terça-feira, dezembro 31, 2013

TOP 20 2013 E O BALANÇO DO ANO



1. CAMILLE CLAUDEL, 1915, de Bruno Dumont
2. AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL, de Stephen Chbosky
3. O CONSELHEIRO DO CRIME, de Ridley Scott
4. ANTES DA MEIA-NOITE, de Richard Linklater
5. DJANGO LIVRE, de Quentin Tarantino



6. GRAVIDADE, de Alfonso Cuarón
7. TABU, de Miguel Gomes
8. UM ESTRANHO NO LAGO, de Alain Guiraudie
9. INVOCAÇÃO DO MAL, de James Wan
10. JOGOS VORAZES – EM CHAMAS, de Francis Lawrence

 

11. FRANCES HA, de Noah Baumbach
12. HOLY MOTORS, de Leos Carax
13. KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL, de William Friedkin
14. AMOR, de Michael Haneke
15. FILHA DE NINGUÉM, de Sang-soo Hong

 

16. AZUL É A COR MAIS QUENTE, de Abdellatif Kechiche
17. BARBARA, de Christian Petzold
18. AS SESSÕES, de Ben Lewin
19. UMA PRIMAVERA COM MINHA MÃE, de Stéphane Brizé
20. DEPOIS DE MAIO, de Olivier Assayas

Menções honrosas (ou filmes que quase entraram no top 20): A CAÇA, de Thomas Vinterberg; BLUE JASMINE, de Woody Allen; OS SUSPEITOS, de Dennis Villeneuve; ANNA KARENINA, de Joe Wright; O LUGAR ONDE TUDO TERMINA, de Derek Cianfrance; EMAK BAKIA, de Oskar Alegria; O VOO, de Robert Zemeckis; O ÚLTIMO DESAFIO, de Jee-woon Kim; KICK-ASS 2, de Jeff Wadlow; OLHO NU, de Joel Pizzini.

Então chega ao fim mais um ano. Um ano difícil, especialmente no segundo semestre. Houve pelo menos dois grandes momentos no campo pessoal: minha defesa no mestrado em julho e minha participação no júri da crítica no Cine Ceará em setembro. Não posso deixar de falar da excelente aquisição das novas salas do Dragão do Mar, que trouxeram vitalidade para o nosso circuito alternativo, que sofria de ausência de produções importantes que não chegavam às nossas telas. Além do mais, a qualidade das salas é de dar gosto.

No território dos filmes, a exemplo do que eu disse no ano passado em comparação com o anterior, posso dizer que 2013 foi melhor que 2012. No entanto, uma coisa que se nota logo de cara nesta lista é a ausência de filmes brasileiros. Se na lista do ano passado havia uma abundância de belos filmes nacionais, neste ano, por mais que as bilheterias tenham batido recordes, o resultado em qualidade não foi dos mais animadores, ainda que tenham aparecido filmes bem interessantes no circuito alternativo. Infelizmente nenhum deles me tocou a ponto de eu colocá-los entre os favoritos. Há o caso de O SOM AO REDOR, mas este eu já havia colocado na lista do ano passado, quando o vi em Gramado. Certamente, se só o visse este ano, o filme de Kleber Mendonça Filho figuraria nas primeiras colocações.

Assim, esta é a regra, para o caso de alguém reclamar do que posso ou não posso fazer: valem filmes que foram exibidos nos cinemas de Fortaleza, não importando se foram em apenas uma sessão, se foram em festivais ou se foram lançados comercialmente em São Paulo no ano passado.
Entre os filmes que chegaram aqui com atraso, não pude deixar de colocar dois trabalhos muito queridos, que me empolgaram e me emocionaram: AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL, de Stephen Chbosky; e HOLY MOTORS, de Leos Carax. São dois filmes bem distintos: o primeiro, mais acessível e de uma sensibilidade impressionante; o segundo, mais hermético, mas nem por isso menos fascinante.

2013 também foi o ano do retorno de Jesse e Celine, depois de um hiato de mais nove anos. ANTES DA MEIA-NOITE, de Richard Linklater, era desde o início o filme mais aguardado do ano por mim. Continua sendo um prazer imenso poder acompanhar recortes da vida deste casal que surgiu pela primeira vez em 1995 e até então tem ganhando mais e mais fãs. E cada vez dialogando mais com o cinema europeu.

Outro momento inspirador de 2013 foi poder ver DJANGO LIVRE, de Quentin Tarantino, no cinema. Foi o tão sonhado projeto de western do diretor finalmente materializado. Apesar de estar longe de sua tradicional montadora, Tarantino tem um poder na construção de personagens e de cenas que nos deixa hipnotizados e encantados. Já nem importam tanto as referências, por mais que existam tantas, e sim a criação de um universo próprio. DJANGO LIVRE e o tocante AS SESSÕES, de Ben Lewin, foram os únicos filmes do Oscar-2012 que acabaram entrando no top 20, o que mostra mais uma vez que a grande maioria dos filmes escolhidos pela Academia se mostra fogo de palha depois de passados alguns meses.

Há também o caso excepcional de AMOR, de Michael Haneke, que estava também entre os indicados à categoria principal, mas que era um estranho no ninho entre os favoritos hollywoodianos. De todo modo foi boa a indicação, pois fez com que o filme de Haneke ganhasse visibilidade. A temática da eutanásia não agradou a muitos, por causa de convicções religiosas, mas independentemente do credo, é muito bom ver um diretor tendo o direito de expressar o seu pensamento.

Curiosamente, outra produção francesa tratou do mesmo tema, com mais sensibilidade e menos secura: UMA PRIMAVERA COM MINHA MÃE, de Stéphane Brizé, que infelizmente passou batido no circuito, tendo sido muito pouco comentado mesmo entre os críticos e cinéfilos. Faço a minha parte e o coloco um pouco em evidência, esperando que alguém se interesse em vê-lo.

Aliás, o cinema francês está com tudo, cada vez mais eclipsando o cinema americano em premiações internacionais e listas de melhores filmes do ano. Basta ver o caso de dois filmes que exploraram a temática da homossexualidade, mas que conquistaram o posto de grandes obras por suas qualidades fílmicas. Trata-se de UM ESTRANHO NO LAGO, de Alain Guiraudie, e AZUL É A COR MAIS QUENTE, de Abdellatif Kechiche. Dois belos e ousados trabalhos, que figuraram na lista da conceituada revista Cahiers du Cinéma. Fugindo um pouco dessa polêmica envolvendo a homossexualidade, tivemos mais um filme de Olivier Assayas, DEPOIS DE MAIO, desta vez, voltando novamente aos tempos de sua juventude, dividida entre a arte e a militância política.

Lembrando que o favorito da casa acabou sendo também uma produção francesa: CAMILLE CLAUDEL, 1915, do mais bressoniano dos cineastas atuais, Bruno Dumont. No filme, Juliette Binoche interpreta a artista plástica que ficou presa em um hospital psiquiátrico por anos, a mando da família. O cineasta explora não só o calvário da personagem, mas também aproveita para exercitar o seu gosto por assuntos de natureza religiosa e metafísica, seja em palavras, seja através das próprias imagens.

Quanto ao cinemão americano, é possível pensar que ele está passando por uma crise criativa, tendo em vista a grande quantidade de franquias bobas e milionárias. Foi um ano muito fraco em termos de blockbusters. Pelo menos um salvou a pátria, tendo figurado entre os meus vinte preferidos. Trata-se de JOGOS VORAZES – EM CHAMAS, de Francis Lawrence, a segunda parte de uma franquia que tem me surpreendido positivamente até o momento.

Porém, ainda assim, grandes cineastas, como Ridley Scott, conseguem juntar um grande time de astros e convidar um romancista como Cormac McCarthy para fazer uma obra intensa como O CONSELHEIRO DO CRIME, filme que dividiu opiniões, assim como o anterior de Scott, PROMETHEUS. A mim, no entanto, o cineasta está passando por um de seus melhores momentos.

É dos Estados Unidos também um dos filmes mais celebrados do ano: GRAVIDADE, do mexicano Alfonso Cuarón. O filme oferece uma experiência única a quem se permitir vê-lo como uma ficção, como um thriller, ou até mesmo como um drama sobre superação, e menos como uma obra que respeita as leis da física.

Outro filme muito celebrado pela crítica e um sucesso explosivo do circuito alternativo é FRANCES HA, de Noah Baumbach, com sua homenagem à Nouvelle Vague, sua adorável heroína e um tema tão puro: a amizade. KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL, do veterano William Friedkin, também foi louvado e mostrou que o diretor de O EXORCISTA continua adorando mexer com as emoções da audiência. De uma forma ou de outra.

Falando em O EXORCISTA, do gênero horror, o único representante do ano é INVOCAÇÃO DO MAL, de James Wan, cineasta que tem se especializado em filmes sobre casas assombradas por espíritos malignos ou demônios. Neste filme, ele nos leva para a década de 1970, em um passeio assustador pelo caso de um casal de "caça-fantasmas", às voltas com uma terrível possessão demoníaca.

