domingo, junho 30, 2013

ANTES DA MEIA-NOITE (Before Midnight)



Sabe aquele casal de alemães que aparece brigando no trem no começo de ANTES DO AMANHECER (1995)? Os que foram, de certa forma, responsáveis pelo encontro de Jesse (Ethan Hawk) e Celine (Julie Delpy)? Por causa da discussão chata deles é que Celine resolve se sentar em outra poltrona do trem. E é lá que conhece Jesse. E o resto é história. Pois bem, em ANTES DA MEIA-NOITE (2013), Jesse e Celine remetem a esse casal, com suas discussões. 

Tanto ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004) quanto o mais recente, ANTES DA MEIA-NOITE, por mais distantes formalmente que possam estar, ainda caminham à sombra do primeiro filme, daquelas horas que os dois passaram juntos e que transformaram suas vidas e os transformaram também em artistas. A arte sendo necessária para se aguentar o peso da vida e para trazer vida também. Ele escreve um livro sobre o encontro dos dois; ela compõe uma valsa para ele.

Um elemento muito comum dos dois primeiros filmes é o sonho. O primeiro filme inteiro tem uma atmosfera de sonho. O encontro dos dois é mágico. Celine, que não acredita em Deus, diz que Deus está no espaço entre os dois corpos. E no segundo filme, várias vezes eles falam de sonhos que tiveram. E o filme termina como numa obra de David Lynch, com Julie Delpy dançando e um fade in apagando aquele momento vagarosamente, como se adentrando novamente o mundo dos sonhos do primeiro filme.

Daí ANTES DA MEIA-NOITE ser tão impactante comparado até ao segundo, já que a realidade nua e crua está mais presente. Não há espaço para o sonho. Em certo momento, Celine pergunta a Jesse se hoje, se a visse num trem, a convidaria para descer com ele. Ele fica sem jeito, mas sempre procura a palavra certa para agradar a esposa. Julie Delpy aparece com pouca maquiagem, com o efeito dos anos já perceptíveis e com as ancas mais largas. Ainda assim muito bela. O que não quer dizer que a personagem não tenha os seus momentos irritantes. Chega a lembrar aquela namorada que adora puxar brigas e depois não lembra por que começou.

Por outro lado, há toda uma gama de reclamações mais do que justas a respeito de seu papel no relacionamento, enquanto que para o homem as coisas ainda continuam sendo mais fáceis. Não é difícil entender os pontos de vista dela na longa D.R. que compõe o terço final do filme.

Lembra, em alguns momentos, CÓPIA FIEL, de Abbas Kiarostami. A bela vista da Grécia, a longa conversa ao ar livre e depois entre quatro paredes, a câmera seguindo em longos planos. Aliás, o longo plano-sequência dos dois conversando no carro lembra outro Kiarostami, DEZ, que se passa inteiramente dentro de um carro. Essas semelhanças com o diretor iraniano me fizeram esquecer o quanto Richard Linklater era comparado com Eric Rohmer na época de ANTES DO PÔR-DO-SOL. O cineasta era chamado de "o Rohmer texano". Isso pelas longas conversas que remetiam a sentimentos, mas também a discussões filosóficas e existenciais.

Aliás, esta cinessérie vai cada vez mais entrando em um nicho de filmes de arte, coisa que o primeiro filme consegue escapar pelo teor mais romântico e menos pensado para atingir gostos mais sofisticados através da forma, e da semelhança cada vez maior com a obra de cineastas não-americanos, como os já citados Kiarostami e Rohmer.

No mais, ANTES DA MEIA-NOITE não deixa de mostrar certa amargura com relação à vida, por mais que todo mundo queira ser Jesse e Celine e ter aquele encontro dos sonhos para lembrar para a vida toda. Só não dá para ser ingênuo o suficiente para achar que eles serão felizes para sempre. A não ser que o conceito de felicidade seja mais realista, já que a vida é cheia de problemas, de pedras no caminho e a rotina destrói muitas vezes a mágica. Mas ela ainda está lá, esperando uma brechinha para entrar em meio a preocupações profissionais e com os filhos, entre outras coisas que trazem certo desencanto.

P.S.: Assisti o filme incomodado com uma leve mas bem chata tremedeira na projeção, no Cine Del Paseo. Por um momento desejei que fosse uma cópia digital e não em glorioso 35 mm. Só não saí para reclamar pois sabia que iria, por experiência própria, ficar ainda mais estressado e não tinha outra sala da cidade exibindo o filme. Essa irritação prejudicou a minha apreciação. Portanto, algumas das impressões que tive nesta primeira vez certamente podem mudar na revisão, quando o filme sair em DVD/BluRay.

quinta-feira, junho 27, 2013

CLIP (Klip)



Meu interesse por CLIP (2012), estreia da atriz Maja Milos na direção de longas-metragens, veio com uma postagem do amigo Raffaele Petrini, em que ele coloca o filme entre os seus favoritos de 2012. Confesso que foi a primeira vez que ouvi falar no filme, uma produção da Sérvia, país que já havia nos presenteado com o polêmico A SERBIAN FILM – TERROR SEM LIMITES, de Srdjan Spasojevic. A julgar por estas duas únicas produções vistas desse país, fica a impressão de que o lugar é pródigo em filmes extremos. No entanto, com apenas dois filmes vistos, não dá para criar nenhuma hipótese. 

CLIP (ou KLIP, pra quem quiser usar o título original) não chega a ser violento e tão extremo quanto A SERBIAN FILM, que claramente foi feito com o intuito de chocar. O filme da garota que não dá a mínima para a família, adora se fotografar e se filmar no celular com câmera e é louca por um garoto da escola é bem mais carregado de humanidade. Por mais que se julgue a personagem por sua conduta, difícil não ficar no mínimo interessado nela.

Jasna não se importa em ser tratada como objeto sexual pelo rapaz que ama, e talvez sejam as vezes em que ela é desrespeitada por ele que a gente se apega mais a ela. Não importa a sua estupidez nem o fato de ela ignorar o pai, com câncer em estado terminal. De alguma maneira, é possível entendê-la, até porque há toda uma série de possibilidades para que ela esteja agindo dessa maneira. E, como não sou psicólogo, deixo isso para quem entende.

Quanto ao sexo explícito, ele não é nada gratuito. Faz parte organicamente do filme e pode ser também uma busca por atenção por parte dos sérvios. Que até podem ser vistos como os vilões da guerra contra a Bósnia, mas não dá para culpar todos os civis. De todo modo, o filme também faz uma crítica social, de uma juventude que só pensa em si mesma, em olhar para o próprio umbigo, ou para as partes íntimas ou para a própria boca enquanto exercita o sexo oral, pela lente da câmera do celular.

Mesmo essa suposta crítica social pode ser questionada: afinal, a juventude mostrada no filme é simplesmente fútil ou tem algum motivo para agir do jeito que age? Ou são jovens agindo como quaisquer outros, em qualquer lugar do mundo? Reflexões que ficam para o espectador. Mas só se ele quiser. Afinal, há quem queira ver o filme apenas para ver as cenas picantes da bela Isidora Simijonovic. E não há nada de errado com isso.

quarta-feira, junho 26, 2013

CONFLITOS DE AMOR (La Ronde)



O primeiro e único filme que eu tinha visto até então do cineasta alemão Max Ophüls havia sido CARTA DE UMA DESCONHECIDA (1948), realizado em Hollywood. Sua breve passagem pelos Estados Unidos também foi uma forma de contribuir com mais sofisticação para o melodrama hollywoodiano, que já contava com Douglas Sirk, não por acaso também alemão. CONFLITOS DE AMOR (1950) é da fase francesa do diretor e é mais ousado em sua forma. E também em seu conteúdo, já que trata de histórias de amores proibidos, sejam encontros com prostitutas, sejam encontros com amantes às escondidas.

