quinta-feira, fevereiro 28, 2013

BOB & CAROL & TED & ALICE



Tinha quase certeza de que havia um capítulo falando sobre BOB & CAROL & TED & ALICE (1969), de Paul Mazursky, no livro Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind. Engano meu. Provavelmente porque o filme exala tanto o clima da “Nova Hollywood” e da contracultura. Para o ano de ’69 o livro destaca OS MONKEES ESTÃO SOLTOS, de Rob Rafelson, e SEM DESTINO, de Dennis Hopper. Os três são filmes que exploram bastante as liberdades da nova sociedade americana.

O filme de Paul Mazursky lida com as novas tendências de relacionamentos, surgidas com a liberação sexual dos anos 60. Ao mesmo tempo, o diretor brinca com o choque que certos atos podem causar em algumas pessoas, como, por exemplo, o sujeito transar com outra mulher e contar isso para a esposa. E ela aceitar numa boa e ainda contar para os amigos. Isso acontece com o casal vivido por Robert Culp (Bob) e Natalie Wood (Carol).

Os dois haviam passado por uma experiência interessante quando ele, diretor de documentários, e ela vão até um lugar em que se pratica terapia de grupo. No tal grupo, os facilitadores orientam os participantes que se abram a ponto de dizerem a verdade e o que realmente sentem por seus amigos, familiares e amantes. O que, aliás, difere dos cursos de "inteligência emocional" da atualidade, que pedem que a pessoa diga que ama a outra, mesmo que ela a odeie. Nada de ser franco, pois a franqueza pode magoar.

O fato é que Bob e Carol saem do encontro cheios de amor para dar, e demonstram o amor que sentem pelo casal de amigos Ted (Elliot Gould) e Alice (Dyann Cannon). Mas uma traição não estava nos planos, mesmo uma traição que é contada imediatamente para o cônjuge. Porém, isso faz parte da graça do filme, que vai terminar com a clássica cena dos quatro na cama, que não chega a ser exatamente um spoiler, já que está no cartaz.

Ainda assim, mesmo com essa pinta de filme moderno, ou pelo menos de filme sobre uma sociedade moderna, BOB & CAROL & TED & ALICE acaba mostrando o quanto a sociedade americana ainda é (ou era, no caso do filme) tradicionalista e nem sempre pronta para desafiar as tradições.

Nem preciso dizer que o meu interesse pelo filme veio pela presença de Natalie Wood, que aparece aqui de babydoll, de biquíni e de lingerie, mostrando suas lindas pernas. O que já é muito para uma atriz surgida ainda criança nos anos 1940, e tendo alcançado o estrelato em produções classe A da década de 50 e o auge da beleza e sensualidade nos loucos anos 60.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

AMANHECER VIOLENTO (Red Dawn)



Estreia nesta sexta-feira, dia 1º, nos cinemas do Brasil, o remake de AMANHECER VIOLENTO (1984), de John Milius. Aproveitei o lançamento do novo filme para dar uma conferida no original, que tem todas as características daqueles filmes da Guerra Fria, de quando a ideia de uma Terceira Guerra Mundial envolvendo a União Soviética estava presente nos cinemas e até nos quadrinhos (caso de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons). Como obra representativa de uma época, AMANHECER VIOLENTO até tem o seu valor, mas é um filme chato e cheio de problemas. Fiquei olhando quanto tempo faltava para terminar o tempo inteiro.

Aliás, é impressão minha ou esses filmes oitentistas de ação envelheceram mal? Procuro ver com carinho alguns deles, e só consigo gostar se estiver mesmo a fim de ver algo bem despretensioso. As cenas de ação de AMANHECER VIOLENTO lembram, inclusive, RAMBO II, que, aliás, é do ano seguinte. Os americanos estavam mesmo com ódio não só dos soviéticos, mas de todo e qualquer país socialista. Também pode ficar a impressão de que esse tipo de filme foi incentivado pelo governo americano. Ou mesmo patrocinado. Mesmo sabendo o espírito da época e o contexto histórico, não deixa de ser muito estranho.

Uma das curiosidades do filme é ver o elenco de rostos conhecidos, mas bem jovens, como Patrick Swayze, C. Thomas Howell, Lea Thompson, Charlie Sheen, Jennifer Grey e os não tão jovens assim Harry Dean Stanton, Ben Johnson e Powers Booth. Todos eles fazem parte de uma resistência contra um grupo de comunistas que invadem o país. Os invasores falam espanhol e russo, as línguas de Cuba e da União Soviética, e são pintados como vilões bem caricatos e malvados, a ponto de colocar civis em campos de concentração e fazê-los cavar suas próprias covas. Detalhe, também, para um filme que eles colocam em um cinema da cidade, ALEXANDRE NEVSKY, de Sergei Eisenstein. Logo um filme em que o cineasta russo procura se libertar da ideologia de seu país. Podiam ter colocado O ENCOURAÇADO POTEMKIN, mesmo.

No mais, é choradeira sem emoção por parte dos jovens e muitos tiros e explosões estilo RAMBO II e RAMBO III entre eles e os invasores. Sinceramente, eu não esperava algo tão ruim vindo do Milius. E imagino como deve ser este remake, que mal chegou e já está sendo bem malhado.

P.S.: Está no ar a nova versão do site Mulheres do Cinema Brasileiro. Não deixem de conferir. AQUI.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

OSCAR 2013



A 85ª cerimônia dos prêmios da Academia foi marcada principalmente por muita música. Foi um retorno às apresentações musicais, que haviam sido limadas das edições passadas. Como boa parte dos indicados à categoria era de canções chatas e caretas, a hora das canções costumava ser aquele momento em que o espectador saía para tomar uma água e ir ao banheiro. Mas este ano foi diferente, pois desperdiçar Adele cantando “Skyfall” seria uma perda e tanto. E a organização acertou, pois a apresentação da cantora acabou sendo o momento mais bonito da festa.

As cantorias se seguiram logo após a a homenagem aos 50 anos de James Bond (que mostrou um clipe bem fraco) com uma apresentação de Shirley Bassey cantando “Goldfinger” (de 007 CONTRA GOLDFINGER). Depois, logo após o In Memoriam, tivemos uma apresentação de Barbra Streisand cantando "The way we were", do filme NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), de Sydney Pollack, como homenagem ao falecido compositor Marvin Hamlisch.

Já a ideia de homenagear os musicais da última década, por ocasião do sucesso de OS MISERÁVEIS, pareceu um tanto precipitada, já que não houve de fato um retorno do gênero, mas apenas exemplos esparsos, que se contam na palma da mão. Mesmo assim, resolveram homenagear CHICAGO (com um número de Catherine Zeta-Jones), DREAMGIRLS – EM BUSCA DE UM SONHO (com uma Jennifer Hudson bem mais magra) e OS MISERÁVEIS (com todo o elenco, com direito à interpretação ridícula de Russell Crowe). Era tanta cantoria que a impressão que se tinha em determinado momento era de que OS MISERÁVEIS ia ser o grande vencedor da noite. De qualquer maneira, contudo, para uma cerimônia que dividiu os prêmios, até que três Oscars para o filme não foi ruim.

Os maiores vencedores foram ARGO, de Ben Affleck, com três prêmios, e AS AVENTURAS DE PI, de Ang Lee, com quatro prêmios. O primeiro vencendo melhor filme, conforme os prognósticos, anunciado com participação surpresa da Primeira Dama Michelle Obama em um telão; e o segundo vencendo surpreendentemente a categoria de direção, botando para escanteio o favoritismo de Steven Spielberg. A não indicação de Affleck acabou sendo uma das piadas da noite, com a Academia dando a cara a bater.

Um dos pontos baixos da festa foi o mestre de cerimônias Seth MacFarlane, cujas piadas e apresentações não funcionaram. Seu dueto com William Shatner chegou a ser constrangedor. E nem dá para atribuir culpa a Shatner, que apareceu como um Capitão Kirk vindo do futuro no telão, já que ele estava ali só para cumprir o roteiro um tanto bobo. E a brincadeira foi profética, já que de fato a performance do apresentador está entre as piores em muito tempo.

O que foi objeto de muita revolta por parte da comunidade cinéfila foi a premiação de Jennifer Lawrence como melhor atriz por O LADO BOM DA VIDA. Não exatamente pela atriz em si, mas pelo fato de não premiarem Emmanuelle Riva e seu excelente desempenho em AMOR. Lawrence, tão nervosa que estava, acabou tropeçando nas escadarias na hora de receber o prêmio. Mas o fato é que era uma categoria tão boa, com atrizes tão queridas, que qualquer uma que vencesse estava ok para mim. Se fosse eu, teria premiado Riva, claro, mas ficar procurando justiça no Oscar pode deixar muita gente estressada.

Uma das premiações mais felizes da noite foi a de Quentin Tarantino por roteiro original. Interessante o que ele falou sobre como as pessoas verão seus filmes no futuro: valorizando principalmente os personagens (e não os banhos de sangue exagerados e a violência). Quem acompanha a trajetória do cineasta sabe o quanto ele é um excelente criador de personagens. Ele lamentou o fato de Leonardo Di Caprio não estar presente também.

No mais, o único dos nove indicados a melhor filme que saiu com as mãos abanando foi INDOMÁVEL SONHADORA. A HORA MAIS ESCURA quase sai também, já que empatou com 007 – OPERAÇÃO SKYFALL na categoria de edição de som. Quanto à vitória de ARGO, com todas essas apresentações especiais, faz todo o sentido, já que o filme é principalmente uma celebração da vitória de Hollywood, mais do que um filme político. A política, representada principalmente por LINCOLN e A HORA MAIS ESCURA, acabou ficando em segundo plano.



