domingo, março 31, 2013

THE WALKING DEAD – 3ª TEMPORADA COMPLETA (The Walking Dead – The Complete Third Season)



Provavelmente a melhor maneira de ver estes episódios da terceira temporada de THE WALKING DEAD (2012-2013) seja de uma só tacada. Isso porque o longo intervalo que vem de 14 de outubro do ano passado até 31 de março deste ano faz com que alguns dos eventos fiquem esquecidos. Ou vistos como distantes, como os da fase pré-hiato, que contavam com episódios mais dinâmicos e um deles bastante impactante, envolvendo a morte de uma das personagens mais queridas da série. Pelo menos, por mim.

Foi também nesses primeiros episódios que foram introduzidos dois personagens importantíssimos: o Governador, o grande vilão da temporada, e Michonne, a moça negra que, de posse de dois zumbis sem queixos e sem braços, salvou Andrea no final da segunda temporada. É também no começo da temporada que vemos os nossos heróis tomando posse de uma prisão, que serve para eles de abrigo, depois dos eventos na fazenda de Hershel. Aos poucos também conhecemos a cidade de Woodbury, lar do Governador e de várias pessoas que encontraram ali um abrigo contra os errantes. E é lá também que um personagem da terceira temporada, Merle, dá as caras novamente.

E embora a terceira temporada tenha terminado muito bem, ainda que muito triste, com mais uma perda, foi precedida de episódios um tanto mornos, e que pareciam não ir a lugar nenhum, ainda que esses pedaços de histórias tenham sua importância tanto na construção da trama quanto no melhor aprofundamento dos personagens, como é o caso do episódio “Clear”, todo centrado em Rick, Carl e Michonne.

Algumas coisas, porém, não chegam a agradar, como a maluquice de Rick e as dúvidas de Andrea, embora, no final, tudo isso possa ser perdoado. Principalmente quando lembramos de momentos de alta tensão, como aquele em que Glen e Maggie são capturados. De gelar o sangue. Principalmente quando vemos Glen lutando sozinho numa cela com um zumbi, tendo que improvisar uma arma para se defender. E ainda que a temporada tenha deixado uma vontade de querer ver mais, não ficou um gancho tão forte quanto o da temporada passada. Aguardemos, então, o que virá.

sábado, março 30, 2013

G.I. JOE – A ORIGEM DE COBRA (G.I. Joe – The Rise of Cobra)



Na madrugada de ontem, eu acordei me tremendo de febre. Até agora ainda estou me sentindo enfraquecido. Uma gripe violenta me atacou enquanto dormia com o ventilador ligado. Desci, pedi ajuda à minha mãe, mal balbuciando algumas palavras, tal o frio que sentia. Ela armou uma rede na sala, me deu uns lençóis grossos e fez um desses chás com paracetamol. O detalhe é que ela estava doente também. Tinha pegado a mesma gripe, assim como minha irmã. Então hoje foi praticamente um dia perdido: acordei todo desnorteado, sem conseguir comer praticamente nada e acordando e tomando banho algumas vezes para passar a febre.

Aproveitando, então, que não dá pra escrever nada muito produtivo, falemos um pouco deste G.I.JOE – A ORIGEM DE COBRA (2009), de Stephen Sommers. Não estava nos meus planos ver este filme, mas depois de alguns elogios à continuação (G.I. JOE – RETALIAÇÃO, 2013) por Daniell de Oliveira, e ao primeiro filme por Filipe Furtado, me animei para ver o filme do Sommers, que é um cineasta de cujos trabalhos eu nunca gostei. Vendo A ORIGEM DE COBRA como um trabalho independente e esquecendo o passado do diretor cheguei a ficar impressionado com a dinâmica do filme, com as cenas de ação, com os efeitos especiais, que fazem jus a um filme que se passa no futuro, ainda que num futuro próximo.

O filme aborda basicamente uma briga entre dois grupos, os Joes, que trabalham para o governo americano em situações de natureza internacional, e os Cobras, o grupo de vilões que tem a intenção de dominar o mundo. Ambos os grupos lidam com alta tecnologia, o que faz com que eles consigam fazer coisas tão impressionantes, que é como se eles tivessem superpoderes. Gosto particularmente da cena em que os Joes utilizam um traje especial, que faz com que eles corram mais rápidos do que carros.

A ORIGEM DE COBRA tem também outro atrativo: Sienna Miller de roupa colante. Como ela tem um passado com o personagem de Channing Tatum, visto em alguns flashbacks, eles são os personagens mais interessantes do filme. Os demais membros dos Joes também são bons, caso de Marlon Wayans e Rachel Nichols. Do lado dos Cobras, vale destacar o sul-coreano Byung-hun Lee, que fez tanto sucesso que felizmente voltou para RETALIAÇÃO, que é um filme bem diferente, com várias alterações no elenco e com um tom um pouco mais sério do que o primeiro.

quinta-feira, março 28, 2013

SOMBRAS (Shadows)



Já havia visto dois filmes de John Cassavetes, mas acho que não contam. O primeiro foi GLÓRIA (1980), um tanto convencional; o outro, OS MARIDOS (1970), numa versão dublada na Globo, horrível. Então, ver SOMBRAS (1959) é como se eu estivesse, só agora, conhecendo de verdade o cinema do cultuado diretor nova-iorquino. O impacto só não foi maior porque eu percebi no filme uma sintonia com os primeiros trabalhos dos cineastas da nouvelle vague (Godard, Truffaut, Rivette). E curiosamente, SOMBRAS é do mesmo ano de OS INCOMPREENDIDOS. É como se esses diretores tivessem entrado em sintonia com o espírito daquela época, não necessariamente recebendo influência do outro.

Porém, perto de SOMBRAS, OS INCOMPREENDIDOS parece um filme convencional. Nesse sentido, os mais experimentais ACOSSADO e PARIS NOS PERTENCE têm mais em comum com SOMBRAS. O fato é que o primeiro longa-metragem de Cassavetes, por ser quase que destituído de roteiro e ser autodescrito como um filme improvisado em seus créditos finais, torna-se quase único, como numa tentativa de emular a improvisação do jazz, dos músicos da geração beat, que aparecem em SOMBRAS, mas como personagens destituídos de glamour.

Aliás, uma das coisas que mais impressiona no filme é o quanto todos aqueles personagens são reais. A maioria deles feios. A graciosidade está apenas em Lelia (Lelia Goldoni), a mulher que encanta e a personagem que eu considero como o grande centro do filme. Sem ela, SOMBRAS teria sido uma experiência completamente cerebral para mim. Mas os seus gestos, sua dificuldade de ir em busca do que deseja, suas motivações, tudo isso faz com que ela seja fascinante.

Ela é uma personagem bastante perdida na vida, mas os demais são ainda mais. Como os irmãos, que representam um momento do filme que busca questionar o preconceito racial, mas que aos poucos é deixado de lado. Pelo que li no livro John Cassavetes – The Adventure of Insecurity Studies in Contemporary Film, de Ray Carney, esse elemento do preconceito racial foi perdendo força quando Cassavetes resolveu mexer na primeira versão do filme, de 1957, e incluir novas cenas, várias delas importantíssimas para que o filme chegasse a um resultado que me agradou bastante. Deixou, assim, de ser totalmente improvisado, mas ganhou em força.

Interessante o título do livro, que destaca o termo "insegurança", que é uma palavra que pode ser associada a qualquer personagem de SOMBRAS. E até ao próprio diretor, que, pelo que diz o autor do livro, faz filmes como se tateasse no escuro. Segundo o autor, "numa cultura devotada ao saber, Cassavetes ousou fazer perguntas que ele não sabia as respostas." (p. 10). SOMBRAS pode não ter me proporcionado o maior prazer que eu tive vendo um filme, mas acredito que, aos poucos, à medida que for me familiarizando com a obra do diretor, irei gostar mais e mais.

quarta-feira, março 27, 2013

LINHA DE AÇÃO (Broken City)



Ao que parece, Allen Hughes não rende tão bem quando está longe do irmão gêmeo, Albert Hughes, com quem fez PERIGO PARA A SOCIEDADE (1993), AMBIÇÃO EM ALTA VOLTAGEM (1995), DO INFERNO (2001) e O LIVRO DE ELI (2010). Não sei qual foi o motivo da separação, se foi ocasionada por alguma briga entre eles ou nada muito sério. O fato é que LINHA DE AÇÃO (2013) é desses policiais genéricos, que até tem algum charme, principalmente por flertar com o film noir, mas que ao final da projeção acaba caindo na vala do esquecimento.

Falta ao trabalho de Hughes tanto força no desenvolvimento dos personagens, quanto um roteiro inteligente e menos politicamente correto. Tudo bem que de vez em quando é bom vermos personagens com honradez e dispostos a alcançar uma redenção, principalmente nos filmes noir (ou neo noir, no caso), mas isso acaba por tornar o detetive de pouca grana vivido por Mark Wahlberg um personagem bem apagado.

Ainda assim, é o personagem que ainda faz valer o filme, já que Russell Crowe, no papel do prefeito corrupto, só acrescenta em sua filmografia recente mais um personagem fraco. Terá chegado a decadência do ator? Catherine Zeta-Jones também anda numa maré baixa de boas interpretações, mesmo quando está em boas produções. Com isso, coadjuvantes como Jeffrey Wright e Barry Pepper acabam roubando a cena sempre que podem.

Na trama, Billy Taggart (Wahlberg) é um detetive particular (e ex-policial há sete anos) que é contratado pelo prefeito de Nova York que está disputando uma reeleição (Crowe) para investigar a suposta traição da esposa (Zeta-Jones). Para o detetive, o cheque polpudo acaba sendo uma boa oportunidade para tirá-lo das dificuldades financeiras. Mas a trama se complica quando a esposa descobre que está sendo vigiada e quando uma pessoa aparece morta.

LINHA DE AÇÃO veio à luz graças ao interesse de Mark Wahlberg, aqui também na função de produtor, que trouxe um roteiro que estava engavetado e sem ter despertado o interesse de nenhum outro produtor ou diretor. Melhor seria se o script continuasse quietinho, na gaveta. Ou se outro realizador mais talentoso compensasse a trama simplista e com pouca originalidade com um belo trabalho de direção. Do jeito que está, é só mais um filme a engrossar a lista dos esquecíveis do ano.

terça-feira, março 26, 2013

FIG LEAVES



Uma iniciativa interessante da Liga dos Blogues Cinematográficos é fazer um ranking em homenagem a Howard Hawks, um dos cineastas mais queridos da casa. Então, aprovei a oportunidade para pegar alguns filmes dele que só consegui cópia depois da primeira (ou segunda) peregrinação pela sua obra. Uso muito o termo peregrinação, mas o termo lembra uma espécie de sofrimento, o que não é bem o caso em se tratando de acompanhar a obra de cineastas queridos. Assim, começo com o filme mais antigo dele existente, FIG LEAVES (1926), já que o anterior, CAMINHO DA GLÓRIA (1926), se perdeu. Uma pena.

