sábado, dezembro 29, 2012

TOP 20 2012 E O BALANÇO DO ANO 



1. O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho
2. A MÚSICA SEGUNDO TOM JOBIM, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim
3. O GAROTO DA BICICLETA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
4. EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS, de Beto Brant e Renato Ciasca
5. O PORTO, de Aki Kaurismäki



6. PROMETHEUS, de Ridley Scott
7. A GUERRA ESTÁ DECLARADA, de Valérie Donzelli
8. COSMÓPOLIS, de David Cronenberg
9. DEUS DA CARNIFICINA, de Roman Polanski
10. 007 – OPERAÇÃO SKYFALL, de Sam Mendes



11. SHAME, de Steve McQueen
12. TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, de Apichatpong Weerasethakul
13. O IMPOSSÍVEL, de Juan Antonio Bajon
14. À BEIRA DO CAMINHO, de Breno Silveira
15. A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, de Martin Scorsese



16. MÃE E FILHA, de Petrus Cariry
17. OS DESCENDENTES, de Alexander Payne
18. O QUE SE MOVE, de Caetano Gotardo
19. JOGOS VORAZES, de Gary Ross
20. A ARTE DE AMAR, de Emmanuel Mouret

Menções honrosas (ou filmes que quase entraram no top 20): A DELICADEZA DO AMOR, de David e Stéphanie Foenkinos; ARGO, de Ben Affleck; TÃO FORTE E TÃO PERTO, de Stephen Daldry; AS AVENTURAS DE PI, de Ang Lee; BELEZA ADORMECIDA, de Julia Leigh; AS AVENTURAS DE TINTIM, de Steven Spielberg; CONSPIRAÇÃO AMERICANA, de Robert Redford; L’APOLLONIDE – OS AMORES DA CASA DE TOLERÂNCIA, de Bertrand Bonello; SUPER NADA, de Rubens Rewald e Rossana Foglia; e O LEGADO BOURNE, de Tony Gilroy.

Poderia citar mais. Poderia fazer um top 40 só com filmes ótimos. 2012 foi um ano bem especial para o cinema. Em comparação com o ano passado foi muito melhor em quantidade de lançamentos de qualidade. E olha que ainda temos um sério problema de distribuição em nosso circuito e eu ainda tenho o agravante de morar em uma cidade que não traz todos os filmes que eu gostaria que trouxesse. Na verdade, a maioria não vem mesmo para os cinemas locais. A proliferação de salas ocupadas com filmes dublados e em 3D complica a chegada de certos filmes em cidades como esta, que ainda teve o problema de ter uma interrupção de exibição nas salas do Dragão do Mar no segundo semestre. Esperemos que retornem com grandes filmes. Importante observar que dos 20 filmes escolhidos, cinco passaram no Dragão do Mar, embora O PORTO, eu tenha visto em São Paulo.

Agora, difícil eu falar de 2012 e não mencionar a triste perda do nosso querido Carlão Reichenbach, o homem responsável não só por um cinema brasileiro de invenção e inteligente, mas também por ter sido responsável por eu estar aqui, escrevendo neste blog, pois foi graças a ele que eu conheci tantas pessoas especiais. Qualquer homenagem que eu faça a este homem é pequena. Então, 2013, apesar de prometer muitas coisas boas, vai ser o primeiro ano sem Carlos Reichenbach. Quer dizer, ainda o veremos em uma produção, atuando como ator: AVANTI POPOLO, de Michael Wahrmann, filme premiado no Festival de Roma.

Tirando este incidente desagradável, 2012 foi um ano muito bom para o cinema brasileiro. Pode-se notar pela quantidade de produções nacionais que integram o meu top 20: seis filmes! E seriam sete, se tivesse visto TRABALHAR CANSA no cinema, já que este top 20 é de apenas filmes vistos no cinema. Os filmes que vejo em casa brigam com os clássicos para entrar num top 20 à parte: o top 20 da telinha, mais abaixo.

Como não estou dando satisfação a regras de outros, mas apenas a minha mesmo, entram também filmes vistos em festivais. Assim, não consegui evitar em premiar o sensacional O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho, visto no Festival de Gramado, e que está sendo louvado pela crítica internacional como um dos melhores filmes de 2012. Merecido. Há outro filme de Gramado também em minha lista: o belíssimo O QUE SE MOVE, de Caetano Gotardo.

Dentre os que estrearam no circuito, A MÚSICA SEGUNDO TOM JOBIM foi uma festa para os sentimentos. E olha que não me considero fã do maestro, mas saí do cinema em estado de graça. Recomendei o filme a tantas pessoas, mas a maioria não deu muita bola. Quem viu sabe do que eu estou falando. Outro que esteve entre os meus favoritos desde antes de sua estreia foi EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS, mais um trabalho de Beto Brant e Renato Ciasca. Brant, sozinho ou com o amigo, é o meu cineasta brasileiro favorito atualmente. E cada filme seu é recebido com entusiasmo por mim.

Os outros dois filmes brasileiros da lista não poderiam ser mais diferentes: À BEIRA DO CAMINHO, de Breno Silveira, é um melodrama acessível, bonito, com canções do Rei; MÃE E FILHA, de Petrus Cariry, é um filme difícil, sofisticado, cheio de possíveis significações. E um trabalho feito por um cearense, orgulho de nosso estado.

A lista também está rica em filmes mais alternativos, como o belíssimo O GAROTO DA BICICLETA, dos irmãos Dardenne; ou o estranhamente terno O PORTO, do cineasta finlandês Aki Kaurismäki; ou o desafiador COSMÓPOLIS, de David Cronenberg; ou o ganhador da Palma de Ouro TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que estreou no circuito brasileiro no ano passado, mas que só veio aos cinemas de Fortaleza neste ano. Aliás, deve ter uns dois ou três na lista nessas condições.

O ano foi tão bom que até os blockbusters foram animadores. Obras de arte lindas de se ver em sua grandiosidade épica. Filmes como PROMETHEUS, de Ridley Scott; JOGOS VORAZES, de Gary Ross; ou 007 – OPERAÇÃO SKYFALL, de Sam Mendes, são exemplos de como o cinema de arte se mistura em qualidade com o cinemão. Aliás, quem diria que um dia um filme de James Bond apareceria numa lista de melhores do ano feita por mim? Eu, que nunca fui fã da franquia.

Foi também um ano muito bom para o cinema francês, com tantos filmes bonitos que até doeu ter que cortar alguns da lista. Entraram o melodrama A GUERRA ESTÁ DECLARADA, de Valérie Donzelli; e a comédia A ARTE DE AMAR, de Emmanuel Mouret. Nas menções honrosas, é possível ver outros belíssimos exemplares.

Dos filmes indicados ao Oscar 2012, pelo menos dois representantes aparecem: A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, de Martin Scorsese, e OS DESCENDENTES, de Alexander Payne. Curiosamente, a gente espera tanto pelos filmes do Oscar e quando chega a lista do final do ano, são poucos os que merecem o devido crédito.

Além destes, um cineasta veterano como Roman Polanski trouxe uma adaptação de uma peça teatral para o cinema e fez muita gente se deliciar entre quatro paredes com o seu DEUS DA CARNIFICINA; e um cineasta mais novo como Steve McQueen e seu SHAME confirma a vitalidade do cinema da atualidade. Pra completar, ainda encerramos o ano com um trabalho excepcional de Juan Antonio Bajon, O IMPOSSÍVEL, que mexeu com a lista até então defintiva de melhores do ano de muita gente.

Há vários filmes bem badalados pela crítica nacional e internacional que infelizmente não chegaram por aqui ainda e que possivelmente integrarão a lista dos melhores de 2013. Acho que não preciso citar os títulos aqui.

Os piores

Depois da glória dos melhores, um pouco da tristeza dos piores. Eis os cinco títulos escolhidos, sem o nome de seus diretores para não gerar constrangimento:

1. O PACTO
2. ATÉ QUE SORTE NOS SEPARE
3. BATTLESHIP – A BATALHA DOS MARES
4. TOTALMENTE INOCENTES
5. O DITADOR

As séries 

Dentre as séries novas, só vi uma, e já posso colocá-la como destaque, que é GIRLS, trabalho excepcional de Lena Dunham. As demais séries que foram muito bem no ano passado, como GAME OF THRONES, THE KILLING e HOMELAND, apresentaram leve queda de qualidade, mas não tão grave a ponto de abandoná-las. THE WALKING DEAD, por outro lado, continua tão boa na terceira como foi na segunda temporada. Outras séries que continuo vendo com prazer: THE BIG BANG THEORY, DEXTER e AMERICAN HORROR STORY. Mas a série que eu mais vi neste ano foi HOUSE, que se despediu das telinhas depois de oito temporadas.

Top 5 "Musas do Ano"



1. Nathalia Dill (PARAÍSOS ARTIFICIAIS)
2. Kate Beckinsale (O VINGADOR DO FUTURO)
3. Camila Pitanga (EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS)
4. Jennifer Lawrence (JOGOS VORAZES)
5. Emma Roberts (A ARTE DA CONQUISTA)



Ao contrário do ano passado, que ficou faltando brasileira na lista, na fartura de 2012, escolhi duas lindas brasileiras que não só embelezaram os filmes, mas que os tornaram especiais. Além delas, Jennifer Lawrence comparece pela segunda vez; Kate Beckinsale é linda até quando é malvada; e Emma Roberts lembra aquele amor da adolescência que nos deixava sonhando acordados.

