora trapaceira Sydney (Adams).

Claro que dentro das trapaças há momentos especialmente divertidos, como o que envolve um xeque de araque, mas mesmo esta cena, que traz em participação não creditada um ator que tem tudo a ver com Scorsese, tem um quê de déjà vu, remetendo a BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Por isso que quando o diretor procura entrar em território que não parece ser o seu acaba deixando seu filme mais frágil. Porém, quando ele põe em cena seus astros para brilhar, aí sim tomamos gosto.

Jennifer Lawrence, ainda que em papel pequeno, é divertidíssima. Lembramos o quanto ela mesma é uma personalidade que se popularizou por seu lado moleque. Vê-la cantando "Live and let die", de Paul McCartney, é um dos momentos mais divertidos de sua participação.

Mas o filme é mesmo de Christian Bale, mais uma vez camaleão, apresentando-se agora careca e com um barrigão de cerveja, e de Amy Adams, que foge dos estereótipos da mocinha certinha que costuma representar para se transformar em uma mulher sedutora, cheia de sex appeal, capaz de ir em busca do que é melhor para seu futuro, analisando de forma fria e calculista, mas sem nunca perder a ternura. Fechando o quinteto, Bradley Cooper e Jeremy Renner são ótimas aquisições e têm seu brilho próprio ao longo do filme.

Quanto a O. Russell, que de uns tempos pra cá tem se tornado cada vez mais presente nas premiações da academia, o cineasta tem mudado o estilo a cada novo filme. Talvez não tenha encontrado seu caminho, mesmo depois de uma carreira de sete longas-metragens de ficção. Ou talvez este seja o seu caminho: multifacetado e plural.

TRAPAÇA recebeu 10 indicações ao Oscar: filme, direção, ator (Christian Bale), atriz (Amy Adams), ator coadjuvante (Bradley Cooper), atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence), roteiro original, edição, figurino e design de produção.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

QUANDO EU ERA VIVO



Já faz algum tempo que uma nova geração de cineastas vem tentando trazer de volta o cinema de gênero, mais especificamente o filme de horror, para o cinema brasileiro. E alguns têm conseguido, embora raramente esses filmes tenham conseguido chegar ao nosso circuito. Geralmente, quando se fala de cinema de horror brasileiro, costuma-se associar muito à figura do Zé do Caixão, personagem mítico de José Mojica Marins, que de fato foi uma das criações mais importantes de nossa cinematografia, tendo rendindo grandes filmes, principalmente na década de 1960.

Muita gente esquece (ou não sabe) que na década de 1970 cineastas do porte de Walter Hugo Khouri e Carlos Hugo Christensen, entre outros tantos, conseguiram fazer cinema de horror de maneira séria e sofisticada. Nos anos 1980, diretores como Antonio Carlos da Fontoura (ESPELHO DE CARNE) e a dupla José Antônio Garcia e Ícaro Martins (A ESTRELA NUA) uniram o erotismo com o terror com resultados brilhantes. Atualmente, temos o caso de Rodrigo Aragão, que aos poucos está conseguindo chegar ao mercado com seu terceiro longa-metragem, MAR NEGRO.

Mesmo assim, existe um pensamento errôneo de que o cineasta brasileiro não sabe fazer filme de horror. Hoje, além de ótimos diretores como o cearense Petrus Cariry e o pernambucano Kleber Mendonça Filho, que também têm infiltrado o cinema de gênero em seus dramas sociais, o coletivo paulista Filmes do Caixote vem tentando mudar esse pensamento já faz algum tempo. Dois membros da turma, Marco Dutra e Juliana Rojas, construíram uma série de curtas fantásticos que solidificaram sua estrada para os longas-metragens. O primeiro deles, TRABALHAR CANSA (2011), foi assinado por Dutra e Rojas e ainda não abraçou o horror em sua totalidade, embora possua uma atmosfera sinistra bem particular.

E finalmente chegamos em QUANDO EU ERA VIVO (2014), assinado apenas por Dutra, mas tendo Juliana Rojas como montadora. Trata-se de uma obra que já causa estranheza ao ver o elenco: Antônio Fagundes, Sandy Leah e Marat Descartes. No caso de Descartes, não há nada de estranho, já que ele foi protagonista de TRABALHAR CANSA e estreou no cinema em um curta da dupla Dutra-Rojas, UM RAMO (2007). Mas a presença de Sandy, por exemplo, é uma escolha no mínimo inusitada.

E quem pensava que a cantora com rosto de boneca (de fato, no filme, ela parece uma boneca) estragaria o trabalho de Dutra está muito enganado. Ela é a terceira personagem mais importante de QUANDO EU ERA VIVO e é fundamental para a construção da trama, e sua voz doce é essencial para uma perturbadora cena envolvendo magia negra.