Conhecendo o trabalho posterior de Hawks é fácil identificar alguns temas que seriam recorrentes em sua obra e que já aparecem de maneira bruta neste FIG LEAVES, uma comédia que tem a cara das screwball comedies da década seguinte, e por isso mesmo sentimos uma falta enorme do som. Ainda mais porque Hawks foi praticamente o criador dos diálogos sobrepostos em Hollywood, coisa que as limitações técnicas da época não permitiam.

O filme começa de maneira muito divertida, mostrando Adão e Eva em casa, conversando como um casal normal, enquanto o marido se prepara para ir ao trabalho. Eva deseja um vestido e o Adão tenta resistir aos seus pedidos e gastos, que para ele são desnecessários. O dinossauro que aparece levando um carro com um grupo de pessoas, apoiado com rodinhas de pedra, lembra muito os Flintstones. Assim, embora apareça uma tosca serpente para tentar Eva e fazer com que o filme salte para o início do século XX, Hawks não se preocupou muito em criar algo próximo do registro bíblico.

Para ele o que interessa é a guerra dos sexos e uma visão mais ousada da mulher, mais livre e independente, como geralmente são as mulheres nos filmes do diretor, mulheres que tomam a iniciativa. Nos loucos anos 20, era das vanguardas, em que o feminismo começava a se afirmar, nada mais comum do que encontrar apoio em um diretor como Hawks.

Uma pena que o filme quando passa para o século XX deixe de ser tão divertido como estava em seu prólogo nos tempos de Adão e Eva. Mas a ideia é talvez mostrar que as coisas não mudaram muito entre homens e mulheres. E quem sabe até seja uma visão um tanto machista essa de achar que as mulheres estão sempre querendo comprar mais e mais vestidos, que dizem sempre que não tem o que vestir etc. Bom, talvez não machista, mas uma visão masculina, já que machismo e Howard Hawks são coisas que definitivamente não combinam.

segunda-feira, março 25, 2013

PARKER



Não resta dúvida de que o grande chamariz de PARKER (2013), de Taylor Hackford, é a presença de Jason Statham, o maior herói dos filmes de ação da atualidade. Jennifer Lopez no cartaz também ajuda, mas nem tanto assim, já que o filme é um thriller de ação e não uma comédia romântica ou algo do tipo. O diretor de PARKER é um sujeito que já trafegou por diferentes gêneros e tem bons filmes no currículo, como A FORÇA DO DESTINO (1982), ADVOGADO DO DIABO (1997) e RAY (2004).

Em PARKER, Jason Statham é um ladrão profissional que aceita participar de um golpe de um milhão de dólares junto com outros quatro sujeitos. Quem dá a dica é justamente o seu sogro, vivido por Nick Nolte. Mal sabem o velho e o próprio Parker que os caras não são flor que se cheire e que são capazes até de matar Parker por ele não querer participar de outro golpe com eles usando o dinheiro roubado como investimento. E assim Parker é deixado quase morto perto de uma lagoa. Acorda num hospital, já disposto a se vingar dos caras.

Parker é o ladrão de bom coração, com uma moral e uma dignidade que os seus "parceiros" de crime (um deles vivido por Michael Chiklis, da série THE SHIELD – ACIMA DA LEI) definitivamente não têm. Prova disso é a sua conversa com um segurança que tem um colapso nervoso durante o assalto e é ajudado por Parker, o que faz com que o personagem se torne ainda mais simpático aos olhos do espectador. Como Jason Statham tem carisma de sobra, além de saber lutar muito bem nos filmes, ganhar o respeito e a torcida do espectador é muito fácil. Mas vale dizer que, embora ele tenha uma moral admirável para um criminoso, ele é também capaz de matar a sangue frio quem ele acha que merece.

O filme conta com algumas cenas de luta física bem interessantes, principalmente a do "assassino da faca", além de outros momentos bem movimentados, que não deixam o espectador se desinteressar. Não se trata de nenhuma obra excepcional, mas vale sim a ida ao cinema. Jennifer Lopez, embora não brilhe tanto no filme, talvez por culpa do papel não tão forte, é uma personagem simpática também. Pelo menos mais do que a namorada oficial de Parker, vivida por Emma Booth.

Curiosamente, o personagem Parker já apareceu no cinema diversas vezes, interpretado por diferentes atores. Porém, em nenhum desses filmes ele recebeu o nome do personagem da série de livros de Donald E. Westlake, que publicou as aventuras de seu anti-herói sob o pseudônimo de Richard Stark. PARKER, inclusive, é dedicado a Westlake, morto em 2008.

Os filmes mais famosos protagonizados pelo personagem são À QUEIMA-ROUPA (1967), de John Boorman, com Lee Marvin; QUADRILHA EM PÂNICO (1968), de Gordon Flemyng, com Jim Brown; A QUADRILHA (1973), de John Flynn, com Robert Duvall; ALUGADO PARA MATAR (1983), de Terry Bedford, com Peter Coyote; e O TROCO (1999), de Brian Helgeland, com Mel Gibson. Dá até para fazer uma minimaratona.

domingo, março 24, 2013

VAI QUE DÁ CERTO



E não é que deu certo mesmo?! Para quem já espera de uma comédia contemporânea brasileira o mal cuidado com o roteiro e o humor constrangedor, eis que, saindo da Porta dos Fundos, vem um grupo para sacudir um pouco a poeira e mostrar que ainda há salvação para o humor brasileiro e que este não deve ficar apenas restrito a esquetes no youtube, que é como começou o grupo de comediantes do Porta dos Fundos. Tudo bem que o filme não é só deles, mas tendo dois integrantes (Fábio Porchat e Gregório Duvivier) e mais os diálogos a cargo do próprio Porchat, VAI QUE DÁ CERTO (2013) é o mais próximo que temos no cinema do humor do grupo.

Os demais integrantes não atrapalham: ao contrário, todos estão muito bem. Natália Lage é a única mulher do grupo, mas é tão bela e cheia de charme que nem precisa de outra. Quanto aos demais marmanjos, Danton Mello, Lúcio Mauro Filho e Felipe Abib completam o time de sujeitos desastrados que procuram uma atitude bem drástica para sair do buraco em que se encontram: assaltar um carro-forte. Bruno Mazzeo aparece para dar sorte, já que suas últimas comédias no cinema, se não são necessariamente essas maravilhas, tiveram, em geral, boa recepção nas bilheterias.

Dos rapazes, vale destacar os olhos esbugalhados de Lúcio Mauro Filho, que é o sujeito que oferece ao amigo vivido por Danton Mello a ideia de assaltar o carro-forte. Gregório Duvivier se destaca como o mais engraçado do grupo, fazendo o personagem nerd. Ele é o mais inocente e infantil da turma, mais preocupado em coisas como videogames e em disputas absurdas entre James Bond e o Batman, o que acaba gerando alguns dos momentos mais divertidos do filme.

Uma das coisas que mais funcionam em VAI QUE DÁ CERTO é a leveza e o tom descompromissado com que o próprio roteiro leva o filme, sem muita preocupação em parecer inteligente, mas conseguindo com habilidade apostar também no absurdo. Afinal, um filme que traz um grupo de mafiosos que aluga armas já mostra que não é para ser levado a sério. E o filme se equilibra em seus três principais momentos, no que se refere às tentativas dos personagens de conseguir dinheiro para consertarem a confusão que fizeram, entre policiais, mafiosos e políticos.

O filme, ainda por cima, conta com uma participação bem especial de Lúcio Mauro (o pai), que faz um velho militar aposentado com Alzheimer que, como de hábito, ajuda a dar ao filme certa nobreza. Quem não lembra com saudade dele na Escolinha do Professor Raimundo? Sem falar que ele é engraçado até em drama depressivo, como foi o caso de FELIZ NATAL, de Selton Mello.

Assim, VAI QUE DÁ CERTO traz um frescor para as comédias feitas para o cinema que ultimamente não andavam muito bem. Tanto Porchat, com o horroroso TOTALMENTE INOCENTES, quanto Mazzeo, com o constrangedor CILADA.COM, são exemplos de que a comédia brasileira precisa mesmo evoluir. E que bom ver que o talento dos dois não é desperdiçado neste novo filme. E, sem querer desmerecer a direção competente de Maurício Farias, que venha um filme mais independente, estrelado pelo elenco do Porta dos Fundos e com direito à presença de Clarice Falcão.

sábado, março 23, 2013

RÂNIA



Filmes como RÂNIA (2011), que têm uma cadência toda especial, com um ritmo mais lento, diferente do que se é acostumado a encontrar no cinema mais comercial, precisam, já desde o início, mostrar para o público o seu tom, para que esse espectador entre em sintonia com aquele estado de espírito almejado pelo diretor. No caso, pela diretora cearense.

Hoje, Roberta Marques se divide entre Fortaleza e Amsterdã. Ela realizou um filme universal, urbano, embora para os brasileiros e para os cearenses, em particular, seja possível identificar - ou se identificar com - os lugares, os sotaques, o modo de vida. Essa universalidade surge logo no início do filme, com a escolha não de uma música regional para a trilha sonora, mas de "Troubled Waters", uma bela e melancólica canção de um dos álbuns de versões da cantora norte-americana Cat Power. Quer dizer, não se trata apenas de um filme com um andamento mais lento: a melancolia também dá o tom.

Em certo momento, a jovem Rânia, vivida por Graziela Félix, diz que dança porque precisa afastar coisas ruins dentro de si, que só passam quando ela dança. E de fato a dança tem essa ligação com o presente, com o concentrar-se no agora, na respiração, no próprio corpo, que faz com que a amargura das memórias ruins e a ansiedade do futuro obscuro deem uma trégua para a alma sofrida.

Em RÂNIA, temos a história de uma adolescente que frequenta as aulas na escola pública de seu bairro, participa de aulas de dança, trabalha em um quiosque perto da praia, ajuda a mãe em casa. E ainda aceita a proposta da amiga mais velha Zizi (Nataly Rocha) de trabalhar à noite na boate de prostituição Sereia da Noite.

Sua intenção não é ingressar na prostituição ou nada do tipo, mas apenas dançar, ainda que o lugar não lhe seja o mais apropriado. Seu sonho de ser dançarina profissional se intensifica com a presença de Estela (Mariana Lima, de A BUSCA), uma coreógrafa recém-chegada à cidade. Estela representa a possibilidade, para Rânia, de sair daquela vida que parece predestinada: seu pai é pescador; sua mãe cuida do lar. A garota ambiciona mais, e isso é sentido também quando ela diz que sente algo dentro de si que não sabe se é medo ou coragem. Um sentimento que qualquer espectador, em certa altura de sua vida, já experimentou também.

Outro detalhe interessante do filme de Roberta Marques está nos diálogos dos personagens, por vezes parecendo improvisadas, algumas vezes até de difícil compreensão, o que é compreensível em se tratando de atores em sua maioria com pouca ou nenhuma experiência com interpretação. Essas falas mais realistas se revezam com as narrações em voice-over da protagonista, que por um lado apresentam um distanciamento maior da trama, mas, por outro, trazem uma dor maior, a dor de um narrador que já sabe o fim da história.