Melhores vistos na telinha 

Por mais que a lista lá de cima seja ótima, não se compara a esta aqui, cheia de clássicos e obras-primas de décadas passadas e trabalhos recentes excepcionais. Em ordem alfabética:

A CAIXA DE PANDORA, de Georg Wilhelm Pabst
A MULHER QUE INVENTOU O AMOR, de Jean Garrett
CINZAS QUE QUEIMAM, de Nicholas Ray
CONTOS DA LUA VAGA, de Kenji Mizoguchi
DELÍRIO DE LOUCURA, de Nicholas Ray
FREUD – ALÉM DA ALMA, de John Huston
MADAME BOVARY, de Claude Chabrol
MARGARET, de Kenneth Lonergan
MARTHA MARCY MAY MARLENE, de Sean Darkin
MARTY, de Delbert Mann
MEMÓRIAS DO CÁRCERE, de Nelson Pereira dos Santos
O ANJO DA NOITE, de Walter Hugo Khouri
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, de Manoel de Oliveira
O GABINETE DO DR. CALIGARI, de Robert Wiene
O RESGATE DO BANDOLEIRO, de Budd Boetticher
PROCURANDO ELLY, de Asghar Farhadi
REI DOS REIS, de Nicholas Ray
SEDUÇÃO DO PECADO, de Raoul Walsh
TRABALHAR CANSA, de Marco Dutra e Juliana Rojas
VALE ABRAÃO, de Manoel de Oliveira

Revisões 

A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS, de Dan O’Bannon
ALMA CORSÁRIA, de Carlos Reichenbach
AMOR À QUEIMA-ROUPA, de Tony Scott
AS CARIOCAS, de Fernando de Barros, Walter Hugo Khouri e Roberto Santos
CINEMA DE LÁGRIMAS, de Nelson Pereira dos Santos
CLAMOR DO SEXO, de Elia Kazan
FUGA PARA ODESSA, de James Gray
JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray
JUVENTUDE TRANSVIADA, de Nicholas Ray
MASTERS OF HORROR - THE BLACK CAT, de Stuart Gordon
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, de Rogério Sganzerla
O CIRCO, de Charles Chaplin
OS IMPERDOÁVEIS, de Clint Eastwood
SCARFACE, de Brian De Palma
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA, de Manoel de Oliveira
SPIDER - DESAFIE SUA MENTE, de David Cronenberg
TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA, de Arnaldo Jabor

Feliz ano novo! 

E encerro este tradicional post para deixar os votos de um 2013 cheio de bênçãos: muita paz, amor e saúde, que são ingredientes básicos pra gente seguir acreditando na vida. E também outras coisas que vários de nós almejamos e que gostaríamos de ver materializadas, como sucesso profissional e acadêmico, inspiração na hora de escrever, sabedoria, realização financeira e parcerias de sucesso no campo afetivo. É pedir muito? Acho que não. :)

sexta-feira, dezembro 28, 2012

DOCE DE MÃE



Este é meu penúltimo post do ano. Amanhã encerrarei 2012 com o top 20 e o tradicional balanço anual. E é bom encerrar com um filme leve como este DOCE DE MÃE (2012), de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, exibido nesta quinta-feira na Rede Globo. Na verdade, meu interesse pelo filme é mesmo por causa da direção de Jorge Furtado. Se não fosse por ele, teria encarado este telefilme como uma espécie de A GRANDE FAMÍLIA, coisa que não me interessa muito. Se bem que no fim das contas, o filme acaba mesmo entrando por esse caminho, embora no começo tenha prometido algo mais, ao explorar a questão da velhice como centro da trama.

Ainda assim, é um bom produto televisivo e com um elenco de luxo encabeçado por Fernanda Montenegro. Há uma intenção de transformar DOCE DE MÃE em uma série, mas acho que não vai acontecer, por causa do elenco de apoio, composto por Marco Ricca, Louise Cardoso, Mariana Lima, Matheus Nachtergaele e Daniel de Oliveira. Segurar esse elenco não deve ser ser fácil.

Mas quem brilha mesmo – como deve ser – é Fernanda Montenegro, no papel da Dona Picucha, uma senhora que tem quatro filhos que já não moram mais com ela e que junta a família para comemorar um evento especial. O tal evento é que sua empregada, que a ajuda há 20 anos, vai casar e ir embora. Logo os filhos ficam loucos, sem saber o que fazer. Deixar a mãe sozinha não é bom, ela anda esquecida das coisas. E nenhum deles quer levar a mãe para sua casa.

Um dos momentos mais divertidos do filme é quando Dona Picucha decide levar Jesus (Daniel de Oliveira), um mendigo que já foi aluno de seu falecido marido, para sua casa. O mendigo acaba sendo uma boa para sua filha solteira (Mariana Lima), que ultimamente andava com umas de sexo virtual. Fernanda Montenegro, esse monstro da televisão e do cinema brasileiros, faz uma velhinha adorável sem o menor esforço e com um timing para a comédia sensacional.

O único problema que eu vi no filme foi que ele é televisivo demais. Como Furtado não faz cinema desde 2007, quando lançou SANEAMENTO BÁSICO, O FILME, talvez tenha ficado viciado com o estilo de dirigir para a televisão.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

UM FILME PARA NICK (Lightning over Water / Nick's Film)



E o último filme de Nicholas Ray, em parceria com Wim Wenders, foi um filme sobre a sua própria morte. Ou sobre os seus últimos dias de vida. Não deixa de ser uma obra um tanto quanto mórbida e Wim Wenders, pelo menos dentro do que ele procura mostrar, também sofre em pensar que pode estar lucrando com a morte do amigo e mentor Nick Ray, em fase terminal de câncer e já tendo passado pro três cirurgias. No fim das contas, UM FILME PARA NICK (1981) é uma obra que leva a muitas reflexões.

E tudo no filme nos leva a pensar quais os limites do documentário e da ficção. Um dos momentos mais interessantes de UM FILME PARA NICK é quando vemos, depois de já passados vários minutos, toda a equipe técnica por trás do filme realizado em 35 mm, com uma bela paleta de cores. Há também uma filmagem caseira, em imagem ruim, filmada pelo amigo de Nick, Tom Farrell. A contraposição entre essas duas imagens ajuda o espectador a entender o que é encenado e o que é documentado. Mas apenas ajuda, não esclarece. E é melhor assim. O filme ganha com isso.

Na época, Nicholas Ray ainda estava montando o seu mais recente filme, feito à moda vanguardista, WE CAN’T GO HOME AGAIN (1976). Por isso a sua admiração pelos cineastas europeus e sua recusa a voltar ao sistema hollywoodiano. Por outro lado, Wim Wenders era um admirador do cinema americano e o de Ray em particular. Assim, nota-se na tela uma impressão de amizade e respeito mútuos.

Um dos momentos mais bonitos acontece quando Ray, assistindo um amigo encenar para o teatro uma obra de Kafka, percebe que Wim Wenders havia chegado de viagem e estava sentado nas últimas cadeiras. Ao perceber a presença do amigo alemão e de sua esposa, Ray interrompe o ensaio com um amável "Hello, Wim!". A esposa de Wim pergunta como ele está e ele diz que vai bem, com um sorriso no rosto. Embora notemos a decadência física do cineasta, sua vontade de viver, mesmo com as dores, os vômitos e a dificuldade de respirar, é maior. Pelo menos até certo ponto.

Por mais que se atribua a direção também a Ray, ele estava muito doente para dirigir. Assim, seria mais um filme de Wenders, mesmo. Porém, dada a semelhança com WE CAN’T GO HOME AGAIN, que também trafega entre a realidade e o documental, pode-se dizer que é um filme de Ray também. Um filme de despedida do "poeta da noite", como assim o chamou François Truffaut. E por mais que seja bem estranha a sua última aparição em UM FILME PARA NICK, é uma sequência bem significativa, tanto da vontade do cineasta americano de encerrar o seu filme (e sua vida) e a não-vontade de Wenders de se despedir.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

A NEGOCIAÇÃO (Arbitrage)



Está longe de ser um grande filme, mas A NEGOCIAÇÃO (2012) é um bom thriller dramático dirigido pelo estreante em longa-metragem de ficção Nicholas Jarecki. Tem um jeitão de filme para a televisão, sem muita sofisticação na direção ou no roteiro, mas que prende a atenção até o fim e que ainda conta com um elenco dos bons, encabeçado por um Richard Gere acima da média. O elenco de apoio, principalmente Susan Sarandon, como a esposa traída, e Tim Roth, como o investigador de polícia, também são responsáveis pelo sucesso do filme, sem precisarrm fazer muito esforço. Até porque seus papéis são mais simples, seus personagens são planos.

Quanto a Richard Gere, ele encontra aqui um papel mais desafiador, tendo que ser tanto um sujeito de moral condenável quanto alguém que pode ter a solidariedade do espectador, por estar numa enrascada e nos ter como cúmplices. Mas o espectador está numa posição privilegiada. Não corre o risco de ir para a cadeia como o personagem de Nate Parker, o jovem rapaz do Brooklyn para quem o ricaço liga para pegá-lo, depois que o carro da amante explode, junto com seu corpo sem vida. Ele sim, está numa enrascada tão grande quanto a do protagonista.

Na trama, Robert Miller (Gere) é um bilionário que está com sérios problemas em sua empresa, mas que consegue junto a seu contador esconder os rombos de suas contas. Essa é uma das razões por que ele quer vendê-la o mais rápido possível. Como se não bastasse ter que viver por um fio e ser talvez descoberto por alguma fiscalização, ele ainda mantém um caso com a secretária (Laeticia Casta). Na noite de uma exposição de arte da secretária, Miller sai com ela no carro, mas, devido a um cochilo, ele perde a direção do carro dela, que não sobrevive ao acidente. Ele sobrevive e abandona o local sem ligar para a polícia, pensando no quanto isso prejudicaria a venda de sua empresa.

Assim, o filme lida boa parte do tempo com a negociação que ele tem com os difíceis compradores da empresa, ao mesmo tempo em que se vê cercado por um detetive que quer encontrar uma brecha para colocá-lo atrás das grades, nem que seja através do sujeito que lhe ofereceu a carona, que até já tinha uma passagem pela prisão. Há também a personagem da filha (Brit Marlin), que trabalha para ele, mas que ainda não sabe das falcatruas do pai, e que é responsável por uma das melhores sequências do filme - a da conversa com o pai em um banco de praça.

A NEGOCIAÇÃO é o tipo de filme que envolve, tem um ar classudo, principalmente por vermos negociações e reuniões na limusine, mas que poderia ser melhor. Com um personagem e uma trama como essas, seguindo a cartilha de Alfred Hitchcock, um cineasta melhor faria um filme em que nós torceríamos mais pelo personagem; sofreríamos com ele durante toda a duração do filme; e sentiríamos o coração bater mais forte a cada momento que ele estivesse a ponto de ser desmascarado. Em vez disso, vemos o personagem com certo distanciamento. Isso pode ser visto como uma falha do filme, mas apenas se o levarmos a sério demais.

