DIÁRIO DE UM CINÉFILO

Comentários sobre filmes por Ailton Monteiro, cinéfilo de Fortaleza.

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Sábado, Junho 02, 2012
 
VIOLETA FOI PARA O CÉU (Violeta se Fue a los Cielos)



O filme escolhido para abrir a 22ª edição do Cine Ceará foi VIOLETA FOI PARA O CÉU (2011), do chileno Andrés Wood, que já chegou com uma premiação no Festival de Sundance de 2012: o prêmio de melhor filme internacional. A princípio, parece se tratar de um filme um tanto panfletário, no sentido de abraçar o comunismo e colocar o capitalismo como grande inimigo, mas depois vemos que ainda que o seja, isso se faz com inteligência e sensibilidade. Não se trata de um filme fácil. Os vaivéns no tempo, a montagem um tanto confusa e a dificuldade de se gostar logo de cara da protagonista contribuem um pouco para isso. A personagem não é uma pessoa qualquer.

Trata-se de Violeta Parra, cantora e artista plástica chilena que defendia a bandeira socialista através da arte, de maneira radical. Sua canção mais famosa é a belíssima "Gracias a la vida", que chegou a ser gravada também por Mercedes Sosa, Joan Baez e Elis Regina. Violeta chegava a recusar que lhe cantassem "Parabéns pra você" por ser uma canção de origem americana. Aos poucos a personagem vai conquistando o espectador, especialmente quando viaja à Europa e mostra seus talentos. A vida amorosa é mais focada no romance com um homem mais jovem, um suíço que chegou ao Chile para conhecê-la.

Ainda que em entrevista para a televisão ela tenha dito que não sabia o que era amor, mas sabia o que era trabalho e esforço, a sequência em que ela canta uma canção amaldiçoando o mundo por causa de sua dor de amor é uma das mais belas do filme. A catarse provocada pela canção lembra o rock noventista. Lembrei, inclusive, de Kurt Cobain no MTV Unplugged, por mais que essa comparação possa ser até uma ofensa para ela, que não gostava dos Estados Unidos. Mas é que sentimento não tem nacionalidade.

E ao final, a metáfora da galinha e do gavião, que ela conta em entrevista a um programa de televisão, acaba ganhando todo o sentido. A forma como Wood mostra essa sequência intercalada com o momento mais doloroso da vida da artista é mesmo digno de aplauso. E foi, junto com a interpretação brilhante de Francisca Gavilán, provavelmente a razão de o filme ter conquistado reconhecimento internacional. VIOLETA FOI PARA O CÉU estreia no circuito comercial brasileiro no próximo dia 8.


Quinta-feira, Maio 31, 2012
 
MTV AO VIVO - TRIBUTO À LEGIÃO URBANA



Muito boa a oportunidade que a MTV nos ofereceu, ao transmitir ao vivo os dois shows do tributo à Legião Urbana com Wagner Moura no vocal. Ele já havia cantado canções da banda em dois filmes – VIPS e O HOMEM DO FUTURO – e isso acabou servindo como vitrine para ele participar de uma das noites mais emocionantes de sua vida. O ator (e cantor) aceitou a proposta dos membros remanescentes de fazer esse especial, que acabou sendo a mais bela homenagem já feita à banda mais querida do Brasil. Se ele desafinou e se o Bonfá errou a letra de "Teatro dos vampiros" na primeira noite, entre outros problemas, não interessa. O que interessa é a energia, o amor, o entusiasmo que esse show provocou.

O setlist foi especial, tendo também canções nunca tocadas ao vivo: "A Via Láctea" e "Esperando por mim", do álbum A TEMPESTADE, e "Antes da seis", do disco póstumo UMA OUTRA ESTAÇÃO. Mas o grosso do repertório saiu do álbum DOIS, embora tenha tido também muito de AS QUATRO ESTAÇÕES. O segundo show, obviamente, foi menos problemático, menos cara de ensaio, mas acho que perdeu um pouco na emoção. Dado não chorou como na noite de terça, por exemplo. Em vez disso, ele perdeu a cabeça quando um sujeito xingou a sua mãe e ele chamou o cara para subir ao palco, para brigar com ele. Depois que o sujeito foi levado embora pelos seguranças, ele pediu desculpas à plateia.

Mas a grande surpresa da segunda noite foi a alteração do setlist com a inclusão, no finalzinho, de "Faroeste caboclo", que, segundo Wagner Moura, não foi ensaiada nenhuma vez. A decisão de tocá-la veio quando ele viu o público cantando a música em uníssono e ele ficou presenciando aquilo com um sorriso no rosto, de admiração. Moura encarou a letra quilométrica com coragem e mandou muito bem. Como bom ator que é, soube lidar com todas as texturas da canção, seja nos momentos mais calmos, seja, nos mais violentos.