O que chama a atenção logo de início em CONFLITOS DE AMOR é a figura do narrador, vivido por Anton Walbrook. Ele não apenas apresenta as histórias, mas também contracena, interrompe e provoca os personagens, que aparecerão antes e/ou depois do ato sexual. Há o destaque também da brincadeira com o teatro, do modo como ele se apresenta e muda de roupa e de cenário, para adentrar a Viena do ano 1900. E então, como num passe de mágica, porque cinema é magia, lá está ele na elegante cidade austríaca.

Sua primeira personagem é uma simpática e carente prostituta, que o confunde com um possível cliente. O cliente será um soldado de um quartel ali próximo. Eles procuram um local escuro para descarregarem suas vontades e a câmera os deixa, elegantemente, já que ainda estávamos no começo da década de 1950. O filme, na verdade, já é bastante ousado em tratar com tanta naturalidade e respeito aqueles que praticam sexo fora das normas da cristandade. Creio que Ophüls não o faria nos Estados Unidos.

CONFLITOS DE AMOR narra uma série de pequenas histórias, todas apresentadas com um título pelo narrador. Algumas dessas histórias se entrecruzam. A mulher que tem um amante, por exemplo, conversa depois com o marido, com quem não faz mais sexo já há algum tempo, sobre infidelidade. Ironicamente, na história seguinte, o marido estaria em um local privado com uma jovem amante. E assim Ophüls costura esses contos morais (ou amorais) com muita delicadeza e elegância, muito embora possa ter chocado algumas audiências da época.

O filme é baseado na peça Reigen, de Arthur Schnitzler, mais conhecido do público contemporâneo como o autor que inspirou DE OLHOS BEM FECHADOS, de Stanley Kubrick. Quando do lançamento de Reigen, em 1897, Schnitzler sofreu insultos do público, sendo acusado de pornográfico. A mesma peça foi adaptada e dirigida por Roger Vadim em 1964, tendo Jane Fonda como a primeira atriz americana a aparecer nua em um filme estrangeiro.

terça-feira, junho 25, 2013

MINHA MÃE É UMA PEÇA – O FILME



Incrível o sucesso de MINHA MÃE É UMA PEÇA – O FILME (2013), que está tendo uma ótima recepção do grande público, que, em sua maioria, provavelmente nunca ouviu falar em Paulo Gustavo, nem conhece o programa que ele faz no canal pago Multishow. Além do mais, é uma grande minoria do público brasileiro que teve acesso à peça homônima que deu origem ao filme, um monólogo em que o ator, travestido de Dona Hermínia, conta, talvez influenciado pelos humoristas cearenses, situações da vida da personagem.

O resultado nas bilheterias, mesmo nestes momentos de manifestações políticas nas ruas em todo o Brasil e de jogos da seleção na Copa das Confederações, tem sido bastante positivo para o filme, que se firmou como a segunda melhor abertura entre os filmes brasileiros do ano, perdendo apenas para SOMOS TÃO JOVENS, de Antonio Carlos da Fontoura. E é bem possível que o filme ultrapasse a marca dos nacionais mais vistos em 2013, que atualmente conta com DE PERNAS PRO AR 2 e VAI QUE DÁ CERTO no topo.

Assim, excetuando os filmes inspirados em Renato Russo e Legião Urbana, o que tem feito mais sucesso de bilheteria no Brasil ainda são as comédias. E é com essa constatação que os produtores de MINHA MÃE É UMA PEÇA fizeram um gol de placa, já que o filme é feito pensando em toda a família e tem um aspecto popularesco que encanta a muitos. Pude testemunhar pessoas saindo do cinema entusiasmadas e indicando o filme para amigos e amigas pelo celular.

O problema é que, por mais que o filme tenha alguns momentos realmente engraçados, como é o caso dos diálogos entre Dona Hermínia e o ex-marido, vivido por Herson Capri, dá uma canseira ouvir a voz esganiçada da personagem durante muito tempo. Em especial, se a sala de cinema que estiver exibindo o filme for daquelas que adotam o uso do som no talo. Aí, quem tem os ouvidos mais sensíveis e também não vê tanta graça assim nas cenas e na personagem acaba ficando incomodado. Confesso que foi o meu caso.

Quanto a esperar que o filme de estreia de André Pellenz seja grande cinema, aí já é mesmo ingenuidade. O fato de guardar ainda em sua narrativa um pouco do ranço teatral até que não é algo ruim. Não deixa de ser um diferencial em relação às outras comédias brasileiras que, em geral, bebem muito da teledramaturgia da Rede Globo.

Na trama de MINHA MÃE É UMA PEÇA – O FILME, Dona Hermínia procura cuidar com carinho de seus três filhos. Um deles é casado e já saiu de casa, mas sempre recebe ligações da mãe. Os outros dois, adolescentes, vividos por Mariana Xavier e Rodrigo Pandolfo, sofrem um pouco com as pressões de Dona Hermínia. A garota é gordinha e atura as tentativas da mãe de fazê-la emagrecer comendo pouco; o rapaz é gay, mas a mãe tenta fazer de conta que ele não é. Um dia, através de um celular que ficou ligado, ela escuta as reclamações dos filhos, que afirmam que gostariam de morar com o pai. Dona Hermínia fica triste e resolve se esconder por uns tempos na casa de sua tia.

Melhor coisa de MINHA MÃE É UMA PEÇA: a canção "Sandra Rosa Madalena", interpretada por Sidney Magal, que encerra o filme em tons festivos. Assim o público sai sorrindo do cinema. Até porque a canção fez a alegria de gente de várias idades.

segunda-feira, junho 24, 2013

FERMO POSTA TINTO BRASS



Tinto Brass é um dos diretores mais queridos da Itália. Principalmente por aqueles que ainda gostam de uma boa sacanagem no cinema. Que era realizada em maior escala nas décadas de 70 e 80, mas que foram se tornando mais escassas com o passar dos anos. Mesmo assim, tive o prazer de ver pelo menos um filme de Brass no cinema: MONELLA, A TRAVESSA (1998), que, se eu não me engano, foi o último trabalho dele lançado comercialmente no Brasil. Culpa de nossa cultura, cada vez mais incomodada com filmes libertinos. O sexo, quando visto no cinema, atualmente é mostrado de maneira negativa ou para causar mal estar, como em ANTICRISTO, de Lars von Trier, por exemplo.

FERMO POSTA TINTO BRASS (1995), ou simplesmente FERMO POSTA, é um dos filmes menos conhecidos do mestre italiano da comédia erótica. Mas não deixa de ser mais um belo exemplar em sua rica filmografia. É, assim como FAÇA ISTO! (2003), um filme de segmentos. Aqui, o próprio Brass, diretor famoso, recebe cartas de fãs que desejam que suas aventuras eróticas sejam transformadas em filmes ou que elas mesmas sejam estrelas de filmes do diretor. Assim, a partir do relato dessas mulheres, vamos assistindo aos vários segmentos. Alguns muito bons; outros, nem tanto.

A grande vantagem desses filmes de segmentos de Brass é a multiplicidade de estrelas sem roupa e em cenas absolutamente sem-vergonhas. Uma das histórias mais interessantes é a da mulher que dá uma de “Bela da Tarde”, saindo para ser prostituta durante o dia enquanto marido trabalha. Até chegar o dia em que ele aparece lá e a vê no "cardápio" do bordel. Claro que é a ela que ele escolhe. E ainda inventa outro nome para si, para curtir melhor a fantasia. Mas talvez a melhor história seja a do sujeito que perde tudo no jogo, inclusive a mulher, que no fim das contas acaba gostando da ideia de transar com vários amigos do marido.