Para terminar, falemos de três trabalhos vindos de três diferentes países: de Portugal, TABU, de Miguel Gomes, um filme que homenageia a obra-prima homônima de F.W. Murnau, mas mantendo o melancólico espírito português; da Coreia do Sul, FILHA DE NINGUÉM, de Sang-soo Hong, um dos cineastas cujo termo autoral mais se aplica e que tem optado pela repetição como forma de aperfeiçoamento; e da Alemanha, BARBARA, de Christian Petzold, com mais uma história sobre a difícil vida na Alemanha Oriental, narrado com inquietação e angústia.

Top 5 Piores do Ano 

Os piores do ano têm filmes para todos os desgostos. Filmes brasileiros e estrangeiros que têm como maior problema o fato de existirem.

1. SOLIDÕES
2. O CARTEIRO
3. INATIVIDADE PARANORMAL
4. O CAVALEIRO SOLITÁRIO
5. ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE 2

As séries

Parece que a cada ano o número de séries que acompanho só aumenta. Também pudera: junte-se a minha fidelidade a séries que nem merecem tanto assim com minha curiosidade com as novas, aí dá no que dá. Das séries que acompanho (ou acompanhei) com fidelidade ao longo desses anos está DEXTER, que encerrou em sua oitava temporada com resultados não muito satisfatórios; TRUE BLOOD, que acaba sendo aquela série de horror lixão, mas que serve como bom entretenimento; AMERICAN HORROR STORY, que se vende como uma minissérie, dada suas mudanças de enredo, tempo e lugar a cada nova temporada (estou gostando menos da atual COVEN em comparação com a anterior ASYLUM); BIG BANG THEORY, que infelizmente está perdendo a graça, mas que continua com audiência alta; GAME OF THRONES, que depois de uma segunda temporada fria voltou a impressionar novamente na terceira e sangrenta, que fechou com o dramático "Casamento Vermelho"; HOMELAND, que teve curva descendente a cada temporada, mas cujo final da terceira acabou sendo bem especial; THE KILLING, a série que a AMC ameaçou enterrar já duas vezes e que teve uma terceira temporada magnífica; THE WALKING DEAD, que mantém seus altos e baixos durante a terceira e quarta temporadas; e a adorável GIRLS, que fechou uma segunda temporada bem saborosa.

Das séries novas, apenas duas eu acompanhei e aprovei com louvor: BATES MOTEL, sobre a adolescência de Norman Bates (PSICOSE), e ORPHAN BLACK, sobre uma jovem mulher que descobre que possui vários clones de si mesma. Com um pouco de atraso, conheci duas séries excepcionais: a francesa LES REVENANTS, sobre pessoas que voltam da morte; e a britânica BLACK MIRROR, que é na verdade uma pequena antologia de histórias fantásticas. Nos dois sentidos do adjetivo. RED WIDOW foi o caso de série que morreu na praia, mas foi preferível assim. Não se sustentava mesmo, a não ser pela presença de Radha Mitchell.

Finalmente, o ano foi marcado pela finalização da minha parte de duas das mais importantes séries de todos os tempos: FAMÍLIA SOPRANO, que durou seis temporadas, e cujo protagonista, James Gandolfini, infelizmente faleceu neste fatídico 2013; e SEINFELD, a maior sitcom de todos os tempos, que durou nove temporadas. Também foi neste ano que me despedi de HOUSE, que durou oito temporadas. Ainda que irregulares, Hugh Laurie e seu personagem cínico e atormentado deixaram saudades.

De minisséries, apenas uma vista: HATFIELDS & McCOYS, de Kevin Reynolds e com o amigo Kevin Costner como protagonista. Já que o cinema dá pouco espaço para o western, é muito bom ver um drama familiar tão bem escrito e emocionante como este se passando no velho oeste.

Top 5 Musas do Ano



1. Adèle Exarchopoulos, em AZUL É A COR MAIS QUENTE
2. Scarlett Johansson, em COMO NÃO PERDER ESSA MULHER
3. Jennifer Lawrence, em JOGOS VORAZES – EM CHAMAS e O LADO BOM DA VIDA
4. Jeong Eun-Chae, em FILHA DE NINGUÉM
5. Greta Gerwig, em FRANCES HA

 

Faltaram brasileiras nesta lista, mas como isso não é nenhum concurso, não tem importância. O que vale é destacar essa coisa efêmera, mas ao mesmo tempo apaixonante, que é a beleza feminina. A até então desconhecida para mim Adèle Exarchopoulos leva o primeiro lugar com todos os méritos. Não apenas por sua beleza, mas pela sensibilidade com que criou a personagem que levou seu nome em AZUL É A COR MAIS QUENTE. Enquanto isso, Jennifer Lawrence confirma presença pelo terceiro ano consecutivo neste espaço criado em 2007.

Melhores filmes vistos na telinha

A IMAGEM, de Radley Metzger
AS 4 AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE, de Eric Rohmer
BOB & CAROL & TED & ALICE, de Paul Mazursky
CONFLITOS DE AMOR, de Max Ophüls
ENIGMA PARA DEMÔNIOS, de Carlos Hugo Christensen
ESPELHO D’ALMA, de Richard Siodmak
FAZIL, de Howard Hawks
FORA DAS GRADES, de Nicholas Ray
MEU AMIGO TOTORO, de Hayao Miyzaki
MISTÉRIOS DE LISBOA, de Raoul Ruiz
SEARCHING FOR SUGAR MAN, de Malik Bendjelloul
SPIDER BABY, OR THE MADDEST STORY EVER TOLD, de Jack Hill
SOMBRAS, de John Cassavetes
PACTO DE SANGUE, de Billy Wilder
PAI E FILHA, de Yasujiro Ozu
PILOTO DE PROVAS, de Victor Fleming
POR AMOR OU POR VINGANÇA, de Damiano Damiani
TABU, de F.W. Murnau
TAMBÉM FOMOS FELIZES, de Yasujiro Ozu
UM ALGUÉM APAIXONADO, de Abbas Kiarostami

Revisões

A DOCE VIDA, de Federico Fellini
A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowksy
CARNE TRÊMULA, de Pedro Almodóvar
CORPOS ARDENTES, de Lawrence Kasdan
GLÓRIA FEITA DE SANGUE, de Stanley Kubrick
HENRY & JUNE – DELÍRIOS ERÓTICOS, de Philip Kaufman
HISTÓRIA REAL, de David Lynch
LUZES DA CIDADE, de Charles Chaplin
MARCAS DA VIOLÊNCIA, de David Cronenberg
SE..., de Lindsay Anderson
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis

Feliz ano novo!

Se 2013 foi um ano complicado para muita gente, a expectativa é de que 2014 seja muito melhor em todas as áreas de nossa vida: no amor, na carreira, nas finanças, na vida social, nos estudos, na vida em família, na capacidade de superar os obstáculos, na força espiritual. Pretendo continuar com este meu espaço, mesmo com o abandono de muitos leitores (não dá pra competir com o Facebook). Mas, como julgo importante para mim, como um complemento da apreciação fílmica e como registro de minhas impressões de filmes e até de shows e de viagens, quando é o caso, o Diário de um Cinéfilo planeja completar 12 anos no próximo ano. Meu muito obrigado àqueles que permaneceram lendo com frequência e àqueles que só dão uma passada por aqui de vez em quando. A todos, um excelente ano novo!

segunda-feira, dezembro 30, 2013

TRÊS FILMES NADA BONS



Uma pena estar acabando o ano com três filmes muito ruins vistos num único fim de semana. Mas, como não quero deixar coisa ruim para 2014, vou logo me livrando de uma vez só destes três filmes que me fizeram ficar arrependido de ter saído de casa. Dois deles, produções brasileiras globais.

CONFISSÕES DE ADOLESCENTE – O FILME 

Tinha esperanças de que fosse um bom filme. Afinal, por mais que digam o contrário, Daniel Filho é um bom diretor. Acontece que desde a série AS CARIOCAS (ou antes disso), o diretor e produtor tem deixado nas mãos de sua assistente de direção Cris D’Amato a atividade de diretora. Em CONFISSÕES DE ADOLESCENTE – O FILME (2014), previsto para estrear no circuito no próximo dia 10, mas já passando diariamente em sessões de pré-estreia, ele divide a direção com D'Amato e o resultado é um filme confuso, com excesso de personagens, idas e vindas no tempo e uma edição bem ruim. Algo que não deveria acontecer para um filme de enredo tão simples, lidando com assuntos que todo mundo passa em algum momento na vida: primeiro beijo, primeira relação sexual, dificuldades de encontrar uma ocupação agradável, a cobrança da sociedade com relação a se ter alguém etc. O filme traz de volta as personagens da série de televisão dos anos 90, reformuladas para a geração Facebook. Há participações especiais das quatro atrizes que interpretaram as quatro irmãs na série clássica. Dentre as jovens atrizes, destaque para Sophia Abrahão.