O filme se inicia com Júnior, o personagem de Descartes, retornando à casa do pai (Antônio Fagundes). Ele havia se separado da esposa e estava passando por uma difícil questão envolvendo a guarda do filho. Porém, já estava conformado que a guarda seria dada para a mãe. Rejeitando as tentativas de trabalho que o pai lhe arranjava, Júnior prefere ficar na casa do pai, lugar que ainda possui reminiscências escondidas de sua falecida mãe.

Todo esse material havia sido guardado pelo pai, que diz que trazer à tona coisas do passado dá azar. Mas não se trata apenas disso. Os estranhos vídeos encontrados, além de uma partitura com uma mensagem criptografada, são elementos que deixam Júnior ainda mais intrigado, querendo saber mais detalhes do que significa tudo aquilo. Para isso, ele procura a ajuda da jovem inquilina Bruna (Sandy), estudante de música.

QUANDO EU ERA VIVO tem suas qualidades apoiadas não apenas no desempenho dos atores e na direção segura de Dutra, mas também na fotografia linda de Ivo Lopes Araújo (responsável pela direção de fotografia de O GRÃO, de Petrus Cariry, e de TATUAGEM, de Hilton Lacerda); e na trilha sonora (assinada por Dutra, Guilherme Garbato e Gustavo Garbato), que desde os créditos iniciais já dita o tom. O filme é adaptado do romance A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli.

A adaptação foi feita por outro nome de primeira grandeza entre os novos cineastas brasileiros, Gabriela Amaral Almeida, mais conhecida pelo premiado curta-metragem A MÃO QUE AFAGA (2012), possuidor de uma atmosfera quase lynchiana, em parceria com Dutra. Logo, percebe-se que há todo um cuidado para que todos os elementos contribuam para que QUANDO EU ERA VIVO represente um novo e excitante momento de nosso cinema.

Ainda que distribuído em poucas cópias no Brasil, a intenção é conquistar o público aos poucos, de modo que consigamos ganhar um pouco mais de espaço nesse território ocupado principalmente pelas comédias globais. Como diria alguns personagens de certo filme de David Cronenberg: vida longa à nova carne!

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

BABILÔNIA 2000



Quando um artista que amamos muito morre, logo após a fase de indignação e negação, o máximo que podemos fazer, como amante de sua obra, é escrever umas linhas em sua homenagem, mostrando o quanto ele nos foi importante. A morte de Eduardo Coutinho marcou um doloroso domingo de luto para a cinefilia brasileira. Dizer que era/é o maior documentarista do Brasil de todos os tempos não é exagero, por mais que alguém possa questionar.

Então, como modo de homenageá-lo, resolvi ver um dos filmes dele que ainda não tinha visto ainda: BABILÔNIA 2000 (2000). É interessante notar as semelhanças do filme com seus demais trabalhos e e no quanto foi uma obra que antecipou outras, mas também é continuação de um trabalho que já vinha sendo feito desde os tempos que ele fazia Globo Repórter e que gerou uma pérola como TEODORICO, O IMPERADOR DO SERTÃO (1978).

E ver BABILÔNIA 2000 hoje, com o Brasil tendo passado por mudanças políticas e sociais nestes quase 14 anos, é bem diferente do que ter visto naquela época, quando se falava sobre as mudanças que o milênio traria para a humanidade. No discurso dos entrevistados, todos das comunidades de Chapéu Mangueira e Babilônia, no Rio de Janeiro, havia um tom de alegria, apesar da vida pobre, mas havia também um desacreditar no futuro do país. "O Brasil não vai melhorar nunca, só vai piorar" são palavras recorrentes.

Sem querer traçar um balanço do que melhorou ou piorou no Brasil, até porque não sou a pessoa mais adequada para fazer isso, prefiro me atentar naquilo que é mais recorrente na obra de Coutinho, que é a sua busca de aproximação com os entrevistados. A ideia de escolher o dia 31 de dezembro de 1999 para entrevistar essas pessoas e perguntá-las sobre suas vidas e sobre suas expectativas para o novo milênio parece mais uma desculpa para conversar com essas pessoas anônimas. Ou quase, já que há, da política, Benedita da Silva, e dois homens que participaram de pequenos papéis no cinema.

O que mais senti falta em BABILÔNIA 2000 foi o fato de que nem todos aqueles que prestaram seus depoimentos foram entrevistados por Coutinho. E isso faz alguma diferença sim. Nota-se que Coutinho tem uma habilidade muito maior de fazer com que aquelas pessoas se desnudem para a câmera, fazendo perguntas mais profundas, mas ao mesmo tempo simples, que possam ser entendidas por aquela gente simples. Quando o entrevistador é outro, de sua equipe, o resultado é menos impactante.