Interessante como Brass sempre trabalha tão bem essa questão da mulher botando chifres no marido como uma espécie de fantasia e que em seus filmes fica extremamente excitante, como se pode ver em filmes como TODAS AS MULHERES FAZEM (1992) e A PERVERTIDA (2000), que coincidentemente estão entre os meus favoritos do velho safado. Ah, e quanto às mulheres de FERMO POSTA, sem dúvida, minha favorita é Cinzia Roccaforte, que interpreta a fogosa secretária de Brass. Um charme, com aqueles óculos de grau e aquela roupa de secretária com pernas e seios lindamente convidativos.

domingo, junho 23, 2013

DISPAROS



É sempre um prazer quando um filme brasileiro independente, de pouca repercussão, consegue chegar ao nosso circuito, mesmo com um atraso de mais de seis meses. A falta desses filmes é quase como uma privação, uma proibição por parte das grandes distribuidoras, que querem nos empurrar goela abaixo suas nem sempre brilhantes produções. Mas sabemos que a coisa não é tão simples assim e, em vez de reclamar, louvemos a programação do Cinema de Arte.

O caso de DISPAROS (2012) nem é de excelência, mas é o caso sim de ter a chance de conferir o primeiro trabalho de uma diretora que tem tudo para fazer ótimos trabalhos futuros, já que seu domínio na condução da trama principal deste filme é admirável. O que estraga um pouco neste longa-metragem de estreia de Juliana Reis são as subtramas, que nem sempre são bem sucedidas, como é o caso da subtrama do amigo de Henrique, o fotógrafo vivido por Gustavo Machado (de EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS), com sua amiga no apartamento.

A narrativa inicialmente confusa que vai se descortinando aos poucos é bastante interessante, e faz da primeira metade do filme um belo achado. Aliás, DISPAROS é o tipo de filme que é interessante saber muito pouco ou nada da trama para que haja uma melhor apreciação. Então, falando bem pouco do enredo: fotógrafo (Machado) e seu auxiliar saem em disparada de um acidente que deixou uma pessoa morta.

A partir das idas e vindas no tempo da montagem não linear, vamos sabendo mais do ocorrido. O filme conta com um belo duelo de interpretações entre Gustavo Machado e Caco Ciocler, no papel de um delegado de polícia que fica curioso com a história mal contada do fotógrafo. Ciocler ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante por este filme no Festival do Rio.

Em um mundo mais justo, DISPAROS poderia muito bem ser exibido no circuitão, já que seu enredo de suspense prende a atenção tanto quanto alguns thrillers produzidos nos Estados Unidos ou na Inglaterra. A diferença é que aqui não vemos milhões de dólares sendo esbanjados. Penso na produção EM TRANSE, de Danny Boyle, que também tem um enredo todo cheio de lacunas a ser preenchidas ao longo da narrativa. E se alguém disser que o exemplo não foi bom, logo digo que o filme de Juliana Reis sai ganhando na comparação.

sábado, junho 22, 2013

CARNE TRÊMULA (Carne Trémula)



"Às vezes sinto a impressão de que o público gosta de rir comigo, mas não gosta de chorar ou de sentir um outro tipo de sentimento."
(Pedro Almodóvar)

Quando vi pela primeira vez CARNE TRÊMULA (1997) no cinema, em novembro de 1998, o que mais ficou gravado em minha memória foi a cena em que David, o personagem de Javier Bardem, paralítico, chega em casa para subir à cama de sua mulher, Elena (Francesca Neri), e ela diz para ele que não quer transar, que passou a noite trepando (com outro), que está toda dolorida. Trata-se de um dos momentos mais dolorosos que eu já vi no cinema. Interessante que na época que eu vi o filme, eu senti bem mais a dor de David, e hoje já consigo me solidarizar, diria até mais, com Elena, personagem que cresceu bem mais nesta revisão.

CARNE TRÊMULA também representa um momento em que eu me tornei um fã de Almodóvar. Já acompanhava sua carreira, tendo visto já três filmes no cinema e vários outros em vídeo, mas até então o cineasta não me pegara com tanta força, como nessa história próxima da tragédia e tão mais "séria", em comparação com o que ele costumava fazer até KIKA (1993). Mas depois eu soube que isso era apenas uma impressão minha: que tudo aquilo que eu julgava serem comédias escrachadas são também cheios de sentimentos extremamente pessoais do diretor, que aproximam os filmes de melodramas sinceros. Daí a necessidade de se rever a obra de Almodóvar, para perceber tanto sua evolução como sua coerência estética.

O que me impressionou nesta revisão foi poder compartilhar mais da solidão de Elena, muito embora CARNE TRÊMULA seja um filme mais masculino, centrado principalmente nos personagens de Bardem e Liberto Rabal (Victor). Eles são os homens da vida de Elena, ou os homens que, depois de uma noite trágica que resultaria na prisão de um jovem e na transformação de vida de um policial, que se tornaria paralítico, estariam ligados a ela de uma maneira ou de outra. No caso, pelo sentimento de culpa. Ela se sentiria na obrigação de estar com um dos dois, pelo menos, depois daquela noite.

Outra personagem feminina também se apresenta solitária e trágica, Clara, a mulher madura vivida por Ángela Molina. A mesma Ángela que mais de vinte anos atrás fora uma das mulheres sádicas que perturbavam a vida do protagonista de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel, com sua beleza e sensualidade. Aqui, ela aparece envelhecida e carente, e que encontra na figura do jovem Victor uma maneira de encontrar não apenas sexo, mas uma espécie de relacionamento quase maternal com o rapaz. Ela ensinaria a ele muito sobre o sexo, mas sempre que eles estão juntos fica a impressão de algo próximo de um incesto.

Essas duas mulheres ganham destaque na entrevista presente no livro Conversas com Almodóvar, de Frederic Strauss. E pensar neste grupo de personagens principais do filme faz com que eles sejam todos dignos de afeto por parte do espectador. Principalmente Elena. Talvez eu tenha me deixado levar pela beleza de Francesca Neri, ou talvez não, apenas tenha achado os personagens masculinos mais fracos, mesmo sendo eles os grandes protagonistas.

Porém, embora CARNE TRÊMULA tenha continuado a ser um ótimo filme na revisão, sinto como se ele tivesse perdido um pouco de sua força em minha memória afetiva. Mas valeu a pena demais ter ido em busca de uma cópia de qualidade, já que o cuidado com as cores tão belas e vivas da fotografia merece ser apreciado da melhor maneira possível. Como em geral ocorre com praticamente todos os Almodóvares.

sexta-feira, junho 21, 2013

INVASORES



De dar gosto a qualidade de imagem das cópias que caíram na rede dos telefilmes produzidos pela TV Cultura com o tema "A Música na Cidade". O primeiro que tive oportunidade de ver foi INVASORES (2013), de Marcelo Toledo. O que me chamou atenção para ver este primeiro foi o fato de ter sido roteirizado pela minha amiga Ana Paul. Creio que já se imagine que o que o roteirista quer nem sempre é o que ele vê no resultado final, mas devo dizer que fiquei bastante satisfeito com o que vi.

Na trama de INVASORES, Cláudia (Emanuela Fontes), uma jovem aficionada por música e com talento para pianista, tem um problema: não tem piano em casa, nem amigos que tenham, nem consegue apoio de ninguém para que possa treinar e passar no teste para entrar na faculdade de Música. Sendo da periferia, a família também não aprova o seus planos, achando que ela tem mais é que arranjar um emprego normal para ajudar nas despesas de casa.

Do pequeno grupo de amigos invasores de prédios públicos e privados para pichar, o único com quem ela pode contar é o namorado, que chega, inclusive, a invadir uma loja de pianos para que ela possa treinar durante a madrugada. Seu grupo não vê com bons olhos Cláudia, que acreditam ser uma menina que quer tocar música de burguês e se acha melhor do que eles. O hábito do grupo de pichar locais públicos é principalmente uma forma de protesto contra a desigualdade social, além de ser também, para eles, um desafio conseguir chegar a lugares tão bem protegidos pela vigilância eletrônica.