A NEGOCIAÇÃO recebeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria melhor ator (drama) para Richard Gere.

terça-feira, dezembro 25, 2012

CLAMOR DO SEXO (Splendor in the Grass)



O cinema americano pelos olhos da geração de cineastas dos anos 1950, como Samuel Fuller, Nicholas Ray e Elia Kazan, tinha um diferencial em relação aos demais. Eles tinham um pé na contracultura e questionavam valores ultrapassados de seu país, como, por exemplo, o hábito de algumas famílias ainda não aceitarem o sexo antes do casamento. Ainda é pouco em comparação com o que vinha fazendo a Itália – basta lembrar de A DOCE VIDA, de Fellini, mais ou menos da mesma época -, mas já era uma evolução. Para tornar o tema ainda mais forte, Kazan transporta a sua trama para a segunda metade da década de 1920, pouco antes da Grande Depressão, e em uma pequena cidade no interior do Kansas.

Na trama de CLAMOR DO SEXO (1961), a jovem estrela Natalie Wood e o estreante no cinema Warren Beatty interpretam dois namorados que lutam contra sua vontade de fazer sexo numa sociedade que valoriza a virgindade e que classifica as mulheres em dois tipos: as boas garotas, para casar, e as garotas que não merecem muito respeito, para transar e buscar alívio das necessidades que um corpo com os hormônios em ebulição necessita. Ele é filho de família rica; ela é pobre. Mas ambos estudam na mesma escola. O filme mostra o que a repressão pode causar na vida de dois jovens que se amam.

A primeira sequência do filme, que mostra o casal dando uns amassos dentro do carro, Bud (Beatty) querendo algo mais do que simples beijos, Deanie (Natalie) tentando resistir, ainda que com muita dificuldade, já é carregada de uma sensualidade pouco vista no cinema americano da época, que ainda era bastante conservador. O filme não mostra cenas de nudez, mas a própria discussão e temática do filme, além da famosa cena de Natalie na banheira, já são suficientes para que o vejamos como ousado. Se bem que Kazan já tinha feito BONECA DE CARNE (1956), que eu não cheguei a ver, mas que parece que causou certo rebuliço na sociedade americana da época.

Mas foi Natalie Wood a maior razão de eu querer rever este filme, embora Elia Kazan também seja uma boa justificativa. Considero Natalie a mais bela e mais sexy estrela da década de 1960. Embora tenha começado a carreira ainda criança, foi nos anos 60 que a jovem atriz mostrou a que veio, mostrando-se cada vez mais atraente e com um sex appeal fenomenal. Em CLAMOR DO SEXO ela ainda carrega um pouco dessa inocência dos primeiros anos, mas já misturada com a sensualidade latente. Inesquecível a cena em que ela se oferece para o namorado para fazerem sexo no carro, dizendo para ele que não é uma "good girl". E o final, tão realista e cheio de desencanto, também ajuda a tornar o filme de Kazan um dos mais importantes de sua época.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

O IMPOSSÍVEL (Lo Imposible / The Impossible)



Difícil descrever em palavras a experiência ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa que é ver O IMPOSSÍVEL (2012). Dolorosa por se tratar de um filme sobre uma das maiores tragédias deste século e por nos fazer sentir na pele o que aconteceu de maneira tão pungente, enfocando o drama de uma entre tantas famílias que teriam histórias tão ou mais intensas do que esta. E prazerosa porque há algo em nossa parte do cérebro que lida com apreciação estética que se beneficia com o sentimento que a catarse proporciona.

E vendo O IMPOSSÍVEL, o segundo longa-metragem do espanhol Juan Antonio Bayona, a impressão que temos é que só o cinema poderia trazer algo desse tipo. Um grande romancista talvez conseguisse também, mas dificilmente de maneira tão física. Em termos de efeitos especiais no que se refere à construção do tsunami, diria que ALÉM DA VIDA, de Clint Eastwood, foi mais bem sucedido. Mas, no filme de Eastwood, o tsunami e as suas consequências eram apenas um trecho de uma obra que tinha outras intenções.

Para quem não sabe ainda, O IMPOSSÍVEL trata do terrível tsunami que devastou a costa da Ásia, atingindo países como a Tailândia, a Indonésia e o Sri Lanka. A trama acompanha uma família composta por um casal e três filhos pequenos que vão passar as férias em um hotel luxuoso na Tailândia. Uma onda de mais de 30 metros destrói o lugar, mata quase todas as pessoas e transforma a vida dos sobreviventes num inferno na Terra.

Como Bayona veio do cinema de horror com O ORFANATO (2007), há muitos elementos do gênero em seu melodrama. Seja na maneira como ele constrói um clima de expectativa em relação ao que há por vir no início do filme, seja no grafismo como é mostrada a cena em que a personagem de Naomi Watts se machuca gravemente na perna, seja no momento em que o menino Lucas (Tom Holland) procura a mãe no hospital.

E falando em Tom Holland, que desempenho excepcional o desse garoto, hein? Mereceria uma indicação a um prêmio importante como o Oscar. Ainda que não seja, o excelente trabalho de interpretação de Naomi Watts deverá ser recompensado de alguma maneira. Vendo um filme como esses, mais uma vez temos que agradecer a David Lynch por tê-la colocado no primeiro time de Hollywood na obra-prima CIDADE DOS SONHOS. Ewan McGregor, no papel do marido dedicado, também está muito bem e está presente em um dos momentos mais dramáticos e bonitos do filme, mas sabemos que ele fica um pouco atrás do desempenho de Naomi.

O IMPOSSÍVEL é um filme-catástrofe que há tempos não se via. Sério, emocionante, sem exageros ou grandes heróis. Afinal, foi a própria realidade que tratou de hiperbolizar o drama. Bayona nos aproxima de uma determinada família e isso faz com que uma tragédia que é geralmente transformada em estatística pela imprensa seja vista como algo mais próximo da gente. É a realidade precisando da ficção para que seja vista como ainda mais real, por mais que haja a utilização de trilha sonora e outros recursos cinematográficos. E em nenhum momento o filme deixou de se assumir como um melodrama. O diretor abraça o gênero com todo o respeito pela família retratada e pelas vítimas que não conseguiram sobreviver.

O IMPOSSÍVEL recebeu uma indicação para o Globo de Ouro de melhor atriz (drama) para Naomi Watts.

domingo, dezembro 23, 2012

A ARTE DA CONQUISTA (The Art of Getting By)



Entre as sessões de A ARTE DA CONQUISTA (2011) e O IMPOSSÍVEL tive tempo de dar uma parada para escrever sobre o que tinha acabado de ver. Na verdade estava em estado de graça com o filme. Nem todas as críticas brasileiras lhe foram positivas, mas como cada filme fala diferentemente a determinada pessoa, tentarei transcrever algumas coisas que destaquei a respeito desse trabalho de estreia do diretor Gavin Wiesen. E como sei que escrevi muita coisa que pode soar piegas vou procurar deixar o texto um pouco menos comprometedor.

Antes de mais nada, vou confessar que me surpreendi com o filme, que começou sem muita graça. Na trama, Freddie Highmore é George, um estudante secundário que está por um fio para ser expulso da escola por não fazer as atividades que os professores lhe aplicam. Ele não vê sentido na vida, ia ver sentido na escola? Assim como acontece com George, tudo melhora, inclusive o filme, a partir do aparecimento em cena de Sally, vivida pela jovem e encantadora sobrinha de Julia Roberts, Emma Roberts.

Quando ela surge, a vida de George fica mais interessante, mais colorida, mas também mais dolorosa, pois surge a partir daí um sentimento forte que ele passa a nutrir por ela. Um sentimento que ele não consegue expressar por pura timidez e falta de prática, que são coisas que causam estragos na vida de muitas pessoas, especialmente na fase da adolescência. Na maioria das vezes, essas pessoas se enchem de arrependimentos de coisas que não fizeram. Principalmente no campo afetivo.

Segundo o próprio diretor, George é uma versão exagerada de si mesmo quando jovem. Por isso o filme tem um ar tão próprio, embora se renda aos clichês dos filmes românticos em seu final idealizado. Mas mesmo esses clichês são bem-vindos, porque funcionam como um presente para o espectador que se envolve tanto com o filme que chega a se identificar com o personagem. E a estreia de Wielsen faz algo por nós: dá voz a esse sentimento tão difícil de sair do peito.

A ARTE DA CONQUISTA tem o mérito de reanimar sentimentos adormecidos, de trazer de volta a excitação de ir pela primeira vez a uma festa, estando lá a garota que amamos. Faz-nos sentir (ou lembrar) como é passar o réveillon vomitando, bêbado e com dor de cotovelo por causa de alguém.

No entanto, o filme não lida apenas com o sentimento de George por Sally e vice-versa. Há outras coisas em jogo também, que mesmo ficando em segundo plano também são tratadas com grande sensibilidade por Wielsen, como a subtrama de sua mãe e o padrasto; ou de seus problemas com os professores e o diretor da escola.

A ARTE DA CONQUISTA é filme de sentimentos. E por isso mesmo talvez não agrade muito às pessoas mais racionais, que podem vê-lo como um filme menor. Mas um filme menor que me deixa olhando para a tela preta enquanto os créditos sobem, não querendo ainda voltar para a vida real, é um filme menor que ganhou o meu respeito. Sem falar que há uma trilha sonora linda, com canções especiais. Há de The Shins (“We Will Become Silhouettes”) e Pavement (“Here”) a Leonard Cohen (“Winter Lady”).

sábado, dezembro 22, 2012

AS AVENTURAS DE PI (Life of Pi)



O ano está pertinho de chegar ao fim, mas grandes filmes ainda entram em cartaz. É o caso de AS AVENTURAS DE PI (2012), uma experiência como nunca se viu antes no cinema. Principalmente se visto em 3D. O trabalho de Ang Lee é admirável. Lembremos que o cineasta é famoso por seus dramas ao mesmo tempo delicados e intensos, mas que ele também teve uma experiência curiosa com o uso da computação gráfica em HULK (2003). Agora que Hollywood chegou num estágio mais avançado do uso da CG, ele pôde fazer milagres, criando animais tão reais quanto o próprio ator que interpreta Pi (Suraj Sharma). É tudo tão orgânico que você esquece que aqueles animais só existem no filme.