ENDER'S GAME – O JOGO DO EXTERMINADOR (Ender's Game) 

Desde que vi o trailer de ENDER'S GAME – O JOGO DO EXTERMINADOR (2013), de Gavin Hood, que me deu aquela vontade zero de assistir o filme. Mas, depois de ter lido alguns textos relativamente animadores, fui lá conferir. Mas pra quê? Só pra ficar muito entediado com um filme que aborda basicamente o treinamento de um garoto que se destaca como a pessoa perfeita para enfrentar os alienígenas que décadas atrás destruíram parte do Planeta Terra. O garoto, interpretado por Asa Butterfield (o menino dos grandes olhos azuis de A INVENÇÃO DE HUGO CABRET), tem um dom nato de lidar com estratégias. No elenco de apoio, Harrison Ford, Viola Davis e Ben Kingsley comparecem para pagar o leite das crianças. A produção é bem cuidada, mas o filme é um equívoco.

ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE 2 

Este aqui eu já sabia que seria uma bela porcaria. Mas me sujeitei a vê-lo só para ver o grande Jerry Lewis pagando o mico de contracenar com Leandro Hassum. ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE 2 (2013) é basicamente o repeteco do primeiro filme. Agora que o protagonista está pobre de novo, aparece uma nova chance, através da herança de um velho tio. Com 50 milhões de reais na mão e as cinzas do velho para serem jogadas no Grand Canyon, ele sai com a esposa para Las Vegas e acaba perdendo tudo em jogo. Se o primeiro filme ainda tinha algo com o que rir, é impressionante como não há a menor graça neste segundo. O grande público, que costuma gostar dessas comédias, parece não ter esboçado reações muito animadas, a julgar pela sessão em que estive.

domingo, dezembro 29, 2013

HISTÓRIA REAL (The Straight Story)



Recentemente, notei que este ano eu não vi ou revi nenhum filme de David Lynch. A falta de novos filmes do diretor tem sido cruel. Por outro lado, há sempre a possibilidade de rever seus filmes. E o que eu escolhi para ver neste momento um tanto melancólico, que é o final de ano, foi HISTÓRIA REAL (1999), que na época que passou nos cinemas eu vi com muito sono e não aproveitei nada. Agora, na revisão, vi o quanto é lindo, uma obra-prima. Um tanto atípico na filmografia do diretor, mas ao mesmo tempo cheia de elementos lynchianos.

Aliás, só o fato de o filme contar a história (real) de um sujeito que resolve efetuar uma longa jornada em cima de um cortador de grama para fazer as pazes com o irmão, com quem não fala há dez anos, é por si só bizarra. Bizarra, mas também tocante. Ao contrário dos filmes típicos de Lynch, não há aqui uma América com um estranho segredo a ser descoberto. O que há a ser descoberto é o homem Alvin Straight (Richard Farnsworth), que precisa de duas muletas para se sustentar em pé e tem uma visão ruim, mas que mesmo assim é teimoso o suficiente para empreender a jornada.

E é uma jornada de descoberta para os espectadores. Aos poucos, aquele homem simples vai ganhando ares de herói. Ficamos sabendo que ele lutou na Segunda Grande Guerra, que tem algo a lamentar naquele período e que conhece quem lutou aquela guerra só de olhar nos olhos. Isso a gente fica sabendo mais perto do final, numa conversa entre ele e um contemporâneo. Aliás, o filme é cheio de conversas memoráveis, como a da moça grávida à procura de carona, a do padre, a do senhor que lhe oferece abrigo etc. Cada uma dessas conversas vão revelando aos poucos a história de Alvin e até mesmo detalhes da vida dolorosa de sua filha, vivida por Sissy Spacek, uma personagem bem lynchiana: tem dificuldades de fala.

Inclusive, esse amor que Lynch tem pelos velhinhos pode ser vista em outras obras dele. Como esquecer o velhinho que precisa ajudar o Agente Cooper a ir ao hospital em determinado episódio de TWIN PEAKS (1990-1991) ou aquele velhinho do banco do último capítulo? Mas é em HISTÓRIA REAL que ele pôde exercitar tão bem essa ode à velhice, cuja pior parte, segundo Alvin Straight, é lembrar-se da juventude.

No mais, HISTÓRIA REAL é um filme em que Lynch demonstra bastante o seu gosto por pinturas, emulando muitas vezes o trabalho expressionista de Edward Hopper. Há também momentos em que se pode ver uma utilização de câmera que lembra os filmes de horror de Lynch. E isso já acontece no início do filme, quando vemos um baque e a câmera se aproximando lentamente da casa de Alvin, como quando se aproximou do beco escuro para revelar a criatura assustadora de CIDADE DOS SONHOS (2001). Trata-se também de uma homenagem aos Estados Unidos rural, com imagens lindas dos campos e das máquinas que promovem o desenvolvimento agrícola.

Porém, mesmo sendo tudo isso, HISTÓRIA REAL é, acima de tudo, uma história de amor: um amor um pouco contaminado por desavenças do passado, mas uma vez que escutamos a voz de Lyle, quando Alvin chega finalmente a sua casa, vemos que a reconciliação está ali. E não resta muito para aquela dupla de irmãos a não ser olhar as estrelas, as mesmas estrelas que Alvin olhou enquanto acampava à noite, durante sua trajetória. Estrelas que brilham ao som da bela música de Angelo Badalamenti.

sábado, dezembro 28, 2013

A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY (The Secret Life of Walter Mitty)



No campo da comédia, desde fins dos anos 1990 até os dias de hoje, Ben Stiller figura entre os grandes nomes. Jim Carrey, que seria o seu principal desafiador nesse território, acabou se apagando, enquanto Stiller permanece firme e forte, sem parecer fazer muito esforço para fazer rir. O que muita gente não associa é a figura do Stiller cineasta. Sua estreia na direção, com o drama juvenil CAINDO NA REAL (1994), foi com o pé direito. E quem viu o filme na época deve ter criado um vínculo afetivo.

Mas aí, mesmo na direção, Stiller depois foi dando preferência por comédias, ainda que comédias um tanto estranhas, como O PENTELHO (1996), ZOOLANDER (2001) e TROVÃO TROPICAL (2008). Agora ele chega em seu projeto mais ambicioso, A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY (2013), uma mistura de comédia, com história de amor, com fantasia, aventura e lição de vida. Aliás, essa história de ter uma lição de vida pode fazer muita gente torcer o nariz, mas Stiller elabora o seu filme basicamente com imagens e muito pouco com diálogos. E isso acaba fazendo a diferença.

O Walter Mitty do título, interpretado pelo próprio Stiller, trabalha no arquivo de fotos da revista Life, que está passando por uma terrível transição: o fim da revista de papel para restar apenas a versão online. Uma transição que realmente a revista passou, em 2009. Esse tipo de transição significa a demissão em massa de quase todo os funcionários. Entre os funcionários, há a bela Cheryl (Kristen Wiig), amor platônico de Mitty, tão sonhador que muitas vezes sai de órbita, entrando num mundo só dele, cheio de aventuras em que ele é a figura heróica e merecedora de crédito, ao contrário de quem ele é, um apagado e tímido funcionário.

O filme aproveita esses momentos de fantasia de Mitty para mostrar efeitos especiais que chegam a impressionar. Não impressionariam num filme do Homem-Aranha ou de qualquer outro super-herói, mas aqui impressiona, tanto pela qualidade quanto pelo fato de ser algo que está adentrando um território realista. Há pelo menos um grande momento no filme, que é a cena arrepiante em que Mitty decide subir no helicóptero para a maior de suas aventuras, ao som de "Space Oddity", de David Bowie, inicialmente cantada pela personagem de Wiig, representando a musa inspiradora que é capaz de tirar Mitty da zona de conforto para pular, literalmente, num mar com tubarões.

E daí vem a beleza arrebatadora do filme. Por mais que no final Mitty queira provar algo para si mesmo, há também a intenção de ficar com a mulher dos seus sonhos, que desde o início do filme é de importância vital, com a subtrama envolvendo um site de relacionamentos. E assim, com um visual caprichado que aproveita o formato de tela larga (scope), um herói tipicamente stilleriano, uma história de amor simples mas eficaz, Stiller fez esse que é um dos filmes mais belos do ano.

quinta-feira, dezembro 26, 2013

QUANDO UM ESTRANHO CHAMA / MENSAGEIRO DA MORTE (When a Stranger Calls)



Sou um dos poucos fãs do remake dirigido por Simon West, QUANDO UM ESTRANHO CHAMA (2006), estrelado por Camilla Belle, mais bela do que nunca. Só depois que me envolvi com a tensão desse filme que fui saber que se tratava de um remake. QUANDO UM ESTRANHO CHAMA (1979), título para o cinema, e MENSAGEIRO DA MORTE, para vídeo, de Fred Walton, tem apenas a primeira parte em comum com o remake.

O nosso Walter Hugo Khouri fez algo também bem parecido e muito mais sofisticado, O ANJO DA NOITE, lançado cinco anos antes dessa produção americana. No caso de QUANDO UM ESTRANHO CHAMA, o filme se divide em pelo menos dois momentos: o terrorismo do assassino perante a baby sitter (Carol Kane) e a busca do detetive particular (Charles Durning) pelo assassino (Tony Beckley), que também é devidamente apresentado e um personagem interessantíssimo.

Ajudou muito a performance de Beckley, que faz um assassino que também tem um ar de pobre diabo, especialmente quando é mostrado nas ruas ou escapando da morte. Soube agora, pesquisando sobre o filme no IMDB, que o ator estava muito doente na época e, pouco tempo depois de filmar a última cena, faleceu. Daí seu aspecto tão incrivelmente abatido durante o filme.