Dois entrevistados me chamaram mais a atenção particularmente: uma senhora que veio de Minas Gerais ainda jovem e se estabeleceu no Rio, tendo conhecido o Presidente Juscelino Kubitschek, mostra uma visão de mundo ligada ao passado; e uma mulher que fala da perda do irmão, morto a balas em uma situação já muito comum naquelas comunidades. Tanto é que esse não é o único caso relatado no documentário.

O gosto de Coutinho em ouvir os entrevistados cantando, como a ex-hippie e agora evangélica, aparece também em BABILÔNIA 2000. Ela canta duas canções da Janis Joplin. Isso seria repetido em EDIFÍCIO MASTER (2002), em JOGO DE CENA (2007) e principalmente em AS CANÇÕES (2011), seu derradeiro filme e o que mais me emocionou, embora não seja necessariamente seu melhor trabalho. O interesse pela religião, pelas crenças alheias também está presente, algo que já havia sido trabalhado com ênfase em SANTO FORTE (1999), seu trabalho anterior.

Creio que por ter me emocionado tanto com JOGO DE CENA e com AS CANÇÕES eu tenha criado uma ligação próxima do espiritual com seu cinema. E quando isso acontece, a morte do artista é muito sentida. Por mais que as circunstâncias de sua morte sejam trágicas e chocantes e notícia "quente" para cadernos policiais e programas sensacionalistas, o que mais dói é certamente a sua passagem para outro plano. Deixo aqui o meu muito obrigado.

Eduardo Coutinho estava finalizando um novo projeto intitulado PALAVRA, sobre jovens de escolas públicas. O trabalho será continuado por João Moreira Salles, seu parceiro da Videofilmes e um dos responsáveis pela retomada de seu cinema. Creio que está em boas mãos. 

sábado, fevereiro 01, 2014

AMERICAN HORROR STORY - COVEN



E a terceira temporada da série/minissérie de horror de Ryan Murphy e Brad Falchuk acabou sendo um convite para que eu largasse de vez este projeto. O que me animou a continuar a ver foi a segunda temporada, AMERICAN HORROR STORY – ASYLUM (2012-2013), um acerto e tanto. E quase um milagre ter dado certo, já que era uma mistureba dos diabos. Mas foi uma temporada em que a gente se importava com os personagens. E isso pesa bastante para que gostemos de uma história.

AMERICAN HORROR STORY – COVEN (2013-2014) é exatamente o oposto. Não ligamos a mínima para os personagens. Nem para as cenas de violência gráfica. Em determinado momento, a personagem de Sarah Paulson fura os próprios olhos com uma tesoura. Em qualquer outro filme este tipo de cena seria chocante, causaria horror. Aqui, no entanto, causa indiferença.

Isso se deve, principalmente, porque todas as leis da Física são infligidas pelas personagens bruxas. Elas morrem e renascem com uma banalidade que a morte passa a ser algo sem a menor importância. E isso contamina a série, que lá pela metade chega a ser tão chata que dá mesmo vontade de largar de vez. Só não larguei, pois queria ir até o fim, já que estava tão perto de acabar o tormento. Pelo menos os episódios finais, apesar de ruins, não são tão chatos e fecham definitivamente a trama.

Jessica Lange começa a esgotar a sua força e a se repetir. Os rostos que se repetem de temporadas passadas acabam sendo prejudicados por roteiros e personagens mal conduzidos, caso de Lily Rabe, que na temporada passada fez uma freira endemoniada fantástica e agora é uma bruxa hippie sem graça; de Evan Peters, que passa a maior parte dos episódios grunhido como um monstro de Frankenstein; de Sarah Paulson, que está bem apagada, mesmo sendo a protagonista; e de Frances Conroy, que deve ter sentido muita falta dos bons tempos de A SETE PALMOS. Kathy Bates é outro grande nome praticamente destruído pela série.

Dos novos rostos, destaque para Emma Roberts, como a bruxinha sem coração e que não hesita em causar o mal. Bonita e atraente como é, acaba sendo uma das personagens mais interessantes. Quanto à doce Taissa Farmiga, depois da participação na primeira temporada, ela volta como a bruxa mais benevolente da turma. Já Gabourey Sidibe, a estrela de PRECIOSA – UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA, por mais que não queira, acaba evocando más lembranças do filme horrível que protagonizou.

A trama envolve um clã de bruxas em Nova Orleans que se vê às voltas com uma "suprema" malvada, vivida por Jessica Lange, e com um grupo de bruxas negras, encabeçada por Angela Bassett. Segundo a trama, todas elas são herdeiras das lendárias bruxas de Salem, que migraram para Nova Orleans a fim de conseguirem abrigo dos caçadores de bruxas. Não deixa de ser uma ideia interessante, aproveitando o ar de magia que a cidade tem. Pena que tudo isso e muito mais é mal aproveitado.