Os vencedores da noite

Melhor Filme - ARGO
Direção – Ang Lee (AS AVENTURAS DE PI)
Ator – Daniel Day-Lewis (LINCOLN)
Atriz – Jennifer Lawrence (O LADO BOM DA VIDA)
Ator Coadjuvante – Christopher Waltz (DJANGO LIVRE)
Atriz Coadjuvante – Anne Hathaway (OS MISERÁVEIS)
Roteiro Original – DJANGO LIVRE
Roteiro Adaptado – ARGO
Fotografia – AS AVENTURAS DE PI
Montagem – ARGO
Trilha Sonora Original – AS AVENTURAS DE PI
Canção Original - "Skyfall", de 007 – OPERAÇÃO SKYFALL
Mixagem de Som – OS MISERÁVEIS
Edição de Som – 007 – OPERAÇÃO SKYFALL e A HORA MAIS ESCURA (empate)
Efeitos Visuais – AS AVENTURAS DE PI
Direção de Arte – LINCOLN
Figurino – ANNA KARENINA
Maquiagem e cabelos – OS MISERÁVEIS
Filme Estrangeiro – AMOR (Áustria)
Longa de Animação - VALENTE
Curta de Animação – PAPERMAN
Curta-metragem - CURFEW
Documentário – SEARCHING FOR SUGAR MAN
Curta Documentário – INOCENTE

domingo, fevereiro 24, 2013

ENIGMA PARA DEMÔNIOS



Pode-se dizer que o belíssimo ENIGMA PARA DEMÔNIOS (1975), de Carlos Hugo Christensen, é o nosso O BEBÊ DE ROSEMARY. E, assim como a obra de Polanski, o filme brasileiro é admirável em vários aspectos. Mas principalmente na direção firme de Christensen, com tomadas impressionantes em zoom, close-up, às vezes com a imagem pendendo para o lado e para o outro, como que para descrever o estado de espírito perturbado da protagonista, vivida brilhantemente por Monique Lafond.

Quem está acostumado a ver Monique apenas em filmes eróticos e afins pode se surpreender ao vê-la neste papel duplo. Na trama, ela é uma jovem que mora na Argentina e que vem ao Brasil assim que o seu pai morre para ver os papéis da herança. A mãe havia morrido quando ela era criança, mas todos aqueles que a conheceram dizem que as duas são muito parecidas. A foto que fica disposta no quarto em um porta-retratos não deixa mentir.

Aliás, é na primeira vez que ela entre nesse quarto que foi de sua mãe que o primeiro elemento estranho é apresentado e que já serve como um mau sinal: a cruz do rosário dependurado em uma cadeira está invertida. Como já sabemos que cruzes dispostas dessa maneira são ligadas ao satanismo, fica no ar a primeira pista.

Depois de saber as circunstâncias terríveis da separação de seus pais, através de um flashback que só reforça a força da interpretação da atriz, fazendo o papel de uma mãe assustadoramente má, ela visita o cemitério para ver o túmulo da mãe e, meio que sem querer, retira uma flor de um dos túmulos e a deixa cair no chão. No cemitério, estava presente o primo que a recebeu calorosamente, Raul, e um homem que ela não conhece, mas que é identificado com um zoom, um médico vivido por José Mayer.

Ao chegar em casa, ela recebe estranhas ligações, em que um suposto morto, com uma voz gutural, reclama a flor que ela retirou de sua sepultura. Ela fica seriamente transtornada e este episódio lembra outro filme de horror brasileiro admirável, realizado na mesma época, O ANJO DA NOITE, de Walter Hugo Khouri. A família procura ajudá-la a esquecer o caso, ao mesmo tempo em que as ligações continuam, a ponto de cogitarem o fato de ela estar perdendo a sanidade, já que ninguém diz ter ouvido também a tal voz. Aos poucos, vamos percebendo que pode estar havendo ali uma conspiração, que, pelo título do filme, não é nenhuma brincadeira ingênua.

ENIGMA PARA DEMÔNIOS é baseado no conto de Carlos Drummond de Andrade "Flor, telefone, moça" e representa mais um belo exemplar do cinema de horror brasileiro que a cada dia venho descobrindo mais. O próprio cinema de Christensen é novo para mim e pretendo ver mais filmes desse talentoso diretor assim que puder.

P.S.: O amigo Chico Fireman fez um Oscar alternativo, contando com a participação de 14 cinéfilos. Fui um dos convidados para premiar as principais categorias da edição deste ano. Confira o resultado AQUI.

sábado, fevereiro 23, 2013

INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild)



Depois de ter finalmente visto o último dos nove indicados à categoria principal do Oscar 2013, chego à constatação de que esta é uma das edições mais fracas dos últimos anos. INDOMÁVEL SONHADORA (2012) é o tipo de filme interessante, curioso, diferente, trata de um assunto que é do interesse de tantos, como o Furacão Katrina e o seu efeito na população mais pobre e que procurou permanecer em Nova Orleans, em vez de fugir. Pelo menos o filme passa essa impressão: de que houve escolha por parte deles, talvez por ignorância, quando a população mais rica já havia deixado a cidade.

Independentemente de ser ou não fiel aos fatos, INDOMÁVEL SONHADORA parece se passar às vezes em um outro universo, um mundo alternativo, principalmente por se passar na mente da jovem Hushpuppy (Quvenzhané Wallis). Interessante notar que até os nomes, tanto da atriz quanto de sua personagem, parecem estranhos. Distante do que estamos familiarizados em ver mesmo em filmes independentes produzidos nos Estados Unidos, que é de onde geralmente saem pessoas e situações mais diferentes.

O diretor é o estreante em longas-metragens Benh Zeitlin, que já chegou chamando atenção, pois foi indicado ao Oscar, deixando de fora realizadores importantes como Quentin Tarantino e Kathryn Bigelow. Quem conhece seus curtas-metragens talvez encontre neles e em seu longa pontos em comum que destaquem o seu lado autoral. Se bem que ser autor nem chega a ser importante para a Academia.

Na história de INDOMÁVEL SONHADORA, vemos a pequena Hushpuppy vivendo em um ambiente muito pobre e sentindo a falta da mãe ausente. Uma de suas brincadeiras é fazer de conta que a mãe está falando com ela na cozinha. Ela é também capaz de imaginar gigantescas criaturas pré-históricas, que geralmente surgem quando um fato importante está acontecendo. Aparecem pela primeira vez durante a grande tempestade, que transformou a cidade em um grande lago. No começo, é-se possível se alimentar dos peixes e dos crustáceos, mas com o tempo a água do mar avança e mata peixes e animais, deixando poucas opções para aqueles que queriam permanecer em seu local, e não levados para um abrigo.

Uma figura muito importante para Hushpuppy é o seu pai, que sofre de uma doença crônica. Ele a incentiva a ser forte, fazendo com que ela se sinta como um homem ou mesmo um animal. Embora o filme não se concentre nas preocupações do pai, fica claro que deixar uma filha forte o suficiente para enfrentar os perigos e as dores do mundo é a única coisa que ele pode lhe deixar como herança.

O problema é que o filme não chega a ser suficientemente comovente, embora seja plasticamente bonito, mesmo com toda a feiura da ambientação. Em certo momento, dentro de um barco com a filha, o pai diz, olhando para os prédios altos de uma cidade vizinha, que ali é feio, e que eles moram no lugar mais bonito do mundo. Naquele momento, é possível acreditar nisso, pois o que vemos em destaque é a natureza.

INDOMÁVEL SONHADORA recebeu indicações aos Oscar de filme, direção, atriz (Quvenzhané Wallis) e roteiro adaptado. O filme já havia sido destaque com o Grande Prêmio do Júri em Sundance e com o Camera d'Or em Cannes.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

COMPLIANCE



Quem quiser ter o seu dia estragado com um filme é só ver COMPLIANCE (2012), de Craig Zobel. E não estou me referindo à qualidade do trabalho, mas ao que ele pode provocar em nossos nervos: sentimentos de raiva, indignação, impotência. É o caso também de filme em que é preferível não dizer muita coisa, sob pena de entregar algumas surpresas, que, mesmo não sendo agradáveis, fazem parte do jogo.

A história se passa num restaurante fast food típico dos Estados Unidos, bem parecido com o McDonald’s e o Burger King. A gerente do restaurante recebe uma ligação informando que uma das garotas que trabalha como caixa roubou uma cliente. Sem saber direito o que fazer, ela faz o que o homem do outro lado, que afirma ser policial, lhe pede: que segure a garota e a reviste, enquanto ele, que está ocupado em outro local, chega. Mas as coisas não ficam só por aí e o filme vai num crescendo de tensão e perturbação impressionantes. O mais absurdo é que a história é baseada em vários casos ocorridos nos Estados Unidos.

Um dos produtores executivos de COMPLIANCE é David Gordon Green e o seu elenco de desconhecidos reserva ótimas atuações, especialmente da atriz que faz Sandra, a gerente (Ann Dowd), que gera no espectador múltiplos e contraditórios sentimentos. A atriz que faz a garota acusada do crime, Dreama Walker, também faz um ótimo trabalho, além de ter uma beleza e um carisma que podem trazê-la para o cinema mainstream.

Quem já viu o documentário DEAR ZACHARY - UM CASO CHOCANTE vai achar COMPLIANCE até um tanto leve, mas "leve" é um adjetivo que eu jamais usaria para o filme de Zobel.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

JOÃO E MARIA – CAÇADORES DE BRUXAS (Hansel & Gretel – Witch Hunters)



Sejamos sinceros: está um saco essa onda de filmes de fantasia que aproveitam os contos de fadas clássicos para transformar em filme de ação para chamar a atenção do público jovem. E o problema é que isso vende, como foi o caso de BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR, que é até um filme decente, pra falar a verdade. Mas é só ver que ainda vem por aí JACK – O CAÇADOR DE GIGANTES, dirigido por Bryan Singer, e OZ – MÁGICO E PODEROSO, de Sam Raimi, que nem é um conto de fadas clássico, mas o filme de 1939 hoje é clássico. E por mais que esses dois cineastas tenham pedigree, fico desanimado ao vê-los aceitando esse tipo de projeto. Raimi, por exemplo, deveria voltar a fazer o que sabe fazer melhor: filmes de horror. Infelizmente foi engolido pela indústria.