Interessante que, assim como acontece com PSICOSE, a primeira parte do filme é sempre a mais lembrada, apesar dos momentos memoráveis que acontecem posteriormente. No caso de QUANDO UM ESTRANHO CHAMA, a figura do assassino no telefone e uma mocinha apavorada na linha foi muito bem aproveitada, por exemplo, na série PÂNICO, de Wes Craven, que tem como uma de suas marcas registradas esse tipo de conversa.

Outra curiosidade da internet: os 20 minutos iniciais foram filmados antes como um curta-metragem intitulado "The Sitter", mas, devido ao sucesso de HALLOWEEN – A NOITE DO TERROR, de John Carpenter, o diretor resolveu expandir e transformar em um longa. Fez bem. Um curta raramente tem a vida longa de um longa. A não ser que seja incrivelmente excepcional.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

O QUE TRAZ BOAS NOVAS (Monsieur Lazhar)



Um título como esse, neste dia de Natal, parece propício e até daria para confundir com algum filme sobre Jesus ou sobre o evangelismo. Mas foi o título nacional escolhido para a bela produção canadense que concorreu ao Oscar de filme em língua estrangeira em 2012. O QUE TRAZ BOAS NOVAS (2011) se enquadra na subcategoria de "filme de professor", aquele tipo de filme que costuma emocionar muitos espectadores, ao apresentar um professor em uma missão geralmente complicada, mas sempre com uma atitude amorosa para com os alunos.

No filme de Philippe Falardeau, o que traz a vinda de Bachir Lazhar (Mohamed Fellag), imigrante argelino, a uma escola para crianças na região do Quebec, é a morte terrível de uma professora. Bachir resolve, então, se apresentar à escola a fim de preencher aquela vaga. A diretora, ainda que hesitante, aceita. E os alunos precisam de um tempo para se recuperar daquele trauma. Dois alunos, em especial, um menino e uma menina, são responsáveis por alguns dos momentos mais emocionantes do filme.

São eles que introduzem O QUE TRAZ BOAS NOVAS no prólogo um tanto sombrio e que abriria espaço para aquele professor simpático e diferente que evita falar da própria vida. Ele mesmo passa por uma situação dolorosa, tendo perdido a família e com medo de voltar para o país natal, sob risco de ser morto.

Bachir Lazar não transforma a vida dos alunos tão fortemente quanto John Keatings, de SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS. Aqui o foco é outro. Mas, certamente, no período de tempo que passa com aquelas crianças, ele as conquista, ganha a simpatia delas, mesmo utilizando métodos pedagógicos um tanto antiquados segundo suas colegas professoras.

Outro elemento que se faz presente no filme é também a solidão de Bachir. Que não deixa de ser recorrente em alguns filmes de professor. Essa solidão se torna aparente nos momentos em que ele se senta no banco de uma praça, ou mesmo na hora do recreio, quando, um pouco deslocado, percebe as crianças, algumas agindo mais agressivamente, caso do menino que primeiro viu a professora morta, outros ficam mais sozinhos, caso da menina favorita da classe, de discurso e inteligência prematuros.

O QUE TRAZ BOAS NOVAS é desses filmes que encantam e emocionam do início ao fim, mas é no crescendo de sua narrativa que ele nos prepara para seu final tão belo, ainda que melancólico. Trata-se de um filme que mereceria mais atenção e que infelizmente teve pouca repercussão. Merece ser descoberto e apreciado. O espectador só tem a ganhar.

terça-feira, dezembro 24, 2013

TRÊS FILMES BACANAS



Enquanto a ceia de Natal não fica pronta e eu sirvo mais para atrapalhar do que para ajudar na cozinha, vamos tirar um pouco do atraso aqui no blog falando de três filmes vistos há alguns meses. Para ser mais exato, no mês de setembro, quando o Cinema do Dragão fez uma excelente mostra de filmes inéditos em nosso circuito. Alguns dos filmes, inclusive, nem chegaram a retornar a nossas salas, caso de FOXFIRE – CONFISSÕES DE UMA GANGUE DE GAROTAS (2012). A trinca de filmes representa cinema de qualidade embora já adiante que nenhum deles vai estar no meu top 20 de 2013, que devo divulgar só no finalzinho do ano mesmo. Vamos aos filmes.

LAS ACACIAS 

Primeiro longa-metragem de Pablo Giorgelli, LAS ACACIAS (2011) é um filme muito simples e terno sobre o relacionamento entre um caminhoneiro argentino que leva carga do Paraguai para Buenos Aires e uma mulher paraguaia, que leva o filho ainda bebê a tiracolo e precisa de ajuda para atravessar a fronteira. Trata-se de um road movie sensível e sem pressa que, aos poucos, muitas vezes com silêncios entre os personagens, vai criando uma espécie de tensão entre os dois. Nota-se que nesse espaço de tempo em que estão juntos, a carência afetiva e o fato de ambos estarem sozinhos acabam fazendo com que surja um sentimento. Mas tudo muito discreto, sem arroubos melodramáticos ou algo do tipo. Para o bem e para o mal, já que no meu caso eu adoro um bom melodrama. Mas não podemos cobrar do filme algo que ele não pretende ser.

FOXFIRE – CONFISSÕES DE UMA GANGUE DE GAROTAS (Foxfire) 

Dirigido por Laurent Cantet, mais conhecido pelo drama escolar ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (2008), este libelo feminista já havia sido contado antes em REBELDES (1996), de Annette Haywood-Carter, estrelado por Angelina Jolie, nos tempos em que ela ainda não era muito famosa e tinha um belo par de seios para mostrar. Acho que só cheguei a ver trechos desse filme com Jolie, mas creio que esta versão de Cantet carregue mais nas intenções feministas e na raiva das personagens, todas revoltadas com o modo como a sociedade trata as mulheres, especialmente aquelas que não se enquadram em padrões de beleza exigidos. O filme é muito agradável de ver e retrata uma rebeldia que era representativa da época (anos 1950). Além do mais, FOXFIRE – CONFISSÕES DE UMA GANGUE DE GAROTAS (2012) também lida com um difícil projeto socialista das garotas, ao mostrar as dificuldades e ousadias que elas têm para dividir e conseguir dinheiro para bancar um grupo que cada vez mais cresce.

TESE SOBRE UM HOMICÍDIO (Tesis sobre un Homicidio) 

Ricardo Darín é aquele tipo de ator que só em ter o seu rosto ou nome estampado em um cartaz já vende o filme. Sorte dos argentinos. Em TESE SOBRE UM HOMICÍDIO (2013), de Hernán Goldfrid, ele interpreta um professor de Direito que suspeita que um crime que acontece no estacionamento da escola foi obra de um de seus alunos, que comete o assassinato para chamar a sua atenção e atraí-lo para uma investigação que o levará à obsessão. O filme pode até ser um pouco convencional em sua estrutura narrativa, mas não fica devendo à grande maioria dos thrillers policiais produzidos nos Estados Unidos. É envolvente, tem uma trama consistente e é bem interpretado. Não há muito do que reclamar.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

LOVELACE



Os bastidores da indústria pornográfica sempre são motivo para nos deixar bem curiosos. E, no caso de LOVELACE (2013), que trata da história por trás de GARGANTA PROFUNDA (1972) e mais especificamente de sua estrela, Linda Lovelace, então, aí então nem se fala. Os bastidores do filme pornô mais famoso do mundo já foram muito bem dissecados em INSIDE DEEP THROAT, de Fenton Bailey e Randy Barbato, e o filme original, o documentário e este drama biográfico formariam uma trinca perfeita se a ficção em torno da história de Linda não fosse tão frágil.

Dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman, mais especializados em documentários, LOVELACE tem uma estrutura narrativa que acaba sendo o seu trunfo. Contar a mesma história de uma perspectiva diferente em determinado momento acaba compensando um pouco o tom moralista que o filme adquire quando chega perto do fim. Ao tomar o partido de Linda Lovelace, que sofreu nas mãos de seu ex-marido Chuck (Peter Sarsgaard), homem que a obrigou a se prostituir e a espancou, o filme também passa a ver a indústria pornográfica como algo completamente maligno.

Um espectador mais conservador, por exemplo – se é que vai querer ver o filme, por causa de sua temática – vai se sentir bem mais tentado a continuar achando a pornografia um lixo puro. Não estou querendo defendê-la nem à indústria, mas é preciso ter outras visões também. Principalmente positivas sobre o meio. Mesmo um filme de primeira como BOOGIE NIGHTS - PRAZER SEM LIMITES, de Paul Thomas Anderson, também apresenta uma história sombria envolvendo esse universo.

De todo modo, é interessante ver o filme depois de ter visto pelo menos GARGANTA PROFUNDA, para fazer uma conexão com as cenas das filmagens. A informação de que Harry Reems (vivido por Adam Brody) teve uma ejaculação precoce na boca de Linda durante o primeiro take da cena do consultório por ter ficado extremamente excitado é novidade pra mim.