RÂNIA se mostra uma alternativa muito bem-vinda para quem deseja fugir um pouco da mesmice dos filmes mais comerciais e está disposto a experienciar a delicadeza desse universo feminino da diretora Roberta Marques.

Texto publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste, de 23.03.2013.

sexta-feira, março 22, 2013

BEM-VINDO AOS 40 (This Is 40)



Mais um filme que não tem previsão de chegar no Brasil. No cinema, nem se cogita; em home video, deve chegar sem muita pressa, como aconteceu com o trabalho anterior de Judd Apatow, TÁ RINDO DO QUÊ? (2009). Interessante, aliás, como Apatow tem se firmado mais como produtor, tanto de cinema quanto de televisão, e dirigido os trabalhos mais pessoais com menor frequência, como é o caso deste BEM-VINDO AOS 40 (2012). Aqui, ele volta novamente à fatídica idade de 40 anos, que foi como ele começou na direção de longas-metragens para cinema, com o engraçadíssimo O VIRGEM DE 40 ANOS (2005).

Aqui, porém, ao contrário do personagem de Steve Carrell no citado filme, os protagonistas de BEM-VINDO AOS 40 têm uma vida financeira e sentimental já estabelecida, o que não quer dizer que eles se sintam totalmente à vontade e felizes. Os dois personagens, Pete (Paul Rudd) e Debbie (Leslie Mann), saíram de um dos maiores sucessos de Apatow, LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (2007), e agora são vistos mais aproximadamente: um casal que se ama, mas que se odeia também de vez em quando. Muitas vezes sentindo o fardo de viver um com o outro. O diretor procurou, sem se privar do humor, uma visão realista do casamento.

Como seus filmes têm um diferencial, nem dá para dizer que seja uma visão estereotipada do casamento. Inclusive, há algumas ousadias, como quando Pete confessa ao amigo, em tom de brincadeira, mas que no fundo parece ser de coração, que às vezes pensa como seria mais tranquila a sua vida se Debbie morresse. Isso porque ela, como geralmente acontece com as mulheres, mais "pé-no-chão", mais realistas e responsáveis, reclama de muitas coisas do marido, como sua ideia de se dedicar a um trabalho que ele gosta muito, mas que tem pouco retorno financeiro, ou das várias vezes que ele empresta dinheiro para o seu pai (Albert Brooks, ótimo).

Aliás, há vários personagens coadjuvantes que roubam a cena quando aparecem, como é o caso de Desi, a personagem Megan Fox, aqui mais bela e sensual do que nunca. Charlene Yi, a Dra. Chi Park, da última temporada de HOUSE aparece, meio que fazendo o mesmo papel da série. Aliás, eu tinha esquecido que ela também aparece em LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS. Outro que repete o papel aqui é Jason Segel, como o personal trainer Jason. Há também a protegida de Apatow, Lena Dunham, a criadora da série GIRLS, que não parece nada diferente de sua personagem na série. Chris Owd é outro rosto conhecido de GIRLS. Mas talvez quem a gente deva destacar mesmo, no sentido de melhor intérprete, seja o personagem do pai de Debbie, vivido por John Lithgow.

BEM-VINDO AOS 40 é bem agradável de assistir e tem momentos tão descontraídos que parecem saídos de uma boa série de televisão. O próprio Apatow, mais uma vez, não se importa em ultrapassar as duas horas de duração de sua comédia. Pode até parecer gordura do filme e que não o deixa redondinho para uma exibição com sucesso nos cinemas, mas é bom ver um trabalho com essas liberdades. BEM-VINDO AOS 40 é também bastante pessoal, no sentido de o diretor estar trabalhando com a própria esposa (Leslie Mann) e com os próprios filhos, as duas filhas de Debbie. Assim, há toda uma ambientação que parece saída da própria vida privada de Apatow.

quinta-feira, março 21, 2013

QUATRO CURTAS BRASILEIROS



Aproveitando que vi alguns curtas, seguem comentários bem rápidos sobre eles, antes que a minha memória ruim trate de varrê-los para o arquivo morto, como geralmente costuma acontecer. Um dos filmes faz parte da minha peregrinação pela obra de Nelson Pereira dos Santos, mas que fiz por bem deixar junto com os outros, por ser curto e por ter poucas informações a seu respeito. Os demais são filmes de dois amigos, Gabriel Carneiro e Eduardo Aguilar, e outro, uma indicação da atriz Maeve Jinkings (O SOM AO REDOR).

UM LADRÃO 

Nelson Pereira dos Santos e Graciliano Ramos juntos já têm fama de darem liga, por causa das obras-primas VIDAS SECAS (1963) e MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1984). Infelizmente, com o curta-metragem UM LADRÃO (1981) não foi bem assim. De qualquer maneira, seria um feito e tanto de Nelson o de ter transposto para a tela um conto tão cheio de pensamentos do protagonista e tão poucos diálogos. O diretor faz o que pode e mostra o ladrão vivido pelo jovem Ney Santanna, que procura seguir as dicas de seu mestre, vivido brilhantemente por Wilson Grey. Mas as lembranças de uma paixão de infância e outras tentações bobas prejudicam sua tarefa. Curiosamente, o filme faz várias menções a Jango e à ditadura e acrescenta elementos que não constam no conto de Graciliano. Elementos muito bem-vindos, aliás.

MORTE E MORTE DE JOHNNY ZOMBIE 

O divertido curta de Gabriel Carneiro lembra, pelo menos na origem da infecção que faz com que Johnny se transforme num zumbi, o clássico A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, de Dan O'Bannon. Em MORTE E MORTE DE JOHNNY ZOMBIE (2011, foto), Joel Caetano (de A NOITE DOS CHUPACABRAS) é um trabalhador de uma empresa que trabalha com material radioativo e que um dia volta pra casa diferente. E é noite de reunião festiva com os amigos. Destaque para as imagens do ponto de vista de Johnny, em câmera subjetiva, e também para a participação bem divertida de Felipe M. Guerra, do blog Filmes para Doidos.

MENS SANA IN CORPORE SANO

A produção de filmes em Pernambuco anda muito bem. Mais um exemplo disso é este curta-metragem de horror de Juliano Dornelles. MENS SANA IN CORPORE SANO (2011) é do mesmo selo dos filmes de Kleber Mendonça Filho, o que pode ser indicativo de qualidade. É um filme sobre um sujeito halterofilista xiita que só pensa em malhar o corpo e evitar alimentos nocivos à saúde. O filme, além de oferecer elementos fantásticos bem interessantes, é uma crítica a esse exagero do culto ao corpo. Destaque para a cena do encontro do protagonista com uma prostituta.

OS AMANTES 

Eduardo Aguilar já foi motivo de uma grande entrevista que o Diário de um Cinéfilo promoveu. A maior entrevista que eu já fiz e uma das mais prazerosas. Por coincidência, foi mais ou menos nesse período que Aguilar parou de dirigir filmes. Ou vídeos, já que ele sempre usou a bitola vídeo. Sempre curti o trabalho dele e vivia pedindo por um novo filme. Eis que ele nos apresenta mais um de seus curtas. Ainda assim, considero o seu trabalho menos inspirado, talvez porque foi feito meio que "por encomenda" (é o trabalho de conclusão de um curso), meio que coletivamente. Por isso, OS AMANTES (2013) talvez não represente tão bem o seu melhor. O destaque do curta é o uso das cores e dos fundos, ora claros, ora escuros.

terça-feira, março 19, 2013

GIRLS – A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Girls – The Complete Second Season)



Se há um problema em GIRLS é justamente ter episódios curtos (de meia-hora). Seus episódios passam tão rapidamente, são tão gostosos de ver, que a gente lamenta quando chega o final. Ou às vezes o final é tão bonito que a gente fica olhando os créditos até não existir mais nada para ver, como é o caso do episódio "It's a Shame about Ray", o quarto, em que Jessa, desolada após o fim do casamento com John, encontra Hannah na banheira cantando "Wonderwall", do Oasis, e tira a roupa e as duas ficam juntas lá, dando apoio uma a outra, enquanto a canção original surge para encerrar o episódio. São pequenas coisas como essa que tornam a série especial.

Conta pontos também a liberdade da série em falar de sexo mais abertamente, que já é uma característica dos trabalhos do produtor Judd Apatow também, e daí ele ter se dado tão bem com Lena Dunham, a protagonista, criadora e muitas vezes escritora e diretora dos episódios. Lena pode estar interpretando a si mesma, mas isso não vem ao caso. Até porque, ao final da segunda temporada (2013), os rumos que sua personagem toma, ao ter uma recaída do problema de TOC que teve na adolescência e que voltou depois de toda a pressão de escrever um livro num curto espaço de tempo, torna a personagem ainda mais interessante e dá mais crédito a Lena atriz. Se bem que as coisas podem voltar ao normal, conforme a vontade dos roteiristas, no próximo ano. Aliás, que triste é pensar que só teremos novos episódios em 2014! Mas, pelo menos, no próximo ano, serão doze.

A segunda temporada também marcou uma maior liberdade quanto à criação dos episódios. Houve o episódio especial só com Hannah e um sujeito interpretado por Patrick Wilson. Outro vivido principalmente pelos rapazes da série ("Boys"), que ganham mais presença nesta temporada. Outro em que só vemos Hannah e Jessa, minha favorita. Aliás, quanto ao favoritismo, continuo gostando também da Marnie, mas não consigo aguentar a doidice da Shoshanna. Não convence aquele cara estar apaixonado por uma menina tão sem graça e ainda se comportar daquele jeito. Seria totalmente improvável, se o amor não fosse cego.

A segunda temporada também trata de nos dar uma imagem melhor de Adam, o namorado de Hannah na primeira temporada e que se torna tão ou mais importante que as outras três meninas nesta segunda temporada. A imagem que encerra a temporada é romanticamente bela, trazendo de volta para os tempos pós-modernos os arquétipos do herói masculino e da moça frágil e indefesa sendo resgatada. Uma prova de que, no fundo, Dunham, Apatow e cia. não passam de uns românticos. 

segunda-feira, março 18, 2013

MURALHAS DO PAVOR (Tales of Terror)



Dentre as várias adaptações de Edgar Allan Poe dirigidas por Roger Corman, MURALHAS DO PAVOR (1962) é uma das mais famosas. Fazia tempo que não via esses filmes do Corman dessa fase, que talvez represente o seu auge como diretor, com um cuidado todo especial com a produção, fotografia belíssima em cores e em scope e um respeito pela obra do genial escritor bostoniano. Fazia mais de dez anos que eu não via um desses filmes e este era inédito pra mim, até então. Preciso rever vários que vi em fita VHS. Agora, com a possibilidade de ver em qualidade digital, esses filmes podem ser muito melhor apreciados.