Há quem diga: mas ninguém é obrigado a assistir. Sim, é verdade. Mas quem gosta de cinema, especialmente quem gosta de ir ao cinema, sente curiosidade em ver quase qualquer coisa que esteja passando. Inventa-se um motivo, pelo menos. No caso de JOÃO E MARIA – CAÇADORES DE BRUXAS (2013), fiquei curioso em conhecer esse jovem diretor norueguês, Tommy Wirkola, que começou a carreira fazendo uma paródia de KILL BILL, chamada lá KILL BULJO (2007). Mas ele era mais famoso pela comédia de horror ZUMBIS NA NEVE (2009), que deve ter sido seu cartão de visitas para que Hollywood o achasse ideal para dirigir este "João e Maria com armas".

E o curioso é que, apesar de o filme se passar na Idade Média (embora não situe especificamente isso), há até armas parecidas com as modernas metralhadoras. Mas, enfim, esse tipo de "licença poética" é o de menos. O pior pecado do filme é dar sono nas cenas de ação. Assim, nas cenas mais paradas, até que o filme é assistível e, com um pouco de boa vontade, dá para ver algumas qualidades, levando em conta se tratar de um filme puramente de entretenimento, sem quaisquer ambições artísticas.

O prólogo, contado rapidinho, embora não seja tão bom, é uma das melhores coisas: os dois irmãos sendo deixados próximos à casa de uma bruxa, uma casa feita de doces. A tal primeira bruxa também é interessante: faz um barulho estranho. Tem uma maquiagem que parece fantasia de Halloween, mas pelo menos tem esse detalhe interessante. E logo depois, quando os garotos conseguem escapar da bruxa, os créditos de abertura, com desenhos que parecem desenhos antigos, da Idade Média, também contam como ponto positivo.

Infelizmente depois o filme vai ficando cada vez mais desinteressante. Jeremy Renner deveria escolher melhor seus trabalhos, agora que está famoso. Quanto à bela Gemma Arterton, ela funciona bem nas cenas de ação, mas acaba sendo eclipsada em certo momento por uma coadjuvante, a finlandesa Pihla Viitala, que aparece nua em determinado momento do filme. Quanto a Famke Janssen, que já teve seus momentos de glória no cinemão, fazendo o papel de Jean Grey na trilogia X-MEN, ficou com um papel ridículo de bruxa-mor, na maior parte das vezes escondida sob a maquiagem que lhe deram. E, como o filme fez sucesso de bilheteria, e deixou no ar uma cara de quem quer ser franquia, é possível que venha continuação por aí. Com Jeremy Renner com a agenda cheia, esperemos que não.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

O SUBSTITUTO (Detachment)



O meu interesse por esse filme veio principalmente por tratar de um assunto que já chama a minha atenção há algum tempo: a solidão de ser professor. Claro que não dá para generalizar e há professores que socializam tanto entre si quanto com os próprios alunos. Mas sempre vejo a profissão como algo solitário. Ainda mais hoje em dia e em se tratando de escolas, onde os alunos são mais problemáticos e cada vez menos respeitadores. Aliás, respeito é algo que só os mais sensíveis parecem ter.

Há vários filmes que lidam com professores idealizadores e inspiradores, como é o caso de SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS ou MR. HOLLAND – ADORÁVEL PROFESSOR, mas há também aqueles que tratam dos problemas atuais, mais gritantes, como o francês ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, de Laurent Cantent, e o documentário brasileiro PRO DIA NASCER FELIZ, de João Jardim. E há também um filme sobre a solidão de um professor, que eu acho extremamente comovente, que é NUNCA TE AMEI, de Mike Figgis, com um Albert Finney excepcional.

O SUBSTITUTO (2011) se encaixaria mais nos filmes que lidam com os problemas atuais, mas que também mostra a solidão do protagonista, vivido por Adrien Brody. O ator interpreta um professor substituto de escolas públicas. Quando um professor sai por algum motivo, ele chega para assumir a turma, mesmo sabendo que sua estadia ali é indefinidamente passageira.

No primeiro dia de aula ele tem que impor logo respeito, colocando um deles para fora e aguentando os xingamentos de outro. O problema é explicitado quando o filme mostra também alunos cuspindo em supervisoras, professores que assumem tomar pílulas para aguentar o tranco, outras choram com a pressão. Chega a ser uma situação humilhante. Parecido com quem vivencia a situação no Brasil, sendo que aqui é ainda mais barra-pesada e se paga, claro, bem menos do que nos Estados Unidos ou na França.

O SUBSTITUTO não se atém apenas na vida profissional do personagem de Brody, mas também em sua dificuldade de lidar com o avô doente, seu único parente vivo, e uma jovem prostituta que ele conhece em um ônibus (Sami Gayle). Ele acaba procurando ajudá-la, sem ter nenhum interesse sexual. Bem que o personagem podia ser mais ambíguo, mas o filme de Tony Kaye evita essas ousadias.

Pra quem não lembra (eu mesmo tinha esquecido), o diretor é o mesmo do impactante A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (1998). Parecia um cineasta de futuro na época, mas acabou sendo esquecido e fazendo poucos trabalhos memoráveis. O SUBSTITUTO, se não chega a ser um retorno à altura, é um filme que vale a espiada. Inclusive para ver Christina Hendricks, que está belíssima, além de outros rostos conhecidos e respeitáveis, como Marcia Gay Harden, James Cann, Lucy Liu, William Petersen e Bryan Cranston.Para quem estava meio sumido, até que Kaye voltou com um grande elenco. Mas o filme passou batido e aqui foi lançado direto em DVD.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

MEU NAMORADO É UM ZUMBI (Warm Bodies)



Essa moda de fazer filmes que trazem romances de pessoas normais com criaturas sobrenaturais que começou com A SAGA CREPÚSCULO já está incomodando. Falo por mim, claro, mas sei que muitas pessoas dividem comigo essa insatisfação. E olha que MEU NAMORADO É UM ZUMBI (2013) até tem um diretor decente no comando, Jonathan Levine, que dirigiu a bonita dramédia 50% (2011) e faz o possível para compor um bom trabalho. Mas o problema é que, uma vez que não se compra a premissa do filme, fica difícil ir adiante e se divertir.

Quem compra, ótimo: vai ter mais de uma hora e meia de um misto de filme romântico gótico com comédia apocalíptica. Como zumbis estão na moda, nada como dar mais uma mexidinha. Por que não colocar em cena um zumbi que se apaixona e começa a ganhar de volta a vida? E por que não transformar essa história em mais uma paródia de Romeu e Julieta para as novas plateias?

Um ponto positivo do filme é a possibilidade de acompanhar uma narrativa do ponto de vista de um zumbi, com direito a narração em voice-over e tudo. O tal zumbi (vivido por Nicholas Hoult, o Fera de X-MEN – PRIMEIRA CLASSE) não lembra do próprio nome; só sabe que começa com "R". Tem até outro amigo, com quem troca olhares e grunhidos. Há, nesse cenário apocalíptico, outro tipo de zumbis: os esqueletos, versões ainda mais perversas e famintas que os zumbis que ainda têm carne sobre os ossos.

E é nesse cenário que surge a personagem de Julie (Teresa Palmer, de EU SOU O NÚMERO QUATRO), a responsável por fazer o coração de R bater. E, aos poucos, o que eram apenas algumas palavras acabam se tornando frases na boca desse zumbi que a salva da morte. Não sem antes comer o cérebro de seu namorado, o que faz com que ele ganhe as memórias do rapaz. Não dá para dizer que esses escritores não têm imaginação. Agora, até que ponto essa é uma boa ideia?

Para não dizer que estou sendo ranzinza, enumeremos mais pontos positivos do filme: os créditos iniciais são bonitos, emulando romances femininos; o ator que vive o zumbi do bem, Nicholas Hoult, como já fez um sujeito desajeitado antes, o Fera, então, acabou servindo para compor o personagem; Teresa Palmer é uma bela e carismática jovem que pode ainda ter futuro – está no elenco de um dos próximos filmes de Terrence Malick, KNIGHT OF CUPS.

Quanto a MEU NAMORADO É UM ZUMBI, é mais uma diversão dirigida principalmente ao público adolescente. E não há nada de errado com isso. Mas seria interessante que filmes que se dirigem a esse público também sejam tão bons a ponto de conquistar públicos maiores, como foi o caso de JOGOS VORAZES. Não por acaso, ambos os filmes são adaptações de livros juvenis. Se servem para incentivar a leitura neste país, esses livros e suas adaptações até que são bem-vindos.

domingo, fevereiro 17, 2013

HABEMUS PAPAM



Desde que o Papa Bento XVI resolveu renunciar ao posto de representante maior da Igreja Católica que o assunto continua sendo tratado como um dos mais importantes da atualidade. E deve continuar sendo até a eleição do sucessor. Mas o legal é ver que o cinema já havia tratado do assunto de maneira semelhante recentemente. Os cinéfilos, logo que souberam da notícia, lembraram imediatamente de HABEMUS PAPAM (2011), o mais recente filme de Nanni Moretti.

No filme, somos convidados a assistir à eleição secreta de um novo papa. Já se percebe nas orações dos cardeais candidatos que eles oram para que não sejam eles os escolhidos. No começo, dá para pensar que aquelas orações não são verdadeiras, mas fruto de uma falsa humildade. No fim da votação, o escolhido é o senhor vivido por Michel Piccoli. Aliás, impressionante a semelhança de Piccoli com o Papa João Paulo II, quando ele está vestido a caráter. Piccoli, hoje um monumento do cinema europeu, faz um papa que se recusa a assumir o cargo, justo no momento em que o cardeal protodiácono e decano anuncia na Praça de São Pedro o novo papa.