Outro aspecto que chama a atenção é o modo doce e até infantil que Amanda Seyfried imprime à personagem. Amanda tira qualquer possibilidade de a vermos como alguém minimamente vulgar. No mais, quem também impressiona com uma excelente interpretação é Sharon Stone, no papel da mãe de Linda. Sharon está irreconhecível e mostra que sua nomeação ao Oscar de coadjuvante por CASSINO, de Martin Scorsese, lá por meados dos anos 1990, não foi nenhum exagero.

domingo, dezembro 22, 2013

UM TOQUE DE PECADO (Tian Zhu Ding/A Touch of Sin)



Um dos problemas de filmes contendo várias histórias independentes é que uma delas vai sempre ficar à frente das demais em qualidade. E, no caso de UM TOQUE DE PECADO (2013), de Jia Zhang-ke, isso acontece logo na primeira história, a história de um sujeito, Dahai (Wu Jiang), que ousa enfrentar aquilo que ele julga estar errado na empresa em que trabalha. Para ele, é um absurdo o dono comprar um avião e viver em luxo enquanto a prometida divisão nos lucros não chega para ele nem para os seus colegas. Mas ninguém além dele consegue reclamar. E isso vai ter consequências muito grandes em sua vida e em outras vidas também. Trata-se do segmento mais violento, e que lembra westerns e filmes de gângster, mas não quer dizer que os demais também não o sejam.

Esse primeiro segmento já apresenta uma China que é conhecida de ouvir falar, mas muito pouco de quem está longe: a de uma potência atual que lucra e muito com a mão de obra barata da grande maioria da população. Daí a importância de filmes como esse, por mais que estejam exagerando ou não nos retratos apresentados.

O segundo segmento conta a história de um sujeito que volta para o vilarejo onde mora a esposa e os filhos. Mas não por muito tempo. Ele vê a vida naquele local como sendo tediosa, como afirma em determinada cena. Para ele, viver perigosamente, atirar sem piedade nas pessoas para roubar, por exemplo, é muito mais interessante. É um momento em que o filme perde bastante da graça apresentada pela primeira e empolgante história.

A terceira história apresenta uma protagonista feminina: uma mulher que tem um caso com um homem casado e que sofre o julgamento da comunidade, tendo que arranjar trabalho como recepcionista em uma casa de massagem luxuosa. Nada de muito importante acontece, até o dia em que um cliente pede para que ela mesma faça a massagem. O final parece com filmes exploitation, com muito sangue e violência, o que ajuda o espectador a acordar, mas que pode deixar aqueles fãs de O MUNDO (2004) um tanto decepcionados.

O filme termina com uma história que poderia ter sido mais envolvente no que se refere ao jovem protagonista, um rapaz que trabalha em uma fábrica e que foge de lá depois de um acidente com o colega. No trabalho em um hotel-bordel de luxo apaixona-se por uma das moças que lá trabalham.

UM TOQUE DE PECADO é uma obra que apresenta histórias de perdedores, mas que também tem como objetivo, assim como os trabalhos anteriores de Jia Zhang-ke, apresentar a situação nada animadora da China atual. Em outros tempos, os filmes seriam proibidos no país, mas, até por repercutir mais em festivais e circuitos alternativos ao redor do mundo, eles parecem não incomodar muito os líderes políticos desse gigante econômico que é hoje a China. Além do mais, é sempre bom lembrar que os trabalhos do diretor têm uma sofisticação estética que os tornam mais do que simples filmes de protesto.

sábado, dezembro 21, 2013

QUESTÃO DE TEMPO (About Time)



Já faz uma década que Richard Curtis aqueceu os corações de muitos espectadores com o filme-coral SIMPLESMENTE AMOR (2003). Mas não esqueçamos que ele foi roteirista de outras duas comédias românticas que marcaram época: QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994) e UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (1999). Quer dizer, mais ou menos nesta época, Curtis ajudou a recriar um tipo de romance com humor que já havia tido o seu ápice em Hollywood na década de 1930, mas que ganhou sotaque e elegância inglesas ao ser transportada para a Inglaterra da virada do século.

Em QUESTÃO DE TEMPO, o próprio Curtis pôde brincar com os clichês dessas comédias, como na cena em que o protagonista Tim (Domhnall Gleeson) pede Mary (Rachel McAdams) em casamento e ela diz que não gosta daquelas declarações de amor ditas para multidões, tão comum em filmes do gênero e particularmente lembrada em SIMPLESMENTE AMOR. De SIMPLESMENTE AMOR também lembramos da sequência em que um apaixonado jovem se declara para a personagem de Keira Knightley utilizando frases escritas numa cartolina. Sequência parecida é usada para outros fins em QUESTÃO DE TEMPO, numa cena que acontece em um teatro.

Nota-se que o diretor resolveu frear um pouco o sentimentalismo neste novo filme, talvez por também abordar uma temática um tanto cerebral, que é a das viagens no tempo. No filme, essas viagens não são suficientemente verossímeis, mas, uma vez que nos acostumamos e encaramos tudo como uma fábula, torna-se mais fácil aceitar e se divertir, embora comparações com EFEITO BORBOLETA, TE AMAREI PARA SEMPRE e o maravilhoso FEITIÇO DO TEMPO acabem diminuindo um pouco o filme.

Na trama, Tim é um rapaz que tem dificuldades em conseguir namoradas. É um pouco desajeitado e a cena da noite de fim de ano, com todo mundo beijando na boca de alguém e ele sozinho e constrangido com uma garota ao lado, serve de exemplo. Sua vida muda quando o pai o chama para uma conversa bem séria: conta a ele que sua família tem a capacidade de viajar no tempo. Só depois de fazer um teste que ele passa a acreditar. Se o pai aproveita o tempo que ganha com as viagens para ler o maior número de livros possível (adora Charles Dickens), Tim quer usar para arranjar uma namorada.

Se na vida não há ensaio, Tim consegue a chance de ensaiar até atingir o ponto desejado, como na primeira noite de amor com Mary. Rachel McAdams continua tendo aquele sorriso que encantou plateias desde, pelo menos, DIÁRIO DE UMA PAIXÃO, e não é diferente em QUESTÃO DE TEMPO. Porém, sua personagem não é suficientemente aprofundada, parece mais um símbolo. É diferente, por exemplo, de Julia Roberts em UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL, para citar um trabalho de Curtis.

Ainda assim, o filme tem uma beleza contagiante, tratando de temas tão profundos quanto a beleza da vida, a necessidade de vermos cada instante como único e especial, o amor entre pai e filho, o amor romântico como alimento para a alma. São tantos temas profundos que QUESTÃO DE TEMPO parece raso em diversos momentos. Ainda assim, como não se emocionar ao ouvir "Into My Arms", de Nick Cave, em uma das sequências mais importantes? QUESTÃO DE TEMPO pode até não ser o supra-sumo da comédia romântica inglesa, mas é um belo exemplar, que chega em uma época do ano tão cheia de corações carentes de amor.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

CARRIE – A ESTRANHA (Carrie)



Já era de esperar. A escalação da bela Chloë Grace Moretz para viver Carrie na nova versão de CARRIE – A ESTRANHA (2013) foi um baita erro de casting. Principalmente porque já tínhamos visto a atriz interpretando a poderosa Hit-Girl no divertido KICK-ASS 2. Só mesmo um milagre – no caso, direção, roteiro e interpretação excelentes – para que o resultado de sua transformação na esquista Carrie White fosse no mínimo satisfatório.

Quer dizer, quando a personagem recebe o já famoso banho de sangue de porco no baile e passa a matar e destruir o que vê pela frente até que combina, embora o resultado também lembre demais os filmes dos X-Men, mais particularmente os poderes de Magneto. Os produtores acharam que podiam tudo, com as novas tecnologias disponíveis, e acabaram tirando muito da graça que está presente na primeira adaptação do romance de Stephen King, dirigido por Brian De Palma em 1976, com seus exageros.

Até mesmo Julianne Moore, que costuma salvar muitos filmes com seu talento, é apenas uma caricatura de fanática religiosa no filme, como se a atriz tivesse assumido que o filme se tratava mesmo de um lixo e que destoaria uma interpretação mais caprichada. Ela interpreta a mãe de Carrie, uma mulher doentia, que vê a concepção da filha como algo pecaminoso.

Enquanto isso, a menina enfrenta bullying na escola, principalmente por parte das outras garotas, e aos poucos vai exercitando seus poderes de telecinese – capacidade de mover com a força do pensamento objetos ou até mesmo pessoas. Uma das cenas mais marcantes no filme de De Palma também comparece nesta versão de Kimberly Peirce: a cena em que Carrie, sem saber o que é menstruação, entra em pânico quando começa a sangrar no banheiro da escola e é alvo de piada por parte das garotas, que passam a jogar absorventes nela. A suposta crueldade deste momento acaba sendo "suavizada" pela má condução de Peirce.