MURALHAS DO PAVOR apresenta três histórias baseadas em contos de Poe. A primeira delas talvez seja a melhor, "Morella", em que uma jovem visita o pai que não vê há muitos anos. O pai é vivido por Vincent Price, que agora é um sujeito amargo e que vive longe de todos, numa casa cheia de teias de aranha (e com aranhas enormes na mesa da cozinha) e, o que é mais interessante, vive com o cadáver da esposa em sua casa. As duas atrizes que fazem tanto a mãe quanto a filha são bem bonitas.

O segundo segmento, "The Black Cat", é o mais problemático, pois é mais longo que os outros e toma mais liberdades poéticas em relação ao conto de Poe, inclusive, acrescentando parte do enredo de outro conto famoso do escritor, "O Barril de Amontillado". Interessante é ver o duelo de interpretações de Peter Lorre e Vincent Price. Há momentos mais leves, como a sequência da degustação de vinho, em que podemos ver o lado mais cômico de Price.

Price também está no terceiro e último segmento, "The Case of M. Valdemar", no papel do próprio Valdemar, o velho moribundo que, através de técnicas de hipnotismo, tem conseguido sentir alívio das dores. Seu desejo é que, no exato momento em que morrer, ele esteja hipnotizado, num estado entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Outra atriz muito bonita de MURALHAS DO PAVOR está presente neste segmento, Debra Paget, no papel da filha do sr. Valdemar. Infelizmente, ela se aposentou muito cedo do cinema, depois que se casou com um milionário chinês. Ainda assim, a moça ainda pode ser vista no trabalho seguinte de Corman, O CASTELO ASSOMBRADO (1963).

domingo, março 17, 2013

FAMÍLIA SOPRANO – A QUINTA TEMPORADA COMPLETA (The Sopranos – The Complete Fifth Season)



E agora só falta uma temporada para eu finalmente terminar de ver FAMÍLIA SOPRANO inteirinha. Pena que, como demoro um pouco entre uma temporada e outra, acabo me esquecendo de alguns acontecimentos de temporadas passadas, principalmente de personagens que surgem na série de passagem e cujos nomes ou rostos reaparecem de um modo ou de outro. Isso acontece nesta quinta temporada (2004), por exemplo, no episódio "The Test Dream", em que se passa quase que totalmente num sonho de Tony. É o episódio mais lynchiano da série, e vários personagens passados, ou seja, mortos, reaparecem. Sem falar que tem a louca aparição de Annette Bening no papel de si mesma!

Mas, perturbador mesmo é o episódio seguinte, o penúltimo, "Long Term Parking", que mostra a decadência física e espiritual de Adriana, a noiva de Christopher, e que desde a temporada passada passa algumas informações para o FBI. É um episódio de cortar o coração, mas é muito curioso como Tony Soprano e sua família (no sentido mais amplo do termo) lidam com situações tão delicadas como essa, muitas vezes tendo que esconder os sentimentos, às vezes procurando enganar a si mesmos. Daí o papel da psicóloga de Tony ser tão importante.

A quinta temporada também é marcada pela participação mais do que especial de Steve Buscemi, o Tony B, o primo de Tony Soprano que esteve atrás das grades por vários anos sem nunca ter entregado a família. Quando sai da prisão, sua intenção é não voltar para os negócios ilegais dos Sopranos, mas conseguir um trabalho honesto e normal. Curioso que o personagem de Buscemi nesta série é muito simpático, bem distante do que ele é em BOARDWALK EMPIRE.

Mas a quinta temporada também revela pelo menos um episódio muito chato e aborrecido, que é "In Camelot", em que Tony conhece a ex-amante de seu falecido pai. Um episódio que eu considero além de chato, bem desnecessário. Outro problema se dá quando alguns personagens, que aparecem pouco, acabam desempenhando um papel muito importante na série, como é o caso de um dos membros da máfia nova-iorquina, o que deseja matar Tony B.

No mais, a temporada também dá destaque a Meadow, principalmente no episódio em que seu namorado consegue um emprego no serviço de construção por intermédio dos Sopranos e vê o quanto isso lhe custa caro. Quanto a A.J., continua sendo o adolescente chato de sempre, e Carmella consegue finalmente trair de fato Tony. Mas o que fica forte mesmo ao final da temporada é o amor de Tony pela família e o seu jeito de resolver as coisas quando seus negócios e sua família estão ameaçados. Não importa se isso vai ou não doer no peito.

sábado, março 16, 2013

VOLÚPIA DE MULHER



Uma das maiores vantagens dos filmes eróticos produzidos na Boca do Lixo nos anos 80, em relação ao anos 70, é que se podia ser muito mais ousado no quesito "voltagem erótica". E isso pode muito bem ser sentido em VOLÚPIA DE MULHER (1984), um filme já próximo no tempo da decadência da Boca com a chegada dos filmes de sexo explícito, que viriam a ser os principais responsáveis pela falência da indústria. O diretor chinês John Doo, só pelo genial segmento “O Gafanhoto”, presente no coletivo PORNÔ! (1981), já merecia o nosso respeito, mas ele tem 13 títulos como diretor, seja só como diretor de um segmento num desses filmes "3 em 1", seja como diretor de um longa-metragem inteiro.

E que sorte que VOLÚPIA DE MULHER caiu na rede numa qualidade bem superior à geralmente encontrada no que se refere a filmes brasileiros da Boca, que quase sempre perdem na telecinagem. No caso desse trabalho de Doo, o filme está bonitinho, com sua janela em 1,66:1 e imagem muito boa, para que possamos apreciar melhor os corpos lindos de Vanessa Alves, Helena Ramos e outras coadjuvantes menos conhecidas, mas que têm o seu momento de briho.

O roteiro, escrito por Ody Fraga, não chega a ser brilhante, mas junto com a direção competente de Doo, faz um trabalho redondinho e com cenas de sexo realmente excitantes, que não envelheceram mal com o tempo. A primeira cena, com Vanessa no rio com o namorado, já mostra a que veio. Doo consegue depois unir a trama com os demais personagens, seja o travesti Lili Marlene (Romeu de Freitas), a médica vivida por Helena Ramos e o seu namorado pintor, vivido por André Loureiro.

O tal pintor tem sonhos com uma moça com um rosto perfeito e por isso vive pintando modelos nuas em sua casa, mas elas nunca são o que ele realmente deseja. Porém uma delas fica tão à vontade em estar nua e está louca para dar para o pintor que isso acaba rendendo um dos momentos de maior voltagem do filme. Mas o sonho do pintor está em Cristina, a personagem de Vanessa. É ela a garota com rosto de anjo mas com as marcas do sofrimento da vida que ele tanto deseja.

O final não é dos melhores, destoando um pouco do início e do desenvolvimento, que são mais bem cuidados. Claro que não dá para pedir ao filme excelência estética ou querer inovação artística. Mas do jeito que está, por mais que algumas sequências até sejam de gosto duvidoso, como a visão do pintor de Vanessa correndo na praia com os seios de fora, VOLÚPIA DE MULHER é um filme que vale ser descoberto, sim.

sexta-feira, março 15, 2013

A BUSCA



Atualmente a Globo Filmes tem recebido algumas pauladas de quem deseja um cinema brasileiro popular mas de qualidade. Mas é bom que a gente saiba que isso de vez em quando acontece. E por mais que possa ser injusto ver um filme como A BUSCA (2012) ganhando propaganda em programas como o Big Brother Brasil e o Programa do Jô, enquanto os demais precisam se virar sozinhos, é justo no sentido de que o filme merece ser visto. Se o resultado vai ser positivo nas bilheterias, só saberemos daqui a alguns dias. O que posso dizer é que se trata de um dos mais belos filmes sobre o relacionamento entre pai e filho que o cinema brasileiro já apresentou. Talvez só perdendo mais recentemente para os trabalhos de Breno Silveira, em especial, 2 FILHOS DE FRANCISCO e À BEIRA DO CAMINHO.

Estreando na direção de longas-metragens, Luciano Moura parece ter bastante intimidade com a câmera e um desejo de fazer uma obra que trabalhe muito bem com os limites entre a força e a fragilidade dos personagens. A fragilidade vem de um relacionamento em ruínas, que acaba fazendo com que o único filho do casal vivido por Wagner Moura (Theo) e Mariana Lima (Branca) se sinta mal a ponto de sair de casa. Não se sabe para onde, não se sabe por quê. Quanto à força, ela vem do próprio desespero.

E ao mesmo tempo em que é um retrato intimista do relacionamento conturbado de um casal, com o uso da câmera muito próxima dos dois, nas sequências mais íntimas, nem que seja nos momentos de hostilidade, o filme é também um road movie em que a jornada de Theo é extremamente física, mas principalmente espiritual.

O desaparecimento do filho e os rastros que ele deixa pelo caminho vão se tornando elementos cada vez mais definidores do amor que ele sente pela esposa que o rejeita, pelo filho que foi por ele incompreendido e pelas pessoas que ele encontra pelo caminho (destaque para uma cena de causar lágrimas, a do parto). E no meio disso há ainda uma relação bem complicada que Theo tem com o próprio pai (Lima Duarte).

E se A BUSCA usa um naturalismo bem tradicional para melhor comunicar e trazer o espectador para mais perto da história, o filme está longe da teledramaturgia típica dos programas da Rede Globo, o que é um alívio. Há que ressaltar a boa produção da O2 Filmes, de Fernando Meirelles, que tem sido, nos últimos anos, melhor produtor do que diretor. Falando em Meirelles, um dos atores mais importantes de CIDADE DE DEUS está presente em A BUSCA, em um papel pequeno e só creditado no final.

Certamente, o filme emocionará às tantas pessoas que têm ou tiveram algum problema mal resolvido com os pais. Ou talvez até mesmo àquelas que nunca tiveram tal problema. A BUSCA deve muito também à excelência desse que é um dos maiores atores de sua geração, Wagner Moura, que constrói um personagem tão carismático que nos faz compartilhar com ele os momentos de alegria e de dor.

quinta-feira, março 14, 2013

DZI CROQUETTES



Ver DZI CROQUETTES (2009) é como viajar no tempo. Mesmo não conhecendo o grupo de teatro que influenciou tantos outros artistas brasileiros e fez sucesso até fora do Brasil, tendo Liza Minelli como madrinha, acompanhar o documentário de Tatiana Issa e Rafael Alvarez traz reflexões sobre um tempo que parece distante diante das mudanças operadas na contemporaneidade, mas que parecem próximas quando nos trazem lembranças fortes, ainda mais à medida que a tão bem contada história da trupe vai se tornando mais próxima de nossa época e de nossas lembranças, algumas delas escondidas no porão da memória.

Um pouco de preconceito pode surgir inicialmente na cabeça de um espectador heterossexual, ao ver aquele grupo gay rebolando seminu no palco de maneira estranha, mas não tão estranha assim se pensarmos no quanto fez sucesso um artista como Ney Matogrosso, presente entre os vários que ajudaram a contar a história do grupo. E a história no final ganha uma narradora que a princípio parece intrusiva, mas que não é, já que é a própria diretora, e que é filha de um dos homens que fizeram parte da equipe dos Dzi.

