sexta-feira, maio 31, 2013

SE BEBER, NÃO CASE – PARTE III (The Hangover – Part III)



Um dos maiores trunfos da franquia SE BEBER, NÃO CASE! é a familiaridade que se criou entre espectador e personagens. Como geralmente acontece em séries de televisão. Sem essa familiaridade e sem a simpatia que se tem pelos dois anteriores, talvez não haja graça em ver SE BEBER, NÃO CASE - PARTE III (2013) no cinema. Assim, a nova continuação tende a agradar quem gostou dos dois filmes anteriores, remetendo a personagens e tramas já vistas na franquia. Remete tanto à Bangkok do segundo (por causa do chinês doido Chow, vivido por Ken Jeong, bem conhecido de quem acompanha a série COMMUNITY) quanto à Las Vegas do primeiro, lugar novamente visitado pelo trio nesta terceira parte.

Desta vez, ao contrário dos outros, o filme não tem como ponto de partida um casamento, e os desastres que acontecem não se dão por meio de drogas ou álcool, que fizeram os protagonistas acordarem de ressaca e sem memória nos filmes anteriores. O ponto de partida está no fato de Alan, o personagem de Zach Galifianakis, ser encaminhado pela família para uma clínica psiquiátrica.

Logo no começo do filme, em uma divertida esquete, ele dirige feliz no trânsito, levando uma girafa, sem pensar na possibilidade de o pobre animal ser muito alto para passar por debaixo dos viadutos. O resultado é catastrófico e exemplifica como ele tem o comportamento de uma criança de dez anos.

Galifianakis, aliás, fez tanto sucesso com esse papel que praticamente virou Alan aos olhos dos espectadores. Tanto é assim que, em UM PARTO DE VIAGEM (2010), também dirigido por Todd Philips, o ator vive praticamente o mesmo personagem, só que com um nome diferente. Tornou-se um eterno sem-noção, que responde por alguns dos momentos mais divertidos deste terceiro filme.

Bradley Cooper continua bom como o sujeito mais normal do grupo e Ed Helms (o cara de sorriso tímido que conquistou espaço garantido na série THE OFFICE) ganhou força na franquia, principalmente depois de suas desventuras sexuais nos filmes anteriores. Aliás, curiosamente, a terceira parte pega bem mais leve nas cenas politicamente incorretas. Tanto que diminuíram a classificação indicativa em comparação com o segundo.

Melhores momentos de SE BEBER, NÃO CASE - PARTE III: a invasão a uma mansão para roubar, junto com Chow, várias barras de ouro, com a intenção de devolver ao mafioso vivido por John Goodman. Há também a sequência no terraço de um edifício em Las Vegas, seguida pela perseguição a Chow, que torna o filme bem movimentado, próximo a uma comédia de ação dos tempos do cinema mudo.

Quando os créditos subirem, não se levante ainda, pois o diretor guardou uma surpresinha para o final. Não tão divertida quanto as fotografias dos filmes anteriores, mas uma boa solução para manter a tradição dos títulos (seja o brasileiro, seja o original).

quinta-feira, maio 30, 2013

FAROESTE CABOCLO



Um dos projetos mais arriscados do cinema brasileiro recente, dada a aura mítica em torno da canção em si e do legado como um todo da Legião Urbana, FAROESTE CABOCLO (2013) é um filme raro. Não que seja uma obra vanguardista ou coisa do tipo. Não. É um filme com narrativa clássica, mas que entra num cinema de gênero pouco produzido no Brasil atualmente. No caso, o filme policial, e que, em se tratando de FAROESTE CABOCLO, também tangencia o western spaghetti nos momentos de tiroteios. Aliás, já na abertura do filme, os olhos de João de Santo Cristo (Fabrício Bolívar) aparecem em primeiríssimo plano.

Assim como a canção, que tem seus momentos de calmaria e de violência, o filme reveza momentos de tranquilidade, os que mostram os encontros entre João e Maria Lúcia (Ísis Valverde), com as sequências que mostram os ataques do traficante playboy Jeremias (Felipe Abib) e sua gangue ao negro pobre e "pé rapado" que conseguiu aquilo que ele nunca conseguira: ganhar o coração de Maria Lúcia, a bela e rica filha de um senador (Marcos Paulo).

Um dos aspectos positivos do filme é já trazer um personagem em tons de cinza, que não hesita em matar um policial quando deixa sua cidade natal, no interior da Bahia, para chegar a Brasília e conseguir emprego com o primo Pablo (Cesar Trancoso), que trafica maconha da Bolívia e do Paraguai. Mais adiante, saberemos o motivo por que ele matou aquele policial, através de alguns dos flashbacks de sua infância que ajudam a formar para o espectador a personalidade do protagonista.

Para quem gosta da Legião Urbana e do rock de Brasília, há pelo menos dois momentos muito especiais que dão muito prazer de se ouvir no cinema: a primeira vez que ele chega numa festa em Brasília, quando o Aborto Elétrico está tocando "Tédio (com um T bem grande pra você)", e uma outra, mais movimentada, ao som de "Até quando esperar", da Plebe Rude. Philippe Seabra, o líder da Plebe, inclusive, é o responsável pela trilha sonora.

Nem tudo que é narrado na canção é transposto para o filme, mas todas as liberdades tomadas pelo diretor estreante em longas René Sampaio são bem-vindas. Inclusive a belíssima fala final de João de Santo Cristo. Uma das liberdades do diretor é não dar qualquer relação sacra ao personagem, algo mais próprio da poética de Renato Russo, que era bem ligado a religiosidade e esoterismo. Se João passa por uma via-crúcis, ela é mostrada de maneira seca e violenta, sem direito aos aplausos no final ou a câmeras de televisão.

Diferente de João, que é um personagem mais complexo, os vilões são tipicamente vilões. Caso do policial corrupto vivido por Antonio Calloni e do já citado Jeremias. Eles fazem com que o "ódio por dentro" de João seja sentido também por nós, principalmente nas sequências finais. Por isso o registro de violência que o diretor apresenta é imprescindível para tornar o filme uma obra de respeito. Diria que chega até a endurecer um pouco os nossos corações no que se refere ao amor entre João e Maria Lúcia. Ainda assim, é uma bela história de amor quase impossível, que muito deve às interpretações de Boliveira e Ísis.

No mais, quem é fã da canção que deu origem ao filme não deve deixar passar a oportunidade de ouvi-la integralmente no cinema durante os créditos finais. Certas coisas simplesmente não têm preço.

quarta-feira, maio 29, 2013

SEM PROTEÇÃO (The Company You Keep)



Dando continuidade ao seu cinema politizado que se iniciou com LEÕES E CORDEIROS (2007) e com o excelente CONSPIRAÇÃO AMERICANA (2010), Robert Redford, em seu novo filme, SEM PROTEÇÃO (2012), traz mais um tema espinhoso à tona, que provavelmente seria, em outras épocas, vetado pela censura dos Estados Unidos, por não mostrar os revolucionários do grupo Weather Undergound como terroristas, mas ativistas radicais de esquerda que estavam fazendo o que julgavam ser o certo naquele cenário em que a Guerra do Vietnã se tornava cada vez mais um absurdo para o próprio país e para os invadidos.

Uma pena que, no fim das contas, o filme se torna mais um thriller de perseguição (por parte de Redford) e de investigação (por parte de Shia LeBeouf). SEM PROTEÇÃO acaba se diluindo um pouco ao longo de sua metragem, principalmente quando vemos que o personagem de Redford passa a ver que a família é muito mais importante do que aqueles atos políticos de esquerda de sua juventude.

Talvez seja uma posição do próprio diretor e é provavelmente natural, em se tratando do amadurecimento das pessoas, que tendem a ficar mais sensíveis. Uma cena exemplar é a da personagem de Sarandon, na cadeia, confidenciando ao jovem repórter que, se não tivesse filhos, ela faria tudo outra vez, sem dúvida. Mais uma vez o valor da família entra em foco. Isso, por um lado, dá um tom humanista ao filme, mas também torna débeis os frustrados movimentos esquerdistas daquela época.

Na trama, Susan Sarandon é uma mulher que participou do grupo Weather Underground e que, 30 anos depois, resolve se entregar à polícia. Durante um dos atos do grupo, um assalto a banco, uma pessoa foi morta por um tiro. A notícia da prisão da ex-companheira acaba abalando as estruturas da vida de um pacato advogado, vivido por Redford, que usa uma identidade falsa para se proteger e cuidar de sua agora pequena família. Já que a esposa morreu há um ano, ele agora cuida sozinho da pequena filha. LeBeouf é o jornalista ambicioso que procura um grande furo de investigação e acaba fazendo o que o próprio FBI não consegue: desmascarar o advogado.

O elenco de apoio é sensacional, formado por jovens e veteranos intérpretes, todos bem talentosos. Além dos já citados Redford, LeBeouf e Sarandon, há ainda participações nada gratuitas de Terrence Howard, Stanley Tucci, Nick Nolte, Chris Cooper, Richard Jenkins, Anna Kendrick, Brendan Gleeson, Brit Marling, Julie Christie e Sam Elliot.

O que pode incomodar um pouco à ala esquerdista é o fato de que, no fim das contas, as acusações e perseguições se desenrolam por causa de uma morte, e não pelos ideais do grupo, que hoje se revelam inofensivos dentro de um sistema capitalista estabelecido.

terça-feira, maio 28, 2013

BONITINHA, MAS ORDINÁRIA



Adaptar Nelson Rodrigues é quase certo sair um filme minimamente interessante. As várias produções, das décadas de 60 a 80, principalmente, tiveram êxito em sua maioria. E provocavam quase sempre uma espécie de catarse no espectador. No caso de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA (2013), infelizmente Moacyr Góes não conseguiu entrar no espírito do dramaturgo e as dificuldades em colocar finalmente o filme no circuito depois de cerca de quatro anos de sua finalização apontam que havia mesmo algo de errado.

Não bastou um ótimo ator como João Miguel, nem meninas lindas como Leandra Leal (que além de tudo já provou seu talento e entrega em outros filmes) e a pouco conhecida, mas nem por isso menos bela, Letícia Colin. Ela é Maria Cecília, a menina que supostamente foi estuprada por negões em uma favela durante um baile funk e cujo pai (Gracindo Júnior) procura dá-la como esposa para um operário de sua empresa. O operário é Edgard (João Miguel), apaixonado por Ritinha (Leandra Leal), a garota pobre do bairro, mas que acaba não resistindo à tentação de ficar rico, ao aceitar a proposta de casar com aquele Lolita, que além de tudo é linda.