A história da Igreja Católica e dos papas guarda algumas histórias curiosas, algumas terríveis, mas Moretti, mesmo sendo um ateu convicto, resolveu tratar do assunto com uma leveza e com uma simpatia para com aqueles homens que se dedicam ao sacerdócio, que fica impossível também não ter por eles simpatia. Os católicos mais radicais podem achar o personagem de Moretti, o psicanalista que é contratado para cuidar do pânico do Papa, um tanto irreverente, mas aí é que está a graça de seu personagem.

O filme, antes de mais nada, valoriza o homem em detrimento da religião. O Papa vivido por Piccoli é principalmente um homem que questiona sua capacidade de assumir um cargo tão importante. O fato de ele ficar apavorado com a situação o torna mais humano. HABEMUS PAPAM parte de uma proposta interessante para ir desenvolvendo com muito humor a situação. A sequência, por exemplo, que mostra o que o personagem de Moretti pode ou não perguntar ao Papa em sua consulta é hilariante, assim como sua explicação sobre os tipos de medicamentos que os cardeais tomam para dormir.

E daí, voltamos para o momento atual, inédito na história do papado, em que pela primeira vez um papa sai de cena sem ser através da morte. Um momento também especial, pois vemos um papa que critica abertamente a Igreja Católica e pede uma renovação. O conclave para a eleição do novo papa acontecerá a partir do dia 15 de março. Católicos e não católicos ficam de olho para ver o resultado.

Errata: Há quase 600 anos, o papa Gregório XII renunciou ao cargo máximo do Vaticano.

sábado, fevereiro 16, 2013

A HORA MAIS ESCURA (Zero Dark Thirty)



Quando o presidente Barack Obama anunciou que as tropas americanas conseguiram capturar e matar Osama Bin Laden, ficou no ar um clima de dúvida, de ceticismo. Principalmente porque eles preferiram não mostrar o corpo de Osama, a mente intelectual por trás dos atentados ocorridos nos Estados Unidos no dia 11 de setembro de 2001. Essa falta de crença também é sentida pelo próprio personagem que dá o tiro em Obama no momento crucial de A HORA MAIS ESCURA (2012). “Será que é ele mesmo?” Os dez anos em busca desse que era o homem mais procurado mundo tornaram-no um mito.

Quanto às tão faladas técnicas de tortura utilizadas pelos membros da CIA para conseguir pistas para chegar aos principais responsáveis pela queda das Torres Gêmeas, elas já foram vistas antes na mídia de ficção, e até com mais intensidade na série 24 HORAS, que nasceu sob o signo da nova era, a era da guerra ao terror. Mas era George Bush que estava no poder. Em sua gestão, poucos nos Estados Unidos questionaram a invasão brutal a um país miserável como o Afeganistão ou a busca de armas de destruição em massa que não existiam no Iraque.

Passados alguns anos, e já na administração de Obama, vemos em certo momento de A HORA MAIS ESCURA um depoimento pela televisão do presidente dizendo que seus agentes não usam técnicas de tortura. A partir de então, não vemos mais cenas de tortura no filme. Seria para mostrar que as referidas técnicas passaram a ser proibidas ou o filme quis ser condescendente com Obama?

A HORA MAIS ESCURA é, naturalmente, mais ambicioso que GUERRA AO TERROR (2008), o filme que deu o Oscar a Kathryn Bigelow. Tanto na duração (quase três horas), quanto no tema, o filme até tem um andamento mais lento. As horas passam mais devagar do que nos demais filmes da diretora. Mas talvez isso seja proposital: serve para dar uma pequena mostra da dura passagem dos anos e da dificuldade dos agentes de capturar e matar o tal homem, para, enfim, vingar o país dos atos danosos.

A personagem mais importante do filme, Maya, vivida por Jessica Chastain, é tão obstinada que chega a não ter uma vida normal. Não tem amigos, não tem namorado, não tem vida social. Desde jovem foi encaminhada para esse trabalho e nunca fez mais nada em sua carreira profissional, além de caçar Osama Bin Laden. Foi isso que ela respondeu ao diretor da CIA vivido por James Gandolfini. Aliás, vale dizer que a escalação de Gandolfini não foi das mais felizes. Tira um pouco o ar de realismo, já que o ator, por melhor que seja, tem ainda uma forte ligação com o seu personagem Tony Soprano, da série FAMÍLIA SOPRANO. Felizmente é um papel curto e quem não o conhece pela série provavelmente não se sentirá incomodado.

A obstinação de Maya é semelhante à do sargento William James (Jeremy Renner), de GUERRA AO TERROR. Com a diferença que não se trata aqui de um vício a sua necessidade de ir até o fim na caçada a Bin Laden. Prova disso é a última cena do filme. A interpretação de Chastain é digna de nota, mesmo num filme frio. Apesar de alguns momentos de tensão, A HORA MAIS ESCURA é cirurgicamente frio e pouco afeito aos clichês de thrillers de espionagem e de guerra. Não tem, por exemplo, a ludicidade de ARGO, de Ben Affleck. Um ato comercialmente arriscado por parte da diretora, mas por isso mesmo seu filme é especial. 

A HORA MAIS ESCURA foi indicado ao Oscar nas categorias de filme, atriz (Jessica Chastain), roteiro original, montagem e edição de som.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

EROS – O DEUS DO AMOR



Ao ser questionado sobre um filme brasileiro do coração, o nome de Walter Hugo Khouri foi o que logo me veio à mente. Conheci seus filmes antes mesmo de me autodenominar cinéfilo. Via-os na televisão pelo apelo erótico, pelas mulheres lindas e nuas e porque eu era um adolescente com os hormônios em ebulição. Mas não só por isso, como depois fui perceber. O existencialismo, tão presente na obra khouriana, de certa forma já me atraía. Com o tempo, a atmosfera, a música misteriosa de Rogério Duprat, o jazz, a busca desesperada por sexo dos personagens, todos esses ingredientes já me eram elementos agradavelmente familiares.

EROS, O DEUS DO AMOR (1981) é provavelmente o mais querido por mim, dentre os vários trabalhos do genial cineasta. Talvez nem seja o seu filme mais próximo da perfeição – pelo menos a cópia que pude ver em VHS é cheia de saltos -, mas é um filme que ficou guardado na memória com muito afeto. É um filme de forte poder imagético, mas a imagem que ficou mais forte em minha mente durante todos esses anos foi a de Denise Dumont nua, de bruços numa cama, enquanto o olhar de Marcelo, em câmera subjetiva, se aproxima de seu corpo. Depois, quando ela acorda – Denise, personificando Ana, a mulher mais desejada por Marcelo no filme -, vemos o quanto ela é encantadora e apaixonante. E um dos grandes motivos de o filme ser tão especial, mesmo com o grande elenco de estrelas femininas.

Poucos filmes mostram tantas mulheres quanto EROS. Além de Denise Dumont, há Dina Sfat, como a mãe de Marcelo, Lillian Lemmertz, como a esposa, e mais Renée de Vielmond, Kate Lyra, Nicole Puzzi, Selma Egrei, Monique Lafond, Patricia Scalvi, Kate Hansen, Lara Deheinzelein, Maria Cláudia, Christiane Torloni, Alvamar Taddei, Sueli Aoki, Dorothée-Marie Bouvier e Norma Bengell. Vários desses nomes já eram bem familiares da cinematografia de Khouri.

E quem pensa que a primeira vez que o cineasta mostrou o pequeno Marcelo fazendo sexo com uma mulher adulta foi em AMOR, ESTRANHO AMOR (1982) não sabe que, um ano antes, em EROS, Kate Lyra, no papel da professora de inglês, já desempenhara esse papel. A cena só não ficou tão famosa quanto a do filme de 82 por razões que nem é preciso explicar. Em EROS, também é explorado o desejo de Marcelo por sua filha Berenice, já mostrado em O PRISIONEIRO DO SEXO (1979) e levado às últimas consequências em EU (1987).

O filme começa com um monólogo de identificação com a cidade de São Paulo, que já conquista o espectador que tem algum elo de amor pela cidade. Sobre São Paulo, Marcelo diz: "quase ninguém gosta dela, o país não gosta, os turistas não gostam, os próprios habitantes parecem não gostar, a angústia aqui parece ser maior, tudo aqui parece ser maior (…) dizem que é um lugar descaracterizado, não é o trópico, nem o frio, não é civilizado nem primitivo, não pertence a nada, não tem charme especial, não tem lógica, não é antiga, nem moderna (…) é indiferente, distante, imprecisa, quase sem tradição, egoísta, individualista, cruel e devoradora." E é a partir dessas características que o personagem se liga à cidade.

Outra característica de destaque do filme está no fato de o rosto de Marcelo nunca ser mostrado. Só ouvimos a voz de Roberto Maya. O uso da câmera subjetiva não é usado em todo o filme, já que em alguns poucos momentos vemos o seu vulto. Mas o fato de Marcelo não ter rosto e de isso ser mencionado pelo menos duas vezes durante o filme pelas mulheres não deixa de ser interessante, levando em consideração o fato de o personagem ter sido interpretado por tantos atores.

A presença de Ana (Denise Dumont) durante boa parte do filme, ainda que apenas em close, entrecortando as memórias de Marcelo e suas aventuras com várias mulheres do passado e do presente, simboliza uma falsa esperança de que o personagem possa finalmente mudar, encontrar o amor nos braços de uma única mulher e largar a busca desenfreada do prazer pelo sexo, que sempre resulta no vazio da alma. No entanto, ao mesmo tempo, o sexo pode ser visto também como ponto de partida para uma espécie de amadurecimento espiritual, como é questionado na citação de Norman Mailer que abre o filme: "Será que o sexo é onde começa a filosofia?". Sendo uma pergunta, a citação está presente mais para gerar reflexão.

Texto publicado originalmente na Revista Zingu!, edição #52, de dezembro/2011. 