Depois da metade do filme, já estava gostando daqueles homens estranhos que ousaram desafiar o comportamento sexual da época. Até porque os depoimentos de gente como Cláudia Raia, Betty Faria, Maria Zilda Bethlem, Jorge Fernando, Elke Maravilha, Ney Matogrosso, Miele, Pedro Cardoso, Liza Minelli, Marília Pêra e dos próprios sobreviventes do grupo, são inflados de emoção genuína. Sente-se a sensibilidade e o amor por aqueles que fizeram os Dzi Croquettes.

E a história é tão bem contada a partir desses depoimentos, com um ritmo tão dinâmico e uma edição tão bem recortada que fica difícil não reparar nesse aspecto do filme. Afinal, fazer um documentário de um grupo de teatro pouco conhecido nacionalmente, já que teatro é uma arte que não trafega por todos os lugares do país, não deixa de ser algo arriscado. Mas não é mesmo um filme para se ganhar dinheiro, é um trabalho feito com amor e feito para ser bem sucedido artisticamente.

Como os Dzi Croquettes, que formavam uma verdadeira comunidade, ao morarem juntos, enfrentando juntos tanto a aprovação quanto o preconceito da sociedade. Brincando com a falta de recursos e com a necessidade de um glamour que faz parte do jeito gay de ser, o grupo chamou a atenção de muitos, inclusive de muitas mulheres que se tornaram fãs.

O filme vai ficando mais emocionante quando começa a falar sobre o “câncer gay”, que é como a AIDS era tratada no início, quando se acreditava que a doença era exclusividade dos homossexuais. É quando vemos o quanto ela foi impiedosa para com vários membros do grupo. Os depoimentos emocionados nos comovem, principalmente depois que já estamos mais próximos do grupo, depois que fomos apresentados a essas pessoas especiais. E que bom que o filme está aí para apresentá-los a quem não os conhece e a emocionar mais ainda aqueles que com eles de alguma forma foram mais próximos.

Texto originalmente publicado na Revista Zingu!, edição 51, de novembro de 2011.

quarta-feira, março 13, 2013

NO



Uma das primeiras coisas que salta aos olhos logo que vemos as primeiras imagens de NO (2012), de Pablo Narraín, é a fotografia. Parece até falha da cópia ou da projeção, de tão acentuadas suas imperfeições. Mas depois percebemos que isso foi proposital. Isso e a janela em 1.33:1 remetem ao formato da televisão da segunda metade dos anos 1980. Narraín filmou em u-matic, a tecnologia de gravação dos aparelhos de videocassete da época. Assim, a imagem às vezes parece desfocada.

O filme se passa em 1988, ano em que o ditador e então presidente do Chile Augusto Pinochet convoca o povo para um plebiscito: dizer nas urnas "sim" ou "não" ao seu governo. Quem tem a coragem de peitar a sua ditadura que já matou, torturou e fez desaparecer tantas vítimas é o grupo responsável pela campanha do "não".

O plebiscito foi feito por causa das pressões externas. A maioria dos países latino-americanos já havia se livrado da cruz dos regimes militares e estava entrando em processo de redemocratização. Pinochet, que não queria largar o osso, em vez de entregar o país para novas eleições, faz uma campanha em seu favor, dando apenas 15 minutos diários para que a oposição seja criativa o suficiente para fazer com que a população vote "não" nas urnas. E ainda fazendo terrorismo, que é para não perder o costume.

Gael García Bernal é o publicitário filho de militante que viveu alguns anos no exterior que é contratado pelo grupo oposicionista, composto em sua maioria de socialistas. Ele é contra a ideia de fazer uma campanha pesada, atacando o governo e falando dos desaparecidos políticos. Segundo ele, isso não vende, só traz mais medo para a população. Assim, sua propaganda otimista fica parecendo mais uma propaganda de refrigerante. E bem típica dos anos 80, com aquele colorido exagerado. Mas a ideia é interessante e sabemos que dá certo no fim.

Aliás, um dos grandes trunfos de NO é conseguir prender a atenção, e até com certa tensão, até o fim, mesmo sabendo que o "não" triunfará. Mas é como isso acontece que nos interessa. Por isso, o filme também tem uma importância histórica e didática. Mas sem perder suas virtudes fílmicas. Afinal, seu final agridoce mostra que apesar de os chilenos terem ganhado uma luta, ainda havia muito a ser conquistado. E essa sensação de amargor é sentida principalmente no rosto do personagem de Bernal, aqui em um dos momentos mais brilhantes de sua carreira.

NO foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, tendo perdido para AMOR, de Michael Haneke.

terça-feira, março 12, 2013

A FUGA (Deadfall)



Infelizmente a estreia do cineasta austríaco Stefan Ruzowitzky em Hollywood não foi das mais felizes. Mais conhecido pelo horror ANATOMIA (2000) e pelo drama de guerra OS FALSÁRIOS (2007), o diretor foi convidado a dirigir um elenco bem interessante num thriller que aqui ganhou o nome de A FUGA (2012). Infelizmente o roteiro pouco inspirado e com diálogos ruins acaba prejudicando as possibilidades de o filme ganhar a força necessária para fazer o sangue gelar. E nem me refiro à geografia do filme, ambientado numa das regiões mais frias dos Estados Unidos, próxima à fronteira com o Canadá, mas à capacidade que os grandes filmes de suspense têm de mexer com a nossa circulação e nossa frequência cardíaca.

Um dos pontos positivos do filme é exatamente esse visual branco, que às vezes contrasta com o vermelho do sangue derramado de algumas vítimas. Também há algo de pouco comum, que é Eric Bana no papel de um sujeito mau. Ele havia aparecido como uma espécie de vilão em CHOPPER - MEMÓRIAS DE UM CRIMINOSO, de Andrew Dominik, além de esconder seu rosto de bom rapaz sob a maquiagem para atacar a Enterprise em STAR TREK, de J.J. Abrams, mas, de cara lavada, demora a convencer. .

Olivia Wilde não tem a mesma dificuldade de convencer que é aquele espetáculo de mulher, mas é prejudicada pelo papel e pelas falas. A cena em que sua personagem tenta seduzir o personagem de Charlie Hunnam chega a ser constrangedora de tão ruim. Assim, os melhores momentos acabam sendo os que envolvem Eric Bana.

Há também um grupo de coadjuvantes que poderiam salvar o filme, mas que não o fazem por serem apenas elenco de apoio, como é o caso de Kate Mara, Kris Kristofferson e Sissy Spacek. Mas quando eles aparecem em cena, o filme ganha em qualidade. Tanto a jovem Kate quanto o casal de veteranos representam muito bem pessoas que vivem naquela pequena cidade do interior. Aliás, outro elemento estranho e muito interessante no filme é o meio de transporte que os policiais utilizam para conseguir se movimentar na neve.

Na trama, Eric Bana e Olivia Wilde são dois irmãos de comportamento muito estranho que aplicam um golpe num cassino. O filme já começa com eles dois e mais um motorista contando uma grande quantidade de dinheiro no carro. Até que um acidente fatal faz com que apenas os dois sobrevivam e um policial acaba assassinado pelo personagem de Bana, que sugere que eles se separem para se encontrarem depois, após atravessarem a fronteira do Canadá. Paralelamente, vemos a história de um ex-boxeador recém-saído da penitenciária e que acaba cometendo um crime. Ele é o homem que dará carona para a bela e complicada golpista.

O roteirista Zach Dean é estreante. Engraçado como Hollywood tem dessas coisas: um diretor estreante no país, mas com um currículo interessante, chamado para dirigir um roteiro de um sujeito sem nada no currículo. Esforçado, Ruzowitzky faz o que pode para salvar o filme, que, mesmo não sendo nenhuma maravilha do cinema de suspense, consegue prender a atenção até o fim e tem os seus momentos.

segunda-feira, março 11, 2013

AS 4 AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE (4 Aventures de Reinette et Mirabelle)



Desde 2010, com a morte de Eric Rohmer, que eu não assistia um de seus deliciosos filmes. Com tanto lixo passando nos cinemas, é sempre bom poder se desintoxicar com as pérolas deste que, com o tempo, acabou se tornando o meu cineasta francês favorito. Então, também para matar a saudade, resolvi pegar para ver AS 4 AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE (1987), um trabalho que poderia muito bem se enquadrar na série "Seis Contos Morais", que o cineasta lançou nas décadas de 60 e 70. Mas no caso de AS 4 AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE, a diferença é que não se trata de uma única história, mas de quatro. Quatro episódios tratando de diferentes assuntos, mas que, pelo menos em dois deles, a questão moral é discutida.

Em MINHA NOITE COM ELA (1969), senti-me incomodado com o protagonista por ter rejeitado o convite de sexo de uma mulher tão atraente, logo depois de o diretor ter criado um clima tão sensual. Eis que também me senti irritado com uma personagem "certinha" de AS 4 AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE; no caso, Reinette. Ela volta para pagar um café no outro dia, mesmo tendo fugido com a amiga por não ter dinheiro trocado; ela pega no flagra uma mulher que passa golpes na estação, dizendo que está precisando de dinheiro para o ônibus, e tenta ir à forra; ela julga a amiga Mirabelle por ter trazido para casa alimentos roubados por uma cleptomaníaca.

Sim, ela está certa. E sim, eu provavelmente faria o mesmo, principalmente no caso do café, no divertido episódio do garçon, sem dúvida o mais engraçado dos quatro. Mas talvez parte de mim queira ser aventureira como a Mirabelle, ser capaz de fazer algo proibido só pelo prazer de mudar a rotina e sentir a adrenalina correndo nos sangue. E o interessante também é que Rohmer, por ser um cineasta que geralmente lida com coisas do dia a dia, torna coisas banais em coisas grandes.

Se bem que eu não acho nada banal a fascinante "hora azul", que, segundo Reinette, é uma hora em que o mundo parece parar de respirar. São cerca de 10 minutos pouco antes do nascer do sol, em que os pássaros da noite param de cantar e os pássaros do dia ainda não começaram o seu canto. Até mesmo os animais que rastejam param de fazer qualquer ruído. E isso só pode ser percebido num lugar no campo, sem o barulho da cidade. Rohmer, assim como fez em O RAIO VERDE (1986), repete novamente essa magia que parece existir na vida cotidiana.

O filme é constituído de quatro episódios de menos de meia hora cujos títulos são: "L'Heures Bleue"; "Le Garçon de Café"; "Le Mendiant, la Kleptomane et l'Arnaqueuse"; e "La Vente du Tableau". Alguns rostos conhecidos, de outros filmes de Rohmer, como NOITES DE LUA CHEIA (1984) e UM CASAMENTO PERFEITO (1982), podem ser vistos em pequenos mas importantes papéis. E tudo é apresentado com um senso de humor que faz com que a gente veja o filme com um sorriso de satisfação no rosto.

domingo, março 10, 2013

OZ – MÁGICO E PODEROSO (Oz – The Great and Powerful)



Quando a gente pensa que conseguiu de volta um diretor bom que havia se perdido pelo caminho – dirigindo os filmes da trilogia HOMEM-ARANHA (2002, 2004, 2007) -, ao ver uma obra tão divertida e um retorno ao gênero que o consagrou, com ARRASTE-ME PARA O INFERNO (2009), eis que Sam Raimi se rende novamente aos grandões de Hollywood e faz mais um filme ditado pelas regras do mercado, engrossando o número de filmes de fantasia que enchem as salas de cinema atualmente.