O filme agrada principalmente ao abordar o drama de Cláudia, já que a arte é sempre algo nobre e as músicas que ouvimos, de Bach, Beethoven, Villa-Lobos, Tchaikovsky, Mozart e Satie, são elevadores espirituais. Sempre muito prazeroso. E uma das cenas finais, ao som da "Sonata ao Luar", de Beethoven, é linda. Gostei muito da atriz, Emanuela Fontes, que possui uma beleza e uma mistura de simplicidade e nobreza que é ideal para o papel. Além do mais, adorei o modo como o filme termina.

Os outros três médias-metragens exibidos neste projeto são: E ALÉM DE TUDO, ME DEIXOU MUDO O VIOLÃO, de Anna Muylaert; A ÓPERA DO CEMITÉRIO, de Juliana Rojas; e VITROLA, de Charly Braun. Quero ver todos.

segunda-feira, junho 17, 2013

ALÉM DA ESCURIDÃO – STAR TREK (Star Trek – Into Darkness)



Nadando contra a maré de elogios que ALÉM DA ESCURIDÃO – STAR TREK (2013) está recebendo, procuro expressar minhas insatisfações em relação ao segundo filme dirigido por J.J. Abrams com a nova encarnação da Enterprise. Não nego que foi bom o que o cineasta fez no primeiro filme (2009), e que o segundo tem sacadas muito boas, como o namoro explícito com JORNADA NAS ESTRELAS II – A IRA DE KHAN (1982). Sem falar que também foi sábia a decisão do diretor em resolver logo o impasse da morte de um dos personagens centrais, a fim de que não fique um gancho manjado. Até porque, pelo que tudo indica, esta é a despedida de Abrams da franquia, a julgar pelos desentendimentos que teve com os executivos da Paramount e da CBS.

O problema do novo filme é o excesso de ação. Não há tempo para respirar. E essa movimentação exagerada, de câmeras, de luzes, de cortes, faz com que a experiência de vê-lo em 3D seja um tanto desagradável. Pelo menos para alguns. A dor de cabeça pode ser um efeito colateral e pode ter sido um de meus principais problemas com o filme. Quem sabe se visto em saudável 35 mm, o filme não teria descido melhor.

De todo modo, mesmo pensando em ALÉM DA ESCURIDÃO dias após a sessão, não pude encontrar, de maneira racional, maiores qualidades. Tudo pareceu vazio. E mesmo em uma cena em que os dois grandes protagonistas, Capitão Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto), conversam numa situação dramática, com a música de Michael Giacchino reforçando, fica faltando espaço para que a emoção surja, em meio a tantas explosões e efeitos especiais. A bênção de Leonard Nimoy, que comparece novamente neste segundo filme, não parece ser o suficiente para oferecer à nova franquia uma ligação de proximidade entre os novos personagens e a sua encarnação anterior.

A intenção dos produtores parece ser mesmo tentar esquecer o que se passou, embora isso seja quase impossível, já que não faltam citações à mitologia da antiga série, como os Klingons, o grande vilão Khan e tudo o mais. Ao menos não dá para reclamar do elenco feminino, que já contava com a beleza exuberante de Zoe Saldana e que agora também traz Alice Eve e em trajes íntimos. Não deixa de ser um golpe baixo, mas, pelo menos, não do tipo que se reclame. Além do mais, a personagem de Alice, Carol, parece se integrar bem rapidamente à equipe.

Deste modo, essas personagens, assim como os demais membros da Enterprise, que são muito bem representados por seus intérpretes, escolhidos acertadamente, são engolidos pela rapidez da narrativa, dos cortes, da falta de “peso” e realismo nas sequências de explosões ou choques por causa do excesso de CGI. Esses personagens seriam ótimos em uma série de televisão, lugar, aliás, que parece ser o único que pode se dar ao luxo de trazer momentos de reflexão. E no caso do reboot de STAR TREK há uma incrível falta das questões filosóficas que eram características tanto da série quanto dos filmes para cinema. Mal comparando, é como comprar uma pizza e não vir massa.

sábado, junho 15, 2013

A HERANÇA DOS DEVASSOS



Um filme um tanto difícil para eu terminar de ver. Não tanto pelo andamento lento, que eu até gostei, mas pelos problemas com o som ruim, que muitas vezes torna o diálogo incompreensível. Principalmente quando é Sandra Bréa quem está falando. Curiosamente, quando era o Roberto Maya falando eu entendia um pouco mais. E a presença de Maya em A HERANÇA DOS DEVASSOS (1979) ajuda bastante a tornar o filme parecido com um Khouri da virada da década, período em que o ator foi protagonista de seus trabalhos. Isso e também a atmosfera requintada de uma aristocracia brasileira.

No entanto, algumas coisas já no começo chamam a atenção pelo exagero, como o mordomo da família sempre tirar os sapatos do personagem de Maya e preparar a sua cama e seus comprimidos para dormir. Não que ele sempre fique na cama. De vez em quando ele dá uma escapulida para o quarto da empregada para dar umazinha. Mas é sempre bom lembrar que o sexo, embora esteja presente no filme, é um elemento usado de maneira sutil por Alfredo Sternheim. Pelo visto, o diretor usou esse título chamativo para conseguir filmar com dinheiro dos produtores da Boca do Lixo, que precisavam do elemento sexo para chamar a audiência e manter viva a indústria.

O estilo mais requintado de Sternheim deve aparecer também na produção de época LUCÍOLA, O ANJO PECADOR (1975), o qual não tive oportunidade de conseguir cópia, mas trata-se de uma adaptação do romance Lucíola, de José de Alencar. O subtítulo é mais para atrair público mesmo.

Voltando ao problema do som, uma pena que tenham dado um jeito para melhorar a imagem do filme, que está bem bonita, mas não fizeram um esforço para resolver o problema do som (se ao menos colocassem umas legendas). E isso prejudica até mesmo a compreensão da trama, que envolve uma família um tanto estranha que se junta para saber da herança deixada pelo velho patriarca. Da Europa, surge uma prima, que conquista o coração do personagem de Maya, mas que não é vista com bons olhos pelo restante da família, que tenta de várias maneiras expulsá-la da casa.

Sandra Bréa está linda no papel da prima e os diálogos aparentemente são bem escritos. Mas o filme não consegue nem ser tão bom quanto o menor dos Khouris, nem trazer uma atmosfera de suspense que empolgue. O que acaba fazendo com que A HERANÇA DOS DEVASSOS ganhe alguns pontos é justamente o estilo bizarro da família, que parece saída de algum filme de horror. No mais, estranhei o fato de esta produção não ter sido citada no livrinho de Alfredo Sternheim, lançado pela Imprensa Oficial.

sexta-feira, junho 14, 2013

DOIS HERÓIS BEM TRAPALHÕES (Crimewave)



Eis o elo perdido entre praticamente tudo o que Sam Raimi dirigiu em sua carreira. DOIS HERÓIS BEM TRAPALHÕES (1985) foi produzido entre A MORTE DO DEMÔNIO (1981) e UMA NOITE ALUCINANTE (1987) e esta comédia maluca foi co-escrita pelos irmãos Coen. Trata-se de uma das pérolas pouco conhecidas de um cineasta que entrou facilmente no mainstream, ainda que com um filme barato, sangrento e com um demônio possuindo corpos de jovens em tomadas alucinantes.

O modo de filmar de Raimi, que remete aos desenhos animados da Warner, do Pica-pau ou do Popeye, aparece com tudo nesta comédia sem medo dos excessos e toda cheia de estilo. Até porque a história em si não é tão boa. É o tipo de filme que se sustenta mais pela forma do que pelo conteúdo.