Eu diria que o único erro do repertório foi ter colocado "Monte Castelo". A canção é linda, mas mesmo com a orquestra que eles arranjaram, Moura não deu conta de cantá-la propriamente. É uma canção muito difícil de se cantar. Por outro lado, ele se saiu muito bem em outras faixas bem calmas e igualmente lindas, como "Giz" e "Andrea Doria". Assim, a mistura de canções mais rock com outras mais calmas contribuiu para que o resultado fosse muito melhor do que o esperado.

Uma das coisas mais impressionantes da Legião, como também de qualquer outra banda de qualidade, é o quanto as canções mais tocadas ainda continuam a emocionar. Caso de "Pais e filhos", por exemplo, uma canção que começa falando de suicídio, de jovens carentes ou sem família, de uma forma fragmentada. E que na época que tocavam ao vivo, Renato Russo teve a boa sacada de incluir no meio "Stand by me", uma colagem/citação que dialoga perfeitamente com a canção da Legião. Enfim, falar de cada canção da Legião Urbana é coisa para levar noites e noites de bom papo. Com quem gosta da banda, claro. Parabéns ao Capitão Wagner Moura por sua performance apaixonada que honra a banda e o querido e saudoso Renato Russo.


Terça-feira, Maio 29, 2012
 
MINHA FELICIDADE (Schastye Moe)



Quando estive em março passado em São Paulo, assisti alguns filmes no cinema, entre eles, este MINHA FELICIDADE (2010), do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa. O diretor inclusive esteve em Cannes, apresentando seu novo trabalho, IN THE FOG (2012). Demorei a falar sobre MINHA FELICIDADE aqui no blog porque eu simplesmente mais dormi do que vi o filme no cinema. Foi patético. Com o andamento muito lento, é preciso estar com o sono em dia e a mente alerta para cada introdução de novos personagens e novas subtramas que o filme vai apresentando. Tive a oportunidade de revê-lo em casa, e aí sim posso dizer que se trata de um grande filme.

MINHA FELICIDADE inicialmente acompanha um dia na vida de Georgy, um jovem caminhoneiro que leva um carregamento e que é abordado por policiais rodoviários que abusam do pequeno poder que lhes é atribuído. Georgy consegue fugir deles e segue em frente. Conhece um velho a quem dá carona e este lhe conta, em forma de um breve flashback, de um período em que ele era oficial da União Soviética, na época da Segunda Guerra. Ele se envolveu num incidente que acabou por deixá-lo clandestino, sem identidade.

A falta de identidade é um aspecto muito importante para o filme. Seria uma metáfora da atual Ucrânia, um país esfacelado, que parece possuir pessoas tão pobres quanto os países mais subdesenvolvidos. E mais adiante vemos que a perda de identidade do protagonista também é importante para percebermos o grau de decadência e violência a que o país chegou. Para vermos a imagem triste dos atuais ucranianos, o filme utiliza um belo plano-sequência, que mostra o quanto Loznitsa é virtuoso. A fotografia, aliás, é de uma beleza ímpar, e ainda há um trabalho de aproveitamento do scope e de profundidade de campo que é muito importante para a observação nítida de ações em segundo plano.

No mais, o que pode dificultar um pouco o filme é a quantidade constante de personagens que vêm e que vão ao longo da narrativa. E quando o protagonista sai de cena temporariamente, ficamos um pouco sem chão, tendo que recomeçar de novo com elementos estranhos. Mas é uma questão de acompanhar com atenção e ver que tudo está interconectado. Algumas cenas de destaque: o ataque ao caminhoneiro à noite, o ataque de dois militares marginalizados a um homem que mora sozinho com o filho, o abuso de poder dos policiais rodoviários, que mais parecem psicopatas de filmes de horror rurais americanos. Como se vê, o titulo do filme é de uma grande ironia.


Domingo, Maio 27, 2012
 
A GUERRA ESTÁ DECLARADA (La Guerre Est Déclarée)



Por mais que se diga que A GUERRA ESTÁ DECLARADA (2011) é um filme sobre câncer que abre mão do sentimentalismo, há vários momentos extremamente emocionais. A própria natureza do enredo e o fato de ser um garotinho o portador da doença contribuem para que acompanhemos as preocupações do jovem casal de pais, Romeo (Jérémie Elkaïm) e Juliette (Valérie Donzelli), em relação, inicialmente, a coisas aparentemente banais, como por que o filho chora tanto, por que ele está vomitando, por que ele demora tanto a andar etc. São preocupações que qualquer casal deve sentir.