Pois é com OZ – MÁGICO E PODEROSO (2013) que Raimi dá sua contribuição para esse momento não muito interessante do cinemão contemporâneo. Até porque não são filmes de fantasia que trazem algo novo, mas que sempre requentam alguma coisa, seja do cinema, seja da literatura. No caso do filme de Raimi, ele se pretende um prelúdio do clássico musical O MÁGICO DE OZ (1939). E adivinhem só: já está engatilhado um remake para o musical, previsto para 2014. Criatividade, que é bom, cadê?

Pelo menos o filme de Raimi tem alguns poucos momentos de irreverência quanto ao filme original, como na cena em que um grupo de anões começa a organizar um número musical para o "poderoso Oz" e ele diz: "não!, chega!, parem!", o que sinaliza uma interessante falta de paciência do diretor e de seus roteiristas para com aqueles números musicais do filme de Victor Fleming. Curiosamente, eu estava sentado na cadeira logo à frente de uma garotinha, que, antes de começar o filme conversava com uma senhora mais velha sobre Judy Garland e manifestava seu interesse pelo clássico. Na hora da interrupção do número dos anões ela fez um "ah!" de desapontamento.

OZ – MÁGICO E PODEROSO pode até agradar a um bom número de pessoas, mas a impressão que fica é de que é uma dessas sessões da tarde chatas e sonolentas, cujas lembranças vão embora rapidamente. Eu, pelo menos, mesmo depois de ter tomado um expresso antes do filme, tive que sair para comprar uma daquelas pipocas caríssimas lá do lado de fora, para conseguir terminar de ver o filme acordado. Quer dizer, além de pagarmos mais caro pelo 3D, há também esse convite ao consumo da pipoca e do refrigerante. E digo mais: os efeitos 3D nem são dos melhores.

Claro que se percebe nos efeitos especiais que se trata de uma produção milionária. O orçamento estimado é de 200 milhões de dólares e, com todo esse dinheiro, é mais do que obrigação dos produtores entregarem um bom filme do ponto de vista da produção e dos efeitos especiais. Então, não chega a ser grande mérito.

Por outro lado, também não dá para cobrar mais complexidade num filme que se pretende ser dirigido também ao público infantil, explicitando o caráter bondoso e malvado de vários personagens. Até mesmo o personagem de James Franco, o Oz, que é um enganador e ambicioso mágico de truques do início do século XX, mostra a sua porção bondosa no filme, o que é natural. Por isso que é bom saber o que as crianças acharam do filme, para ver se o OZ – MÁGICO E PODEROSO foi bem sucedido nesse sentido; se as bruxas, a boneca de porcelana, o macaco voador e tantos outros personagens do filme causaram nelas algum encantamento.

Na trama, James Franco é um mágico de circo itinerante que é levado por um furacão do Kansas para uma terra mágica e colorida – o efeito da tela se abrindo de um preto e branco de proporção 1,33: 1 para 2,35:1 não deixa de ser bonito, principalmente se o filme for visto numa sala de boa qualidade de projeção. Lá ele é confundido com Oz, um mágico que seria enviado para aquela terra para salvar os oprimidos das garras de uma bruxa má.

Além de James Franco, que está bem no papel, o elenco destaca três beldades: Michelle Williams, Mila Kunis e Rachel Weisz. Bruce Campbell, o eterno Ash da trilogia EVIL DEAD (1981, 1987, 1992), comparece numa ponta um tanto difícil de identificar. Devido ao sucesso comercial do filme, a Disney já se manifestou positivamente quanto a uma continuação.

sábado, março 09, 2013

AMOR É TUDO O QUE VOCÊ PRECISA (Den Skaldede Frisør)



Pode-se dizer que AMOR É TUDO O QUE VOCÊ PRECISA (2012) é o melhor trabalho de Susanne Bier desde DEPOIS DO CASAMENTO (2006). Este último continua sendo o meu favorito da diretora. Os dois filmes guardam semelhanças, além da já tradicional marca de Bier de tratar de relacionamentos humanos e seus conflitos e possíveis harmonizações. Ambos os filmes tratam de uma cerimônia de casamento, mas enquanto DEPOIS DO CASAMENTO é um melodrama pesado, AMOR É TUDO O QUE VOCÊ PRECISA procura ser leve, mesmo lidando com temas espinhosos como traição, câncer e luto.

Os protagonistas são o ex-007 Pierce Brosnan e a dinamarquesa Trine Dyrholm, que já havia trabalhado com a diretora no oscarizado EM UM MUNDO MELHOR (2010). Ele, Philip, é um viúvo que leva uma vida dedicada ao trabalho. Mora na Dinamarca, mas continua falando seu inglês básico com as pessoas. Perdeu a esposa num acidente de automóvel e nunca mais quis saber de ninguém. Ela, Ida, é uma cabeleireira que, assim que termina o seu tratamento de quimioterapia contra o câncer no seio, flagra o marido transando com outra mulher em sua casa. Tanto Philip quanto Ida precisam ir à festa de casamento de seus filhos, na Itália.

Esses dois desconhecidos que se encontram por uma espécie de ironia do destino (como parece acontecer também nos demais trabalhos da diretora) precisam dar mais atenção a seus filhos que irão casar do que a seus próprios problemas. O que não quer dizer que uma atração não faça com que eles se aproximem. Mas tudo isso é tecido com muita delicadeza por Bier, que também constrói muito bem os demais personagens, como os noivos, a cunhada de Philip e o marido de Ida. Todos contribuem para um todo orgânico muito gostoso de assistir. Percebe-se que, por mais que haja clichês de comédias românticas, o filme tem o seu diferencial.

Pierce Brosnan está particularmente simpático no filme, além de ter um charme que justifica sua escolha para ser um James Bond, mas que infelizmente não rendeu bons filmes do agente. Ele está melhor assim, sob a direção de uma mulher talentosa como Bier, por exemplo. Mesmo sendo ele o único representante da língua inglesa no filme e o único que não fala dinamarquês (talvez mais por deficiência do ator do que do personagem) raramente passa uma impressão de soberba, por mais elegante e rico que seu personagem seja.

O dom da diretora em lidar com vários personagens e de poder também divertir o espectador se dá principalmente na festa que antecede o casamento, um momento em que muitas coisas acontecem na vida de vários personagens. E por mais que haja uma série de conflitos, tudo é tratado com relativa leveza. Algumas surpresas, inclusive, podem ser desconfiadas apenas por quem presta atenção nos detalhes. No elenco coadjuvante, destaque para a bela Molly Blixt Egelind, no papel da jovem noiva Astrid.

Um filme adorável que pode até ser visto como uma diversão escapista, mas direção, elenco, bons diálogos e um cenário paradisíaco contribuem para que AMOR É TUDO O QUE VOCÊ PRECISA passe longe da vulgaridade.

A propósito, o próximo trabalho de Susanne Bier, SERENA (2013), seu segundo em Hollywood, será estrelado por Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, o simpático casal de O LADO BOM DA VIDA

sexta-feira, março 08, 2013

POR AMOR OU POR VINGANÇA (La Moglie Più Bella)



Faleceu ontem um dos grandes cineastas do cinema italiano, Damiano Damiani, aos 90 anos. Damiani deixou uma obra com mais de 30 títulos, de gêneros bem diversificados, como a tradicional comédia italiana (INFIDELIDADE À ITALIANA, 1963), o drama existencial (VIDAS VAZIAS, 1963), o western spaghetti (UMA BALA PARA O GENERAL, 1966; TRINITY E SEUS COMPANHEIROS, 1975); o thriller (O DIA DA CORUJA, 1968); o drama de máfia (CONFISSÕES DE UM COMISSÁRIO DE POLÍCIA, 1971); o horror (AMYTIVILLE 2 – A POSSESSÃO, 1982); e um filme angustiante e belo como este POR AMOR OU POR VINGANÇA (1970), que eu só tive o prazer de ver ontem à noite, em homenagem ao mestre.

O filme marca a estreia nas telas de uma das mais belas atrizes do mundo: Ornella Mutti. Aliás, ainda em 1994, ela chegou a ser eleita a mulher mais bonita do mundo, pela revista Class. Em POR AMOR OU POR VINGANÇA, ela tinha apenas 14 anos de idade, era uma modelo infantil e já mostrou nas telas não apenas a beleza, mas também uma força feminina que seria uma característica de várias de suas personagens. Woody Allen fez-lhe uma pequena homenagem ao dá-la um pequeno papel em PARA ROMA COM AMOR, no ano passado.

Em POR AMOR OU POR VINGANÇA, ela é uma jovem filha de camponeses, pobre, que é assediada por um jovem líder de uma família de mafiosos da região. O rapaz, de nome Vito (Alessio Orano), fica responsável pelos negócios da família enquanto o seu mentor está na cadeia. Um dos conselhos do velho é que ele se case, de preferência com uma jovem pobre e honesta. A adolescente Francesca (Ornella) foi a sua escolhida. Para espantar o outro pretendente, ele faz do jeito que um mafioso italiano clássico faria.

A garota se apaixona por ele, mas não é de modo algum submissa. Isso faz com que Vito tome algumas atitudes machistas que só pioram a situação. POR AMOR OU POR VINGANÇA é quase um libelo feminista. Se não fosse pela sequência final, angustiante e triste, daria para encarar o filme como sendo uma obra de redenção, de vitória dos mais fracos perante a opressão do mais forte; da justiça perante a desonestidade. Porém, o jovem Vito não é de todo mal, tem um carisma e uma simpatia próprias. E isso faz a diferença.

Damiani nos presenteia com um conto moral sobre os relacionamentos entre homem e mulher, sobre dominação e submissão, e principalmente sobre a resistência e a coragem de uma moça. Tudo isso em uma sociedade bastante conservadora. E com as tintas trágicas que os italianos sabem tão bem lidar.

quinta-feira, março 07, 2013

SEARCHING FOR SUGAR MAN



Quando o amigo Chico Fireman, a poucos momentos da festa do Oscar, disse que viu o documentário SEARCHING FOR SUGAR MAN (2012) e que o melhor a fazer é vê-lo sem ler nada a respeito, fiz exatamente isso. E, como não sabia nada da história do músico Rodriguez, acabei tendo surpresas muito agradáveis ao longo do filme, um dos documentários mais bonitos e emocionantes dos últimos anos. Por isso, também não pretendo falar muitos detalhes aqui no blog, mas apenas os três ou quatro parágrafos mínimos mesmo, para não deixar passar uma obra tão importante.