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

AMOR (Amour)



Às vezes, críticas negativas ou declarações de que um espectador teve suas expectativas frustradas com determinado filme acabam funcionando a nosso favor. Esperamos, então, um filme mediano e damos de cara com uma obra excelente. Foi o que aconteceu comigo em relação a AMOR (2012), a obra que deu a segunda Palma de Ouro a Michael Haneke e que ainda ganhou indicações a um prêmio que é do cinema americano.

A princípio, antes de ver o filme, e já conhecendo boa parte do currículo de Haneke, não deixa de ser intrigante imaginar a visão de amor de um cineasta que dirigiu obras tão pesadas como as duas versões de VIOLÊNCIA GRATUITA (1997, 2007), A PROFESSORA DE PIANO (2001), CACHÉ (2005) e A FITA BRANCA (2009). Mas, uma vez que vemos o filme, entendemos que se trata de uma visão longe da melodramaticidade e principalmente da espiritualidade, uma vez que estamos falando de um filme sobre a velhice e o fim da vida. A representação do pombo que entra no apartamento é uma prova disso.

As tomadas econômicas do casal de idosos vivido por Jean-Louis Trintignant (Georges) e Emmanuelle Riva (Anne) são dirigidas com a segurança e o rigor de um cineasta com a experiência e o talento de Haneke. E a participação de ícones do cinema francês como Trintignant (de filmes tão diferentes quanto o romance UM HOMEM, UMA MULHER e o western spaghetti O VINGADOR SILENCIOSO) e Emmanuelle Riva (lembrada principalmente por seu papel em HIROSHIMA, MEU AMOR) ajuda a dar ao filme um ar de solenidade. Que é enfatizada com a participação especial de uma atriz tão querida como Isabelle Huppert.

A primeira cena do filme mostra a polícia invadindo um apartamento fechado e encontrando o cadáver cheio de flores de uma mulher idosa. Voltamos no tempo, então, e acompanhamos a última vez que Georges e Anne saíram juntos: para assistir a um espetáculo de música erudita. A câmera parada, tanto no teatro quanto no ônibus, na volta pra casa, passa sensações de verdade, de respeito e até de suspense.

Quando Anne tem seu primeiro AVC, acompanhamos o desgosto da personagem em relação à vida. Haneke trata de mostrar a decadência física da personagem e os esforços do marido para cuidar da esposa com amor e dor, com a uma serenidade parecida com a de Georges. Diferente, por exemplo, da personagem da filha, vivida por Isabelle Huppert, que aparece de vez em quando para chorar e ficar revoltada com a situação da mãe.

Haneke mostra neste seu mais recente trabalho que sabe ser seco mesmo em filmes que lidam com o amor. Quem viu CACHÉ, por exemplo, não vai esquecer a cena da navalha e pode encontrar um paralelo dessa cena em AMOR. Haneke é impiedoso, mesmo quando ama seus personagens. Ou talvez por amá-los.

AMOR recebeu cinco indicações ao Oscar: filme, direção, atriz (Emmanuelle Riva), roteiro original e filme estrangeiro. 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

INTERLÚDIO DE AMOR (Breezy)



Lendo o livro Clint Eastwood – Nada Censurado, de Marc Eliot, dá vontade de pegar vários filmes dirigidos ou protagonizados por Clint pra ver. Aproveitei que estava fácil em meu HD para conferir o seu terceiro trabalho na direção, feito depois de ele provar que podia dirigir um filme de qualidade com PERVERSA PAIXÃO (1971) e de voltar como um caubói misterioso no excelente O ESTRANHO SEM NOME (1973). INTERLÚDIO DE AMOR (1973) foi o primeiro filme de Clint sem ele como protagonista. Em seu lugar, está o veterano William Holden.

O filme conta a história de amor entre Frank Harmon (Holden), um executivo na faixa dos seus cinquenta anos, e a jovem Breezy (Kay Lenz). A atriz, apesar de não ter tido uma carreira muito bem sucedida no cinema, é uma graça e o filme deve muito a ela. Aliás, Clint, que era um mulherengo incorrigível, se sentiu logo atraído por ela. O livro de Eliot não explicita bem o relacionamento entre os dois, se foi ou não transformado em mais um caso do astro.

Breezy tem um jeito hippie, bem representativo da juventude da época, e que serve para enfatizar ainda mais as diferenças entre o personagem de Holden e ela. Havia um abismo de diferenças enorme entre os dois. Mas a garota se esforça para ultrapassar a barreira que o velho Frank coloca em sua frente.

O filme nos apresenta primeiro a Breezy, que sai da casa de um rapaz desconhecido, com quem havia dormido na noite anterior, com apenas alguns centavos para o café. Leva seu violão a tiracolo e sai pedindo carona. Não dá muita sorte, pois pega um tarado meio psicopata. Sorte que ela consegue fugir do sujeito, indo parar numa casa de onde sai o personagem de Holden, não muito disposto a lhe dar carona.

Fiquei especialmente interessado numa sequência em que ela pede para ele parar imediatamente o carro, pois ela vê um cachorro na estrada. Ele acha um absurdo parar por causa de um cachorro provavelmente morto, mas acaba fazendo. Interessante também a elipse que o filme faz desse momento até a cena em que ele já está de volta ao trabalho. Afinal, e o cachorro? Essa pergunta eu fiquei me fazendo durante boa parte do filme.

INTERLÚDIO DE AMOR infelizmente não foi muito bem recebido pelas plateias da época. Clint ficou um tanto rancoroso com a Universal, que ele julga culpada pelo fracasso do filme, por não ter feito uma boa divulgação. E é impressionante como a crítica da época era cruel com os primeiros filmes de Clint. Uma delas falou sobre INTERLÚDIO DE AMOR: "tão perfeitamente horroroso que chega quase a ser bom para dar risadas". Por outro lado, teve uma boa recepção dos críticos adeptos da política dos autores, mas esses não eram muito populares. De qualquer maneira, o fracasso comercial do filme fez com que Clint passasse 22 anos sem filmar outra história de amor.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (The Perks of Being a Wallflower)



Impressionante o quanto um filme é capaz de tornar valioso o nosso dia. É o caso de AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (2012), que resgata sentimentos da juventude, mais especificamente da época do ensino médio, como se nos colocasse numa espécie de túnel do tempo. Ainda que seja um túnel do tempo de uma história que efetivamente não vivenciamos. O sentimento de identificação é o que nos liga a essa história.

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL é desses filmes especiais, que faz com que a gente saia do cinema sem saber ainda dizer em palavras o que foi aquela experiência, até por estar ainda sob o efeito da emoção. É um filme que toca especialmente aqueles que um dia já viveram muito solitários, ouvindo The Smiths em casa como consolo. Até chegar o dia em que encontram pessoas que o acolhem como um amigo.

E o filme de Stephen Chbosky sabe muito bem como transmitir essa gratidão que temos por esses amigos. E quando um deles é uma moça tão bonita quanto a Emma Watson, é tão mais fácil se apaixonar junto com o personagem. Mesmo sabendo que esse tipo de relacionamento é um tanto mais complicado. Fica o medo de confundir as coisas, acabar com a amizade ou coisas do tipo.

Na trama, Charlie (Logan Lerman) é um rapaz muito tímido e que sofre de alguns problemas psíquicos: costuma ter alucinações, especialmente com sua tia, e às vezes "apaga", sem lembrar o que aconteceu. Mas inicialmente o filme só nos apresenta a um rapaz tímido, desses que tem vergonha de levantar a mão na sala de aula, mesmo quando sabe a resposta certa de uma pergunta que o professor faz e ninguém mais sabe responder. Aliás, como se já não bastasse, o filme ainda mostra uma comovente relação entre professor e aluno.

As coisas mudam quando ele conhece o extrovertido e brincalhão Patrick (Ezra Miller) e sua meia-irmã, a bela Sam (Emma Watson). A amizade dos dois para com ele representa muito. Eventualmente, Patrick acaba lhe confessando que é gay, mas nem por isso deixa de ter a amizade de Charlie. Muito pelo contrário: uma cena em que Charlie defende Patrick é justamente uma das mais emocionantes do filme.

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL, além de tratar de maneira tão delicada a amizade e os amores da juventude, é também excelente no que concerne ao amor pelas canções e pelos livros, objetos tão ou mais próximos da gente quanto uma amizade de verdade. Assim, Charlie é um leitor voraz e também adora fazer umas playlists de canções em fitinhas cassete, que funcionam no filme como um presente muito pessoal dos personagens a alguém que se ama.

Embora o filme não indique especificamente a época, tudo indica que é começo dos anos 90. Portanto, há uma predominância na trilha sonora de bandas dos anos 80, como The Smiths ("Asleep"), Sonic Youth ("Teenage Riot"), New Order ("Temptation") e até uma do começo dos anos 90, o L7, com o hit "Pretend we're dead". Mas o que marca mesmo é o clássico dos anos 70 de David Bowie, “Heroes”, que toca no carro quando o trio de amigos experimenta uma felicidade contagiante.

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL mostra o doce e o amargo da juventude, especialmente quando se tem também traumas de infância para enfrentar e uma dificuldade de se ajustar à sociedade. O filme poderia ser mais amargo, se quisesse ser mais cruel com seu personagem, mas que bom que encontramos com ele um alento, baseado principalmente na conscientização do personagem de vivenciar o presente.

domingo, fevereiro 10, 2013

O VOO (Flight)



Não deixa de ser um motivo de celebração este retorno de Robert Zemeckis ao mundo de carne e osso. Embora suas experiências com a captura de movimento não devam ser desconsideradas, seus melhores trabalhos foram anteriores aos anos 2000. E é curioso vê-lo retornando justamente com um filme que também conta com uma impressionante cena de queda de avião, como em O NÁUFRAGO (2000). É estabelecendo um link com seu último filme em live action que ele constrói esse belo drama sobre um sujeito que, pilotando um avião sob efeito de álcool e cocaína, e mal tendo dormido na noite anterior, consegue, como que por um milagre, salvar a vida de dezenas de pessoas presentes na aeronave.