Na trama, Pi Patel é um jovem indiano que professa três religiões: ele nasceu hindu, mas aconteceu de conhecer também o Cristianismo e o Islamismo. Assim, alguns momentos são bem divertidos, como quando ele agradece a Krishna por ele tê-lo apresentado a Jesus. Devido a problemas de ordem política e econômica, a família se vê obrigada a deixar a Índia e decide partir para o Canadá, levando todos os animais num cargueiro. Durante uma grande tempestade, o cargueiro afunda e Pi se vê sozinho com quatro bichos no mesmo barco: uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de bengala.

A cena dos quatro animais dentro do barco salva-vidas é tão intensa que o espectador fica com os braços agarrados à poltrona de tanta tensão. Por outro lado, a sensação de maravilhamento vez ou outra pega o espectador em cheio, graças à beleza exuberante das imagens criadas artificialmente. Nem sempre o filme tenta ser realista, formando lindos painéis do céu e do mar, que se juntam como se fossem um só. O primeiro efeito do nascer do sol é igualmente lindo e isso contrasta com a agonia e dor do protagonista, que, graças à sua fé, muitas vezes se sente agradecido por pequenas coisas que lhe são dadas pela providência divina, como um peixe, que ele é obrigado a matar para saciar a sua fome, por exemplo. Para quem é, além de vegetariano, muito religioso, isso chega a ser um pecado terrível. Mesmo assim ele agradece a Deus por aquele presente. Mas o que é especialmente bonito mesmo é a sua relação com Richard Parker, o tigre, a quem ele lhe deve a vida.

AS AVENTURAS DE PI só comete alguns vacilos perto de sua conclusão. É o caso de tentativa de ser fiel à história do livro que não foi muito feliz. Ainda assim, o ator que faz o Pi mais velho (Irrfan Khan) empresta credibilidade ao personagem, o que ajuda a tornar a conclusão mais próxima da religiosidade e da filosofia almejadas. E ainda entra em questão o próprio ato de se contar histórias, que é algo que faz parte da essência do homem e que tem há uns cem anos o cinema como aliado.

Outro problema do filme reside na trilha sonora, que em algumas sequências mais dramáticas tenta puxar a emoção à força, chegando a incomodar. A trilha ficou a cargo de Michael Danna, que fez trabalhos pouco memoráveis em filmes como CAPOTE e PEQUENA MISS SUNSHINE. Nem parece o trabalho excepcional de Gustavo Santaolalla, que em O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (2005) emocionou com sutileza. Porém, esses problemas são pequenos detalhes de um filme que já se mostra lindo desde os créditos iniciais.

AS AVENTURAS DE PI recebeu três indicações ao Globo de Ouro 2013: melhor filme (drama), melhor diretor e melhor trilha sonora original. 

sexta-feira, dezembro 21, 2012

A GUERRA DOS BOTÕES (La Guerre des Boutons)



Já faz um bom tempo que eu vi este filme e por tê-lo visto até com um pouco de má vontade, demorei um bocado a escrever um texto a respeito. Talvez por eu encará-lo como um simples filme de criança, ignorando o contexto social e político que a obra pudesse carregar, trazido do próprio texto literário no qual é inspirado. Mas a verdade é que eu não consegui enxergar além da bonita ingenuidade e do sentimento de saudosismo em A GUERRA DOS BOTÕES (2011), nesta versão de Yan Samuell, a única que vi até o momento.

E eu também estou com uma mania bem feia de me desinteressar um pouco pelos filmes infantis. Raramente tenho conseguido vê-los no cinema sem uma cochilada. No caso de A GUERRA DOS BOTÕES, como o filme é francês, foi exibido no Cinema de Arte, talvez por ser um tanto estranho para o circuito mais comercial. Mas será que é só por ser francês? Será que estamos tão sujeitos ao imperialismo do cinema americano que basta um filme ser falado em língua francesa para logo ser empurrado para o circuito alternativo, mesmo tendo, supostamente, potencial para agradar jovens plateias?

Mas será, também, que essas jovens plateias iriam se encantar pelo filme, já que ele lida com um modo de vida que está cada vez mais distante da rotina da criança dos dias de hoje, mais ligada a videogames e internet? É por isso que boa parte do público que estava na sessão era de pessoas mais experientes. Para eles, importa o saudosismo, além de curtir a fofura e a ingenuidade das crianças com ar de ternura.

A trama envolve duas gangues rivais, que lutam entre si durante anos. Mas a luta deles, apesar de muitas vezes envolver pedras e paus, não chegar a provocar ferimentos. Pelo menos, o filme não mostra nada de forma violenta. É tudo muito suave. O exemplo mais representativo disso é a cena em que um grupo captura um dos inimigos e arranca os botões de sua camisa, para que ele chegue em casa e leve uma surra da mãe. A nova versão transpõe a história para a década de 1960, talvez para simbolizar o fim da inocência. Ou talvez apenas para aproximá-lo mais das plateias de hoje do que seria se situasse a trama no início do século XX.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

SPIDER – DESAFIE SUA MENTE (Spider)



Lembro que quando vi SPIDER – DESAFIE SUA MENTE (2002) no cinema, eu dei umas cochiladas homéricas. Revendo agora, depois de quase dez anos, em casa, pude entender o motivo de o filme causar esse efeito letárgico. Seu ritmo é mesmo muito lento. Mas creio que estando com o sono em dia e a saúde em bom estado, dá para ver com prazer este filme, que representa uma mudança de rumos na carreira de David Cronenberg. Curiosamente pouca gente lembra dele nesse sentido, já que foi MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) que obteve mais impacto e mais interesse de público e crítica.

Na época que vi SPIDER, havia lido também o romance de Patrick McGrath no qual o filme é baseado, que, na minha cabeça, talvez por ter lido em inglês, era um pouco confuso, principalmente nas várias referências à casa e às tubulações, coisa que não é muito comum em sua adaptação. O filme ajuda a ver esses detalhes com mais clareza, embora não entre em detalhes. O mais importante é mesmo a mente perturbada do protagonista, vivido por Ralph Fiennes, que, recém-saído de um sanatório, passa a morar numa espécie de pensão só com pessoas que obtiveram progresso em seu tratamento.

Muito interessante o recurso que Cronenberg usa para mostrar os anos de infância do jovem Spider, que mostrarão o motivo de ele ter se tornado louco. Ou provavelmente já mostrar que ele já não era tão são assim na infância. Cronenberg usa o recurso da presença em cena do Spider adulto (Fiennes), reconstituindo fatos importantes de sua infância e relembrando os pais, vividos por Gabriel Byrne e Miranda Richardson.

E falando em Miranda Richardson, que desempenho espetacular que ela tem neste filme, hein. Eu só fui perceber que ela era a mesma mulher loira que o personagem do pai supostamente usava como amante nos créditos finais. Ela faz duas mulheres completamente diferentes, física e psicologicamente. Inclusive, é no papel da loira vulgar que Cronenberg pode mostrar ainda o seu gosto pelos fluidos do corpo humano, quando a mulher masturba o personagem de Gabriel Byrne e joga com sua mão o seu esperma no rio.

O que não dá para entender – ou aceitar – é o personagem de Spider lembrar não somente coisas que ele viu, mas que também foram vistas por seu pai e sua mãe. Mas, uma vez que aceitamos que ele está reconstituindo na sua própria cabeça o ocorrido em sua mente perturbada, aquilo não necessariamente representa suas memórias, mas traços da memória combinados com sua imaginação. Assim, não precisa pensar muito para decifrar o filme e o personagem.

Destaque também para a atmosfera úmida e suja de SPIDER, tanto na geografia quanto nos próprios corpos dos personagens. Spider, por exemplo, aparece com os dentes e os dedos amarelados de tanto fumar. E foi uma escolha muito acertada da parte do diretor e de sua equipe em escolher todos os atores ingleses, com sotaques bem acentuados, dando ao espectador um mergulho em outro universo. Não tão estranho quanto o de outras obras de Cronenberg, mas estranho dentro da familiaridade de uma Inglaterra feia e suja.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

DEXTER – A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Dexter – The Complete Seventh Season)



Ser um espectador fiel de DEXTER é ter passado por temporadas muito boas, outras apenas ok e umas bem ruins. Continuar vendo a série está justamente em esperar o que cada nova temporada trará de novo. Se a anterior foi uma das piores da série, o mesmo não pode ser dito desta sétima temporada (2012), que está entre as melhores, com direito a diálogos mais bem escritos e uma habilidade em lidar com inúmeras subtramas dentro de um mesmo episódio.

Por exemplo, em certo momento, além de a série ter que trazer o tema supostamente principal, que é a descoberta de Debra Morgan, a irmã de Dexter, de que o irmão é um assassino serial, há também as interessantes subtramas envolvendo um mafioso russo (ou seria ucraniano?), bem como a ligação do Detetive Quinn com uma das dançarinas da boate do tal mafioso. Mas além disso, há algo que aos poucos se mostra a principal trama, que é a entrada em cena da femme fatale Hannah McKay, vivida lindamente por Yvonne Strahovski, da série CHUCK.

Ela é a grande paixão da vida de Dexter. Esqueçam Rita (primeira a quarta temporadas), esqueçam Lumen (quinta temporada). Aliás, a ligação é de certa forma semelhante com a de Lumen, já que há uma cumplicidade, mas Hannah McKay é uma assassina fria e calculista, ao mesmo tempo em que é apaixonante. E o fato de Dexter ter alguém com quem ele confie e possa contar os seus mais sombrios pensamentos é para ele uma maravilha. Mas como as coisas não estão fáceis para ninguém, Debra Morgan não descansa enquanto não botar Hannah na cadeia.

A sétima temporada finalmente começa a trazer novidades, apontar novos caminhos, a fazer com que o personagem e sua história evoluam. E além dos momentos de tensão, como nas várias vezes em que Dexter pode ser desmascarado, há uns diálogos bem interessantes. No penúltimo episódio, há uma discussão de relação entre ele e Hannah que é admirável. Assim como também são ótimos os momentos em que Dexter vai se descortinando cada vez mais para sua irmã. No final, sempre sabemos que é uma série que caminha por um fio para o desastre, mas é interessante como ela se ergue das cinzas vez ou outra.

terça-feira, dezembro 18, 2012

HOMELAND – A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Homeland – The Complete Second Season)



A responsabilidade era grande para a melhor série do ano passado. E que ainda por cima fechou com um gancho matador. As chances de eles não conseguirem fazer uma segunda temporada à altura eram grandes. Mas a segunda de HOMELAND (2012), com os seus altos e baixos – mais altos do que baixos – conseguiu manter o bom nível, embora em alguns momentos tenha lembrado 24 HORAS. Vai ver porque o compositor é o mesmo (Sean Callery). Mas não só por isso.