Inicialmente, há que se dar o devido crédito ao cineasta sueco Malik Bendjelloul, que conduziu com maestria o filme, sabendo quando e como dar as informações para o espectador, a fim de que ele fique instigado a acompanhar o documentário com cada vez mais interesse. Logo no prólogo, somos apresentados a um homem sul-africano que ganhou o apelido de Sugar (Stephen 'Sugar' Segerman). Ele é dono de uma loja de discos e um dos investigadores do desaparecimento do mítico cantor.

E a princípio, ele já surge com a primeira das teorias a respeito de seu desaparecimento: ele tocara fogo em seu próprio corpo em pleno show. Isso tornaria o seu suicídio um dos mais bizarros da história da música. Existem outra teorias, que dão outras versões da morte do músico. Ao mesmo tempo, somos apresentados aos poucos à extraordinária música de Rodriguez, que pontua o filme e nos faz ver a qualidade da produção desse artista que lançou apenas dois álbuns no início dos anos 1970 e depois sumiu.

Curiosamente, Rodriguez é uma espécie de Elvis Presley na África do Sul, tal o grau de popularidade nesse país, enquanto é praticamente anônimo nos Estados Unidos, seu país de origem, onde vendeu pouquíssimas cópias de seus discos. Fazendo uma comparação de Rodriguez com Bob Dylan, com quem guarda alguma similaridade sonora, os dois homens que fazem a tal investigação para saber o paradeiro de Rodriguez consideram-no muito superior ao famoso bardo.

E assim o filme vai seguindo numa linha de documentário investigativo, à medida que nos convence, com a própria música de Rodriguez, da genialidade do cantor e compositor. Também nos apresenta ao quadro político e social da África do Sul da época do apartheid e de uma censura que causa indignação. Com isso, algumas surpresas e emoções aguardam o espectador, dessas de arrepiar mesmo. Eis um filme que definitivamente toca o nosso coração com sentimentos às vezes conflitantes.

SEARCHING FOR SUGAR MAN foi o vencedor do Oscar 2013 de melhor documentário em longa-metragem.

quarta-feira, março 06, 2013

INSIDE DEEP THROAT



Documentário que agrada tanto àqueles que nada sabem sobre os bastidores de GARGANTA PROFUNDA (1972) quanto a quem já conhece, mas quer ver depoimentos do diretor Gerard Damiano, da atriz Linda Lovelace, de familiares dela e do ator Harry Reems. Uso os termos "ator" e "atriz" só para não usar outro termo, como performer, que é às vezes usado para citar astros de filmes pornôs.

INSIDE DEEP THROAT (2005) investiga também as ligações do filme com a máfia e a repercussão que ele teve na sociedade e na política. Havia uma parte da sociedade que via a pornografia como algo extremamente nocivo. Inclusive, o filme mostra até mesmo exames neurológicos para detectar algum problema no cérebro humano quando ele se submete à pornografia. Acabaram não encontrando nada que comprovasse isso. E no fim das contas vimos que o sucesso do filme foi alavancado pela luta do governo americano em tentar censurá-lo.

Ao ver o documentário, temos também uma ideia de quão grande foi a repercussão de GARGANTA PROFUNDA na sociedade. Todo o mundo queria ver o filme, homens e mulheres. Houve também muito debate a respeito do sexo oral, que era considerado algo sujo pela sociedade. Sem falar que o filme mostra uma mulher sentindo extremo prazer ao praticar a felação. Pelo que foi dito no filme, Linda Lovelace tinha bastante tesão por Harry Reems, o que enciumava seu namorado, que a acompanhava. Depois, quando ela rejeitou o filme, acusando todos os envolvidos de terem-na estuprado, já não parece mais tão convincente.

O filme traz depoimentos interessantes de gente não necessariamente envolvida com o filme, como o escritor Gore Vidal, a intelectual Camille Paglia, o escritor Norman Mailer, o fundador da Playboy Hugh Hefner, o cineasta John Waters e o fundador da Hustler Larry Flynt. Além desse pessoal, há as pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o filme. Desses, a história que mais me comoveu foi a de Harry Reems, que não é o autor intelectual do filme, mas foi condenado à prisão por cinco anos só por ter participado. Um absurdo. Depois o ator caiu nas drogas e quase morreu por isso. Nas entrevistas, ele parece ter superado bem o que ocorreu. Na época, ele recebeu o apoio de astros como Jack Nicholson e Warren Beatty.

Mas INSIDE DEEP THROAT abre espaço também para pessoas que consideram a pornografia ofensiva. Duas mulheres, Gloria Steinen e Susan Brownmiller, dizem o quanto os filmes pornôs degradam a mulher. Porém, o exemplo maior de ataque ao filme é o do promotor Larry Parrish, que, com uma Bíblia em sua mesa, diz que lamenta muito ter visto o filme e que até hoje aquelas imagens o atormentam.

terça-feira, março 05, 2013

GARGANTA PROFUNDA (Deep Throat)



Este ano o filme de sexo explícito mais famoso de todos os tempos completa 40 anos. Para comemorar, um filme está para sair, contando a vida da estrela de GARGANTA PROFUNDA (1972), Linda Lovelace. A produção, intitulada LOVELACE, conta com Amanda Seyfried interpretando a mulher que foi uma das responsáveis por uma revolução sexual, já que o filme de Gerard Damiano trouxe a pornografia e principalmente a felação para o centro das discussões naquele momento.

Mas deixemos os detalhes sobre os bastidores para outra oportunidade, já que pretendo escrever um pouco sobre o documentário INSIDE DEEP THROAT (2005) em breve. Falemos do filme em si. Para começar, GARGANTA PROFUNDA, assim como a grande maioria dos filmes pornôs da década de 1970, envelheceram, no sentido de que eles não são suficientemente bons como objetos de excitação. Embora haja, claro, exceções, como os filmes de Radley Metzger. Recentemente eu vi A IMAGEM, que além de tudo é lindo e sofisticado. Ao que parece, os filmes seguintes de Damiano são melhores. Mas nenhum deles foi tão popular quanto GARGANTA PROFUNDA.

Um dos charmes deste pequeno filme de uma hora de duração está na utilização de uma trilha sonora rock nas cenas de sexo, em vez dos tradicionais gemidos. A tentativa de se criar uma história faz com que as cenas de diálogo sejam mais divertidas do que as cenas de sexo. Bom, pelo menos, até o momento em que Linda Lovelace (que atua com o próprio nome) experimenta, de acordo com orientações do psiquiatra, a tão famosa garganta profunda. Impressionante aquilo! E Linda passa mesmo a impressão de que estava mesmo com tesão, com muita vontade de aplicar aquele sensacional boquete em Harry Reems, o divertido médico louco.

Antes disso, porém, o filme é um tanto chato. Até porque as cenas de sexo com a amiga e a orgia patrocinada por ela para ajudar Linda a sentir um orgasmo parecem filmagens amadoras. Sem falar que a companheira de quarto de Linda não é lá muito bonita. O melhor momento do filme é mesmo a descoberta, no consultório médico, de que Linda não tem clitóris na vagina, mas na garganta. Trata-se, portanto, de um filme para se ver mais como uma comédia para adultos do que como um filme para se aliviar. E Linda Lovelace é uma graça, com aquele jeito de moça normal, da vizinhança, mas que tinha um encanto todo especial.

segunda-feira, março 04, 2013

DEZESSEIS LUAS (Beautiful Creatures)



Por mais que se fale mal por aí de CREPÚSCULO, ainda tenho mais respeito pelo primeiro filme da série do que por esses subprodutos que seguem a linha "jovem normal que se apaixona por criatura com poderes sobrenaturais". DEZESSEIS LUAS (2013) é provavelmente o mais ordinário de todos, apesar de não ser tão ruim quanto o trailer dá a entender. Aliás, a melhor vantagem de o filme ter estreado é não ter que ver mais o trailer. Falo brincando, mas com toda a sinceridade do mundo. Principalmente ver a Emma Thompson, uma atriz com um passado tão glorioso, se submetendo a fazer uma bruxa malvada tão caricata. E aquela risada dublada, então! De dar calafrios.

Nesse sentido, sua personagem está mais para contos de fadas infantis do que para histórias de amor para adolescentes que simpatizam com a mitologia wicca. Não deixa de ter o seu lado positivo também, já que durante muitos anos aqueles (principalmente aquelas) que praticavam esses rituais eram até queimados em fogueiras, durante a Idade Média. Hoje, com a liberdade de exercer a sua religião e as suas crenças, tudo é permitido. Outro ponto positivo do filme também é de natureza sócio-cultural: o incentivo à leitura, ao apresentar uma personagem que lê Charles Bukowski, entre outras citações literárias. De qualquer maneira, ainda é muito pouco e o que importa é mesmo as qualidades do filme. No caso, a falta delas.

Assim, DEZESSEIS LUAS derrapa quando lida com o relacionamento amoroso do jovem casal de protagonistas e é pior ainda quando parte para a bruxaria, para a família de Lena Duchannes (a jovem Alice Englert, filha da cineasta Jane Campion). A atriz, inclusive, é bela e tem carisma. É possível que tenha uma carreira bem sucedida em Hollywood. Quanto ao rapaz, Alden Ehrenreich, que faz o personagem Ethan Wate, ele é simpático, pôde ser visto em TETRO e TWIXT, os últimos trabalhos de Francis Ford Coppola, mas talvez falte a ele maior charme. De qualquer maneira, não sou a melhor pessoa para julgá-lo nesse quesito. Que fique para as meninas a tarefa.

Na trama, Ethan é um rapaz que está perto de terminar o colegial. Mora numa pequena cidade da Carolina do Sul e costuma ser atormentado por sonhos em que aparece sempre uma garota que ele não conhece. Certo dia, uma nova garota chega na cidade e começa a estudar com ele, em sua sala de aula. Ela, Lena Duchannes, já é recebida com hostilidade pelos moradores do lugar e pelos alunos da escola. Sua família já havia ganhado fama de satanista.

O amor quase impossível entre Ethan e Lena acontece com as dificuldades que a família de Lena impõe e porque em breve ela passará por uma transformação, na qual se tornará uma bruxa que pode pender tanto para o lado bom quanto para o lado mau. Seu tio, vivido por Jeremy Irons, tenta levá-la para o caminho do bem da bruxaria, mas sua mãe (Emma Thompson), que a abandonou, pretende vê-la tão má quanto ela é.

Apesar de DEZESSEIS LUAS buscar no final tons de cinza, o que predomina ao longo do filme como um todo é o preto no branco, o bem e o mal, sempre presentes de forma bem simplista e aborrecida. É possível encarar com certo humor as cenas de bruxaria na casa de Lena, mas na grande maioria das vezes esses são os momentos mais fracos e tediosos do filme. Sem falar que toda essa história de magia acaba fazendo com que a trama possa tomar qualquer solução inesperada ou mirabolante. E vale dizer que as soluções encontradas pelas autoras do romance (duas pessoas deveriam pensar melhor do que uma, não?) e pelo roteirista não são das melhores.