Dirigido pela própria atriz, Valérie Donzelli, o filme começa com o filho do casal sendo submetido a uma daquelas terríveis tomografias, numa daquelas máquinas gigantes e barulhentas que remetem a O EXORCISTA. A partir daí a narrativa volta no tempo até o momento em que os dois se conhecem numa festa e se sentem feitos um para o outro, até pela coincidência de terem os nomes de batismo dos personagens shakespearianos. Aí vem o bebê, Adam. Que torna a vida do casal muito mais difícil e que os levam preocupados a diversos médicos, até descobrirem a doença da criança.

Alguns momentos são particularmente dignos de nota por serem quase como um choro abafado, como na sequência em que Juliette está no hospital, em Marseille, abalada com a notícia de que o filho tem um tumor no cérebro e liga para o celular do marido, que ficou em Paris, cuidando da casa. O momento é intensificado pela escolha da música de fundo: Vivaldi, mais particularmente o Concerto nº 4 em Fá menor, Op.8, Inverno, das Quatro Estações, provavelmente o trecho ao mesmo tempo mais tenso e mais belamente intenso da obra. A beleza extraordinária da música contrasta com a dor daquela situação e gera uma emoção que só não chega a ser conflitante porque a tragédia, para a obra de arte, é algo dotado de extrema beleza.

No mais, com a dedicação do casal ao filho, a entrega total de suas vidas, o desgaste emocional que prejudica a relação, há momentos em que o filme precisa fugir daquele ambiente do hospital, e Romeo e Juliette se permitem ir a uma festa (em uma das melhores sequências do filme) ou a um parque de diversões. Esses momentos servem para nos lembrar da vida lá fora, que eles estão perdendo, que o pequeno Adam está perdendo. Mesmo um momento à Honoré, como a sequência cantada dos dois, que traz um pouco de irregularidade ao filme, também contribui com mais beleza.

A GUERRA ESTÁ DECLARADA foi escolhido para representar a França no Oscar de filme em língua estrangeira este ano. Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm são casados e também são autores do roteiro. Este é o segundo projeto dos dois e um terceiro está a caminho, também a ser dirigido por Valérie.


Sábado, Maio 26, 2012
 
MEDO X (Fear X)



Depois da repercussão de DRIVE (2011), o cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn virou a bola da vez, tanto em Hollywood, quanto no resto do mundo. MEDO X (2003) foi o primeiro filme dele falado em inglês e com um rosto conhecido no elenco: John Turturro. Interessante que a produção do filme envolve dinheiro de quatro países: Dinamarca, Reino Unido, Canadá e Brasil! Além de Turturro, aparecem no elenco também Deborah Kara Unger e James Remar (mais conhecido hoje como o pai fantasma de DEXTER). Meu interesse por MEDO X vem de ouvir falar que é o trabalho de Refn que mais lembra David Lynch.

Se DRIVE já guarda uma ambientação que lembra o sumido Lynch, MEDO X remete mais ainda ao trabalho do cineasta americano. A ambientação é ajudada pelos sintetizadores de Brian Eno, que colabora com a tensa e discreta música do filme. MEDO X mostra o drama de um homem que é segurança de um shopping (Turturro), e que teve há alguns meses a sua esposa assassinada misteriosamente. Sua principal rotina ao sair do trabalho é conferir as fitas de segurança do local onde ela levou o tiro. Esse primeiro momento do filme remete bastante a BLOW UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO, de Michelangelo Antonioni, e a UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma. Isso porque há toda aquela tarefa minuciosa de ver e dar pausa no vídeo para procurar, numa imagem sem nitidez, alguma pista que lhe dê pelo menos uma resposta de por que sua mulher foi assassinada.

MEDO X tem um desenvolvimento bastante instigante e o encontro do protagonista com o sujeito que matou a sua esposa é memorável. Talvez seja o momento mais importante do filme. Também vale destacar o momento em que a narrativa muda de ponto de vista, mesmo que de modo breve. Quando ficamos acostumados com o ponto de vista de determinado personagem e essa visão é violentamente mudada, percebemos com estranheza esse instante. Mesmo depois de tantos anos passados de PSICOSE, de Alfred Hitchcock, essa mudança ainda é um tanto ríspida. Se MEDO X não é o mais brilhante dos filmes do cineasta, é um trabalho que aponta para um diretor de futuro. Pena que na época pouca gente deu bola.