Mas o mais importante da série continua lá e ganhando contornos cada vez mais mutáveis, que são os seus personagens. Principalmente Nicholas Brody, na pele do sensacional Damian Lewis. O ator superou a sua parceira em desempenho, já que seu personagem é mais complexo. Não se sabe direito se ele é um terrorista perigoso ou um sujeito que está precisando de ajuda e que merece o amor de Carrie Mathison (Claire Danes), a agente da CIA que é apaixonada por ele. Mesmo depois do que ele lhe fez no final da primeira temporada.

Não deixa de ser bonito esse amor incondicional de Carrie. E também pareceu ousada a sua intervenção na captura de Brody logo num dos primeiros episódios, por mais precipitada que tenha parecido a princípio. A impressão que se tinha era a de que a série iria cair de qualidade a partir daquele momento. Mas na verdade foi coragem dos roteiristas, de seguirem em frente com suas reviravoltas surpreendentes. E a melhor delas ficou para o final. Que, convenhamos, fica atrás de vários episódios muito mais impressionantes da primeira temporada, mas que ainda assim está entre as melhores coisas produzidas na televisão ultimamente.

Até porque 2012 não foi um ano de muitas séries novas de qualidade. Então a expectativa estava mesmo em HOMELAND, THE KILLING e GAME OF THRONES. Se as duas últimas tiveram curvas descendentes em suas segundas temporadas, podemos dizer o mesmo de HOMELAND, mas não com tanta ênfase.

Toda a trajetória de Carrie Mathison do início da temporada, ao receber o arquivo contendo a declaração de homem-bomba de Brody até chegar ao final surpreendente foi tudo muito bem pensado pelos roteiristas e produtores da série. E se por um lado surgiram piadas do tipo "Onde está o presidente, que nunca aparece?" (só aparecia o tal do Vice-Presidente), por outro pudemos testemunhar um funeral de um terrorista, que supostamente deve ter sido semelhante ao realizado com Osama Bin-Laden.

Resta saber como se encaminhará a terceira temporada de HOMELAND? Será que a série se transformará em uma espécie de O FUGITIVO? A família de Brody continuará desempenhando papel central na trama? Carrie poderá contar com Saul para fazer o que planeja? Aparentemente, nem os criadores da série sabem ainda, pois modificaram praticamente tudo o que estava presente na série israelense que lhe deu origem.

HOMELAND recebeu indicações importantes para o Globo de Ouro 2013, todas na categoria drama: melhor série, melhor ator em série (Damian Lewis), melhor atriz em série (Claire Danes) e melhor ator coadjuvante em minisséries (Mandy Patinkin). Pois é. O Globo de Ouro está uma bagunça, misturando séries com minisséries. Acho que nem eles entendem o que estão fazendo. E pensar que no ano passado o único equívoco foi com DOWNTON ABBEY.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

ADEUS, PRIMEIRO AMOR (Un Amour de Jeunesse)



O cinema francês traz a temática do amor com muito mais frequência do que a cinematografia americana. Talvez porque os americanos sejam mais práticos e eles mais sensíveis. Por outro lado, além de mais sensíveis, os franceses também, paradoxalmente, são mais reflexivos e racionalistas. Claro que dizer de maneira assim, tão generalizada, pode ser uma estupidez, mas isso é a impressão que tenho a partir do apanhado de filmes franceses e americanos já vistos.

Daí chegamos a este ADEUS, PRIMEIRO AMOR (2011), de Mia Hansen-Løve, que começou a carreira no cinema como atriz dos filmes de Olivier Assayas. ADEUS, PRIMEIRO AMOR é o seu terceiro longa-metragem. A história é simples: garota é loucamente apaixonada por um rapaz que resolve deixá-la para fazer uma viagem por tempo indeterminado para a América do Sul.

Mas não se trata de um filme que se apoia na história. Há todo um cuidado com o tempo, que passa como um rio por nossos olhos. O tempo na vida da jovem Camille, vivida por Lola Créton, que poderá ser vista no mais recente filme de Assayas, APRÈS MAI. Ela é muito sentimental - usa o termo "depois do amor" para falar de sexo, como Roberto Carlos cantava em suas canções - e apegada ao namorado Sullivan (Sebastian Urzendowsky). Ele é um pouco mais prático e ao mesmo tempo complexo: luta contra o forte sentimento que nutre por ela pois quer viajar para um lugar distante e aprender a ser alguém mais forte e decidido na vida.

Acontece que quem tem que ser mais forte, pelo menos aos nossos olhos, é Camille, que ano após ano vai tentando se ligar nos estudos e no trabalho para esquecer Sullivan, que até deixa de lhe escrever por uns anos. A dor de Camille é sentida e compartilhada conosco. Afinal, quem nunca sofreu por amor? Quem nunca se sentiu como se a vida não tivesse mais sentido com a ausência da pessoa amada? Esse tipo de sentimento é semelhante a um luto, que dependendo do amor nutrido pode doer mais ou menos.

Outra coisa bastante presente nos filmes franceses e que não falta neste lindo exemplar de Hansen- Løve é a natureza. No caso de ADEUS, PRIMEIRO AMOR faz lembrar, inclusive, os melhores trabalhos de Eric Rohmer, que parece ser uma influência mais próxima para a diretora do que Assayas, esse cineasta tão ligado às cidades. Em ADEUS, PRIMEIRO AMOR há o campo, os rios, a praia, o tempo ensolarado, que nos faz pensar na França como um paraíso idílico. E o filme, contando uma história comum, alcança a poesia.

domingo, dezembro 16, 2012

AMOR IMPOSSÍVEL (Salmon Fishing in the Yemen)



As listas de indicados ao Globo de Ouro e ao Oscar acabam chamando a minha atenção para alguns filmes, especialmente aqueles que já foram lançados no circuito e não chegaram por essas imediações. É o caso da produção britânica AMOR IMPOSSÍVEL (2011), que ganhou este título meio genérico no Brasil porque certamente "Pesca de Salmão no Iêmen" não venderia bem. De todo modo, o filme meio que passou batido em muitas cidades. Deve ter saído em poucas cópias. Até nos EUA o lançamento foi bem restrito, depois de ter estreado no Festival de Toronto.

O filme funciona, até certo ponto, como mais uma dessas lições de que devemos levar nossos sonhos até o fim, por mais difíceis que eles sejam. Isso levado num registro de comédia suave. A trama é um tanto sem graça: Emily Blunt é uma advogada e Ewan McGregor é uma autoridade em pesca. Os dois passam a trabalhar juntos para um projeto de um xeque do Iêmen, que quer levar salmões para um rio no Iêmen, apesar de todas as dificuldades, sejam elas geográficas ou políticas.

Mas todos sabemos que no fundo o que importa mesmo é o relacionamento dos personagens de McGregor e Blunt. E torcemos por eles desde o início do filme, já que seus respectivos namorado e esposa conseguem ser mais apagados do que eles. A figura do xeque (Amr Waked) ajuda a trazer paz para o filme, enquanto Kristin Scott Thomas faz a personagem inescrupulosa e maquiavélica.

Chega até a ficar meio chato a forçada de barra que acontece lá no final do filme, vindo da personagem. Dentro do registro da comédia isso não funciona; como dramédia funciona muito pouco. Mesmo assim, o filme tem os seus momentos. O diretor, Lasse Hallström, tem uma carreira de mais baixos do que altos em Hollywood, tendo perdido a identidade já faz alguns anos.

AMOR IMPOSSÍVEL recebeu três indicações ao Globo de Ouro na categoria comédia ou musical: melhor filme, melhor ator (Ewan McGregor) e melhor atriz (Emily Blunt).

sábado, dezembro 15, 2012

O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA (The Hobbit – An Unexpected Journey)



Que bom que Peter Jackson acabou ficando mesmo com a direção de O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA (2012). Antes era Guillermo Del Toro o cineasta cotado. Não deixa de ser um alívio ver que ele não perdeu a mão e que o retorno à Terra Média foi foi bem sucedido, embora ainda não tão bom quanto nenhum dos exemplares da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS. Ainda assim, é um trabalho muito digno e que tem um tom solene que ajuda a tornar a história mais fácil de ser "comprada" pelo espectador, já que há tantos elementos fantasiosos.

A responsabilidade de transformar um livro menor da carreira de J.R.R. Tolkien em um produto à altura da trilogia que fez a fama do escritor sul-africano era tremenda. Até porque a decisão polêmica de transformar um pequeno livro em três longos filmes pareceu, a princípio, precipitada e megalomaníaca da parte do cineasta neozelandês, que desde O SENHOR DOS ANÉIS - O RETORNO DO REI (2003) não dirigia um filme de respeito.

Outro desafio e que foi enfrentado com muita habilidade pelo cineasta foi transformar um livro infanto-juvenil em algo semelhante à grandiosidade e ambição da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS. Embora a história não pareça tão boa quanto a Trilogia do Anel, é um prazer poder voltar à Terra Média e poder encontrar personagens conhecidos, como Gandalf (Ian McKellen), Frodo (Elijah Wood), Elrond (Hugo Weaving), Galadriel (Cate Blanchett), Saruman (Christopher Lee) e principalmente Gollum (Andy Serkis), que contribui com o melhor momento do filme.

Para rechear a trama, Peter Jackson usa também narrativas de outras obras de Tolkien, como os apêndices de O Senhor dos Anéis, entre outras liberdades criativas trazidas como um presente para os fãs da cinessérie. Apesar da longa duração, que talvez se beneficiasse de alguns cortes, a narrativa segue mais ou menos um terço do livro. Sinal de que aparentemente as coisas estão sob controle e que Jackson parece ter tudo em mente para os próximos capítulos.