Na trama, rapaz vai para a cadeira elétrica por um crime que ainda não sabemos qual foi. Ele se diz inocente e, a partir de um grande flashback, vemos como ele foi parar ali. O rapaz é um tipo inocente e ingênuo que trata bem as pessoas que o tratam mal e tenta se dar bem com uma mulher que fica aborrecida com o namorado (vivido pelo ator-fetiche de Raimi, Bruce Campbell). Uma trama paralela se desenrola e vai afetá-lo diretamente: um executivo contrata dois exterminadores (os personagens mais cartunescos do filme) para matar o seu sócio.

Imagina-se que, com a sorte do rapaz, a culpa de tudo vá chegar até ele, mas o barato está em ver como é que chega. Aliás, nem isso é tão importante. O grande barato do filme é viajar no estilo alucinante e cheio de neon (eram os anos 80 em seu auge) que Sam Raimi trata sua história, que até pode ser vista como uma comédia B com pouca importância, mas só para quem não perceber as suas imensas qualidades.

Uma vez que se vê DOIS HERÓIS BEM TRAPALHÕES, vê-se tanto as comédias dos Coen em estado bruto ali presentes, como principalmente as obras de Raimi, tão próximas do território dos desenhos animados, dos quadrinhos, do fantástico. Tanto é que isso levou o diretor a fazer uma continuação bem mais carregada de humor para o seu A MORTE DO DEMÔNIO, a dirigir um filme de super-herói dos bons (DARKMAN – VINGANÇA SEM ROSTO, 1990), que consequentemente foi motivo para que ele fosse contratado para dirigir a trilogia HOMEM-ARANHA (2002, 2004, 2007). Estava tudo aí, nesta comédia pouco conhecida do grande público.

quarta-feira, junho 12, 2013

BLACK MIRROR – SEGUNDA TEMPORADA (Black Mirror – Series 2)



Com um pé no presente, mas de olho no futuro, mais três intensos, pessimistas e angustiantes episódios de BLACK MIRROR se apresentam nesta segunda temporada (2013). Esta série inglesa tem o mérito de apresentar episódios, na verdade médias-metragens para a televisão, que fazem com que queiramos ver sempre o próximo, sem a existência de um gancho, já que as histórias são todas fechadas e independentes.

O primeiro episódio é avassalador e muito, muito interessante. "Be Right Back" conta a história de uma moça cujo namorado morreu em um acidente de automóvel. Ele tinha o hábito de ficar o tempo todo na internet, mal conseguindo cuidar de seu relacionamento. O luto que ela sente por sua morte é tanto, que ela acaba aceitando uma "solução" que uma amiga lhe propõe no dia do velório: há um novo sistema operacional que resgata todos os dados do morto, de e-mails, de redes sociais etc. e cria uma inteligência artificial que conversa com a pessoa através de e-mails e bate-papo. Fascinante e perturbador.

"White Bear" também lida com outra mania dos dias atuais: a de filmar ou fotografar tudo. Você vai a um show, lá está todo mundo filmando o show. Você vai a um restaurante e lá está alguém fotografando a comida. Neste episódio, uma moça acorda desmemoriada e amarrada a uma cadeira. Quando sai, passa a ser perseguida por pessoas com câmeras e por outras, mais agressivas, fantasiadas com máscaras. É o episódio mais próximo do gênero horror da série.

"The Waldo Moment" é outro episódio com tintas tristes, ao apresentar um rapaz que faz a voz e os gestos de um urso em um desenho animado que tem o hábito de zoar com políticos. Ele e seu grupo aproveitam o momento de eleição para se destacar mais. O cartum faz enorme sucesso de público, a ponto de ser visto como uma espécie de voz do povo. As coisas mudam para o rapaz quando ele tem um encontro íntimo com uma candidata. É o menos interessante dos três, mas o fato de se tratar de uma história de amor dolorida faz com que fale aos nossos corações.

terça-feira, junho 11, 2013

GAME OF THRONES – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Game of Thrones – The Complete Third Season)



Os produtores e roteiristas de GAME OF THRONES tomaram uma decisão sábia neste terceiro ano (2013): não ter que dar conta de um livro inteiro por temporada. Principalmente porque o terceiro livro (A Tormenta das Espadas) é bem mais volumoso que os anteriores. Além do mais, o excesso de personagens deixou a segunda temporada um tanto confusa para quem não lê os livros. E como uma série tem que ter vida própria e autônoma, é necessário que ela seja inteligível, mesmo que com certo grau de complicação no enredo cheio de jogos políticos.

Assim, uma vez que se acostuma com o andamento da segunda temporada, acompanhar a terceira é extremamente prazeroso. Até porque é uma história mais excitante, dando até aquela vontade de ler os livros, assim que tiver um tempinho. E também para se situar melhor geograficamente, naquele continente fictício e cada vez mais fascinante criado por George R.R. Martin.

Uma das coisas impressionantes nesta terceira temporada é o modo como a simpatia e a antipatia (ou até mesmo o ódio por alguns personagens) movimentada nas temporadas anteriores são mudadas nesta terceira. Os Lannisters, por exemplo, exemplo de família suja e cheia de podres, passam a ser vistos com mais simpatia, até por um gesto nobre de Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau). Nem é preciso falar de Tyrion (Peter Dinklage), que já havia roubado as cenas desde muito tempo e hoje é o primeiro nome dos créditos. Muito justo.

E os Starks? Bom, digamos que as coisas não melhoram em nada para eles nesta segunda temporada. Porém, quem já aguentou a morte de Ned Stark na primeira, aguenta a sangrenta cena do chamado "casamento vermelho". Aliás, é curioso como os penúltimos capítulos é que se constituem os ápices das temporadas, deixando para o último a tarefa de apresentar a situação (até aquele momento) de todos os personagens e prepará-los para a próxima e já muito aguardada quarta temporada, que deve adaptar um terço restante do terceiro livro e parte do quarto.

Entre os personagens mais queridos, cada vez mais a sensacional mãe dos dragões Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) ganha força, coragem, simpatia e um exército cada vez maior. Talvez o problema da personagem esteja no fato de ela estar distante, sem contracenar com os demais núcleos, mas isso em breve deve ser assunto resolvido.

Alguns destaques da temporada: o casamento de Tyrion com Sansa e os sensacionais diálogos do querido anão; o encontro de Jon Snow com os homens que vivem detrás da grande muralha de gelo e o interesse amoroso com uma bela ruiva; o trágico destino de Theon, que na temporada passada era um dos seres mais odiosos, mas o sofrimento aquebranta nossos corações; a redenção sofrida de Jaime; a participação sempre sensual e perturbadora da feiticeira Melisandre; e, como não poderia deixar de ser, o destaque para Robb Stark e sua mãe. De parabéns o pessoal envolvido com a realização da série, em conseguir lidar com tantos personagens, com tantos núcleos diferentes e fazer um produto harmonioso e sem igual como esse.

segunda-feira, junho 10, 2013

O GRANDE GATSBY (The Great Gatsby)



E o quinto longa-metragem do diretor australiano Baz Luhrmann se mostrou um sucesso. Levando em conta, claro, que o espectador tenha gostado dos excessos do cineasta em um de seus melhores filmes, MOULIN ROUGE – AMOR EM VERMELHO (2001), que é o trabalho do diretor que mais entra em sintonia com O GRANDE GATSBY (2013). Ambos são filmes que contam histórias de amor trágicas; ambos fazem questão de incluir canções do nosso tempo ao tempo da narrativa, no caso, início dos anos 1920. Um período, aliás, muito propício para os excessos de Luhrmann, já que foi um dos momentos mais permissivos da sociedade americana, no bom sentido do adjetivo.