O diretor Richard LaGravanese já havia se mostrado bem pouco talentoso em abordar histórias de amor com o fraco P.S. EU TE AMO (2007), mas há quem teça elogios para a história de professor ESCRITORES DA LIBERDADE (2007), este último lançado direto em DVD. Quanto a DEZESSEIS LUAS, com a decepcionante resposta do público americano ao filme nas bilheterias, é possível que não ganhe uma continuação.

Os romances pertencem a uma série chamada Caster Chronicles. Beautiful Creatures (2010) é o primeiro, seguido por Beautiful Darkness (2010), Beautiful Chaos (2011) e Beautiful Redemption (2012), que aqui no Brasil receberam os títulos de Dezesseis Luas, Dezessete Luas, Dezoito Luas e Dezenove Luas, respectivamente.

domingo, março 03, 2013

FORA DAS GRADES (Run for Cover)



Depois de muitas dificuldades para conseguir ver este filme, através da ajuda sensacional do amigão Herbert da Rocha, consegui convertê-lo num formato que minha televisão suportasse. Não entremos em detalhes sobre minhas tentativas; falemos do filme, o último dos longas-metragens hollywoodianos de Nicholas Ray que faltava eu ver. Com isso, agora só falta mesmo o experimental e independente WE CAN’T GO HOME AGAIN (1976-2011).

FORA DAS GRADES (1954) foi um filme produzido entre dois trabalhos muito conhecidos de Ray, JOHNNY GUITAR (1954) e JUVENTUDE TRANSVIADA (1955). Os três são belos trabalhos com utilização de cores, sendo que JOHNNY GUITAR é mais simbólico e barroco. FORA DAS GRADES tem a aparência de um western mais convencional, embora praticamente todas as características do cineasta estejam presentes. Sem falar que é um filme que é visto de uma sentada, com uma fluidez impressionante. Talvez o trabalho de Ray mais fácil de agradar a um espectador de primeira viagem.

O filme é estrelado por James Cagney, em sua única colaboração com o diretor. E uma coisa que se percebe é uma diferença de qualidade de interpretação entre ele e o jovem John Derek, que só não estraga o filme por causa da direção forte do diretor e da força da interpretação de Cagney. Isso já havia acontecido em outros trabalhos do cineasta, como em O CRIME NÃO COMPENSA (1949), em que o mesmo Derek atua ao lado de outro gigante do cinema (Humphrey Bogart).

Em FORA DAS GRADES, James Cagney é Matt Dowe, um homem errante, que, ao parar para se refrescar em um rio, conhece Davey Bishop, o jovem vivido por Derek. Como forma de se defender, ele logo lhe aponta uma arma, dizendo que não se deve se aproximar sem avisar pelas costas de um estranho. Depois de uma breve conversa e de os dois saberem que iriam para a mesma cidade, um desentendimento faz com que eles sejam confundidos com ladrões de trens.

Por causa disso, eles são emboscados por uma multidão vinda da cidade e Davey leva alguns tiros. Depois de resolvido o desentendimento, Matt procura se estabelecer na cidade, até por se interessar pela filha de um velho sueco que cuidou de Davey durante sua convalescença. Antes disso, quando Davey pensou em ficar com o dinheiro do trem e foi Matt quem quis devolvê-lo, já dava para perceber que havia ali uma diferença moral bem distante entre os dois.

Assim como o personagem de Bogart faz com o mesmo Derek em O CRIME NÃO COMPENSA, o arquetípico drama de consciência moral é duplicado em FORA DAS GRADES, só que de maneira muito mais vigorosa por parte de Ray. Sucessivas vezes Davey trai Matt e várias vezes Matt o perdoa e dá-lhe mais uma chance.

Muito interessante esse carinho que Nicholas Ray tem por esses jovens que traçam caminhos errados e que têm dificuldade para encontrar o caminho do bem. Ainda assim, em FORA DAS GRADES, a figura do jovem traidor é tão enfatizada que nem sempre é possível se sentir solidário com Davey, a não ser através da compaixão de Matt.

Nicholas Ray faz western, mas aborda questões tão interessantes que o amor pelo mais americano dos gêneros acaba ficando em segundo plano, embora os principais elementos estejam lá – os índios, o assalto ao trem, a tempestade no deserto, os tiroteios, a busca por um sistema de leis válido, a intolerância e violência dos homens da cidade, a figura do homem solitário etc.

sábado, março 02, 2013

PARIS NOS PERTENCE (Paris Nous Appartient)



Meu primeiro contato com o cinema de Jacques Rivette foi logo com um filme extraordinário: A BELA INTRIGANTE (1991), que vi numa sessão única numa mini-mostra organizada por Pedro Martins Freira no saudoso Studio Beira-Mar. Era uma sala pequena dedicada a filmes de arte (ou alternativos) que infelizmente fechou suas portas depois de alguns anos. Mas essa sessão, que deve ter acontecido em 1992 ou 1993, não lembro, foi especial pra mim. Claro que ficar vendo a Emanuelle Béart nua durante as cerca de quatro horas de duração ajuda bastante. Curiosamente, este é um dos filmes mais queridos da cinematografia de Rivette. Quer dizer, comecei muito bem.

Os seguintes foram poucos, mas também filmes admiráveis: A RELIGIOSA (1966) e A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN (2003). E só. Fico me perguntando por que não me detive mais nos seus trabalhos se esses filmes foram especiais pra mim? Aí resolvi ver aos poucos a partir dos primeiros filmes, começando com sua estreia na direção de longas-metragens, um pouco atrasado em relação aos seus colegas da nouvelle vague (François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol). Além do mais, PARIS NOS PERTENCE (1961) só pôde ser concluído com a ajuda dos amigos. Godard, inclusive, aparece num papel pequeno e simpático. O filme levou quatro anos para ser concluído, depois de muita persistência do diretor.

Lendo sobre PARIS NOS PERTENCE, vejo gente comparando com David Lynch. Do mesmo jeito que também comparam O ANO PASSADO EM MARIENBAD, de Alan Resnais. Apenas por que ambos os filmes possuem um mistério e uma trama um pouco complicada e que dá algumas voltas sem necessariamente chegar a um lugar. Ou pelo menos a um lugar que se esperaria em qualquer filme normal de mistério. No caso do mistério de PARIS NOS PERTENCE, ele é bem interessante no começo, mas começa a incomodar depois de uma hora de filme.

E aqui não vemos um trabalho bem acentuado de música para enfatizar o mistério. Rivette aposta, na maior parte das vezes, no silêncio e nas falas. E nos inúmeros personagens de sua história, que ganham mais força devido a duração um pouco longa do filme, já que o cineasta tem tempo suficiente para nos apresentar a eles.

Na trama, Anne Goupil (Betty Schneider) é uma jovem estudante de literatura que conhece um grupo de pessoas, a maior parte delas envolvida numa peça de Shakespeare. O mistério que envolve o grupo se dá principalmente com a notícia do suicídio de um dos rapazes e de uma conspiração e de teorias conspiratórias que alguns membros do grupo dizem existir, de modo que outras pessoas também teriam o mesmo fim do rapaz que tirou a própria vida. Anne aos poucos vai entrando nessa rede de mistério, conhecendo outras pessoas envolvidas, e nós, espectadores, ficamos tão perdidos quanto ela.

O problema, no meu caso, é que eu fui perdendo o interesse pela trama, não entrando na "viagem" do diretor, o que é essencial para um filme que não tem a intenção de apresentar uma história convencional. O resultado é que é a minha primeira decepção com Rivette. Mas quero continuar vendo outros filmes dele. Ao que parece, ele tem mesmo uma mania de fazer filmes longos. Então, é preciso estar disposto. Na maioria das vezes o esforço é muito bem recompensado.

sexta-feira, março 01, 2013

DURO DE MATAR – UM BOM DIA PARA MORRER (A Good Day to Die Hard)



Há atores que se preocupam com bons roteiros. Só entram num novo projeto se há um roteiro bom. E também se preocupam com o sujeito que irá dirigir o filme. Ao que parece, não deve ser o caso de Bruce Willis, que está rodando um filme atrás do outro pura e simplesmente pelo dinheiro. Uma franquia que rendeu três filmes bem decentes nas décadas de 80 e 90, dois deles dirigidos por um mestre do cinema de ação como John McTiernan, acabou retornando com cineastas medíocres no comando. Mesmo assim, DURO DE MATAR – UM BOM DIA PARA MORRER (2013) acabou tendo uma excelente abertura no mercado internacional. Só não sei se haverá um boca a boca positivo, a fim de que o filme se mantenha no topo do ranking.

O diretor da vez é John Moore, de ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS (2001) e dos remakes O VOO DA FÊNIX (2004) e A PROFECIA (2006). Quer dizer, não é um diretor ruim, mas não chega a ser nada admirável no meio. O que o novo filme tem de bom em relação a, por exemplo, DURO DE MATAR 4.0 (2007), de Len Wiseman, é que as cenas de ação parecem mais "verdadeiras", com aparentemente menor utilização do CGI. Mas, por outro lado, as tais cenas são porcamente editadas, mal dando para entender direito o que está acontecendo. Refiro-me principalmente à primeira grande sequência de perseguição de carros e caminhões e sua montagem excessivamente picotada.

Outro problema, o roteiro fraco, até poderia ser resolvido com um bom diretor, mas, como não é o caso, a história fica boba mesmo, com o velho tema do resgate. No caso, o resgate do filho de John McClane (Willis), Jack (Jai Courtney), de uma prisão na Rússia. O que ele não sabia era que o sumido filho havia se transformado em um espião da CIA. O bom e velho McClane acaba se envolvendo na história e ajudando o filho. A missão do agente da CIA não passa de uma mera justificativa para as cenas de ação, não havendo lá muita importância. Basta dizer que envolve armas nucleares.

O clímax acontece na cidade deserta de Chernobyl. Curiosamente, no filme de horror CHERNOBYL, havia guardas impedindo a entrada de pessoas estranhas na cidade, até para evitar o envenenamento pela radiação, que ainda é muito forte no local. Isso não acontece neste quinto DURO DE MATAR. Uma explicação possível é que os roteiristas devem ter achado que se deter nisso poderia atrapalhar o ritmo do filme. Não foram muito felizes nesse sentido.

Assim como também não foram felizes na construção do complicado relacionamento entre pai e filho, que acaba não ganhando força nenhuma na trama. No mais, não faltam as tradicionais cenas absurdas (gostei do carro passando por cima do caminhão-cegonha), quedas de vários andares sem quebrar um osso do corpo, muito barulho (o som do cinema, em geral, nesses filmes, é potencializado) e um grande vazio ao se sair da sessão. Uma coisa é certa: se quiseram fazer um sexto filme, é bom que façam algo minimamente bom, já que os cinemas já andam abarrotados de lixo por todos os lados. Principalmente vindo de Hollywood.