Não tive como ver o filme em 48 fps, mas quem viu costuma dizer que gera certo cansaço e, dependendo da pessoa, até um pouco de mal estar. Resta saber se essa nova tecnologia vai mesmo vingar, se é mesmo o futuro do cinema. Em 3D convencional, porém, o filme está muito bem. Até parece que o formato foi feito para abrigar obras grandiosas como essa. Aliás, é importante que O HOBBIT seja visto no cinema. Há inúmeras cenas em planos gerais que deixam os personagens pequenininhos diante da natureza imensa. Em uma televisão, eles ficariam quase invisíveis.

Na trama, o pacato e pequeno hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman, incrivelmente parecido com Ian Holm, sua versão mais velha) é convidado pelo mago Gandalf a ingressar numa aventura que vai mudar sua vida. Depois de rejeitar a oferta e de conhecer um grupo de anões que fazem uma bagunça em sua pequena toca, ele acaba aceitando-a, mesmo sabendo dos perigos que estaria correndo. O principal objetivo da missão é recuperar o lar perdido dos anões, que há anos foi tomado por Smaug, um imenso e temível dragão, visto muito rapidamente no empolgante prólogo que abre o filme.

Quanto aos novos personagens, destaque, sem dúvida, para o príncipe dos anões, Thorin Escudo de Carvalho, vivido por Richard Armitage, que curiosamente é o único que tem a vantagem de posar de galã entre os demais anões, cobertos por maquiagem pesada para parecerem de fato anões. Armitage, com seu charme e sua presença de cena, até lembra o Aragorn de Viggo Mortensen, na Trilogia do Anel, parecendo, portanto, um humano.

As cenas de batalha são de deixar o espectador com os olhos grudados na tela. Assim, diferente de O SENHOR DOS ANÉIS – A SOCIEDADE DO ANEL (2001), que tivemos que esperar um pouco pelas cenas de ação, O HOBBIT tem ação até demais. Os poucos momentos de apreciação das paisagens da Nova Zelândia e da beleza dos cenários construídos são apenas uma trégua para as cenas de ação. Orcs, trolls, goblins, aves gigantes e até gigantes de pedra fazem parte do menu oferecido por Jackson. É um espetáculo que pelo menos vai nos lembrar da grandeza da Trilogia do Anel, que até pode ter ficado esquecida nestes últimos anos.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

QUEM É BETA? – PAS DE VIOLENCE ENTRE NOUS



Como se já não bastasse ser um filme obscuro e um dos que mais recebeu críticas negativas entre os dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, QUEM É BETA? – PAS DE VIOLENCE ENTRE NOUS (1973) começa e termina com um desastre de avião. Depois do sucesso de COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS (1972), Nelson pretendia rodar um filme estrelado por Leila Diniz, que já havia trabalhado com ele antes em FOME DE AMOR (1968) e numa pequena participação em AZYLLO MUITO LOUCO (1971). Porém, aconteceu uma tragédia: a bela atriz morreu num acidente de avião. Nelson ficou arrasado e seu projeto foi para os ares.

Ele recebe, então, uma proposta de um produtor francês para rodar uma espécie de ficção científica. Assim, QUEM É BETA? é um filme que até lembra ALPHAVILLE, de Godard, no sentido de ser uma ficção científica com limitações e sem a intenção mesmo de parecer com os filmes americanos. E é também o "filme de zumbis" do Nelson: os personagens vivem atirando em grupos de pessoas contaminadas.

O filme é estrelado por dois atores franceses e uma socialite brasileira, Regina Rosemburgo, esposa do produtor, no papel de Regina. Os atores franceses são Fréderic de Pasquale (Maurício, dublado por Paulo César Pereio) e Sylvie Fennec (no papel de Beta). E falando em Beta, a personagem título nem tem esse mistério todo. O filme de Nelson é bem torto e só não chega a ser ruim porque é até divertido. Até prefiro revê-lo várias vezes que rever ALPHAVILLE, por exemplo.

Há algo de interessante na proposta do filme, que é a ideia dos filmes-memória. Há uma máquina que Maurício inventa e que uma vez que a pessoa processe as memórias na fumacinha que ele usa como tela de projeção, elas se materializam em imagens. É algo que eu já devo ter visto em outro filme antes, mas não lembro qual. E há também a sensualidade das belas atrizes, algumas seminuas, que ajudam a tornar o filme atraente.

O outro fato que trouxe desgosto para NPS foi a morte de Regina Rosemburgo, também num acidente de avião, um mês após a estreia do filme no Rio de Janeiro. E o curioso é Nelson ter terminado QUEM É BETA? com um plano meio metalinguístico, com os atores entrando num avião, saindo completamente daquele ambiente fantasioso e pós-apocalíptico. Tem certas coisas que não têm explicação mesmo.

A propósito, a foto acima, de Regina Rosemburgo, foi tirada numa experiência minha de capturar a imagem de minha câmera digital direto da televisão. Até que não ficou tão ruim. 

quarta-feira, dezembro 12, 2012

QUATRO CURTAS BRASILEIROS



Acho que nunca vi tantos curtas-metragens bons quanto neste ano de 2012. E a grande maioria, brasileiros. Neste post, falo brevemente de dois curtas recentes e bastante premiados que muito me agradaram e dois outros de décadas passadas, que não me agradaram tanto assim, mas que são interessantes e marcantes, cada um à sua maneira.

DOCE DE COCO

Comecemos com DOCE DE COCO (2011), do cearense Allan Deberton. Perdi de ver este curta quando ele foi exibido no Cine Ceará do ano passado, mas tive sorte de vê-lo abrindo a sessão de MÃE E FILHA, de Petrus Cariry, outro belíssimo exemplar de cinema feito no Ceará. No caso de DOCE DE COCO (foto), o que mais me impressionou foi a delicadeza e a sensibilidade com que o diretor tratou uma história tão simples. Como ele esteve presente à sessão, eu cheguei a perguntar a ele se o resultado foi um "acidente" ou se estava mesmo tudo na cabeça dele, já que o esqueleto da história é bastante simples: jovem engravida de um rapaz conquistador da cidadezinha onde mora e começa a ser vista com desgosto pelo pai, enquanto a mãe se mostra mais compreensiva. Algumas tomadas são lindas em sua simplicidade, como a que a protagonista nada na lagoa e a câmera a acompanha. É o caso de filme que a gente quer ter em casa para mostrar para os amigos.

A FÁBRICA

Outra bela surpresa foi este A FÁBRICA (2011), de Aly Muritiba, que eu vi na 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, abrindo a sessão de HOJE, de Tata Amaral, e me agradando muito mais do que o filme principal. Inclusive, vale lembrar que A FÁBRICA foi pré-selecionado para o Oscar de melhor curta-metragem. Está entre os 11 semifinalistas. Se por acaso ele não ficar entre os cinco, isso não vai tirar o brilho deste trabalho que lida com o sentimento de maternidade e paternidade de maneira bem bonita. Na trama, mãe arranja um jeito bem corajoso de entrar com um telefone celular em uma penitenciária para passá-lo para o filho em um dia de visita.

AMOR! 

Vi no Canal Brasil este interessante curta de José Roberto Torero (de COMO FAZER UM FILME DE AMOR, 2004). AMOR! (1994) é bem a cara dos filmes realizados naquele momento pré-retomada, isto é, são filmes que têm um senso de um humor, ou até um cinismo, bem curioso. No caso de AMOR!, difícil não lembrar de ILHA DAS FLORES, de Jorge Furtado, que não por acaso também conta com uma narração do Paulo José. No caso de AMOR!, vemos alguns rostos conhecidos também, como o de Guilherme Karan, que me fez perguntar por onde ele andava. E acabei ficando muito triste ao saber que ele anda muito doente, com uma doença degenerativa, que faz a pessoa perder as habilidades motoras e que pode levar a uma morte precoce. Triste saber disso, até porque quem via e gostava da TV PIRATA deve gostar dele e daquela turma toda. Quanto a AMOR!, é um filme de pequenas histórias sobre relacionamentos amorosos (ou pontos de vistas sobre o que é o amor), vistas com certo humor negro.

NOSFERATO NO BRASIL 

O primeiro filme de Ivan Cardoso foi este curta em 8mm feito durante um período fervilhante para a contracultura brasileira. E Torquato Neto, o poeta e compositor que faz o papel do vampiro do filme, fez parte da Tropicália, dos discos dos artistas baianos, do Cinema Marginal e da Poesia Concreta. Pena que ele decidiu morrer tão cedo, aos 28 anos. NOSFERATO NO BRASIL (1970) se divide em dois momentos: o do vampiro em Budapeste e o de suas aventuras no Rio de Janeiro, com direito a bossa nova e até a "Detalhes", de Roberto Carlos, tocando ao fundo. Por isso que eu acho que esta data de 1970 está errada, tanto porque o disco do Roberto só sairia em 71, quanto pelo fato de o filme mostrar o ano de 1971 como sendo palco das ações do vampiro. O senso de humor de Ivan Cardoso já estava lá, principalmente quando mostra Nosferato só de calção de banho e capa rubro-negra numa praia carioca.

terça-feira, dezembro 11, 2012

HOJE



Em 27 capitais do Brasil acontece(u) nos meses de novembro e dezembro a 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Infelizmente só pude ir no último dia, tendo assistido a um ótimo curta e ao longa-metragem inédito no circuito comercial, HOJE (2012), de Tata Amaral. O filme é interessante e bem conduzido, mas pena que aos poucos começa a cansar, quando deixa de lado o seu aspecto instigante e misterioso. Sem falar que há todo um jeitão de peça de teatro que só sendo muito bom mesmo para funcionar na telona.

Mas não dá para negar o ótimo desempenho de Denise Fraga, em raro papel dramático. Ela interpreta Vera, uma ex-militante política que recebe uma indenização do governo brasileiro pelo desaparecimento do marido, durante a ditadura militar. No dia de sua mudança para o novo apartamento, o marido (Cesar Troncoso) aparece. Seria ele um fantasma ou um homem de carne e osso que resolveu voltar?

Essas são perguntas até um tanto ingênuas, mas que praticamente todo espectador que não sabe nada sobre o filme acaba fazendo a si mesmo. O que também se destaca em HOJE é o bom trabalho de Tata Amaral dentro de um ambiente apertado, coisa que ela fez muito bem em seu longa de estreia, o ótimo UM CÉU DE ESTRELAS (1996), possivelmente ainda o seu melhor trabalho.