A primeira cena do filme já destoa dos trabalhos comumente atribuídos a Zemeckis, que não tem o costume de colocar cenas de nudez em seus trabalhos. Aqui já vemos uma cena de nudez frontal de uma colega do personagem de Denzel Washington, uma comissária de bordo que faz as vezes de amante (Nadine Velazquez). Ele é Whip Whitaker, um sujeito divorciado que não tem contato com o filho adolescente e que tem uma vida desregrada, com excessos de álcool e usando a cocaína como estimulante para se manter acordado.

É assim na manhã em que ele acorda para ser o piloto daquele avião fadado a cair. E toda a cena dos problemas do avião até a queda é emocionante. Tanto que depois dessa cena, depois de tanta adrenalina, há quem ache o filme um tanto parado. O que não é bem verdade. Apenas O VOO (2012) passa de um filme sobre a queda de um avião para um filme sobre a dependência às drogas, mais especificamente ao álcool.

E nesse sentido O VOO corre o perigo de parecer moralista, tanto é que o personagem de John Goodman, o fornecedor de cocaína, é apresentado ao som de "Sympathy for the Devil", dos Rolling Stones. Quer dizer, a própria direção já lida com a cocaína como uma droga diabólica. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que se não fosse a cocaína, o personagem não teria tomado medidas tão ousadas, como virar o avião de cabeça pra baixo, por exemplo, já que a droga tem esse poder de passar a ilusão de que a pessoa pode tudo, de dar um excesso de autossegurança.

Outro momento em que uma canção é muito bem utilizada no filme acontece na sequência em que a personagem de Kelly Reilly (do excepcional horror britânico SEM SAÍDA) injeta heroína ao som da linda versão de "Sweet Jane", interpretada pelos Cowboy Junkies. A câmera se afasta no momento do êxtase da personagem, num travelling para cima que coincide com o ápice da canção.

A personagem de Kelly Reilly, Nicole, será apresentada ao protagonista numa das melhores cenas do filme, em que três dependentes de drogas se encontram nas escadarias do hospital. Um deles é um paciente com câncer em estágio terminal, interpretado por James Badge Dale. É um belo momento intimista. E Nicole será uma personagem fundamental para tornar o filme mais belo, mais florido, mas também para ser mais um grilo falante da consciência de Whip. Uma garota que chegou ao fundo do poço nas drogas e que não deseja nunca mais retornar.

Assim é que vemos a responsabilidade ética e social que é dirigir um filme como este, que trata o tema da dependência nas drogas com certa ambiguidade, mas que tende a ver o alcoolismo como algo destruidor. Destruidor de famílias, de vidas, de relacionamentos. Assim, até mesmo a investigação em torno da culpa do piloto no caso, por causa do álcool e da cocaína encontrados em seu sangue, torna-se quase secundária, diante de sua dificuldade em largar a bebida.

O VOO recebeu duas indicações ao Oscar: ator (Denzel Washington) e roteiro original.

sábado, fevereiro 09, 2013

PARA MAIORES (Movie 43)



E hoje, pela primeira vez na minha vida de cinéfilo, eu pedi o dinheiro de volta. E não, não é porque eu me senti ofendido com o filme PARA MAIORES (2013), mas porque a projeção da sala 1 do Cine Benfica estava tremendo. Eu já tinha prometido a mim mesmo que não iria mais ver filme lá, mas já fazia tanto tempo que a mesma coisa tinha ocorrido (com O FILME DOS ESPÍRITOS, visto em outubro/2011) que eu não imaginei que ia me deparar novamente com o mesmo problema.

Desta vez eu relatei o caso ao funcionário, que afirmou que o problema era da cópia. Eu disse que não era. Ele falou que se eu quisesse eu podia pedir o meu dinheiro de volta. Depois de hesitar, foi isso que eu fiz. Pelo pouco que me submeti ao tremor na tela, já saí com dor de cabeça, coisa que eu tinha aguentado em 2011 por ser um filme brasileiro e eu poder de vez em quando fechar os olhos para descansá-los.

Enfim, saí de lá para a o Iguatemi. Já tinha tentado ver PARA MAIORES lá no dia anterior, mas por problemas técnicos (o som não funcionou), eu acabei vendo outro filme. Felizmente, mesmo com os já comuns problemas de ajuste de janela pelo projecionista, o filme transcorreu normalmente e eu pude ver até o final. Coisa que muita gente não suportou, já que se trata mesmo de um filme feito para insultar quem não aguenta grosseria.

E humor grosseiro é o que não falta em PARA MAIORES, que se compõe de vários pequenos curtas dirigidos por vários cineastas, entre eles, Peter Farrelly, uma das principais mentes diabólicas por trás desse filme que conseguiu trazer um super-elenco de astros e estrelas de Hollywood. Além de Farrelly, outros nomes conhecidos entre os diretores está James Gunn (de SUPER, 2010), a atriz Elizabeth Banks, que participa de um dos melhores segmentos, Brett Ratner (de X-MEN – O CONFRONTO FINAL, 2006), Griffin Dunne (de DA MAGIA À SEDUÇÃO, 1998), entre outros.

O super-elenco que aparece no cartaz horrível tem Kate Winslet, Naomi Watts, Elizabeth Banks, Emma Stone, Gerard Butler, Chloë Grace Moretz, Hugh Jackman, Anna Faris, Kristen Bell, Halle Berry, Richard Gere, Christopher Mintz-Plasse, Uma Thurman, Justin Long, Jason Sudeikis, Kate Bosworth, Seann William Scott, Liev Schreiber, Kieran Culkin, Terrence Howard, Johnny Knoxville, Tony Shalhoub, Chris Pratt, entre outros rostos que podem ser reconhecidos. Conta-se que o elenco fugiu em peso da pré-estreia do filme nos Estados Unidos.

Mas o que há de mais neste PARA MAIORES? Como é um filme em segmentos, eles arrumaram uma historinha para juntar as partes soltas. Uma historinha bem boba, mas que até que funciona razoavelmente bem. O primeiro segmento conta com Kate Winslet e Hugh Jackman em um primeiro encontro. O que ela não sabia é que ele tem testículos em seu pescoço. E o filme explora bastante o fato, chegando a ser bem engraçado no final. Também se destaca o segmento com a Halle Berry, que não por acaso também é sobre um encontro amoroso. Mostra até que ponto o jogo "verdade ou consequência" pode chegar.

Outro destaque do filme é a história dos garotos que ficam totalmente desesperados quando a garota vivida por Chloë Grace Moretz tem sua primeira menstruação na casa deles, enquanto espera o seu pai. Difícil não rir da situação e mesmo da interpretação dos garotos, digna de aplausos. Mais um momento memorável do filme: Anna Faris confessa que quer que seu namorado faça cocô nela. O cara, ajudado por um dos amigos, se esforça para dar o seu melhor. O resultado é impagável.

Como é natural, alguns segmentos são bem mais fracos que os outros. O que mostra o Batman (Jason Sudeikis) zoando do Robin (Justin Long) num desses encontros rápidos (speed dating) que aparecem em filmes e séries americanas até tem os seus bons momentos, mas não chega a ser realmente bom. Destacaria, finalmente, o último, pós-créditos, com Elizabeth Banks às voltas com um gato (em desenho animado) muito do sacana (pode ampliar o máximo possível esse adjetivo).

E por mais que o número de pessoas que saia reclamando do filme seja enorme, como pude comprovar ao final da sessão, há que se dar o crédito à coragem de seus realizadores. No fim das contas, o saldo é mais positivo do que negativo. Isto é, se você não se sentir ofendido ou achar que humor escatológico, quando feito com criatividade, é algo a ser totalmente descartado.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

INATIVIDADE PARANORMAL (A Hauted House)



Vendo esta tosquice chamada INATIVIDADE PARANORMAL (2013) fico pensando se o fato de eu ter gostado de TODO MUNDO EM PÂNICO (2000) e até de suas continuações e de outros trabalhos dos irmãos Wayans era porque eu era menos ranzinza ou porque as coisas realmente pioraram muito de lá pra cá. Afinal, os Wayans, ou no caso, apenas Marlon Wayans, que aparece como ator e roteirista neste novo filme, não deixou de lado a comédia grosseira, o humor escatológico que ri com flatulências e coisas do tipo.

Talvez o humor daquela época, tanto no que se refere a parodiar os filmes de terror contemporâneos quanto a fazer as piadas mais grosseiras possíveis, tenha deixado de ser divertido. Ou então é porque eles perderam a mão mesmo para a coisa, já que os outros irmãos, os Farrelly, ainda continuam bem, apesar do fiasco que dizem ser OS TRÊS PATETAS.

O fato é que uma comédia sem graça como esta chega a incomodar a ponto de ser constrangedora. No caso, não é constrangedora por causa do tipo de humor, mas porque se está diante de um filme que é feito supostamente para causar gargalhadas. Um ou outro sorriso amarelo ainda é possível, uma risada aqui e ali, mas não é essa a intenção do filme.

Em INATIVIDADE PARANORMAL, o principal alvo é, claro, a franquia ATIVIDADE PARANORMAL, mas há também espaço para eles brincarem com os filmes FILHA DO MAL e O ÚLTIMO EXORCISMO, que são deixados para serem enxertados lá pelo final, funcionando como esquetes mal montadas.

A trama é basicamente a mesma de ATIVIDADE PARANORMAL: casal se muda para casa nova e tem sua rotina de vida atormentada por um espírito demoníaco. Mas interessante que, como se trata de uma comédia, o diretor toma um cuidado para não dar nenhum susto na plateia. Como se tivesse medo de misturar gêneros. Assim, na cena da câmera montada na base de um ventilador, que é uma das grandes sacadas de ATIVIDADE PARANORMAL 3, eles fazem uma piada com a empregada latina da casa.