O problema é que ele não sabe dos podres da família e da real personalidade de Maria Cecília e acaba se prejudicando. Mas o principal problema não é dos personagens, mas do filme e de sua recepção para o espectador. A tentativa de tornar a linguagem teatral de Nelson mais naturalista raramente é bem-sucedida. Funcionaria se o diretor e roteirista tivesse a intenção de modificar o texto de modo com que frases como a repetitiva "O mineiro só é solidário no câncer" fosse excluída. Mas seria complicado, já que é uma frase-chave do texto e que é repetida inúmeras vezes.

A comparação com a versão de Braz Chediak, BONITINHA MAS ORDINÁRIA OU OTTO LARA REZENDE (1981), estrelada por José Wilker, Vera Fisher e Lucélia Santos, que já ficou no imaginário popular, cheia de frases de efeito e diálogos muito bons, é quase uma covardia. Até porque a versão dos anos 80, principalmente por ser mais transgressiva e nunca negar o feio na constituição dos ambientes, nem nos palavrões ou nas cenas de sexo, tinha uma afinação maior com a obra rodriguiana. Além do senso de humor, claro.

No filme de Góes, até os palavrões perdem o impacto, como se passassem por um filtro que os limpasse para a nova tendência do cinema brasileiro. Até mesmo a cena do gang bang de Ana Cecília, que tinha potencial para render uma sequência pelo menos excitante e fetichista, é curta demais, como se os produtores tivessem medo de ir mais longe.

Além do mais, o anacronismo, que mistura o clima dos anos 50 com os anos 2000 nem sempre se ajusta. E a cena do Gracindo Júnior procurando mostrar o quanto é sujo e depravado ficou ruim, não por ser grotesca. O grotesco, aliás, seria bem-vindo nesse tipo de filme. Salvam-se as boas interpretações de João Miguel e Leandra Leal, mas que não são suficientes para tornar o novo BONITINHA, MAS ORDINÁRIA um filme minimamente ofensivo. Que é como deveria ser.

segunda-feira, maio 27, 2013

ELENA



A presença e a ausência. Ou a ausência da presença. São os elementos que não só integram o filme, como também são a justificativa para que a diretora Petra Costa resolva fazer um longa-metragem muito pessoal sobre a perda de sua irmã Elena, que cometeu suicídio na década de 1990. Assim, como uma forma de exorcizar o passado, a dor, a saudade, Petra resolve seguir os passos que Elena seguiu quando esteve em Nova York para tentar ser atriz de cinema. Mas há também algo que parece depor contra a cineasta, que é usar a morte da irmã para fins bem pessoais. Mas dizer isso é também complicado e talvez injusto, embora seja algo que possa passar pela cabeça de muitos. Mais ou menos o que se falou quando João Moreira Salles dirigiu SANTIAGO, sobre o antigo mordomo da família.

De todo modo, a arte está aí para ser não só apreciada, como também discutida. E essa discussão pode entrar entre as diversas questões que o filme promove. De qualquer maneira, a morte da irmã, bem como a sua dor, a sua depressão, também fazem parte da dor da própria Petra e da dor de sua mãe, presença forte no filme, já que é a pessoa que mais esteve presente e que mais tem lembranças de Elena, já que Petra ainda era criança.

O grande trunfo de ELENA (2012) está nas imagens de arquivo. As imagens de arquivo funcionam como poderoso meio de nos apresentar à própria Elena usando os recursos do cinema. Na literatura, não veríamos seu rosto, suas expressões. Tais imagens normalmente só interessariam aos familiares, mas que dentro do registro do filme ajudam a compor uma a narrativa de maneira gradual, guardando uma sequência mais forte para o momento da morte. Há documentários muito mais fortes nesse sentido (penso em DEAR ZACHARY – UM CASO CHOCANTE e em O HOMEM-URSO), mas o que vemos em ELENA, quando surgem os detalhes da morte do ponto de vista dos médicos legistas, é uma intenção mista: tanto de causar impacto (vindo da artista Petra Costa) quanto de prestar homenagem à irmã, com o maior dos silêncios (vindo da irmã de Elena).

ELENA é um filme corajoso. Com cheiro de morte, já que tanto a própria mãe pensou em se matar, quanto a pequena Petra. A dor da mãe e da irmã, no entanto, parecem atenuadas nas imagens atuais, quando elas falam ou apresentam imagens de Elena ou de Petra no passado. Uma sequência que chama a atenção é quando a mãe, ao falar sobre um prédio onde Elena supostamente esteve, atenta para a beleza de uma árvore. A câmera sobe para verificar as belas folhas da árvore. Como se a mãe, naquele momento, quisesse espantar a tristeza e atentar para a beleza da vida e do mundo material.

ELENA cresce à medida que pensamos nele. Alguns momentos não saem fácil da memória, como o desespero do amigo americano, o total silêncio do pai de Elena (que me deixou com um nó na garganta), a lua brincando, a própria Petra adulta interpretando Elena nas esquinas de Nova York, sentindo-se fria e abandonada. Além disso, há o registro oral de Petra endereçando-se a Elena e os registros de Elena, através de fitas cassete deixadas como um diário de sua viagem a Nova York, com palavras que no começo mostram-se cheias de esperança, para depois apresentá-la triste e sem rumo. É sem dúvida um filme em que há muito o que se pensar ou falar. Difícil de se esgotar. 

domingo, maio 26, 2013

LULU SANTOS NA GUARDERIA BRASIL – FORTALEZA, 25 DE MAIO DE 2013



Estava na sessão de VELOZES E FURIOSOS 6 quando recebo uma ligação. Era a minha irmã, perguntando se eu queria ir a um show do Lulu Santos. Falou que era de graça e que tinha uma moça que queria me conhecer. Eu, meio ranzinza como ando, falei logo que não. O barulho do filme, que eu nem estava curtindo, na verdade, fez com que eu nem pensasse duas vezes. Já tinha agendado os filmes que veria no sábado. Porém, ao sair da sessão dupla de dois filmes ruins, eu resolvi retornar a ligação. Até porque eu achei que poderia ter sido grosseiro com ela. Resultado: confirmei minha ida.

Meu pouco interesse pelo show se deve ao fato de supor que já não gostava mais de Lulu Santos como gostava nas décadas de 80 e 90. Até porque nem ele faz mais algo de sucesso depois desse período. Se faz, não constou do show, que só teve hits. E confesso que até o momento em que o cantor subiu no palco e cantou as primeiras canções eu ainda estava assim um tanto jururu. Estava na fila pra comprar bebida quando começa o show, com um belo pot-pourri de sucessos oitentistas que serve para mostrar a força daquele artista na memória afetiva de tantos brasileiros. Aquilo me entusiasmou, como eu não pensei que aconteceria.

Cheguei a tempo de não perder muita coisa e vibrei e cantei com sucessos dos anos 80 como "Apenas mais uma de amor", "Um certo alguém", "Toda forma de amor", "Como uma onda", entre outras, quanto com sucessos daquela fase bacana dos anos 90, quando ele fez um som mais próximo da discoteca, com aqueles baixos bem enfáticos e poderosos e um sintetizador bem melódico, em "Já é", "Aviso aos navegantes" e "Assim caminha a humanidade". Canções que apesar de serem bastante tocadas, ganham força redobrada ao vivo.

Aí ele falou que ia cantar uma da série de homenagens que ele anda fazendo a Roberto e Erasmo Carlos. Achei que ia rolar pelo menos umas três desse disco que ele falou que estava no iTunes, mas só rolou o rock’n’roll "Minha fama de mau", que ficou com um tempero bem rock de raiz. Lulu falou que ele não estaria ali se não fossem Erasmo e Roberto trazendo o rock do sul dos Estados Unidos para o Brasil e transformando aquilo em sucesso.

Muitas das canções ganharam roupagens novas e bonitas e o entrosamento entre ele e o restante da banda é de dar gosto. Gostei particularmente de uma belíssima mulata que às vezes canta, toca e principalmente dança no palco. Ela tem uma sensualidade impressionante. Chama-se Andréia Negreiros. Sentimentos e sensações se juntam com a lua, que estava ainda cheia, e depois com a chuva que veio banhar a todos. 

No mais, ouvir as canções, principalmente algumas delas que falam sobre o tempo que "escorre pelas mãos", sobre o aproveitar a vida, fazem com que a gente fique admirando aquele momento especial ali, bem como também podem surgir alguns flashes do passado, ligados ou não a essas canções. E assim ele se despede com a clássica "Tempos modernos", que finaliza com um trio de músicos (o baixista, o guitarrista e o saxofonista) fazendo um belo e um tanto melancólico fechamento para a canção. Foi um show curto, mas encerrar daquela maneira não poderia ser melhor.

sexta-feira, maio 24, 2013

VELOZES & FURIOSOS 6 (Furious 6)



É preciso relevar muita coisa para se gostar de um filme como VELOZES & FURIOSOS 6 (2013). Tudo bem que não se deve esperar nenhuma dramaturgia sofisticada da franquia, nem sequências de ação dignas de um cineasta classe A do gênero. Justin Lin, por mais que tenha melhorado, ainda não chegou a essa categoria. A sorte da franquia está na união da "família", que ganhou novo fôlego em VELOZES E FURIOSOS 4 (2009), ao reunir novamente Vin Diesel e Paul Walker, e que ganhou um novo aliado na figura de Dwayne Johnson em VELOZES E FURIOSOS 5 – OPERAÇÃO RIO (2011), até agora o melhor da cinessérie.

VELOZES & FURIOSOS 6 tem como destaque a volta de Lettie (Michelle Rodriguez), grande amor de Toretto (Vin Diesel), dada como morta no quarto filme. Agora ela está no time dos vilões, isto é, no grupo de mercenários que a turma de Toretto precisa pegar para recuperar não só Lettie, como também o perdão judicial, prometido pelo Agente Hobbs (Dwayne Johnson), caso eles capturem o perigoso Shaw (Luke Evans) e sua gangue. É, portanto, um filme de homens numa missão.

Uma coisa que se percebe neste sexto exemplar da franquia é o quanto o seu orçamento está mais robusto. Se o primeiro filme teve um orçamento de 38 milhões de dólares, este sexto custou 160 milhões. Quer dizer, a Universal está mesmo apostando as fichas na popularidade dos filmes. Tanto que o sétimo já está agendado para o próximo ano, com a presença de mais outro astro que deverá ser o grande vilão, Jason Stathan.

Outro chamariz de VELOZES & FURIOSOS 6 é a luta de Lettie com a personagem de Gina Carano, a bela e marrenta lutadora de MMA que ganhou fama no cinema em A TODA PROVA, de Steven Soderbergh. Aqui ela interpreta a parceira do Agente Dobbs. É um papel bem ruim, mas qual papel no filme é bom, afinal? O que querem dela mesmo é sua presença e suas habilidades com artes de luta.