No entanto, entrando na terceira semana em cartaz, o filme tem se saído bem nas bilheterias, e aparentemente tem agradado boa parte do público, que ainda fica bastante empolgado quando Carrie vai à forra. E de fato é um filme que merece a espiada, tanto pela presença das duas atrizes citadas quanto pelo fato de ver mais uma versão de Carrie, que já teve também uma versão homônima para a tevê em 2002, estrelada por Angela Bettis, e uma suposta continuação chamada CARRIE 2 – A MALDIÇÃO DE CARRIE (1999). Como se vê, a história de King continua sendo bastante atraente para o público.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

NÃO GOSTEI

 

O ano está perto de acabar e tem uns filmes que vi há um tempão que, ou por falta de tempo ou por falta de inspiração, acabaram ficando pra trás. E por isso eu os trago pra cá, pra esse tradicional "três em um", com comentários bem rasteiros sobre filmes que não fizeram a minha cabeça.

MEU PÉ DE LARANJA LIMA 

Estou com uma crise atualmente no que concerne a filmes dirigidos ao público infantil. A não ser que sejam realmente muito bons, eles me aborrecem bastante a ponto de me passarem muito sono. Não há café que dê jeito. Nesta mais recente adaptação do popular livro de ficção de José Mauro de Vasconcelos, o diretor e roteirista Marcos Bernstein, de CENTRAL DO BRASIL (1998), não chega a comover com a história do menino que sofre maus tratos dos pais e encontra conforto na figura de um amigo mais velho e num pé de laranja lima que fica no quintal de sua casa. É pra ele que o jovem protagonista conta seus segredos. MEU PÉ DE LARANJA LIMA (2012) tem uma cara de filme velho, de anacrônico, no pior sentido da palavra, que incomoda, e as emoções passam longe.

ELYSIUM 

Muita gente queria ver o tal filme de ficção científica que trazia no elenco Wagner Moura e Alice Braga. Mas ELYSIUM (2013), de Neill Blomkamp, acabou decepcionando bastante, apesar do enredo interessante. Na trama, o mundo é dividido entre aqueles que moram na merda, isto é, num planeta Terra totalmente devastado e comido pela pobreza e pela poluição, e aqueles que moram em Elysium, lugar dos mais ricos e privilegiados que têm inclusive um aparelho que cura todas as doenças. O personagem de Damon, um operário das classes nada abastadas, tem poucos momentos de vida depois de um acidente que envenena seu corpo com radioatividade. Diria que com uma trama interessante dessas um diretor melhor teria resolvido.

UM TIME SHOW DE BOLA (Metegol) 

No aspecto técnico, UM TIME SHOW DE BOLA (2012) não fica a dever à grande maioria das animações americanas. Mas o mais importante falta neste filme dirigido pelo especialista em dramas Juan José Campanella: alma. Coisa que boa parte dos filmes da Pixar tem e que é a principal preocupação, apesar da excelência técnica. Por isso que a nossa animação UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA é muito melhor, apesar de tão pobrinha tecnicamente. UM TIME SHOW DE BOLA parece um TOY STORY sem emoção. E diria que até um pouco chato em seu enredo, que envolve um rapaz viciado em pebolim que humilha no jogo um sujeito e este último volta, agora um jogador de futebol de sucesso, para a revanche. Com a destruição do bar e do pebolim, os bonecos vivos saem por aí e encontram o seu grande jogador. Juntos, eles tentam ajudar o protagonista a recuperar a sua amada, que foi sequestrada pelo vilão. Ah, o filme começa com uma referência a 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO até que bem criativa. Mas isso não é o bastante.

terça-feira, dezembro 17, 2013

FILHA DE NINGUÉM (Nugu-ui ttal-do anin Haewon)



Não é preciso ver muitos filmes de Sang-soo Hong para perceber as semelhanças neles. É mais ou menos como acompanhar a filmografia de Hawks ou de Ozu. Neste mesmo ano chegou ao nosso circuito comercial A VISITANTE FRANCESA (2012), com Isabelle Huppert interpretando três papeis em três pequenas histórias de aproximadamente meia hora. Trata-se de um filme que enfatiza a repetição em sua estrutura narrativa. Nesse filme, as mulheres são exaltadas e os homens são patéticos. Pode-se dizer o mesmo de FILHA DE NINGUÉM (2013), que conta com uma das protagonistas mais belas do cinema oriental recente: Jeong Eun-Chae.

No caso de Jeong, não precisamos ouvir os elogios que vários personagens fazem a ela, já que sua beleza está ali o tempo inteiro, para apreciarmos junto com a belíssima fotografia do filme. Inclusive, Jane Birkin, que interpreta a si mesma num sonho da protagonista, também a elogia. Diz que ela parece com sua filha. A jovem fica lisonjeada. Ao que parece, essa necessidade de os personagens receberem elogios faz parte da obra do diretor, que opta por personagens carentes.

Diferente, porém, de A VISITANTE FRANCESA, em que predominava um tom de comédia, FILHA DE NINGUÉM é bem mais cruel com seus personagens, quase todos com sentimento de abandono. A começar pela protagonista, a jovem estudante de cinema Haewon, que se sente abandonada quando sua mãe parte para o Canadá. Sozinha na Coreia do Sul, ela não resiste e entra em contato novamente com um professor de cinema casado, com quem ela teve um caso meses atrás.

O reencontro reacende a paixão dos dois, mas o sujeito se sente muito temeroso que alguém descubra seu caso com Haewon. Ele teme tanto pela família quanto pela universidade. Confessa ter vontade de fugir com a jovem para bem longe, mas no fundo sabe que não tem coragem para tanto. Por ele, os dois continuariam levando esse relacionamento secreto por anos e anos.

Apesar dos zooms desconcertantes que também se fazem presentes em A VISITANTE FRANCESA, é numa cena relativamente longa e com câmera parada que FILHA DE NINGUÉM se mostra mais agradável de ver. Trata-se da cena em que Haewon e o professor encontram-se com outros alunos para beber em um restaurante. Uma série de sentimentos são notados nesta única cena: a vergonha do professor e sua necessidade de disfarçar o fato de que tem um caso com Haewon; a tristeza e o sentimento de abandono da jovem, que transparece quando a vemos beber muito saquê; as perguntas dos alunos que desconfiam da relação dos dois e a situação vergonhosa que sente o ex-namorado da moça, que também está presente na mesa.

É, sim, um filme que justifica o estardalhaço entre os críticos mais exigentes e é uma pena que a obra de Sang-soo Hong esteja quase toda inédita no Brasil. Mas isso parece estar mudando. Felizmente.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

HOMELAND – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Homeland – The Complete Third Season)



Final totalmente inesperado e de deixar a gente com o coração apertado e com um nó na garganta o desta terceira temporada de HOMELAND (2013). Foi uma temporada complicada, que passava a impressão de que os roteiristas não sabiam que rumo tomar. Os primeiros episódios me enganaram direitinho, mas devia confiar mais em Saul (Mandy Patinkin), o simpático diretor do FBI, que sempre confiou em Carrie (Claire Danes), mas tinha suas reservas quanto a Brody (Damian Lewis).

A terceira temporada foi também a que mais ficou marcada pela ausência de Brody. Tão presente nas temporadas anteriores, o homem que passou de fuzileiro naval a terrorista e inimigo número um dos Estados Unidos, agora está sumido e por isso a temporada começa com o drama de Carrie, sem saber se o destino permitirá que ela se encontre novamente com o homem que ama.

Entre altos e baixos, a terceira temporada foi deixando de lado também a família de Brody, que só fazia sentido mesmo quando ele estava nos Estados Unidos. Longe da pátria e enfiado em um buraco qualquer do mundo, ele está quase esquecido. Mesmo assim uma subtrama envolvendo a filha ainda desperta emoção, tanto em um diálogo da garota com a mãe, quanto em sua última fala com o pai.

Eis uma série que teria terminado muito bem agora. Não consigo imaginar uma quarta temporada do jeito que as coisas ficaram. Por incrível que pareça, os vinte minutos finais de "The Star", o episódio final, me deixaram mais angustiado do que o momento mais perturbador. Isso porque se trata de uma situação em que o sentimento de indignação nos domina. E também saber que é preciso ter sabedoria para não fazer besteira. Mas esse tipo de sabedoria, vindo de Carrie, uma agente tão impulsiva e apaixonada, é algo muito cruel até de se imaginar.

Poderia usar este espaço para falar do empolgante episódio da entrada de Brody no Irã, que tanto se assemelha a alguns momentos de A HORA MAIS ESCURA, de Kathryn Bigelow, mas o momento é mais de calar.

domingo, dezembro 15, 2013

O HOBBIT – A DESOLAÇÃO DE SMAUG (The Hobbit – The Desolation of Smaug)



Em certo momento de O HOBBIT – A DESOLAÇÃO DE SMAUG (2013), Gandalf (Ian McKellen) está atravessando uma montanha muito íngreme e isso faz lembrar a gravura misteriosa presente no encarte do quarto álbum do Led Zeppelin, banda que tantas vezes incluiu referências ao universo de J.R.R. Tolkien nas letras de suas canções. Peter Jackson pode ter pensado em fazer uma homenagem a essa figura do álbum. Ou é apenas coisa da cabeça deste que vos escreve.