Mas a obra que deve ser mais comparada com o filme, além do próprio romance homônimo de F. Scott Fitzgerald, é a adaptação de Jack Clayton, lançada em 1974, tendo Robert Redford e Mia Farrow nos papéis de Gatsby e Daisy. E se o filme dos anos 70 é bem lento e aborrecido, o mesmo não se pode dizer da nova versão, que é bem dinâmica e que aproveita como poucos a tecnologia 3D, que geralmente é usada em filmes de ação, mas que chega a surpreender positivamente aqui. Por isso, recomenda-se ver o filme em 3D mesmo. Faz muita diferença.

Um dos destaques são as letras que brotam da tela e parecem invadir o nosso espaço. Letras saídas do próprio romance de Fitzgerald, como uma espécie de homenagem explícita ao escritor. E esse é apenas um dos exemplos. Há vários outros, elegantes e invulgares. Logo no começo do filme, por exemplo, o 3D é usado no velho recurso de desfocar um personagem para focar outro na mesma tela. Isso acontece na cena do narrador Nick Carraway, vivido por Tobey Maguire, e um senhor que ouve a sua história. A história sobre o homem mais otimista que ele já conheceu.

Este homem é Jay Gatsby, que não demora muito para ser apresentado para a audiência. Um dos méritos do Gatsby de DiCaprio é ser mais humano e amigável do que aquele vivido por Redford. Ele tira aquele ranço um tanto arrogante daquela versão e traz um personagem inquieto, ansioso. Tanto que chega ao ponto de entrar numa pesada chuva, depois de uma crise de ansiedade gerada pela expectativa de reencontrar sua amada Daisy (Carey Mulligan), após cinco anos sem vê-la, e sabendo que agora ela é uma mulher casada.

A história já é conhecida de quem viu a outra versão ou de quem leu o romance, mas em nenhum momento isso tira o interesse na versão colorida e deliberadamente exagerada de Luhrmann. Além do mais, há sempre algumas alterações na narrativa, sejam supressões ou acréscimos. A opção, por exemplo, de dar mais espaço para a narração em voice-over de Nick, que muitas vezes pode ser vista como redundante, ajuda-nos a compreender as emoções dos personagens. Um exemplo muito bem-vindo é o da cena das camisas. Na versão de 1974, Daisy chora dizendo que nunca havia visto tantas camisas belas. Nesta versão, há a narração de Nick, que nos avisa que ela chora por outra razão: pelos cinco anos que perdeu, que poderia estar com Gatsby.

Mas a trama é a mesma: Nick é um primo de Daisy que a visita. Ele mora em uma casa do outro lado do lago. Não por coincidência, uma casa vizinha à de Gatsby, um misterioso e jovem milionário que oferece festas fenomenais em sua mansão, aberta para todos. Gatsby conquista a amizade de Nick, que o ajuda ao trazer Daisy para um reencontro, às escondidas do marido, Tom (Joel Edgerton, muito bom no papel de um sujeito cafajeste). A partir daí, começam os encontros às escondidas de Gatsby e Daisy.

Os efeitos especiais de O GRANDE GATSBY às vezes nos deixam um pouco tontos, como quando a câmera mergulha ou se afasta rapidamente ou quando acompanha os carros em movimento. Mas tudo funciona a favor do filme. Tanto para acentuar o estilo do diretor, quanto para auxiliar a narrativa e apresentar a Nova York dos anos 20 próxima da loucura que foram aqueles anos.

Pena que, diferente da versão de 1974, nesta nova adaptação, a personagem Jordan Baker tem pouco espaço no enredo. O que há a se lamentar é que a atriz que a interpreta, Elizabeth Debicki, rouba a cena nas vezes em que aparece, exuberante, com seu cabelo típico daquela época. Aliás, Carey Mulligan também nunca esteve tão bela. O que é muito importante para ajudar o espectador a acreditar no amor devotado de Gatsby por ela.

domingo, junho 09, 2013

DEPOIS DA TERRA (After Earth)



Uma pena que M. Night Shyamalan, diretor de pelo menos cinco filmes brilhantes (O SEXTO SENTIDO, 1999; CORPO FECHADO, 2000; SINAIS, 2002; A VILA, 2004; e FIM DOS TEMPOS, 2008) tenha se entregado de vez aos filmes de encomenda. E, desta vez, muito mais um filme de Will Smith, o produtor e dono de DEPOIS DA TERRA (2013), a ficção científica protagonizada pelo seu filho Jaden Smith, que não consegue evitar de ser visto como um menino mimado que conseguiu se tornar famoso graças ao pai.

Relevando este fato e tentando equilibrar um pouco a balança que pende contra o filme, é bom lembrar que os outros dois trabalhos que Jaden fez com ou sob a supervisão do pai resultaram em bons filmes – À PROCURA DA FELICIDADE, de Gabriele Muccino, e KARATÊ KID, de Harald Zwart. Por outro lado, é bom lembrar de um remake constrangedor em que o menino Jaden esteve presente, O DIA EM QUE A TERRA PAROU, de Scott Derrickson. Ele não está bem nesse filme, mas pudera: como estar bem num filme daqueles?

Quanto a Shyamalan, o que houve com ele? Infelizmente acabou se tornando alvo de piadas entre críticos e variados cinéfilos. E ele mesmo parece ter dado um tiro no pé quando aceitou fazer uma fantasia adolescente, O ÚLTIMO MESTRE DO AR (2010), que não é um filme ruim, ao contrário do que muita gente pensa ou diz. É um trabalho decente, visualmente belo, uma marca, aliás, dos trabalhos do diretor, e feito para agradar principalmente a crianças e adolescentes.

Como também o é DEPOIS DA TERRA (2013), que é capaz de assustar em alguns momentos a esse público, como pude testemunhar em uma sessão. Ainda assim, é possível encontrar qualidades no filme. O design das casas e da espaçonave é bem interessante, misturando o rústico com o futurista. E Shyamalan, mesmo com um trabalho de encomenda que passa longe de destacar o seu nome dos cartazes, ainda continua dando destaque às imagens, aos enquadramentos.

Mas isso é pouco para um filme que é fraco em seu desenvolvimento e com um roteiro e caracterizações um tanto constrangedoras, como a do próprio Will Smith, dando uma de pai severo e durão, sem convencer. Ele é um general de um exército que mal conhece o filho, pois fica muito tempo afastado de casa, a trabalho. Além do mais, ele guarda mágoa da criança, que esteve perto no dia em que sua filha mais velha foi morta por um monstro gigante. Esse tópico que envolve o relacionamento entre pai e filho e a necessidade de provar o seu valor, aliás, poderia ter rendido um filme bem interessante, mas infelizmente não é o que ocorre.

Na trama, durante uma missão, Cypher Raige (Will Smith) e o filho Kitai (Jaden) caem num planeta inóspito e cheio de perigos, a Terra de mil anos no futuro. Com a queda da nave, toda a tripulação morre. O menino e o pai são os únicos sobreviventes. Mas o pai está com as duas pernas quebradas e a única salvação para os dois está nas mãos do garoto, que deve encontrar um material que está perto da cauda da nave, que foi parar muito longe. Assim, Kitai precisa enfrentar não apenas animais gigantes, mas também o próprio medo.

Quanto a Shyamalan, para aqueles que são fãs de seu trabalho (eu, incluso), só resta torcer por um retorno glorioso em um futuro próximo. Por enquanto, o que temos é apenas uma série de televisão prevista para o próximo ano – WAYWARD PINES –, que ele produzirá e dirigirá pelo menos um episódio. Pouco se sabe, mas ao que parece é um retorno ao gênero terror e mistério.

sexta-feira, junho 07, 2013

ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA



Interessante o fato de que, na mesma época que Karim Aïnouz lança seu filme menor (O ABISMO PRATEADO), seu parceiro de VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO (2009), Marcelo Gomes, também chega com um filme de bem menor peso do que sua estreia na direção de longas de ficção, CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2005). De todo modo, ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA (2012) não deixa de ser um exemplo do cada vez mais vivo e estimulante cinema produzido em Pernambuco.