Um dos problemas do novo filme é a duração excessiva (130 minutos), que chega a cansar com tantas perseguições mal editadas e um final falso. Quando a gente acha que vai acabar, surge outro problema para a turma de Toretto resolver. E, assim, inventam uma mirabolante cena de perseguição noturna envolvendo um avião, que mais funciona para alongar um filme que já era longo do que para torná-lo eletrizante.

Com o tanto de dinheiro gasto ali, dá pra imaginar o quanto uma cena dessas ficaria nas mãos de um cineasta mais hábil e talentoso. Não é porque tem grandalhões como Dwayne Johnson e Vin Diesel e um astro tão sem expressividade como Paul Walker que a série tem que ser entregue sempre a um diretor de segunda categoria. Mas não adianta reclamar. A franquia é assim mesmo e, se faz sucesso do jeito que está, os executivos não devem ter a intenção de mexer em time que está ganhando. Pelo menos do ponto de vista mercadológico.

quinta-feira, maio 23, 2013

GIOVANNI IMPROTTA



Às vezes a boa vontade e o otimismo quanto aos filmes que entram em cartaz faz com que encaremos uma obra como esta, que é ruim na mesma proporção que tem atores e atrizes talentosos no elenco. Aliás, não consigo lembrar de outro filme cujo elenco tenha sido tão mal aproveitado quanto neste GIOVANNI IMPROTTA (2013), estreia na direção de longas para cinema de José Wilker. É como se víssemos um grupo de grandes intérpretes da televisão e do cinema cometendo um crime. O que, metaforicamente e hiperbolicamente, não deixa de ser verdade.

O personagem Giovanni Improtta surgiu no livro de Aguinaldo Silva, O Homem Que Comprou o Rio, lançado nos anos 70. E o autor resolveu utilizá-lo na novela SENHORA DO DESTINO (2004-2005), que acabou fazendo bastante sucesso junto ao público. Uma das características do personagem é a sua tendência a procurar palavras mais difíceis e acabar dizendo-as erroneamente. Há também um mau uso dos pronomes pessoais, que serve para provocar risadas na plateia. Ou pelo menos deveria. Infelizmente o máximo que consegue são algumas risadas de muita boa vontade por parte de alguns espectadores.

No filme (e também no romance), o personagem é um bicheiro, um contraventor, como ele mesmo se proclama, orgulhoso por não ser um criminoso e não precisar fugir da polícia. Seria até um personagem que poderia render um bom filme, se tivesse um roteiro bom ou se Wilker tivesse timing para comédia. Mas talvez o principal problema seja mesmo o roteiro, assinado por Mariana Vielmond, filha de Wilker. E nisso vale destacar o quanto Andréa Beltrão se sai bem como a esposa de Improtta, trazendo uma personagem que se torna dissonante com o filme. Um caso de extremo profissionalismo da atriz, uma das melhores e mais subestimadas da televisão e do cinema brasileiros.

No mais, há grandes nomes veteranos do cinema (e da tevê) que têm um passado glorioso, mas que resolveram se submeter a esta roubada. Nomes como Hugo Carvana, Milton Gonçalves, Othon Bastos, Paulo Goulart, além de nomes novos como os de Gregório Duvivier e André Mattos e a participação do humorista e apresentador Jô Soares.

Wilker disse que não quis fazer uma comédia com uma "crítica social sisuda, carrancuda", mas com um tom mais leve. Acaba sendo tão insignificante e medíocre que só critica mesmo os evangélicos, já suficientemente escrachados em tantos programas e redes sociais. O pastor evangélico vivido por Thelmo Fernandes, inclusive, até por usar algumas palavras supostamente tiradas da Bíblia, teria um bom potencial para ser um personagem divertido.

Além do mais, o filme tem um ar antiquado (bicheiro deixou de ser holofote para a imprensa, não?), mas não chega a ser esse o problema, já que o próprio Hugo Carvana faz comédias antiquadas, mas ainda assim bem dignas. José Wilker, se quiser provar sua força como diretor numa outra oportunidade, precisa pensar melhor para não repetir os mesmos erros. E Cacá Diegues, o produtor, ao insistir que Wilker dirigisse, parece que queria fugir de mais um filme ruim em seu currículo.

quarta-feira, maio 22, 2013

ADEUS, MINHA RAINHA (Les Adieux à la Reine)



Histórias cujo final a gente já sabe muitas vezes trazem ainda mais suspense do que aquelas cujo final não sabemos. Por exemplo, ADEUS, MINHA RAINHA (2012), de Benoît Jacquot, conta uma história cujo final, pelo menos o final que a História com "H" maiúsculo conta, já é conhecida. Já sabemos que Maria Antonieta será degolada durante a Revolução Francesa. Mas o filme de Jacquot não procura focar no drama da personagem histórica, mas usá-la quase como um pano de fundo para a personagem principal, a jovem Agathe-Sidonie Laborde (Léa Seydoux), uma das leitoras oficiais e mais queridas da rainha.

O que não quer dizer que a proposta de Jacquot seja de um desligamento com a História, como foi mais ou menos o caso de MARIA ANTONIETA, de Sofia Coppola, que misturava a já tradicional melancolia da diretora com um aspecto mais irreverente, ao colocar uma trilha sonora rock e uma ligação da personagem histórica com as personas encontradas em suas obras. Na verdade, há sim a intenção de nos colocar naquele momento histórico, inclusive, com a utilização das datas que servem para mostrar o quão próximo está o fatídico dia.

A Maria Antonieta de Jacquot é vivida pela atriz alemã Diane Kruger, hoje mais conhecida pelos filmes hollywoodianos. Ela é uma rainha triste, principalmente pelo amor que sente por Gabrielle de Polignac (Virginie Ledoyen), amor que ela confessa para sua leitora favorita, que também nutre um sentimento que vai além do mero respeito pela Rainha. O rei Luis XVI, no caso, mal aparece.

No entanto, embora não possamos ver nenhuma movimentação de Bastilha ou de Paris, o que ocorre no Castelo de Versalhes já é suficiente para construir uma atmosfera de inquietação bem forte. Uma inquietação que se transforma em suspense em seus momentos finais, com o anúncio da lista das cabeças que serão decepadas pelos revolucionários.

Mas, embora esse suspense seja um ponto forte do filme, há também outros aspectos que o elevam a uma das melhores produções francesas dos últimos anos, como a bela reconstituição de época, com figurinos e direção de arte muito bem trabalhados, e, principalmente, o modo delicado como Jacquot aponta os sentimentos da personagem de Léa Seydoux. O uso de close-ups para mostrar os sentimentos de contentamento, preocupação, raiva ou tristeza da personagem parece querer dizer o quanto uma câmera nasceu para uma bela e talentosa atriz e vice-versa.

terça-feira, maio 21, 2013

BATES MOTEL – PRIMEIRA TEMPORADA (Bates Motel – Season 1)



Quem é fã de PSICOSE (1960), de Alfred Hitchcock, deve ficar no mínimo curioso para saber o resultado desta série que apresenta o personagem Norman Bates, um dos assassinos mais famosos do cinema, na juventude, ainda com a mãe viva e procurando recomeçar a vida administrando um motel de beira de estrada em uma cidadezinha do interior. BATES MOTEL (2013), em sua primeira temporada, que encerrou nos Estados Unidos na segunda-feira passada no canal A&E, se mostrou uma das melhores surpresas da temporada. E já está entre as minhas séries favoritas da atualidade.

Ainda que seu criador seja Anthony Cipriano, quem faz a diferença na parte criativa é mesmo Carlton Cuse, presente entre 10 dos 10 episódios da temporada, como roteirista. O homem de LOST (2004-2010) novamente nos presenteia com roteiros espertos que nunca deixam a peteca cair. Seja através do suspense, seja no desenvolvimento dramático dos personagens, seja no modo como a série liga os pontos com o clássico de Hitchcock através de pequenos detalhes, tudo parece adequado e feito com esmero.

Vera Farmiga está excelente como a sra. Norma Bates, mãe super-protetora de Norman, um rapaz franzino e frágil que sofre com alguns problemas mentais, que só vão se revelando aos poucos, ao longo da série. Freddie Highmoore ficou ótimo no papel de Norman, com uma docilidade perfeita. Logo no primeiro capítulo, os roteiristas não negam bala e Norma é atacada e estuprada pelo antigo dono do motel. Que acaba sendo morto com a chegada de Norman, embora a decisão de matar e esconder o corpo tenha sido da mãe.

Assim, a série começa fazendo do espectador cúmplice compreensivo da morte do velho que atacou Norma. E ficamos tão estressados quanto eles no que se refere a esconder o cadáver e esperar para quando a polícia bater em sua porta para saber o que houve. Acontece que a série não fica só nisso. Há personagens interessantes que surgem para enriquecê-la, como Emma (Olivia Cooke), a adorável garota que tem problemas no pulmão e anda sempre com um tubo de oxigênio à tiracolo; há o irmão de Norman, Dylan (Max Thierot), rapaz simpático, mas que não se dá bem com a mãe; há a garota mais bonita da escola, Bradley (Nicola Peltz), por quem Norman fica apaixonado. Entre outros personagens interessantes, como o xerife da cidade.

BATES MOTEL é dessas séries cujos episódios acabam e a gente fica triste, querendo ver mais. Uma pena que são apenas 10 episódios. Mas a segunda temporada já está garantida para 2014. É esperar que a série saiba acabar no momento certo, já que não se pode enrolar muito um prequel sem que o público perceba, a não ser que os roteiristas sejam muito habilidosos.

P.S.: Foi produzido um telefilme chamado BATES MOTEL em 1987, mas não cheguei a ver. Pelo que falam, trata-se de um filme bem ruim, mas confesso que estou curioso para conferi-lo e ver quais as semelhanças com a série.

segunda-feira, maio 20, 2013

TERAPIA DE RISCO (Side Effects)



Enquanto muita gente torce para a tantas vezes anunciada aposentadoria de Steven Soderbergh, fico na torcida para que sua carreira como cineasta se estenda por mais alguns anos. Com um filme exibido em Cannes este ano (BEHIND THE CANDELABRA, 2013) e com TERAPIA DE RISCO (2013) em cartaz nos cinemas brasileiros e de vários outros países, o diretor continua a exercitar a sua liberdade criativa, que é muitas vezes auxiliada por grandes nomes de Hollywood.

No caso de TERAPIA DE RISCO, temos Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones e Channing Tatum encabeçando um suspense dramático sobre a indústria farmacêutica e o triste momento atual, em que transtornos de ansiedade e depressão se tornaram rotina, assim como o consumo de antidepressivos e ansiolíticos. A personagem do filme que, supostamente, sofre com esse problema é Emily (Mara), que começa a demonstrar fortes sintomas de depressão depois que o marido (Tatum) sai da prisão e procura retornar à rotina do lar e do trabalho.