Pena é que esse tema da ditadura já foi tão explorado pelo cinema que já se tornou um tanto cansativo. Há quem diga que não foi o bastante e que é preciso ainda ouvir mais vozes e testemunhos desse período, mas vendo HOJE tive a impressão de já ter visto muito filme a respeito. Inclusive, na mesma mostra foi exibido o documentário MARIGHELLA, de Isa Grinspum Ferraz, que eu infelizmente deixei passar.

Pensando bem, HOJE está lá justamente porque se enquandra no perfil da mostra, que também conta com CABRA MARCADO PARA MORRER, de Eduardo Coutinho, e BATISMO DE SANGUE, de Helvécio Ratton.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

IRRACIONAL – UMA PAIXÃO DEVORADORA (Le Festin de la Mante)



Recentemente o blog Eles Vivem publicou uma matéria que ajudou a aplacar um pouco a saudade que ainda sentimos de Carlos Reichenbach, que pra mim foi a grande perda deste ano de 2012. Carlão fez a gentileza de fazer três recomendações, a pedido dos idealizadores do blog. Uma dessas recomendações foi este estranho filme belga, que aqui no Brasil ganhou o título de IRRACIONAL – UMA PAIXÃO DEVORADORA (2003), quando de seu lançamento em DVD. Obviamente é desses filmes que acabam passando batido e ficando obscuros; por isso a necessidade de alguém trazê-lo ao conhecimento de mais pessoas.

IRRACIONAL – UMA PAIXÃO DEVORADORA é um dos filmes mais estranhos que eu já vi. Mas o que há de estranho há de atraente. Principalmente por causa da presença da protagonista, vivida pela bela Lou Broclain, em seu único filme para o cinema. Curiosamente, o diretor, Marc Levin, também só tem um longa-metragem em seu currículo. Os demais 23 títulos são todos curtas.

Neste seu único longa, Levin apresenta Sylvia (Lou Broclain), uma mulher sensual que logo chama a atenção de um rapaz como se o tivesse enfeitiçado. Mas não é assim a paixão? E no início achamos tudo normal, até que o comportamento de Sylvia passa a se tornar estranho. Nota-se que cada vez mais ela tem um contato todo especial com a natureza, seja ela representada pelas plantas, seja pelos animais (como nas cenas do cachorro e da aranha).

Mas o que o filme reserva de especial mesmo para o espectador é a excelente cena de sexo. Que é excitante e animalescamente bela, como numa dança de acasalamento de animais, só que com a dose de malícia do ser humano. Na cena, um motoqueiro que ela conhece por acaso a persegue até a sua casa, invadindo o lugar. Ela impõe resistência, mas aos poucos vai mostrando que quer jogar com ele. E nunca uma brincadeira de cabra-cega foi mostrada de maneira tão sensual no cinema. Pelo menos, não que eu tenha visto.

Aos poucos, o filme vai se tornando mais sombrio, mas creio que não vem ao caso comentar sobre esse aspecto, pois é algo a ser degustado aos poucos pelo espectador. Desde já, agradeço imensamente ao Carlão por essa incrível dica. Onde quer que ele esteja ainda está mexendo com nossas vidas. E o fará por um longo tempo ainda. Tenho certeza disso.

Veja a recomendação do Carlão, via youtube.

domingo, dezembro 09, 2012

A ÚLTIMA CASA DA RUA (House at the End of the Street)



Quando filmes como A ÚLTIMA CASA DA RUA (2012) chegam aos nossos cinemas fica uma falsa impressão que não se está se produzindo mais filmes de horror e suspense de qualidade por aí. Até porque o saldo de bons filmes do gênero no circuito durante o ano não foi dos melhores. A presença de Jennifer Lawrence explica o fato de o filme chegar aos nossos cinemas: de carona no sucesso de JOGOS VORAZES, uma das melhores bilheterias do ano.

E Jennifer Lawrence foi uma garota que chegou em Hollywood com os dois pés na porta, já recebendo indicação ao Oscar, com INVERNO DA ALMA, um filme independente que soube aproveitar o talento da jovem, que conquistou também papel em franquia de sucesso (X-MEN: PRIMEIRA CLASSE) e que estará muito provavelmente presente num dos filmes de destaque do Oscar 2013, O LADO BOM DA VIDA, de David O. Russell.

Entre um ou outro trabalho de prestígio ou de grande visibilidade, por que não encarar um filme de horror de baixo orçamento? E o que há de filmes bons e baratos do gênero não está no gibi. Infelizmente não é o caso de A ÚLTIMA CASA DA RUA, que teve sua história creditada, para minha surpresa, a Jonathan Mostow, um diretor que por algum motivo foi sendo esquecido pela indústria, mesmo tendo ótimos trabalhos no currículo. Soube que o projeto era originalmente dele como diretor e Richard Kelly, como roteirista.

Mas Hollywood tem dessas coisas e A ÚLTIMA CASA DA RUA foi parar em outras mãos. E se não é de todo ruim, é porque ainda trabalha com os velhos clichês e com algumas cartas na manga para garantir uma ou outra surpresa para a audiência. Mas desde o começo o filme se mostra bem frágil. Era para ter um prólogo violento, intenso, perturbador: uma garota mata o pai e a mãe e foge para a floresta. Se até o prólogo é tratado com desleixo, o que dizer do desenvolvimento, que é mais difícil?

Na trama, Elisabeth Shue e Jennifer Lawrence são mãe e filha mudando-se para uma casa numa pequena cidade. A casa é barata por causa da casa vizinha, palco dos acontecimentos do citado prólogo. Trata-se de um ponto de partida que já vimos em tantos outros filmes que a impressão de falta de mínima criatividade fica no ar o tempo todo.

Há o sujeito que sobreviveu à chacina e que ainda mora na casa dos pais assassinados. Na cidade, todos o tratam como uma aberração, mas a jovem recém-chegada da cidade grande vê nele algo de bom que os outros não enxergam. Até porque o primeiro sujeito que deu em cima dela se mostra logo um mau caráter.

Se visto como um assumido bad movie, dá para se divertir numa boa com A ÚLTIMA CASA DA RUA. Só assim para gostar do filme, que tem os seus momentos de tensão, embora estragados pelo roteiro ruim. Até a montagem, no clímax do filme, se revela bem vagabunda, confundindo e tentando resolver a situação de maneira muito apressada. A impressão que fica é que os membro da equipe criativa, vendo o monstro que criaram, disseram uns aos outros: "vamos acabar logo com isso de uma vez".

sábado, dezembro 08, 2012

ALÉM DA LIBERDADE (The Lady)



Com a trinca de filmes falados em inglês e confundidos com produções hollywoodianas – O PROFISSIONAL (1994), O QUINTO ELEMENTO (1997) e JOANA D’ARC (1999) –, Luc Besson passou de cineasta francês a cineasta internacional. Seus filmes são, com frequência, não muito bem recebidos pelos críticos e não dá para dizer que ele conseguiu uma reputação de prestígio entre os cultuadores do cinema de autor. Mas Besson parece não se importar muito com isso.

Tanto que se dedicou nos últimos anos a dirigir três animações sobre um personagem chamado Arthur, formando uma espécie de trilogia. Essas animações não tiveram grande repercussão por aqui. A preocupação maior de Besson parece estar sendo com suas produções internacionais, também confundidas com filmes americanos, caso da "trilogia" CARGA EXPLOSIVA (2002, 2005, 2008) e do bem sucedido thriller BUSCA IMPLACÁVEL (2008), que neste ano ganhou também uma sequência igualmente bem recebida nas bilheterias mundiais.

Seu retorno à direção para filmes mais "sérios" veio com ANGEL-A (2005) e com este ALÉM DA LIBERDADE (2011), que é mais ambicioso no sentido de dar tonalidades épicas para a história biográfica de uma mulher cujo pai foi um dia presidente da Birmânia e que foi assassinado pelos militares, que tomaram o país e instalaram uma das mais sangrentas ditaduras de que se tem notícia.

Em ALÉM DA LIBERDADE, Michelle Yeoh é Aung San Suu Kyi, que depois de saber que sua mãe está muito doente retorna a sua terra natal, onde é recebida por um grupo de pessoas que deseja trazer a democracia de volta para o país e que veem nela a pessoa ideal para iniciar esse processo. Suu, como ela é chamada pelo carinhoso e compreensivo marido (David Thewlis), aceita participar da luta pela redemocratização do país. Mal sabia ela que seria tão difícil.

A trajetória de Aung San Suu Kyi, de tão triste que é, dá até para dialogar com a de outra personagem feminina presente na filmografia de Besson: Joana d’Arc. Guardadas as devidas proporções. E levando em consideração que a história de Suu não possui elementos fantásticos como na misteriosa história da jovem que liderou o exército francês na Guerra dos Cem Anos para ser queimada em uma fogueira como bruxa logo em seguida.

No caso de Suu, o que há de mais triste em sua história é o fato de ela ter passado tanto tempo em prisão domiciliar, enquanto seus filhos cresciam na Inglaterra, com vistos negados pelo governo da Birmânia (hoje, Mianmar), e era impossibilitada até mesmo de visitar o seu marido, vítima de câncer. Assim, se ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz, essa vitória é muito pequena diante de tantas atribulações por que ela passou.

Uma pena que a direção de Besson não seja suficientemente boa nem mesmo para levar o espectador às lágrimas numa história que tinha tudo para funcionar dentro do registro do melodrama. E até se nota que ele tenta, tendo em vista a trilha sonora que busca a emoção a todo momento. Besson também carrega nas tintas ao vilanizar em demasia os chefes de estado do país, que devem mesmo ter sido bem perversos, mas a forma como o cineasta os coloca na tela funciona mais como caricaturas, vistas em muitos filmes B de ação hollywoodianos.

ALÉM DA LIBERDADE serve, porém, para apresentar para muitos uma realidade que poucos conhecem: a de um povo cheio de peculiaridades, como as mulheres-girafa e os monges budistas influenciados pela cultura local, além, claro, da própria situação política do país, que só ganhou eleições civis em 2010. O filme também traz uma bela mensagem pacifista inspirada em líderes como Mahatma Gandhi.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

A ESCOLHA PERFEITA (Pitch Perfect)



O maior mérito de A ESCOLHA PERFEITA (2012) é conseguir transitar por um terreno muito fácil de se fazer algo vergonhoso e xarope e fazer um belo trabalho, capturando o espectador que se deixar envolver não só pela histórias, mas também pelos números musicais a capella. Dirigido por Jason Moore, diretor de musicais da Broadway e de séries de televisão, o filme é bem sucedido não apenas pelos números musicais bem orquestrados (quando essa é a intenção), mas também pela condução dos personagens com leveza.