Estrelado por Hermila Guedes, o filme mostra o cotidiano de Verônica, uma médica em início de carreira que se vê perdida diante das dificuldades da vida e da profissão. O filme começa com a personagem participando de uma espécie de orgia com um grupo de amigos, todos nus, em uma praia aparentemente deserta. O corte desse momento de liberdade para os momentos de responsabilidade, seja do ofício, seja o de cuidar do pai, doente de câncer (vivido por W.J. Solha), ajuda a acentuar esse momento mais pesado da vida da personagem, que tem como válvula de escape o encontro com as amigas em bares e o sexo com o amigo vivido por João Miguel.

O curioso é que o que mais dá ao filme um tom de poesia e de interioridade, que é a narração em voice-over constante de Verônica, é também um elemento que o prejudica em certo momento, especialmente quando ele se aproxima de seu encerramento. É como se essa fala da personagem forçasse esse espírito intimista e poético que o filme busca a todo momento, mas que nem sempre é conseguido.

Ainda assim, ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA tem os seus méritos, principalmente nas sequências que mostram a falta de chão que a personagem sente ao lidar com pacientes que não sabem externar suas dores; ou, se sabem, fazem de uma maneira com que os seus problemas se tornem quase impossíveis de ser solucionados ou, ao menos, aliviados. Melhores momentos: a festa em que Karina Buhr canta; e a entrega da casa ao pai. São momentos arrepiantes de um filme que, se não é ótimo, é cheio de dignidade.

quinta-feira, junho 06, 2013

A MONTANHA SAGRADA (The Holy Mountain)



A primeira vez que eu vi A MONTANHA SAGRADA (1973) foi em 2001 ou 2002, em uma cópia em VHS enviada pelo amigo Thomaz Albornoz. Ele havia conseguido essa cópia de um amigo estrangeiro. Não sei dizer se a matriz era de um laserdisc ou de um VHS mesmo. De todo modo, poder rever o filme em toda sua glória, com as cores vivas e a imagem nítida advindas de uma cópia em blu-ray faz toda a diferença. Notamos o quanto Alejandro Jodorowksy tinha um apego com o colorido e com a cuidadosa simetria nas imagens. Chega a ser próximo do que Stanley Kubrick fazia, nesse sentido.

A MONTANHA SAGRADA é desses filmes cuja interpretação é um tanto complicada, mas quem conhece um pouco de astrologia, de tarô, de numerologia ou de religiões orientais pode entender um pouco mais. O que não quer dizer que quem não está muito por dentro de esoterismo não vá curtir a viagem e achar o filme fascinante. Afinal, difícil dizer que ele não é.

Poderíamos dizer que Jodorowsky é um diretor com um estilo próximo do surrealismo de Luis Buñuel, mas o que o cineasta espanhol tem de anárquista e ateu, o chileno Jodorowsky tem de místico. E seu misticismo se confunde com sua arte (que não se concentra só no cinema, mas também na literatura e nos quadrinhos). Atualmente Jodorowsky voltou aos holofotes graças a um filme novo exibido em Cannes, LA DANZA DE LA REALIDAD (2013).

Título sugestivo para quem viu A MONTANHA SAGRADA e lembra de que maneira o filme termina. Ainda assim, o que é mais memorável mesmo é o início e o desenvolvimento. No prólogo, somos apresentados à figura do alquimista, vivido pelo próprio cineasta, e às duas gêmeas nuas que têm suas cabeças raspadas.

A seguir, um homem semelhante a Jesus chega a uma cidade mexicana, que celebra (ou relembra) os dias da conquista do México pelos espanhóis. Essa conquista é representada com sapos e lagartos vestidos de soldados e membros da Inquisição. Nesse início de filme também vemos o começo da amizade desse rapaz (o que parece com Cristo) com um anão sem braços e pernas, que parece ter saído direto do elenco de MONSTROS, de Tod Browning.

A viagem fica interessante mesmo quando vemos o encontro do protagonista com o alquimista. Fascinante o modo como ele transforma fezes em ouro. Para quem é ligado em astrologia, o momento mais interessante do filme é o da apresentação dos representantes de cada planeta de nosso sistema solar, apresentados engenhosamente a partir de seus simbolismos.

Assim, de Vênus (regente de Touro e Libra), destacam-se as roupas, os cosméticos, a sensualidade, o luxo, a preguiça, o culto ao corpo, o medo da morte e do envelhecimento, elementos mais relativos a Touro do que a Libra. De Marte (regente de Áries), há a masculinidade (mesmo sendo seu representante uma mulher), a guerra e a violência. Acaba sendo o planeta mais pobre. Poderiam ter explorado mais.

De Júpiter (regente de Sagitário), vê-se a bondade, a riqueza, a grandeza, as várias amantes e a inventividade sexual. De Saturno (regente de Capricórnio), vemos o Estado, a elegância, a velhice, o maquiavelismo. De Urano (regente de Aquário), se vê a loucura, o inesperado, o futurismo, a tecnologia.

De Netuno (regente de Peixes), vemos a renúncia ao sexo em prol da espiritualidade (de doer a cena do corte dos testículos com uma tesoura), o sacrifício, os livros sagrados. E finalmente, de Plutão (regente de Escorpião), vemos o débito (dinheiro que se deve), o sexo (o pênis gigante), o ânus (a citação às fezes), o caixão (a morte). Aliás, a morte é imediatamente associada ao sexo, os dois grandes símbolos desse signo.

Depois dessa sequência fascinante, o filme mostra a busca daqueles homens pela Montanha Sagrada, elemento comum a quase todas as religiões. E que para chegar até ela é preciso se despir de tudo: do ego, do dinheiro, do corpo, do desejo. E neste momento, impressionante a imagem de uma árvore cheia de galinhas brancas mortas. Como se elas fossem folhas dessa árvore. E lá em cima, a figura de uma velha parecida com uma bruxa de contos de fada. Parece uma imagem saída de um pesadelo e transposta para a pintura.

Há, enfim, muito a se falar ainda sobre o filme, mas os textos ficam vazios diante das imagens e do que fica grudado em nossa memória.

quarta-feira, junho 05, 2013

TRÊS FILMES EXIBIDOS NO FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2013



O tempo está curto e a lista de filmes vistos só tem aumentado. No mês de maio passado, eu cheguei a ver 22 filmes só no cinema, sendo oito deles do Varilux. Já escrevi aqui sobre CAMILLE CLAUDEL, 1915, RENOIR, A DATILÓGRAFA e ADEUS, MINHA RAINHA. Falta ainda eu falar sobre FERRUGEM E OSSO, que eu acredito que merece um post só pra ele. Hoje resolvi, então, falar de maneira muito rápida sobre os três filmes de que menos gostei do festival e matar três coelhos com uma só "caixa d’água".

OS SABORES DO PALÁCIO (Les Saveurs du Palais) 

Um dos aspectos interessantes de OS SABORES DO PALÁCIO (2012), de Christian Vincent, é nos apresentar a uma personagem (real) que passaria despercebida: a mulher que um dia foi chefe de cozinha do presidente François Mitterrand, cujo mandato se estendeu de 1981 a 1995. Foi o presidente que mais esteve no poder na França até hoje. Mas o filme não se detém tanto sobre ele, mas sobre a rotina da talentosa chefe de cozinha (Catherine Frot ) em sua busca de agradar e dar o melhor de si em seu cargo. Como o filme se passa em dois tempos na vida dela, há uma agilidade interessante na narrativa. É melhor do que se espera, embora não seja um grande filme. É mais uma obra que lida com a culinária e que mostra a tradição francesa em compor pratos sofisticados.