Quanto ao tal espírito, ele é tão invasivo que faz questão de possuir os corpos dos dois habitantes da casa, no sentido mais carnal mesmo. E se a mulher fica satisfeita com a noitada boa com o demônio, o sujeito já não gosta muito de ter sido tão invadido. Sem falar que precisou sentar numa almofada no dia seguinte.

Marlon Wayans até que não é mau comediante. Seu humor histriônico funciona às vezes e já funcionou até que bem no passado. Mas este novo filme é tosco, sem graça, com coadjuvantes muito bestas, como o médium gay ou o casal de amigos que querem brincar de troca de casal. O resultado é um dos mais desagradáveis filmes do ano no cinema. Espero que nossas comédias para o cinema previstas para este ano não consigam ser tão ruins.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

HATFIELDS & McCOYS



Uma beleza esta minissérie produzida pelo canal History Channel. Estrelada por Kevin Costner e Bill Paxton e dirigida por Kevin Reynolds – o mesmo que dirigiria o maltratado WATERWORLD – O SEGREDO DAS ÁGUAS (1995), a minissérie HATFIELDS & McCOYS (2012) lida com a interminável briga entre duas famílias americanas, que se estende desde o fim da Guerra Civil e que só conseguiu uma trégua agora, recentemente, nos anos 2000. Mas a minissérie, que pode ser encarada como um grande filme épico familiar, já que é toda dirigida por Reynolds, se concentra principalmente nos patriarcas 'Devil' Anse Hatfield (Costner) e Randall McCoy (Paxton) e seus filhos imediatos.

Pode ser que seja uma impressão minha, mas há uma tendência de a minissérie mostrar os Hatfields como sendo mais simpáticos do que os McCoys. Se por um lado, os Hatfields têm em sua família o tio Jim, um assassino frio e pouco simpático (um irreconhecível e sensacional Tom Berenger), por outro, os McCoys têm um advogado bem maquiavélico (Ronan Vilbert) e logo depois um caçador de recompensas que é alçado à delegado da cidade, o ‘Bad’ Frank Philips (Andrew Howard). Sem falar na garota que é um demônio, vivida por Jena Malone, que tem apenas ódio em sua alma, gerada pelo fato de Jim Hatfield ter matado seu pai.

São muitos personagens, mas a série não se deixa perder. Ao contrário, parece tudo estar em ordem e que vai se tornando mais emocionante depois de uma hora e meia de filme, quando a rixa entre as duas famílias torna a vida de ambas um inferno. Em certo momento, é como se uma nova guerra civil fosse deflagrada.

Alguns momentos são particularmente emocionantes, como a cena em que Anse (Costner) cogita matar o próprio filho, por achar que ele é um traidor. A cena da execução dos três filhos de Randall McCoy também é dolorosa, assim como a execução de um dos personagens mais inocentes e puros da série. Há também o relacionamento do casal das duas famílias que desejam se casar, mas que no fim das contas não encontram a felicidade.

A que atribuir um resultado tão bom vindo de um diretor mediano como Reynolds? Talvez o toque de Costner, talvez a produção e os roteiristas. Kevin Costner, inclusive, se quisesse passar o resto da vida fazendo filmes de caubói não faria mal. Ele poderia se tornar o novo herói do gênero, por mais que já tenha os seus 60 anos. Aliás, a idade foi perfeita para viver o patriarca dos Hatfields, já que ele não aparenta ter essa idade e a maquiagem ajudou a mostrá-lo mais velho, nos seus momentos finais.

Kevin Costner ganhou o Globo de Ouro de melhor ator por seu excelente desempenho nesta minissérie.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

BARBARA



Em meio a tantos filmes do Oscar que se pretendem grandiosos, mas cuja maioria acaba se revelando decepcionante, é um alívio ver uma obra em que o menos é mais, em que o cuidado com a construção dos personagens e da direção em um filme claramente de baixo custo resulta numa obra inquietante e instigante. Este é BARBARA (2012), de Christian Petzold, o filme indicado pela Alemanha ao Oscar de filme em língua estrangeira, mas que acabou não ficando entre os cinco principais. Mas BARBARA já tem um prêmio importante: o Urso de Prata no Festival de Berlim para o seu diretor. Pouco conhecido no Brasil, Petzold já tem no currículo 11 filmes, sendo cerca de metade deles feitos para a televisão alemã dos anos 1990 pra cá.

BARBARA é ambientado no início da década de 1980, quando a Alemanha era dividida e os países que viviam sob o julgo socialista sofriam com a falta de liberdade. Sei que hoje ainda existem aqueles que acreditam no Socialismo, mas quando assisto filmes como este – outros exemplos seriam A VIDA DOS OUTROS, de Florian Henckel von Donnersmarck, e 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, de Christian Mungiu –, vejo o quanto era sofrida a vida dessas pessoas. Tanto é que a queda do muro de Berlim foi uma festa não só para os alemães da Alemanha Oriental, mas para quase todo o mundo.

E nem estou querendo enaltecer o Capitalismo não, pois sei também que nos Estados Unidos e em outros lugares (o Brasil, inclusive) houve a chamada "caça às bruxas" contra quem era simpatizante dos comunistas. Não quero ficar dedicando esta postagem a sistemas políticos. O que me interessa são as pessoas. O quanto o destino delas é perturbado por causa da decisão dos poderosos e o quanto as suas vontades, por mais simples que sejam, se tornam proibidas.

Em BARBARA, a personagem-título é uma médica que começa a trabalhar em um hospital de uma pequena cidade da Alemanha Oriental. Já no começo, percebemos que ela é uma pessoa pouco sociável, mas aos poucos o filme vai mostrando sua situação: por questões políticas, ela foi lotada nesse hospital de uma cidade em que ela não conhece ninguém e é constantemente vigiada pelos fiscais do Governo. Ela tem um plano de fugir do país. Assim, BARBARA é tão tenso e interessante quanto um filme de prisão.

Aos poucos, porém, a protagonista começa a fazer amizade com um dos médicos do hospital, que força um pouco o relacionamento, por mais que ela se mostre resistente a suas tentativas de aproximação. A personagem se torna ainda mais interessante quando vemos sua real maneira de ser: quando ela se encontra às escondidas com o namorado e planeja com ele a difícil fuga.

A narrativa é lenta e segura, com uma coesão admirável e sem ter aparentemente nenhuma sequência descartável. Pequenos detalhes de época são também objeto de interesse, como o som do pisca do carro do médico, a cada vez que ele faz uma curva; ou o som e a imagem do vento atingindo com força as árvores do local em que a personagem esconde algo. A própria fotografia parece pertencer aos anos 70 ou 80, com imagens esmaecidas. São coisas comuns, mas que ajudam a engrandecer o filme. Paradoxalmente, a aflição da situação da personagem se junta ao nosso prazer de acompanhar a trajetória de Barbara.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

SPIDER BABY, OR THE MADDEST STORY EVER TOLD



Visto hoje, SPIDER BABY, OR THE MADDEST STORY EVER TOLD (1968) pode ser a ponte entre o cinema de horror dos monstros clássicos da Universal que teve o seu auge na década de 1930 e o horror contemporâneo representado por Rob Zombie, já que Sid Haig, que faz o papel do maluco careca Ralph Merrye, é a figura mais presente nos filmes de Zombie. Já a relação carinhosa com o cinema de horror da Universal está na presença de Lon Channey Jr., que viveu inúmeros monstros no estúdio, mas que ficou famoso mesmo por seu papel em O LOBISOMEM (1941). Inclusive, há citações divertidas ao clássico neste Bzão dirigido por Jack Hill.

Hill é um dos cineastas queridos de Quentin Tarantino, um mestre do exploitation, como os W.I.P. THE BIG DOLL HOUSE (1971) e THE BIG BIRD CAGE (1972), que lidam com o fetiche de colocar mulheres sofrendo em prisões, de preferência com nudez e com situações envolvendo sexo. Mas seu filme mais famoso talvez seja FOXY BROWN (1974), blaxploitation que seria homenagedo por Tarantino em JACKIE BROWN, inclusive com a presença de Pam Grier, a grande musa desses filmes dirigidos principalmente ao público negro e que valorizavam o black power, ainda que fossem trabalhos baratos e marginais.

Em certo sentido, SPIDER BABY pode ser considerado um dos primeiros filmes do chamado horror rural americano que se popularizaria com obras como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, ANIVERSÁRIO MACABRO e QUADRILHA DE SÁDICOS. No entanto, SPIDER BABY é uma comédia e seus elementos de horror não causam hoje nenhum espanto ou medo. Apenas divertem. A própria casa em que vivem é o clichê de inúmeras casas assombradas mostradas desde que o cinema é cinema.

Na trama, uma família, os Merryes, possui traços de uma doença degenerativa que levam seus membros a um estado de demência progressiva, com a diferença que, à medida que vão crescendo e perdendo a razão, vão também se tornando selvagens canibais. Quem cuida dos três adolescentes da casa, duas meninas e um rapaz, é o mordomo Bruno (Lon Channey Jr.), um senhor devotado. O problema é que aparecem visitas inesperadas, familiares que têm a intenção de ficar com a casa e levar os meninos para uma instituição psiquiátrica. No entanto, uma série de situações acontece durante a noite e vai frustrando os planos dos hóspedes.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

CAÇA AOS GÂNGSTERES (Gangster Squad)



Chega a ser triste quando vemos tanta gente boa junta e um resultado medíocre, vazio. E nem é por falta de boa vontade: o diretor Ruben Fleischer até quis fazer um trabalho grandioso, que honrasse os filmes de gângster da Warner, como os estrelados por James Cagney e Edward G. Robinson, principalmente os mais violentos, antes que o Código Hayes proibisse a carga de violência que esses filmes carregavam.