Para procurar resolver o problema, a esposa procura a ajuda de um psiquiatra (Law), que, por sugestão da antiga psicanalista de Emily (Zeta-Jones), passa a tratá-la com um novo medicamento que ainda está em fase de testes. O medicamento aparentemente é o ideal para Emily, que sempre se sentia mal com os outros remédios prescritos. Ela passa a se sentir feliz novamente e a libido volta mais forte, para alegria do marido. Acontece que um efeito colateral é mostrado: o sonambulismo. O que acaba por desencadear um sério acidente.

TERAPIA DE RISCO se revela, então, mais um filme de mistério e investigação do que um drama ou uma tragédia, ao longo de sua segunda metade, que traz algumas revelações acerca de alguns personagens. E essas revelações acabam sendo o seu calcanhar de Aquiles, uma vez que se espera um filme mais sério sobre o assunto. Além do mais, a nomeação de alguns medicamentos de maneira talvez preconceituosa pode causar algum desconforto naqueles que os usam.

Ao contrário do que parecia, TERAPIA DE RISCO não é um filme-irmão de BUBBLE (2005), este sim o trabalho mais depressivo da carreira de Soderbergh. Talvez encontre ecos no segmento "Equilibrium", do coletivo EROS (2004), mas apenas pela presença de psicanalistas. Em termos narrativos, porém, nada tem a ver com esses dois trabalhos. O roteirista, Scott Z. Burns, é o mesmo de outros dois trabalhos de Soderbergh: O DESINFORMANTE! (2009) e CONTÁGIO (2011), dois filmes que encontram mais detratores do que admiradores. Aparentemente, este é também o caso de TERAPIA DE RISCO, apesar de sua narrativa que não deixa de prender a atenção até o fim e que mostra mais uma vez a versatilidade de Soderbergh em trilhar vários gêneros e tons.

domingo, maio 19, 2013

BIG BANG: A TEORIA – A SEXTA TEMPORADA COMPLETA (The Big Bang Theory – The Complete Sixth Season)



Talvez a mais fraca das temporadas de BIG BANG: A TEORIA, esta sexta temporada (2012-2013) pode ser um sinal amarelo indicando que está na hora de os produtores e roteiristas pensarem num possível fim para a série, antes que a decadência criativa só aumente nas temporadas seguintes. Porém, com a popularidade que BIG BANG ganhou, isso parece pouco provável de acontecer tão cedo.

A sexta temporada começa justamente quando termina a quinta, que foi marcada pela ida ao espaço de Howard, numa season finale bem emocionante. Depois de alguns episódios com o personagem no espaço e louco para voltar para sua casa, e outros em que ele só falava de sua viagem espacial, as coisas voltam ao normal, exceto pela falta da mãe de Howard, que deixa de "aparecer", já que seu filho muda para outra casa com a esposa Bernadette.

No mais, não foi uma temporada nada marcante. Procurou-se voltar um pouco os aspectos mais nerds dos personagens, que estavam sendo perdidos por causa dos destaques nos relacionamentos, mas mesmo assim boa parte dos episódios é fraca. O mais fraco de todos é aquele em que o grupo se junta para jogar Dungeons & Dragons. Quem é aficionado ou teve experiência com esse tipo de jogo pode até gostar, mas quem nunca jogou deve achar uma grande bobagem.

Em compensação, a sexta temporada garantiu um dos melhores episódios de toda a série: aquele em que os quatro amigos, Leonard, Sheldon, Raj e Howard, resolvem ir para uma convenção de fãs de STAR TREK, fantasiados a caráter. Só a fantasia deles já é hilariante, mas o episódio em si tem situações bem divertidas. É o caso de episódio para se separar e rever junto com uma possível coletânea de melhores da série.

Meu top 5 da temporada:

1. "The Bakersfield Expedition". A hilariante ida dos quatro amigos fantasiados de personagens de JORNADA NAS ESTRELAS - A NOVA GERAÇÃO e o que acontece quando tudo dá errado.

2. "The 43 Peculiarity". O grande barato deste episódio é a sala secreta onde Sheldon vai todo dia fazer alguma coisa. Howard e Raj procuram descobrir o que é.

3. "The Extract Obliteration". Penny entra secretamente numa faculdade sem que Leonard saiba. Enquanto isso, Sheldon participa de um game online com o grande físico Stephen Hawking.

4. "The Spoiler Alert Segmentation". Aquele em que Sheldon briga com Leonard e quer se mudar para o apartamento de Penny. Enquanto isso, Raj tem experiências não muito boas em sua temporada na casa da mãe de Howard.

5. "The Tangible Affection Proof". Raj faz uma festa com Stuart, o dono da comic store, para aqueles que não tem namorada, no Valentine's day. É lá que ele acaba conhecendo uma garota, digamos, especial.

sábado, maio 18, 2013

O ABISMO PRATEADO



Desde seu primeiro curta-metragem, SEAMS (1993), que critica o modo de ser machista na sociedade cearense a partir do olhar de mulheres de sua família, que Karim Aïnouz parece disposto a questionar as atitudes masculinas. O homem, em sua obra, em geral é visto como um sujeito covarde, que abandona a mulher sem dó nem piedade. Ou talvez até tenha algum sentimento, mas não quer se dispor a enfrentá-lo. Assim acontece em O CÉU DE SUELY (2006) e assim também acontece no recente O ABISMO PRATEADO (2011). Pode-se ver outro exemplo de um comportamento cafajeste masculino, ainda que de maneira menos centrada, em uma série de televisão idealizada pelo diretor e por Marcelo Gomes, ALICE (2008), estrelada por Andréia Horta.

Porém, se em O CÉU DE SUELY, Aïnouz estava em seu auge criativo, nota-se em O ABISMO PRATEADO que ele se esforça, usando as ferramentas do cinema, em transpor para as telas a dor do abandono, mas sem conseguir traduzi-la. Resulta frustrado, apesar de vermos ali que não se trata de um diretor inexperiente no comando, pelos belos enquadramentos, pelos movimentos da câmera, quase sempre muito perto da personagem de Alessandra Negrini. Uma pena que isso não seja o bastante para emocionar.

Vemos com certo distanciamento a trajetória de Violeta, a personagem de Negrini. Para certos tipos de cinema, um distanciamento é interessante, bem-vindo até, de modo a melhor provocar reflexão no espectador, ou transmitir a frieza do mundo. Não é bem o caso de O ABISMO PRATEADO, que seria uma espécie de filme em primeira pessoa. Como se trata de uma obra intimista, o desafio está em passar para o espectador a angústia e a dor da personagem que é abandonada pelo marido, que deixa apenas uma mensagem no celular e vai embora.

É uma pena, então, vermos um diretor de prestígio, dentro da nova geração de cineastas brasileiros, em um momento pouco inspirado. Talvez isso tenha ocorrido por não ter sido uma ideia que partiu inicialmente do cineasta, mas que lhe foi proposta a partir de um projeto do produtor Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos de dez canções de Chico Buarque para transmutá-las em filme, série de televisão e livros.

A série de televisão, AMOR EM 4 ATOS (2011), já foi exibida pela Rede Globo e foi bem sucedida em seu formato de quatro episódios, tendo se inspirado em cinco canções do compositor carioca. Karim Aïnouz ficou com "Olhos nos olhos", mais conhecida na voz de Maria Bethânia, mas que no filme é ouvida na versão de Bárbara Eugenia. É quase uma canção de fossa, que procura mostrar a vitória de uma mulher depois de ter sido abandonada, mas que nunca esconde a mágoa nem a dor.

Apesar de uma possível decepção, O ABISMO PRATEADO vale ser visto, principalmente por quem é apreciador da obra de Aïnouz, da beleza fenomenal de Alessandra Negrini, e por quem procura um cinema mais particular e menos massificado.

sexta-feira, maio 17, 2013

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D – A LENDA CONTINUA (Texas Chainsaw 3D)



Eis um filme para se assistir esperando puramente diversão. Isso para quem é familiarizado com produções cheias de sangue e violência e conseguir abstrair e curtir esses excessos. Pois até que há bastante em O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D – A LENDA CONTINUA (2013), que tem a pretensão de ser a autêntica continuação do primeiro filme de 1974, o hoje clássico de Tobe Hopper, ignorando as outras continuações que foram feitas e o remake até que bem decente de Marcus Nispel.

É também um filme para aqueles que não se importam muito com detalhes de roteiro (como a lógica temporal) ou clichês manjados. Afinal, passam décadas e décadas e um sujeito com uma motosserra na mão correndo atrás da heroína ou de quaisquer personagens continua sendo motivo de horror. Ou um sentimento ou sensação próximo a isso. E o fato de o filme mostrar cenas de violência explícita do Leatherface em vítimas ainda vivas contribui bastante.

O novo filme possui algumas novidades. E não me refiro ao 3D, que é um tanto vagabundo, mas ao fato de se poder dividi-lo em pelo menos duas partes distintas. A primeira parte envolve a heroína Heather Miller (Alexandra Daddario) e seus amigos dispostos a ir com ela a uma cidadezinha do Texas para conhecer a casa que ela herdou de uma avó que ela nem conhecia. (Aliás, as origens dela a gente já conhece no prólogo, que acontece logo após o momento em que a protagonista consegue fugir do assassino na caminhonete, no filme original.)

A segunda parte, melhor que a primeira, apesar do final um tanto controverso, envolve os policiais. Provavelmente a melhor cena do filme seja uma em que um policial segue o rastro de sangue que leva ao covil de Leatherface e tudo isso é visualizado por um celular de última geração, que transmite para o gabinete do xerife em tempo real. Uma cena normalmente vista em filmes de espionagem, que entra como um corpo estranho, mas ainda assim bem-vinda, num filme de horror rural.

No mais, a duração passa voando e tem momentos que realmente impactam ou surpreendem, como a cena da picape, ou a do freezer. Quanto ao final, por mais ridículo que possa parecer, não deixa de ser uma escolha diferente para a franquia. O diretor John Lueessenhop é pouco conhecido, mas já tinha dois longas-metragens no currículo. Ambos filmes B de pouca repercussão.

quinta-feira, maio 16, 2013

BLACK MIRROR – PRIMEIRA TEMPORADA (Black Mirror – Series 1)



Conheci esta série graças à dica do amigo Leopoldo Tauffenbach. Como é curtinha (apenas três episódios por temporada), resolvi encarar, mesmo com o tempo não sendo tão amigo. Mas é impressionante o quanto os três episódios da primeira temporada de BLACK MIRROR (2011) conseguem ser ao mesmo tempo densos e convidativos, ainda que sejam também, de certa forma, depressivos. Principalmente o segundo e o terceiro.