Anna Kendrick, cada vez ganhando mais espaço em papéis de destaque, é nosso representante na história. Assim como ela, a maioria de nós, espectadores, vê aquelas apresentações a capella e com dancinhas coreografadas como algo um tanto brega e estranho. Mas, aos poucos, mesmo com tantos personagens vistos como caricaturas, como representações, torna-se fácil ser fisgado por aquele universo. Até porque o filme tem um senso de humor muito agradável.

Na trama, apresentando-se como rivais, há o grupo das meninas, as Belas do Barden, e há o grupo dos rapazes, que desde o começo se mostra bem fácil de ser odiado. O grupo das meninas sofre com um acidente feio logo no início do filme: a líder do grupo vomita litros de gosma em cima do público por puro nervosismo. Mas é fácil prever que a personagem de Anna Kendrick, Beca, será a salvação daquele grupo.

Mesmo sabendo mais ou menos que caminho o filme seguirá, com o inevitável sucesso final do grupo das meninas no campeonato, bem como a bem-sucedida união de Beca com o simpático Jesse (Skylar Astin), isso não impede que todo o percurso seja muitíssimo agradável, mesmo para quem não conhece a maioria das canções executadas. Elas não são tão populares quanto as de ROCK OF AGES – O FILME, por exemplo.

Aliás, eu diria até que A ESCOLHA PERFEITA é um filme bem melhor resolvido que ROCK OF AGES. Principalmente pela boa química das garotas. A presença de Rebel Wilson, a gordinha de O QUE ESPERAR QUANDO VOCÊ ESTÁ ESPERANDO e de QUATRO AMIGAS E UM CASAMENTO, atualmente em cartaz, é muito importante para que o filme ganhe em momentos divertidos. Mas há outras atrizes menos conhecidas que também contribuem, como a oriental que fala baixinho, a moça negra lésbica ou a líder loira controladora vivida por Anna Camp (de HISTÓRIAS CRUZADAS). A trama ainda inclui dois comentaristas, interpretados por Elizabeth Banks e John Michael Higgins, que ajudam a tornar a competição vocal ainda mais divertida.

Algumas das canções de destaque do filme são: "Since u been gone" (Kelly Clarkson); "Like a virgin" (Madonna); "Don't stop the music" (Rihana); "Eternal flame" (The Bangles); "Hit me with your best shot" (Pat Benatar); "Don't you forget about me" (Simple Minds); "Just the way you are" (Bruno Mars); entre outras.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

V/H/S



Pra que melhor propaganda para um filme de terror do que dizer que ele fez pessoas desmaiarem? Dizem que isso aconteceu no Festival de Sundance em janeiro deste ano, quando V/H/S (2012) foi exibido. O filme acabou sendo lançado nos cinemas dos Estados Unidos em poucas salas em outubro passado, mas já havia saído em agosto em video on demand. É, portanto, um lançamento de pequeno porte, mas que chamou a atenção principalmente dos amantes de filmes de horror.

Trata-se de uma antologia dirigida por vários diretores, tendo a ideia já tão explorada do found footage film como único elemento comum entre as histórias. No caso, os filmes são encontrados em fitas VHS. Porém, curiosamente, uma das histórias se passa numa conversa por computador, com uso de uma webcam. Quer dizer, o que originalmente era para ser algo composto de imagens da era do videocassete acabou trazendo também tecnologia contemporânea. Mas o que mais pode incomodar no filme é a desculpa que ele encontra para unir as histórias, dirigidas por dez diretores diferentes. Inclusive, a história que serve de apoio para as demais é a mais fraca de todas, junto com a que encerra o filme.

O diretor mais conhecido é Ti West, de THE HOUSE OF THE DEVIL (2009). Aliás, West está em outra antologia, também com vários diretores independentes, THE ABCs OF DEATH (2012), que eu não sei se já está disponível na web. O referido filme conta com 26 pequenas histórias. Deve valer para conhecer as melhores.

No caso de V/H/S, que tem seis segmentos, eu destacaria a primeira história encontrada na casa, a que traz uma bela desculpa para evitar a câmera na mão o tempo inteiro: um par de óculos com uma microcâmera instalada. O destaque do episódio é uma garota que um grupo de três rapazes leva para um quarto de hotel. Ela é assustadoramente estranha. A história dos quatro jovens que vão parar num lugar desolado, destinados a morrer pelas mãos de uma criatura bizarra também é destaque. Principalmente pelo modo como o monstro é visto (ou não visto) pela câmera.

No fim das contas, V/H/S é um entretenimento tenso e curioso que aproveita muito do que já foi visto em filmes com câmera na mão, que estão na moda hoje em dia, mas que também traz alguns momentos de criatividade. O filme é uma produção de Brad Miskaque, do site de terror Blood Disgusting. Já está na agulha uma sequência: S-V/H/S, prevista para estrear em 2013.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

SHOTGUN STORIES



O nome de Jeff Nichols ficou conhecido aqui no Brasil por causa de O ABRIGO (2011), filme de impacto que infelizmente foi lançado direto em DVD por essas bandas. E embora o trabalho do cineasta ainda não tenha me conquistado de verdade, fui atrás de seu filme anterior, SHOTGUN STORIES (2007), sua estreia na direção. Assim como O ABRIGO, SHOTGUN STORIES (inédito no Brasil) também conta com a presença de Michael Shannon. E assim como O ABRIGO, SHOTGUN STORIES traz muitas imagens de espaços abertos do interior dos Estados Unidos, o que me fez lembrar dos filmes de Terrence Malick.

SHOTGUN STORIES conta a trágica rixa entre dois grupos de meio-irmãos na região sudeste do Arkansas. Tudo começa com a morte do pai dos jovens. Durante o funeral, um dos filhos que foi abandonado pelo pai amaldiçoa o velho, cospe em seu caixão. E isso é o começo para que um e outro irmão sinta a necessidade de se vingar.

O filme nos aproxima mais dos irmãos Son (Michael Shannon), Boy (Douglas Ligon) e Kid (Barlow Jacobs). Eles vivem em situação um tanto apertada: um deles mora no próprio automóvel, outro pede ao irmão que tem uma casa alugada para acampar em seu quintal. E embora o filme enfatize mais a disputa dos irmãos, não há como não ver a situação de pobreza deles como um elemento importante para a narrativa. Até por ser algo pouco destacado no cinema americano, embora também possa ser visto em O ABRIGO.

Cheio de planos abertos que enfatizam a bela paisagem das plantações de algodão, o filme pede para ser visto no cinema. Felizmente, não sendo possível, há outros meios para poder apreciá-lo. Esperemos agora que os filmes de Nichols, que teve seu mais recente trabalho (MUD, 2012) lançado no Festival de Cannes, cheguem aos cinemas brasileiros. 

terça-feira, dezembro 04, 2012

UMA NOITE NO RIO (That Night in Rio)



"Carmen Miranda é uma hindu, mais do que uma brasileira. Há turbantes coloridos, braços de serpentes, mãos como cabeças de cobras [...] [Ela] consegue não só ser hindu – ela consegue ser a hindu e a serpente."
(Vinícius de Moraes) 

Nunca tinha visto nenhum filme com a Carmen Miranda. Acabei vendo este UMA NOITE NO RIO (1941) por ser objeto de discussão de um grupo de estudo do qual participo. Aí acabei ficando curioso e vi a cópia existente na internet. Acabei gostando do filme, uma farsa musical que se vista por alguém que não é brasileiro pode não incomodar de jeito nenhum. Já para alguns brasileiros, como eu, a própria Carmen Miranda incomoda, com a dificuldade que se tem de se ver representado como brasileiro em sua figura, em seu samba americanizado e em suas vestimentas exóticas.

UMA NOITE NO RIO traz também uma estrela hoje um tanto esquecida, Alice Faye, uma bela loira que fez sucesso em sua época. Inclusive, saiu um box nos Estados Unidos com alguns filmes estrelados por ela e que devem fazer a festa principalmente de quem acompanhou seus filmes na época. UMA NOITE NO RIO fez parte desse box.

O filme começa com uma imagem bem alegre do Rio de Janeiro e com Carmen Miranda cantando "Chica-Chica-Boom-Chica". Não deixa de ser estranho vê-la cantando e falando português misturado com o inglês. Sua personagem é uma espécie de mulher selvagem. Atira o sapato no namorado galanteador Larry Martin (Don Ameche) quando fica com raiva dele. E costuma ficar furiosa falando português. Aí Larry diz que ela deve se acalmar e falar inglês, pois you’ll never learn unless you speak [English], and you can’t speak if you get excited. English isn’t that kind of a language. So, don’t get excited. Assim, fica logo no ar a ideia de que o brasileiro é irracional e o americano é racional.

Além do mais, a personagem de Carmen acaba não sendo importante para a história em si. A história principal envolve a substituição do Barão Duarte (também interpretado por Ameche) por seu sósia, o ator americano Larry Martin. A entrada em cena de Martin acaba gerando alguns momentos engraçados, como a cena da bolsa de valores, ou as confusões envolvendo a esposa do Barão. Enquanto isso, Carmen Miranda vai ficando à margem, sendo importante mais para as cenas musicais.

Aliás, há outras cenas musicais sem ela que são bem mais bonitas, pois se mostram mais autênticas. Afinal, são americanos cantando canções típicas dos musicais americanos. Junta-se com a bela fotografia em technicolor e os cenários de estúdio, essas cenas musicais em vez de incomodar até engrandecem o filme, que é simpático, mesmo com todos esses problemas envolvendo uma brasileira americanizada agindo feito uma macaquinha dentro da chamada política da boa vizinhança do Governo Roosevelt.

Referência:
SOARES, L.F.G. Hollywood e ambivalência no Rio. In: CORSEUIL, A.R. et AL (org.). Cinema: lanterna mágica da história e da mitologia. Florianópolis: Editora da UFSC, 2009.