E violência é o que não falta em CAÇA AOS GÂNGSTERES (2013), mas acontece que Fleischer, do mesmo jeito que fez um filme de zumbi leve – ZUMBILÂNDIA (2009) -, fez também um filme violento em que a violência não parece ter efeito algum. O grafismo está lá, mas pouco importa. E, principalmente, pouco importam os personagens, por mais simpática que seja a gangue formada por Josh Brolin, Ryan Gosling, Robert Patrick, Anthony Mackie, Michael Peña e Giovanni Ribisi, com um chefe de polícia vivido por Nick Nolte. Ainda por cima, temos a gracinha da Emma Stone, como o interesse amoroso de Gosling e professora de etiqueta do personagem de Penn.

Mas acontece que Sean Penn não encontrou o tom certo e o seu sub-Tony Montana (personagem de SCARFACE, de Brian De Palma) é apenas a caricatura de um vilão. Desses vilões que logo se esquece, junto com o filme. Ver CAÇA AOS GÂNGSTERES é sair da sessão vazio. E nem se trata de estar esperando um novo OS INTOCÁVEIS ou um novo LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA, mas é possível, por exemplo, lembrar um caso recente de respeito: OS INFRATORES, de John Hillcoat, que tem um ponto de vista bem diferente, é verdade, mas que é exemplar na reconstituição histórica, na construção dos personagens e no impacto da violência.

Na trama, a Los Angeles do final dos anos 1940 é governada por um mafioso, Mickey Cohen (Penn). Os policiais são todos comprados por esse homem. Até surgir um grupo de policiais comandado principalmente pelo personagem de Brolin, que tem a coragem de encarar o perigoso gângster, não importando as consequências. O personagem de Brolin, inclusive, tem uma esposa que sabe dos perigos que ele corre (Mireille Enos, conhecida de quem acompanha a série THE KILLING). É uma velha história do bem contra o mal, sem tons de cinza. Nada contra, mas o filme de Fleisher não tem estilo nem charme.

CAÇA AOS GÂNGSTERES vai ficar mais conhecido como o filme que foi censurado por causa de um fator externo: o seu trailer, que antes contava com uma cena dos gângsteres atirando em pessoas em uma sala de cinema. Trailer esse que foi parar junto à cópia de BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE, em sessão de pré-estreia na cidade de Denver, no Colorado. A sessão foi manchada por um maníaco fantasiado de Coringa que matou várias pessoas. Resultado: a cena foi cortada e o filme foi adiado para este ano. Não perdemos muito por esperar.

P.S.: Pela terceira vez eu tive um aborrecimento ao ver um filme na sala 12 do Multiplex Iguatemi. Reclamei pela terceira vez, mas o projecionista disse que estava normal. Pra mim, aquela imagem escura não é normal, principalmente para uma cópia em 35 mm. Pode ser normal para um padrão ruim de qualidade, mas as outras salas não estão assim. Fico na dúvida se desisto da sala 12 para evitar novos aborrecimentos ou se reclamo mais uma vez, caso o problema não tenha sido solucionado.

domingo, fevereiro 03, 2013

OS MISERÁVEIS (Les Misérables)



Quem diria que um musical de quase três horas de duração causasse tanto sucesso frente ao público de hoje? Não era uma aposta, por exemplo, da organização dos Cinemas UCI de Fortaleza, que havia colocado o filme numa sala com capacidade para 210 lugares e o transferiram no sábado para uma de 446 lugares, a maior do multiplex. Isso porque, já na primeira sessão de sexta-feira à tarde, OS MISERÁVEIS (2012) lotou a sala e pessoas chegaram a assistir ao filme sentadas no chão, de acordo com fontes confiáveis. A aposta comercial estava na comédia escatológica de Marlon Wayans (INATIVIDADE PARANORMAL). Que, de certa forma, era até mais previsível de ser vista como uma produção mais procurada.

Porém, a maior parte do público queria ver mesmo OS MISERÁVEIS, o filme baseado num dos musicais mais aclamados do mundo. Como se trata de uma obra muito famosa, há um grupo de apreciadores que já vai ao cinema conhecendo as canções de cor. E curiosamente a divulgação do filme procurava justamente esconder o fato de o filme ser um musical com pouquíssimas sequências faladas. Nem mesmo a Universal previa o sucesso.

O diretor Tom Hooper não esconde as raízes teatrais, com a intenção de passar a impressão de irmos ao teatro para ver uma ópera. Ou pelo menos uma herdeira do musical criado pelos italianos. Há muitos acertos na versão cinematográfica, a começar pela escolha do protagonista, Hugh Jackman, que já contava com experiência em musicais na Broadway, tendo já dado uma palinha de seu talento na edição do Oscar em que foi apresentador. Ele foi uma escolha acertada para viver o personagem Jean Valjean.

Ele é o homem que de procurado pela polícia passa para uma posição elevada na classe social, depois de alguns anos longe de Paris e de ter mudado de identidade. Seu grande inimigo é o persistente inspetor Javert, interpretado por Russell Crowe. Crowe, aliás, é talvez a pior escolha para o elenco do filme. Poucos fãs do filme gostaram de sua performance e muito menos de seu canto. Por outro lado, estão muito bem Anne Hathaway e Amanda Seyfried, bem como a dupla de trapaceiros vivida por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

A trama lida com os destinos interligados destes dois personagens, mas principalmente com o encontro de Valjean com Fantine (Anne Hathaway), uma das trabalhadoras da fábrica que é demitida e colocada em meio aos inúmeros miseráveis que habitam as ruas da França. Fantine tem uma filha, Cosette, vivida por Isabelle Allen na infância e por Amanda Seyfried na adolescência. A menina seria criada por Valjean como se fosse sua própria filha, dando mais sentido a sua vida, uma vida atribulada, já que sempre fugindo do inspetor Javert.

Quanto à recepção do filme por mim, digamos que não senti a mesma emoção que os demais. Testemunhei, porém, uma sala repleta de pessoas muito emocionadas, algumas chorando até. O que eu vi foi uma produção muito caprichada, mas que, pelo menos nesta primeira apreciação, não me comoveu. Não vou atribuir culpa à direção de Tom Hooper, já que o filme foi bem recebido por tantos e o Hooper é o sujeito que tem em seu currículo a obra-prima JOHN ADAMS (2008), a emocionante minissérie produzida para o canal HBO sobre o segundo presidente dos Estados Unidos.

OS MISERÁVEIS recebeu oito indicações ao Oscar: filme, ator (Hugh Jackman), atriz coadjuvante (Anne Hathaway), direção de arte, figurino, maquiagem e cabelos, canção (“Suddenly”) e mixagem de som.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook)



Confesso que fiquei com uma ponta de decepção com relação a O LADO BOM DA VIDA (2012). Esperava mais do filme, levando em consideração tantas críticas positivas, desde a repercussão no Festival de Toronto. Ainda assim, não dá para dizer que o filme de David O. Russell é uma comédia romântica convencional. Isso se deve em parte pelo tema, o das pessoas que sofrem de doenças que a tornam quase marginais na sociedade; e em parte pelo modo todo particular com que Russell tece as relações familiares, que já havia sido muito bem explorada em O VENCEDOR (2010), seu filme anterior.

Pelo histórico do diretor, desde A MÃO DO DESEJO (1994), seu longa-metragem de estreia, que não por acaso também lida com a dificuldade nas relações familiares, passando pelo bem humorado TRÊS REIS (1999), sua mão quase sempre foi a de trabalhar mais com a comédia do que com romances. Daí o resultado pouco satisfatório no que se refere à conclusão do filme, que pareceu um pouco forçada, embora fosse a desejada pela audiência. Mesmo assim, até chegar ao final, e principalmente pouco antes de chegar ao final, na sequência da dança, o filme alcança o seu melhor momento.

É quando a gente vê o talento multifacetado de Jennifer Lawrence. A garota, além de ser ótima atriz, ainda manda bem em filmes de ação e agora mostra que sabe dançar também. Sem falar que sua personagem é bem interessante, justamente por causa de seus defeitos. Se fosse um filme de Martin Scorsese, sairia um elogio à loucura e tanto. Nas mãos de O. Russell, o destaque acaba sendo o bom tratamento nos diálogos e os divertidos conflitos familiares, que acabam oferecendo a Robert De Niro uma de suas melhores interpretações em muito tempo. Jackie Weaver está bem como a mãe de Pat (Bradley Cooper), mas talvez tenha sido um exagero indicarem-na a Oscar de atriz coadjuvante.

Na trama, Pat é um sujeito que passou oito meses preso numa instituição psiquiátrica por ter quase matado o amante da mulher, ao flagrá-los no chuveiro. Seu comportamento diagnosticado como bipolar se nota especialmente pela madrugada, quando ele perturba os pais por coisas que poderiam ser conversadas ou resolvidas com calma no dia seguinte. Seu sonho é poder voltar para a esposa, que o impede de vê-la, com uma ordem de restrição judicial, e ter o emprego de volta. Para isso, ele pede a ajuda de uma moça que também é tida pelos vizinhos como maluquinha (Jennifer Lawrence). Os dois acabam se tornando amigos e o resto é um tanto previsível, embora o filme melhore à medida que se aproxima de seu final.

Mas faltou mesmo foi emoção. Seria resistência do diretor ao sentimentalismo ou falta de tato em lidar com os sentimentos? Fica a impressão de que nós, espectadores, tomamos um desses remédios que tiram nossa capacidade de emocionar e nos fazem ver a vida com certa indiferença. E isso não é um bom sinal para um filme, por mais que ele tenha suas qualidades.

O LADO BOM DA VIDA recebeu oito indicações ao Oscar: filme, direção, ator (Bradley Cooper), atriz (Jennifer Lawrence), ator coadjuvante (Robert De Niro), atriz coadjuvante (Jackie Weaver), roteiro adaptado e montagem.

P.S.: Confiram os indicados ao Alfred, o prêmio criado pela Liga dos Blogues Cinematográficos, AQUI. E confiram os meus favoritos AQUI.