Esta série é composta de episódios contendo histórias totalmente independentes, como pequenos filmes de cerca de uma hora de duração. O primeiro episódio, "The National Anthem", já começa elétrico e instigante: o Primeiro Ministro da Inglaterra é chamado para uma reunião de urgência: a princesa mais querida do país foi sequestrada e os sequestradores não querem dinheiro. O que eles querem é que o Primeiro Ministro faça sexo com um porco em rede nacional naquele mesmo dia, às quatro horas da tarde. Já dá para imaginar a tensão e até um pouco de humor negro que este episódio proporciona.

O segundo episódio, "Fifteen Million Merits", mais esticadinho e chegando a uma hora de duração, se passa num futuro distópico. O mundo, ou aquele pedaço de mundo, é artificial, e aqueles que lá estão têm uma vida que se resume a pedalar em bicicletas ergométricas para ganhar pontos para poderem gastar com comida, jogos, pornografia, programas de televisão ou participando de um reality show, nos moldes de ÍDOLOS. É nesse cenário triste e de cores berrantes e perturbadoras que um rapaz negro se apaixona por uma moça branca e deseja lhe dar um presente.

Mas o mais interessante dos três episódios é mesmo "The Entire History of You", um exemplo de como os roteiristas britânicos conseguem fazer uma excelente história de ficção científica, enquanto os americanos ficam tentando chupar as ideias dos outros. A trama se passa num futuro em que as pessoas têm um chip instalado que as permitem rever cenas que seus olhos viram no passado, com ajuda de um pequeno dispositivo. O episódio foca mais especificamente no ciúme que um sujeito tem de sua esposa e na possibilidade de verificar se ela está de fato o traindo. Perturbador e fascinante.

Agora é partir para a segunda temporada, que foi exibida em fevereiro deste ano na Inglaterra e já está na rede. É dessas séries que pouca gente ouviu falar, mas que é essencial para quem procura entretenimento de qualidade. Os episódios de BLACK MIRROR lidam com o efeito da tecnologia no ser humano.

quarta-feira, maio 15, 2013

RENOIR



Assistir RENOIR (2012), filme de estreia de Gilles Bourdos, é aproveitar a oportunidade para saber um pouco mais sobre dois grandes artistas do século XX, o pintor Pierre-Auguste Renoir, nos momentos finais de sua vida, e o cineasta Jean Renoir, seu filho, ainda jovem e sem saber o que fazer da vida, logo depois de ter voltado ferido da Primeira Guerra Mundial. O filme começa sua narrativa no ano de 1915, quando a França sofria bastante com a guerra. O velho pintor Auguste Renoir, logo no começo do filme, solta uma frase mais ou menos assim: deveriam mandar os velhos para a guerra e poupar os jovens. Por mais cruel que seja, tem uma certa lógica o que ele diz.

Não importando a artrose violenta que aflige o seu corpo, a valorização que o velho Renoir dá à juventude também se reflete no prazer que ele sente em ver e pintar quadros dos corpos nus de moças bonitas como Andrée Heuschling, vivida por Christa Theret, que também pode ser vista em papel de destaque em O HOMEM QUE RI, outro filme exibido no Festival Varilux de Cinema Francês. Christa, aliás, nem tem o rosto tão bonito assim, mas seu corpo é deslumbrante. Representa o viço da juventude em flor.

E quando se pensa em pintores e mulheres nuas, difícil não lembrar de A BELA INTRIGANTE, de Jacques Rivette. Mas é melhor não ir com muita sede ao pote, pois o trabalho de Bourdos passa muito longe da obra-prima de Rivette. Além do mais, não é um filme que se centra tanto na produção do pintor, mas usa uma narrativa bem tradicional e uns diálogos um tanto fracos para compor a história dos dois célebres Renoirs.

E, nesse sentido, pode-se dizer que ele cumpre a sua tarefa. Para quem é interessado na vida desses dois artistas, é bom conhecer o filme. E depois ver que Andrée é importante demais para a vida de Jean Renoir também. Aliás, o filme cresce em interesse quando Jean retorna para sua casa. Há também cenas bonitas das paisagens campestres, que até são bastante comuns em produções francesas e um elemento que de certa forma faz bem ao nosso espírito. Assim, eu diria que quem não esperar muito de RENOIR como obra de arte até pode curtir o filme.

terça-feira, maio 14, 2013

O PECADO MORA AO LADO (The Seven Year Itch)



Nunca fui muito fã de Billy Wilder. Mas também vi poucos filmes de sua filmografia de 27 títulos. Mesmo com tantos anos de cinefilia nunca tinha visto O PECADO MORA AO LADO (1955), estrelado por Marilyn Monroe. Só ela, aliás, já seria motivo mais do que suficiente para eu já tê-lo visto. Sem falar que a cena em que ela passa pelo duto de ventilação do metrô e sua saia sobe é um dos momentos mais célebres da história do cinema.

O problema do filme, pra mim, foi que desde o início eu não gostei do protagonista, vivido por Tom Ewell. Provavelmente também pelo fato de o enredo ser construído a partir dos pensamentos neuróticos do personagem, que entra em parafuso quando a mulher e o filho pequeno viaja, e ele fica sozinho no apartamento, tentado a dar em cima de uma loira de arrasar quarteirões recém-surgida no bloco. Sem falar que ela é sempre uma simpatia.

E é realmente impressionante o quanto o filme melhora quando Marilyn aparece. Ela tinha mesmo um encanto, uma espécie de feitiço. E não importa se ela exagerava na sensualidade; o que importa é que funcionava (e muito). Além do mais, o filme deve ter deixado muita gente louca na época, por causa de algumas cenas sutilmente eróticas, como aquela em que ela está na parte de cima do prédio, nua, mas coberta pelos vasos de plantas, conversando com o protagonista.

Billy Wilder não consegue esconder a origem teatral do filme (talvez não quisesse mesmo). Aliás, acredito que se eu soubesse que o filme seria assim tão teatral eu teria me preparado melhor para vê-lo e talvez gostasse mais. Por conta disso, O PECADO MORA AO LADO utiliza poucos close-ups para uma comédia. Há muitas cenas do apartamento inteiro, como se estivéssemos vendo num palco mesmo.

É um filme que foi pensado para ser visto no cinema, aproveitando a novidade da tela larga, que surgia para tirar um pouco o povo de casa, por causa da concorrência com a televisão. Aliás, a proporção do filme é de 2,55: 1, quer dizer, ainda mais larga do que o scope tradicional. Por isso é um tanto prejudicado, se visto numa televisão pequena.

segunda-feira, maio 13, 2013

LES REVENANTS – PRIMEIRA TEMPORADA (Les Revenants – Saison 1)



Foi a primeira série francesa que vi. A gente fica tão acostumado com as séries americanas que mal sabe o quanto existe de produções televisivas de qualidade espalhadas pelo globo. No começo, achei que LES REVENANTS (2012) era mais uma série de zumbis. E uma vez que vemos o primeiro episódio (de um total de oito) é que percebemos que estamos diante de uma série diferente e instigante. Os mortos voltam sim, mas eles se mostram tão confusos e assustados quanto os vivos que os veem.

O primeiro morto a aparecer na série é Camille, uma adolescente de 15 anos que morreu há quatro anos num acidente em um ônibus escolar. Tal acidente deixou muitos da pequena cidade arrasados e traumatizados. Muitas pessoas que perderam seus filhos precisavam fazer terapia em grupo para se recuperar da perda dos entes queridos naquele acidente. E de repente surge uma delas, sem entender direito o que está acontecendo, sem saber sua condição de morta, e assustando inicialmente os seus familiares. E ela é só a primeira de vários que virão.

Mas a série se concentra apenas em alguns deles. Lembrando LOST, que costumava centrar um episódio em determinado episódio, LES REVENANTS dá o nome do personagem ao episódio que terá sua história descortinada, e alguns de seus segredos revelados. Porém, não há uma concentração excessiva em determinado personagem. As demais tramas seguem normalmente.

Assim, temos episódios dedicados, além de Camille, a Simon, que vem em busca de sua noiva; a Julie, a garota que foi atacada por um serial killer no passado; a Victor, o menino enigmático que se apega a Julie; a Serge e a Toni, os irmãos separados pela morte; a Lucy, a bela e também enigmática jovem que é capaz de ler o passado das pessoas; e a Adèle, a mulher cujo noivo morreu no dia de seu casamento.

O curioso é que os mortos se tornam cada vez mais inconvenientes, cada vez mais um estorvo para seus familiares e para aquela sociedade. E inclusive para o espectador. Tanto é que, com o modo como fecharam de maneira tão boa a temporada, fico imaginando de que maneira farão uma segunda. Se é que farão mesmo uma nova temporada.

LES REVENANTS é baseada no longa-metragem homônimo de 2004 e conta com alguns rostos conhecidos do cinema francês. Talvez a mais conhecida seja Clotilde Hesme, de AMANTES CONSTANTES, CANÇÕES DE AMOR e MISTÉRIOS DE LISBOA. Mas há também Anne Cosigny, de UM CONTO DE NATAL; Frédéric Pierrot, que pode ser visto em A DATILÓGRAFA; Céline Sallette, que pode ser vista em FERRUGEM E OSSO; entre outros, que podem ser mais conhecidos daqueles que veem mais cinema francês do que eu.

domingo, maio 12, 2013

O ÚLTIMO EXORCISMO – PARTE 2 (The Last Exorcism – Part II)



Diferente de O ÚLTIMO EXORCISMO (2010), que utilizava o recurso do mockumentary e da câmera na mão, O ÚLTIMO EXORCISMO – PARTE 2 (2013) segue um registro mais tradicional, dessa vez trazendo a personagem da moça possuída pelo demônio do primeiro filme, e que sobreviveu ao terrível ritual satânico, como protagonista. Ela tenta reconstruir sua vida em outra cidade.

O filme, agora dirigido pelo canadense Ed Gass-Donnelly, até começa bem, com um momento realmente assustador envolvendo um casal. O medo envolve a sala e trata-se de um belo prólogo que antecipa os créditos iniciais. Uma pena que esse momento tão cheio de suspense e terror seja a única coisa verdadeiramente boa do filme, já que o restante mostra apenas a jovem e tímida Nell (Ashley Bell) tentando se adaptar à nova vida e à companhia das colegas de pensão, enquanto é perseguida pelo demônio até em aparelhos eletrônicos. Quanto à sua difícil adaptação, o problema é que todo mundo sabe o que ocorreu com ela e existe até vídeos na internet das gravações feitas no primeiro filme.