Sexta-feira, Maio 25, 2012
 
PLANO DE FUGA (Get the Gringo / How I Spent My Summer Vacation)



Uma pena um artista como Mel Gibson estar sendo tratado como um ator de segundo escalão ao ter seu novo filme lançado direto em video on demand nos Estados Unidos. O sistema video on demand é o que permite a assinantes de TV a cabo pagarem o filme em pay per view, no caso, no mesmo dia em que ele está sendo lançado nos cinemas de países como o Brasil. Isso parece muito uma espécie de castigo pela série de presepadas que o ator/diretor andou aprontando nos últimos anos. Nem mesmo o filme UM NOVO DESPERTAR, que sua amiga Jodie Foster dirigiu pensando nele, serviu como redenção.

Deixando de lado um pouco esse problema, é bom ver "Mad Mel" de volta aos cinemas. E dessa vez fazendo um filme de ação bem movimentado, como nos velhos tempos. O trailer de PLANO DE FUGA (2012) já anuncia que os produtores são os mesmos de APOCALYPTO e CORAÇÃO VALENTE, dois filmes dirigidos pelo próprio ator e que têm como uma de suas características mais marcantes a violência. Assim, não falta ao filme dedos decepados e corpos explodindo com granadas. Mas nada realmente tão violento assim. Os três últimos filmes dirigidos por Gibson são bem mais fortes nesse quesito. Provavelmente o fato de o filme não se levar a sério, de ser também uma comédia, contribui para essa atenuação.

Em PLANO DE FUGA não sabemos o nome do protagonista. Só que ele acabou de roubar uma boa quantia em dinheiro e está fugindo da polícia usando uma máscara de palhaço. Como ambas as polícias, tanto a do México, quanto a dos Estados Unidos, são corruptas, sobra espaço para que o bandido se torne herói do filme. Na prisão em que ele é colocado, que mais parece uma cidade, ele se torna amigo de um garoto, que de alguma forma é especial para um grupo de mafiosos que já matou seu pai. O papel de Gibson é manter o seu jeito de quem aguenta tudo, já conhecido de quem viu qualquer um dos filmes da série MÁQUINA MORTÍFERA, e mostrar seu tradicional senso de humor.

Confesso que esperava me divertir mais com o filme, mas, por enquanto, para quem é fã de Mel Gibson, é o que temos. E para o futuro, só o que o aguarda, por hora, é uma participação em MACHETE KILLS, continuação do filme de Robert Rodriguez, um cineasta famoso por ser um tanto desleixado, mas que de vez em quando acerta. Aguardemos melhores notícias.


Quinta-feira, Maio 24, 2012
 
THE WOMAN



Poucos filmes fizeram eu me sentir tão desapontado em ser representante do sexo masculino quanto este THE WOMAN (2011), de Lucky McKee. O filme apresenta uma mulher selvagem que é encontrada por um sociopata e presa num celeiro sem necessariamente o consentimento da mulher e dos filhos do sujeito. Até porque todos o temem. A esposa, interpretada pela atriz-fetiche de McKee, Angela Bettis, morre de medo do marido; a filha adolescente é a mais sensata, e vive seus problemas particulares, que só se agravam com o comportamento do pai e ao ver a humilhação e o sofrimento da mulher selvagem; o filho adolescente herda o gene maléfico do pai; e a pequena garotinha é inocente a tudo.

THE WOMAN é provavelmente o trabalho mais brilhante de McKee, que já havia feito uma bela estreia solo com MAY – OBSESSÃO ASSASSINA (2002) e dirigiu meio que uma versão em tons de verde de SUSPIRIA – A FLORESTA (2006). Gostei também do belo trabalho que ele fez para a antologia MASTERS OF HORROR, o média-metragem CRIATURA MALIGNA (2006), que também lida com um tema caro ao diretor, que é a natureza, através de um triângulo amoroso entre duas mulheres e um inseto. Não cheguei a ver RASTROS DE VINGANÇA (2008), que foi um de seus filmes menos badalados. Fico devendo esse, então. Dá para notar que esses filmes só chegaram em locadoras. THE WOMAN, porém, continua inédito comercialmente no Brasil até o momento.

O filme, até por lidar com a violência, especialmente a violência contra a mulher, incomoda bastante e intoxica o sangue. É para nervos fortes. Claro que existem filmes mais violentos por aí, mas THE WOMAN ainda assim surpreende nesse sentido. Não dá para falar das cenas de destaque sem entregar as surpresas que o filme traz, mas adianto que o horror de se capturar uma mulher inocente para fazer dela objeto de um sádico odioso é só o começo.




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