Falando mais especificamente do filme, trata-se de uma obra ainda mais irregular do que a primeira parte, O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA (2012), mas que, apesar de tudo, mostra o imenso talento de Jackson em construir sequências de tirar o fôlego, como a antológica luta envolvendo os anões, os orcs e dois elfos, entre eles Legolas (Orlando Bloom) e Tauriel, vivida pela linda Evangeline Lilly, mais lembrada por fazer a alegria de tantos espectadores de LOST anos atrás, no papel de Kate. Essa sequência, em particular, é como estar em uma montanha russa, de tão excitante que é. Ver em 3D numa sala apropriada e de qualidade ajuda bastante a tornar este e outros momentos especiais.

E se em UMA JORNADA INESPERADA houve um momento de prender a respiração e ficar com os olhos grudados na tela, que foi o encontro de Bilbo (Martin Freeman) com Gollum (Andy Serkis), em A DESOLAÇÃO DE SMAUG temos o tão esperado encontro de Bilbo com o dragão Smaug, aqui dublado por Benedict Cumberbatch (de ALÉM DA ESCURIDÃO – STAR TREK). Inclusive, para aqueles que teimam em ver cópias dubladas em português, eis um motivo mais do que justo para se ver o filme na versão legendada. Afinal, a voz poderosa de Cumberbatch e os efeitos de criação do dragão são combinações perfeitas. Passam de fato o temor que a criatura provoca.

Outro aspecto louvável do filme é a maestria com que Jackson utiliza suas gruas e suas panorâmicas, seja nos planos gerais, o que torna a sala de cinema o lugar ideal para apreciá-lo, quanto em cenas interiores. As cenas em que Bilbo usa o anel para ficar invisível também são destaque. Não esqueçamos da fantástica sequência das aracnas, já conhecidas de quem viu O SENHOR DOS ANÉIS. Aqui elas aparecem em maior quantidade e só não despertam maior pavor porque O HOBBIT possui um pouco mais de leveza, por mais que Jackson queira torná-lo tão sério e épico quanto a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS. Na comparação, porém, vai sempre perder, o que não quer dizer que não seja uma baita aventura. Inclusive, deixando no chinelo a grande maioria dos blockbusters de 2013.

Em A DESOLAÇÃO DE SMAUG, Jackson continua sua ambiciosa intenção de ligar os pontos com a primeira trilogia neste prelúdio, com citações a personagens conhecidos, como o anão Gimli ou o grande vilão Sauron. Quanto a Richard Armitage, que faz o anão galã Thorin, ele brilha menos neste segundo filme do que Bilbo, que se mostra mais confiante, até por estar de posse do anel e também corajoso nas cenas de batalhas, entre outros tantos momentos.

Falando em batalhas, importante perceber o quanto os orcs são tão dignos de pena quanto baratas e daí Jackson aproveita o seu gosto por violência herdado dos filmes de horror para incluir momentos em que as criaturas horrendas são decapitadas com requintes de crueldade pelos heróis. Até porque não há motivo mesmo para gostar deles, dado o preto no branco característico do filme.

Para encerrar, é sempre bom lembrar da contribuição do compositor Howard Shore, que não inventou muito nesta nova trilogia, mas suas variações dos temas de O SENHOR DOS ANÉIS funcionam brilhantemente para a trama. O tema do anel só não fica mais belo e misterioso do que o da trilogia original porque ele resolve não se repetir completamente. Além do mais, é raro um compositor de trilhas de filmes de ação hollywoodianos não contribuir para tornar o filme enfadonho. Shore, que tem sido um dos grandes parceiros de David Cronenberg desde THE BROOD - OS FILHOS DO MEDO, mostra-se um mestre na condução da música, a qual entra em harmonia com os tantos momentos de drama e aventura que A DESOLAÇÃO DE SMAUG requer.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

UM ESTRANHO NO LAGO (L´Inconnu du Lac)



Talvez tenha sido exagero por parte da revista Cahiers du Cinéma eleger UM ESTRANHO NO LAGO (2013), de Alain Guiraudie, como o melhor título lançado na França em 2013. Porém, exagero ou não, trata-se de um filme que merece sim ser conferido, até mesmo por aqueles que têm certa resistência a filmes que mostram homens se beijando, para dizer o mínimo, já que UM ESTRANHO NO LAGO é daqueles filmes raros, que normalmente só são vistos em festivais underground ou disponibilizados para download na internet. Mas quis o destino que o filme alcançasse o nosso circuito comercial, ainda que restrito ao gueto do circuito de arte. Que, de qualquer maneira, é o seu lugar.

A trama se passa em um lago que serve de ponto de nudismo para homossexuais que procuram um parceiro sexual. O protagonista é Franck (Pierre Deladonchamps), um rapaz que volta a frequentar o tal lugar, depois de um tempo de ausência, e que presencia um assassinato perpetrado por um sujeito por quem ele já nutria atração, Michel (Christophe Paou). Assim, apesar de ele já saber que ele matara afogado o ex-namorado, Franck não resiste às suas abordagens, como se o perigo fosse um atrativo ainda maior para ele.

Dentro do cinema hollywoodiano que se produzia nos anos 1940 e 1950, a figura de Michel se assemelharia a uma femme fatale. Um tipo de mulher perigosa, que pode ser vista também em neo-noirs produzidos nas décadas de 1980, como CORPOS ARDENTES, e 1990, como INSTINTO SELVAGEM. Quer dizer, há a mulher que é insuportavelmente atraente e que vira do avesso a cabeça do protagonista, a ponto de ele perder o bom senso.

Mas há também em UM ESTRANHO NO LAGO um personagem que talvez seja a alma do filme, um homem de meia idade chamado Henri (Patrick D'Assumçao), que costuma ir ao lago apenas para olhar para o horizonte. Ele não é homossexual, mas aprecia o lugar. E cria um vínculo de amizade com Franck que chega a ser comovente no momento em que ele confessa amar o novo amigo, ainda que não seja um amor com intenção de transar.

E por falar em transar, o filme é bastante ousado nas cenas que acontecem no bosque, o local onde vários homens cheios de desejo vão à caça ou já levam um parceiro para ficar mais à vontade entre os arbustos. As cenas de felação e ejaculação chegam a impressionar, já que não é algo que se veja com frequência nos filmes exibidos no cinema.

Assim, como se trata de um filme bem diferente, UM ESTRANHO NO LAGO é recomendado àqueles que querem sair da mesmice do cinema comercial e até mesmo de alguns cacoetes de certos filmes ditos de arte e se aventurar em um suspense um tanto diferente.

UM ESTRANHO NO LAGO ganhou o prêmio de direção na mostra paralela Un Certain Regard, em Cannes-2013, além da Queer Palm, dedicada a filmes com temática gay.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

LINHA DE FRENTE (Homefront)



Saber que o roteiro de LINHA DE FRENTE (2013) é de Sylvester Stallone ajuda um pouco a entender a sua simplicidade, mas, ao mesmo tempo, a sua coerência com o trabalho do ator/autor. Assim como boa parte dos personagens que compõem a vasta galeria de tipos de Stallone, sendo o Rambo do primeiro filme, RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR (1982), o mais representativo, o protagonista de LINHA DE FRENTE aparece numa cidadezinha querendo paz e tranquilidade. Mas não é isso o que ele consegue. Daí ele ter que agir também com violência.

Como a idade já está começando a pesar para Stallone para determinados papéis, ele fez por bem entregar o papel para seu amigo, Jason Statham, da nova geração, um dos mais queridos action heros da atualidade. Statham, além de ter carisma, também faz cenas de ação como poucos no cinema hollywoodiano. É um ator que veio da Inglaterra, mas que se estabeleceu muito bem ao sistema americano e aos filmes de ação.

Em LINHA DE FRENTE ele é Phil Broker, um ex-agente da Divisão de Narcóticos que abandona o emprego em prol de uma vida mais tranquila e dedicada à filha de nove anos. Devido ao falecimento recente da mãe da garota, ele acredita que o melhor lugar para os dois é longe da criminalidade das grandes metrópoles. E também um lugar para curar os corações que ainda sofrem com a ausência da esposa e mãe.

Acontece que as cidadezinhas americanas são tão ou mais perigosas que as grandes. Pelo menos é o que nos leva a crer tanto filme feito nos Estados Unidos que aborda o lado podre dessas pequenas cidades. No caso de LINHA DE FRENTE, o primeiro incidente a abalar as estruturas da vida de Phil acontece na escola de sua filha, quando a garotinha espanca um colega que tenta lhe praticar bullying. Ela dá uma lição no moleque, exibindo os conhecimentos de defesa corporal que o pai lhe ensinou e isso acaba criando um efeito dominó, que envolve a mãe (Kate Bosworth, bastante magra e pálida nesse papel) e o pai da menina, o tio, que é o grande chefe do tráfico local (vivido por James Franco), sua namorada (Winona Ryder), entre outros. A situação não fica fácil para Phil, que tenta esconder da filha os perigos que estão passando.