Se bem que esse é o menor dos problemas para Nell, já que o que pega mesmo é o fato de o demônio continuar em seu encalço. O filme até tenta trazer algo de novo, ao mostrar o carnaval de Louisiana e pessoas de máscaras olhando para ela, numa tentativa de estabelecer um clima de mistério e terror que anteciparia o que o título do filme apresenta: mais um exorcismo.

E dessa vez não é com um pastor cético, como no primeiro filme, mas com uma feiticeira pagã, uma mulher que percebe a presença do demônio e se oferece para ajudá-la. Isso não deixa de ser um diferencial dentro da história dos filmes de exorcismo, embora POSSESSÃO, de Ole Bornedal, lançado no ano passado, também tenha trazido um exorcista diferente do usual: um rabino.

Pena que esse detalhe não seja o bastante para tornar o filme interessante o suficiente. Além do mais, a protagonista, por mais que convença no papel de uma moça tímida do interior, só ajuda a contribuir para uma história cheia de clichês e de sustos baratos (por que insistem em colocar pássaros que se atiram nas janelas?). Com a exceção do prólogo, pouco ou nada chega a assustar ou causar medo no espectador.

Uma coisa que merece destaque é o cartaz do filme, um dos mais horríveis já feitos nos últimos anos. Parece saído de uma dessas comédias ruins de paródias de filmes. Ainda assim, O ÚLTIMO EXORCISMO – PARTE 2 consegue ser superior ao original, o que não é um mérito tão grande assim.

sábado, maio 11, 2013

O ÚLTIMO EXORCISMO (The Last Exorcism)



Com a estreia da continuação nessa última sexta-feira, resolvi encarar o primeiro O ÚLTIMO EXORCISMO (2010), que por algum motivo sábio da minha parte eu não cheguei a ver no cinema na época. Resolvi baixar para ver em casa antes de conferir a segunda parte. Trata-se de um filme que bebe na fonte já desgastada dos mockumentaries, ao mostrar um pastor cínico e sem fé que aceita fazer parte de um documentário sobre si mesmo e sobre sua fama de bom exorcista.

O diferencial é que estamos diante de um pastor e não de um padre, como é mais comum de se encontrar nos filmes sobre exorcismos. E, curiosamente, parece que não é só no Brasil que os líderes protestantes têm fama de serem vistos como enganadores. Lembrei de uma comédia estrelada por Steve Martin, chamada FÉ DEMAIS NÃO CHEIRA BEM, que mostrava um pastor enganador, que no final se rende à fé.

É mais ou menos o caso do pastor de O ÚLTIMO EXORCISMO, mas com a diferença que trata-se aqui de um filme bem fraco. Não chega a ser chato, não, mas também não assusta e só oferece soluções bem manjadas. Na trama, o pastor (Patrick Fabian) vai até uma pequena cidadezinha da Louisiana que se caracteriza por ser muito rica em diversidade religiosa. Há católicos, pentecostais e adeptos do vodu convivendo no mesmo lugar. Nessa cidadezinha, há uma garota  (Ashley Bell) que está supostamente possuída por um demônio e é tarefa do pastor, não sem cobrar uma boa quantia em dinheiro, tirá-lo do corpo da garota.

O ÚLTIMO EXORCISMO é claramente um filme barato. Não possui atores conhecidos, os efeitos especiais e de maquiagem poderiam ser feitos por qualquer pessoa e é de curta duração. Se há um mérito no filme de Daniel Stamm é que é possível vê-lo sem interrupção, ele entretém o espectador até o final, que lembra A BRUXA DE BLAIR. Uma pena que Eli Roth esteja se queimando mais e mais, produzindo coisas desse tipo. Esperamos um bom retorno dele à direção com THE GREEN INFERNO.

sexta-feira, maio 10, 2013

UMA LADRA SEM LIMITES (Identity Thief)



Comédia que não faz rir quando a intenção é fazer rir é uma das coisas mais tristes que podemos presenciar. E no caso de UMA LADRA SEM LIMITES (2013), de Seth Gordon, muito da culpa de o resultado não ter dado certo é de Melissa McCarthy. Ou de sua personagem, se culparmos o roteiro, que não é mesmo dos mais inteligentes. E uma vez que não se gosta ou não se vê graça na personagem que avacalha com a vida do contador vivido por Jason Bateman fica difícil se comover quando o filme tenta usar de sentimentalismo barato. Com direito a pianinho de fundo e tudo.

Na história, Bateman é o sujeito que tem sua identidade roubada por uma mulher que confecciona cartões de crédito falsos para sair gastando adoidado. Enquanto isso, o nome do rapaz, que por acaso é "unissex", Sandy, fica sujo na praça. Até porque a doida, que mora em outro estado, apronta confusões que também fazem com que ela ganhe uma ficha na polícia. Assim, como a polícia do estado de Sandy não pode fazer nada por não ser de sua jurisdição, ele sai na missão de voltar com a criminosa dos cartões, para poder reaver também o seu emprego.

Achá-la é muito fácil. Difícil é passar pelo que ele passa quando eles precisam ir de carro, já que não podem ir de avião, por terem o mesmo nome na identidade. Aliás, uma desculpa muito da esfarrapada, já que ela podia ter a identidade que quisesse. Assim, o filme vira um road movie do tipo ANTES SÓ DO QUE MAL ACOMPANHADO, com a diferença que nenhum dos astros consegue tornar o filme minimamente divertido. Além dos mais, as tentativas de humanizar a personagem de McCarthy só tornam tudo ainda mais constrangedor.

É importante lembrar que a participação de Melissa McCarthy no bem-sucedido MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO não foi exatamente a melhor coisa do filme. Ela acabou se destacando por causa das demais e pelo roteiro esperto de Kristen Wiig e Annie Mumolo. Em UMA LADRA SEM LIMITES, vejam só quem é o roteirista: Craig Mazin, que contém no currículo filmes como SEM SENTIDO, TODO MUNDO EM PÂNICO 3 e 4 e os dois últimos SE BEBER, NÃO CASE!. Quer dizer, é um roteirista de comédias bem pouco inteligentes.

Só não digo que a melhor coisa de UMA LADRA SEM LIMITES é quando as luzes do cinema se acedem e a gente pode ir embora porque a sensação de ter visto o filme ainda fica incomodando durante um bom tempo. Sinceramente, não sei o que o público americano viu nessa produção para torná-la um sucesso de bilheteria. E o pior é que, no Brasil, na falta de outras estreias de peso nesta sexta-feira, é bem possível que ele fique bem posicionado no ranking. Lamentável.

quinta-feira, maio 09, 2013

RED WIDOW



Radha Mitchell foi a razão de eu querer ver RED WIDOW (2013), versão americana da série holandesa PENOZA (2010-2012), que durou duas temporadas. Mesma sorte não terá a versão americana, que já nos primeiros episódios foi cancelada pelos executivos do canal ABC por causa da baixa audiência. A decisão do canal de passar o piloto (dirigido por Mark Pellington) seguido logo do segundo episódio até foi boa, pois passa a impressão de estarmos vendo um bom telefilme.

Apesar de ser uma série um tanto desleixada no roteiro, seus episódios prendem a atenção e o fato de a temporada só durar oito episódios é também um incentivo para que a vejamos até o último, que termina com um gancho lamentável. Tanto por ser ruim, quanto porque já se sabe que não haverá continuação para a série. De todo modo, é um final que carrega algum significado ou simbolismo, por mais bobo que seja.

Em RED WIDOW, Radha Mitchell é Martha Walraven, pertencente a uma família de mafiosos russos mas que deseja ter uma vida normal com o marido Evan (Anson Mount), que, apesar de não ser tão ligado à família da esposa, trafica maconha. Durante uma festa, ele decide fugir com a mulher daquele lugar e recomeçar a vida de maneira diferente. Mas acontece que o irmão de Martha, junto com um parceiro de negócios de Evan, conseguem uma grande quantidade de cocaína para revender. Evan não gosta nada daquilo e acaba morrendo assassinado, diante do filho pequeno.

Sobra para Martha, a viúva que não tem tempo de chorar a morte do marido, a tarefa de negociar com o principal suspeito do assassinato, Schiller (Goran Visnkic), o dono da coca. Resultado: Martha passa a ter uma espécie de relação de amor e ódio com Schiller, que não é exatamente um vilão que passa raiva ao espectador. Ao contrário: ele é até bastante carismático.

No início, fica a impressão de que cada episódio só mostrará as várias tarefas de Martha para Schiller, mas felizmente a série progride e traz episódios diferentes. Alguns personagens evoluem, outros passam a cometer atos idiotas, muito por culpa do roteiro ruim. De qualquer maneira, é uma série que tem os seus momentos, inclusive com episódios bem movimentados e empolgantes, mas que se ressente de uma melhor equipe de roteiristas.

O que é estranho, já que eles copiaram da versão holandesa. Em geral, quando os americanos copiam de séries estrangeiras, pelo menos a primeira temporada é boa (casos de HOMELAND, IN TREATMENT, THE OFFICE e THE KILLING). Em RED WIDOW, nem isso eles conseguiram.

quarta-feira, maio 08, 2013

A DATILÓGRAFA (Populaire)



Dentre as boas surpresas presentes no Festival Varilux de Cinema Francês está a comédia A DATILÓGRAFA (2012), primeiro longa-metragem de ficção de Régis Roinsard. Coloquei-o na minha programação só para fazer sessão dupla com O HOMEM QUE RI e acabou me agradando mais do que a nova adaptação do romance de Victor Hugo. A DATILÓGRAFA se passa no final dos anos 1950 e há todo um cuidado com a reconstituição de época, de um tempo mais ingênuo, mas que já apontava para maiores conquistas profissionais para as mulheres e uma mudança social que estava prestes a surgir, com a revolução sexual.

Assim, o filme tanto lembra o estilo charmoso, machista e tenso de MAD MEN, como também o de uma comédia musical recente de Christophe Honoré, BEM AMADAS. Mas isso se deve à época em que se passa o filme, que se concentra inicialmente na paixão de uma jovem por uma máquina de escrever. Isso a levará a procurar um emprego de secretária, que na época era ideal para uma mulher moderna, apesar de ainda não ser bem visto pela sociedade mais tradicional.

Déborah François, a jovem belga que estreou no cinema com o premiado A CRIANÇA, dos irmãos Dardenne, e uma das alegrias de FAÇA-ME FELIZ, de Emmanuel Mouret, está especialmente encantadora como a moça interessada no emprego de secretária e que só o ganha graças à rapidez com que consegue datilografar um texto. E usando apenas um dedo de cada mão! Romain Duris, no papel do chefe, está ótimo como o sujeito arrogante que tem a ideia de levar a moça para um concurso que definirá a mais rápida datilógrafa do país.