O HOMEM QUE RI (L'Homme Qui Rit) 

Mais uma versão do clássico de Victor Hugo, O HOMEM QUE RI (2012), de Jean-Pierre Améris, funciona mais pelo esqueleto da história de Hugo e pelo elenco estelar, formado por Gérard Depardieu, Christa Theret (a jovem musa de RENOIR), Emmanuelle Seigner e Marc-André Grondin (que faz o papel de Gwynplaine adulto). Na trama, Gwynplaine é um garoto que teve seu rosto desfigurado com um objeto cortante em sua infância para parecer estar sempre rindo. Por isso, costuma andar com um pano cobrindo a boca. Quando o homem que cuida dele foge, ele se vê abandonado. No caminho, em busca de abrigo em meio a uma tempestade de neve, salva um bebê, que trata de cuidar como se fosse sua irmã, embora quando crescem ambos sintam atração física um pelo outro. Os dois são acolhidos por um grandalhão (Depardieu) que resolve usar os dois garotos como atração de circo. O que falta ao filme é emoção. O diretor acaba desperdiçando uma história muito boa.

PRENDA-ME (Arrêtez-moi) 

Um dos mais fracos do festival, PRENDA-ME (2013), de Jean-Paul Lilienfeld, se passa praticamente em um único lugar: uma delegacia de polícia. Na trama, Sophie Marceau é uma mulher que resolve confessar um crime que cometeu no passado contra o marido, que segundo ela não se suicidou, mas foi empurrado por ela do alto de um edifício. Miou-Miou é a delegada de polícia que tenta entender os motivos da personagem de Marceau, que conta, através de flashbacks, alguns momentos do passado, que incluem principalmente os maus tratos que recebia do marido. PRENDA-ME não é de todo ruim, mas arrasta-se um pouco em seu andamento e com o tempo já torcemos para que tudo acabe logo.

terça-feira, junho 04, 2013

UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (An American Werewolf in London)



Filme da minha pré-adolescência e da minha pré-cinefilia, UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981), de John Landis, ficou na minha memória afetiva e, mesmo eu revendo alguns filmes do diretor posteriormente, fiquei sempre adiando a minha revisão deste filme que vi há séculos. E foi um prazer poder rever, agora que tenho um conhecimento maior do gênero. Pelo menos eu sei quando ele cita O LOBISOMEM (1941), clássico da Universal estrelado por Lon Chaney Jr. e tido como um dos melhores filmes de lobisomem da História do Cinema.

Curiosamente, na mesma época do filme de Landis, outros filmes de lobisomem estavam aportando nos cinemas. Destaque para UM GRITO DE HORROR (1981), de Joe Dante, e, um pouco depois, A COMPANHIA DOS LOBOS (1984), de Neil Jordan. Os três filmes trazem transformações impressionantes de homens em lobisomens, mas nenhum de maneira tão meticulosa e impressionante quanto o filme de Landis, que mostra a dor de ter o corpo alterado, os ossos sendo esticados para formar a figura de um lobo, tudo isso ao som de uma canção pop (entre as várias sobre lua cheia da trilha) que deixa o espectador desconcertado.

Isso porque Landis prefere o registro da comédia, mesmo lidando com tragédias como a morte de um amigo por um lobisomem e seu ressurgimento com o corpo em constante estado de putrefação como visita. E, ainda por cima, incitando-o a cometer suicídio, para não correr o risco de matar alguém, ou transformar outras pessoas em licantropos. E também tirar do limbo as almas que ficam sem poder ser libertadas por terem sido mortas por esse ser amaldiçoado.

A dinâmica direção de Landis já nos apresenta nas primeiras cenas aos dois personagens principais, vividos por David Naughton e Griffin Dunne. Viajando no esquema mochilão pela Europa, os dois amigos vão parar numa pequena cidade da Inglaterra, passando por um sinistro pub onde não são muito bem recebidos e acabam indo embora. Resultado: são atacados pelo lobisomem, que naquela lua cheia esperava uma vítima. Um deles morre pelas garras do bicho, o outro é salvo por parte dos habitantes do local, que arranjam um jeito de negar a história e de levar o sobrevivente para um hospital em Londres.

O momento mais calmo do filme é justamente esse, em que David (Naughton) fica no hospital por uns tempos, recebe visita do amigo morto, e paquera a enfermeira, que será importante para a segunda e melhor parte do filme. Durante e depois da transformação, UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES ganha mais velocidade em sua narrativa, mesmo tendo como alívio cômico a cena de David acordando nu numa jaula de lobos de um zoológico e se esforçando para chegar à casa da namorada com o que quer que conseguisse para se vestir.

O ápice do filme, dentro de um cinema pornô e depois, nas ruas da cidade, é também igualmente fascinante e empolgante, o que só prova o quanto o filme de Landis envelheceu bem nestes mais de trinta anos de seu lançamento. Tanto é que de lá pra cá nenhum outro filme do gênero conseguiu superá-lo.

UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES era um dos filmes favoritos de Stanley Kubrick

domingo, junho 02, 2013

KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe)



Indo além da diversão e da violência, KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (2011), de William Friedkin, é uma obra que traz elementos dos filmes noir dos anos 1940 sobre mortes envolvendo seguro de vida, mas que também acaba lembrando as obras brasileiras inspiradas em Nelson Rodrigues, graças principalmente à podridão da instituição familiar e a uma suposta pureza da jovem Dottie (vivida por Juno Temple), que na verdade está longe de ser exatamente pura.

Friedkin repete a parceria com Tracy Letts, autor da peça e do roteiro de POSSUÍDOS (2006), até então o último trabalho do diretor de O EXORCISTA (1973). Apesar de ser adaptado de uma peça e de ter vários diálogos e momentos entre quatro paredes, ao se assistir KILLER JOE não se tem a impressão de se estar vendo algo de origem teatral. É cinema controverso, violento e impressionável, como é tradição na filmografia de Friedkin, cineasta afeito aos gêneros policial e terror, e que aqui entra no gênero de thriller criminal, mostrando também o seu impressionante timing com a comédia. No caso, de humor negro.

Na trama, passada numa cidadezinha do interior do Texas, o perturbado e endividado Chris (Emile Hirsch) propõe ao pai Ansel (Thomas Haden Church) a ideia de matar a própria mãe para receberem a soma de 50 mil dólares de seguro de vida. A ideia é que sua irmã mais nova, Dottie, não saiba de nada. Para isso, ele contrata um detetive de polícia que age como matador de aluguel. O problema é que eles não têm dinheiro para adiantar ao matador, e este pede um "caução", no caso, ficar com a jovem Dottie até eles receberem o dinheiro do seguro.

O assassino, o Killer Joe do título, é Joe Cooper, vivido por Matthew McConaughey, em atuação inspirada. Impressionante como o ator rouba a cena, o que não quer dizer que os demais também não estejam todos ótimos, inclusive Gina Gershon, a desavergonhada mulher de Ansel, que também receberia parte do valor do seguro.

Além da catártica sequência final, que pode ser vista desde já como uma das mais fascinantes e memoráveis do ano, há uma cena que não deve ser esquecida por quem viu o filme. Trata-se da cena de sexo de Joe e a jovem Dottie. Uma cena carregada de alta voltagem erótica, como há muito não se via no hoje bem comportado cinema americano.

Aliás, é impressionante como há uma tendência atual de negar filmes que ameacem os valores da família tradicional ou que sejam irreverentes e violentos quanto KILLER JOE. No caso do filme de Friedkin, foram distribuídas versões com cortes em DVD e Blu-Ray para que pudessem ser comercializadas em determinados lugares dos Estados Unidos, com as cenas chocantes de fora. Incrível como eles acham que estão fazendo um bem, quando na verdade estão cometendo um crime contra uma obra de arte.