O filme é correto e entretém muito bem, mas falta-lhe um pouco mais de veneno, de algo que nos deixe com o sangue intoxicado como os grandes thrillers são capazes de fazer. Afinal, o roteiro tem tudo para isso. Provavelmente o pouco impacto do filme se deva à pouca inspiração de Gary Fleder na direção. Embora ele tenha no currículo thrillers interessantes como BEIJOS QUE MATAM (1997) e O JÚRI (2003), o fato de ter trabalhado muito na televisão faz dele mais um operário do que um cineasta que poderia transpor com sucesso para as telas mais um exemplar do arquétipo stalloniano de herói.

domingo, dezembro 08, 2013

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon)



Joseph Gordon-Levitt tem uma interessante filmografia como ator. Atualmente costuma ser mais lembrado por seus trabalhos em A ORIGEM, de Christopher Nolan, e em (500) DIAS COM ELA, de Marc Webb. Este último tem um diálogo mais próximo com o primeiro longa-metragem de Gordon-Levitt como diretor, COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (2013). Isso porque ambos os filmes tratam de relacionamentos e ambos trazem duas beldades do cinema contemporâneo: o filme de Webb traz Zooey Deschanel; o seu filme traz Scarlett Johansson, atriz que se tornou objeto de desejo de tantos espectadores ao redor do mundo pela beleza e sensualidade.

E nesse sentido Gordon-Levitt foi muito esperto em explorar todo o fetiche que uma mulher sensual como Scarlett desperta. Ou pelo menos explorar a imagem que a mídia e os espectadores criaram dela. Neste filme ela é a mulher que mexe com a vida de um rapaz independente (o próprio Gordon-Levitt) que se recusa a ter um relacionamento estável e sempre prefere encontros casuais e transas de uma noite e a pornografia. Para ele, nenhuma mulher, por melhor que seja, consegue atingir o prazer que a pornografia aliada à masturbação são capazes. Por isso, ainda que ele tenha aceitado e querido tanto a personagem de Scarlett, Barbara, ele não consegue deixar de lado o seu vício.

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER não chega a explorar o vício em pornografia tanto quanto SHAME, de Steve McQueen – são registros diferentes, um é drama, outro é comédia –, mas o assunto é tratado de maneira interessante. Até porque também está atrelado à culpa católica: o personagem vai toda semana à igreja se confessar para receber a devida penitência pelas masturbações e transas fora do casamento. Mas a culpa para ele não é tão grande assim, já que ele pode rezar enquanto se exercita na academia de musculação e o padre oferece sempre remissão dos pecados, o que o deixa com a consciência limpa.

Essa questão da culpa, ainda que importante para a construção do personagem, que é de uma família ítalo-americana de Nova Jersey, acaba se tornando menos importante que a exploração do relacionamento dos dois, do modo como ela consegue mandar nele e proibir que ele veja pornografia, algo que para ela é extremamente abominável. Nesse primeiro momento do relacionamento dos dois, destaque para a cena em que ela não deixa que ele entre no apartamento dela para a primeira relação sexual e, mesmo assim, com todo a voltagem sexual daquele momento, ela consegue algo impressionante. É, certamente, a cena mais sensual do filme.

Mas, COMO NÃO PERDER ESSA MULHER cresce mesmo quando começa a entrar cada vez mais na vida do protagonista a personagem de Julianne Moore, uma mulher mais velha do que ele, mas cuja experiência de vida faz com que ela saiba muito sobre ele sem precisar de muito esforço. E é nessa hora que o filme dá uma bela guinada e se transforma em um convite à reflexão sobre a vida, os amores, o sexo e a experiência versus a juventude.

sábado, dezembro 07, 2013

SEINFELD – 9ª TEMPORADA (Seinfeld – Season 9)



A turma de SEINFELD, que desde a oitava temporada estava sem uma de suas cabeças principais e mais inteligentes, Larry David, resolveu parar na nona temporada (1997-1998). No curto mas muito legal extra que consta no box da temporada de despedida de Jerry, George, Elaine e Kramer, os quatro mais Larry David, que voltou apenas para fazer o roteiro do episódio final ("The Finale"), conversam, passados 10 anos, sobre o que de bom viveram durante a série, sobre as participações especiais e sobre se aquele era mesmo o momento certo de parar, já que era uma das séries mais populares e cultuadas naquele momento.

Na minha opinião, SEINFELD parou na hora certa. Segundo Jerry, eles não tinham mais como melhorar. Talvez até fosse possível, mas sentiu-se a queda da série depois da saída de David. Claro que há episódios memoráveis nesta temporada. E o meu favorito é, sem dúvida, "The Merv Griffin Show". O interessante é que eu não conheço o show que é homenageado, mas não tem como não se mijar de rir com as presepadas de Kramer, que aqui atinge o seu momento mais brilhante na história da série ao encontrar o cenário de um programa de TV e chamar os amigos para participarem. E ainda tem a subtrama de uma namorada de George que pede para que ele cuide de um esquilo que ele atropelou. Sensacional.

Se todos os episódios fossem tão bons seria um espetáculo, mas ainda assim há outros de grande peso, como "The Serenity". Aliás, sempre que o pai de George, interpretado pelo genial Jerry Stiller, aparece pode se preparar que vem coisa boa. Esse cara é tão engraçado que basta ouvi-lo dizer qualquer bobagem que ele rouba logo a cena. Ah, e como esquecer do episódio de trás pra frente, "The Betrayal", envolvendo o casamento de uma amiga de Elaine? Genial mesmo. E o bacana é que nos extras tem a opção de ver o episódio com a ordem cronológica dos acontecimentos. Deixa AMNÉSIA, de Christopher Nolan, no chinelo.

Fora isso, há o episódio em que George está em uma biblioteca, vai ao banheiro de lá com um dos livros do acervo e os funcionários do estabelecimento não querem mais aceitar o livro. Ah, e há outro que me fez gargalhar bastante: "The Reverse Peephole", que é sobre mais uma presepada de Kramer: ele inventa de colocar o olho mágico de seu apartamento ao contrário. Mas não é exatamente por causa disso que eu gostei do episódio, mas do lance da carteira grande de George. Identifiquei-me diretamente com ele, pois a minha também é cheia de papeladas e cartões. :)

Outros memoráveis: "The Strike", em que Jerry namora uma mulher duas-caras; "The Cartoon", em que George namora uma mulher parecida com o Jerry. Enfim, se não são todos nota 10 como no auge, nas temporadas 4, 5 e 6, a turma conseguiu resistir bem. E quanto ao "The Finale", esperava gostar mais. É divertido e é bom poder ter Larry David novamente, além de ser especial de uma hora e com participação de vários personagens que passaram pela série, mas ainda assim não é dos mais engraçados. Larry David faria melhor em CURB YOUR ENTHUSIASM, que eu preciso tratar de pegar as seis primeiras temporadas para apreciar.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

AZUL É A COR MAIS QUENTE (La Vie d'Adèle)



Para uma filmagem que durou 800 horas, até que três horas de duração para AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013) não é tanto assim. No entanto, o tempo do filme é um dos aspectos que mais chamam a atenção, mas que é importante para denotar o recorte de tempo na vida de Adèle, seu período de descobertas afetivas e sexuais, vivendo junto ou chorando sozinha.

Três anos atrás, o cineasta franco-tunisiano Abdellatif Kechiche havia lançado um título de longa duração e também controverso chamado VÊNUS NEGRA (2010). A polêmica ocorreu porque o filme trata de uma mulher africana que, por ter áreas do seu corpo maiores do que o que é geralmente convencionado na Europa, é apresentada como uma aberração de circo.

Em AZUL É A COR MAIS QUENTE, a controvérsia está nas cenas de sexo bem tórridas do casal de moças interpretado por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Isso se deu pelo fato de que as garotas reclamaram do longo tempo das tomadas e acusaram o diretor de estar abusando delas. Para se ter ideia, uma das cenas de sexo durou 10 dias de filmagem. Ainda que elas tenham usado vaginas prostéticas nas cenas de sexo oral, não deixa de ser mesmo um longo tempo de exposição.

Mas valeu o sacrifício. O resultado é de uma beleza rara. Em determinado momento as duas formam como que "uma só carne", para usar o termo bíblico. Porém, como em quase todo o filme a preferência do diretor é por planos bem próximos, os rostos em êxtase nas cenas de sexo, principalmente o rosto lindo de Adèle, são flagrados de maneira aproximada e por isso mesmo mais íntima do espírito das personagens. Mesmo em cenas como a do jantar com os pais de Emma (Léa), Kechiche opta pela câmera passeando pelos rostos das pessoas na mesa em vez do tradicional campo/contracampo ou da câmera parada em locais estratégicos.

E, tendo em vista a extrema naturalidade de Adèle no trato com coisas simples, como o ato de comer, ou não esconder a bagunça do cabelo ou como fica o seu rosto quando chora, passa a impressão de que aquela personagem é muito próxima da atriz e não uma completa construção, como a personagem de Léa, que aqui precisou parecer um tanto máscula, a fim de fazer o papel, digamos, de ativa da relação.

Essa naturalidade e humildade de Adèle, explicitada na cena em que ela serve macarronada para um grupo de amigos intelectuais de Emma, faz da personagem não só uma das mais adoráveis do cinema nos últimos anos, mas também uma das que mais despertam nossa empatia. No entanto, esse nível de empatia só chega a tal ponto na antológica cena do encontro no café, provavelmente o momento mais sublime do filme, que melhora à medida que pensamos mais nele.

AZUL É A COR MAIS QUENTE levou a Palma de Ouro em Cannes, que foi tanto para o diretor quanto para as duas jovens atrizes, fato inédito na história do festival.