Assim, A DATILÓGRAFA acaba se transformando num divertido filme de competição, mas sem perder o interesse no relacionamento entre a secretária Rose e o chefe Louis; é bem-sucedido tanto como história de amor quanto como filme de competição; e dentro de um registro que passa a impressão de estarmos vendo uma comédia leve produzida na década de 50. No elenco de apoio, destaque para Bérénice Bejo (O ARTISTA), como a ex-amante de Louis e mulher de seu melhor amigo, e Frédéric Pierrot (série LES REVENANTS), no papel do pai de Rose.

terça-feira, maio 07, 2013

EM TRANSE (Trance)



Quem não curte a maior parte dos trabalhos de Danny Boyle vai encontrar uma bela chance de queimar de vez o diretor com este novo filme, EM TRANSE (2013). Embora SUNSHINE – ALERTA SOLAR (2007) seja um trabalho elegante e muito bom para se ver na tela grande, seus demais filmes andam cada vez mais cheios de cacoetes irritantes da estética do videoclipe. Tanto no que se refere aos cortes, quanto na fotografia. Mas o grande problema de EM TRANSE é outro: o roteiro cheio de furos e momentos constrangedoramente inverossímeis. E justo num filme que precisa de consistência nesse aspecto.

Na trama, funcionário de uma casa de leilões (James McAvoy), necessitando de dinheiro, se une a uma quadrilha para assaltar uma pintura valiosa durante um leilão. As coisas se complicam quando ele recebe uma pancada na cabeça e perde a memória do que aconteceu e não sabe onde escondeu a pintura. Os bandidos, chefiados pelo personagem de Vincent Cassel, primeiro experimentam torturá-lo, mas depois procuram uma possível solução: a hipnose. É quando entra em cena a psicóloga e expert em hipnose vivida por Rosario Dawson.

O ideal é ver EM TRANSE sabendo muito pouco ou nada sobre o enredo, pois é desses filmes cujas revelações são descortinadas aos poucos e que também usam do recurso de confundir o espectador em alguns momentos com o que é imaginação e o que é realidade. Por essas e por outras razões, o trabalho de Boyle vem sendo comparado ao thriller A ORIGEM, de Christopher Nolan. Porém, ainda diria que EM TRANSE, apesar de mais modesto, é menos incômodo e causa bem menos sono do que o trabalho de Nolan.

Até porque queremos saber que fim levará aquela história cheia de altos e baixos e com personagens que muitas vezes agem de maneira pouco crível. Queremos saber até que ponto o filme, em seu final, trará respostas para todas as perguntas que surgem ao longo da metragem. E até que o filme é um tanto redondo nesse aspecto, mas isso não o isenta de ser bem problemático. Principalmente por causa da personagem de Rosario Dawson.

Mesmo assim, uma boa desculpa para os fãs da atriz irem aos cinemas é a sua cena de nudez frontal. No mais, o personagem de McAvoy também é problemático, mas Boyle talvez tenha feito a coisa certa ao mudar o roteiro, que originalmente o mostrava apenas como vítima. No filme, seu personagem acaba ganhando mais camadas. Outro ponto positivo de EM TRANSE é que, apesar de incomodar em alguns aspectos, trata-se de um filme que conserva o interesse do espectador. A trilha sonora de Rick Smith também ajuda, embora seja um tanto presente demais.

segunda-feira, maio 06, 2013

KILL LIST



Fiquei surpreso ao verificar agora que KILL LIST (2011), de Ben Wheatley, estava na minha lista de filmes a resenhar há mais de um ano! Não achei que fosse tanto tempo assim. O problema é que eu vi o filme com sono e, com o passar do tempo, aí é que a memória dele foi se apagando, a ponto de eu resolver revê-lo este ano. E foi muito bom revê-lo, embora eu novamente tenha ficado com sono na primeira meia-hora. Quando parei e retomei, aí sim percebi o quanto se trata de uma obra que valeu ter tido o estardalhaço que teve entre a blogosfera cinéfila no ano passado. Se bem que ainda acho um tanto superestimado.

Isso porque eu gostei do desenvolvimento, mas achei o início muito parecido com o de A SERBIAN FILM – TERROR SEM LIMITES, de Srdjan Spasojevic. Quer dizer: há a figura do sujeito decadente e precisando de dinheiro para alimentar a família e sair do ostracismo. O rumo não é fazer um snuff movie maldito, como no filme sérvio, mas é também abraçar o capeta, ao assumir o trabalho de assassinar determinadas pessoas para um grupo misterioso.

Neil Maskell é Jay, um sujeito que lutou no Iraque e agora está sem emprego. Sua mulher começa a ficar incomodada com a situação. A solução, que depois veremos que não é das melhores, vem do amigo Gal (Michael Smiley), que surge com essa oferta estranha. O tom do filme, desde o começo, é ameaçador, mas isso é graças principalmente à trilha sonora, que transforma o registro inicialmente de drama familiar em mistério e terror. Sem essa trilha, não sei se o filme conseguiria chegar a uma escalada de suspense e horror que ele chega.

Há também as sequências hiper-violentas, que muito provavelmente tornaria a distribuição do filme nos cinemas brasileiros um tanto complicada. Antes de cada morte, a vítima olhava para o algoz e dizia um "muito obrigado", que tornava tudo ainda mais estranho. Que mundo era aquele em que essas pessoas estavam a ponto de achar que a morte era o que de melhor poderia acontecer a elas?

A cópia que eu peguei, com som 5.1, tem o volume muito baixo no médio e altíssimo nas outras caixas, nos momentos de tensão e horror. Então, é um tanto complicado ver o filme com medo de não incomodar a família e os vizinhos. O ideal seria mesmo numa sala de cinema, lugar onde muitas sequências seriam recebidas com choque e terror. KILL LIST é, sem dúvida, um filme que cresce ao longo de sua metragem, mas ainda achei o finalzinho previsível e novamente remete ao maldito A SERBIAN FILM.

Apesar da superioridade do filme inglês em tantos quesitos, esses dois violentos trabalhos acabam parecendo filmes-irmãos. Curiosamente, hoje ao andar pelas ruas, vi um carro com o símbolo utilizado pela assustadora seita do filme. Não quero nem imaginar o que rola às escondidas por esse mundo.

domingo, maio 05, 2013

CAMILLE CLAUDEL, 1915



Forte candidato a melhor filme da edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês, CAMILLE CLAUDEL, 1915 (2013), de Bruno Dumont, confirma a força autoral do cineasta e ainda conta com uma interpretação tocante de Juliette Binoche. Falando assim, até parece que o filme é um drama convencional de levar o espectador às lágrimas. Ao contrário, o registro de Dumont é seco, sem música, opressivo, perfeito para imprimir os sentimentos de desolação e angústia da personagem central, largada em um hospital psiquiátrico pelo próprio irmão e sem ter nenhuma comunicação com a família há tempos.

O diretor Bruno Dumont faz da história real da escultora Camille Claudel um objeto perfeito para seu cinema que lida com as dores da alma e com a confusão trazida pela religião. Essa ligação forte com a religião já havia sido mostrada com força em O PECADO DE HADEWIJCH (2009) - e em outros trabalhos do diretor que eu não vi - e volta em CAMILLE CLAUDEL, 1915. Na verdade, esse elemento aparece mais fortemente depois de aproximadamente 2/3 da duração do filme, quando conhecemos o personagem do irmão de Camille, tornando o que já era um filme muito interessante em uma obra extraordinária.

O recorte temporal, o ano de 1915, para tratar da história de Claudel, serve para mostrar tanto um momento em que a artista passava por um período de depressão, mas que ainda pode ser revertido com a notícia da visita do irmão, quanto um momento em que a França estava em guerra e tudo no país parecia mais sombrio. A personagem-título atravessa momentos de indignação e outros de aceitação de sua situação, como numa espécie de expiação por algum pecado que tenha cometido e que é comentado em certo momento.

Trata-se de um filme de poucos cortes, de poucos diálogos, de tempo estendido e que passa toda a dimensão de sofrimento da personagem com uma economia de palavras impressionante. Ainda assim, um dos destaques é a cena em que Camille, em um primeiro plano bem acentuado, desabafa com o médico-chefe do hospício, como numa sessão de psicanálise. Com a diferença que o médico não parece ajudar nem como um psicanalista nem como um padre.

Mas o momento mais tocante do filme é mesmo a cena do teatrinho organizado pelas freiras e protagonizado pelos loucos. Nesta cena, Juliette Binoche não precisa dizer nada. As poucas falas da peça a tocam de tal maneira que as variações no modo como ela transmite isso através de expressões faciais também comove o espectador. É, sem dúvida, o momento de maior catarse, além de ser também um dos pontos altos da carreira já bastante generosa da atriz.

Se em O PECADO DE HADEWIJCH havia uma semelhança com MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA, a semelhança com o cinema de Robert Bresson continua agora com uma mistura de DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, que retrata a depressão profunda e a entrega lenta à morte pelo protagonista, com O PROCESSO DE JOANA D’ARC, que mostra uma alma encarcerada e inocente, que sofre por causa de convenções sociais, maldade e ignorância.

sábado, maio 04, 2013

SOMOS TÃO JOVENS



Se produzir bons filmes autobiográficos, especialmente de músicos, já é difícil nos Estados Unidos, no Brasil, então, deve ser um pouco mais complicado. Temos casos raros de cinebiografias bem-sucedidas, como 2 FILHOS DE FRANCISCO, de Breno Silveira, e ESTRADA DA VIDA, de Nelson Pereira dos Santos (que trata da carreira de Milionário e Zé Rico). CAZUZA – O TEMPO NÃO PARA e GONZAGA – DE PAI PRA FILHO também podem ser considerados.

Optar por um recorte da vida de Renato Russo foi uma boa decisão por parte dos envolvidos na produção de SOMOS TÃO JOVENS (2013). Afinal, se do jeito que ficou, pareceu uma colagem de eventos importantes de um parte da vida do cantor e compositor, imagina se o filme tivesse a intenção de mostrar os seus 36 anos de vida. Lembremos que filmes de ficção sobre a vida dos Beatles rendeu pelo menos dois belos exemplos: O GAROTO DE LIVERPOOL e BACKBEAT – OS 5 RAPAZES DE LIVERPOOL, que também optaram por recortes da vida dos envolvidos.

Dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, SOMOS TÃO JOVENS é uma obra direcionada principalmente aos fãs da Legião Urbana. Há tantas canções da primeira fase da banda cantadas integralmente que é difícil imaginar uma pessoa que não seja fã vendo o filme com entusiasmo. De todo modo, isso é até possível, já que o andamento narrativo é bem agradável.

E por mais que o filme não explore de maneira mais aprofundada a personalidade de Renato Russo, o que é mostrado, somado com o que conhecemos do cantor, forma um todo que torna o filme uma experiência diferente para cada espectador, de acordo com sua relação de maior ou menor proximidade com a banda e seu mentor. A aura de Renato Russo, aliás, parece pairar em alguns momentos, especialmente nas interpretações de Thiago Mendonça das canções da banda. A cena em que ele canta "Ainda é cedo" é bem emocionante. Passa a impressão de que o ator estava de fato comovido e é o ponto alto do filme.

No mais, o essencial está lá: a doença que ele teve que o deixou sem andar por um bom tempo, a descoberta do punk rock, o início e o fim do Aborto Elétrico, a amizade com Aninha, a homossexualidade, sua fase como Trovador Solitário e, finalmente, a criação da Legião Urbana. O filme deixa pouco espaço para explorar sua personalidade melancólica, preferindo mostrar um jovem disposto a se tornar cantor de uma banda de rock. Que não por acaso foi uma das mais importantes das décadas de 80 e 90, tida por muitos como a grande porta-voz de uma geração. Ou de grande parte dela, pelo menos.

P.S.: Não deixa de dar dó ver a cena de Renato na banheira dizendo seus planos de vida: dos 20 aos 40, seria roqueiro; dos 40 aos 60, cineasta; dos 60 aos 80, escritor. Uma pena que ele não tenha sequer chegado aos 40. Outro momento que bate uma saudade dele acontece também no começo, quando ele é visto tocando uma canção do Lô Borges. Ele havia dito em entrevista que pretendia gravar um disco só com covers do cantor mineiro e isso também é uma pena que não tenha podido se concretizar.

sexta-feira, maio 03, 2013

UM BOM PARTIDO (Playing for Keeps)



A terceira incursão do cineasta italiano Gabriele Muccino em Hollywood foi, desta vez, em um registro diferente. Se em À PROCURA DA FELICIDADE (2006) e em SETE VIDAS (2008), ambos estrelados por Will Smith, predominava um melodrama bastante carregado nas tintas, em UM BOM PARTIDO (2012), há tonalidades mais leves na história de George, um ex-jogador de futebol (Gerard Butler) que se encontra numa situação ruim, tanto profissional quanto afetivamente, já que não tem mais a glória do passado de jogador famoso, nem um emprego, já que se aposentou, e nem a mulher (Jessica Biel), que ele perdeu no tempo em que agia de maneira inconsequente.

Agora, decidido a recuperar o tempo que perdeu com o filho, resolve ajudá-lo no time de futebol da escola, assumindo a função de treinador. Acontece que várias mulheres, mães dos filhos que estão no time, passam a ficar interessadas em George, que ainda conserva um charme que para muitas mulheres é irresistível. Entre elas, estão as personagens de Uma Thurman e Catherine Zeta-Jones, além de Judy Greer, a moça que sofre de depressão e que se cura depois de uma noite de sexo com George.

Embora seja um filme um tanto comum, UM BOM PARTIDO também não é de se jogar fora. Gabriele Muccino consegue pegar um roteiro banal e transformar em algo minimamente interessante. Sem falar que é uma das raras vezes em que Gerard Butler está bem em uma comédia romântica. Nem tudo está perdido para ele, que, neste ano, pôde ser visto em boas atuações, tanto como herói de ação (INVASÃO À CASA BRANCA) quanto como galã.

E Muccino, que foi descoberto internacionalmente graças ao belo O ÚLTIMO BEIJO (2001), mais uma vez faz um filme que elogia e reforça a necessidade de harmonia familiar, ainda que não seja tão quadrado a ponto de não nos deixar entender as vezes em que o herói dá as suas escapadas com outras mulheres. Afinal, a ex-esposa está prestes a se casar de novo. Mas o destaque é mesmo a necessidade de uma família harmoniosa e com um casal que se ama.

Talvez o problema do filme seja a falta de um momento realmente emocionante, tão comum nas obras anteriores do diretor. Por mais que seja uma obra leve e agradável de acompanhar, UM BOM PARTIDO quase chega ao ponto de copiar os tão comuns finais das comédias românticas mais tradicionais, produzidas em Hollywood desde os tempos do cinema mudo. A diferença é que há uma tentativa de ser mais contido. E isso tem os seus prós e contras.

A propósito, outro filme de Gabriele Muccino poderá ser visto nas telas brasileiras este ano: a continuação de seu grande sucesso O ÚLTIMO BEIJO, que se chamará no Brasil BEIJE-ME OUTRA VEZ (2010), realizado anos antes na Itália, mas, infelizmente, sem a Giovanna Mezzogiorno no papel de Giulia. Uma pena.

quinta-feira, maio 02, 2013

O GRANDE GATSBY (The Great Gatsby)



Não vai ser nenhuma surpresa se o novo O GRANDE GATSBY, dirigido por Baz Luhrmann, e que abrirá a edição do Festival de Cannes este ano, superar esta versão de Jack Clayton, estrelada por Robert Redford. Tive de ver O GRANDE GATSBY (1974) em pedaços, pois, além de longo (cerca de duas horas e meia de duração), ele é muito lento. E só começa a ficar interessante depois da primeira hora, que é quando acontece o reencontro de Gatsby (Redford) com Daisy (Mia Farrow).

Até então, o filme se arrasta no contato entre Nick, o personagem de Sam Waterston, e sua prima Daisy e seu marido Tom (Bruce Dern). Nick é os olhos do espectador. É através dele que entramos em contato com os personagens, inclusive com o misterioso Gatsby, de quem é vizinho, mas que pouco sabe a respeito. Só sabe que ele tem dinheiro suficiente para, em plena depressão americana, dar festas milionárias em sua mansão.

Aliás, essa obsessão pelo dinheiro está muito presente no filme. Há uma cena, em particular, que me incomodou bastante, que é a de Gatsby mostrando sua coleção de camisas, jogando-as como se fossem ouro. Em seguida, Daisy começa a cheirar e se emocionar, agarrada com uma dessas camisas, dizendo nunca ter visto tantas e tão belas. De qualquer maneira, é algo que provavelmente está no romance de F. Scott Fitzgerald e que também estará na versão de Luhrmann.

Outra coisa também bastante presente no filme é o brilho cristalino, que aparece principalmente nos olhos da personagem de Mia Farrow, mas que também se vê em taças de cristal ou joias, isto é, objetos usados para enfatizar o poder do dinheiro.

Porém, o mais importante do filme, sua espinha dorsal, está mesmo no romance proibido entre Gatsby e Daisy. O marido de Daisy já se mostra um sujeito sem escrúpulos, e não apenas porque trai a mulher com outra, mas pelo seu comportamento e opiniões nazi-fascistas. Assim, é fácil entender e torcer (ainda que pouco) por Gatsby, por mais que as cenas românticas não sejam exatamente animadoras.

O GRANDE GATSBY tem cara desses filmes feitos para ser indicado ao Oscar, mas, como estrelou nos Estados Unidos num mês de março, é pouco provável que tenha sido essa a intenção. Curiosamente, o roteirista do filme é Francis Ford Coppola, duplamente premiado por O PODEROSO CHEFÃO e O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II. Provavelmente, se fosse ele o diretor do filme, o resultado teria saído muito melhor. Mas ele devia estar ocupado com a saga dos Corleone.

Confesso que fiquei curioso para ler o romance e ver até que ponto algumas decisões que o filme toma foram pensadas por causa da obra literária. De todo modo, O GRANDE GATSBY requer um pouco de paciência por parte do espectador, para poder passar por sua duração longa e seu andamento lento. Fica também a impressão de que a tentativa dos cineastas da Nova Hollywood de emular o cinema europeu, ainda que sem se desfazer da decupagem clássica, nem sempre era uma boa ideia.

quarta-feira, maio 01, 2013

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel)



Os últimos dias não têm sido fáceis. Um monte de coisas parece ter se juntado para me incomodar. Justo quando eu mais preciso ter a cabeça fria para um dos momentos mais decisivos da minha dissertação. Aí tem horas que bate uma tristeza, tem horas que a cabeça esquenta tanto que parece saída de um forno. Aí eu tento parar e relaxar, mas como relaxar sabendo que o progresso está difícil? Uma coisa depende da outra. E como raramente estou usando este espaço para desabafar, resolvi começar este texto sobre um filme que não gosto muito para me abrir um pouco com os leitores.

E também porque achei conveniente falar um pouco sobre O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (2011) logo depois de ter falado de outro filme que aborda a terceira idade, o franco-alemão E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS?. Não tive muita disposição para ver este trabalho de John Madden no cinema na época em que ele foi exibido. Acabei colocando na lista de "a ver" por causa de sua indicação ao Globo de Ouro, mas o tempo foi passando e nem lembro mais há quanto tempo eu vi o filme. Mas creio ter sido depois do Oscar.

De qualquer maneira, apesar de eu tê-lo visto "em fascículos", não desgostei totalmente. Há um clima feel good que não deve ser de todo desprezado. Dizem que é um filme feito visando o público da terceira idade, que sente falta de se ver na tela. Aí junta também o aspecto exótico, de se passar na Índia e de deixar os personagens deslocados, que também chama a atenção. Aliás, o fato de ser a Índia o espaço escolhido ajuda a tornar o filme colorido e alegre, ainda que seja destacado também os aspectos negativos do país, como o mau cheiro, que tanto espanta de imediato muitos visitantes.

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD também atrai pelo talentoso elenco de veteranos, formado por Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy, Maggie Smith, entre outros rostos menos conhecidos do grupo de pessoas que são atraídas pelo anúncio do hotel. Outro rosto conhecido é o de Dev Patel, que ficou mais famoso graças ao oscarizado QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?, de Danny Boyle.

Ele é o rapaz que, mesmo sem ter uma estrutura pronta, resolve inaugurar um hotel. Fica feliz ao ver que várias pessoas são atraídas pelo anúncio, mas sofre ao perceber as dificuldades de manter um hotel que seja minimamente confortável e atraente para os hóspedes. Há também uma subtrama envolvendo uma namorada do rapaz, que pertence a uma casta inferior à dele dentro da sociedade indiana, e que por isso não é aceita por sua mãe. Trata-se de uma subtrama que serve também para apresentar um pouco ao público ocidental essa divisão de classes existente na Índia.

No mais, há um personagem homossexual, uma senhora que precisa aprender um pouco a respeitar as diferenças dos outros para viver melhor, um casal em crise, uma viúva que parece estar se sentindo em casa naquele país estranho. Parece um pouco um capítulo estendido de uma série ou novela, apesar de procurar um final mais ou menos satisfatório. A mim, não agradou tanto, mas já era de se esperar, vindo de John Madden.